Desde moleque sentia medo de se relacionar. Foi uma criança retraída, de poucos amigos, aluno brilhante e de comportamento exemplar diante de olhos tão repressores. Filho único, vivia na barra da saia da mãe e sob as regras incontestáveis do pai, um ex-militar da marinha que sempre proibiu a esposa de trabalhar. Nunca contrariou a autoridade do pai nem a subserviência da mãe. Gostava da imposição do silêncio em sua casa, pois sabia que assim nunca seria obrigado a falar mais que o necessário. Se havia coisa que o incomodava era gente que falava demais.
domingo, 8 de janeiro de 2012
A fuga sob o céu do Aterro
Desde moleque sentia medo de se relacionar. Foi uma criança retraída, de poucos amigos, aluno brilhante e de comportamento exemplar diante de olhos tão repressores. Filho único, vivia na barra da saia da mãe e sob as regras incontestáveis do pai, um ex-militar da marinha que sempre proibiu a esposa de trabalhar. Nunca contrariou a autoridade do pai nem a subserviência da mãe. Gostava da imposição do silêncio em sua casa, pois sabia que assim nunca seria obrigado a falar mais que o necessário. Se havia coisa que o incomodava era gente que falava demais.
sexta-feira, 15 de janeiro de 2010
Os monstros que vivem dentro de nós

O trânsito está bom. Em menos de 15 minutos cruzo a Radial Oeste e entro no elevado que vai me levar ao Rebouças e dali ao cinema são mais uns 10 minutinhos. Dentro do túnel eu e Claudia damos um grau e o som que rola é "Never gonna girl like you before". Vontade de dançar. A música ainda rola mais uma vez. Há uma fila grande em frente ao cinema. Dois filmes bem cotados estreando hoje, mas eu saí de casa com a intenção de ver "Onde vivem os monstros", de Spike Jonze, o mesmo diretor de "Quero ser John Malcovitch". O relógio da esquina da Voluntários da Pátria marca 19h13. O filme começa às 19h15. Ainda não estacionei o carro. Dou uma volta no quarteirão e por sorte um carro está saindo da vaga. Pego dois reais para o guardador e praticamente arrasto a Claudia pra fila dos ingressos. Ela não gosta. Reclama que sou estressado. Às vezes sou mesmo. Ainda mais quando quero ver um filme e estou atrasado. Enquanto ela fica na fila vou ao banheiro. Ela resolve ir ao banheiro quando já está com os ingressos na mão e o filme começando. Entro sozinho na sala. Perdi o comecinho do filme mas não o fio da meada. Ela demora um pouco mais a entrar na sala. Ficou chateada porque eu não esperei por ela. Diz que foi falta de consideração minha. Eu acho que a falta de consideração foi dela e não respondo mais nada. Quero prestar atenção no filme. A trilha sonora é espetacular e a história é uma fábula delirante baseada num clássico da literatura infantil norte-americana. Não sei se é um filme para crianças, mas de certo que é um filme para a criança que ainda existe em cada um de nós.
O filme conta a história de Max, um menino bastante levado e dono de uma imaginação pra lá de fértil. Uma noite, ao desobedecer sua mãe, leva uma enorme e merecida bronca. De castigo e fantasiado de lobo, sua imaginação o leva a um lugar fantástico, povoado por criaturas gigantes. A partir daí o filme se transforma numa enorme aventura, repleto de referências lúdicas, além de questões relacionadas aos sentimentos mais primitivos da infância, como o medo, a raiva, a solidão e o lado selvagem que todos nós temos. Seriam estes sentimentos os verdadeiros monstros que carregamos dentro de nós? O filme nos dá esta resposta de uma maneira sensível, divertida e, por que não?, deslumbrante.
Saí do cinema pensando no quanto eu fui solitário quando criança e no quanto a minha imaginação me levou a lugares tão fantásticos quanto a história que eu acabara de assistir. Lembrei do medo que eu sentia ao ficar sozinho em casa, mesmo estando junto de meu irmão mais novo. Da raiva que eu sentia quando contrariado. Dos monstros que habitavam minha imaginação. Das histórias que minha mãe contava para que eu dormisse. Das artes que eu aprontava. Dos meus tempos de menino. Tempo este que eu ainda guardo dentro de mim, mesmo que os monstros ao redor teimem em me dizer que ele não volta mais.
quarta-feira, 24 de junho de 2009
Eleanor Rigby

O tempo passou. No comecinho dos anos 90 tinha um programa chamado Documento Especial, na extinta Rede Manchete, que eu gostava muito. Era um híbrido de Globo Repórter com Amaral Neto, outro que eu acabei de tirar do fundo do baú. Volta e meia tinha umas pautas interessantes e uma certa noite o programa era sobre o Santo Daime e me trouxe de volta aquela curiosidade esquecida lá com o Flávio Cavalcanti. Por coincidência eu tinha um amigo dos meus tempos de caserna, o Ricardo, que frequentava a igreja do Santo Daime em São Conrado. Pedi pra ir com ele. Régis, outro camarada nosso, também quis ir. Fomos os 3. De ônibus.
Lembro que ao sair de casa avisei minha mãe onde eu iria. Ela não entendeu muito bem do que se tratava mas não fez nenhuma observação a não ser "leva uma casaco porque vai esfriar". E esfriou mesmo. A igreja fica no meio da Floresta da Tijuca, a maior floresta urbana do mundo, de cara para a Pedra da Gávea. Um lugar mágico. Especial. E eu sequer imaginava que viveria momentos mágicos e especiais ali. Desde aquela primeira vez. De um lado, os homens. Do outro, as mulheres. Todos devidamente paramentados. As mulheres, de saia plissada verde e uma coroa; os homens, de terno branco. Ambos com uma estrela de Davi dourada no peito. Os cânticos, que eles chamavam de hinos, lindos, diziam exatamente o que precisávamos ouvir e nos ensinavam as histórias que nunca tivemos muita paciência para ler na Bíblia. O bailado era pra lá e pra cá, num vai-e-vem inebriante. No meio disso tudo era servido o chá. Amargo até dizer chega. Muito pior que chá de boldo. Até hoje, só de lembrar, sinto minha língua travar. E de repente o silêncio. Luzes se apagavam. Só velas acesas sobre uma mesa repleta de cristais e imagens no centro do salão. Todos concentrados. Todos tentando se aquietar e aquietar suas mentes. Uns em posição de lótus, outros sentados em cadeiras de plástico e alguns de pé, mas todos no mais profundo silêncio.
Na semana seguinte tive de levar minha mãe. Meu irmão também quis ir. Depois foi a vez de uns amigos, do meu pai, de uma tia, um tio. Até minha mulher foi. Na época a gente estava só começando a namorar, mas eu já não ia com tanta frequência. Eu já me deixava consumir pelo trabalho em produção de comerciais, já estava contaminado pela correria do dia a dia. Foram quase 5 anos no Daime. Quase 5 anos que me valeram por muitos anos de análise, talvez. Ali, naquela igreja, era só eu, o eu que existe em mim e o eu que eu não conhecia. Continuo não conhecendo muito bem, pois a cada dia me apresento um pouco mais. Ou me escondo, não sei. Só sei que hoje acordei mais pra Beatles que pra Rolling Stones e acabei escrevendo sobre o Daime. Dá pra entender?
A foto que ilustra este post é da estátua de Eleanor Rigby, em Liverpool. Não sei se ela existiu de verdade, mas a música é linda, uma das que mais gosto da dupla Lennon e MacCartney. Fala da solidão dos mais velhos. "Oh, look at all the lonely people".