quarta-feira, 22 de julho de 2015

Linha 247

20h30, vc já está podre de cansaço, condução cheia, engarrafamento master, ônibus incendiado na via de acesso ao seu bairro, sirenes atordoando lá fora, carros da PM tentando ultrapassar, inflação, Petrobras dissolvendo, máfia dos ônibus com dinheiro na Suíça, votação do Estatuto da Família, grana curta, fome, dor de cabeça, tiroteio no São João, até que começa um bate-boca na linha 247 entre uma loira de meia idade com shortinho e barriga vergonhosa pulando para fora e um senhor careca, camisa puída, tudo gente simples:

- Quer conforto? Vai de táxi, grita a loira.
- Abre essa janela! Está calor! , responde o senhor.
- Não está vendo que a janela está emperrada, p*rr@? , exclamou a princesinha.
- Mal educada!, gritaram lá atrás.
- Tua mãe!, bateu de pronto a desbocada.
- Cadê o ar condicionado desse ônibus?, disse um gaiato.
- Pergunta pro prefeito, respondeu outro.
Enquanto isso, passa um comboio do Bope armado até os dentes ao lado do ônibus. Todo mundo se cala. Tremendo silêncio até que o senhor careca se levanta, mete a mão no vidro e abre a janela de uma tacada só.
- Deixa essa merda aberta!
(E seguimos viagem)

Oi?

JN no ar, Lava-Jato encabeçando o noticiário, dona Lígia deitada no sofá, ar condicionado ligado, olhar intrigado, até que vira pra mim e diz:

- Como é que pode, né?
- Pois é, mãe, falta de vergonha na cara.
- Não é possível. Eles já eram ricos.
- Mas eles sempre querem mais. É muita ambição.
- Eu gostava deles. Cantavam desde criança.
- Quem, mãe? De quem você está falando?
- Sandy e Júnior. Não ouviu o repórter falar o nome deles? Que sujeira...
- Pelamordedeus, mãe! É Sandes Junior, deputado...
- Nem sabia que eles tinham entrado pra política, uai. Precisava disso?
- ...
(Não, mãe, não precisava!)

sexta-feira, 8 de maio de 2015

Síndrome do pânico

Vieram me contar que lá pelas bandas das montanhas infinitas das minas gerais, há muito pouco tempo atrás, havia uma menina moça que sofria de pânico, essa síndrome que mete um medo danado. Disseram também que essa menina moça era muito bonita, apesar de franzina. Dona de cabelos longos, rosto pálido, braços finos, cotovelos ressecados, mãos maltratadas, unhas roídas e os olhos, estes sempre perplexos, virados para os cantos da casa simples de piso frio, umas lajotas desbotadas, manchadas de cera barata. Os pés, sempre descalços e úmidos, grudados naquele chão. O mundo lá fora gritando que já era mais do que passada a hora e o coração, sempre agitado, a sufocar-lhe o peito e a dizer-lhe não.

Ela tinha medo de tudo. De fantasma, de escuro, de barata, de cachorro, até de gente. Mas não era nenhum desses medos que a apavoravam agora. Quando criança, brincava na rua, espalhava alegria, corria, dançava, pulava e se divertia. Sabia subir em árvores, ficava de ponta cabeça, virava cambalhotas, gostava de ouvir histórias e de uma boa cantoria. Tagarelava, contava causos, piadas, imitava vozes, ralava os joelhos e ao invés de chorar, sorria. Era a dona da gargalhada mais desconcertante e debochada daquela cidade com pouco mais de mil habitantes. Todos a conheciam. Todos a adoravam. Todos sempre queriam estar com ela.

Naquela época o céu pintava a vida de azul e aos olhos dela tudo era ainda mais bonito. O sol não castigava, a chuva não faltava, a fome não doía. Tempo bom aquele em que todo mundo se respeitava, ninguém se machucava, todo mundo se ajudava, um cuidava do outro e as manhãs chegavam mansas, anunciando mais um lindo dia que então passava até que vinha a tarde e soprava a brisa. Revoavam os pássaros. Anoitecia. Lua clara bem lá no alto e ao voltar para a casa, o colo quente da mãe, a comida farta no fogão e o beijo carinhoso do pai. Era assim naquela época.

Ninguém sabe bem ao certo, nem ela, quando foi que tudo mudou. Ela apenas lembra de ter acordado sobressaltada numa madrugada em que chovia, janela aberta, quarto molhado, portas batendo, ventania, falta de ar. O coração disparou, veio na boca, voltou, uma vontade de chorar, de sair dali, de berrar para que o temporal passasse e ela pudesse voltar a respirar e a dormir sossegada até amanhã de manhã. Quando levantasse, ela queria encontrar tudo como antes, no mesmo lugar. O mesmo céu, o mesmo azul, o mesmo jeito de enxergar.

Pouco tempo depois dessa madrugada ela já não saía mais de casa. Seus ombros se curvaram, suas sobrancelhas arriaram, seu sorriso murchou, a vida não tinha mais graça, era tudo cinza, barro, agonia, nó. Ninguém da cidade entendeu nada. Todos sentiam sua falta. Onde estava toda aquela graça? O que havia acontecido com ela? Ninguém sabia. Nem ela. E o tempo foi passando, cada um foi vivendo a sua história, procurando um final feliz. Só ela havia ficado ali. Paralisada. Entorpecida. Trancafiada em seu mundo. Sofrendo sozinha. Seus nervos estremeciam só em pensar em sair de casa. Foram meses assim. Quiçá alguns anos. Pânico.

Até que um dia apareceu na cidade um circo, desses que rodam o interior do país, com malabaristas, engolidores de fogo, mágicos, palhaços coloridos e todo aquele ar decadente. Montaram a lona na praça bem ao lado da igreja e anunciaram  num carro de som estridente o espetáculo daquela noite. "Respeitável público, o Grande Circo Lúdico chegou. Venham rir. Venham se emocionar. Venham se divertir", gritava o locutor. Ela deu um pulo e levantou da cama, calçou as sandálias e foi até ao portão. Um arco-íris nos céus, sabiás cantarolaram, a mãe não acreditou, o pai quase chorou, um vento leve desarrumou seus cabelos e ela então viu a equilibrista na corda bamba, os contorcionistas, a mulher barbada, os anões e o atirador de facas, que era um rapaz bem apessoado, cabelos dourados, braços fortes, lhe sorriu um sorriso farto que fez até sentir arder o rosto. Palpitação. Coração na boca. Rubor. Calor. Amor. 

Disseram que naquela mesma noite, depois do espetáculo, ela foi embora com o pessoal do circo. Deu adeus à mãe, pediu a benção ao pai, arrumou as trouxas, tomou coragem e partiu debaixo de um céu estrelado, estrada de terra iluminada pela lua cheia, olhares incrédulos e em seu peito só havia esperança e vontade. Corre à boca miúda que hoje ela voltou a ser feliz e a contagiar a todos que estão ao seu redor. De vez em quando ainda aparece na cidade para se apresentar com a trupe e visitar os pais. Casou com o atirador de facas, aquele rapaz bem apessoado, de cabelos dourados, braços fortes, sorriso farto e vive a mais linda história de amor. É uma das principais atrações do circo. Nem parece aquela menina moça que sofria de pânico e definhava meses e anos dentro de casa com palpitações e tremores. Destemida que só, virou mulher de fibra, deixa-se amarrar numa placa giratória de madeira e, enquanto tudo roda, ela sente as lâminas afiadas passarem rente ao seu corpo seminu. Uma a uma a tirar-lhe fino da pele lisa.

Na arquibancada improvisada, a plateia em silêncio sequer respira, atenta, tensa, em pânico, até romper nos mais intensos aplausos. No picadeiro iluminado, lá está ela sorrindo, tranquila. Sem medo algum.

Foi o que me contaram.            








sexta-feira, 27 de março de 2015

Onda

desfaz de mim a sombra e me deixa ver o sol.
me traz a luz do amanhecer,
aurora!
faz de mim o vento, o céu, o sal,
ressaca que arrebenta nas pedras do cais.

segura a minha mão quando eu quiser andar,
guia meus passos pelo chão,
abre meus olhos, revela suas cores,
livra minhas dores,
amores.

me deixa correr para o mar
molha meus pés na foz do rio que deságua .
me transforma em correnteza,
me solta,
me beija.

a mesma onda que me leva,
é aquela que depois me traz.

me leva...
... me traz...
me leva...
... me traz...

me leva...
... me traz...
me leva...
... me traz...

 me leva...
... me traz...
me leva...
... me traz...

terça-feira, 24 de março de 2015

Tempos de chuva

Finalmente havia começado a chover. Depois de meses de estiagem e ameaça de racionamento, chuva. Muita chuva. A pele já estava áspera, os lábios rachavam, as mãos como se estivessem cobertas por um fino pó, os pés feito cascos e aquele cheiro de podre no ar. A impressão que dava era a de que o mundo tinha passado dos limites. A classe dominante jamais deixaria de ser dominante e ele ali no meio daquele jogo sujo. Enquanto uns gritavam de cá, outros urravam de lá. Uma confusão generalizada, ninguém se entendia, toda hora uma discussão, um comentário mais agressivo, cada um com a sua opinião. Uma nova Torre de Babel, só que desta vez globalizada e com rede wi-fi. 

Os telejornais e praticamente toda a mídia tradicional mais parecem os mensageiros do apocalipse. Tudo é tenso. As notícias são anunciadas numa rigidez cadavérica, causando um terror psicológico sem precedentes, insônia, pesadelo, crise nervosa, psoríase e até mesmo morte súbita. Lá no poder, os ratos, os gatunos, os larápios, os espertos, os filhos dos espertos, os netos, a família toda. Um lixo. Era difícil respirar. Para ele, então, que sofria de asma e aquela pressão toda em seu peito só causando peso, suor e dor. Era quando ele abria a janela e o vento soprava para dentro outros ares. 

Ele dormia pouco, se mexia muito. O lençol nunca parava na cama, as pernas descobertas, os pés para fora do colchão de molas, a cabeça girando, a mente tentando acalmar e aquela voz aguda interna dizendo todas aquelas coisas que ele já sabia. Quase todas as noites era assim. Ele apagava as luzes, fechava e abria os olhos, se distraindo com o reflexo dos faróis acesos nos carros que aceleravam na rua. O sono não vinha. Deitava e rolava. De um lado para o outro. Até cansar e adormecer. Mas era um sono leve. Logo amanhecia e ao invés de pássaros cantando, buzinas apressadas anunciando que ele já estava atrasado mais uma vez. 

Ele levantava, corria para o chuveiro, um banho frio, filete de água escorrendo no rosto para espantar o cansaço e se misturar ao pranto daquele que precisava esquecer o que tinha para ser esquecido. O que doía mesmo era a saudade do que havia ficado para trás. Especialmente naquelas manhãs cinzentas, quando ele se olhava no espelho embaçado e via que restavam apenas algumas peças precisando de encaixes. O trabalho estava uma merda. A arte não lhe dava dinheiro. Todos os que ele amava estavam longe. Ele não estava assim tão só, mas dentro era como se tudo estivesse oco, roído, evaporado. Ele estava seco. 

Por sorte, a chuva havia chegado. 


quarta-feira, 18 de março de 2015

Para detonar a cidade

Eu não vim aqui falar do kaos, nem dos deuses da chuva e da morte.
Vim aqui dizer que eu tive a sorte de encontrar no meu caminho um pensador.
E que por onde quer que eu ande ele vai estar ao meu lado,
mesmo que eu já não esteja mais aqui.

Assim como ele, eu vim trazer o doce mel da poesia.
O verbo que me rasga a noite.
A harmonia que me invade dia a dia.
O ritmo, a dissonância, a melodia.

Eu vim fazer soar os timbres das canções que eu nem sabia que havia em mim.

Porque o que temos aqui hoje é arte.

É som,
é música,
é o verso da palavra escrita, sílaba por sílaba,
até escorrer pelo canto da minha boca e da sua.

A rima que sussurra em meu ouvido
vem do acorde que te sobe e te arrepia.

Arte que ecoa e transforma e transmuta e atravessa o tempo.
Eternamente provisório é o tempo em minhas mãos.
E nas suas.

Mas do que é feito o tempo?

É a linha tênue entre um instante e outro,
aquilo que entrelaça, que une, que liga
e que de repente despedaça,
desfaz o nó.

O tempo faz a gente virar pó.
E do pó, a gente vira luz
E da luz a gente faz um som.
Para cantar e iluminar essa cidade.

Uma ode à vida, que é essa dança ininterrupta,
constante cultura.
Negra, branca, ameríndia,
Essa mistura amalgamada,
que volta e se junta aqui de novo mais uma vez.

Incessantemente.

Porque já dizia outro poeta: o tempo não pára.
E encontra as canções perdidas de um disco antigo
que nunca deixou de tocar, aqui, ali, em todo lugar.

Para detonar a cidade.

Que feliz cidade é essa?







quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

Impressões sobre o caos I

Eu quero a paz que vem depois de tudo isso,
a luz que me alumia,
a tempestade que cessa,
a porta que abre,
o vento que me refresca.

Eu tenho pressa,
quero tudo no mesmo dia:
a mão que afrouxa o nó,
o abraço que alivia o peito,
o alimento que me sacia.

Então, corre e me oferece uma prece,
uma prenda bonita que seja,
aqueles versos no meu ouvido,
a claridade dos seus olhos mansos
que me deixam ver quem você é.

Rasga a minha roupa suja,
revela a minha face oculta,
veste a minha carapuça,
mas olha para mim e fala comigo.
Encontra aquele que aqui dentro habita.

O mundo lá fora segue em chamas,
uma tremenda loucura,
eu ando meio perdido.
E você?

Fica comigo.
Não vira pro lado.
desliga a TV.

Eles só sabem do caos.









quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

Pensando em quê?

Eu vivo num lugar hostil. Por mais que o cenário ao meu redor seja dos mais bonitos do mundo, eu vivo num lugar hostil. É violência, falta de assistência, falsidade, cada vez menos oportunidades, pobreza, abandono, corrupção, pouca vergonha, nenhuma educação, rasteira, pernada, todo mundo querendo te derrubar no chão. As coisas andam quentes demais por aqui. Minha mãe tem reclamado sempre que eu chego em casa que o calor está fora do normal, que ela nunca viu um verão assim, que deve ter muita gente morrendo por aí. Eu respondo que sim, digo que as coisas estão realmente estranhas, que na minha opinião o mundo já acabou, que nós estamos apenas sobrevivendo com o que restou e que quando todas as fontes secarem, babau, já era pra nós, humanos, raça desgraçada. Ela arregala o olho bom, faz um muxoxo com a boca, acha que eu não estou falando sério e pede um copo d'água bem gelado.

Eu obedeço.

Tenho visto muita maldade por aí, e confesso, estou meio que anestesiado. É como se eu mergulhasse num mar de xilocaína antes de levantar da cama e sob o efeito anestésico e quase letárgico eu me mantivesse durante todo o dia, até voltar para casa, para dentro da minha fortaleza, no meu aconchego, na minha pseudo segurança, para aquilo que eu reconheço como sendo eu. O mundo é muito mais bonito dentro de mim. É um laço infinito de cor azul turquesa, são flores brancas que eu semeio num jardim e as cartas de amor que eu ainda rabisco sobre a mesa. Minha mãe sabe que existe esse outro mundo em mim, pois as mães sabem de tudo sempre. Ela faz questão de não me deixar esquecer um só instante daquilo que eu devo acreditar, diz que em breve essas coisas todas vão melhorar, que a crise vai passar e que os meninos que há poucos meses resolveram morar na esquina da minha rua vão voltar para suas casas. Eu respondo mal criado que sou que eles não têm casa, pois se tivessem, era lá que estariam agora e não na rua, à mercê da sorte. Eles não querem a morte, ela diz baixinho, enquanto pega o terço e vai rezar.

Eu me calo.

Penso em como ela consegue ser tão simples, encontrar as soluções mais fáceis, acreditar num mundo cor de rosa, criar uma outra realidade. Será efeito dos remédios?, eu me pergunto. Não, ela sempre foi assim, dessas que nunca reclamaram de nada e suportaram bem a dor. Tão diferente de mim, que não aceito, que me revolto, que esbravejo, falo alto, corro atrás daquilo que eu acho que é meu de direito, não engulo sapos, bato de frente, dedo em riste, olho no olho, dente por dente. A vida me transformou nesse sujeito da porta para fora. Criei cascas, usei armaduras, envelheci. Caíram meus cabelos, outros pêlos me nasceram brancos, deixei para lá tantas certezas, quero outra profissão, um recomeço, enquanto vejo no espelho à minha frente o mesmo riso franco que sempre me serviu de âncora todas as vezes que eu quis voltar para dentro de mim.

Pensando em quê?, minha mãe pergunta.

Nesse calor, minha mãe, nesse calor.


sábado, 20 de dezembro de 2014

Nu

E eu,
que não sou nada disso,
não reconheço mais o inverso
que há em mim.

Então, eu recomeço,
recrio, invento,
tento.
Tudo ao mesmo tempo.

Ouça:

Ao meu redor ainda há outras rimas
procurando nas meninas
a alma, a pele, a coisa cristalina,
aquela luz que alumia o verso
até expandir meu plexo
e dar início à cantoria.
Clave de sol para esquentar minhas horas
e um sopro leve no final do dia.

O resto é sombra.
É rastro.
É pó de pedra no chão
de terra batida onde corre o rio.

E eu, que ora estou nu,
há muito já não sei para onde vou.



quarta-feira, 1 de outubro de 2014

As horas passam rápido demais

Mesmo se ela chegasse ao som de música e me abreviasse a dor,
talvez eu não percebesse.
Eu ando mesmo muito desatento ultimamente com a poesia.
Há o descompasso, o ritmo acelerado e todo o barulho que faz do lado de fora,
o caos que teimam em chamar de vida em alguns livros e filmes por aí.

Então eu penso que já pode ter chegado a hora
e recolho tudo o que eu ainda não disse.
Eu guardo todas as palavras no meu velho baú,
junto as cartas nunca escritas e outras tantas que eu também não li,
é só silêncio no meu interior.

Eu já não ouço mais os versos que ali havia e que me sopravam todas aquelas rimas.
Eu ando mesmo saudosista esses dias.

Se minha avó ainda estivesse viva, ela ia cantar uma canção para eu dormir agora,
feito aquelas que ensaiava quando eu deitava em sua cama
nas noites em que eu não tinha sono.

Naquela época eu inventava histórias e prestava atenção em tudo o que eu via:
as crianças na praça, as mulheres na esquina, o cigarro aceso nas mãos do meu pai.

Eu sempre tive os olhos pequenos, porém ligeiros e sorridentes.
Os gestos lentos, estes se aproximaram com o passar dos anos
e foram se instalando por aqui.

Eu era o fruto bom amadurecendo devagar até me desprender do caule ao chão.
De uma só vez, eu semeei a terra úmida e quente que me amorteceu a queda
e me recebeu inteiro.
Porque jamais me desfiz em pedaços.
Jamais.

A morte pode ser lenta, eu sei, mas as horas pelas manhãs passam rápido demais.

sábado, 13 de setembro de 2014

Palavra

Quisera eu que a palavra fosse simples palavra,
um substantivo concreto escrito em linhas tortas,
um rabisco em círculos na parede fosca,
um som, um verbo, um grito que sai da minha boca.
Quisera.

Tomara ela fosse palavra solta,
dessas que o vento faz que traz e noutras vezes carrega.
Palavra ventania. Palavra tempestade.
Palavra atemporal.
Tomara.

Quem dera essa palavra fosse pressa,
e ficasse presa em minha garganta,
deixasse algumas frases incompletas,
e uma ou outra oração sem o sujeito.
Seria perfeito.

Quem sabe fosse então palavra de honra,
um compromisso que se assume verbalmente,
o juramento que se fez um dia por escrito,
o documento, só o que vale, tudo aquilo que já foi dito.
Só isso.


domingo, 7 de setembro de 2014

Hábito

Naquela manhã, ele, como de hábito, não tomou café, não leu os jornais, não ligou a TV. Naquela manhã, ele, como de hábito, não falou com ninguém. Andou pela casa descalço, abriu todas as janelas, deixou a luz entrar. Como de hábito.

Naquela manhã, havia com ele todos os não saberes, todos os questionamentos acumulados durante as noites mais escuras. Ele, então, como de hábito, abriu os braços, fechou os olhos, encheu o pulmão de ar até quase estourar. Um dois, três, quatro, cinco, seis, contou, e soltou tudo bem devagar.

Às vezes a vida é cristal transparente. Visão de lente sem filtro. Manhã de luz muito rara, pensou.

Pensou também no seu analista e no por quê de nunca mais tê-lo encontrado. Há certas coisas que somem de nossas vistas. Isso é fato. Melhor se fosse apenas um hiato.

Lembrou das tardes nas encostas do bairro da Glória, do cheiro de chuva que batia na pedra onde a água escorria, do vai e vem nas ladeiras altas, do sobe e desce nas escadarias, num tempo em que tudo dentro dele já não era só vazio e silêncio. Uma conversa interna, tantas outras personas, algumas não tão íntimas.

Quantos ainda lhe caberiam ser?, perguntou.

Toda aquela multiplicidade aparente e a vida, bem ali na frente, feito boca de cena, palco iluminado, peça de teatro. Tudo isso logo naquela manhã em que ele, como de hábito, queria respostas prontas e diretas.

(como se a vida já não fosse o óbvio)

segunda-feira, 28 de julho de 2014

Flores azuis miúdas

Se não estou enganado, foi numa noite turva de inverno que ele apareceu. O botequim da esquina ainda estava aberto. Dois ou três velhotes bêbados apoiavam-se no balcão gorduroso. Um deles carrega um rádio de pilha ligado, volume baixinho, numa estação cuja trilha sonora era a fina flor da música dor de corno. Um gato amarelo, já quase cego e sem rabo pousa esparramado entre garrafas empoeiradas de aguardente, equilibradas numa prateleira torta, pendurada precariamente na parede que um dia foi coberta de azulejos portugueses. Logo acima, um altar com a clássica imagem de São Jorge, o santo guerreiro, acompanhado de uma bandeirola já surrada do Vasco da Gama, umas fitas coloridas do Senhor do Bonfim, um copo de geleia com água e, dentro, uns galhos de arruda murcha e uma semente de olho de boi para espantar o mau olhado.

Abigail, a gorda, estava no caixa. Unhas impecavelmente pintadas de vermelho, bochechas rosadas, cabelos negros, ondulados, oleosos e displicentemente penteados para o alto, como de costume. Vestido preto, de corte vulgar, malha barata, marcando bem o excesso de curvas que se derramavam num decote generoso e revelavam o colo suado e o semblante cansado depois de um dia inteiro contando dinheiro entre um gole e outro de cerveja preta mais uns pedaços de carne assada. Abigail, além de ser gorda, era mal humorada, pavio curto e volta e meia desfiava todo o rosário de palavrões e xingamentos. Bastava se sentir acuada. Dava medo. Com ela não tinha fiado, não tinha conversa mole. Falava grosso. Era praticamente o homem da casa. Cliente nenhum tirava casquinha. Quem não a conhecia ainda tentava chegar perto, arriscar uma piada, um gracejo, uma cantada, mas levava logo um passa fora. Vivia sozinha nos fundos do botequim, numa espécie de meia-água que ela mesma ajudou a construir. O que ninguém jamais soube é por que ela chorava tanto todas as noites, pouco antes de pegar no sono.

Um choro que molhava todo o seu rosto e encharcava toda a sua cama, escorrendo pelo chão de cerâmica fria, transbordando todo o quarto, saindo pelas janelas, lavando ruas, ladeiras, vielas. Toda noite era assim. O pranto de Abigail ecoava feito canto, som agudo que doía, estuprava nossos tímpanos, causava em todos um certo espanto, um grito, um berro ao invés de um verbo, um verso simples, uma poesia única que rimasse todas palavras de todos os alfabetos do mundo com apenas uma: amor. Aí, então, ela acordava. Abria os olhos ainda úmidos. Espreguiçava afastando os braços nus e um bocejo de hálito forte. Levantava o corpo pesado devagar. Mexia com os dedos dos pés, sentava na beirada da cama, soltava um longo suspiro e ia se lavar. Dali a pouco precisava abrir o botequim. Todo dia era assim.

Quando ele chegou já era tarde.

- Está quase na  hora de fechar, Abigail foi logo avisando. Não sai mais nada da cozinha, a cerveja está quente, aqueles ali já estão bêbados e eu estou cansada. Só dá para te servir uma pinga, um refrigerante ou uma água. É pegar ou largar.

- Uma água sem gelo, disse ele tranquilamente, ignorando a grosseria.

Ele parecia feliz. Tinha os olhos grandes e iluminados, a sobrancelha perfeita, os gestos largos, um nariz grande meio torto, a boca carnuda e cheia de dentes emoldurada por uma barba espessa e áspera. Bonito ele. Usava um terno cinza amarrotado, porém bem cortado, caimento perfeito, gravata de seda afrouxada, um molho de chaves, um maço de cigarros e um ramalhete de flores azuis miúdas nas mãos. Bebeu a água num só gole. Fazia frio. Tinha chovido. Ele não pretendia demorar. Só não sabia muito bem para onde ir. Não encontrara até então um lugar neste mundo. Ele não era daqui, pensava.

- O moço é daqui de perto?, perguntou Abigail.

- Não, eu não sou daqui, respondeu espantado com a coincidência da pergunta. Na verdade, acho que eu não sei de onde eu sou. A moça, por acaso, sabe de onde ela é?

Abigail desviou o olhar. Pela primeira vez desde que ela se conhecia por gente sentiu um certo constrangimento, um lampejo de timidez. A voz daquele homem tinha um timbre suave, agradável, firme e a maneira como ele a abordou a deixou sem graça.

- Sei, acho que sei.

- Já eu, sei que nada sei. Que nem o filósofo, sabe?

- Não, não sei.

- Esquece. O que eu quis dizer é que só importa a surpresa, aquilo que você ainda vai descobrir, o que você jamais imaginou e vai mudar teu rumo quando você menos espera. A carta da roda da fortuna no tarô cigano, o capricho vaidoso do destino, o homem quando deixa de ser menino, a derrapada na curva.

- O moço é poeta, é?

- Não sei. Sei que lhe trago flores, disse, oferecendo-lhe o ramalhete de flores azuis miúdas.

Abigail ficou muda.

Ele pagou a água com duas notas. Não quis o troco. Despediu-se. Desapareceu.

Daquela noite em diante Abigail nunca mais chorou. Também nunca mais dormiu. Sorria acordada, insone, durante toda a madrugada, olhos vidrados no ramalhete de flores azuis miúdas.
.

quarta-feira, 4 de junho de 2014

Casa

Eu quero uma casa de pedra,
de paredes altas,
janelas abertas,
muros baixos,
figueiras frondosas no quintal,
frutos caídos pelo chão
de terra batida
num pátio iluminado,
onde eu possa ver o céu mudar de cor.

Eu quero a casa.
Eu quero a pedra.
Eu quero eu mesmo abrir as janelas,
deixar o sol se debruçar,
colher o doce mel do figo
com as minhas próprias mãos,
pisar com os pés descalços
o barro de onde eu vim.

Minha casa vai ter jardim,
flores, muitas, mato,
cheiro de capim mulato,
canários da terra,
melros,
pintassilgos e sabiás.

Todos soltos num laraiá laiá.

A casa vai ser minha
e também das minhas crianças,
e também dos meus amigos.

Todos vão poder chegar.

Sem precisar de convite,
sem precisar cerimônia,
sem precisar avisar.

Minha casa vai ser assim,
bem desse jeito que eu descrevi.

Sê bem-vindo.

sexta-feira, 28 de março de 2014

A velha, o lixo e os versos

Não faz nem quinze minutos que ele encontrou aquela velha já quase cega no corredor a despejar seu lixo e a lhe dizer, sem dó nem piedade, que ela havia lido seus escritos e que ele não passava de um autor menor, sem originalidade, sem estilo, do tipo que só consegue escrever sobre o mesmo tema e, mesmo assim, de modo raso, tal e qual um aluno mal aplicado que ao estudar piano não consegue dedilhar uma nota afinada sequer. Disse-lhe tudo assim, de uma tacada só, enquanto arrastava duas sacolas de restos de comida e umas latas de onde escorria uma água imunda e mal cheirosa.

Ele havia acabado de chegar de mais um dia tenso na repartição, o calor ainda castigava, o terno suado já sem a gravata, o sapato a lhe apertar os pés inchados, os mais de dez processos que pesavam na pasta que trazia a tiracolo e a vontade incontrolável de chegar em casa, tirar toda aquela roupa, tomar um banho, ligar o velho ventilador e se esparramar no sofá da sala depois de comer qualquer coisa que fosse, pois não sentia mesmo muita fome à noite. Ele só pensava em descansar um pouco, esticar as pernas, ver um programa na televisão, arejar as ideias por alguns instantes, antes de levantar e debruçar sobre a papelada que ainda precisava analisar para a reunião da manhã seguinte.

A situação na repartição não estava nada boa, os clientes estavam cada vez mais escassos, as cobranças estavam maiores que nunca e para piorar havia o fantasma de uma demissão em massa que deixava o clima ainda mais intragável. O cargo que ele exercia, que não era lá grande coisa, claro, deveria estar na reta, pensava, enquanto aquela velha, bem ali na sua frente, ao lado da lixeira, que há anos vivia sozinha, sem ao menos uma visita da filha ou dos netos, a descarregar todos aqueles impropérios sem sentido, sem necessidade, sem razão. Ela apertava os olhos na tentativa de melhorar a visão e apontava o dedo indicador em direção ao rosto dele enquanto falava com a voz arranhada pelo tempo.

Disse-lhe na cara dura que ele era um frouxo, um covarde, que ele jamais deveria ter feito o que fez e que se ela fosse um pouco mais jovem e ainda tivesse forças dava-lhe uma boa surra de cinto, com a fivela lanhando a carne, porque era aquilo que ele merecia desde criança, já que seus pais não souberam educá-lo e por isso mesmo ele havia se tornado um homem sem caráter, um descansado, sem nenhum valor. Afirmou que para ela e para todos os moradores do condomínio era uma vergonha tê-lo como vizinho e que dia após dia ela rezava e fazia uma dezena de promessas a todos os santos para que ele mudasse dali.

Ele também não via a hora de mudar daquele apartamento, de sair daquele bairro, de nunca mais encontrar com aqueles vizinhos insuportáveis que pareciam sempre estar mais interessados no que se passava na sala ao lado do que com as suas próprias vidas. Todas aqueles festinhas de finais de semana, regadas a galhofas, fofocas e cerveja de má qualidade, o deixavam irritado e deprimido por saber que ele não pertencia àquilo. Não era aquele o mundo que haviam lhe prometido. Não que ele fosse melhor que ninguém - muito embora fosse - mas tudo ali parecia muito pequeno, uma vida sem sentido, dormir e acordar feito máquina que a gente liga e desliga e pronto. Ele precisava de mais. Ele sabia que merecia mais.

E aquela velha ali a entorpecer-lhe a mente, a confundi-lo com um discurso equivocado, uma anciã que foi esquecida por todos, cuja única companhia eram os livros velhos que ela fazia questão de ler uma centenas de vezes, sempre os mesmos, e vivia a repetir em voz alta, sozinha, na cama de viúva de madeira nobre, sempre os mesmos versos de Andorinha, um poema de Manuel Bandeira, "passei o dia à toa, à toa... passei a vida à toa, à toa".

Era como se ela soubesse, como se anunciasse a sentença de não ter sido quem ela realmente gostaria de ser. Ela, a velha, havia se tornado amarga, indesejável, repugnante, só que a idade avançava e a deixava anestesiada, sem que ela fosse capaz de perceber o que quer que fosse definitivamente real ao seu redor.

Ele, que jamais escrevera uma rima, que não tinha a menor aptidão com as palavras, frases e orações, que jamais sonhara com sucesso ou reconhecimento, que só pensava em levar uma vida digna e ganhar um pouco mais de dinheiro para poder sair dali, alugar um apartamento num bairro melhor, também estava meio que anestesiado e não deu muita importância ao que a velha tinha para lhe falar.

Ele, que morria de pena dela e de toda aquela solidão, estendeu-lhe a mão, pegou as sacolas com os restos de comida e as latas velhas e despejou no lixo sem falar nada. Apenas olhou a velha senhora bem dentro dos olhos e, num arroubo de gentileza, deu-lhe um abraço, ajeitou-lhe os cabelos, acompanhou-a até a porta de casa, deu-lhe um beijo e se despediu. Em silêncio.

Ele, então, virou as costas e seu andar arrastado foi tudo o que se ouviu no corredor.

Lá dentro, a velha já não lembrava mais se havia lido os versos e pôs-se a procurar os livros. Os mesmos livros.





terça-feira, 25 de março de 2014

Todo poeta

Todo poeta é um mistério
e eu também tenho cá as minhas questões profundas:
sou subsolo, sou santuário,
sou um misto de palavras desenterradas à boca do estômago.

E me pergunto, então, por que às vezes minha poesia é como vômito?

Estrofe por estrofe, verso por verso, rima por rima,
é a poesia quem rasga minhas entranhas e se expõe,
se traduz e se apodera do ritmo vacilante que outrora havia em minhas mãos.

Faz-se a mágica e com ela surge o lado íntimo que se abre na fissura,
rasga feito a fenda, escorrega, ri, brinca,
navega contra a corrente e deixa de lado toda e qualquer razão.

Todo poeta é um laço
e eu gosto mesmo é dos abraços daqueles que se fazem poetas:
os que inventam, os que criam,
os que vivem soltos e deixam correr livre a imaginação.

Onde estão eles?
Onde eles estão que não aqui na harmonia breve das minhas ideias?

Porque o tempo dos poetas é lírico, eu sei,
e se eterniza no silêncio leve da madrugada,
quando a melodia invade a nossa alma
e tudo ao redor se transforma em canção.

Não há barulho lá fora, eu não falo nada
e já não enxergo mesmo muito bem.
Aqui dentro de mim o céu.

Todo poeta é infinito.


quarta-feira, 19 de março de 2014

Alone

Um dia como outro qualquer
Um vento que sopra abafado
Um céu de nuvens carregadas
Um nó que aperta no peito.

Um jeito que parece incerto
Um gesto como se fosse o único
Um gosto amargo que sobra na boca.

O fel.

Um momento que é quase nada
Um tempo que se desfaz inteiro
Um rio que vai dar no mar
Um cais outrora repleto.

Nem ao menos um navio
Nem se ouvia alguém por perto
Nem se eu implorasse um breve adeus.

Só eu ali, alone, e mais ninguém.

Por que me fiz deserto?


terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Vergonha

Desde aquela tarde em que os termômetros marcavam mais um recorde de altas temperaturas na cidade, era como se ao redor dele tudo fosse se distanciando, perdendo o foco, saindo do seu campo de visão. Gradativamente. Melhor assim.

Aquele verão havia sido de um calor apocalíptico, pele constantemente suada, céu azul sem nuvens, sem água nas torneiras, sem trens, sem respeito algum. O trânsito ultrapassava os limites do suportável, infernal. A população inteira parecia estar vivendo à beira do caos, o IPTU, o IPVA, outras tantas contas a pagar e aquelas pessoas todas nas ruas, nas redes, tantas vozes estridentes e a porrada comendo solta em plena luz do dia.

Perderam a noção, ele dizia, ao mesmo tempo em que, pela tela plana da TV, ainda enxergava mais um homem morrer na praça, antes mesmo do sol se pôr.

O corpo daquele trabalhador havia tombado, a cabeça explodido, correria ao seu lado, imagina você a confusão que se formou. Já temos um mártir, anunciavam alguns. Foi assassinato, berravam outros tantos. Imprensa, polícia, vândalos, deputados, manifestantes, black blocs, milícia. Debates acalorados no palanque virtual. Um diz que é o certo. O outro afirma que nunca esteve errado. De ambos os lados, ânimos exaltados. Eles gritam estridentemente e ninguém mais pode se fazer de surdo.

No fundo ele tinha certeza do por quê daquilo tudo: nunca fizeram nada. Tal e qual um filho recém-parido que é abandonado na roda da sorte, o cidadão daquelas bandas era tão desassistido como um órfão esquecido no dormitório úmido do asilo junto a tantos outros iguais, largados ao Deus dará. Ele também se sentia sozinho.

O estado havia sido omisso desde os primórdios, as autoridades só enxergavam a si próprios, se escondiam nos palácios com seus assessores bem remunerados, covardes como sempre, enquanto ordens extremas liberavam o braço armado em cima de quem quer que fosse. O que começou pacífico, plural, espontâneo, bonito até, transformou-se numa luta desigual, ele sabia.

Cidades no país inteiro viraram palco de batalhas sangrentas como nunca antes na história desse país. Manifestante virou vândalo. Protesto virou baderna. Os ninjas quase viraram imprensa. A imprensa virou chacota. Enquanto os telejornais por um momento tentavam esconder, a internet mostrava tudo a quem quisesse ver: fogo, corre-corre, gás lacrimogêneo, jornalistas acuados na tentativa de cumprir seu dever, jovens machucados e a polícia agindo como se estivesse à caça de bandidos.

E ele então não esquecia que meses antes a mesma polícia deixava traficantes escaparem aos olhos de todos, mas agora, por todos os cantos, de todos os lados, era só tiro, porrada e bomba. Você precisava ver.

Dias difíceis, ele já suspeitava. Como o carro que derrapa na curva, a parábola que não tangencia o arco, o circo pegando fogo e tudo mais fora do controle. Maniqueísmos explícitos, partidos políticos chafurdados na lama, radicais inflamados, anarquistas desinformados, fascistas facínoras, psicopatas infiltrados, coxinhas bem arrumados, que tais, todos deixavam cair suas máscaras, as verdades descortinadas, preconceitos nus. Vergonha ele sentia.

Eu também sentia. Muito antes daquela tarde quente.



sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

Úmida

Desliza tua língua (sobre mim)
e deixa um rastro de saliva úmida (eu quero).

Junta o gosto ácido da palavra,
conjuga o verbo intransitivo do amor,
a frente, o verso,
a frase, a rima,
vem você aqui em cima,
espalha em minha carne o teu suor.

Debruça lentamente sua cabeça (no meu peito)
e afaga o que de mim ainda é seu (para sempre).

Percebe no meu toque o gesto simples,
segura firme com as suas minhas mãos,
lê todas essas linhas, montes, vênus,
desvenda meus segredos,
aperta os laços, intensifica os abraços,
seus lábios assim tão perto dos meus.

Desliza tua língua
no rastro da saliva úmida.

(certas noites morro de calor)




domingo, 19 de janeiro de 2014

Eu sei

Eu,
que apenas observo o mundo,
sigo tantas vezes calado,
me finjo de mudo,
noutras sou surdo,
mas cego nunca fui.

Do pouco que eu vi de tudo,
esse tudo me parece tão pequeno,
um quase nada,
um breve instante,
um leve sopro,
a mão suave a desfazer o nó.

Eu,
que já não sigo assim tão só,
persigo o que não conheço,
persisto nos mesmos apreços,
resisto até não poder mais,
insisto que eu existo.

Sou eu mesmo, juro.

Meu discurso nunca foi outro.
Minha vontade também não.
Mentiras se dispersam,
só as verdades me interessam,
sou aquele que se vai,
estou naquele que já vem.

Eu apenas observo aqueles que me observam.
Não enxergo nada além.

Nem eles, eu sei.

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

Dúvida

Quem era ele agora, se aquele que outrora fora se desfez? 
Onde ele houvera ficado?
Quando ele houvera partido? 
O que tivera feito para que até ali então chegasse?
O sol, o céu azul e as mesmas tardes de domingo 
a lhe refrescar com as brisas que ainda restavam. 
Naquelas tardes, bastava encher os pulmões com todo o ar e seguir em frente, 
como um náufrago à deriva num mar fecundo.
O medo.
O novo.
O mundo.
O mesmo mundo, muito embora para muitos aquele já tivera sido o fim.

terça-feira, 29 de outubro de 2013

Milagres urbanos

Você sai de casa apressado, pega o carro, o trânsito está misteriosamente bom. Você chega do Méier até a Praça XI em 15 minutos, vira a curva no quarteirão do Balança Mas Não Cai, tudo parado. Você freia. Não dá tempo, bate no carro da frente, o carro amassa. Você vê. A dona do carro também vê, dá ataque, você pede pra ela ficar calma e estacionar logo ali. Enquanto isso os cifrões turvam a sua visão. Você não pensa em mais nada, a vida tá complicada, você sai do carro, olha pro carro da dona, a dona olha pra sua cara, vocês olham de novo pro carro, cadê o amassado?, vocês perguntam, o amassado sumiu, não tem nem um arranhãozinho sequer, como pode?, ela indaga. Foi milagre, você diz. Então tá, até logo, você está atrasado, ela também. Você liga o carro, ela faz a curva, você ri sozinho e agradece, só agradece.

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Amor de menino

Dorme, menino bonito, dorme. 
Deixa o seu corpo arriar, 
que o que eu guardo em mim é o pouso infinito,
feito o céu que se desmancha em azul 
na superfície inquieta do mar. 

Esse mar que jamais descansa, 
que balança nas ondas da praia 
num eterno pra lá e pra cá. 

Esse mar de ressaca e esperança. 
É só o mar de quem sabe o que é amar. 

Sonha, menino, sonha.
Deixa o inconsciente chegar, 
que eu trago em meu peito os delírios mais lindos, 
desses que nos dão asas e brilho
e por aí evaporam, nos deixam soltos no ar.

Toca, menino, toca
com todos os seus anseios o meu coração, 
diz que jamais vai embora,
repete baixinho aqui no meu ouvido 
que nesse mundo a gente não se perde mais não.

Deixa, menino, deixa 
eu tentar fazer o que eu ainda não fiz. 
Deixa o tempo dizer e mostrar 
que é mais do que hora de saber ser feliz.

Fica, menino, fica 
comigo na minha vida, 
seguindo na mesma estrada, 
dedilhando as cordas numa outra lira. 

Faz de mim teu único instrumento, 
costura na minha carne todos os momentos, 
esculpe, molda, talha, nó.

Te amo, menino, te amo.

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Diários III

Na manhã seguinte, o outro havia desaparecido, virado pó, deletado os e-mails, apagado as mensagens, mudado todas as senhas, levado as chaves. Só havia sobrado ele ali, de pé, em frente ao espelho embaçado, reflexo tênue do que houvera sido. Naquela manhã, ele sequer conseguira respirar fundo, e o mundo, ao redor, nem melhor nem pior, seguia o seu rumo.

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Dê tempo ao tempo

Assim que ele conseguiu uma pausa para respirar depois daquela manhã agitada, 
foi que se deu conta de que a vida o levava lentamente.

Parou.
Respirou profundamente.

Uma. Duas. Infinitas vezes.

Dali a pouco era hora de recomeçar.

Não lhe era permitido perder tempo,
já que ele esquecera de sair do lugar.

No pulso, um relógio sem ponteiros
a desviar-lhe as horas.

Os segundos pulsavam presos
dentro do peito,
bombeando o sangue de areia grossa
que escorria naquela ampulheta.

Bem devagar.

terça-feira, 22 de outubro de 2013

Tempos difíceis

Certas horas a poesia silencia
e parece querer se esconder,
fugir de mim,
largar de mão,
desaparecer.

Justo nesses dias,
ela,
a poesia,
sumia.
Que tempos difíceis são esses?

Nas ruas, o bloco negro confundindo as massas,
levantando a voz, queimando a praça,
vidraças quebradas da hipocrisia.

Nas tevês, eles também confundem,
invertem o sentido, usam de artifícios,
roteiros pré-estabelecidos em horário nobre.

A manchete é o vandalismo.
A suíte é o lado sujo.
O mundo,
a cada virada de página,
fica ainda mais difícil.

Brigam os tradicionais e os alternativos
via redes sociais.
Surgem novas ferramentas,
instalam-se outros aplicativos,
um imenso flash mob do dever cívico.

E os ideais?  Quais?

O Estado revida,
bate,
maltrata,
fere com balas de borracha
e sufoca o grito daquele que corre atrás.

Nos palácios estão todos surdos,
fazendo-se de cegos,
contaminados pelo poder.
Não percebem que estão cercados.
Não sabem, não querem, não prestam.

Eles nada vão fazer.

Já não podem ouvir os gritos.
Há muito que eu também não ouvia.
Onde antes era só silêncio
há hoje o risco dos verbos calados à força
e das minhas estrofes continuarem vazias.

Logo as minhas,
que por acaso nasci poeta,
berrando os versos da poesia.

Que tempos difíceis são esses?



domingo, 13 de outubro de 2013

Não sejamos tão ingênuos

Então você acorda e há um mundo diferente lá fora. Sim, é só mais um domingo, são as mesmas nuvens de algodão, o mesmo céu de anil, o mesmo gosto do café amargo e toda a falta que eu sinto de algumas partes de mim. O silêncio daquelas manhãs de domingo sempre me intrigaram. Para mim, tão afeito ao barulho e à velocidade do dia-a-dia rotineiro, era como se nelas, naquelas manhãs, o mundo descansasse e cedesse lugar à preguiça. A tal da pausa, tantas vezes necessária, até recomeçar.

Lembro bem de uma tia que sempre me dizia: "Levantar da cama aos domingos não é difícil. Difícil é recomeçar." Eu era criança quando ouvia tal frase e, confesso, custei a entender o que ela queria dizer com aquilo. Houve uma época em que eu achava que era um recado velado, como se ela implicasse com a minha preguiça, tão mais sem vergonha nas manhãs de domingo. Só mais tarde, anos depois da minha tia ter morrido, foi que entendi o que poderia estar implícito naquilo que ela tanto dizia. Não é mesmo nada fácil recomeçar.  

Eu queria levantar da cama aos domingos com superpoderes e, enfim, enxergar a vida com óculos cor-de-rosa. Queria poder prender cada sem-vergonha que se acha no direito de roubar o que é do outro, de cercear a liberdade de quem quer que seja, de surrupiar na maior cara-de-pau e de me dizer o que é certo, o que é errado ou o que pode e o que não pode. Queria, também, exterminar com as raças de alguns políticos que estampam as manchetes dos jornais e que estão há séculos no comando, acumulando e exercitando o egoísmo desacerbado, enquanto esquecem que é preciso compartilhar, dividir, multiplicar, socializar e respeitar a vida daquele que pisa neste solo com as mesmas necessidades que ele. Poque ele, assim como eu ou você, é um qualquer um.

Queria levantar da cama, correr na varanda e gritar para o meu vizinho que desce a rua que somos todos iguais. Queria que ele, que não perde um Jornal Nacional depois do jantar preparado pela esposa, soubesse que temos, sim o dever de nos manifestar, de invadir as ruas e exigir melhores condições. Queria que daquele domingo em diante a voz dos protesto legítimos não precisasse ceder espaço nos noticiários para os black blocs e sua quebradeira geral, que, juro, ainda tenho cá minhas dúvidas se são ou não necessárias. Queria, na verdade, que tudo isso fosse apenas parte de um processo de reconfiguração ou atualização de sistema da humanidade, feito um software mesmo ou um aplicativo que fizesse com que ela levantasse menos ingênua a cada manhã.

Aí, então, seria este o sinal de um recomeço? O ponto final que anuncia a pausa? Ou já seria o início de um novo parágrafo na nossa história? Eu, neste contexto, sou um personagem que convive com um exército de black blocs em mim não é de hoje, provocando uma quebradeira interna generalizada. Como se o centro desse mundo em ebulição doesse aqui no meu peito, feito a bala de borracha ou o tiro certeiro da arma letal dos meganhas. Porque meu peito é o núcleo quente que derrete, dissolve, digere, transforma e transfere. 

Eu, graças aos midiáticos vândalos que cá me habitam e tacam fogo no que não presta, carrego a certeza de que não sou mais o mesmo. Talvez por isso, hoje, neste domingo, eu tenha acordado vendo um mundo diferente lá fora.






sexta-feira, 20 de setembro de 2013

Desarrumação

Bastou uma rajada leve de vento para ele olhar para trás e se dar conta de que, mesmo que já tenham se passado mais de 40 anos, ainda havia muito o que arrumar naquela casa. 
Até ali, só o alicerce e a certeza de que a vida é uma faxina ininterrupta.

domingo, 8 de setembro de 2013

Enigma

Então me disse que faltava pouco para o fim e eu ali, parado, não acreditei. Preferi continuar sozinho, sem saber ao certo se era mesmo o tal destino que eu sempre havia traçado em linhas tortas ou se foi tudo culpa da falta de coragem, do medo e da distância entre o meu desejo e aquele que um dia habitou em mim.

Sem predicados

O tiro na testa foi certeiro. Ele não sentiu nada. Nem tampouco sentira o vento forte que levantara a poeira segundos antes, a mesma poeira que lhe sujara a face. Tombou o corpo pesado na esquina escura. Da cintura pra cima, calçada. As pernas, desajeitadas, no meio da rua. Mal anoitecera e a lua já despontava no céu sem nuvens. O estampido. O por quê. O acaso. Tudo mais ficara oculto. E o sujeito ali sem predicados. Quem era ele mesmo?

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Correnteza

Eu quero versos,
eu quero rimas,
quero esquecer o certo
em meio a linhas distorcidas.

Quero errar o tom,
acelerar na curva,
bailar descalço
enquanto cai a chuva.

Desbravar o céu,
me perder no ar,
pular da ponte,
na beira do mar.

Nesse mar gigante,
onde chega o rio
e a correnteza limpa,
lava o meu corpo.

Esse rio que chega no mar
já não é o mesmo rio.

Porque o rio passa,
e eu já não sou o mesmo,
muito embora o corpo,

perdido nas ondas,
em busca do gesto,
em estado de graça.

Os bons versos que me carreguem.

quarta-feira, 31 de julho de 2013

Grandeza

Meu mundo é pequeno,
cabe na palma da minha mão.
Já meu coração, esse não.
Meu coração é um poço sem fundo,
um céu de olhares infinitos,
um mar de versos bonitos
traduzidos em ondas que eu carrego
por onde quer que eu vá.

quarta-feira, 19 de junho de 2013

Dressed to kill

Janaína é uma mulata arrebatadora, com 1,75m, cintura fina, peitos fartos, cabelos tratados, cheirosa e vaidosa que só. Moradora de Marechal Hermes, trabalha no centro da cidade como secretária de um escritório de contabilidade. Casada, costuma sair cedo de casa para pegar o trem até a Central do Brasil, mas antes, prepara o café da manhã pro marido, Nestor, taxista, e pros filhos, Luana, Lorraine, Luan, de 5, 7 e 9 anos, que ficam com uma sobrinha. Janaína é do tipo que faz tudo todo dia sempre igual. Só que não.

Naquela manhã Janaína acordou mais cedo, tomou um banho demorado, passou cremes, caprichou na depilação e deu uma certa exagerada no perfume. Saiu do banheiro enrolada na toalha, entrou no quarto sem fazer muito barulho. Nestor ainda dormia, as crianças idem. Do fundo do armário tirou um vestido de jérsei com estampa de onça, decote sexy, comprimento acima do joelho, novinho em folha, nunca havia usado. Sobre o sutiã cor de pele e a calcinha sem costura, o vestido caiu feito uma luva. Brincos dourados, braceletes com pedrarias e um sapato alto salgo agulha completavam o visual mulata tipo exportação.

Na cozinha, deu um gole no café preto, comeu um pedaço de pão com manteiga e deixou sobre a mesa um bilhete para Nestor, o marido, dizendo que teve de sair mais cedo para preparar o almoço de aniversário de 70 anos do chefe, seu Hilário, mas que as mochilas das crianças estavam prontas e que era para ele deixá-las na casa da sobrinha, como de costume, que quando ela chegasse, mais tarde, ela passava lá para buscá-las.

Da estação de trem em Marechal Hermes à Central do Brasil e durante todo o dia Janaína ouviu cantadas de todos os feitios: Bom dia, tigresa. Que felina classuda. Essa gata é uma fera. E por aí vai. Janaína estava mesmo na alturas. O almoço do chefe foi um sucesso, todos os funcionários do escritório confraternizando, uma alegria contagiante. Parecia até festa de fim de ano.

No meio da tarde ainda teve bolo, salgadinhos e refrigerantes. O chefe não podia estar mais feliz. Nem Janaína, que vestida de onça, estava se sentindo mais poderosa que nunca. Até que no final do dia toca o seu celular. Era Nestor, o marido.

 - Fala, jaguar.

- Jaguar? Por quê?

- Você saiu de casa hoje igual a uma jaguatirica!

- Antes jaguatirica do que jararaca, feito a sua mãe. Faz o seguinte, Nestor, não me espera pra jantar. Pega as crianças e se vira, porque a jaguatirica aqui hoje vai demorar a chegar.

Desligou o telefone antes mesmo que o marido respondesse.


É isso q enfraquece...

sexta-feira, 14 de junho de 2013

Vergonha e covardia

Depois de uma noite no mínimo histórica, onde paulistas e cariocas apanharam brutalmente daqueles que são pagos para garantir a segurança de todos, me perdi entre debates e panfletagens virtuais que vararam a madrugada e me tiraram o sono. Na timeline do facebook, a verdadeira e legítima cobertura da manifestação que mobilizou milhares de pessoas em algumas cidades do Brasil, mas especialmente Rio de Janeiro e São Paulo. As imagens, os vídeos e os relatos eram impressionantes. E mais impressionantes ainda se comparados à cobertura da mídia tradicional, que ainda chamava os manifestantes de vândalos, como se o protesto fosse simples baderna.

Covardia.

Mas não só a covardia daqueles que humilham com o cassetete nas mãos, protegidos por patentes, escudos e capacetes e baixam a porrada em cima de jornalistas, estudantes, trabalhadores, homens, mulheres, enfim. Não. Covardia pelo que somos submetidos diariamente. Seja o cara que mora na baixada e precisa acordar às 4h para pegar o trem lotado, atrasado, mal conservado, sendo empurrado para dentro dos vagões com a delicadeza de um carcerário, ao empresário, dono do Market Place Center Fields, que mora numa cobertura na Delfim Moreira, ali no comecinho do Leblon, paga seus impostos e quer viver num país justo.

Por que não?.

Por várias vezes li textos e publicações, de gente próxima até, chamando os manifestantes de vândalos. Realmente, vandalismo é inadmissível, coisa de povo mal educado, porco, sujo. Pra quê pichar igrejas, monumentos, quebrar praças inteiras? Mas não foi só isso que eu vi. De certo houve vandalismo, o lado pequeno da história, e justamente o lado que tentaram vender nas manchetes dos jornais. Lembro de acordar na quarta-feira e ler na capa do impresso que amanhece em minha porta a seguinte chamada: A Marcha da Insensatez, referindo-se à manifestação que já havia deixado São Paulo e o país em alerta na terça-feira. Insensatez?

De quem?

Ninguém estava nas ruas para protestar apenas contra um aumento de míseros vinte centavos de real nas tarifas de ônibus. Muito embora míseros sejamos nós. O que se viu na noite desta quinta-feira nas ruas foram surtos de indignação, um movimento maciço de protesto contra o que oprime, contra o que é covarde, contra o que é verdadeiramente vandalismo. Porque somos, sim, nós, todos os brasileiros, vandalizados por esse poder que corrompe e assombra e maltrata.

Somos vandalizados no momento em que pagamos nossos impostos e não temos transporte público de qualidade, não temos um serviço de saúde que atenda a todos com um mínimo de dignidade, não temos segurança, esgoto, asfalto, luz, muitas vezes nada. Somos vandalizados quando tomamos porrada na cara e viramos alvo daqueles que deveriam garantir a nossa segurança. E não falo aqui somente da truculência da corporação militar. Falo daqueles que estão no Planalto Central ou dentro de seus palácios de governo interessados nos contratos que vão lhes garantir cada vez mais regalias e poder.

Vergonha.


sexta-feira, 7 de junho de 2013

Capitão Américo

Capitão Américo é daqueles militares que não deixam a patente cair nem quando estão em casa, no lazer com a família. Do tipo durão, acostumado a comandar batalhão de soldados, não é de dar explicações a ninguém. A não ser quando comandado, claro. Casado com Elenice, mulher batalhadora - apesar de ser loira, como ela mesmo faz questão de afirmar -, Capitão Américo traz o casamento no cabresto: gosta de chegar em casa e ver o jantar pronto, os filhos de banho tomado, o Jornal Nacional, a novela, o 'até amanhã, meus filhos', o 'chega pra cá, patroa', o 'foi bom pra você, amor?' e o "boa noite".

Ciumento num nível patológico, vive controlando as ligações que Elenice faz no celular e volta e meia quer saber quais sites ela acessa no laptop que ele deu de presente no último aniversário de casamento. Desde então, cada um tem o seu, que é para evitar briga e preservar a relação. Numa dessas noites, enquanto Elenice tomava banho e as crianças já dormiam, corroído por uma curiosidade absurda, fora dos padrões da normalidade, Capitão Américo resolve instalar um programa espião no laptop da mulher, para rastrear toda e qualquer conversa que ela viesse a ter nos chats das redes sociais. O processo não demorou muito e em poucos minutos o rastreador de conversas alheias estava infiltrado no laptop de Elenice. Capitão Américo só esqueceu de um detalhe: desaparecer com o papel das instruções de instalação. Esqueceu a prova do crime do ali mesmo, junto a umas correspondências e contas a pagar.

Dia seguinte Elenice acorda louca para acessar o seu facebook e dá de cara com o tal papel. Ela, que apesar de loira, de burra não tem nada, na hora se deu conta do que o marido fizera. Como vingança é mesmo um prato que se deve comer frio, deixou passar alguns dias - poucos, é verdade - e, num momento de distração do capitão Américo, foi lá e fez o mesmo no laptop dele. Só que, claro, jogou fora o papel com as instruções.

Num piscar de olhos começaram a surgir conversas comprometedoras do Capitão Américo com dezenas de mulheres nos mais variados chats. Uma delas, inclusive, a melhor amiga de Elenice. Caso clássico de adultério. Ficou puta. Fumou um maço de cigarros de uma vez. Gravou tudo num pendrive. Mas manteve a linha quando o marido voltou da caserna, agindo naturalmente, como se nada tivesse acontecido. Loira, inteligente e ardilosa, eu diria. Naquela mesma noite transformou aqueles arquivos num pdf, determinada a montar uma apresentação. O power point da traição virtual. Foi dormir cheia de si.

No café da manhã, após os filhos saírem para a escola e entre xícaras de café amargo e cestas de pão francês, Elenice diz que precisa mostrar uma coisa para Capitão Américo em seu laptop. Capitão Américo diz que não pode, que está atrasado, que hoje é dia de ordem unida, que ainda precisa engraxar o coturno, entre outras desculpas.

- Não aceito desculpas, Américo - disse ela, com a autoridade de um coronel.

O Capitão arregala os olhos e quase presta continência. Afinal, Elenice nunca havia falado assim com ele antes e antes mesmo que ele se recusasse mais uma vez, ela foi iniciando os slides. Um a um. Bem devagar, que era pra dar tempo dele (re)ler tudo o que havia escrito naquelas últimas semanas nos chats com as amigas.

Após o último slide, um silêncio que jamais houve naquela casa e uma única certeza: Capitão Américo perdera a batalha.

- Isso é só para te avisar que eu sou loira, mas não sou burra, e que a comandante dessa casa agora sou eu.

Isso sim é golpe de estado!

terça-feira, 4 de junho de 2013

A primeira pedra

Perdoa.
Porque é no erro que se revela o homem e eu aqui estou.
Joga você sobre esse corpo, que é o meu, todas as pedras.
Desde a primeira.

Atira em mim.
Mira em minha face suja suas verdades.
Faz do meu contorno o alvo e me acerta
a frase exata.

A palavra certa.
O gesto preciso.
A flecha que atravessa o peito
e fere o corte à lâmina que ainda sangra.

Tira.
Subtrai de mim o que não é certo,
Se decerto você estiver com a razão.
De outro modo, não.

Quem não tem pecados?


quinta-feira, 30 de maio de 2013

Composição

Quisera eu todos os aplausos ao encerrar meu canto
enquanto jaz a voz cansada, solitária,
a capela.

Muito embora eu jamais fosse um poeta lírico,
tenho cá também os meus delírios:
trato versos como fossem filhos.

Declamo.
Derramo.
Afago na hora da dor.

Pudera eu ser todas as rimas afinal,
se por muito pouco me traduzo estrofe
e me encontram em frases rascunhadas por cima do muro.

Carrego em mim o grito forte do trovador.

Poesia fina que resiste na guerrilha urbana,
dicionário lúdico de palavras soltas pelas ruas,
quase que escritas como que para estancar meu pranto.

Pois tudo o que eu digo se desdobra em brisa,
o sopro de um vento leve em busca do mar,
sou a dança profana das marés imprecisas.

Sou um rabisco.
Um risco qualquer.
O traço tênue entre o que é o que jamais será.

Sou prosa literária.
Filosofia amoral.
Retrato desnudo do caos.

Compositor do absurdo.


quarta-feira, 3 de abril de 2013

Chá da tarde



Na falta de algo mais forte para entorpecer e com o preço do tomate nas alturas, do removedor Faísca mais caro que um litro de vinho, e o passe das domésticas valendo mais que o seu, o cara chega em casa e resolve fazer um chá de alecrim, atraído pelas maravilhas recentes que têm sido postadas na web sobre a tal erva inofensiva: alegria, relaxamento, melhora da pressão arterial, sangue mais fino,combate ao diabetes...

O chá tinha gosto de focaccia, aquele pão italiano achatado e furadinho (sem sal grosso e azeite, claro!), e dava pra encarar meio assim assim. Pô, se tem todos esses benefícios, qual o problema de beber uma focaccia?, ele pensava enquanto mandava o líquido quente goela adentro.

Bebeu tudinho, não sobrou nem uma gota na xícara, e ele ficou esperando o resultado. De cara, um arroto. Logo depois, outro. E mais outro. Opa, ele pensou, tá fazendo efeito digestivo! Não demorou muito e deu uma leve tonteira, uma embaçada na visão, um suor frio e o pavor de ter arriado demais a pressão. A coisa foi tão forte que o pobre não conseguiu sequer levantar do sofá, ficou ali apavorado, achando que ia infartar e coisa e tal. Pânico total. Teto preto. Vontade de gritar, de chorar, de chamar pela mãe, até que foi melhorando aos poucos.

Teve forças para levantar o pescoço e olhar pela varanda da sala a chuva que não parava de cair. O vira-latas aos seus pés o encarava como quem dizia: e aí, mané, deu onda? Esboçou um sorriso amarelo ao olhar pro cachorro, lembrando dos tempos em que era adolescente e experimentava uma coisa aqui e outra ali. Saiu do sofá ainda cambaleando e com a nítida impressão que tinha passado da idade pra encarar o que quer que fosse, até mesmo um inocente chazinho de alecrim.

Eu, hein... que onda?!

terça-feira, 26 de março de 2013

Agora folha

Os ventos de outono me espalharam feito eu fosse folha de amendoeira amarelada que cobre todo o chão das ruas da cidade quente. Não adiantou gritar que sou gente, que eu não queria, que eu não esperava. Foi um grito estridente, amedrontador. Voei solto pelo ar que sujava meu rosto de fumaça e pó e ninguém viu. Só eu mais uma vez sozinho me dei conta de que as estações vão e vêm e trazem todas as certezas de que o mundo é mesmo um palco único, um teatro absurdo, um drama, uma comédia perdida entre esquinas que se cruzam e é preciso rir de si mesmo. Não há marcações, não há direção. É tudo um foco de luz apenas. Apaga-se o dia ou acende-se a noite entre as brisas frescas que surgem do nada, enquanto a plateia assiste atenta ao que se passa aleatoriamente. Há o silêncio, a pausa no texto, a descoberta da personagem inquietante que eu represento sem saber. 

-Onde está você?

Quando o outro se aproxima é então que mais me apavora. O não saber de nada, o desconhecido que me incinera o peito e arde a sua chama certeira na cicatriz que me revela, a marca que fica em minha pele suada, carne crua de poros úmidos que ainda implora suas mãos. Tudo o que eu espero é a verdade escrita, falada pausadamente em meus ouvidos, porque de resto em minha mente é só confusão. E eu peço tanto por dias mais tranquilos, aguardo ansiosamente por sopros de felicidade, sonho com gestos mais simples, imploro sorrisos mais sinceros, abraços mais apertados. 

Saudade é o que me invade nessas horas.

Olho pela janela do meu quarto e minha rua está vazia. A vizinhança dorme o sono que eu não encontro e vejo gatos pardos tropeçando nos telhados das casas apagadas, insetos que insistem em se queimar na luz pálida do poste alto que ilumina o rastro do que fica daquele que já não passa, que jaz na hora exata em que o meu relógio para. Eu me dou conta que não preciso do tempo, que meus músculos já perderam o tônus, que meu coração bate desaceleradamente e eu nem sei bem ao certo o que deixei escorrer entre meus dedos há poucos minutos. Quisera eu ter certezas absolutas, encontrar as palavras certas, as frases mais bonitas que escrevi e não sei onde guardei o bilhete de amor que eu deveria entregar àquela que me fez companhia todos esses anos.

- Talvez ela nunca entenda, eu sei.

Ainda há pouco mesmo era verão e todo aquele calor e eu me refrescava nas águas claras da montanha entre pedras e riachos que me inundavam e massageavam meu corpo que continua o mesmo, muito embora eu agora seja outro. O outro que eu não conhecia muito bem, mas no fundo sabia que existia. Foi preciso a ventania e os ventos da nova estação que me espalharam feito eu fosse folha. Sequer entendi por que caí e me deixei levar. Sob o céu azul e cintilante deste outono que hoje se anuncia eu sou quase todo incertezas. 

- Onde será que eu, agora leve feito folha, vou parar?      

sexta-feira, 1 de março de 2013

Ele já sabia

Foi quando ele me disse que se sentia honrado em ter me conhecido que me dei conta do quão nobre era tudo o que eu estava vivenciando naqueles últimos dias. Tentei fazer com que ele entendesse que era como se meu peito se expandisse, como se minha caixa torácica tivesse se transformado num balão de gás, desses que você sopra até quase estourar. Confessei-lhe que desde aquele encontro eu vivia deixando-me corroer pela ansiedade, tinha como companheiras a saudade e uma agitação maior que as de costume. Que os dias me pareciam mais curtos, relógios de horas encolhidas, e que o silêncio fazia das minhas noites companhia. Fiz questão de dizer-lhe coisas que jamais disse a ninguém. Me expus. Me revelei. Me deixei desenhar por suas mãos e só então, depois, em seus traços, foi que me reconheci.

Era como seu eu não tivesse existido antes, como se meu passado pouco importasse, página em branco, zero à esquerda, como se nada que eu vivera até então tivesse muita importância. O que verdadeiramente valia era dali para frente, aquele mundo de possibilidades que se apresentava agora. Não que ele fosse obrigado a me fazer companhia eternamente, a caminhar comigo por todo o sempre, forçar juras infinitas. Muito pelo contrário. Tínhamos, isso sim, firmado um pacto de felicidade, e a liberdade era a condição maior para a expressão do que estávamos experimentando juntos nessa vida. Não sobrava tempo para cair em armadilhas, emaranhados, redutos de tristeza, eu sabia. Ele também me dizia que não era hora para se ter juízo e que era preciso um pouco mais de loucura e coragem para ser feliz. Aspectos que eu tinha de sobra.

Eu cheguei a contar-lhe que nós éramos um o rascunho do outro e que a sombra dos nossos corpos que surgia na parede daquele quarto mais parecia o contorno da luz refletida a preencher todos os espaços. Lembro de uma vez tê-lo escrito dizendo-lhe que o meu mundo ao lado dele parecia bem melhor. Era como se a armadura que vesti durante tantos anos se desmanchasse e trouxesse à tona meus conflitos mais internos, minhas dúvidas transformando-se em certezas, e o peso que eu outrora carregava se fizera leve como as palavras mais bonitas que saíam de sua boca em minha direção.

A surpresa me pegou naquela noite, confessei-lhe. Nunca acreditei nessas histórias que me contavam sobre tudo o que envolve o coração. Pensava eu e meus botões: comigo não! O meu coração batia tão sossegado, adormecido, já meio que acostumado com a anestesia contaminada do dia a dia, amnésia de um cotidiano sem graça, sem novidades, só a mesma ladainha, enquanto tudo em volta era solidão. Guardava meus versos polidos em fundos de gaveta, junto a outros escritos que eu já me esqueci. Eu tinha todas as minhas chaves, trancava muito bem todos os meus segredos, cultivava com apreço certos medos, manias, esquisitices, até que ele apareceu e me disse que se sentia honrado, como eu já contei aqui antes.

Porque ele já sabia o que era o amor. O meu acabava de tomar forma naquele exato instante.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Vem

Vem, me dá a sua mão.
Quero correr contigo as estradas do destino,
ver brotar todo o amor que eu plantei
ainda sementes nestas terras quando menino.

Vem comigo.
Eu lhe prometo ser fiel até o fim.
Vou lhe contar tantas histórias,
deixar você saber ainda mais de mim.

São tantas coisas que você nem imagina:
os lugares por onde andei,
as vezes que me perdi, os passos que dei em falso,
as outras tantas em que caí.

Conte-me as coisas que eu também não sei.
Entregue-me aquelas cartas amareladas,
leia-me seus versos guardados no fundo da gaveta.
Aqueles que jamais recebi.

Tenho mapas refletidos em meus olhos,
trago bússolas presas em minhas mãos.
Veja: meu rosto é marcado, meu sorriso é indiscreto.
Guardo em meu peito segredos que vão lhe tirar do chão.

Vem,
sem você não vou acertar o caminho.
Vou procurar por atalhos, inventar mil desculpas.
Vou querer sair cedo, cerrar as cortinas do meu palco vazio.





segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Inspiração

Quero escrever sobre o que há de mais bonito,
esquecer o amargo da vida,
respirar outros ares,
sair por aí.

Rabiscar nos muros frases coloridas,
alegrar a cidade cinza,
me perder de mim num instante
e neste mesmo instante me encontrar em você.

Quero riscar na sua pele as estrofes da minha poesia
e rimar no seu corpo toda minha inspiração.
Só assim eu criaria os mais belos versos, ritmados, perfeitos, impróprios,
obras-primas rascunhadas em suas curvas pelas minhas próprias mãos, eu diria.

Quero acelerar meus batimentos, potencializar seu coração,
deixar vir à tona um outro sentido, sentir correr o sangue nas suas veias,
ruborizar minha face alheia, mudar o rumo desta prosa,
caminhar lado a lado, esquecer que existe outro mundo lá fora.

Só então entoar meus textos aos quatro cantos,
ver o sol amarelado desaparecer no apagar das horas,
pintar um céu aquarelado de estrelas refletidas, uma a uma,
e zarpar sem receio no seu mar infinito que tanto me encanta.

Porque todo poeta é um barco à deriva.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Fresta

E quando o outro, ao invés de metade, é espelho?
O reflexo daquilo que ninguém nunca viu?
Aquilo que só você sabia,
os sinais que só você conhecia,
o seu verdadeiro eu?

E quando o outro é aquele que se revela,
feito luz por detrás de uma fresta,
uma brecha que se desfaz em clarão?

Ainda há pouco estava tudo mesmo tão escuro.

sábado, 12 de janeiro de 2013

'O biso é rei' ou "O conto atrasado de Natal"

Clima bom de Natal. Casa cheia. Bacalhoada pronta. Pernil desossado. Rabanadas fritas. Peru assando no forno. Criançada pra lá de animada com os presentes e os mais velhos pra lá de animados com o vinho transbordando nas taças. Até que mamãe chega na varanda onde estávamos eu e meus primos e dispara:

. Seu avô Saulo não está nada bem, Mauro.

- O que foi? É a pressão de novo?

- Não. É a cabeça. Está falando umas coisas sem sentido, vai lá dentro pra você ver.

Vô Saulo tem 92 anos, é o patriarca da família. Figura adorável, querido por todos. Excelente contador de histórias, bem humorado que só, dono de um arsenal de piadas impróprias e por isso mesmo divertido. Festa com o vô Saulo era alegria na certa. Naquele Natal não poderia ser diferente. Mas foi. Ou não, dependendo do ponto de vista.

Fui até a sala e ele estava lá, sentado na cadeira de balanço. Ao seu lado o filho mais velho, tio Lauro, irmão de mamãe, com cara de poucos amigos.

- O que é isso, papai? O senhor está ficando louco? Depois de velho deu para falar insanidades?

- O que foi, vô? - perguntei.

- Só porque eu falei do Zezinho o Lauro ficou assim, nervoso, me chamando de doido.

- E quem é Zezinho, vô?

- Vai continuar com isso, papai? Quer estragar o Natal? Porra, Mauro, não dá corda pro seu avô, faça-me o favor. Vamos parar por aqui.

- Zezinho foi o meu primeiro amor.

Silêncio sepulcral. Tio Lauro com olhos arregalados. Minha mãe de queixo caído. Tia Odete, mulher do tio Lauro, sem saber onde se enfiar e eu meio sem entender se era aquilo mesmo o que eu tinha ouvido.

- Quem? - continuei.

- O Zezinho lá de Santo Antônio de Pádua. Ninguém aqui conheceu. Era um menino bonito. Meu amigo.

- Amor de amigo, claro - eu disse, tentando aliviar a situação e segurar o riso ao mesmo tempo. Todo mundo aqui tem um amigo do peito, daquele que é quase irmão - eu completei.

- Sinto saudade dos abraços que ele me dava lá na beira do rio.

- Também abraço meus amigos, vô. Dá aqui um abraço - tentei amenizar.

- A gente dava uns beijos também.

- Porra, pai. Vai continuar com isso? - esbravejou tio Lauro.

- Deixa ele falar, tio Lauro. É normal que amigos se beijem.

- Na boca?

- Mas era na boca, vô?

- Era. De língua e tudo.

Silêncio. Climão.

Tio Lauro enfurecido de um lado, mamãe e tia Odete ruborizadas do outro, enquanto vô Saulo continuava na cadeira de balanço com sua taça de vinho pela metade e os olhos distantes, pensando no tal do Zezinho. Eu, que estou acostumado a ver de tudo um pouco nessa vida, confesso que também achei aquilo muito esquisito. Pô, vô Saulo sempre teve uma imagem de macho viril, gostava de esportes, foi jogador de futebol, porte atlético, um senhor bem apessoado. Pelas fotos nos álbuns da família dava pra ver que ele tinha sido um jovem bonitão, sempre vestido em ternos bem cortados, cabelos engomados, um advogado bem sucedido. Casou cedo com vó Margareth, teve dois filhos, cinco netos, três bisnetos. Teve o que todos sempre consideraram um casamento perfeito, sólido, feliz mesmo. Um exemplo.

- Mas eu gostava mesmo era do Zezinho. Nunca me esqueci dele.

- Tá caducando, só pode - tia Odete falou baixinho, quase que sussurrando.

- Será que é Alzheimer? - perguntou mamãe, tensa que só ela.

- É falta de vergonha mesmo - disse tio Lauro.

A esta atura os demais primos e primas já estavam todos na sala sem entender muito bem o que estava acontecendo. Uns tentavam distrair as crianças, já com fome, e outros se metiam na conversa.

- Quem é Zezinho? - perguntou Cristina, a neta mais nova.

- Acho que era um namorado do vovô - disse Paulo, o primo mais velho.

- Tá de sacanagem, né? Piada, vô?

- Não, não é piada não. Zezinho foi meu primeiro amor. A gente andava muito por aqueles matos lá na roça. Eu tinha 14 anos e ele tinha 15. Bonito que só, vocês tinham que ver.

- Tô bege, vô - disse Cristina, a neta e minha prima mais nova, enquanto tio Lauro ficava cada vez mais roxo de raiva.

- Gente, o babado é fortíssimo - falou Paulo, o neto mais velho, meio que no deboche, meio que soltando a franga, vai saber.

- Que saudade do Zezinho. Ô, tempo bom aquele!

- Mas rolou sexo, vô? - tomei coragem e perguntei.

- Não. Só carinho.

- Perdi a fome - disparou tio Lauro. Não quero mais saber de pernil, bacalhau, rabanada, porra nenhuma. Pra mim chega. Acabou o Natal.

- Quer uma água com açúcar, um lexotan? - perguntou tia Odete que, sem obter resposta, engoliu o comprimido e a água açucarada de um gole só.

- E o peru? - perguntou vô Saulo.

- O meu está aqui, papai. O do senhor está aí. E ai de quem perguntar pelo peru do Zezinho! Eu não quero mais saber. Vou pro meu quarto. Me deem licença. 

Silêncio.

Thiago, o bisneto de apenas 6 anos, que até então brincava no seu tablet, vira pra Júlia, a bisneta de 3 anos e diz muito sério:

- O biso é gay.

Júlia, que mal sabia falar, começa a repetir aos quatro cantos:

- O biso é rei! O biso é rei!

Clima bom de Natal.


quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Uma outra luz

Acaba logo porque já deu a hora.
Saiba que é preciso acompanhar o passo
do mundo que escorre e corre,
enquanto uns morrem e outros apenas vão embora.

Ontem mesmo soprou por aqui o vento do passado.
Passou por mim assim sem jeito, o vento.
Fez como se fosse um gesto lento,
quase uma brisa leve. Breve.

Antes tivesse vindo um tormento, a fúria.
A tempestade anunciada logo cedo.
O mar quebrando em ondas na minha janela.
O medo que cega e paralisa o coração em silêncio.

Ouça o que eu digo e acaba com isso.
Apague as luzes e bata a porta.
Dê adeus e veja se não esqueceu nada.
O que não tem significado deixe mesmo para trás.

Há que se pensar no novo,
que vem num dia atrás do outro, uma certa ânsia de chegar.
Como os batimentos que não param no meu pulso,
lembram que o tempo é fracionado, ritmado, curto.

Porque é de repente que tudo se acaba.
Quando se vê, é mais um ano que termina.
O sol queimando as marcas da minha pele.
Um outro brilho ainda mais intenso que se descortina.

Fiat lux.



















quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Amigo é pra essas coisas

Quase uma da manhã e o telefone toca. A figura pula da cama, vai atender. Do outro lado da linha, seu melhor amigo com voz de quem está apavorado, como se o mundo estivesse acabando.
- Fodeu, roubaram meu carro - diz ele.
- Onde você está? Te machucaram? E a Lêda? As crianças? - o outro amigo pergunta.
- Estão bem. Estão aqui comigo, mas a Lêda está dizendo que vai se separar de mim.
- Mas o que tem a ver uma coisa com a outra?
- Culpa da minha sogra...
- Dona Nêuma? O que foi que ela fez?
- Morreu.
- Para de sacanagem. Tarde pra cacete e vc ligando pra minha casa pra passar trote?
- Não é trote. Roubaram meu carro e a dona Nêuma morreu, porra!
- Os assaltantes mataram ela? Vc já chamou a polícia?
- Não, não chamei e não foram os assaltantes que mataram a velha. Ela empacotou hj cedo enquanto a gente ia pra Minas passar o final de semana na casa de uns parentes. Um susto danado. Imagina?
- Sério?
- Sério, cara. No meio da viagem eu comecei a achar estranho o silêncio da jararaca. Ela, que sempre falava pelos cotovelos, estava calada por demais. Quando paramos para comer alguma coisa, já perto de São João Del Rey, ela parecia dormir profundamente. Chamamos uma, duas, três vezes e ela nada. Daniel disse que a avó estava gelada. Foi aí que bateu o frio na espinha. Lêda só chorava e pedia pra eu trazer a mãe dela de volta. Bate na cara daqui, pega no pulso dali e nada. Mortinha.
- E aí?
- E aí que eu disse que ia voltar pra casa, que não tinha mais jeito e que era melhor colocar o corpo da velha na mala do carro porque pagar translado de defunto devia ser caro pacas e sequer o décimo-terceiro eu tinha recebido.
- Não acredito que você colocou a dona Nêuma na mala?
- Coloquei, porra. Eu ia fazer o quê? Ligar pra polícia? Achei mais fácil trazer o corpo na mala e quando chegasse aqui eu dava um jeito. Esqueceu que o primo da Lêda é médico? Ele dá uns atestados sempre que alguém precisa. Ele não ia negar.
- Que merda, cara. Mas e o carro?
- Pois é. Roubaram na Avenida Brasil. Sabe ali onde fica o Bob´s?
- Sei.
- Foi ali. A gente estava chegando, mas o Daniel pediu pra eu parar porque ele precisava ir ao banheiro. Saímos todos do carro. Só a defunta ficou, claro.
- Não acredito.
- Quando voltamos não tinha mais carro, nem dona Nêuma, nem nada. Lêda quis me matar, Daniel danou a chorar e a Clarinha no colo, sem entender nada, tadinha.
- Cara, que louco isso. E agora?
- Não sei. Não posso nem acionar o seguro. Não paguei as últimas parcelas.
- Já se benzeu?
- Uma centena de vezes. Perdi a conta. Posso dormir aí? Lêda não quer que eu fique em casa.
- Vem, né? Já perdi o sono mesmo.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Oculta

És muito mais do que isso.
És tudo aquilo que não me foi permitido.

És aquela que não vê.
A luz que clareia.
A voz doce da sereia.
O encanto do mar.

És o calor que abafa.
O fogo que queima.
A mão que me afaga.
A outra que me arranha.

És de um jeito que arde.
Morde meus lábios tensos,
Chega perto, encosta.
Mostra os seios sobre minha face oculta.

És pedra bruta.
Virgem, santa,
intensa, pouca, louca.
Puta.

És outra que não a mesma.



terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Eu nada sei

Porque eu não sei de nada e você também vive no escuro.
Tão às cegas, tão alheio, tão não sei quê de mim que nem sei.
Certas horas tudo é tão complicado que o mundo parece que está todo errado, meu Deus.

A mentira que eu conto, a verdade que você esconde,
o tanto que eu procuro e não encontro, sem jeito,
um sujeito oculto e no outro, explícito, tão eu.

A face que reflete no espelho não é a minha, mas sou eu quem crio.
Tal qual a arte que trai e fere luminosamente minha retina,
ou o traço que desconheço, feito sombra que se arrasta num final de dia.

A luz que invade por detrás da cortina da sala
ilumina exatamente o verso que eu tento eternizar em minha pele.
É quando eu desconfio que nas minhas veias correm rimas soltas.

É só uma leve desconfiança.
Daquelas que se tem quando ainda se permite ser criança.
Porque o certo mesmo é que eu não sei de nada.