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terça-feira, 29 de outubro de 2013

Milagres urbanos

Você sai de casa apressado, pega o carro, o trânsito está misteriosamente bom. Você chega do Méier até a Praça XI em 15 minutos, vira a curva no quarteirão do Balança Mas Não Cai, tudo parado. Você freia. Não dá tempo, bate no carro da frente, o carro amassa. Você vê. A dona do carro também vê, dá ataque, você pede pra ela ficar calma e estacionar logo ali. Enquanto isso os cifrões turvam a sua visão. Você não pensa em mais nada, a vida tá complicada, você sai do carro, olha pro carro da dona, a dona olha pra sua cara, vocês olham de novo pro carro, cadê o amassado?, vocês perguntam, o amassado sumiu, não tem nem um arranhãozinho sequer, como pode?, ela indaga. Foi milagre, você diz. Então tá, até logo, você está atrasado, ela também. Você liga o carro, ela faz a curva, você ri sozinho e agradece, só agradece.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Folia de Reis, subúrbio e preconceito.


Só fui me dar conta de que eu era suburbano quando entrei na faculdade. Até então eu não tinha a menor noção de que eu pertencia a uma subespécie, considerado por muitos um ser de outro mundo, um alien ou algo parecido. Foi preciso atravessar o túnel Santa Bárbara diariamente e estudar jornalismo na FACHA para me dar conta de que eu era suburbano com todas as letras. Nunca, em momento nenhum da minha vida, o fato de morar no subúrbio foi um empecilho pra mim. Desde que descobri vida após o túnel _ nem sempre vida inteligente, diga-se de passagem _ usei e abusei do meu direito de ir e vir pra onde quer que fosse, pouco me importando que tipo de tribo eu iria encontrar ou se eu poderia pertencer a esta ou àquela. Se eu estivesse a fim de ver um filme na sessão da meia-noite nos primórdios do Cineclube Estação Botafogo, eu ia; se eu quisesse ficar na Farani até tarde da madrugada e depois voltar de ônibus pra casa sem receio de assaltos, eu ficava; se a vontade era de ver o pôr do sol no Arpoador, lá estava eu, da mesma maneira que eu ia pros cafundós de Niterói ou Realengo ou Tijuca e Rio Comprido na casa de meus amigos.
Digo isso porque hoje, conversando com um amigo, morador de Botafogo, percebi enraizado nele o tom do preconceito que muitas vezes nós, brasileiros, conseguimos camuflar. Não sou negro, não sou gay, não sou judeu, não sou portador de necessidades especiais, mas sou suburbano, o que para muitos é quase um pecado, motivo de piadas. Ou defeito, sei lá. "Mas por que você resolveu comprar um apartamento no Méier?" é uma das perguntas que mais ouço, sempre acompanhada de uma cara de estranhamento. Na maioria das vezes não me dou ao trabalho de responder e cada vez mais tenho a certeza de que esses que me fazem este tipo de questionamento pensam como aqueles que vivem no Primeiro Mundo e acham que vão encontrar macacos e índios soltos nas ruas de nossas cidades. Porque o estranhamento é o mesmo, só que numa visão macro. Ou não?
Mas vamos deixar o preconceito pra trás e falar das coisas boas do subúrbio. Ontem, assim que deu meia-noite, soou um foguetório dos bons aqui perto de casa. Desta vez era pra anunciar o Dia de Reis. Mais uma vez fui apanhado por boas lembranças da minha infância, no subúrbio de Pilares, onde nasci, morei até um ano de idade, mas por conta da minha avó e de outras tias, tios e primos, frequentei até a adolescência. Lá passava a Folia de Reis de casa em casa. Lembro de uns homens de uniforme e seus instrumentos musicais, umas meninas carregando umas bandeiras, a do Divino, e minha avó com um bolo que ela fazia com as frutas secas e as nozes que sobravam do Natal. Minha mãe também costumava fazer bolo nesta data, mas de uns tempos pra cá, por conta da diabetes, ela perdeu o prazer de fazer doces e seus bolos, assim como os da minha avó, ficaram na saudade. Confesso que faz anos que não vejo passar uma Folia de Reis. Mesmo aqui pelas bandas do Méier, subúrbio do Rio de Janeiro, o Dia de Reis é apenas o dia de desmontar a árvore e guardar os enfeites de Natal. E só. É como diz a letra da música do Tim Maia: "Hoje é o Dia de Santos Reis, anda meio esquecido, mas é dia da festa de Santos Reis!"
No mais, fui com meu filho, o número um, assistir ao filme do Lula. A oposição pode ficar tranquila. Não é um filmaço. Não emociona. E pela pequena quantidade de pessoas na sessão, deve durar pouco tempo em cartaz. É apenas um registro de parte da história de um homem que conseguiu romper com tudo aquilo que um dia conhecemos como preconceito. Mesmo que este preconceito ainda continue velado por aí.