
Este meu amigo me disse ainda que passar uma temporada em Londres é como passar pelo purgatório e que se você sobrevive àquela selva sua vida nunca mais será a mesma depois. É como um estágio, ele disse. Um estágio que eu nunca vou fazer, diga-se de passagem, pois se é pra passar por purgatório, que pelo menos eu esteja perto daqueles que amo, falando a língua que eu domino, pisando em terras que eu conheço. Cada vez mais eu tenho certeza de que não vim parar nesta vida pra resolver minhas questões longe de tudo aquilo que tenho como referência. E aqui não há um tom de crítica a quem escolhe ou se vê obrigado a escolher viver num outro país. Acho que se eu não tivesse me casado tão cedo também encararia uma aventura destas. Hoje, aos 40 anos e com 3 filhos, não mais. Quero, sim, conhecer Londres, visitar a Tate Modern, os pubs, passear em Candem Town e procurar saber se é verdade que o Reino é unido. E só. Até porque, em termos de vanguarda e produção artística, hoje em dia vejo mais Berlim como pólo cultural do que qualquer outra cidade da Europa. E este meu amigo também.
Por falar em vanguarda e produção artística, semana passada estive num evento no Cine Glória chamado Capacete, que a cada 15 dias reúne alguns artistas plásticos para conversarem a respeito de suas produções e de seus processos criativos. O convidado da noite era o artista plástico Ernesto Neto, de quem eu já conhecia alguma coisa, porém nunca tinha participado de um papo cara a cara com ele. Figuraça, completamente descabelado e amarrotado, Ernesto é daqueles que tem muito o que falar e a plateia fica completamente hipnotizada por ele. Quem estava presente pode ver slides com suas obras e ouvir como aquilo tudo ia surgindo, desde os materiais usados até ao que tinha dado errado. Além da generosidade, que em muito me fez lembrar do meu querido e saudoso amigo Sérgio Bernardes, o bom humor também é peça fundamental na vida do artista. Prova disso foi a história de sua instalação na Fundação Eva Klabin, há 5 ou 6 anos, quando cobriu de lençóis brancos todas as obras de arte existentes na casa por "achar aquilo tudo lá muito careta" e teve a certeza de que o fantasma de Eva Klabin existe e vive nos cômodos da Fundação. Isso porque os seguranças de lá falam dela como se ela estivesse viva, talvez com medo de que ela puxe os pés deles durante os cochilos noturnos.
E enquanto eles cochilam eu continuo querendo ser o que eu sou e não apenas qualquer coisa.





























