Mostrando postagens com marcador campanha política. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador campanha política. Mostrar todas as postagens

domingo, 11 de março de 2012

Deslizes são fatais

O ano era 2008. Eu estava em Juiz de Fora fazendo mais uma campanha politica e não pude acompanhar atentamente a eleição para a prefeitura do Rio de Janeiro, mas óbvio que eu sabia muito bem quem levaria meu voto. Meu candidato - tanto o de Juiz de Fora quanto o do Rio de Janeiro - conseguiu levar o pleito para o segundo turno e segundo turno é outra campanha, completamente diferente, com outra dinâmica, ainda mais estressante, especialmente para quem foi pago para ganhar a eleição. Eu elegi meu candidato.

O de Juiz de Fora. O do Rio não.

Numa campanha politica uma série de fatores é responsável tanto pelo sucesso quanto pelo fracasso do candidato. Desde a empatia com o eleitorado e a diposição de se tornar popular à firmeza de um bom discurso político, consistente, propositivo, sério, livre de preconceitos. Coisa cada vez mais rara. Até porque, o ser político nos dias de hoje, é provido de descrença e de desconfiança e desprovido de moral. Não vou me arriscar aqui a dizer que ao ser político de hoje em dia também falta ética, porque ética tem a ver com caráter e caráter, a gente sabe, é inerente ao ser humano. Todos têm. Seja ele bom ou ruim. E não me cabe aqui julgamento algum.

Em Juiz de Fora eu conseguia ver qualidades no meu candidato. Ele havia sido considerado o melhor secretário de desenvolvimento social do país no ano anterior, tinha um discurso sério, nunca me pareceu leviano e se mostrou com uma enorme disposição de fazer uma campanha onde ele tivesse um contato mais direto com o eleitor. A camisa social azul e o paletó deram lugar a camisas pólo e muita sola de sapato. Nossos programas eram basicamente gravados em externas, numa agenda de apresentação de propostas feita com a participação popular. A boa capacidade de improvisar do candidato aliada a um roteiro de gravação pré-estabelecido com a equipe deu certo e aquele político com fama de elitizado viu que tinha potencial para se tornar o preferido do povão. Assim foi feito.

Do quarto lugar nas pesquisas para o cargo de prefeito foram quase quatro meses de intenso trabalho. Não me arrependo de nada do que fiz naquela campanha. Tudo o que foi ao ar, e que levava minha assinatura, tinha verdade. Os textos, as edições, nada foi manipulado para encobrir um mal feito ou uma mentira. Todas as acusações eram rebatidas e devidamente esclarecidas. Todo o trabalho da equipe de criação daquela campanha foi feito com muita emoção, diga-se de passagem. Voltei para casa saboreando o doce gosto da vitória.

Mas meu candidato no Rio não teve a mesma sorte.

Como eu relatei há alguns parágrafos acima, segundo turno é outra campanha e qualquer deslize pode arruinar uma candidatura. E foi o que aconteceu com o meu candidato no Rio. Ao cumprir uma agenda deixou escapar na frente de um repórter uma frase que comprometeu, a meu ver, toda a sua trajetória de homem público. Na sua frase infeliz, ele afirmava que uma determinada vereadora, integrante da sua coligação, teria uma "visão suburbana" sobre a construção de um aterro sanitário e mais: que ela seria uma "analfabeta política". Moradores do subúrbio, como eu, mais preciosos que nunca para ele, de postura "Zona Sul", consideraram o comentário de um enorme preconceito. O outro candidato, claro, usou e abusou do fato, noticiado com alarde por toda a imprensa e agradece a Deus - e ao repórter - até hoje pelo acontecido.

Dois anos mais tarde este mesmo candidato tentou se eleger governador do estado. Mais uma vez não conseguiu. A derrota nas urnas não foi culpa de nenhum repórter que ao cumprir seu ofício publicou uma declaração infeliz, mas tenho cá minhas desconfianças de que aquele episódio com os suburbanos foi responsável por uma campanha sem muita convicção por parte da militância e também de sua parte. Eu, como bom suburbano, confesso que não me empolguei nem um pouco em ceder-lhe meu voto. Imagino que muitos outros pensaram como eu naquela eleição. Uma pena.

Agora, às vésperas de uma nova eleição municipal, a campanha parece ter sido nacionalizada em São Paulo. Mais uma vez uma queda de braço entre o PT e o PSDB. Lula, mesmo afastado do poder, lutando contra um câncer na laringe, continua dando provas de sua força política e impôs o nome de Fernando Haddad como pré-candidato do partido à prefeitura da maior cidade da América Latina, enquanto Serra, que carrega a pecha de candidato derrotado, depois de negar e muito fazer suspense, se apresenta como o nome dos tucanos para o cargo. Os olhos da imprensa estão virados para São Paulo porque lá a briga já começou e promete ser boa.

Aqui no Rio a situação ainda estava morna e a batalha parecia ganha. O atual prefeito é candidato à reeleição e tem a seu favor a máquina e uma agenda de eventos pra lá de positiva, além de contar com apoio de mais 19 partidos, o que lhe garante um tempo bastante significativo de propaganda na TV. Nenhuma outra candidatura havia se apresentado para a luta até que, há poucos dias, um acontecimento movimentou a imprensa e a vida política da cidade. A bela filha do ex-governador Garotinho, Clarissa, anunciou que será a candidata a vice na chapa de Rodrigo Maia, filho do ex-prefeito Cesar Maia que, entre outros legados, deixou para os cariocas um elefante branco mais conhecido como Cidade da Música, obra que consumiu uma fortuna e que ainda está inacabada. Um casamento perfeito, já que assunto, piada e, por que não?, desespero, não faltariam para, nós, eleitores cariocas.

Mas um outro fato acendeu a luz no fim do túnel da eleição no Rio de Janeiro. O mesmo repórter que publicou a frase infeliz daquele que era o meu candidato a prefeito em 2008, foi o primeiro a publicar uma matéria onde o pré-candidato Marcelo Freixo, do PSOL, conhecido por seu combate às milícias, anuncia que o seu candidato a vice na chapa será o fundador do grupo O Rappa, Marcelo Yuka, um dos artistas mais engajados da atualidade. No ano 2000 Yuka, famoso por suas composições contundentes e sempre carregadas de críticas, ficou paraplégico após levar um tiro num assalto no bairro da Tijuca e desde então participa ativamente de projetos sociais e assim como o Freixo, é dono de um discurso que, no mínimo, merece ser ouvido com respeito e atenção. É claro que ele deve estar preparado para os impropérios que irão surgir no ringue durante a campanha. Os reacionários, os moralistas, os demagogos e, lógico, os marqueteiros, estarão mais a postos que nunca e vão carimbá-lo de tudo. De maconheiro incentivador do uso de drogas a vagabundo.

Qualquer deslize será fatal.

quinta-feira, 16 de julho de 2009

Entornando o caldo


Não sei se vocês sabem, mas eu carrego nas costas cinco campanhas políticas. A primeira foi para a Prefeitura de Mogi das Cruzes, cidadezinha do Alto Tietê, em São Paulo, lá pelos idos de 2004. Depois, em 2006, elegi alguns deputados estaduais e federais, também em São Paulo, e voltei a tempo de me engajar no segundo turno pelo governo do estado do Rio, quando trabalhei para a candidata Denise Frossard. Perdi. Em 2008 comecei fazendo a campanha para a Prefeitura de São Gonçalo, mas logo fui arrebatado para Juiz de Fora, onde, junto com a equipe da Eurofort, elegemos o prefeito numa virada histórica. Durante quase todo o primeiro turno estivemos em terceiro lugar, mas com muita garra e determinação conseguimos levar as eleições para o segundo turno, transformando um candidato do PSDB, até então considerado de elite, no candidato mais popular das eleições, derrotando a candidata do PT, que carregava a fama de novidade, de renovação, de ética e tudo mais a que estamos acostumados a ouvir o PT se autointitular. Tudo artimanha do marketing político, podem acreditar.

Entre uma campanha e outra eu invento um documentário pra fazer, um festival de cinema pra produzir, uns curtas-metragens pra dirigir e outros tantos roteiros que um dia podem virar qualquer coisa. Do ano passado pra cá inventei de abrir uma produtora com mais 5 amigos, a Rastros Filmes - http://www.rastrosfilmes.com.br/ - e desde então tenho tentado emplacar algum projeto pra ver se entra alguma grana. Confesso que está difícil, ainda mais com 5 sócios, cada um pensando de uma maneira diferente e sempre com alguma opinião que pode mudar tudo ou empacar tudo de uma hora para outra. Isso cansa. Mas o pior é quando um dos sócios, no caso sócia, se acha a dona da razão e muitas vezes assume uma postura acima do bem e do mal, como se só o que ela pensa deveria prevalecer, só quem ela conhece é gente boa, só depois que ela dá a palavra final é que vale. Na verdade isso tem me dado a maior preguiça, expressão que aprendi com ela, aliás. Até porque eu, que muitas vezes não deixo transparecer de cara, mas também tenho cabelinho nas ventas, fico pra morrer e não tenho deixado as coisas passarem em branco, ou melhor, não tenho concordado com as decisões e as posturas da figura em questão. E é aí que o caldo entorna.

E o caldo entorna também quando abro a porta de casa e vejo estampadas nas primeiras páginas dos jornais O Globo e Folha de S.Paulo, os que assino, fotos do nosso presidente Lula praticamente nos braços - ou no colo, talvez - de Fernando Collor e Renan Calheiros, além das mais variadas desculpas em favor de Sarney ou de todos os acontecimentos que envergonham e maculam a imagem do Senado Federal. Quem me conhece sabe que eu já fui petista de carteirinha, daqueles que andava com uma estrela vermelha pendurada na mochila e discursava a favor do operário que sonhava em um dia chegar à presidência. O episódio do mensalão e as desculpas de Lula dizendo que não sabia de nada serviram para dissolver o sentimento de esperança que eu tinha em ver meu país ser comandado por um cabra do povo, com todo o discurso da moral e da ética, eleito pelo povo, que queria mais moral e mais ética e coisa e tal. Tenho amigos como o Raul, por exemplo, que ainda acreditam no Lula, e dizem que governar é assim mesmo e que quem está no poder tem de fazer suas concessões. Alto lá. Toda e qualquer concessão tem lá seu limite. Eu até concordo que a vida esteja um pouco melhor para os menos favorecidos. Basta viajarmos pelo interior do nosso Brasil para vermos as melhorias. Mas nem por isso posso achar que o bolsa isso ou bolsa aquilo seja o antídoto pra todo o mal brasileiro. Muito pelo contrário. Ou se dá o peixe ou se ensina a pescar, não é não? E eu não tenho visto ninguém por aí ensinando a pescar nada. E também não posso concordar com a arrogância e o ar de superioridade daquele que se considera o nosso líder.

Eu não gosto de ter líderes e também nunca tive um ídolo sequer. Sou daqueles que acredita em criação coletiva, em parcerias, em igualdade de expressão. Pode parecer utopia mas é de verdade. E quando esbarro com arrogância e falta de humildade fico com a maior preguiça. E isso vale tanto para presidentes como para sócios, sabe?