segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

Amor que não se apaga

A última coisa que eu ouvi antes que tudo se apagasse naquela noite absurdamente quente foi um grito. Eu estava voltando para a minha casa, no subúrbio, completamente suado, cabelo oleoso, amarrotado, fedido, depois de um longo dia de trabalho árduo, dois ônibus sem ar condicionado, um trem lotado e muita aporrinhação. Eu estava cansado, só pensava em tirar os sapatos que me apertavam os joanetes, tomar um banho frio, comer alguma coisa e deitar no meu sofá só de cuecas, barriga apontando para o alto, meu maço de cigarros ao lado e duas latinhas de cerveja até pegar no sono ali mesmo na sala.

Ao descer na estação de trem perto de casa, notei algo estranho. O ar estava pesado, uma espécie de fumaça tomava conta do lugar. Fui logo botando a culpa no calor, que deixa a gente meio zonzo, causa um certo delírio e pode até mesmo matar. Tive um tio que morreu de calor, juro. Eu tentava encarar as pessoas que passavam por mim, mas eu não conseguia foco, a visão tinha ficado embaçada.

Lembro que por alguns segundos eu me encostei numa pilastra, completamente atordoado, um suor gelado que molhou toda a minha roupa, como se tivesse saído do chuveiro. "Devia ser hipoglicemia. Minha mãe tinha dessas coisas. Horrível. Vai passar", eu pensava. Ao meu redor, uma gente muito pálida me olhava, não para me oferecer ajuda, mas como se eles precisassem muito de alguma coisa, muito mais do que eu.

Quando consegui recobrar meus sentidos, estendi a mão para uma uma senhora com lenço branco na cabeça, pele enrugada, olhos fundos, magra, muito magra, saia longa de um tecido já desbotado, uma camisa puída, chinelo de dedos e os pés que mais pareciam raízes de tanto que pisaram esse chão. Mas ela recuou e desapareceu na mesma hora em que alguém gritou desesperadamente, eu caí e, então, tudo se apagou de vez.

Jamais vou conseguir precisar quanto tempo fiquei no escuro. Quando consegui abrir os olhos, custei a entender onde eu estava. Um silêncio e um vazio assustador tomavam conta da estação. Eu via apenas algumas sombras. Tentei chamar por alguém, mas minha voz falhou. Parecia um pesadelo. Eu ainda estava tonto, coração acelerado, uma certa dor nas têmporas e muito medo.

Foi quando eu ouvi um outro grito estridente e percebi uma sombra se aproximando à minha esquerda. Fiquei paralisado. Sequer respirava. Conforme chegava mais perto, mais apavorado eu ficava, até que consegui ouvir os passos, que me pareceram cansados, mas não ameaçadores. Quando passou por mim, a sombra se transformou na silhueta de um homem. Ele parou, percebeu que tinha alguém ali e, silenciosamente, sentou ao meu lado, tirou do bolso da calça um maço de cigarros amassado e uns papeis de carta. Milagrosamente, eu relaxei.

- Quer um cigarro? - ele me perguntou

- Quero.

- É sem filtro, tudo bem?

- Tudo bem,  respondi.

Ele tirou dois cigarros do maço, procurou um isqueiro, acendeu o primeiro, tragou e me deu. Um fumo forte, intenso, que queimava a garganta e batia direto no pulmão. Eu engasguei.

- Segura firme, ele disse.

Eu não consegui falar mais nada.

Ele pareceu não se importar com meu silêncio e desandou a falar. Contou que fora ele quem apagara todas as luzes e que não sabia ao certo o que estava fazendo ali. Havia saído de casa há mais de uma semana. Talvez duas. Carregava apenas uma mochila com duas camisetas, uma calça e um pulôver velho, mas que ele adorava. Presente da sua avó. Tinha também um caderno onde ele fazia algumas anotações, um lápis, uma caneta esferográfica sem tampa e um relógio de pulso preto, sem bateria, que ficava jogado no fundo da mochila e o coração nas mãos.

Confessou ter deixado escapar um grande amor recentemente e que desde então ele, seu coração, só sangrava. Não economizou palavras na tentativa de traduzir a dor que o término daquele relacionamento lhe causou. Metade culpa dele. A outra metade também era culpada. Falou de amor para mim como ninguém jamais fizera antes. Logo para mim, que nunca quis muita intimidade com esse negócio de amor. Mas ele falava de um jeito tão bonito, que mesmo sofrido, dava um alento só de ouvir.

Eu continuei sem conseguir falar nada, mas prestava muita atenção no que aquele homem dizia. Sequer estranhei que estava tudo às escuras e que já devia ser tarde da noite. Pouco me importava. Eu queria mesmo era ouvir o que aquele homem tinha para me contar. Quando eu poderia imaginar ter uma noite daquelas? Eu pensava que ia chegar em casa, tomar meu banho, beber minha cerveja e dormir. Só isso. Mas eu estava ali, no breu, sentado no chão de uma estação de trem imunda e com um homem desconhecido ao meu lado a me falar coisas de amor.

Eu não tinha o que dizer.

Por um instante ele também ficou calado. Acendeu outro cigarro e abriu um dos papeis de carta que ele trazia. Não faço ideia de como ele conseguiu enxergar o que estava escrito no papel, ou se realmente tinha algo escrito ali, mas ele começou a ler e foram as coisas mais lindas que eu já ouvi na minha vida. Naquela carta, ele se desnudava e contava tudo o que havia acontecido, desde quando eles se conheceram até quando tudo desmoronou. Ele contou da pureza e da grandeza de um amor de verdade. Disse que sentia falta da cumplicidade, de caminhar lado a lado, de ouvir as mesmas músicas, do toque, do cheiro, do sexo, de tudo, enfim.

Eu vi aquele homem chorar ao falar de um tipo de amor que eu nunca havia sentido. Eu vi aquele homem se desesperar porque ele sabia que precisava apagar todo aquele amor que ainda existia nele. Um amor que o encantou e que fez com que ele acreditasse que tudo era possível, por pior que fosse o cenário real. Mas a corda que durante tanto tempo os uniu havia arrebentado e fora cada um para um lado. Ele jamais soube da outra metade. Ele também não sabia mais o que restava dele.

Seu coração batia tão forte que eu podia ouvir o som do sangue pulsando. Ele suava. Eu também estava morrendo de calor. Senti minhas pernas formigarem de tanto que eu estava sentado na mesma posição. Senti muita pena dele. Senti inveja também e muita comiseração de mim. Há anos eu vivia sozinho, levando aquela vida medíocre e de relacionamentos superficiais com quem quer que fosse. Nunca me entreguei a nada nem a ninguém. Tudo aquilo que eu acabara de ouvir sobre o amor para mim era novidade ou coisa de novela, de livro, sei lá. Soava estranho. Eu sou um cara estranho.

Na carta, ele também falava das cicatrizes que ele carregava e do tanto que tinha se rasgado de amor, dos sacrifícios que ele precisou fazer, das noites que ficou sem dormir, de como era difícil toda aquela distância entre eles, dos abraços apertados, do carinho desmedido e da saudade absurda que parecia querer lhe enlouquecer dia e noite, noite e dia. Dizia que tudo doía: peito, juntas, cabeça, olhos. Um horror. E que ver tudo aquilo se apagando tinha um efeito devastador na sua vida. Ele queria ter tido mais tempo. Ele achava que ainda podia dar certo. Ele estava procurando a luz. Ele pensou ter encontrado. Mas, de novo, era só ele e a escuridão.

- Ainda está tudo aceso aí, eu falei baixinho.

Ele olhou nos meus olhos e não falou mais nada. Dobrou o papel, enfiou no bolso da calça, fumou outro cigarro e saiu sem se despedir de mim.

E eu fiquei ali no escuro, torcendo para tudo acender outra vez.

domingo, 21 de fevereiro de 2016

Em São Paulo já tem carnaval que eu sei

A cidade de São Paulo se rende ao carnaval

Agora que o carnaval finalmente acabou e que já não esbarramos mais com piratas, Frida Kahlo e bêbados agarrados numa garrafa de skol beats no metrô é que eu me sinto um pouco mais à vontade para escrever sobre a folia de Momo. Só que, meu, eu vou falar do que eu vi lá na terra da garoa, lá na cidade que Vinícius de Moraes apelidou de túmulo do samba, São Paulo. De antemão, já aviso que o poetinha estava errado. Injustiça, crueldade ou pura sacanagem mesmo chamar a maior cidade do nosso país de túmulo do samba. Ao menos nos dias de hoje. Ouso arriscar a dizer que os paulistanos, que agora descobriram as ruas como palco da maior manifestação popular do planeta, podem vir a ser os responsáveis pela renovação do carnaval de rua nos próximos anos. Digo isso com uma certa propriedade, já que passei praticamente os últimos três anos na ponte Rio-São Paulo e ao menos uma vez por mês eu baixava lá pelas bandas do Tietê. Tudo por amor, óbvio.

Durante esses três anos, tive a oportunidade de conhecer um outro circuito, diferente daquele que eu já conhecia de Vila Madalena, Pinheiros e Morumbi. Desci a Augusta, peguei a Consolação, fiquei bêbado na Roosevelt, fui feliz na Benedito Calixto, cruzei a República e comi uma feijoada num samba quente em plena praça Dom José Gaspar, atrás da biblioteca Mario de Andrade, num sábado frio de agosto. De uma outra vez, fui numa roda de samba que acontece todas as sextas-feiras bem em frente à Paróquia Nossa Senhora da Achiropita, na Rua Treze de Maio, lá pelas bandas da Bela Vista. O samba era de raiz, tinha uma gente bamba, italiano da Mooca, uma mistura boa, todo mundo na rua, cerveja gelada e era bonito de ver. Soube também do sucesso que faziam os ensaios da Vai Vai, uma das escolas de samba mais tradicionais de São Paulo e que, mesmo sendo uma das mais tradicionais, os ensaios aconteciam na rua. O trânsito dava um nó. Isso em falar no samba da vela, mas lá eu não fui.

No carnaval de 2014, conheci o Jegue Elétrico, um bloco que saía da Praça Roosevelt, onde ficam alguns teatros, como Sátiros e Parlapatões. O bloco não tinha um carro de som e, aparentemente, nem estrutura suficiente para sacudir a massa. O que existia de equipamento ficava em cima de uma bicicleta colorida e iluminada e de onde uns gaiatos se revezavam no microfone. O bloco demorou umas duas horas percorrendo uns 800 metros apenas. Juntou pra lá de mil pessoas. Todo mundo contente. Era carnaval.

Vale do Anhangabaú tomado pelos foliões


Eu já tinha gostado do clima uma dia antes, quando estive com um grupo de amigos na Benedito Calixto, uma outra praça, só que menos underground, onde vende um tal de buraco quente, que nada mais é que um sanduíche de carne moída deliciosamente temperada e servida num pão francês com um buraco no meio. Daí o nome. Na Benedito Calixto rola uma feira de antiguidades todos os sábados, com direito à roda de choro, um povo descolado, descontraído, bacana mesmo. Foi lá que vi os primeiros paulistanos fantasiados. Meio tímidos ainda, é verdade, como se não soubessem ao certo o que estavam fazendo, mas fantasiados. Bem legal, eu achei.

Já em 2015, fui apresentado ao Tarado Ni Você, um bloco que desfilava pela segunda vez apenas e que sai da esquina da Ipiranga com a São João, trecho ali no centrão velho imortalizado por Caetano Veloso e que só toca músicas do... Caetano Veloso, ora bolas. Quando eu cheguei por ali eu nada entendi. Ou melhor: entendi tudo. Uma multidão de paulistanos seguindo o trio que percorreu as ruas e avenidas de uma cidade escondida entre os arranha-céus e que parecia esquecer seu cinza e se deixava colorir com toda aquele energia que só o carnaval de rua tem. Teve catuaba, uma mania entre os paulistanos, teve beijo na beijo na boca, teve êta, êta, êta, é a luz de Tieta. Teve bunda de fora, suor, chuva, azaração, um bagulhinho bom, uma energia contagiante e a filha da chiquita bacana, porque ela não haveria de faltar. Eu me diverti.

Esse último ano, lá estava eu de novo em São Paulo. Mais por circunstâncias da vida do que por outra coisa qualquer. Dei de cara com o Ilú Obá de Min, um bloco percussivo feminino afrobrasileiro. Estávamos eu e meu filho número dois. Na véspera, Elza Soares havia participado de um cortejo carnavalesco com o Ilú Obá de Min. Tudo organizado, infraestrutura, carro de som, mulherada arrepiando na percussão, brilho, sol, muito sol, um calor que ninguém acredita que faz em São Paulo e muito ponto de macumba. Samba ou marchinha não tinha. Lembrei do Vinícius e saí de lá com a sensação de que eu teria achado muito mais legal o Acadêmicos do Baixo Augusta, bloco que tem como rainha ninguém menos que Alessandra Negrini, despertando tudo quanto é fantasia. E tem samba no pé. Não preciso falar mais nada. Ou preciso?

Foliões paulistanos

Na terça-feira de carnaval resolvi me juntar à massa de adoradores de última hora - ou não - de David Bowie e baixei no Tô de Bowie, um bloco em homenagem ao cantor inglês que morreu recentemente. Não me arrependi. Foi impressionante ver uma multidão brincando, ocupando as ruas próximo à Praça da República, ao Theatro Municipal de São Paulo, elogiando o Haddad e lotando o Vale do Anhangabaú. Não vi uma briga, uma confusão, um sinal sequer de falta de respeito. Muito pelo contrário. Também não vi quase ninguém fazer xixi na rua e nem presenciei cantada barata. Tinha cerveja de marcas variadas, não tinha cercadinho, não vi truculência de guarda municipal, não teve bomba de efeito moral, nem ninguém com a bunda roxa por ter apanhado de cassetete. Juro que não vi. Também não vi samba, confesso, Vinícius. Nem uma marchinha sequer. Senti falta, apesar de ter adorado ouvir Let's Dance ecoar acima do corredor Norte-Sul da cidade que não para.

Não sei se ano que vem estarei mais uma vez em São Paulo durante o carnaval. Tomara. É um carnaval diferente, que mistura rock com axé, arrocha com Sidney Magal, brega e coisa e tal, mas que lembra um pouco o clima bom do carnaval do Rio de Janeiro há uns 15 anos, quando também redescobrimos as ruas. Ok, Vinícius, concordo que falta um pouquinho mais de samba e uns clássicos como Carinhoso, do mestre Pixinguinha, para emocionar a paulicéia que é para lá de desvairada. Só isso. Mas eles vão chegar lá. Pode anotar.



Infinito é o mar

Corre lento alguma coisa em mim feito um rio caudaloso à procura do mar.
Às minhas margens, versos, pontes, restos de amores,
poças d'água onde insisto em chafurdar meus pés.

Às vezes chove em meu leito uma chuva forte, uma saudade que machuca,
que aperta o peito e me desfaz em correnteza.
Neste rio mergulham as Ofélias que me afagam o corpo,
me arrastam e me afogam até desaguar.

Metade de mim é este rio.
Infinito em mim é o mar.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

De novo

Há que se tentar o novo.
Nem que seja um verso,
um som mais grave,
um gesto mais suave,
ou parar no ar feito um beija-flor.

Experimente.
Faça algo que possa parecer sem nexo.
Pratique sempre um pouco mais de sexo.
Seja explícito, curioso, carinhoso,
diga que está a fim, vai por mim.

Há que se encantar mais uma vez.
Encontrar um outro amor,
deixar o passado nas esquinas,
caminhar por ruas desconhecidas,
sentir a pele queimar ao sol.

Siga em frente.
Mesmo em dias tão estranhos,
siga em frente.
Mesmo quando tudo ao redor é não,
siga em frente.

Encontre-se...
o quanto antes.






quarta-feira, 25 de novembro de 2015

Não vou reclamar

Há poucos dias prometi a mim mesmo que eu ia parar de reclamar. Nem eu nem ninguém estava me aguentando mais. Não tem sido um exercício fácil. Ainda mais nos dias de hoje, onde o mundo parece desmoronar, os valores estão todos distorcidos - se é que eles, os valores, existem -, o amor não acompanhou a velocidade da globalização, descobriu-se líquido e escorreu pelo ralo. Está todo mundo se matando, homens e mulheres bombas explodindo, genocídio, intolerância, um fuzuê danado.

Nas redes sociais, uma guerra. Um fala X, outro diz que é Y e todo mundo fica discorrendo teses sobre o abecedário inteiro ao mesmo tempo. Maior sanatório aquilo lá. Tem maluco que defende índio, que defende gay, que defende negro, que defende aborto, que defende a maconha. Tem também o bando que defende a liberação do porte de arma, que defende os valores da família tradicional, que defende quem bate em mulher, que defende o Bolsonaro, que é uma figura indefensável. Inacreditável.

Tem uma turma de doido que quando acontece uma atrocidade, manda logo um comentário pedindo para que um tal meteoro venha e acabe com tudo por aqui de uma vez por todas. Acho engraçada a piada, mas não sei se sou a favor de tamanha catástrofe. Penso em mim, nos meus filhos, neto e todos os que eu amo sendo esmagados por um bloco gigantesco de pedra em brasa e não curto. Não deve ser uma sensação nada agradável. Prefiro acreditar que vai ter um jeito. Só não sei qual ainda.

Mas sem querer reclamar e já reclamando, ando, sim, decepcionado. Acho que todo brasileiro está se sentindo desse jeito não é de hoje. Só que minha decepção não se resume ao PT, esse partido que ajudei a eleger mais de uma vez. De início votei convicto. O Brasil precisava mudar. Era muita roubalheira, havia anões do orçamento, compra de votos, estatais vendidas a preço de banana. Uma farra. O Brasil necessitava urgentemente de ética, de um partido com políticos de moral ilibada, honrados e comprometidos com o povo. E o Partido dos Trabalhadores, queira você ou não, representava tudo isso.

Quando inventaram o Lulinha paz e Amor, falando manso, com a barba aparada, ternos bem cortados e um Nizan Guanaes por trás, eu pensei: pronto, os caras vão comer na mão dele agora e vamos consertar esse país. Você certamente vai lembrar que quando o Lula falava, todo mundo baixava o tom de voz para ouvir o que aquele reles metalúrgico tinha para dizer. Mais uma vez, queria você ou não, era impressionante o carisma daquele barbudo semi-analfabeto, nordestino, filho da seca e da fome.

Então, finalmente, ele foi eleito. Eu fui para as ruas, usei botom com a estrela vermelha, camiseta, me emocionei, vibrei e acreditei. Como você, provavelmente.

Pouco tempo depois do operário chegar ao poder, estoura o escândalo do Mensalão, o famoso esquema de compra de votos de parlamentares que fez ruir com os ideais de ética e moral do povo tupiniquim, ingênuo, manso, massa de manobra, e trouxe à tona uma crise sem precedentes. Desestabilizou tudo. Desandou o bolo. Solou.

Lembro de petistas célebres me confessarem que tudo não se passava de um plano de poder, que era condição necessária para se governar e todo esse blá blá blá que a gente sabe que é verdade, mas que o PT, justo o PT, jamais deveria se sujar daquela maneira. Tanto se sujou que atualmente não temos mais o mensalão, mas temos uma Lava-Jato nas manchetes para ajudar na receita dos jornais.

Hoje, a gente vê um senador da República ser preso e um presidente da Câmara com tamanho cinismo ainda solto e pensa em até que ponto esses homens conseguem chegar. Eu sinceramente não sei.

Minha decepção é com isso tudo que eu tenho visto por aí. Não só no Brasil, que fique claro, mas no resto do planeta. Que raça mais desumana é essa? Na minha infância eu lembro de ter pesadelos com Hitler, a quem até hoje eu considero uma verdadeira aberração, a personificação da besta, e os vagões de trens que serviam de câmaras de gás para acabar com os judeus. Filme de terror. Mal sabia eu que ainda haveria coisa pior nesse mundo de meu Deus.

Dia desses deram fim a um rio por aqui. Senti como se fosse uma artéria minha carregada de veneno a me intoxicar lentamente. Assustador esse percurso da morte, eu tenho pensado. Centenas morreram em Paris numa sexta-feira 13 que jamais será esquecida. Imigrantes tentando cruzar fronteiras na tentativa desesperada de fugir dos horrores da barbárie. Irmão matando irmão. O mundo cada vez mais quente, cada vez mais sujo, cada vez mais pobre, tudo secando ao nosso redor e os homens disputando a tapas o troféu da ganância. É muito absurdo.

Que sinais são esses?

terça-feira, 10 de novembro de 2015

Onofre

Era domingo. Aniversário de sete anos da Isabella. O combinado era comemorar na praia, almoçar e, no final da tarde, encontrar os amiguinhos para cantar parabéns no boliche. A menina acordou cedo, antes mesmo que os pais levantassem da cama, e estava que era só animação. Pulava, cantava, rodopiava, dançava pela sala do pequeno apartamento e repetia que aquele era o dia mais feliz da sua vida. 

- Vamos, gente! Vamos porque eu estou muito feliz hoje!

Ela era a alegria da casa. Falante, educada, engraçada, vaidosa. Além de ser uma bonequinha. Morena, miudinha, cabelos encaracolados, olhos curiosos e dona do sorriso banguela mais lindo do planeta. Não havia quem não fosse apaixonado por Isabella. O pai babava. A mãe era só orgulho. Os avós? Corujas, claro. Isso sem falar na vizinhança. 

- Essa menina é uma simpatia, dizia dona Janete, a síndica, toda vez que a encontrava.  

- Ela é a coisa marfofa, exclamava Tereza, a vizinha do duzentos e dois, quando a via passar pelo corredor. 

- Bom dia, minha princesa, cumprimentava seu Jorge, o porteiro do prédio, sempre que Isabella ia para a escola, ainda com os olhinhos fechados de sono, antes das sete da manhã. 

E naquele domingo ela estava ainda mais radiante. Não cabia de tanta felicidade dentro do biquíni novo que ganhou da vó Cleide. Ganhou ainda um chapéu, um óculos de sol e uma saída de praia cor de rosa, que era a cor que ela mais gostava. Assim como seus pais, Isabella também adorava praia. Foi ela quem decidiu que queria ir à praia no dia do seu aniversário, almoçar fora e depois ir ao boliche com os amigos que ela mais gostava: Bianca, Isadora, Catarina, Arthur, Vinícius e Marina. Estava tudo combinado. Seria perfeito. A não ser por um simples detalhe: quando já estavam no carro, os pais de Isabella resolveram dar uma passada rápida no terreno que eles haviam comprado há poucos meses só para ver se o pessoal da obra tinha mesmo levantado o muro. 

- É caminho, filha. A gente nem vai parar, papai promete. 

Mentira. 

Chegando no terreno, todos saíram do carro para ver o muro que finalmente estava de pé. Jana, a rotveiller, veio correndo, toda estabanada, e por pouco não derrubou Isabella no chão de terra batida. A menina nem se abalou e foi atrás da mãe, que catava algumas mangas caídas de tão maduras. O pai foi conferir as sobras de material enquanto sonhava com o dia em que ia ver sua casa erguida ali, bem do jeito que ele sempre quis. Já sabia até onde ia ficar a piscina, a churrasqueira e a mesa de pingue-pongue. Era uma área boa, com pouco mais de 600 metros quadrados, mas que, até então, só tinha mato, duas mangueiras, uma jabuticabeira e a casinha da Jana, a rotveiller que tomava conta do terreno. 

- Tem um ovo, gritou Isabella. Tem um ovo aqui!

Antes mesmo que os pais falassem qualquer coisa, a menina veio correndo com o ovo na mão. Parecia um ovo de galinha, mas um pouco menor. 

- É de galo garnizé, afirmou a mãe, cheia de autoridade. 

- Como você sabe?, perguntou o pai. 

- Desse tamanho, só pode. 

- Posso ficar com ele?, apertou os olhinhos a menina.  

- Claro que não, respondeu o pai. 

- Isabella, a gente vai à praia, esqueceu?, disse a mãe. 

- Deixa o ovo onde você o encontrou. 

- Mas, papai, acho que está nascendo. Olha aqui, ergueu as duas mãos e mostrou o ovo que começava a rachar. 

Num impulso, Isabella levou as mãos fechadas à altura do peito e ficou acalentando aquele ovinho, como se estivesse mesmo chocando. Jana, a rotveiller, não parava de latir, correndo de um lado para o outro no terreno. A menina não pensou duas vezes. Agarrou-se com o ovo e entrou no carro. Ficou encolhida lá no canto e dizia para os pais que tinha desistido de ir à praia. Também não queria mais almoçar fora. Não queria mais nada, só queria chocar o ovinho. 

- Minha filha, você não é galinha. Esse pinto, se nascer, não vai sobreviver longe da mãe dele, sentenciou o pai. 

- Seu pai tem razão, Bella. Deixa o ovinho aqui e vamos à praia. É seu aniversário, lembra? 

- Mas mamãe, a mãe dele não está aqui. Ele não vai gostar de nascer e não encontrar a mãe dele. Deixa eu ser a mãe dele? 

Não demorou mais que dois minutos e o danado do pintinho começou a quebrar a casca do ovo. 

- Ai, meu Deus, tá nascendo, mãe! Vamos para casa, pai!

Não teve jeito. Naquele dia não teve mais praia, nem almoço em restaurante e muito menos boliche. Isabella quis comemorar o aniversário com o filhinho, digo, com o pintinho que nasceu nas suas mãos. 

- Onofre.O nome dele é Onofre, repetia a menina, encantada com o pinto que acabara de chocar. 

O fato é que Onofre sobreviveu. Com duas semanas, já era um frangote. E o mais incrível: por onde Isabella ia, Onofre ia atrás. Bastava ela chegar do colégio e, pronto. Eram inseparáveis. Dava gosto de ver. Dona Janete, a síndica, de início não gostou muito. Ficou preocupada com o que os outros moradores iam falar, já que Onofre piava dia e noite. 

- E quando esse bicho começar a cantar ainda de madrugada, como vai ser?

- Liga, não, dona Janete. Bom que a gente acorda cedo. Nesse prédio aqui todo mundo adora a Isabella. Duvido que alguém reclame, acalmou Tereza, a vizinha do duzentos e dois. 

E não deu tempo mesmo de ninguém reclamar. Onofre ainda não havia completado um mês e os pais de Isabella resolveram passar no terreno mais uma vez para acompanhar a obra. Foram todos. Isabella e Onofre no banco de trás. O galinho ia todo garboso ao lado da menina, que sorria, toda contente. Ela realmente nutria por ele um sentimento de mãe. Ela piava e ele piava em seguida, como se estivessem conversando. Todos riam. Onofre já era da família. Comia da melhor ração e bebia água sempre fresquinha. Era um galinho garnizé muito do bem tratado, com as penas avermelhadas, o bico brilhoso, peito estufado e a crista já dando sinas que ia tombar para a esquerda, feito um topete. 

Chegando no terreno, todos saíram do carro para ver o andamento da construção. Jana, a rotveiller, mais uma vez veio estabanada. Isabella pegou Onofre no colo, a mãe foi catar mangas, o pai foi ver as sobras de material. O muro já estava pintado, o mato havia sido capinado, o terreno ao lado já tinha sido comprado. Estava um dia quente, de sol, céu azul, quase nenhuma nuvem. Bom para um passeio. Tão bom que Isabella resolveu soltar o Onofre no chão para que ele pudesse conhecer o lugar de onde ele veio. 

- Foi bem aqui que eu te achei, Onofre, começou a contar Isabella. 

Onofre, tadinho, não deu meia dúzia de ciscadas no terreno. Jana, a rotveiller, quando viu aquele galo solto, correu feito uma louca e engoliu Onofre numa só mordida. 

Os pais se entreolharam incrédulos. Isabella, aterrorizada com a cena, deu um grito que ecoa até hoje e desmaiou. Jana, a assassina, digo, a rotveiller, percebendo que era culpada pela gravidade da situação, se escondeu no fundo da sua casinha e de lá só saiu quando começou a engasgar com o bico do Onofre, que era de difícil digestão. 

Tadinho do Onofre. Só sobrou o bico.

Tadinha da Isabella. Recuperou-se do trauma a duras penas. 

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

Quem é esse outro que está sempre ao meu lado?

Há mais de três meses que não caía uma gota de chuva sequer naquelas terras. Nuvens carregadas até pincelavam o céu de negro vez ou outra, mas logo se dissipavam e o azul infinito dominava a paisagem sem a menor cerimônia. O ar estava seco. A pele, os poros e as relações também. Os dias pareciam correr cansados e as noites, quentes e insones. Já não sabia mais há quanto tempo estava ali. Confessou-me mais tarde que lembra de ter ligado para ele no dia de sua morte e me disse, também, que nunca esperava que aquilo tudo um dia tivesse um fim. Mas era o corte que faltava, a ruptura abrupta, a ferida aberta e a saudade que se espalhava por todo o seu corpo feito vírus sem cura que lhe trouxera até ali.

- O que se afasta de mim me pertence, era a frase que repetia inúmeras vezes em meus ouvidos como se eu não estivesse prestando atenção em tudo o que me contava.

Eu custei a entender o que estava por trás daquela conversa toda. Por vezes pensei se tratar de sonho ou de alguma alucinação. Volta e meia eu costumava me deixar levar por devaneios e quando, mais cedo ou mais tarde, eu dava por mim, tudo não passava de fruto da minha imaginação. Eu até usava uma coisa ou outra para poder me iludir um pouco, mas daquela vez, não. Tudo era muito real. Aquela pessoa realmente existia e estava ali na minha frente, feito espelho que se quebra, a se permitir mosaico de si mesma. Engraçado é que há anos não nos víamos. Sabíamos um do outro, era como se caminhássemos lado a lado, mas não nos olhávamos, não nos procurávamos mais. Era como se algo tivesse se perdido entre nós. Como se tudo tivesse secado.

Mas naquela noite choveu. E conversamos. E choramos juntos. Inundamos nossas faces. Regamos nossas histórias. Transbordamos nossas memórias há muito esquecidas em terreno áspero e longínquo. Lembro que demos as mãos e foi então que, por muito tempo, não sei quanto, ficamos em silêncio. O barulho da chuva forte escorrendo no telhado da velha casa de paredes amarelas era o único som que havia ali. Tenho pra mim até que por alguns minutos paramos de respirar. Nossos corpos feito estátuas, inertes, tudo ao redor, mas tudo ao mesmo tempo ausente. Até que veio o vento e com ele as folhas das árvores que se sacudiam lá fora se espalharam por toda a sala, levantaram a poeira, bateram as portas, escancararam as janelas e aquele movimento todo fez com que despertássemos. Nossas mãos se soltaram. Olhos nos olhos. Corações a mil e os pensamentos feito as folhas espalhadas pela sala, bagunçando tudo, só que dentro de nós.

- O pacto era com a felicidade, eu consegui dizer num sopro de lucidez. Mas talvez você não tenha entendido o real significado e tenha te restado só esse vazio, esse oco, esse deserto onde você resolveu se instalar.

Não esperei resposta. Disse isso como se fosse uma verdade absoluta - tenho essa mania desagradável - e levantei para trancar as janelas e abrir algumas portas. Só ali onde estávamos havia luz. Os outros cômodos estavam todos apagados. O chão de tábua corrida rangia a cada passo que eu dava e eu podia perceber o quanto havia de solidão em mim também. O quanto meu pacto havia se quebrado, partido, estilhaçado e eu vi que eu era da mesma matéria que o pó que sujava meus pés descalços ali naquela noite de chuva forte depois de meses de estiagem.

- Eu também sou esse pó, respondeu, então, em voz baixa, quase um lamento. Eu sou o pó, mas há muito mais em mim. Eu sou o vento, sou o sol que castiga e sou essa chuva que alivia e traz alento. Eu sou o rio que se perde no mar, a fonte inesgotável da vontade, o brilho que te guia, os braços que te carregam. Eu sou o seu caminho. A sua estrada está em mim.

- Mesmo que eu me afaste?, perguntei.

- Não adianta se enganar e levantar com a desculpa de que vai trancar janelas e abrir algumas portas porque tudo acontece exatamente como deve acontecer, você sabe. É correnteza, é fluxo, é movimento, fluidez. Nada vai conseguir barrar. Chega a ser insensatez não perceber. Somos espelhos, lembra? Eu conheço tanto de você quanto você conhece de mim.

- Mas o que tem a ver se somos reflexo um do outro ou não? Onde foi que isso entrou em jogo? Foi você quem chegou aqui junto com a chuva e desandou a falar. Não te perguntei nunca nada. Há anos não lembrava da sua existência. [Mentira] Você hoje apareceu do nada, junto com toda essa chuva, e veio me contar do dia da sua morte, das suas feridas abertas e da saudade que machucava seu peito. Parecia alucinação.

- Anunciação, não alucinação. Não esqueça que eu trouxe, além da minha morte, a chuva que lava, que rega, que regenera e mata a sua sede e a minha.

Ouvi trovões lá fora.

(Quem é esse outro que está sempre ao meu lado?)


quarta-feira, 30 de setembro de 2015


Pra quem ainda não viu, aí vai minha participação no show do mestre Mautner, no Sesc Vila Mariana (SP), em março deste ano. Que honra, meu Deus, que honra!

sexta-feira, 28 de agosto de 2015

Assimétrico

Minhas palavras são tortas.
Já não sigo a linha reta.
Não encontro o jeito certo.
Não acesso.
Só há verso em meu avesso,
confesso.

quinta-feira, 30 de julho de 2015

Âncora

Há um imenso oceano lá fora
e a saudade ancorando dentro de mim.

Ondas que batem nas margens,
as minhas,
meus pés sujos de areia
se desfazendo em grãos
por onde pisei.

Nas estradas de onde eu vim,
meu céu de estrelas,
minhas flores,
de todas as cores.
O mais bonito jardim.

Marco encontro com minhas esquinas
meus desvios, curtos-circuitos,
passagens subterrâneas,
e me perco nas imagens presas na retina.
Cortina da fumaça que enche meus pulmões.

Ora sou o copo d'água que me afoga
antes de matar minha sede.

Ora sou a correnteza que me abraça
sem licença e me carrega.

Ora sou o vento que sopra minhas velas ao mar.

Oceano, saudade e âncora.

Tudo isso dentro de mim.











 
 












quarta-feira, 22 de julho de 2015

Zíper


21h30, ainda estou no jornal, quando toca o celular. No identificador de chamadas aparece escrito MÃE em letras garrafais. Eu atendo, lógico.
- Alô...
- Marcio, sou eu, você já está vindo pra casa?
- Já, mãe, estou desligando tudo aqui. O que houve? 
- É que eu fui no Imperator com a Soninha...
- E?
- Cheguei agora...
- Mas está tudo bem, mãe?
- Está... só estou entalada.
- O que foi que você comeu dessa vez, mãe? - pergunto já no nível do desespero.
- Nada demais.
- E está entalada com o quê?
- Com o vestido...
- Oi?
- O zíper, não estou conseguindo abrir o zíper.
- ...
- Não demora a chegar não, tá?
- Tô indo, mãe... tô indo!

Linha 247

20h30, vc já está podre de cansaço, condução cheia, engarrafamento master, ônibus incendiado na via de acesso ao seu bairro, sirenes atordoando lá fora, carros da PM tentando ultrapassar, inflação, Petrobras dissolvendo, máfia dos ônibus com dinheiro na Suíça, votação do Estatuto da Família, grana curta, fome, dor de cabeça, tiroteio no São João, até que começa um bate-boca na linha 247 entre uma loira de meia idade com shortinho e barriga vergonhosa pulando para fora e um senhor careca, camisa puída, tudo gente simples:

- Quer conforto? Vai de táxi, grita a loira.
- Abre essa janela! Está calor! , responde o senhor.
- Não está vendo que a janela está emperrada, p*rr@? , exclamou a princesinha.
- Mal educada!, gritaram lá atrás.
- Tua mãe!, bateu de pronto a desbocada.
- Cadê o ar condicionado desse ônibus?, disse um gaiato.
- Pergunta pro prefeito, respondeu outro.
Enquanto isso, passa um comboio do Bope armado até os dentes ao lado do ônibus. Todo mundo se cala. Tremendo silêncio até que o senhor careca se levanta, mete a mão no vidro e abre a janela de uma tacada só.
- Deixa essa merda aberta!
(E seguimos viagem)

Oi?

JN no ar, Lava-Jato encabeçando o noticiário, dona Lígia deitada no sofá, ar condicionado ligado, olhar intrigado, até que vira pra mim e diz:

- Como é que pode, né?
- Pois é, mãe, falta de vergonha na cara.
- Não é possível. Eles já eram ricos.
- Mas eles sempre querem mais. É muita ambição.
- Eu gostava deles. Cantavam desde criança.
- Quem, mãe? De quem você está falando?
- Sandy e Júnior. Não ouviu o repórter falar o nome deles? Que sujeira...
- Pelamordedeus, mãe! É Sandes Junior, deputado...
- Nem sabia que eles tinham entrado pra política, uai. Precisava disso?
- ...
(Não, mãe, não precisava!)

sexta-feira, 8 de maio de 2015

Síndrome do pânico

Vieram me contar que lá pelas bandas das montanhas infinitas das minas gerais, há muito pouco tempo atrás, havia uma menina moça que sofria de pânico, essa síndrome que mete um medo danado. Disseram também que essa menina moça era muito bonita, apesar de franzina. Dona de cabelos longos, rosto pálido, braços finos, cotovelos ressecados, mãos maltratadas, unhas roídas e os olhos, estes sempre perplexos, virados para os cantos da casa simples de piso frio, umas lajotas desbotadas, manchadas de cera barata. Os pés, sempre descalços e úmidos, grudados naquele chão. O mundo lá fora gritando que já era mais do que passada a hora e o coração, sempre agitado, a sufocar-lhe o peito e a dizer-lhe não.

Ela tinha medo de tudo. De fantasma, de escuro, de barata, de cachorro, até de gente. Mas não era nenhum desses medos que a apavoravam agora. Quando criança, brincava na rua, espalhava alegria, corria, dançava, pulava e se divertia. Sabia subir em árvores, ficava de ponta cabeça, virava cambalhotas, gostava de ouvir histórias e de uma boa cantoria. Tagarelava, contava causos, piadas, imitava vozes, ralava os joelhos e ao invés de chorar, sorria. Era a dona da gargalhada mais desconcertante e debochada daquela cidade com pouco mais de mil habitantes. Todos a conheciam. Todos a adoravam. Todos sempre queriam estar com ela.

Naquela época o céu pintava a vida de azul e aos olhos dela tudo era ainda mais bonito. O sol não castigava, a chuva não faltava, a fome não doía. Tempo bom aquele em que todo mundo se respeitava, ninguém se machucava, todo mundo se ajudava, um cuidava do outro e as manhãs chegavam mansas, anunciando mais um lindo dia que então passava até que vinha a tarde e soprava a brisa. Revoavam os pássaros. Anoitecia. Lua clara bem lá no alto e ao voltar para a casa, o colo quente da mãe, a comida farta no fogão e o beijo carinhoso do pai. Era assim naquela época.

Ninguém sabe bem ao certo, nem ela, quando foi que tudo mudou. Ela apenas lembra de ter acordado sobressaltada numa madrugada em que chovia, janela aberta, quarto molhado, portas batendo, ventania, falta de ar. O coração disparou, veio na boca, voltou, uma vontade de chorar, de sair dali, de berrar para que o temporal passasse e ela pudesse voltar a respirar e a dormir sossegada até amanhã de manhã. Quando levantasse, ela queria encontrar tudo como antes, no mesmo lugar. O mesmo céu, o mesmo azul, o mesmo jeito de enxergar.

Pouco tempo depois dessa madrugada ela já não saía mais de casa. Seus ombros se curvaram, suas sobrancelhas arriaram, seu sorriso murchou, a vida não tinha mais graça, era tudo cinza, barro, agonia, nó. Ninguém da cidade entendeu nada. Todos sentiam sua falta. Onde estava toda aquela graça? O que havia acontecido com ela? Ninguém sabia. Nem ela. E o tempo foi passando, cada um foi vivendo a sua história, procurando um final feliz. Só ela havia ficado ali. Paralisada. Entorpecida. Trancafiada em seu mundo. Sofrendo sozinha. Seus nervos estremeciam só em pensar em sair de casa. Foram meses assim. Quiçá alguns anos. Pânico.

Até que um dia apareceu na cidade um circo, desses que rodam o interior do país, com malabaristas, engolidores de fogo, mágicos, palhaços coloridos e todo aquele ar decadente. Montaram a lona na praça bem ao lado da igreja e anunciaram  num carro de som estridente o espetáculo daquela noite. "Respeitável público, o Grande Circo Lúdico chegou. Venham rir. Venham se emocionar. Venham se divertir", gritava o locutor. Ela deu um pulo e levantou da cama, calçou as sandálias e foi até ao portão. Um arco-íris nos céus, sabiás cantarolaram, a mãe não acreditou, o pai quase chorou, um vento leve desarrumou seus cabelos e ela então viu a equilibrista na corda bamba, os contorcionistas, a mulher barbada, os anões e o atirador de facas, que era um rapaz bem apessoado, cabelos dourados, braços fortes, lhe sorriu um sorriso farto que fez até sentir arder o rosto. Palpitação. Coração na boca. Rubor. Calor. Amor. 

Disseram que naquela mesma noite, depois do espetáculo, ela foi embora com o pessoal do circo. Deu adeus à mãe, pediu a benção ao pai, arrumou as trouxas, tomou coragem e partiu debaixo de um céu estrelado, estrada de terra iluminada pela lua cheia, olhares incrédulos e em seu peito só havia esperança e vontade. Corre à boca miúda que hoje ela voltou a ser feliz e a contagiar a todos que estão ao seu redor. De vez em quando ainda aparece na cidade para se apresentar com a trupe e visitar os pais. Casou com o atirador de facas, aquele rapaz bem apessoado, de cabelos dourados, braços fortes, sorriso farto e vive a mais linda história de amor. É uma das principais atrações do circo. Nem parece aquela menina moça que sofria de pânico e definhava meses e anos dentro de casa com palpitações e tremores. Destemida que só, virou mulher de fibra, deixa-se amarrar numa placa giratória de madeira e, enquanto tudo roda, ela sente as lâminas afiadas passarem rente ao seu corpo seminu. Uma a uma a tirar-lhe fino da pele lisa.

Na arquibancada improvisada, a plateia em silêncio sequer respira, atenta, tensa, em pânico, até romper nos mais intensos aplausos. No picadeiro iluminado, lá está ela sorrindo, tranquila. Sem medo algum.

Foi o que me contaram.            








sexta-feira, 27 de março de 2015

Onda

desfaz de mim a sombra e me deixa ver o sol.
me traz a luz do amanhecer,
aurora!
faz de mim o vento, o céu, o sal,
ressaca que arrebenta nas pedras do cais.

segura a minha mão quando eu quiser andar,
guia meus passos pelo chão,
abre meus olhos, revela suas cores,
livra minhas dores,
amores.

me deixa correr para o mar
molha meus pés na foz do rio que deságua .
me transforma em correnteza,
me solta,
me beija.

a mesma onda que me leva,
é aquela que depois me traz.

me leva...
... me traz...
me leva...
... me traz...

me leva...
... me traz...
me leva...
... me traz...

 me leva...
... me traz...
me leva...
... me traz...

terça-feira, 24 de março de 2015

Tempos de chuva

Finalmente havia começado a chover. Depois de meses de estiagem e ameaça de racionamento, chuva. Muita chuva. A pele já estava áspera, os lábios rachavam, as mãos como se estivessem cobertas por um fino pó, os pés feito cascos e aquele cheiro de podre no ar. A impressão que dava era a de que o mundo tinha passado dos limites. A classe dominante jamais deixaria de ser dominante e ele ali no meio daquele jogo sujo. Enquanto uns gritavam de cá, outros urravam de lá. Uma confusão generalizada, ninguém se entendia, toda hora uma discussão, um comentário mais agressivo, cada um com a sua opinião. Uma nova Torre de Babel, só que desta vez globalizada e com rede wi-fi. 

Os telejornais e praticamente toda a mídia tradicional mais parecem os mensageiros do apocalipse. Tudo é tenso. As notícias são anunciadas numa rigidez cadavérica, causando um terror psicológico sem precedentes, insônia, pesadelo, crise nervosa, psoríase e até mesmo morte súbita. Lá no poder, os ratos, os gatunos, os larápios, os espertos, os filhos dos espertos, os netos, a família toda. Um lixo. Era difícil respirar. Para ele, então, que sofria de asma e aquela pressão toda em seu peito só causando peso, suor e dor. Era quando ele abria a janela e o vento soprava para dentro outros ares. 

Ele dormia pouco, se mexia muito. O lençol nunca parava na cama, as pernas descobertas, os pés para fora do colchão de molas, a cabeça girando, a mente tentando acalmar e aquela voz aguda interna dizendo todas aquelas coisas que ele já sabia. Quase todas as noites era assim. Ele apagava as luzes, fechava e abria os olhos, se distraindo com o reflexo dos faróis acesos nos carros que aceleravam na rua. O sono não vinha. Deitava e rolava. De um lado para o outro. Até cansar e adormecer. Mas era um sono leve. Logo amanhecia e ao invés de pássaros cantando, buzinas apressadas anunciando que ele já estava atrasado mais uma vez. 

Ele levantava, corria para o chuveiro, um banho frio, filete de água escorrendo no rosto para espantar o cansaço e se misturar ao pranto daquele que precisava esquecer o que tinha para ser esquecido. O que doía mesmo era a saudade do que havia ficado para trás. Especialmente naquelas manhãs cinzentas, quando ele se olhava no espelho embaçado e via que restavam apenas algumas peças precisando de encaixes. O trabalho estava uma merda. A arte não lhe dava dinheiro. Todos os que ele amava estavam longe. Ele não estava assim tão só, mas dentro era como se tudo estivesse oco, roído, evaporado. Ele estava seco. 

Por sorte, a chuva havia chegado. 


quarta-feira, 18 de março de 2015

Para detonar a cidade

Eu não vim aqui falar do kaos, nem dos deuses da chuva e da morte.
Vim aqui dizer que eu tive a sorte de encontrar no meu caminho um pensador.
E que por onde quer que eu ande ele vai estar ao meu lado,
mesmo que eu já não esteja mais aqui.

Assim como ele, eu vim trazer o doce mel da poesia.
O verbo que me rasga a noite.
A harmonia que me invade dia a dia.
O ritmo, a dissonância, a melodia.

Eu vim fazer soar os timbres das canções que eu nem sabia que havia em mim.

Porque o que temos aqui hoje é arte.

É som,
é música,
é o verso da palavra escrita, sílaba por sílaba,
até escorrer pelo canto da minha boca e da sua.

A rima que sussurra em meu ouvido
vem do acorde que te sobe e te arrepia.

Arte que ecoa e transforma e transmuta e atravessa o tempo.
Eternamente provisório é o tempo em minhas mãos.
E nas suas.

Mas do que é feito o tempo?

É a linha tênue entre um instante e outro,
aquilo que entrelaça, que une, que liga
e que de repente despedaça,
desfaz o nó.

O tempo faz a gente virar pó.
E do pó, a gente vira luz
E da luz a gente faz um som.
Para cantar e iluminar essa cidade.

Uma ode à vida, que é essa dança ininterrupta,
constante cultura.
Negra, branca, ameríndia,
Essa mistura amalgamada,
que volta e se junta aqui de novo mais uma vez.

Incessantemente.

Porque já dizia outro poeta: o tempo não pára.
E encontra as canções perdidas de um disco antigo
que nunca deixou de tocar, aqui, ali, em todo lugar.

Para detonar a cidade.

Que feliz cidade é essa?







quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

Impressões sobre o caos I

Eu quero a paz que vem depois de tudo isso,
a luz que me alumia,
a tempestade que cessa,
a porta que abre,
o vento que me refresca.

Eu tenho pressa,
quero tudo no mesmo dia:
a mão que afrouxa o nó,
o abraço que alivia o peito,
o alimento que me sacia.

Então, corre e me oferece uma prece,
uma prenda bonita que seja,
aqueles versos no meu ouvido,
a claridade dos seus olhos mansos
que me deixam ver quem você é.

Rasga a minha roupa suja,
revela a minha face oculta,
veste a minha carapuça,
mas olha para mim e fala comigo.
Encontra aquele que aqui dentro habita.

O mundo lá fora segue em chamas,
uma tremenda loucura,
eu ando meio perdido.
E você?

Fica comigo.
Não vira pro lado.
desliga a TV.

Eles só sabem do caos.









quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

Pensando em quê?

Eu vivo num lugar hostil. Por mais que o cenário ao meu redor seja dos mais bonitos do mundo, eu vivo num lugar hostil. É violência, falta de assistência, falsidade, cada vez menos oportunidades, pobreza, abandono, corrupção, pouca vergonha, nenhuma educação, rasteira, pernada, todo mundo querendo te derrubar no chão. As coisas andam quentes demais por aqui. Minha mãe tem reclamado sempre que eu chego em casa que o calor está fora do normal, que ela nunca viu um verão assim, que deve ter muita gente morrendo por aí. Eu respondo que sim, digo que as coisas estão realmente estranhas, que na minha opinião o mundo já acabou, que nós estamos apenas sobrevivendo com o que restou e que quando todas as fontes secarem, babau, já era pra nós, humanos, raça desgraçada. Ela arregala o olho bom, faz um muxoxo com a boca, acha que eu não estou falando sério e pede um copo d'água bem gelado.

Eu obedeço.

Tenho visto muita maldade por aí, e confesso, estou meio que anestesiado. É como se eu mergulhasse num mar de xilocaína antes de levantar da cama e sob o efeito anestésico e quase letárgico eu me mantivesse durante todo o dia, até voltar para casa, para dentro da minha fortaleza, no meu aconchego, na minha pseudo segurança, para aquilo que eu reconheço como sendo eu. O mundo é muito mais bonito dentro de mim. É um laço infinito de cor azul turquesa, são flores brancas que eu semeio num jardim e as cartas de amor que eu ainda rabisco sobre a mesa. Minha mãe sabe que existe esse outro mundo em mim, pois as mães sabem de tudo sempre. Ela faz questão de não me deixar esquecer um só instante daquilo que eu devo acreditar, diz que em breve essas coisas todas vão melhorar, que a crise vai passar e que os meninos que há poucos meses resolveram morar na esquina da minha rua vão voltar para suas casas. Eu respondo mal criado que sou que eles não têm casa, pois se tivessem, era lá que estariam agora e não na rua, à mercê da sorte. Eles não querem a morte, ela diz baixinho, enquanto pega o terço e vai rezar.

Eu me calo.

Penso em como ela consegue ser tão simples, encontrar as soluções mais fáceis, acreditar num mundo cor de rosa, criar uma outra realidade. Será efeito dos remédios?, eu me pergunto. Não, ela sempre foi assim, dessas que nunca reclamaram de nada e suportaram bem a dor. Tão diferente de mim, que não aceito, que me revolto, que esbravejo, falo alto, corro atrás daquilo que eu acho que é meu de direito, não engulo sapos, bato de frente, dedo em riste, olho no olho, dente por dente. A vida me transformou nesse sujeito da porta para fora. Criei cascas, usei armaduras, envelheci. Caíram meus cabelos, outros pêlos me nasceram brancos, deixei para lá tantas certezas, quero outra profissão, um recomeço, enquanto vejo no espelho à minha frente o mesmo riso franco que sempre me serviu de âncora todas as vezes que eu quis voltar para dentro de mim.

Pensando em quê?, minha mãe pergunta.

Nesse calor, minha mãe, nesse calor.


sábado, 20 de dezembro de 2014

Nu

E eu,
que não sou nada disso,
não reconheço mais o inverso
que há em mim.

Então, eu recomeço,
recrio, invento,
tento.
Tudo ao mesmo tempo.

Ouça:

Ao meu redor ainda há outras rimas
procurando nas meninas
a alma, a pele, a coisa cristalina,
aquela luz que alumia o verso
até expandir meu plexo
e dar início à cantoria.
Clave de sol para esquentar minhas horas
e um sopro leve no final do dia.

O resto é sombra.
É rastro.
É pó de pedra no chão
de terra batida onde corre o rio.

E eu, que ora estou nu,
há muito já não sei para onde vou.



quarta-feira, 1 de outubro de 2014

As horas passam rápido demais

Mesmo se ela chegasse ao som de música e me abreviasse a dor,
talvez eu não percebesse.
Eu ando mesmo muito desatento ultimamente com a poesia.
Há o descompasso, o ritmo acelerado e todo o barulho que faz do lado de fora,
o caos que teimam em chamar de vida em alguns livros e filmes por aí.

Então eu penso que já pode ter chegado a hora
e recolho tudo o que eu ainda não disse.
Eu guardo todas as palavras no meu velho baú,
junto as cartas nunca escritas e outras tantas que eu também não li,
é só silêncio no meu interior.

Eu já não ouço mais os versos que ali havia e que me sopravam todas aquelas rimas.
Eu ando mesmo saudosista esses dias.

Se minha avó ainda estivesse viva, ela ia cantar uma canção para eu dormir agora,
feito aquelas que ensaiava quando eu deitava em sua cama
nas noites em que eu não tinha sono.

Naquela época eu inventava histórias e prestava atenção em tudo o que eu via:
as crianças na praça, as mulheres na esquina, o cigarro aceso nas mãos do meu pai.

Eu sempre tive os olhos pequenos, porém ligeiros e sorridentes.
Os gestos lentos, estes se aproximaram com o passar dos anos
e foram se instalando por aqui.

Eu era o fruto bom amadurecendo devagar até me desprender do caule ao chão.
De uma só vez, eu semeei a terra úmida e quente que me amorteceu a queda
e me recebeu inteiro.
Porque jamais me desfiz em pedaços.
Jamais.

A morte pode ser lenta, eu sei, mas as horas pelas manhãs passam rápido demais.

sábado, 13 de setembro de 2014

Palavra

Quisera eu que a palavra fosse simples palavra,
um substantivo concreto escrito em linhas tortas,
um rabisco em círculos na parede fosca,
um som, um verbo, um grito que sai da minha boca.
Quisera.

Tomara ela fosse palavra solta,
dessas que o vento faz que traz e noutras vezes carrega.
Palavra ventania. Palavra tempestade.
Palavra atemporal.
Tomara.

Quem dera essa palavra fosse pressa,
e ficasse presa em minha garganta,
deixasse algumas frases incompletas,
e uma ou outra oração sem o sujeito.
Seria perfeito.

Quem sabe fosse então palavra de honra,
um compromisso que se assume verbalmente,
o juramento que se fez um dia por escrito,
o documento, só o que vale, tudo aquilo que já foi dito.
Só isso.


domingo, 7 de setembro de 2014

Hábito

Naquela manhã, ele, como de hábito, não tomou café, não leu os jornais, não ligou a TV. Naquela manhã, ele, como de hábito, não falou com ninguém. Andou pela casa descalço, abriu todas as janelas, deixou a luz entrar. Como de hábito.

Naquela manhã, havia com ele todos os não saberes, todos os questionamentos acumulados durante as noites mais escuras. Ele, então, como de hábito, abriu os braços, fechou os olhos, encheu o pulmão de ar até quase estourar. Um dois, três, quatro, cinco, seis, contou, e soltou tudo bem devagar.

Às vezes a vida é cristal transparente. Visão de lente sem filtro. Manhã de luz muito rara, pensou.

Pensou também no seu analista e no por quê de nunca mais tê-lo encontrado. Há certas coisas que somem de nossas vistas. Isso é fato. Melhor se fosse apenas um hiato.

Lembrou das tardes nas encostas do bairro da Glória, do cheiro de chuva que batia na pedra onde a água escorria, do vai e vem nas ladeiras altas, do sobe e desce nas escadarias, num tempo em que tudo dentro dele já não era só vazio e silêncio. Uma conversa interna, tantas outras personas, algumas não tão íntimas.

Quantos ainda lhe caberiam ser?, perguntou.

Toda aquela multiplicidade aparente e a vida, bem ali na frente, feito boca de cena, palco iluminado, peça de teatro. Tudo isso logo naquela manhã em que ele, como de hábito, queria respostas prontas e diretas.

(como se a vida já não fosse o óbvio)

segunda-feira, 28 de julho de 2014

Flores azuis miúdas

Se não estou enganado, foi numa noite turva de inverno que ele apareceu. O botequim da esquina ainda estava aberto. Dois ou três velhotes bêbados apoiavam-se no balcão gorduroso. Um deles carrega um rádio de pilha ligado, volume baixinho, numa estação cuja trilha sonora era a fina flor da música dor de corno. Um gato amarelo, já quase cego e sem rabo pousa esparramado entre garrafas empoeiradas de aguardente, equilibradas numa prateleira torta, pendurada precariamente na parede que um dia foi coberta de azulejos portugueses. Logo acima, um altar com a clássica imagem de São Jorge, o santo guerreiro, acompanhado de uma bandeirola já surrada do Vasco da Gama, umas fitas coloridas do Senhor do Bonfim, um copo de geleia com água e, dentro, uns galhos de arruda murcha e uma semente de olho de boi para espantar o mau olhado.

Abigail, a gorda, estava no caixa. Unhas impecavelmente pintadas de vermelho, bochechas rosadas, cabelos negros, ondulados, oleosos e displicentemente penteados para o alto, como de costume. Vestido preto, de corte vulgar, malha barata, marcando bem o excesso de curvas que se derramavam num decote generoso e revelavam o colo suado e o semblante cansado depois de um dia inteiro contando dinheiro entre um gole e outro de cerveja preta mais uns pedaços de carne assada. Abigail, além de ser gorda, era mal humorada, pavio curto e volta e meia desfiava todo o rosário de palavrões e xingamentos. Bastava se sentir acuada. Dava medo. Com ela não tinha fiado, não tinha conversa mole. Falava grosso. Era praticamente o homem da casa. Cliente nenhum tirava casquinha. Quem não a conhecia ainda tentava chegar perto, arriscar uma piada, um gracejo, uma cantada, mas levava logo um passa fora. Vivia sozinha nos fundos do botequim, numa espécie de meia-água que ela mesma ajudou a construir. O que ninguém jamais soube é por que ela chorava tanto todas as noites, pouco antes de pegar no sono.

Um choro que molhava todo o seu rosto e encharcava toda a sua cama, escorrendo pelo chão de cerâmica fria, transbordando todo o quarto, saindo pelas janelas, lavando ruas, ladeiras, vielas. Toda noite era assim. O pranto de Abigail ecoava feito canto, som agudo que doía, estuprava nossos tímpanos, causava em todos um certo espanto, um grito, um berro ao invés de um verbo, um verso simples, uma poesia única que rimasse todas palavras de todos os alfabetos do mundo com apenas uma: amor. Aí, então, ela acordava. Abria os olhos ainda úmidos. Espreguiçava afastando os braços nus e um bocejo de hálito forte. Levantava o corpo pesado devagar. Mexia com os dedos dos pés, sentava na beirada da cama, soltava um longo suspiro e ia se lavar. Dali a pouco precisava abrir o botequim. Todo dia era assim.

Quando ele chegou já era tarde.

- Está quase na  hora de fechar, Abigail foi logo avisando. Não sai mais nada da cozinha, a cerveja está quente, aqueles ali já estão bêbados e eu estou cansada. Só dá para te servir uma pinga, um refrigerante ou uma água. É pegar ou largar.

- Uma água sem gelo, disse ele tranquilamente, ignorando a grosseria.

Ele parecia feliz. Tinha os olhos grandes e iluminados, a sobrancelha perfeita, os gestos largos, um nariz grande meio torto, a boca carnuda e cheia de dentes emoldurada por uma barba espessa e áspera. Bonito ele. Usava um terno cinza amarrotado, porém bem cortado, caimento perfeito, gravata de seda afrouxada, um molho de chaves, um maço de cigarros e um ramalhete de flores azuis miúdas nas mãos. Bebeu a água num só gole. Fazia frio. Tinha chovido. Ele não pretendia demorar. Só não sabia muito bem para onde ir. Não encontrara até então um lugar neste mundo. Ele não era daqui, pensava.

- O moço é daqui de perto?, perguntou Abigail.

- Não, eu não sou daqui, respondeu espantado com a coincidência da pergunta. Na verdade, acho que eu não sei de onde eu sou. A moça, por acaso, sabe de onde ela é?

Abigail desviou o olhar. Pela primeira vez desde que ela se conhecia por gente sentiu um certo constrangimento, um lampejo de timidez. A voz daquele homem tinha um timbre suave, agradável, firme e a maneira como ele a abordou a deixou sem graça.

- Sei, acho que sei.

- Já eu, sei que nada sei. Que nem o filósofo, sabe?

- Não, não sei.

- Esquece. O que eu quis dizer é que só importa a surpresa, aquilo que você ainda vai descobrir, o que você jamais imaginou e vai mudar teu rumo quando você menos espera. A carta da roda da fortuna no tarô cigano, o capricho vaidoso do destino, o homem quando deixa de ser menino, a derrapada na curva.

- O moço é poeta, é?

- Não sei. Sei que lhe trago flores, disse, oferecendo-lhe o ramalhete de flores azuis miúdas.

Abigail ficou muda.

Ele pagou a água com duas notas. Não quis o troco. Despediu-se. Desapareceu.

Daquela noite em diante Abigail nunca mais chorou. Também nunca mais dormiu. Sorria acordada, insone, durante toda a madrugada, olhos vidrados no ramalhete de flores azuis miúdas.
.

quarta-feira, 4 de junho de 2014

Casa

Eu quero uma casa de pedra,
de paredes altas,
janelas abertas,
muros baixos,
figueiras frondosas no quintal,
frutos caídos pelo chão
de terra batida
num pátio iluminado,
onde eu possa ver o céu mudar de cor.

Eu quero a casa.
Eu quero a pedra.
Eu quero eu mesmo abrir as janelas,
deixar o sol se debruçar,
colher o doce mel do figo
com as minhas próprias mãos,
pisar com os pés descalços
o barro de onde eu vim.

Minha casa vai ter jardim,
flores, muitas, mato,
cheiro de capim mulato,
canários da terra,
melros,
pintassilgos e sabiás.

Todos soltos num laraiá laiá.

A casa vai ser minha
e também das minhas crianças,
e também dos meus amigos.

Todos vão poder chegar.

Sem precisar de convite,
sem precisar cerimônia,
sem precisar avisar.

Minha casa vai ser assim,
bem desse jeito que eu descrevi.

Sê bem-vindo.

sexta-feira, 28 de março de 2014

A velha, o lixo e os versos

Não faz nem quinze minutos que ele encontrou aquela velha já quase cega no corredor a despejar seu lixo e a lhe dizer, sem dó nem piedade, que ela havia lido seus escritos e que ele não passava de um autor menor, sem originalidade, sem estilo, do tipo que só consegue escrever sobre o mesmo tema e, mesmo assim, de modo raso, tal e qual um aluno mal aplicado que ao estudar piano não consegue dedilhar uma nota afinada sequer. Disse-lhe tudo assim, de uma tacada só, enquanto arrastava duas sacolas de restos de comida e umas latas de onde escorria uma água imunda e mal cheirosa.

Ele havia acabado de chegar de mais um dia tenso na repartição, o calor ainda castigava, o terno suado já sem a gravata, o sapato a lhe apertar os pés inchados, os mais de dez processos que pesavam na pasta que trazia a tiracolo e a vontade incontrolável de chegar em casa, tirar toda aquela roupa, tomar um banho, ligar o velho ventilador e se esparramar no sofá da sala depois de comer qualquer coisa que fosse, pois não sentia mesmo muita fome à noite. Ele só pensava em descansar um pouco, esticar as pernas, ver um programa na televisão, arejar as ideias por alguns instantes, antes de levantar e debruçar sobre a papelada que ainda precisava analisar para a reunião da manhã seguinte.

A situação na repartição não estava nada boa, os clientes estavam cada vez mais escassos, as cobranças estavam maiores que nunca e para piorar havia o fantasma de uma demissão em massa que deixava o clima ainda mais intragável. O cargo que ele exercia, que não era lá grande coisa, claro, deveria estar na reta, pensava, enquanto aquela velha, bem ali na sua frente, ao lado da lixeira, que há anos vivia sozinha, sem ao menos uma visita da filha ou dos netos, a descarregar todos aqueles impropérios sem sentido, sem necessidade, sem razão. Ela apertava os olhos na tentativa de melhorar a visão e apontava o dedo indicador em direção ao rosto dele enquanto falava com a voz arranhada pelo tempo.

Disse-lhe na cara dura que ele era um frouxo, um covarde, que ele jamais deveria ter feito o que fez e que se ela fosse um pouco mais jovem e ainda tivesse forças dava-lhe uma boa surra de cinto, com a fivela lanhando a carne, porque era aquilo que ele merecia desde criança, já que seus pais não souberam educá-lo e por isso mesmo ele havia se tornado um homem sem caráter, um descansado, sem nenhum valor. Afirmou que para ela e para todos os moradores do condomínio era uma vergonha tê-lo como vizinho e que dia após dia ela rezava e fazia uma dezena de promessas a todos os santos para que ele mudasse dali.

Ele também não via a hora de mudar daquele apartamento, de sair daquele bairro, de nunca mais encontrar com aqueles vizinhos insuportáveis que pareciam sempre estar mais interessados no que se passava na sala ao lado do que com as suas próprias vidas. Todas aqueles festinhas de finais de semana, regadas a galhofas, fofocas e cerveja de má qualidade, o deixavam irritado e deprimido por saber que ele não pertencia àquilo. Não era aquele o mundo que haviam lhe prometido. Não que ele fosse melhor que ninguém - muito embora fosse - mas tudo ali parecia muito pequeno, uma vida sem sentido, dormir e acordar feito máquina que a gente liga e desliga e pronto. Ele precisava de mais. Ele sabia que merecia mais.

E aquela velha ali a entorpecer-lhe a mente, a confundi-lo com um discurso equivocado, uma anciã que foi esquecida por todos, cuja única companhia eram os livros velhos que ela fazia questão de ler uma centenas de vezes, sempre os mesmos, e vivia a repetir em voz alta, sozinha, na cama de viúva de madeira nobre, sempre os mesmos versos de Andorinha, um poema de Manuel Bandeira, "passei o dia à toa, à toa... passei a vida à toa, à toa".

Era como se ela soubesse, como se anunciasse a sentença de não ter sido quem ela realmente gostaria de ser. Ela, a velha, havia se tornado amarga, indesejável, repugnante, só que a idade avançava e a deixava anestesiada, sem que ela fosse capaz de perceber o que quer que fosse definitivamente real ao seu redor.

Ele, que jamais escrevera uma rima, que não tinha a menor aptidão com as palavras, frases e orações, que jamais sonhara com sucesso ou reconhecimento, que só pensava em levar uma vida digna e ganhar um pouco mais de dinheiro para poder sair dali, alugar um apartamento num bairro melhor, também estava meio que anestesiado e não deu muita importância ao que a velha tinha para lhe falar.

Ele, que morria de pena dela e de toda aquela solidão, estendeu-lhe a mão, pegou as sacolas com os restos de comida e as latas velhas e despejou no lixo sem falar nada. Apenas olhou a velha senhora bem dentro dos olhos e, num arroubo de gentileza, deu-lhe um abraço, ajeitou-lhe os cabelos, acompanhou-a até a porta de casa, deu-lhe um beijo e se despediu. Em silêncio.

Ele, então, virou as costas e seu andar arrastado foi tudo o que se ouviu no corredor.

Lá dentro, a velha já não lembrava mais se havia lido os versos e pôs-se a procurar os livros. Os mesmos livros.





terça-feira, 25 de março de 2014

Todo poeta

Todo poeta é um mistério
e eu também tenho cá as minhas questões profundas:
sou subsolo, sou santuário,
sou um misto de palavras desenterradas à boca do estômago.

E me pergunto, então, por que às vezes minha poesia é como vômito?

Estrofe por estrofe, verso por verso, rima por rima,
é a poesia quem rasga minhas entranhas e se expõe,
se traduz e se apodera do ritmo vacilante que outrora havia em minhas mãos.

Faz-se a mágica e com ela surge o lado íntimo que se abre na fissura,
rasga feito a fenda, escorrega, ri, brinca,
navega contra a corrente e deixa de lado toda e qualquer razão.

Todo poeta é um laço
e eu gosto mesmo é dos abraços daqueles que se fazem poetas:
os que inventam, os que criam,
os que vivem soltos e deixam correr livre a imaginação.

Onde estão eles?
Onde eles estão que não aqui na harmonia breve das minhas ideias?

Porque o tempo dos poetas é lírico, eu sei,
e se eterniza no silêncio leve da madrugada,
quando a melodia invade a nossa alma
e tudo ao redor se transforma em canção.

Não há barulho lá fora, eu não falo nada
e já não enxergo mesmo muito bem.
Aqui dentro de mim o céu.

Todo poeta é infinito.


quarta-feira, 19 de março de 2014

Alone

Um dia como outro qualquer
Um vento que sopra abafado
Um céu de nuvens carregadas
Um nó que aperta no peito.

Um jeito que parece incerto
Um gesto como se fosse o único
Um gosto amargo que sobra na boca.

O fel.

Um momento que é quase nada
Um tempo que se desfaz inteiro
Um rio que vai dar no mar
Um cais outrora repleto.

Nem ao menos um navio
Nem se ouvia alguém por perto
Nem se eu implorasse um breve adeus.

Só eu ali, alone, e mais ninguém.

Por que me fiz deserto?


terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Vergonha

Desde aquela tarde em que os termômetros marcavam mais um recorde de altas temperaturas na cidade, era como se ao redor dele tudo fosse se distanciando, perdendo o foco, saindo do seu campo de visão. Gradativamente. Melhor assim.

Aquele verão havia sido de um calor apocalíptico, pele constantemente suada, céu azul sem nuvens, sem água nas torneiras, sem trens, sem respeito algum. O trânsito ultrapassava os limites do suportável, infernal. A população inteira parecia estar vivendo à beira do caos, o IPTU, o IPVA, outras tantas contas a pagar e aquelas pessoas todas nas ruas, nas redes, tantas vozes estridentes e a porrada comendo solta em plena luz do dia.

Perderam a noção, ele dizia, ao mesmo tempo em que, pela tela plana da TV, ainda enxergava mais um homem morrer na praça, antes mesmo do sol se pôr.

O corpo daquele trabalhador havia tombado, a cabeça explodido, correria ao seu lado, imagina você a confusão que se formou. Já temos um mártir, anunciavam alguns. Foi assassinato, berravam outros tantos. Imprensa, polícia, vândalos, deputados, manifestantes, black blocs, milícia. Debates acalorados no palanque virtual. Um diz que é o certo. O outro afirma que nunca esteve errado. De ambos os lados, ânimos exaltados. Eles gritam estridentemente e ninguém mais pode se fazer de surdo.

No fundo ele tinha certeza do por quê daquilo tudo: nunca fizeram nada. Tal e qual um filho recém-parido que é abandonado na roda da sorte, o cidadão daquelas bandas era tão desassistido como um órfão esquecido no dormitório úmido do asilo junto a tantos outros iguais, largados ao Deus dará. Ele também se sentia sozinho.

O estado havia sido omisso desde os primórdios, as autoridades só enxergavam a si próprios, se escondiam nos palácios com seus assessores bem remunerados, covardes como sempre, enquanto ordens extremas liberavam o braço armado em cima de quem quer que fosse. O que começou pacífico, plural, espontâneo, bonito até, transformou-se numa luta desigual, ele sabia.

Cidades no país inteiro viraram palco de batalhas sangrentas como nunca antes na história desse país. Manifestante virou vândalo. Protesto virou baderna. Os ninjas quase viraram imprensa. A imprensa virou chacota. Enquanto os telejornais por um momento tentavam esconder, a internet mostrava tudo a quem quisesse ver: fogo, corre-corre, gás lacrimogêneo, jornalistas acuados na tentativa de cumprir seu dever, jovens machucados e a polícia agindo como se estivesse à caça de bandidos.

E ele então não esquecia que meses antes a mesma polícia deixava traficantes escaparem aos olhos de todos, mas agora, por todos os cantos, de todos os lados, era só tiro, porrada e bomba. Você precisava ver.

Dias difíceis, ele já suspeitava. Como o carro que derrapa na curva, a parábola que não tangencia o arco, o circo pegando fogo e tudo mais fora do controle. Maniqueísmos explícitos, partidos políticos chafurdados na lama, radicais inflamados, anarquistas desinformados, fascistas facínoras, psicopatas infiltrados, coxinhas bem arrumados, que tais, todos deixavam cair suas máscaras, as verdades descortinadas, preconceitos nus. Vergonha ele sentia.

Eu também sentia. Muito antes daquela tarde quente.



sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

Úmida

Desliza tua língua (sobre mim)
e deixa um rastro de saliva úmida (eu quero).

Junta o gosto ácido da palavra,
conjuga o verbo intransitivo do amor,
a frente, o verso,
a frase, a rima,
vem você aqui em cima,
espalha em minha carne o teu suor.

Debruça lentamente sua cabeça (no meu peito)
e afaga o que de mim ainda é seu (para sempre).

Percebe no meu toque o gesto simples,
segura firme com as suas minhas mãos,
lê todas essas linhas, montes, vênus,
desvenda meus segredos,
aperta os laços, intensifica os abraços,
seus lábios assim tão perto dos meus.

Desliza tua língua
no rastro da saliva úmida.

(certas noites morro de calor)




domingo, 19 de janeiro de 2014

Eu sei

Eu,
que apenas observo o mundo,
sigo tantas vezes calado,
me finjo de mudo,
noutras sou surdo,
mas cego nunca fui.

Do pouco que eu vi de tudo,
esse tudo me parece tão pequeno,
um quase nada,
um breve instante,
um leve sopro,
a mão suave a desfazer o nó.

Eu,
que já não sigo assim tão só,
persigo o que não conheço,
persisto nos mesmos apreços,
resisto até não poder mais,
insisto que eu existo.

Sou eu mesmo, juro.

Meu discurso nunca foi outro.
Minha vontade também não.
Mentiras se dispersam,
só as verdades me interessam,
sou aquele que se vai,
estou naquele que já vem.

Eu apenas observo aqueles que me observam.
Não enxergo nada além.

Nem eles, eu sei.

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

Dúvida

Quem era ele agora, se aquele que outrora fora se desfez? 
Onde ele houvera ficado?
Quando ele houvera partido? 
O que tivera feito para que até ali então chegasse?
O sol, o céu azul e as mesmas tardes de domingo 
a lhe refrescar com as brisas que ainda restavam. 
Naquelas tardes, bastava encher os pulmões com todo o ar e seguir em frente, 
como um náufrago à deriva num mar fecundo.
O medo.
O novo.
O mundo.
O mesmo mundo, muito embora para muitos aquele já tivera sido o fim.

terça-feira, 29 de outubro de 2013

Milagres urbanos

Você sai de casa apressado, pega o carro, o trânsito está misteriosamente bom. Você chega do Méier até a Praça XI em 15 minutos, vira a curva no quarteirão do Balança Mas Não Cai, tudo parado. Você freia. Não dá tempo, bate no carro da frente, o carro amassa. Você vê. A dona do carro também vê, dá ataque, você pede pra ela ficar calma e estacionar logo ali. Enquanto isso os cifrões turvam a sua visão. Você não pensa em mais nada, a vida tá complicada, você sai do carro, olha pro carro da dona, a dona olha pra sua cara, vocês olham de novo pro carro, cadê o amassado?, vocês perguntam, o amassado sumiu, não tem nem um arranhãozinho sequer, como pode?, ela indaga. Foi milagre, você diz. Então tá, até logo, você está atrasado, ela também. Você liga o carro, ela faz a curva, você ri sozinho e agradece, só agradece.

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Amor de menino

Dorme, menino bonito, dorme. 
Deixa o seu corpo arriar, 
que o que eu guardo em mim é o pouso infinito,
feito o céu que se desmancha em azul 
na superfície inquieta do mar. 

Esse mar que jamais descansa, 
que balança nas ondas da praia 
num eterno pra lá e pra cá. 

Esse mar de ressaca e esperança. 
É só o mar de quem sabe o que é amar. 

Sonha, menino, sonha.
Deixa o inconsciente chegar, 
que eu trago em meu peito os delírios mais lindos, 
desses que nos dão asas e brilho
e por aí evaporam, nos deixam soltos no ar.

Toca, menino, toca
com todos os seus anseios o meu coração, 
diz que jamais vai embora,
repete baixinho aqui no meu ouvido 
que nesse mundo a gente não se perde mais não.

Deixa, menino, deixa 
eu tentar fazer o que eu ainda não fiz. 
Deixa o tempo dizer e mostrar 
que é mais do que hora de saber ser feliz.

Fica, menino, fica 
comigo na minha vida, 
seguindo na mesma estrada, 
dedilhando as cordas numa outra lira. 

Faz de mim teu único instrumento, 
costura na minha carne todos os momentos, 
esculpe, molda, talha, nó.

Te amo, menino, te amo.

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Diários III

Na manhã seguinte, o outro havia desaparecido, virado pó, deletado os e-mails, apagado as mensagens, mudado todas as senhas, levado as chaves. Só havia sobrado ele ali, de pé, em frente ao espelho embaçado, reflexo tênue do que houvera sido. Naquela manhã, ele sequer conseguira respirar fundo, e o mundo, ao redor, nem melhor nem pior, seguia o seu rumo.

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Dê tempo ao tempo

Assim que ele conseguiu uma pausa para respirar depois daquela manhã agitada, 
foi que se deu conta de que a vida o levava lentamente.

Parou.
Respirou profundamente.

Uma. Duas. Infinitas vezes.

Dali a pouco era hora de recomeçar.

Não lhe era permitido perder tempo,
já que ele esquecera de sair do lugar.

No pulso, um relógio sem ponteiros
a desviar-lhe as horas.

Os segundos pulsavam presos
dentro do peito,
bombeando o sangue de areia grossa
que escorria naquela ampulheta.

Bem devagar.

terça-feira, 22 de outubro de 2013

Tempos difíceis

Certas horas a poesia silencia
e parece querer se esconder,
fugir de mim,
largar de mão,
desaparecer.

Justo nesses dias,
ela,
a poesia,
sumia.
Que tempos difíceis são esses?

Nas ruas, o bloco negro confundindo as massas,
levantando a voz, queimando a praça,
vidraças quebradas da hipocrisia.

Nas tevês, eles também confundem,
invertem o sentido, usam de artifícios,
roteiros pré-estabelecidos em horário nobre.

A manchete é o vandalismo.
A suíte é o lado sujo.
O mundo,
a cada virada de página,
fica ainda mais difícil.

Brigam os tradicionais e os alternativos
via redes sociais.
Surgem novas ferramentas,
instalam-se outros aplicativos,
um imenso flash mob do dever cívico.

E os ideais?  Quais?

O Estado revida,
bate,
maltrata,
fere com balas de borracha
e sufoca o grito daquele que corre atrás.

Nos palácios estão todos surdos,
fazendo-se de cegos,
contaminados pelo poder.
Não percebem que estão cercados.
Não sabem, não querem, não prestam.

Eles nada vão fazer.

Já não podem ouvir os gritos.
Há muito que eu também não ouvia.
Onde antes era só silêncio
há hoje o risco dos verbos calados à força
e das minhas estrofes continuarem vazias.

Logo as minhas,
que por acaso nasci poeta,
berrando os versos da poesia.

Que tempos difíceis são esses?



domingo, 13 de outubro de 2013

Não sejamos tão ingênuos

Então você acorda e há um mundo diferente lá fora. Sim, é só mais um domingo, são as mesmas nuvens de algodão, o mesmo céu de anil, o mesmo gosto do café amargo e toda a falta que eu sinto de algumas partes de mim. O silêncio daquelas manhãs de domingo sempre me intrigaram. Para mim, tão afeito ao barulho e à velocidade do dia-a-dia rotineiro, era como se nelas, naquelas manhãs, o mundo descansasse e cedesse lugar à preguiça. A tal da pausa, tantas vezes necessária, até recomeçar.

Lembro bem de uma tia que sempre me dizia: "Levantar da cama aos domingos não é difícil. Difícil é recomeçar." Eu era criança quando ouvia tal frase e, confesso, custei a entender o que ela queria dizer com aquilo. Houve uma época em que eu achava que era um recado velado, como se ela implicasse com a minha preguiça, tão mais sem vergonha nas manhãs de domingo. Só mais tarde, anos depois da minha tia ter morrido, foi que entendi o que poderia estar implícito naquilo que ela tanto dizia. Não é mesmo nada fácil recomeçar.  

Eu queria levantar da cama aos domingos com superpoderes e, enfim, enxergar a vida com óculos cor-de-rosa. Queria poder prender cada sem-vergonha que se acha no direito de roubar o que é do outro, de cercear a liberdade de quem quer que seja, de surrupiar na maior cara-de-pau e de me dizer o que é certo, o que é errado ou o que pode e o que não pode. Queria, também, exterminar com as raças de alguns políticos que estampam as manchetes dos jornais e que estão há séculos no comando, acumulando e exercitando o egoísmo desacerbado, enquanto esquecem que é preciso compartilhar, dividir, multiplicar, socializar e respeitar a vida daquele que pisa neste solo com as mesmas necessidades que ele. Poque ele, assim como eu ou você, é um qualquer um.

Queria levantar da cama, correr na varanda e gritar para o meu vizinho que desce a rua que somos todos iguais. Queria que ele, que não perde um Jornal Nacional depois do jantar preparado pela esposa, soubesse que temos, sim o dever de nos manifestar, de invadir as ruas e exigir melhores condições. Queria que daquele domingo em diante a voz dos protesto legítimos não precisasse ceder espaço nos noticiários para os black blocs e sua quebradeira geral, que, juro, ainda tenho cá minhas dúvidas se são ou não necessárias. Queria, na verdade, que tudo isso fosse apenas parte de um processo de reconfiguração ou atualização de sistema da humanidade, feito um software mesmo ou um aplicativo que fizesse com que ela levantasse menos ingênua a cada manhã.

Aí, então, seria este o sinal de um recomeço? O ponto final que anuncia a pausa? Ou já seria o início de um novo parágrafo na nossa história? Eu, neste contexto, sou um personagem que convive com um exército de black blocs em mim não é de hoje, provocando uma quebradeira interna generalizada. Como se o centro desse mundo em ebulição doesse aqui no meu peito, feito a bala de borracha ou o tiro certeiro da arma letal dos meganhas. Porque meu peito é o núcleo quente que derrete, dissolve, digere, transforma e transfere. 

Eu, graças aos midiáticos vândalos que cá me habitam e tacam fogo no que não presta, carrego a certeza de que não sou mais o mesmo. Talvez por isso, hoje, neste domingo, eu tenha acordado vendo um mundo diferente lá fora.






sexta-feira, 20 de setembro de 2013

Desarrumação

Bastou uma rajada leve de vento para ele olhar para trás e se dar conta de que, mesmo que já tenham se passado mais de 40 anos, ainda havia muito o que arrumar naquela casa. 
Até ali, só o alicerce e a certeza de que a vida é uma faxina ininterrupta.

domingo, 8 de setembro de 2013

Enigma

Então me disse que faltava pouco para o fim e eu ali, parado, não acreditei. Preferi continuar sozinho, sem saber ao certo se era mesmo o tal destino que eu sempre havia traçado em linhas tortas ou se foi tudo culpa da falta de coragem, do medo e da distância entre o meu desejo e aquele que um dia habitou em mim.

Sem predicados

O tiro na testa foi certeiro. Ele não sentiu nada. Nem tampouco sentira o vento forte que levantara a poeira segundos antes, a mesma poeira que lhe sujara a face. Tombou o corpo pesado na esquina escura. Da cintura pra cima, calçada. As pernas, desajeitadas, no meio da rua. Mal anoitecera e a lua já despontava no céu sem nuvens. O estampido. O por quê. O acaso. Tudo mais ficara oculto. E o sujeito ali sem predicados. Quem era ele mesmo?

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Correnteza

Eu quero versos,
eu quero rimas,
quero esquecer o certo
em meio a linhas distorcidas.

Quero errar o tom,
acelerar na curva,
bailar descalço
enquanto cai a chuva.

Desbravar o céu,
me perder no ar,
pular da ponte,
na beira do mar.

Nesse mar gigante,
onde chega o rio
e a correnteza limpa,
lava o meu corpo.

Esse rio que chega no mar
já não é o mesmo rio.

Porque o rio passa,
e eu já não sou o mesmo,
muito embora o corpo,

perdido nas ondas,
em busca do gesto,
em estado de graça.

Os bons versos que me carreguem.

quarta-feira, 31 de julho de 2013

Grandeza

Meu mundo é pequeno,
cabe na palma da minha mão.
Já meu coração, esse não.
Meu coração é um poço sem fundo,
um céu de olhares infinitos,
um mar de versos bonitos
traduzidos em ondas que eu carrego
por onde quer que eu vá.