quinta-feira, 19 de abril de 2012
A porta do deserto
Pisar na areia seca sob o sol forte a queimar-lhe a pele.
As rachaduras na carne a sangrar-lhe as feridas
e as cricatrizes que não fecham e ainda ardem como na hora do corte.
Por que ele vai sozinho, feito quem vai embora para sempre?
Nem mesmo olha para trás, segue em frente sem saber do que ficou.
Parece forte, mas é frágil como são frágeis os que não têm proteção.
Há muito tempo pararam de orar por ele. E seus olhos, tristes.
Menino solto na vida, que prende o choro, se engana, se encobre,
corre, desce, muitas vezes até esquece o quanto deixou se perder.
Lembra do que não lhe foi permitido, dos amores proibidos,
da razão que se fez grave em seus ouvidos, do pouco que falou quando foi feliz.
Ele mesmo quis se desfazer.
Tentava de todo modo esquecer, mudar o rumo da prosa, desaparecer.
Sem que ninguém o procurasse ou ao menos lhe desse falta,
a falta que só ele sentia.
No meio do caminho ele já não se reconhecia,
sequer sabia onde é que aquilo ia dar.
Estava fadado a dor, ele dizia.
Minha ou sua.
Porque eu também fiquei sozinho, pés descalços num chão frio,
o piso incerto, o passo em falso, a dor de me saber vazio.
Há dentro de mim a angústia do desencontro e meu pranto é tanto
que eu nem sei se conto.
Porque eu também sou frágil, embora não pareça.
Versos delicados insistem em me visitar.
Rimas preciosas, vaidosas, difíceis até, me arrancam de mim.
É quando então me sinto mais só.
Eu sou o deserto.
sexta-feira, 23 de março de 2012
Pudera eu também falar
Um desfiar de rosários, uma ladainha sem fim.
E os pensamentos em corredeiras,
penhascos, esquinas, ladeiras,
a percorrer cada canto
sobrevivendo como que por encanto
ao doce veneno do pranto
que melancolicamente escorre daqui.
Apenas ouço o que eles me dizem
mas não entendo muito bem o que eles querem.
Muito menos o que eles fazem.
São poetas a perderem tempo,
a vagabundearem por aí,
lapidando frases no mural da minha cabeça,
aquarela a derramar suas cores,
amores que eu jamais esqueci.
Gosto quando só o que resta é a palavra.
A fala bem marcada pela sílaba mais tônica
na voz solitária e doce de um cantador
que rima na lembrança o som daquilo que um dia se perdeu
na conversa que ficou eternizada no fundo da memória
afetivamente solidária, história escrita por diversos eus
que me revelam o significado do que jamais foi dito.
Repito: escrever, por vezes, me dói.
Pudera eu também falar.
sábado, 17 de março de 2012
Os poetas também morrem
Ele também não sabia.
Entretanto, conhecia ele o exato instante da palavra,
a urgência da frase ainda sequer escrita,
latente em suas ideias,
fremente em suas andanças,
firme em seus pensamentos traduzidos entre tantos versos
entreouvidos no murmurar da noite
reverberados, reinventados, alucinados até.
Sobe nas mesas e declama o texto de improviso
do orador de tantas vozes que se calam
num momento em que tudo para,
em que a gente dança no palco em que se cospe e se envenena
a lucidez que paralisa e bloqueia a fantasia,
e deixa então de ser real para se tornar poesia.
Corta, poeta.
Sangra em minha carne a tua vontade.
Faz de mim o verbo mais que imperfeito
E cicatriza na minha pele o gosto da tua verdade.
Antes que eu morra e tudo que eu fui desapareça
feito comida de traça no fundo do armário
ou o pó na estante que me serve de abrigo,
eu não ligo, apenas costuro o que você rascunha.
Então, rasga, poeta.
Esgarça, procura e provoca a minha inquietude.
Porque eu sei que também vou embora qualquer hora dessas
cedo ou tarde eu não vou me importar
e que seja em pleno caos da madrugada
sob a luz da tua retina descortinada sobre minha pele,
tua mão a me tocar de leve
e tua voz a me dizer não vá não vá não vá.
domingo, 11 de março de 2012
Deslizes são fatais
O de Juiz de Fora. O do Rio não.
Numa campanha politica uma série de fatores é responsável tanto pelo sucesso quanto pelo fracasso do candidato. Desde a empatia com o eleitorado e a diposição de se tornar popular à firmeza de um bom discurso político, consistente, propositivo, sério, livre de preconceitos. Coisa cada vez mais rara. Até porque, o ser político nos dias de hoje, é provido de descrença e de desconfiança e desprovido de moral. Não vou me arriscar aqui a dizer que ao ser político de hoje em dia também falta ética, porque ética tem a ver com caráter e caráter, a gente sabe, é inerente ao ser humano. Todos têm. Seja ele bom ou ruim. E não me cabe aqui julgamento algum.
Em Juiz de Fora eu conseguia ver qualidades no meu candidato. Ele havia sido considerado o melhor secretário de desenvolvimento social do país no ano anterior, tinha um discurso sério, nunca me pareceu leviano e se mostrou com uma enorme disposição de fazer uma campanha onde ele tivesse um contato mais direto com o eleitor. A camisa social azul e o paletó deram lugar a camisas pólo e muita sola de sapato. Nossos programas eram basicamente gravados em externas, numa agenda de apresentação de propostas feita com a participação popular. A boa capacidade de improvisar do candidato aliada a um roteiro de gravação pré-estabelecido com a equipe deu certo e aquele político com fama de elitizado viu que tinha potencial para se tornar o preferido do povão. Assim foi feito.
Do quarto lugar nas pesquisas para o cargo de prefeito foram quase quatro meses de intenso trabalho. Não me arrependo de nada do que fiz naquela campanha. Tudo o que foi ao ar, e que levava minha assinatura, tinha verdade. Os textos, as edições, nada foi manipulado para encobrir um mal feito ou uma mentira. Todas as acusações eram rebatidas e devidamente esclarecidas. Todo o trabalho da equipe de criação daquela campanha foi feito com muita emoção, diga-se de passagem. Voltei para casa saboreando o doce gosto da vitória.
Mas meu candidato no Rio não teve a mesma sorte.
Como eu relatei há alguns parágrafos acima, segundo turno é outra campanha e qualquer deslize pode arruinar uma candidatura. E foi o que aconteceu com o meu candidato no Rio. Ao cumprir uma agenda deixou escapar na frente de um repórter uma frase que comprometeu, a meu ver, toda a sua trajetória de homem público. Na sua frase infeliz, ele afirmava que uma determinada vereadora, integrante da sua coligação, teria uma "visão suburbana" sobre a construção de um aterro sanitário e mais: que ela seria uma "analfabeta política". Moradores do subúrbio, como eu, mais preciosos que nunca para ele, de postura "Zona Sul", consideraram o comentário de um enorme preconceito. O outro candidato, claro, usou e abusou do fato, noticiado com alarde por toda a imprensa e agradece a Deus - e ao repórter - até hoje pelo acontecido.
Dois anos mais tarde este mesmo candidato tentou se eleger governador do estado. Mais uma vez não conseguiu. A derrota nas urnas não foi culpa de nenhum repórter que ao cumprir seu ofício publicou uma declaração infeliz, mas tenho cá minhas desconfianças de que aquele episódio com os suburbanos foi responsável por uma campanha sem muita convicção por parte da militância e também de sua parte. Eu, como bom suburbano, confesso que não me empolguei nem um pouco em ceder-lhe meu voto. Imagino que muitos outros pensaram como eu naquela eleição. Uma pena.
Agora, às vésperas de uma nova eleição municipal, a campanha parece ter sido nacionalizada em São Paulo. Mais uma vez uma queda de braço entre o PT e o PSDB. Lula, mesmo afastado do poder, lutando contra um câncer na laringe, continua dando provas de sua força política e impôs o nome de Fernando Haddad como pré-candidato do partido à prefeitura da maior cidade da América Latina, enquanto Serra, que carrega a pecha de candidato derrotado, depois de negar e muito fazer suspense, se apresenta como o nome dos tucanos para o cargo. Os olhos da imprensa estão virados para São Paulo porque lá a briga já começou e promete ser boa.
Aqui no Rio a situação ainda estava morna e a batalha parecia ganha. O atual prefeito é candidato à reeleição e tem a seu favor a máquina e uma agenda de eventos pra lá de positiva, além de contar com apoio de mais 19 partidos, o que lhe garante um tempo bastante significativo de propaganda na TV. Nenhuma outra candidatura havia se apresentado para a luta até que, há poucos dias, um acontecimento movimentou a imprensa e a vida política da cidade. A bela filha do ex-governador Garotinho, Clarissa, anunciou que será a candidata a vice na chapa de Rodrigo Maia, filho do ex-prefeito Cesar Maia que, entre outros legados, deixou para os cariocas um elefante branco mais conhecido como Cidade da Música, obra que consumiu uma fortuna e que ainda está inacabada. Um casamento perfeito, já que assunto, piada e, por que não?, desespero, não faltariam para, nós, eleitores cariocas.
Mas um outro fato acendeu a luz no fim do túnel da eleição no Rio de Janeiro. O mesmo repórter que publicou a frase infeliz daquele que era o meu candidato a prefeito em 2008, foi o primeiro a publicar uma matéria onde o pré-candidato Marcelo Freixo, do PSOL, conhecido por seu combate às milícias, anuncia que o seu candidato a vice na chapa será o fundador do grupo O Rappa, Marcelo Yuka, um dos artistas mais engajados da atualidade. No ano 2000 Yuka, famoso por suas composições contundentes e sempre carregadas de críticas, ficou paraplégico após levar um tiro num assalto no bairro da Tijuca e desde então participa ativamente de projetos sociais e assim como o Freixo, é dono de um discurso que, no mínimo, merece ser ouvido com respeito e atenção. É claro que ele deve estar preparado para os impropérios que irão surgir no ringue durante a campanha. Os reacionários, os moralistas, os demagogos e, lógico, os marqueteiros, estarão mais a postos que nunca e vão carimbá-lo de tudo. De maconheiro incentivador do uso de drogas a vagabundo.
Qualquer deslize será fatal.
sexta-feira, 9 de março de 2012
Eles não sabem o que dizem. Nem eu.
Mas isso se você for capaz, porque eu sei que é difícil. Para alguns é até impossível.
Tem de caminhar até a beira do abismo e preparar o salto, o mergulho profundo, a verdadeira viagem que se faz olhando para dentro ao descobrir-se infinito. Sem medo, vergonha ou pudor. Por mais que tudo lá fora um dia se acabe e perca o sentido daquilo que nunca teve um porquê. Assim como o Deus, que está morto, o amor, para existir como amor de verdade, precisa muito mais que coragem. É preciso dar um tiro no escuro, acreditar no abstrato, fugir dos conceitos pré-estabelecidos e deixar de lado de uma vez por todas os preconceitos do que é sujo, impróprio, imoral ou não é permitido. Porque o amor tudo pode.
Eu, que já me permiti tantas vezes, volta e meia me pego falando de amor por aí. Mas não me dê ouvidos. Isso cansa.
quinta-feira, 8 de março de 2012
sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012
Da arte de deixar boas lembranças
A verdade é que, muitas vezes, um simples gesto, uma frase bem colocada ou um olhar sincero de amizade podem mudar o rumo de quem, num determinado momento, está apenas passando ao seu lado.
Lembro que há alguns anos, na minha primeira campanha política, indiquei três livros a um rapaz, o Patrick, que editava os vídeos comigo. Ele gostava de tocar violão e dos meus cds do Clube da esquina. Ele era de pouca conversa, mas comigo falava pelos cotovelos. Muito provavelmente porque eu puxava assunto, como todo bom jornalista.
O terceiro que indiquei foi Ecce Homo, uma das obras mais loucas de Nietzsche, onde o filósofo faz meio que um apanhado de todo o seu pensamento e deixa revelar o receio que ele tinha em não ser compreendido. Um texto controverso de um autor com transtornos mentais e que nunca economizou nas palavras e nas afirmações. Até hoje eu não entendo muito bem o que Nietzsche quis dizer em seus livros, mas volta e meia releio o que ele escreveu e sei que de uma maneira ou de outra aquilo tudo que está escrito é primordial para a minha vida.
Faz oito anos que não vejo o Patrick.
Quanto ao Nietzsche, ele me confessou ter sido seu primeiro contato com o pensamento científico e ler Ecce Homo foi definitivo na sua decisão pelo mundo acadêmico, vida que segue atualmente com muita alegria. Patrick me disse ainda que sem que eu soubesse acabei sendo muito importante na sua formação humana.
"Você me deu o exemplo certo no momento certo. Nunca tive a oportunidade de lhe agradecer por isso" foram as suas duas últimas frases.
Nunca mais nos vimos desde aquela campanha e até hoje tenho minhas dúvidas se posso servir de exemplo para o que quer que seja. Mas sempre que penso no Patrick tenho a certeza de que o que realmente importa são as boas lembranças.
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Algumas pessoas apenas passam por nossas vidas feito coisa sem importância, um rastro de córrego seco, um apertar de mãos efêmero, um apagar de luzes fugaz.
Tenho uma dó danada de quem apenas passa pela vida.
terça-feira, 7 de fevereiro de 2012
Eis aqui a minha palavra
o meu espelho.
É nela que se vê em mim o que há de mais nítido.
Na palavra eu me revelo,
Junto as frases, rimo um verso.
Simplifico o que pode ser complexo,
Traduzo, me explico, converso e troco.
A palavra me conquista.
Grifa rascunhos em mim.
Grava em meu peito escritos de sorte,
Feito tatuagem colorida,
Que alegra e cicatriza
O couro forte da minha própria pele.
Sou página em branco.
Um caderno sem pauta.
Letra morta enterrada entre parêntesis.
Uma espécie de aposto perdido nas vírgulas.
Sem nexo ou adjetivos nem verbetes que eu possa decifrar.
É na palavra que eu me mostro
Quando permito interpretar meu texto.
Folheio-me.
Leio-me.
Deleito-me.
Satisfaço meus hiatos,
Procuro sinônimos nas minhas entrelinhas,
Vou de encontro ao vocálico
Construindo monossilabicamente meus parágrafos
Até o ponto final.
Só então eu viro a página.
sexta-feira, 27 de janeiro de 2012
Assepsia
sexta-feira, 20 de janeiro de 2012
Te vejo depois
A sala,
A casa,
A mente,
O peito.
Mas preencha o coração.
Deixe escorrer,
Sangrar,
Pular,
Bater,
Vazar.
Ouça o que ele tem a dizer.
Sem meias palavras,
Com tantas verdades.
Pare,
Olhe,
Pense,
Preste mesmo atenção.
Silêncio.
É a saudade.
Uma voz que vem de dentro.
Um grito estridente.
Uma falta constante.
Um amor tão presente.
Tudo o mais tão distante.
sexta-feira, 13 de janeiro de 2012
Brasileia
Dias antes, o jornal havia publicado a primeira do que seria uma série de matérias a respeito da invasão de haitianos no Acre. O que eu sabia era que cerca de 1300 imigrantes ilegais vindos do Haiti haviam cruzado a fronteira entre a Bolívia e o Brasil e estavam instalados num hotel de uma cidade chamada Brasileia. Não tinha visto uma foto sequer de nenhum haitiano lá pela região Norte do país. Nem eu nem ninguém. As imagens que eu ia ver eram as primeiras a chegar na redação.
Abri minha mochila, peguei meu bloco, minha caneta, meu maço de cigarros e fui até a ilha de edição dar uma olhada no material. As primeiras imagens eram confusas, dois ou três vídeos, não lembro ao certo, de dois haitianos lavando roupa, umas panelas cheias de comida e uma tentativa de entrevista com um negro forte e de dentes muito brancos que repetia incesantemente que precisava trabalhar. Só com aquele material eu não poderia fazer nada. Eu edito, mas não faço mágica, foi o que eu disse pra minha subeditora. Pede para a Cleide arrumar uns personagens e fazer umas imagens da praça e do hotel onde os haitianos estão que é para eu poder montar uma história, completei.
Nem foi preciso. Profissional feito ela só, Cleide já tinha conseguido mais material e em pouco tempo enviou lá do Acre para a redação do jornal, na Irineu Marinho, vídeos e fotos suas e do Michel Filho, seu companheiro de pauta, que encheram os olhos de quem estava por perto na hora da edição. Eu confesso que esperava encontrar imagens do apocalipse ou a visão do inferno. Imagina? Mais de mil haitianos superlotando uma cidade escondida na região mais desabitada do nosso país não deveria ser nada bonito de se ver. Mas eu estava completamente equivocado e o que eu vi me deixou hipnotizado. A mim e à Suzane, minha parceira no resultado final de todo o material de vídeo.
Era muita imagem, de uma riqueza e de uma beleza impressionantes. Mais de mil haitianos reunidos numa praça de uma cidade típica do interior do Brasil e espremidos num hotel cuja lotação máxima era de cem hóspedes. As fotos da distribuição de pães na hora do café da manhã em pelo coreto da cidade, as entrevistas com as autoridades locais e a preocupação que tinham com a alimentação, a saúde e a situação ilegal daqueles imigrantes que chegavam ao país em busca de um futuro mais digno me fez ter a certeza de que eu poderia editar um vídeo bem interessante para o site. Vi todas as imagens, todas as fotos, todas as entrevistas e desci para fumar um cigarro e pensar num formato de edição. A generosidade do brasileiro e a esperança do haitiano foram fumar comigo.
Subi e numa afinidade única, eu e Suzane terminamos um primeiro corte em menos de duas horas. Na verdade, estava praticamente pronto, faltando apenas a abertura, uma trilha, alguns ajustes e uma ou outra imagem de fundo. A chegada, o sonho e a realidade da situação dos haitianos no Acre estavam na lata, como a gente costuma dizer quando um vídeo ou um filme ou algo do gênero fica pronto. Eu saí da edição com uma pontinha de orgulho e a certeza de ter feito um trabalho bacana e que ia ilustrar uma das reportagens mais inspiradoras que eu já vi nestes meus meus rasos anos de redação.
No dia seguinte, sexta-feira, foi a vez de mostrar o vídeo já finalizado para os chefes. Ambos aprovaram, não tinha como não ser diferente. A Cleide ligou do Acre para dizer que adorou, disse meu editor. Ela mandou um e-mail elogiando e agradecendo mais uma vez pela parceria, eu li mais tarde. Não era a primeira vez que eu editava material das reportagens dela. Já havia feito dois ou três antes e sempre com um ótimo resultado. Mas aquele, dos haitinos, era diferente. Tinha material humano o suficiente para emocionar e fazer com que o povo brasileiro se desse conta de como somos um povo generoso. Um povo que não ergue muros ou cercas elétricas em suas fronteiras. Um povo que sabe repartir o pão e que dá, mais uma vez ao mundo, este exemplo de como receber imigrantes de um país arrasado por tantas desgraças e que só querem um lugar ao sol e a chance de sobreviverem neste planeta que muitas vezes parece ser habitado pela ganância, pelo egoísmo e pelo protecionismo que exclui, fere e mata.
Vídeos:
A situação dos haitianos no Acre
O relato do repórter fotográfico Michel Filho
domingo, 8 de janeiro de 2012
A fuga sob o céu do Aterro
Desde moleque sentia medo de se relacionar. Foi uma criança retraída, de poucos amigos, aluno brilhante e de comportamento exemplar diante de olhos tão repressores. Filho único, vivia na barra da saia da mãe e sob as regras incontestáveis do pai, um ex-militar da marinha que sempre proibiu a esposa de trabalhar. Nunca contrariou a autoridade do pai nem a subserviência da mãe. Gostava da imposição do silêncio em sua casa, pois sabia que assim nunca seria obrigado a falar mais que o necessário. Se havia coisa que o incomodava era gente que falava demais.
sábado, 7 de janeiro de 2012
O fio da navalha
Só então depois desliza sua mão em minha alma.
Descobre se há em mim algo por inteiro,
Um pedaço do que sobra,
Um retrato do que eu fui,
O rascunho, não a obra.
Sustenta meus ossos.
Suporta o meu peso.
Fecha os meus olhos.
Me enche de beijos.
Dá cá suas entranhas.
Dia desses tive muito medo.
Rasga meu peito de uma só vez,
Desacelera o coração que me apavora,
Põe pra fora o que ele verdadeiramente sente.
Quem foi que disse que homem não chora?
Grita anestesiadamente.
Eu ando mesmo meio rouco.
Antes, me diz, sou louco?
Seja breve no diagnóstico
Porque sei que de médico todos temos um pouco.
Ainda te peço uma coisa: seja preciso quando for me falar.
Feito o fio da navalha.
Aquela com a qual você vai me cortar.
domingo, 25 de dezembro de 2011
Depois que tudo termina
Um caminho traçado,
um risco iminente,
o que se faz consciente,
com o que restou do passado,
e o que se quer do presente.
Há algo de lindo na vida.
Uma inquietude perene
feito a saudade que fica
de alguém que se vai para sempre,
ou de brindar aos que chegam,
porque tantos outros ainda estão por vir.
Há os que não querem partir,
há os que se sabem distantes,
os que se fazem ausentes
e desaparecem aos poucos.
Misturam-se na poeira do dia
indiferentemente.
Procuro.
Encontro.
Divido.
Multiplico.
Explico.
Explodo.
É tudo muito rápido na vida.
É como piscar os olhos
Ou estalar os dedos
E quando se vê, tudo escapa.
termina,
acaba,
finda.
Assim é a vida.
Não morro de medo da morte.
Mas quem sabe eu tenha sorte
e me faça imortal, posto que já fui imoral,
rei, réu, vítima, culpado,
testemunha da minha única história,
condenado de um só tribunal?
Há algo de mágico na vida.
Um movimento incessante,
uma amplitude interessante,
que nos inspira e nos renova
e nos recicla e nos refaz e reanima.
O recomeço depois que tudo termina.
Num instante.
Em poucos segundos,
questão de minutos,
horas,
meses,
anos.
sexta-feira, 23 de dezembro de 2011
Feliz Natal pra você e pra mim
Eu vou trabalhar neste Natal. Ano passado também trabalhei. Por incrível que pareça, não vou contrariado. Não é novidade para quase ninguém que eu detesto plantão, mas vida de jornalista é assim e eu já meio que me acostumei com toda esta urgência das notícias do dia a dia e de toda a agitação e tensão que é o trabalho numa redação de um grande jornal. O mundo realmente não para e as coisas acontecem a cada instante numa velocidade cada vez mais estonteante, on-line, on time, full time. Não é só porque é noite de Natal que vai ser diferente depois de um ano inteiro entre quedas de ministros, escândalos do governo Dilma, manifestações anticorrupção, faxinas, herança maldita, privatarias, o câncer do Lula, o do meu sogro, a morte da minha tia e também a do Sérgio Britto e do Joãosinho Trinta e da Cesária Évora todos no mesmo dia. Não. Pelo simples fato de ser noite de Natal estarei contente. E não estarei contente por obrigação, não carregarei o meu sorriso largo como um peso, um fardo, uma farsa, porque mesmo que alguma coisa me aborreça, que alguma eventualidade aconteça, vou sair do jornal a tempo de encontrar com algumas das pessoas que eu mais amo porque graças a Deus eu tenho amor para dar e vender e distribuir e semear assim mesmo sem pausa porque seja lá o que for é o que faz a minha vida ter mais sentido mesmo que tudo ao meu redor muitas vezes me diga não.
quinta-feira, 22 de dezembro de 2011
Diagnóstico
Escorre.
Vaza.
Molha.
Dói o corte abrupto que eu mesmo abri em minha pele.
E me expus carne.
E nervos.
E ossos.
E só.
Eu me esvazio.
Eu me mostro.
Eu falo.
Eu rio.
Eu ainda choro o que não cicatriza da ferida aberta.
É o tipo do mal que não há remédio.
Doença sem cura.
Loucura.
Na certa.
sábado, 10 de dezembro de 2011
Porque tudo se acaba
sexta-feira, 2 de dezembro de 2011
Preferências
Dos que gargalham e se encontram imperfeitos por inteiro,
sem medo.
Distancio-me do que fere e reflete a alma cheia de espinhos
que afasta, repulsa, expulsa de mim a alegria
rouba-me dia a dia.
Inquieto, fico em silêncio durante a noite que revela minhas sombras
Até deixar-me sem pudor entre tantas dores
de amores.
Danço conforme a música que eu ouço do samba das meninas
E da falta que me consome o compasso em que tropeço
um gesto em falso.
Um corte que não cicatriza na ferida exposta que ainda sangra,
No talho profundo do que sinto de saudade do que falta
do vazio.
Do oco.
Do eco.
Do louco que reverbera em mim
E grita palavras de ordem desordenadas em frases sem destino,
Buscando o verbo solto entre conjugações perdidas.
Qual a forma mais bonita.
Sonoridade.
Plasticidade.
Estética perfeita
Do amor desfeito entre lençóis e o suor da carne que arde
Por quem queima a brasa dos que se iludem
e jamais esquecem.
E erram.
E não se escondem.
E se entregam com fé
Porque sabem que é preciso vestir a fantasia da vida
e sair por aí.
Despidos de si.
sexta-feira, 25 de novembro de 2011
cego surdo mudo
desaparecendo contra a minha vontade
sumindo do meu campo de visão
para sempre.
feito a água que evapora com o calor
ou o barco que se deixa levar no horizonte
sobre as ondas que ainda escorrem em minhas mãos
e o sal que eu limpo em minha pele
Lentamente.
se eu pudesse doutrinar o vento
confiaria a ele a minha voz
um novo canto ele sopraria
estancaria então meu pranto
se eu fizesse do vermelho o branco
pintaria as nuvens de aquarela escarlate
desenharia o leite derramado
entre seios e braços numa tela qualquer
Displicentemente.
faço então só o rascunho
o traço rabiscado na parede
quadro negro onde um dia o giz apaga
a imensidão do mar onde o meu amor se afoga
meus olhos náufragos já não o veem.
há muito que não lhe ouço.
carregou com ele as tintas, os versos e algumas tantas palavras.
foi então que fiquei mudo.
Conscientemente.
segunda-feira, 21 de novembro de 2011
Ainda dá tempo?
se eu poderia lhe ouvir um minuto.
domingo, 20 de novembro de 2011
sexta-feira, 4 de novembro de 2011
De tempos em tempos
O tempo muda
O tempo leva
O tempo jaz
O tempo cura
O tempo vira
O tempo segue
O tempo vai
O tempo vem
O tempo traz
O tempo lento
O tempo voa
O tempo todo
O tempo à toa
O tempo bom
O tempo certo
O tempo inteiro
O tempo passa
Tempo é dinheiro
O tempo ultrapassa
O tempo urge
O tempo surge
O tempo foge
O tempo para
O tempo acaba
Dê tempo ao tempo
(agora leia de novo, desta vez mais rápido)
terça-feira, 1 de novembro de 2011
Respostas
Há mais ou menos seis meses que faço análise. Tem sido um processo prazeroso e ao mesmo tempo doloroso, sofrido, tenso até. Se por um lado eu consigo ter clareza naquilo que eu sou e naquilo que eu um dia fui, é barra pesadíssima reconhecer que este eu - que agora já se entende como vários - não tem certeza do que virá a ser. Muito provavelmente este eu já não é o mesmo de alguns minutos atrás porque a cada segundo este eu me descobre em nuances diferentes. Outro dia mesmo me vi diante de um espelho e o meu analista ali do meu lado, pedindo que eu me aproximasse cada vez mais daquele que eu via no reflexo. De longe eu era bem diferente daquele de quem eu chegava perto. E ao pedir que eu me afastasse do espelho, aquele que estava perto ficou com muito do que estava longe. E vice-versa.
Nada fácil de entender.
Eu não tenho entendido mesmo muitas coisas ultimamente. Tenho pensado muito e tenho sonhado muito também. Tenho sentido saudades de coisas que jamais imaginei. Tenho percebido mais nitidamente as marcas que o tempo tem deixado em meu rosto. Meus cabelos cada vez mais ralos - e raros -, minha barba cada vez mais branca, o vinco na minha testa, os pelos nas minhas orelhas. Saber que muito provavelmente já vivi mais da metade do que me foi designado a viver me assusta. E meus planos de ser eternamente jovem, onde ficam? E meu corpo que talvez já não acompanhe a velocidade da minha mente? Eu tenho pensado muito nisso tudo. Tenho olhado fundo nos meus olhos. Tenho ficado muito tempo sozinho. Tenho chorado como nunca chorei. Mas tenho rido também. Carrego comigo desde sempre um certo deboche e um certo desdém pelas armadilhas da vida. Não que eu ignore os tropeços, muito pelo contrário. Tenho ficado mais atento, só isso, para na hora exata do tombo não me machucar por demais. Porque tombos são inevitáveis, agora eu sei.
Há que se levantar e se reencantar pela vida, eu costumo dizer a mim mesmo. Há que se deixar banhar no mar gelado num meio de semana de um céu azul sem nuvens e nada mais com o que se preocupar. Há que se permitir uma tarde sob o sol do Aterro a cruzar os olhos às margens da baía até onde os olhos puderem enxergar. Há que subir as Paineiras e lembrar que foi feliz ali outro dia. E então registrar na memória só o que restar de bom. Feito turista de si mesmo fotografando a cidade mais bonita, em busca do melhor ângulo. Aqui e ali, pouco importando se a luz está perfeita ou se o cenário e o figurino são adequados. Porque no fundo ele sabe que nada é perfeito ou adequado. Por que eu deveria ser? Aliás, o que eu deveria ser?
Eu tenho mesmo muitos questionamentos e tão poucas respostas.
sábado, 29 de outubro de 2011
Nu. Vem.
Para se desfazer em nuvens é preciso estar leve.
É preciso estar entregue e se permitir.
Porque o vento sopra e você nem percebe.
Quando se dá conta já é hora de ir.
Entre as montanhas.
Aos pés do redentor.
Nos arranhacéus.
Sobre toda a cidade.
De todas as formas.
Com nuances de cor
No por do sol
À procura do amor.
Partícula.
Água.
Gelo.
Vapor.
Condensação.
Sólido.
Líquido.
Seja lá o que for.
Para se desfazer em nuvens é preciso estar livre.
Soltar as amarras, seguir a corrente.
Deixar a máscara cair, se despir por inteiro.
E deixar desprender do varal.
Com a delicadeza da brisa,
A força da ventania,
Ou a fúria de um vendaval.
É preciso ter coragem.
Para se desfazer
Em nevoeiro,
Chuva fina,
Tempestade.
Então vem, nuvem,
Vem.
Nu.
Vem.
domingo, 23 de outubro de 2011
Raíssa
sábado, 24 de setembro de 2011
eco ou "para ler repetidas vezes"
nem sei se saberia escrevê-la
sequer talvez nem pudesse percebê-la
eu me ocupo demais com besteira.
bobagens
Pode ser que esta poesia nem chegue
feito a carta que se escreve e se deixa perder no caminho
feito a água que corre sobre o limo das pedras no riacho
e se acomoda quando chega na represa.
triste destino
Talvez sejam apenas pequenos versos tímidos
mínimos detalhes, até mesmo despercebidos,
destes que a gente olha mas não vê
porque se escondem
por quê?
Mas quem sabe sejam versos quentes,
como os dos amantes que se deixam levar por um sopro na nuca
e se rendem ao contato da carne, esfregando a pele na pele,
chupando as entranhas na dança dos corpos.
rima profana
E se forem versos sagrados, imaculados,
destes que falam de Deus, que contêm a verdade da vida,
com mensagens de esperança e a certeza de um novo dia
eu acho que não seriam versos.
homilia.
Às vezes é só uma frase que não sai da cabeça,
uma oração sem sujeito, um verbo sem sentido
palavra por palavra martelando soltas no ar
corrente de vento que repete sempre os mesmos versos.
feito eco.
sexta-feira, 16 de setembro de 2011
Um silêncio ensurdecedor
sábado, 10 de setembro de 2011
Mosaico
Eu lhe mostraria outros lugares ainda mais bonitos.
Se eu pudesse impedir que você se fosse
Eu criaria as rimas mais preciosas,
Eu deixaria tudo em verso e prosa,
Eu juro.
Só para você,
Se eu pudesse.
Se eu pudesse estancar a minha dor,
Fazer parar agora,
Jogar os restos todos fora.
Cicatrizar.
Esquecer o que passou,
Tirar dos ombros o peso do mundo,
Limpar em mim o que ainda está sujo
E beber da água que me purifica.
Eu ficaria então mais leve.
Eu viveria mais alegre.
Eu teria enfim um porquê.
A vida parece não me dar sentido,
Parece até mesmo brincar comigo,
Feito que fosse me enlouquecer.
Se eu pudesse ia agora me banhar na fonte,
Dos pés à cabeça me lavar por inteiro,
Deixar-me levar numa outra poesia.
Mas a vida não me deixa escolher.
Ela finge permitir o fluxo
E me confunde com tantos caminhos,
Me coloca num redemoinho,
Um labirinto de decisões.
Se eu pudesse me fazer correnteza
Eu ia encher meu peito de ar,
Descer as curvas do rio sem medo,
Deixar meus restos de encontro ao mar.
Só então ia juntar meus pedaços,
Ia colar caco por caco,
Feito um mosaico de mim mesmo.
Como se eu pudesse me completar por inteiro.
(Mas sem você eu não posso)
quarta-feira, 7 de setembro de 2011
Quando a paz é uma farsa
domingo, 4 de setembro de 2011
A parte invisível que me cabe
Ficou quase dois dias inteiros sem falar. Não saiu de casa, não atendeu interfone, desligou celular, tirou telefone do gancho. Ficou mudo. Nem um murmúrio, nem um ai, nada. Nem ele ouviu o som de sua voz. Esvaziou a mente, limpou a sujeira, sacodiu a poeira, deitou, tentou dormir, levantou, caiu. Levou junto o outro, que estava sempre ali a postos e parecia enlouquecer com tamanha indiferença. Ele havia conseguido erguer uma barreira entre os dois, como se não quisesse mais ver o outro na sua frente.
Não sou e nem quero ser invisível, dizia o outro. Dizia também que não precisava viver escondido, trancado a sete chaves, segredo de estado. Não era nenhum criminoso, fugitivo ou um ser esqueroso, portador de doença contagiosa. Nada disso. Ele existia, sim, e amava, sim, e sorria, sim, e cantava os versos da alegria, dia e noite e noite e dia. O outro também sofria, sentia na pele as feridas, tentava driblar as tantas dores da vida. Aquilo tudo o incomodava demais. E mais o silêncio. E mais a distância. Foi então que o outro, já quase louco, começou a se dar conta de que com ele estaria cada vez mais sozinho. Por mais que o outro precisasse dele.
E ele - que na verdade era o outro - para o outro - que na verdade era ele - para todos os efeitos não existia.
sexta-feira, 2 de setembro de 2011
Vertigem
Eu sou destes que morre de saudades.
Agosto foi tão estranho que uma tia minha, irmã mais velha da minha mãe, faleceu, aos 72 anos de idade, depois de ter sido desenganada pelos médicos aos cinco anos. Eu, que achava que ela nunca ia morrer, fui pego de surpresa em plena sexta-feira, 19 de agosto, com a noticia de que ela havia morrido. Morreu dormindo, não sentiu nada, não sofreu. Já tinha sofrido demais antes. Uma história tão triste que não me cabe aqui contar. Até porque, esta minha tia tinha como uma de suas principais características - a principal era a gulodice - o jeito alegre de encarar a vida. Como se debochasse das porradas que a vida lhe dera. E garanto que não foram poucas. Se eu parar para pensar, a vida desta minha tia foi uma sucessão de agostos.
Pensei nisso e em tantas outras histórias desta minha tia na noite daquela sexta-feira, enquanto voltava de carro para a redação, depois de ter providenciado seu atestado de óbito.
sexta-feira, 26 de agosto de 2011
das ruas ele fez um deserto
das ruas ele fez um deserto. apagava as imagens de quem quer que passasse por ele. desviava o foco, perdia a atenção, avançava os sinais, cruzava as avenidas, parava em qualquer lugar, mas nunca, nunca descansava. perdeu o brilho, ele pensava. perdeu a graça, ele repetia. perdeu o sentido, ele sabia. e chovia e chovia e chovia. sem parar, ele dizia que nada mais o interessava, que nada mais servia, que nada mais ele queria. tudo terminava ali. não havia ninguém. no quarto, uma luz acesa. a cama vazia. os pés descalços sobre o chão gelado e o frio que percorria toda a espinha. o vento que batia as portas vinha da varanda. as janelas continuavam fechadas. um silêncio estranho que não existia.
uma, duas, três, quatro horas e nada. ninguém aparecia. não que estivesse esperando alguém pois este alguém não chegaria. ele sabia. ele não estava cansado mas seus olhos não se abriam. não percebia mais se era noite ou se era dia. trocou o fuso, já nem dormia. não enxergava mais, apenas via o resto do que sobrou dele mesmo. o que ele havia conseguido guardar do que fora um dia. só ele podia ver. de certo que não fazia a menor importância. ver para quê? se ele pudesse fazer alguma coisa, ele se multiplicaria. porque ser um só a vida inteira é desperdício, ele achava. bom mesmo é ser muitos e ao mesmo tempo não ser nada, acreditava.
leu todos os versos do drummond, decorou as músicas do vinícius, ouviu tom, caetano, baby, milton, john. escreveu nas paredes, rascunhou na própria pele, desenhou outro cenário, fez tudo o que podia e sabia. estava tudo diferente. mesmo assim as horas não passavam, quiçá os dias, os meses, o ano. um calendário inteiro a percorrer e ele ali, esperando, enquanto suportasse. dia a dia. sem cessar. num movimento interminável, incontrolável, involuntário. como respirar. e pulsar. acelerado e bem devagar. até parar. um dia.
neste dia ele estava sozinho.
quarta-feira, 17 de agosto de 2011
Eu, que estava perto
sexta-feira, 5 de agosto de 2011
Logo ali na esquina

sábado, 23 de julho de 2011
Está tudo assim tão diferente
a cama desfeita,
as roupas no chão,
o cheiro de cigarro impregnado no ar.
Vem.
Lembra da tarde perfeita,
da luz em seus seios,
das mãos em meus pelos,
das juras de amor que deixei escapar.
Já faz algum tempo, lembra?
Eu te falava segredos, eu te fazia carinho.
Eu te falava baixinho que eu morria de amores.
Personagem de um sonho que eu nunca esqueci.
Você olhava em meus olhos,
você morava em meus olhos,
você se via em meus olhos,
eu só tinha olhos para você.
Fiquei cego de amor.
Completamente vendado,
totalmente vendido,
me despi menino, me fiz amante, me vesti poeta.
Reescrevi meus versos sobre a linha do destino já traçado nas palmas de nossas mãos.
Rascunhei outras histórias,
reinventei outros roteiros.
Rabisquei,
pintei e bordei.
Agora vem.
Deixa tudo como está:
o mesmo cheiro de cigarro impregnado no ar,
as mesmas roupas no chão,
a mesma cama desfeita.
Mas vem diferente.
Porque eu não sou mais o mesmo.
sexta-feira, 8 de julho de 2011
Estranho
Na esquina, dois mendigos dividiam civilizadamente um cobertor e uma garrafa de cachaça enquanto liam versos do Neruda. Ao lado deles, um cachorro de pelúcia cor de rosa preso numa coleira improvisada com barbante parecia latir de verdade. Mas ele passou e sequer percebeu. Não notou também que as portas da padaria ainda estavam abertas e que lá dentro, nas prateleiras, no lugar de pães, havia restos de comida. Um carro de som em alta velocidade cruzou a avenida tocando as bachianas brasileiras de Villa Lobos. Logo atrás, um ônibus com os faróis apagados. Ele fez sinal, entrou, tirou uns trocados do bolso, passou a roleta e sentou ao lado de uma velha com um terço de prata enrolado nas mãos. Mais uma vez ele lembrou da avó. Estranho, ele pensou.
O trocador tinha cabelo nas orelhas e um dos dedos da mão esquerda tinha a unha comprida, bem feita, firme feito um casco de cavalo. Ele coçava as narinas com ela, ao mesmo tempo em que tentava equilibrar um rádio de pilha que transmitia uma partida de futebol entre Brasil e França pelas quartas de final da Copa de 86, aquela em que Zico perdeu um pênalti. A menina no banco da frente, linda, de cabelos negros, lisos, e vestido de cetim vermelho, não tirava os olhos dele. Ela escondia um sorriso de canto de boca e revelava as coxas tenras, de pele macia, os pés descalços. Um cheiro doce exalava daquela menina e por um instante ele imaginou se não seria o cheiro da sua buceta. Quis provar, derramar-se em seu seio rijo, roçar seu pau duro naqueles mamilos, passar a língua sobre a nuca, esfregar a barba em suas costas, pegá-la por trás e ali mesmo, naquele ônibus, açoitá-la num coito frenético, ritmado, intenso, feroz até. Só então gozar, disse a velha, olhando pela janela e com o terço de prata ainda enrolado nas mãos. Muito estranho tudo isso, disse alguém lá nos fundos.
A voz soou familiar. Era seu pai, a barba por fazer, o hálito forte. Com o mesmo pijama listrado, as meias de lã e os tamancos de madeira, desses que portugueses costumavam usar. O pai dele sempre estave em todos os lugares, observando cada passo, cada lira com defeito, feito o olho que tudo vê. E julgava. E percebia. Como se soubesse o que devia ou não devia falar. O pai dele nunca se calava. Talvez por isso mesmo parecesse tão rouco, como se a voz fizesse um enorme esforço para sair. Mas ele sempre ouvia seu pai, mesmo que não entendesse ou não fizesse muita questão de escutar. É estranho explicar, eu sei.
A angústia não passava. Uma freada brusca. O rádio de pilha do trocador cai no chão. Anda mais devagar, ô filho da puta, berrou a menina linda do vestido de cetim vermelho. O motorista, um adolescente franzino, com goma nos cabelos e aparentando menos de dezesseis anos de idade, mandou que ela tomasse no cu e acelerou. A velha, o tempo todo com o terço enrolado nas mãos, riu e abriu a janela do ônibus e pôs a cabeça para fora e a boca aberta e o vento gelado a estapear-lhe as bochechas. O pai, falando baixinho, esticou-se no banco traseiro do ônibus e acendeu um cigarro sem filtro. Foi então que ele fez sinal para sair do ônibus. Outra freada. A porta do ônibus abre para ele saltar. A velha quer que ele fique, a menina quer que ele vá. Pela primeira vez o pai não quis se pronunciar. O motorista não olhou e o trocador fingiu que não viu. Ele então tomou a decisão de voltar.
Mas ele ia voltar estranho.

