terça-feira, 13 de abril de 2010

Arnaldo Jabor, redes sociais, tuiteiros e ignorantes


Atualmente eu tenho tuitado mais do que qualquer outra coisa. Na verdade só o online do Jornal do Commercio me toma mais tempo em frente ao computador hoje em dia do que o tal do twitter. Entre uma nota e outra que publico no online, depois da cotação do dólar ou antes do pregão da Bovespa, lá estou eu ligado no twitter. Funciona meio que como uma válvula de escape ou uma janela para o mundo, onde posso me expressar (em no máximo 140 caracteres, é verdade!), me comunicar, trocar ideias, pensamentos, discordar, reclamar. Sei lá. Só sei que ainda estou meio que descobrindo essa ferramenta e a arte de ser sucinto com as palavras.

Lembro que dia desses, na casa de um amigo, rolou um papo a respeito dessas redes sociais e sua utilidade. Dos cinco amigos reunidos, só eu e o dono da casa éramos usuários das tais redes. De carteirinha, diga-se de passagem. Para ser sincero, acho que todos tinham lá seus orkuts e facebooks, porém, devidamente abandonados.

_ Não me sobra tempo, foi o que disse uma amiga.

E eu acredito que seja falta de tempo, mesmo, afinal, ela faz doutorado e doutorado não deve ser moleza não. O marido desta amiga minha foi logo torcendo o nariz, como se fazer parte de uma dessas redes fosse a coisa mais esquisita do mundo. Mas ele é um cara antenado, inteligente, descolado. Está perdodado. A outra amiga é mãe de uma menina de 2 anos e acabou de se mudar pra Salvador depois de quase 20 anos trabalhando duro na redação de um jornal diário aqui no Rio. Tem orkut que eu sei. Facebook também. Twitter acho que não, mas volta e meia nos falamos via google talk. Ou seja: está na rede. Porque o importante é não deixar esse movimento _ que vem trazendo uma nova maneira de se comunicar com o mundo _, passar. É preciso embarcar junto nesta e fazer parte desta revolução. Caso contrário, é como se você perdesse a viagem. Pelo menos na minha concepção.

Uma das viagens do twitter é justamente ser um espaço democrático para você se expressar seja lá como for. Tudo bem que volta e meia surgem uns seguidores meio indesejáveis (sempre tive grilos com gente me seguindo), tipo o Governo do estado que resolveu me seguir sejá lá pra quê. Se o seu Cabral vai começar a me vigiar, vai perder seu tempo porque de besta eu não tenho nada (ou quase nada) e nunca, nunquinha, vou postar alguma coisa que possa me comprometer. Mas, quer saber? Já andei reclamando do governo por lá. É meu direito de cidadão e, além do mais, esta semana mesmo vi uma entrevista do general Newton Cruz, o temível, onde ele afirmava que o Brasil vive uma democracia e nada pode mudar isso. Se ele, um ícone dos anos da ditadura, disse isso, é sinal de que eu posso respirar aliviado e continuar tuitando sem me estressar.

E tem gente que quando se estressa vai tuitar. É melhor do que socar a mesa, por exemplo. Acho que foi o caso de um amigo meu hoje cedo que, ao ler a crônica do Arnaldo Jabor no Segundo Caderno, ao invés de esbravejar ou amassar o jornal, foi para a rede e chamou os pobres e inocentes pais do cineasta/dublê de cronista de ignorantes. Tudo porque se sentiu ofendido com a frase "como ensinar a população ignorante que só um choque democrático e empresarial pode enxugar a máquina podre das oligarquias enquistadas do estado?". Ele vai votar no Lula, quero dizer, na Dilma, claro. E me parece que vai votar sem pensar, o que me causa muito estranhamento, já que este meu amigo de burro não tem nada. Muito pelo contrário. Sempre foi contestador, bem informado, culto. Mas foi pego por um sentimento que eu nem sei bem qual é, mas que me fez lembrar meu avô materno e seu amor incondicional a Getúlio Vargas, o pai dos pobres. Já prometi a ele uma foto do Lula com a faixa presidencial. Se bem que não duvido nada que ele já tenha arrumado uma.

Do Jabor eu curto os filmes Tudo Bem _ com a Fernandona_, e Eu sei que vou te amar _ com a Fernandinha. Do Lula eu confesso que gosto de algumas coisas também. Sempre gostei. Mas com mais fidelidade e dedicação. Até porque eu me dei conta de que ele não é tão fiel assim àqueles ideais que defendia antes de subir a rampa do Planalto. Basta vermos as incansáveis vezes em que ele, que um dia já se confundiu com a ética e com a moral, se mostrou omisso. E, por que não, leviano? Hoje já consigo me imaginar votando num José Serra, por exemplo. Principalmente porque sei que o governo FHC, dos tucanos, foi um governo que marcou positivamente a vida dos brasileiros. Foi ali, com Fernando Henrique, com o fortalecimento da nossa moeda e da nossa economia, que o nosso País começou a trilhar um outro caminho. Portanto, eu não posso ser injusto nem ingênuo e embarcar numa guerra de nós contra eles. Porque o Brasil é um só, mesmo que múltiplo em suas culturas. Não dá para apagar um passado e achar que só existe Brasil depois de 2002. Isso não é verdade. Quem pensa assim está sendo ignorante.

Ou não é ignorância apoiar políticos como Garotinho? Ou não é ignorância desrespeitar e debochar da legislação eleitoral, que proíbe campanhas fora de hora? Ou não é ignorância espalhar boatos de que um provável governo do PSDB acabaria com o programa Bolsa Família? Ou não é ignorância um Estado governado por sindicalistas deslumbrados com as mamatas do poder? Mas acho que o Jabor _ por quem eu nem nutro tanta admiração assim, repito _, não se referia a este tipo de ignorância, mas àquela em que falta o conhecimento. E daí para gerar mal entendidos, é um pulo. Tal e qual aconteceu com meu amigo, que de ignorante não tem nada.

sábado, 13 de março de 2010

Entre cegos e porcos


Era sexta-feira e já passava das três da tarde quando eu cheguei na gare da Central do Brasil. O movimento me pareceu maior do que o normal para o horário. Muita gente se espremendo em enormes filas antes das catracas. Não pensei duas vezes e dei um jeito de me espremer também. Eu estava cansado e queria chegar cedo em casa. Calor. Sede. Fome. Sono. Muito sono.

O painel eletrônico informava que o parador para Bangu sairia às 15h16 da plataforma 4 D. Tive de correr para não perder o trem, que estava cheio. Tudo bem. Da Central ao Méier são apenas 15 minutos e eu já havia ficado a manhã toda e o começo da tarde sentado na redação. Precisava fazer meu sangue circular. Um dos milhares de vendedores ambulantes que ficam num vai-e-vem entre os vagões gritava ao meu lado que o tal picolé moleca é o que tem melhor sabor e melhor paladar. Nunca tive coragem de comprar nada dentro do trem. Segundos antes de partir um segurança da Supervia entra no vagão com um cego pelas mãos. "É o parador para Bangu"?, o ceguinho perguntou . "É sim", respondeu uma mocinha, que foi logo levantando e cedendo seu lugar para que o cego sentasse. Ao lado da tal mocinha estavam dois rapazes, de olhos bem abertos, mas que se fizeram de cegos, surdos e mudos para não notarem a gentileza da moça. Sentados estavam, sentados ficaram.

Assim que o trem fez sinal de que ia partir, uma mulher com um semblante sofrido conseguiu correr e entrar no vagão com duas crianças que não deveriam ter mais de dois anos. Passou por mim a passos rápidos, mas pude notar que ela estava grávida de mais um. Conseguiu que um rapaz lhe cedesse lugar mais à frente. Tão logo o trem começou a andar, o menino, mais novo, fez que ia chorar. "Não é hora de manha", disse-lhe a mãe, num misto de firmeza e grosseria. O menino engoliu o choro, só que quem começou a chorar foi ela. Àquela altura eu já imaginava que a viagem até o Méier duraria muito mais que apenas os 15 minutos de praxe. Um silêncio constrangedor tomou conta do vagão e a história daquela mulher, que há quase dois meses devia o aluguel para uma tal de dona Ivete numa comunidade que eu não entendi bem qual era, passou a tomar conta da viagem. Ela dizia, aos prantos, que precisava arrumar R$ 170,00 até o final daquele dia e que só tinha conseguido R$ 40,00. Tinha saído cedo de casa com os filhos na tentativa desesperada de conseguir o dinheiro do aluguel. Ainda não tinham comido nada. Ela já não sabia mais o que fazer. Se voltasse para a comunidade sem o dinheiro do aluguel, o chefe do morro iria bater nela e expulsá-la de lá. "E os meus filhos"?, ela perguntava. "E os meus filhos"? A tal da dona Ivete já havia avisado ao tal chefe do morro que o prazo para que ela pagasse o que devia era aquela sexta-feira. É a lei do cão. Um horror.

Eu, que tenho ido ao Frei Luiz desde meados do ano passado, procurando um alento espiritual e ensinamentos que me deixem mais sereno, coloquei a mão no bolso e vi que tinha uns R$20,00. Na hora eu pensei nas facilidades que tenho em minha vida e nas vezes em que eu reclamo de barriga cheia. Aquelas duas crianças no colo daquela mãe desesperada me encheram de um sentimento que eu nem sei dizer ao certo qual foi. Lembrei dos meus três filhos e de todo o amor que eles têm, fora as facilidades materiais que a vida sempre lhes proporcionou. Saí de onde eu estava, fui até à mulher. Tirei todo o dinheiro que eu tinha no bolso e entreguei a ela sem dizer uma só palavra. Ela ergueu as mãos, pegou o dinheiro, me olhou no fundo dos olhos e agradeceu. Sem graça, meio que sem saber se eu deveria ter deixado que "minha mão esquerda visse o que fez minha mão direita", voltei para o lugar onde eu estava. Talvez aqueles R$ 20,00 não fossem resolver os problemas daquela mulher. E talvez não resolvessem mesmo. Mas tenho certeza que algo em mim estaria me perturbando muito mais até agora se eu não tivesse aquela reação de sair de onde eu estava e lhe entregar todo o dinheiro que eu tinha no bolso. "Eu tinha feito a minha parte", repetia para mim mesmo como um mantra.

Não demorou muito para que um rapaz, negro, de bermudas e chinelos, também fosse até ela com alguns trocados. Confesso que não reparei se muitas outras pessoas fizeram o mesmo. Creio que não. Estamos todos muito alheios ao que se passa ao nosso redor. Pouco nos importa o que acontece com o outro. Achamos tudo normal. Não sei se nos tornamos frios ou anestesiados diante de tantas mazelas, mas o fato é que essas histórias acabam se tornando comuns. Só que não deveriam ser. E não pense você que é pelo fato de eu estar escrevendo estas linhas, narrando esta história, que eu esteja me autoproclamando um ser superior, bonzinho, iluminado, ou o escambau. Nada disso. Eu faço parte desta massa que também anda às cegas por aí _ tal e qual o mito da caverna _, que não vê ou não quer enxergar que alguma coisa ainda pode ser feita para que o mundo seja um lugar mais bonito. Só que de vez em quando eu abro o olho.

P.S.: Pouco antes do trem chegar ao Méier, um rapaz, branco, vestindo uma camisa de corte moderno, e que estava bem na minha frente, terminava de beber sua água mineral. Foi só o trem abrir as portas para ele jogar a garrafa de plástico nos trilhos na maior cara de pau. "Este, além de cego, é porco", eu pensei.

terça-feira, 9 de março de 2010

Mea culpa


Estou em falta aqui com meu blog. Na verdade, sábado à noite sentei e escrevi um texto enorme. Na hora de postar digitei alguma tecla misteriosa e o danado do texto desapareceu. Eu havia escrito sobre meus demônios. Sim, eu tenho alguns, mas ando a fim de me desfazer deles. É uma tarefa pra lá de difícil, eu sei. Mas acho também que meus anjos da guarda, que me protegem e sempre me protegeram, não querem que eu dê muita atenção a eles, os tais demônios, e por isso mesmo fizeram o favor de sumir com o tal texto. De lá pra cá não tive mais tempo de me dedicar a escrever o que quer que fosse, afinal, tenho acordado às 5h30 da manhã, pois preciso estar no jornal às 7h em ponto por conta do online. Ou seja: estou que nem zumbi, num sono danado durante todo o dia. Só consigo escrever no jornal e assim mesmo porque as pautas surgem a cada cinco minutos na minha frente e ai de mim se não transformar cada pauta daquelas em notícia. Para completar ainda tem o caderno de artes onde uma vez por semana tem uma matéria minha. E das grandes, com entrevistas, fotos e tudo a que tenho direito. Espero conseguir dar conta.


Portanto, só vim aqui rapidinho, pra dar uma satisfação a vocês e a mim mesmo.


Eis aqui um mea culpa.

segunda-feira, 1 de março de 2010

Ler é o melhor remédio


Dias chuvosos são sempre estressantes para mim. Não gosto. Nunca gostei. E nem adianta aquela lenga-lenga de que o barulhinho de chuva caindo lá fora é uma delícia, um convite ao romance e à preguiça. Concordo apenas com a preguiça e muito por conta do transtorno que é sair de casa em meio àquela chuvinha incessante. Porque quando eu tenho a opção de ficar em casa em dias de chuva, eu fico. Sem traumas. Mas não esperem me encontrar debaixo de um edredom assistindo Sessão da Tarde. Isso nunca. Faz pelo menos uns 25 anos que não assisto Sessão da Tarde e, se não me engano, da última vez era um filme do Jerry Lewis. Eu achava muita graça nos filmes do Jerry Lewis. Hoje, não mais. Continuo gostando de filmes, claro. Mas prefiro ir ao cinema do que ver pela TV. Em casa eu prefiro um bom livro. Isso quando me sobra tempo, lógico. Afinal, vocês sabem que meus três filhos quase não me permitem um tempo livre para ler o que quer que seja. Jornal? Só bem cedo, antes mesmo dos mais novos acordarem.
Sempre gostei de livros. Desde muito pequeno, quando as gravuras e as encardenações eram o que mais me atraíam. Lembro que quando fiz oito anos minha tia Marília me deu um livro de presente. Era um livro grosso, de capa dura, com alguns desenhos e repleto de fábulas do Esopo, que só muito tempo mais tarde vim saber que se tratava de um escravo contador de histórias e que as tais fábulas nada mais são do que contos com moralidade popular. Mas isso é papo para outro post. O certo é que aquele livro que minha tia me deu ficou pra sempre registrado na minha lembrança como sendo o primeiro livro que eu tive curiosidade de ler. Depois vieram outros. Muitos outros. Desde então o hábito de ler nunca me abandonou.
Talvez o gosto pela leitura tenha sido o meu diferencial diante do mundo, já que nunca fui um aluno brilhante, daqueles que sempre se destacavam. A não ser pelas minhas redações, que sempre foram motivo de orgulho e de elogios, posso me considerar ter sido um aluno medíocre. Não gostava mesmo de estudar, tinha verdadeiro pavor de matemática e não entendia como alguns amigos e primos conseguiam ficar horas debruçados sobre um livro de física, por exemplo, tentando decorar todas aquelas fórmulas. Eu preferia me envolver pelos crimes que saíam da imaginação de Agatha Christie, pelos contos de Machado de Assis, pelas histórias fantásticas das Brumas de Avalon, pelos dramas de Shakespeare e mais tarde, bem mais tarde, pelas Ilusões Perdidas de Balzac e pela filosofia de Nietzsche.
Nunca na minha vida vou esquecer da emoção de ler pela primeira vez um livro do Carlos Heitor Cony chamado Pilatos, que ele escreveu no ano em que eu nasci, 1969. O livro conta a terrível história de um homem que teve seu pênis decepado e passa o tempo todo com ele, seu pênis, dentro de um pote de maionese. Pode soar estranho, mas foi o livro mais engraçado que eu já li durante estes meus 41 anos. Cony, o autor, tem uma relação polêmica quando o assunto é ditadura e os militares, mas Pilatos trata justamente da castração em que se encontrava a sociedade naqueles anos de chumbo.
Confesso que eu estava meio sem inspiração para vir aqui neste meu blog e escrever sobre o que quer que fosse, mas ontem, quando soube da morte de José Mindlin, alguma coisa despertou em mim. A história daquele senhor de 95 anos que dedicou sua vida aos livros e ao Brasil me comoveu. Desde criança ele se dedicava a montar uma das maiores bibliotecas do país, com mais de 45 mil livros, entre eles exemplares pra lá de raros, como o original do Grande Sertão Veredas, um dos livros que mais me impressionaram, seja pelo seu conteúdo ou seja pela forma como foi brilhantemente escrito. Hoje eu li no blog da Míriam Leitão que o sonho de Mindlim era que o Brasil lesse mais. Eu também sonho este mesmo sonho. Porque sou exemplo vivo de como a leitura pode ser benéfica na vida de alguém. Afinal, se eu sou o que sou hoje, muito se deve ao meu prazer pela leitura. Não que eu seja alguma coisa ou que tenha cargos importantes. Nada disso. Quando digo "o que eu sou hoje" é simplesmente em relação ao que se transforma em mim a cada frase que leio ou a cada verso que escrevo. Só isso. E isso, no Brasil de hoje, já é muito.
Que venham as novas gerações e com elas o gosto pela leitura. E que o sonho de José Mindlim e de outros brasileiros como eu se concretize.

P.S.: Nas imagens do velório de José Mindlim eu vi vários políticos: FHC, Serra e até Marta Suplicy. E o Lula? Ah... este não gosta de ler, não é mesmo? Uma pena.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Faz frio. Em Vancouver.


Terça-feira de carnaval. 21h. Rua Dias da Cruz num mar de gente de todos os tipos. Às já tradicionais kombis e carrocinhas de espetinhos juntaram-se centenas de outras barracas que vendiam de um tudo. Uma menina de peruca rosa e barriga sobrando pra fora da camiseta ensaia uns passos ao som de uma música que era tudo, menos samba. Um pouco mais à frente, perto da rua onde moram meus pais, um palco. Lá em cima um animador agradecia ao apoio do vereador fulano de tal. O povo grita que quer música e que não é hora de fazer discurso pra político nenhum. Concordo. Parece que teve desfile da Banda do Méier, tradicional para os pinguços da área. Ao meu lado passa uma fileira de clóvis e suas roupas pra lá de coloridas. Uns 10 pelo menos.

(Quando eu era moleque, lá em Pilares, eu chamava clóvis de bate-bola. Morria de medo. Uma vez, bem pequeno, vestido de pirata, um bate-bolas chegou bem pertinho de mim e puxou meu chapéu. Foi um dos maiores sustos da minha vida. Só me livrei do trauma anos mais tarde, quando minha tia Marilda, irmã do meu pai, fez uma fantasia de bate-bola pra mim. Preta e branca. Com capa espelhada e o escambau. Nas mãos, uma bexiga amarrada nuns dois metros de linha grossa. Nossa, como aquela bexiga fedia! Lembro de comprá-la de um senhor negro que puxava da perna e que, sempre na época do carnaval, passava em frente à casa da minha avó empurrando um carrinho de madeira, desses que se vê ainda hoje em algumas feiras-livres por aí, cheio das tais bexigas e de máscaras de morcego que ele mesmo fazia. Isso há mais de 30 anos.)

Encontro meus pais na esquina. Minha mãe me parece bem, apesar da taxa de açúcar ter oscilado estes dias. Meu pai termina uma cerveja. Quase nunca na vida vi meu pai beber cerveja. Aliás, quase nunca na vida vi meu pai ao lado da minha mãe num carnaval. Por instantes eu penso que a vida nos reserva mesmo muitas surpresas. Eles perguntam como estão as crianças. Voltam na sexta, eu respondo. Já passa das nove e o termômetro marca 38°. Não rola um vento sequer. Todos reclamamos do calor. Imagina se falta água, meu pai diz. Aí é o fim do mundo, se espanta minha mãe.

(A verdade é que o Rio de Janeiro está pegando fogo e nós, cariocas, já começamos a sentir na pele os efeitos do aquecimento global. A tal da sensação térmica e seus 50° já fazem parte do nosso dia a dia. Praticamente a filial do inferno. Se é que lá não é mais fresco, convenhamos. Eu confesso que adoro sol. Sou avesso a frio. Ataca minha bronquite, a pele resseca, o lábio fica rachado e por aí vai. Só que este calor já está passando dos limites. Ainda mais agora que o carnaval está terminando, Unidos da Tijuca campeã, e o ano finalmente começando. Hoje o ar condicionado da redação não estava dando vazão. Terminei o texto suado. Literalmente. Entre uma frase e outra _ e de olho na apuração das escolas de samba _, muitos goles dágua pra ajudar a refrescar.)

Meu pai pergunta se eu vi o acidente que matou o atleta que fazia um treino no dia da abertura das olímpiadas de inverno. Respondo que sim, horrível, e digo que lá eles devem estar morrendo de frio e nós, aqui, de calor. Peço um suco gelado pra mim e outro pra minha mãe. Trabalho no dia seguinte. Meu pai não quer mais nada. Volto pra casa, tomo um banho e ligo a televisão. Por coincidência está passando uma retrospectiva com os melhores momentos das olímpiadas em Vancouver, Canadá. Fico sabendo que temos cinco atletas brasileiros competindo. Isabel Clark, a brasileira do snowboard não faz um bom tempo. Não está desclassificada, mas vai depender do resultado das outras competidoras.

(As montanhas de Vancouver estão tomadas de neve. Aliadas ao ar condicionado do meu quarto, que está no máximo, me dão um certo alívio do calor. Na tela é a vez da final de patinação artística em dupla. A apresentação do casal russo é quase irrepreensível, não fosse a patinadora ter perdido o equilíbrio numa das piruetas. Seu par não a deixa fraquejar e a apresentação segue firme. Os franceses, logo depois, emocionam com a música escolhida. Parecem ter perfeita sintonia. Os dois lado a lado, um dando apoio ao movimento do outro. Tudo milimetrado. Até que um giro em falso leva ao chão o patinador. De pronto ele se levanta e continua como se nada tivesse acontecido. O público aplaude ao final. O casal chinês vem com uma apresentação arrebatadora. Equilíbrio do início ao fim. Ginásio completamente em delírio. Medalha de ouro, claro.)

Não sei bem o por quê, mas foi aí que me veio o lampejo, dos mais piegas, por sinal: que tanto numa prova de patinação artística quanto na vida, o importante é caminhar lado a lado e saber encontrar o equilíbrio, mesmo com as imperfeições de cada um de nós.


(Antes de dormir tentei mentalizar e sonhar que estava em Vancouver só para sentir um pouquinho de frio. Não deu certo. Sonhei que estava na praia. Acredita? Ô calor!)





quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

É carnaval. E daí?


Ando sem tempo. Com algumas pitadas de preguiça e outras tantas de cansaço mesmo. Tudo bem, eu tenho acordado tarde, por volta das 9h, pois saí da academia. O contrato de seis meses havia expirado, a grana andava curta e para completar, tinha uma meia dúzia de senhoras completamente histéricas já às sete da manhã, que eu resolvi dar um tempo e ver até onde isso pode chegar. Entenda como "isso" a minha barriga, ok?
Tenho acordado mais tarde muito por conta do meu horário no jornal. Entro à tarde na redação, pelo menos por enquanto. Nunca chego cedo em casa. Como alguma coisa e corro para o quarto. Banho. Frio, claro. Ar condicionado no máximo. Mulher e filhos prostrados na cama. Ainda bem que a cama é grande e cabe todo mundo. Na verdade eu fico meio espremido entre eles, com os pés para fora. O cachorro, que adora um ar condicionado, também está no quarto e morde meu dedão.
A mim quase não me permitem falar, pois a novela do senhor Manoel Carlos é sagrada, assim como o Big Brother Brasil, que começa imediatamente depois. Daí, devo confessar, entro no climão e assisto o BBB com todos eles. A Lia é a maior gostosa, seguida bem de perto pela Cacau, que namora o crianção, mas qué é alvo de paquera da Angélica, a assumida. Dicésar e Serginho também são assumidos. A Lena me parece louca. O BBB 10 é GLS. Meus filhos assistem. Torcem pro Dourado. Minha mulher fica hipnotizada com o Cadu. Físico perfeito, ela diz. Olho para ela. Entenda este último "ela" como a minha barriga, ok? Resmungo que preciso voltar a malhar. Muitas vezes já passa da meia-noite e as crianças precisam dormir. Claudia desmaia logo depois. Eu não. Eu custo muito a dormir.
Gosto de escrever à noite. Junto com o silêncio na casa. Sempre fui assim. Mas nestes dias de verão carioca, com a tal da sensação térmica chegando aos 50 graus, sem chances de pensar em escrever o que quer que seja neste blog. Ainda mais depois de passar a tarde escrevendo textos para o jornal. Tenho feito a cobertura do caso da compra da Cimpor, uma cimenteira portuguesa que vem sendo disputada a ferro e fogo pelas brasileiras CSN, Camargo Corrêa e Votorantim. Vou aprender muito no Jornal do Commercio. Como Sócrates, eu também "sei que nada sei".
Amanhã, sexta-feira, véspera de carnaval. Não vou trabalhar. Vou para a casa de praia. Sol. Calor. Engarrafamento. A mulher e os filhos foram hoje cedo para evitar o trânsito. A casa fica estranha sem eles. Não vi BBB. Ainda não liguei o ar. Encontrei um CD maravilhoso do Egberto Gismonti e Naná Vasconcellos, "Duas Vozes", o mesmo que eu estava ouvindo uma horinha antes na casa de um amigo, o Raul. Quis ouvir de novo. Tenho este CD há mais de dez anos e hoje ele me soou tão diferente. Volta e meia me acontece. Não encontrava meus amigos desde antes do Natal. Dei carona para o Fred. Garoto bom está ali. Liguei para o Henrique, outro que não vejo há tempos. Era tarde e ele já estava dormindo. Combinamos uma cerveja na semana que vem, sem falta. Volto na terça. Engarrafamento? Prefiro imaginar que não. Quarta-feira de cinzas tenho de estar no jornal. Preciso descansar. Antes, resolvi escrever. No mais, não me leve a mal, já é carnaval, já é carnaval!



segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Hay que encaretar pero sin perder la loucura jamás


Quinta-feira da semana passada. Chego na redação do jornal com minha garrafa de 1 litro e meio de água mineral gelada nas mãos para matar a sede durante a tarde quente. Cumprimento um ou outro enquanto caminho em direção à minha mesa. Ao meu lado ouço a diretora executiva do jornal, num bate-papo animado com o trainee, dizer que as redações hoje em dia estão repletas de gente careta e que na década de 70 o desbunde era geral. As festas eram regadas a drogas, muito papo-cabeça, algum sexo descompromissado e todos viravam noites e noites sem cessar. As matérias eram escritas em enormes e pesadas máquinas, daquelas que só encontramos em museus atualmente; as pautas eram passadas aos repórteres por pauteiros, profissional que praticamente desapareceu das redações; era permitido fumar no local de trabalho e uma grande maioria realmente fumava a valer; o trabalho do diagramador era quase artesanal e demorado; o fax era a maior novidade em termos tecnológicos e, mesmo assim, nem todos os jornais o tinham. Muitos ainda contavam com o telex, mas o certo mesmo era apurar via telefone e olhe lá. "Era uma verdadeira loucura e todos pareciam mais felizes", era sua conclusão.
Hoje as coisas mudaram. Outro dia eu ouvi um colega da redação dizer que não saberia viver sem o Google. Melhor dizer sem o São Google! Encontra-se de tudo lá, basta um clique. Tudo está mais rápido e as informações perdem seu valor de um momento para o outro. Quer fazer um teste? Basta acessar agora mesmo o seu jornal online de preferência e amanhã, nas bancas, o que você acabou de ler está lá, com as mesmas manchetes repetidas. E o que era para ser novidade, deixa de ser. A velocidade da informação chegou a níveis que há pouco tempo eram inimagináveis. Coisa de filmes e livros de ficção científica. Daí que eu me pergunto: o que virá depois disso? Não sei, mas o que sei é que não só nas redações dos jornais, mas no mundo todo tudo parece mais careta.
Uns dizem que foi a AIDS, esta doença maldita que serviu para dar um freio no desbunde generalizado; outros dizem que é culpa do puritanismo norte-americano e suas implicações num mundo globalizado. Prefiro acreditar que é só uma onda, uma fase e que a loucura que todos nós guardamos bem lá dentro uma hora vai dar o ar da sua graça. Confesso que nunca fui de me desbaratinar por aí inconsequentemente. Acho que nunca fiz nada que pudesse prejuducar quem quer que fosse em meus momentos de loucura. Talvez por ter sido pai muito cedo meu senso de responsabilidade tenha me deixado com os pés mais no chão. Mas isso não quer dizer que eu não cometa minhas insanidades. Até hoje, prestes a completar 41 anos, ainda adoro quebrar protocolos e (me) surpreender. Isso quando posso, claro. Porém acho que as minhas insanidades são saudáveis, em sua maioria, e eu detesto aqueles que se fazem de certinhos, aqueles que se adequam às regras sem ao menos tentar entender o por quê delas. Detesto mais ainda aqueles que estão sempre sorridentes, sempre simpáticos, com um bom humor patológico. Estes me parecem sempre prontos a dar um bote a qualquer momento. Basta você dar bobeira.
Mas a caretice que ronda essa nova geração é um fato. São jovens que cresceram sem serem incentivados a ler um clássico; não conheceram o que é ter senso crítico; só pensam de acordo com o que manda a massa; não apuraram seus gostos musicais; não valorizam nossa língua e, por consequência, escrevem cada vez pior. Fora a falta de educação, a falta de gentileza, a falta de respeito com tudo e com todos. Lógico que estou generalizando, pois acredito que ainda encontremos jovens que pensem diferente, que queiram quebrar estas regras que foram impostas Deus sabe por quem.
Eu também sou contra as drogas e toda a violência que está por trás de um inocente baseadinho; também sou contra aqueles que tentam driblar as blitzes da Lei Seca através de sites de relacionamento feito o Twitter; só que acima de tudo eu sou contra a caretice e a favor da loucura. Portanto, enlouqueçam! Porque os loucos estão mais perto de Deus.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Com a vida nos trilhos


Nestes últimos dias eu tenho feito coisas que nunca havia feito antes na minha vida. Ainda não comentei com quase ninguém, mas semana passada fui contratado para trabalhar como repórter no Jornal do Commercio, um dos mais antigos do Rio de Janeiro. Talvez vocês não saibam, mas o fato é que eu me formei em jornalismo no começo da década de 90, há quase 20 anos. De lá pra cá dei muitas cabeçadas em dezenas de empregos, mas nunca havia pisado de verdade numa redação, só uma colaboração ou outra numa coluna aqui e outra ali. Nada mais. E não me pergunte o por quê. Não sei se conseguiria responder, mas tenho cá minhas desconfianças de que inconscientemente tentei me afastar da minha verdadeira vocação. Mas foi preciso amadurecer e assumir que o que eu mais gosto de fazer é mesmo escrever. Portanto, se a vida começa de verdade aos 40, eu acabo de nascer para a minha carreira. E o engraçado disso tudo é que nunca tive dúvidas na hora de escolher a minha profissão. Mas daí a entender as voltas que o mundo dá é uma outra história.

Mas como eu disse lá no começo deste post, tenho feito coisas nestes últimos dias que eu nunca havia feito antes. Trabalhar numa redação de um jornal diário é uma e a outra é andar de trem. Isso mesmo, andar de trem. Sempre morei no Méier e sempre convivi com os trilhos da linha férrea, porém nunca precisei ou quis andar de trem. E onde já se viu suburbano que nunca andou de trem? Já estava mais do que na hora de vencer este tabu. Meu pai já tinha me falado das vantagens do trem, como o fato de chegar mais rápido ao centro da cidade, não pegar engarrafamentos, não parar em centenas de pontos, fora o fato de ter vagões com ar condicionado. Mas confesso que não dei muita atenção ao que meu pai me dizia. Foi dia desses, conversando com um vizinho, advogado do BNDES, que prefere deixar seu carro na garagem e vai trabalhar de trem, que fui me dar conta do quanto eu estava sendo preconceituoso. Logo eu, que há uns posts atrás falei de preconceito!

Portanto resolvi encarar os trilhos e debutei num vagão de trem até a estação Central do Brasil no início da tarde de uma segunda-feira calorenta. Devo admitir que me enrolei um pouco, pois achava que era como no Metrô e precisava de bilhete. Mas não. Pelo menos na estação do Méier você paga e passa pela roleta, como se fosse a catraca de um ônibus qualquer. Devo admitir também que fiquei meio desorientado, sem saber de que lado embarcar, com medo de seguir viagem em direção contrária. Mas não. Bastou perguntar em qual plataforma era o embarque para a Central e estava tudo resolvido. O trem chegou rápido. Era o parador, com ar condicionado e vagões civilizadamente tranquilos, muito melhor que qualquer Metrô que a gente vê por aí. Ou por aqui pelo Rio de Janeiro, claro.

Em pouco mais de 20 minutos eu chegava à Central sem uma gota de suor sequer. Bastava apenas atravessar a rua e pegar um ônibus que me deixasse do outro lado do túnel, bem ali atrás da Rua Barão de Tefé. Ou seja, em meia hora eu estava dentro da redação pensando em como é bom experimentar coisas novas nas nossas vidas. E que estas coisas novas me ajudem a colocar minha vida nos trilhos, mesmo que estes trilhos sejam os da Central do Brasil!

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Os monstros que vivem dentro de nós


Final de tarde. Nuvens carregadas no céu anunciam que vem chuva das boas. Dentro de casa o corre-corre é grande. Vamos deixar as crianças com a sogra e partir para a sessão de cinema em Botafogo. Não podemos atrasar um minuto caso contrário perdemos o início do filme. Eu detesto perder o início de qualquer filme. Não fiz a barba. Vou deixar para amanhã. Ligo pra sogra e a Fátima vai descer e buscar as crianças na portaria. Desta vez eles não reclamaram, mas foi preciso negociar com antecedência. Com eles agora é assim. Acham que mandam nas nossas vidas e eu desconfio de que mandam mesmo. Isso porque a gente permite. Quero ver mais tarde, quando já estiverem grandes, com suas namoradas, se vão querer saber de ficar por perto. Duvido.
O trânsito está bom. Em menos de 15 minutos cruzo a Radial Oeste e entro no elevado que vai me levar ao Rebouças e dali ao cinema são mais uns 10 minutinhos. Dentro do túnel eu e Claudia damos um grau e o som que rola é "Never gonna girl like you before". Vontade de dançar. A música ainda rola mais uma vez. Há uma fila grande em frente ao cinema. Dois filmes bem cotados estreando hoje, mas eu saí de casa com a intenção de ver "Onde vivem os monstros", de Spike Jonze, o mesmo diretor de "Quero ser John Malcovitch". O relógio da esquina da Voluntários da Pátria marca 19h13. O filme começa às 19h15. Ainda não estacionei o carro. Dou uma volta no quarteirão e por sorte um carro está saindo da vaga. Pego dois reais para o guardador e praticamente arrasto a Claudia pra fila dos ingressos. Ela não gosta. Reclama que sou estressado. Às vezes sou mesmo. Ainda mais quando quero ver um filme e estou atrasado. Enquanto ela fica na fila vou ao banheiro. Ela resolve ir ao banheiro quando já está com os ingressos na mão e o filme começando. Entro sozinho na sala. Perdi o comecinho do filme mas não o fio da meada. Ela demora um pouco mais a entrar na sala. Ficou chateada porque eu não esperei por ela. Diz que foi falta de consideração minha. Eu acho que a falta de consideração foi dela e não respondo mais nada. Quero prestar atenção no filme. A trilha sonora é espetacular e a história é uma fábula delirante baseada num clássico da literatura infantil norte-americana. Não sei se é um filme para crianças, mas de certo que é um filme para a criança que ainda existe em cada um de nós.
O filme conta a história de Max, um menino bastante levado e dono de uma imaginação pra lá de fértil. Uma noite, ao desobedecer sua mãe, leva uma enorme e merecida bronca. De castigo e fantasiado de lobo, sua imaginação o leva a um lugar fantástico, povoado por criaturas gigantes. A partir daí o filme se transforma numa enorme aventura, repleto de referências lúdicas, além de questões relacionadas aos sentimentos mais primitivos da infância, como o medo, a raiva, a solidão e o lado selvagem que todos nós temos. Seriam estes sentimentos os verdadeiros monstros que carregamos dentro de nós? O filme nos dá esta resposta de uma maneira sensível, divertida e, por que não?, deslumbrante.
Saí do cinema pensando no quanto eu fui solitário quando criança e no quanto a minha imaginação me levou a lugares tão fantásticos quanto a história que eu acabara de assistir. Lembrei do medo que eu sentia ao ficar sozinho em casa, mesmo estando junto de meu irmão mais novo. Da raiva que eu sentia quando contrariado. Dos monstros que habitavam minha imaginação. Das histórias que minha mãe contava para que eu dormisse. Das artes que eu aprontava. Dos meus tempos de menino. Tempo este que eu ainda guardo dentro de mim, mesmo que os monstros ao redor teimem em me dizer que ele não volta mais.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

All we need is love


Depois de alguns dias fora de casa, cheguei e dei de cara com a geladeira praticamente vazia. Alguns alimentos já vencidos que a empregada esquecera de jogar fora, outros já nos finalmentes e a certeza de ter de encarar um mercado mesmo com os 50 graus que torram os miolos de qualquer mortal que se arrisca nas ruas do Rio de Janeiro em pleno verão do aquecimento global. A notícia logo pela manhã da morte de Zilda Arns, vítima do terremoto que arrasou o já arrasado Haiti, fez meu dia começar estranho. Minha cabeça ainda parecia balançar feito o barco em que estive praticamente todo o dia de ontem e eu fiquei com receio de ser uma crise de labirintite, mas não, tudo indica que foi alarme falso; minha mulher e meus filhos mais novos não conseguiram levantar da cama antes das 10h30; o café da manhã saiu por volta do meio-dia; às duas da tarde a vizinha convidou os pequenos para um cineminha com os filhos dela e o jeito foi improvisar um almoço pra eles não irem ao cinema com fome. No freezer, um pote com o que um dia foi uma feijoada e no armário, dois pacotes de macarrão instantâneo. Em menos de cinco minutos eles já tinham almoçado e estavam prontos para o passeio. Paz. Sossego. Ar condicionado. Clima de montanha no meu quarto. E de romance também.
Algumas horas se passaram. O telefone tocou. Era a vizinha dizendo que estava tudo bem, que iam fazer um lanche e demorar mais um pouquinho. Sem problemas. Aquele final de tarde estava mesmo preguiçosamente gostoso, mas minha mulher resolveu levantar da cama e sair para revelar as fotos acumuladas na câmera e de quebra passar na padaria para comprar umas coisas para o lanche. Não tive coragem de sair do quarto e encarar o caldeirão que se formava à beira do corredor do meu apartamento.
- Quer ir comigo, ela teve coragem de me perguntar.
- Nem morto, eu respondi.
Aproveitei que eu estava no ar condicionado e tomei coragem para ligar para a NET e resolver o problema dos canais que estavam fora do ar. Juro que eu pensei que fosse ficar horas pendurado com aqueles atendentes e seus gerúndios intermináveis. Quebrei a cara, pois em menos de dez minutos os canais estavam todos restabelecidos. Na GloboNews uma entrevista com um coronel do exército brasileiro comentava a situação do Haiti e mais uma vez eu lembrei da Zilda Arns e do quanto somos carentes de bons exemplos feito ela. Mais cedo eu havia lido no blog da colunista Míriam Leitão uma frase a respeito de Zilda Arns que me fez pensar na missão de cada um aqui por estas bandas. O título do post era "Zilda Arns: combateu o bom combate pelas crianças", onde ela afirmava que a perda de Zilda era uma grande perda para o país. Assim como a colunista, eu também sempre tive uma enorme admiração pela fundadora da Pastoral da Criança. Nunca tive a sorte de entrevistá-la, mas sempre que tinha a oportunidade de vê-la na TV não tinha dúvidas de se tratar de uma pessoa especial, daquelas que deixam para sempre a marca do bem por onde quer que passem. Depois de salvar a vida de milhares de brasileiros em condições de miséria, Zilda Arns resolveu levar a Pastoral da Criança para outros tantos países do mundo. Estava no Haiti para mais uma destas missões. Junto com ela morreram mais 11 militares brasileiros e outras cerca de 100 mil pessoas. Na internet o que se vê é o retrato de um país devastado e suas necessidades infinitas. No G1 a manchete é de que Lula telefonou para Obama e pediu ajuda às vítimas no Haiti, mas eu não sei se "o cara" vai conseguir alguma coisa com o Nobel da Paz. Angelina Jolie e Brad Pitt já se comprometeram a ajudar.
Em meio a tantos pensamentos as crianças chegaram do cinema praticamente ao mesmo tempo que minha mulher com as fotos devidamente ampliadas e nosso lanche da padaria. Com tanto calor não sinto muita fome. Comi um sanduíche misto e bebi um mate com bastante gelo. Enquanto os filhos dos vizinhos iam entrando eu ia saindo para encarar o mercado. Calor. No céu, algumas nuvens. Mercado vazio. Achei tudo mais caro. A comida do cachorro, então, estava pela hora da morte. Isso porque o índice da inflação de 2009, anunciado hoje, foi o segundo menor da década. Comprei apenas o que precisava comprar e na hora de pagar tive uma surpresa: dei de cara com o livro "O Banquete", de Platão, nas mãos do caixa que me atendeu. Fiquei surpreso e feliz ao mesmo tempo. Este livro é um dos que minha mulher mais gosta e eu só li porque ela me obrigou. É um livro de leitura difícil, sem nenhum apelo popular, apesar de se tratar de uma celebração ao amor, ingrediente que anda faltando nas prateleiras de muitos corações por aí. O rapazinho do caixa disse que não sabia se ia conseguir ler até o fim porque estava achando meio complicado.
- Li "O Mundo de Sofia" e parti pra este, ele me disse.
Eu respondi que era pra ele não desistir, mas não sei se consegui convencê-lo. Tomara que sim. Até porque, hoje, depois da morte de Zilda Arns, só consigo pensar que tudo o que mais precisamos é amor. Seja ele como ele for.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Folia de Reis, subúrbio e preconceito.


Só fui me dar conta de que eu era suburbano quando entrei na faculdade. Até então eu não tinha a menor noção de que eu pertencia a uma subespécie, considerado por muitos um ser de outro mundo, um alien ou algo parecido. Foi preciso atravessar o túnel Santa Bárbara diariamente e estudar jornalismo na FACHA para me dar conta de que eu era suburbano com todas as letras. Nunca, em momento nenhum da minha vida, o fato de morar no subúrbio foi um empecilho pra mim. Desde que descobri vida após o túnel _ nem sempre vida inteligente, diga-se de passagem _ usei e abusei do meu direito de ir e vir pra onde quer que fosse, pouco me importando que tipo de tribo eu iria encontrar ou se eu poderia pertencer a esta ou àquela. Se eu estivesse a fim de ver um filme na sessão da meia-noite nos primórdios do Cineclube Estação Botafogo, eu ia; se eu quisesse ficar na Farani até tarde da madrugada e depois voltar de ônibus pra casa sem receio de assaltos, eu ficava; se a vontade era de ver o pôr do sol no Arpoador, lá estava eu, da mesma maneira que eu ia pros cafundós de Niterói ou Realengo ou Tijuca e Rio Comprido na casa de meus amigos.
Digo isso porque hoje, conversando com um amigo, morador de Botafogo, percebi enraizado nele o tom do preconceito que muitas vezes nós, brasileiros, conseguimos camuflar. Não sou negro, não sou gay, não sou judeu, não sou portador de necessidades especiais, mas sou suburbano, o que para muitos é quase um pecado, motivo de piadas. Ou defeito, sei lá. "Mas por que você resolveu comprar um apartamento no Méier?" é uma das perguntas que mais ouço, sempre acompanhada de uma cara de estranhamento. Na maioria das vezes não me dou ao trabalho de responder e cada vez mais tenho a certeza de que esses que me fazem este tipo de questionamento pensam como aqueles que vivem no Primeiro Mundo e acham que vão encontrar macacos e índios soltos nas ruas de nossas cidades. Porque o estranhamento é o mesmo, só que numa visão macro. Ou não?
Mas vamos deixar o preconceito pra trás e falar das coisas boas do subúrbio. Ontem, assim que deu meia-noite, soou um foguetório dos bons aqui perto de casa. Desta vez era pra anunciar o Dia de Reis. Mais uma vez fui apanhado por boas lembranças da minha infância, no subúrbio de Pilares, onde nasci, morei até um ano de idade, mas por conta da minha avó e de outras tias, tios e primos, frequentei até a adolescência. Lá passava a Folia de Reis de casa em casa. Lembro de uns homens de uniforme e seus instrumentos musicais, umas meninas carregando umas bandeiras, a do Divino, e minha avó com um bolo que ela fazia com as frutas secas e as nozes que sobravam do Natal. Minha mãe também costumava fazer bolo nesta data, mas de uns tempos pra cá, por conta da diabetes, ela perdeu o prazer de fazer doces e seus bolos, assim como os da minha avó, ficaram na saudade. Confesso que faz anos que não vejo passar uma Folia de Reis. Mesmo aqui pelas bandas do Méier, subúrbio do Rio de Janeiro, o Dia de Reis é apenas o dia de desmontar a árvore e guardar os enfeites de Natal. E só. É como diz a letra da música do Tim Maia: "Hoje é o Dia de Santos Reis, anda meio esquecido, mas é dia da festa de Santos Reis!"
No mais, fui com meu filho, o número um, assistir ao filme do Lula. A oposição pode ficar tranquila. Não é um filmaço. Não emociona. E pela pequena quantidade de pessoas na sessão, deve durar pouco tempo em cartaz. É apenas um registro de parte da história de um homem que conseguiu romper com tudo aquilo que um dia conhecemos como preconceito. Mesmo que este preconceito ainda continue velado por aí.

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Tudo de bom pra todos!


2009 já está acabando, graças a Deus. Vou tirar uns dias pra descansar, dar uns mergulhos, pegar um bronze e esquecer este ano que termina. Prometo não demorar. Eu volto logo. E que 2010 seja uma verdadeira explosão de alegrias para todos nós. Até lá!


sábado, 26 de dezembro de 2009

Receita de última hora ou o bacalhau da Célia


Conheço gente que só de ouvir a palavra sogra se arrepia dos pés à cabeça, sente náuseas, muda o humor e o escambau. Eu não. Minha atual sogra, aquela lá do episódio da porta do banco que já postei aqui, é gente boa até dizer chega. Nunca se meteu na minha vida, sempre me tratou muito bem e apesar de termos morado sob o mesmo teto durante quase 7 anos, nunca tivemos um arranca-rabo sequer. Tudo bem que o apartamento era um verdadeiro latifúndio e a gente só se esbarrava na hora das refeições, mas mesmo assim, foram quase 7 anos de convívio pra lá de harmonioso. E, cá pra nós, quem é que nunca ouviu histórias de genros que detestam as sogras ou noras que sofrem nas mãos das mães de seus maridos?


Quem me conhece sabe que eu estou casado pela segunda vez e que a sogra a que me refiro é mãe da minha atual mulher, mas a minha ex-sogra, mãe da minha primeira mulher, também não era de todo ruim. Nunca moramos sob o mesmo teto, é verdade, e acho que se isso tivesse acontecido ou eu ou ela não estaríamos vivos para poder contar esta ou outra história qualquer. Até porque, tanto eu quanto ela somos geniosos, temperamentais e, por que não?, explosivos. Sorte que meu primeiro casamento não durou muito e o tempo fez com que só as boas lembranças ficassem guardadas na memória. Pelo menos na minha. Eram muitas piadas, muita animação, muita alegria, um certo escracho e as gargalhadas, tanto as minhas como as dela, que ecoam na minha cabeça até hoje. Fora os palavrões que aprendi com ela que, juntos, não caberiam neste post. Melhor assim.


Mas já que estou falando só das boas lembranças, esta semana que passou, fiquei na dúvida que tipo de bacalhau eu ia fazer para a ceia do Natal. O com batatas, cebolas e pimentões amarelos e vermelhos já faz parte da tradição e não pode faltar, só que eu queria uma outra receita, uma receita surpresa. Ano passado fiz um com purê e catupiry, que ficou sensacional, mas eu não ia repetir. Foi então que lembrei da Célia, minha ex-sogra, e do bacalhau que ela sempre fazia. Nunca mais esqueço da primeira vez que provei. Foi amor à primeira garfada. Daí que eu não pensei duas vezes e mandei um scrap pra ela via orkut solicitando a tal receita. Ela de pronto me respondeu e mandou a receita pelo meu filho, o número 1, que é seu neto. Como eu sou gente boa pra caramba vou socializar a receita com vocês. Afinal, daqui a poucos dias teremos a festa de Réveillon e quem sabe vocês não se animam a testar uma receita diferente? Eu chamo de "Bacalhau da ex-sogra", mas se vocês quiserem podem chamar de "Bacalhau da Célia" e fica tudo certo. Lá vai:

Ingredientes:

1/2 kg de bacalhau dessalgado e desfiado
1/2 kg de grão de bico (cozido e de molho de véspera)
1 lata de creme de leite com o soro
1 garrafa pequena de leite de côco
1 cebola grande ralada
3 dentes de alho
1 tablete de margarina
queijo ralado

Modo de Fazer:

Bata a cebola e o alho no processador e refogue numa panela funda com a margarina; coloque o bacalhau desfiado e mexa bem; jogue o grão de bico já cozido e escorrido e mexa bem; coloque o leite de côco e o creme de leite (nesta ordem) e espere levantar fervura; arrume tudo num pirex, polvilhe queijo ralado e leve ao forno para dar uma gratinada. Sirva com arroz branco. É fácil de fazer e fica divino. Esperem aí... divino não combina com ex-sogra, né? Então tá. Fica é delicioso mesmo e pronto!

Qualquer dia eu publico aqui a receita de camarão com catupiry que aprendi com ela. Só de lembrar me dá água na boca. Podem me cobrar.

domingo, 20 de dezembro de 2009

Retrospectiva 2009


2009 foi um ano estranho pra caramba. Pelo menos pra mim foi. Resolvi parar de fumar e realmente parei; sempre bebi pouco, mas por conta da Lei Seca bebi menos ainda; abri e fechei uma produtora. Comi demais, malhei de menos e passei boa parte do ano cansado de uns e outros; quase não vi meus amigos, mas fui a São Paulo visitar meu irmão; fiquei sem dinheiro, o que não é novidade, e tive a sensação de que trabalhei em vão; minhas entradas já viraram saídas e ganhei umas rugas de expressão que eu sei que nunca mais vão me abandonar; meu padrinho morreu de repente; o vice-presidente fez não sei quantas operações em sua luta contra um câncer; Dilma é candidata mas está doente; Michel Temer deve ser o vice e eu me pergunto se não devemos ter medo que ele assuma se, por um capricho do destino, a superministra bater as botas, numa reedição da chapa Tancredo x Sarney? Dá-lhe PMDB!

Na tal da COP-15, em Copenhague, o tempo não esquentou. Lá, com os termômetros marcando em média 15 graus negativos, as autoridades responsáveis pelo planeta não conseguiram chegar a um acordo para tentar conter o aquecimento global. Afinal, uns dois graus a mais lá pelo hemisfério norte até que não seria nada mau, eles devem ter pensado. Garanto que se o encontro tivesse acontecido em Bangu, em pleno verão carioca, os caras teriam chegado a um acordo. Por falar em acordo, a guerra no Oriente Médio continua firme e forte. Obama, que assumiu que não é o cara, parece ter assumido de vez seu lado bélico e continuou enviando tropas para o front. Mas não foi ele o Nobel da Paz deste ano? Esquisito esse 2009...

A crise veio e não foi só marolinha. Tudo bem que poderia ter sido muito pior e em alguns lugares do mundo foi mesmo, mas o desemprego aqui é grande, as boas oportunidades estão cada vez mais raras, a violência estancou de vez, a polícia foi derrubada em plena guerra urbana do Rio de Janeiro, o governador não quer saber de câmeras de vigilância nas viaturas da PM, o prefeito assumiu (ôps) que é xerife _ eu disse xerife! _ e estabeleceu o tal do choque de ordem. Lei Seca. Lei antifumo. Não pode isso. Não pode aquilo. Funk agora é patrimônio cultural. O crack está nas ruas e nas casas de classe média. O Vasco é campeão brasileiro da segunda divisão. Flamengo é hexa, mas há controvérsias. Fluminense se livra do rebaixamento num campeonato que vai ficar para a história. Enquanto os botafoguenses só encontraram o caminho do Engenhão no último jogo da rodada. Não é estranho?

A campanha eleitoral começou mais cedo. O espetáculo do crescimento ainda não deu o ar da graça. Serra não se decide. Aécio não quer ser vice. Marina surge como opção enquanto o Ciro continua destemperado. Dilma está nos palanques Brasil adentro. Lula passou mais de 80 dias fora do Brasil. Veio o Sarcozy com a Carla Bruni; veio o Ahmadinejad com suas polêmicas; Zelaya tirou uns meses de férias na nossa embaixada em Honduras; Chávez curtiu; Lula pelo visto também. Fidel ainda não morreu. Cesare Battisti continua por aqui. Não quer voltar pra Itália onde o Berlusconi perdeu dois dentes mas ganhou popularidade. A do Lula continua na casa dos 85%. A oposição parece que não sabe o que fazer. Nem eu.

Teremos Olimpíadas em 2016, Copa em 2014, mas talvez o mundo acabe em 2012. Antes disso eu pretendo ficar rico, viajar com minha mulher e meus três filhos, ajudar a quem for preciso, rir um bocado, ver bons filmes, curtir um pouco mais os meus pais, agradecer por estar vivo e escrever muitos textos aqui neste blog, que foi uma das coisas mais bacanas deste 2009. Pelo menos pra mim... ou será que você acha isso tudo que eu escrevo esquisito?

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

A rabanada do Natal e a melô do sexo anal


Natal sem rabanadas, pra mim, não é Natal. Ano passado, por incrível que pareça, esqueceram de fazer as danadas das rabanadas e o Natal quase desandou por completo. Tanto que quem tinha ficado de levar as rabanadas do ano passado sequer vai passar o Natal com a gente este ano. Isso pra vocês verem como se leva a sério esse papo de rabanadas lá em casa. São elas e os bolinhos de bacalhau, receita portuguesa legítima da avó da minha mulher, que não podem faltar. Ano passado não comi nem uma coisa nem outra, pois me atrasei e quando consegui chegar no tal Recreio dos Bandeirantes, os bolinhos já tinham acabado. Fiquei na vontade.


Mas o espírito natalino está aí e inspirado nele é que vou dar a receita das danadas das rabanadas. Nesta época parece que nossas lembranças ficam mais aguçadas e daí que eu não tive como não lembrar da minha avó paterna de pé na cozinha da casa de Pilares fritando rabanadas para uma das nossas festas de Natal. Naquele tempo a família era maior. Mais unida. A casa me parecia enorme. Minha bisa era viva e era ela o motivo para se reunir tios e primos de várias gerações. E as rabanadas eram deliciosas. Eu gostava _ e gosto até hoje _ quente, logo após a fritura. Ou então no dia seguinte, no café da manhã. Já estou aqui salivando e engordando só de lembrar. Por isso, se quiserem, anotem a receita. É de família.

Ingredientes:

1 pão de rabanada
1 litro de leite
1 lata de leite condensado
Raspas de limão
6 ovos batidos
Açúcar e canela que bastem
Óleo para fritar

Modo de fazer:

Ferva o leite com as raspas de limão. Depois de morno, junte o leite condensado e misture bem numa tigela. Corte o pão em fatias de uns 2 cm, umedeça-as no leite e passe cada lado nos ovos batidos. Frite as fatias de pão em óleo bem quente até ficarem douradas. Deixe escorrer o excesso de óleo e passe na mistura de açúcar com canela. Depois é so devorar! Engorda? Muito, mas e daí? É Natal, ora bolas!

Pra terminar, vou postar um vídeo que garimpei no Youtube dia desses. É de um comercial que passava na minha infãncia nesta época de Natal e eu adorava. Mais tarde, por pura maldade, virou melô do sexo anal. Mas e daí? A verdade é que ouvi a música sábado no coral do colégio dos meus filhos menores e fiquei na maior nostalgia, pra variar. Espero que vocês gostem tanto quanto eu da música e do comercial e esqueçam o sexo anal, ok? No mais, Feliz Natal pra todos!



segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

O futuro, o presente e as coisas que não fazem sentido


Depois de uma semana de intenso calor, o sábado amanheceu preguiçosamente chuvoso. Era dia de levar meu filho, o número dois, ao curso de desenho no Parque Lage e tudo o que eu não queria naquela manhã quase fria era ter de dirigir até o Jardim Botãnico. Mas, como pai e bom incentivador dos dotes artísticos da minha prole, lá fui eu. A mãe não quis nos acompanhar desta vez. Nem o filho número três. O número um ia encarar a prova do ENEM, finalmente. Ele escolheu fazer Direito. A namorada dele parece estar satisfeita _ com e sem trocadilhos, diga-se de passagem. Só me resta aguardar o resultado para saber se terei de morrer numa grana por mais 5 anos para arcar com as despesas de uma faculdade particular. Mas para isso eu já estou me preparando, mesmo que psicologicamente.

O trânsito estava tranquilo e chegamos, eu e número dois, com uns dez minutinhos de atraso apenas. Para minha surpresa a aula iria terminar a uma da tarde e não ao meio-dia, como eu havia pensado. Ligo pra Claudia e aviso que vamos nos atrasar para o almoço. Ligo pro Fred, meu amigo, pra saber se ele topa dar um pulo comigo na casa do Raul, ali perto, pra tomarmos um café e colocarmos o papo em dia. Ele não atende. Nem celular nem em casa. Na casa da Roberta, do Mino e do Gus, que é praticamente no quintal do Parque Lage, todos dormiam. Falei com Josephine. Em inglês. Ela entendeu tudo o que eu disse e eu também entendi tin tin por tin tin o que ela falou. Só não entendi por que acertei apenas 3 questões na prova de inglês do BNDES. Melhor deixar pra lá. Pensei em ligar para o Henrique, mas ele está sem carro e de certo que estaria enrolado com a Gabi. Afinal, era sábado. Raul estava em casa preparando uma carne para assar.

_ Vem pra cá agora, ele disse. A gente toma um café, completou.

Este ano já perdi a conta das vezes em que fui na casa do Raul. Sozinho ou com outros tantos amigos de mesma longa data, é sempre um programa agradável. Neste sábado não foi diferente. Ao sair do elevador a porta do apartamento já me esperava entreaberta. Lá dentro Raul estava terminando de postar no seu blog, www.puxadinhodoraulzinho.blogspot.com, do qual sou seguidor. Por sobre a mesa uma infinidade de livros que ele pretende ler até a data da prova do mestrado, talvez ano que vem. Também penso muito em fazer mestrado. Ele me diz que eu devo encarar. Mas ainda vou pensar mais um pouco. Preciso resolver outras coisas que são prioridade em minha vida.

Antes de passar o café e embalados num papo ótimo, ele me apresentou ao blog de um Ph.D. em comunicação digital e professor da ECA-USP, Luli Radfahrer (http://www.luli.com.br/), e que muito me impressionou. Numa linguagem simples e direta, Luli tece as mais variadas considerações a respeito de design, criatividade digital, tendências e inovação, temas que muito me atraem. Bastou eu citar um projeto que venho desenvolvendo com outro amigo, o Romano, e Raulzito mandou que eu prestasse atenção num vídeo que ele iria me mostrar e que está disponível no blog do Luli. Chamou minha atenção pela visão de futuro e tem mais a ver com design do que com mídias sociais ou qualquer outra coisa que me interesse no momento. Mas as ideias de futuro estão todas lá. Certas ou não. E quem não acompanhar o que está acontecendo agora pode dar adeus ao futuro, pois vai viver o resto de seus dias preso ao passado, ao obsoleto, ao raso e a tudo o que não faz mais sentido.








Depois do vídeo, o café na mesa da cozinha. Atrás de mim um canteiro cheio de brotos de manjericão perfumava levemente o ambiente e o vento fresco daquele final de manhã, regado a uma boa conversa e a certeza de ter bons amigos, me fizeram acreditar ainda mais no que eu quero para o meu futuro. Como diz Luli no seu blog, "o futuro é igual ao presente, tirado dele as coisas que não fazem sentido". E não é de hoje que eu tenho procurado me livrar do que não faz sentido em minha vida.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

O futuro já começou... na vinheta de 1978!

Hoje li num jornal, acho que no O Globo, uma nota criticando a vinheta de final de ano da Rede Globo que está no ar há mais ou menos uma semana. Dizia que exploraram poucos artistas da casa desta vez e parece que o ritmo do hip hop também não andou agradando. Confesso que eu gostava mais das vinhetas antigas. Mas eu faço o tipo saudosista mesmo e talvez vocês não devam levar em consideração. Mas a verdade é que fui garimpar no Youtube e achei esta preciosidade que resolvi publicar aqui no meu blog. É do final do ano de 1978, o elenco da vênus platinada estava todo, ou quase todo, lá. Da saudosa Dina Sfat à desaparecida Lídia Brondi, gatinha e de biquíni; de Grande Otello a Miéle (ele sempre me lembrou o Minotauro por conta daquela cabeça tamanho família); o casal Tarcísio e Glória, claro, também estava lá. E sem botox, o que é mais bacana! Pra terminar, não deixem de reparar no estilão dos óculos do Chico Anísio. Figuraça! Vale lembrar que eu tinha 9 anos na época... de lá pra cá muitas águas já rolaram nestes 31 anos. Melhor nem lembrar, porque o que vale mesmo é ver esta vinheta outra vez!


segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Eu também sou filho do Brasil ou O próximo filme do Barretão


Estou há várias semanas ensaiando um texto sobre o filme "Lula, o filho do Brasil", que conta boa parte da vida do nosso Presidente da República. Pensei em escrever sobre o que este filme representaria em termos de campanha política, já que ano que vem teremos eleições e meu receio era de que este filme se transformasse numa espécie de panfleto. Depois pensei em escrever sobre as facilidades que um filme deste deve ter tido para conseguir patrocínio. Pensei também em escrever sobre as facilidades que ele teria na hora da distribuição. Cheguei a esboçar um discurso contra a construção de salas de cinema em cidades do interior do país em conjunto com um tal de Vale-Cultura lançado pelo governo federal. Mas não concluí. Até porque, muito já se falou e vem se falando desde que o filme foi lançado no Festival de Brasília, há pouco mais de 10 dias.
O que me fez mudar de opinião a respeito do que eu poderia vir a escrever foi a coluna do jornalista Arnaldo Bloch no Segundo Caderno do O Globo de sábado, dia 28/11. Praticamente sem pestanejar, fui fisgado por sua clareza de ideias e exatidão nas palavras do início ao fim do texto. Foi ao terminar de ler a coluna que eu pude parar, refletir e entender por que um filme sobre a vida de um presidente que eu ajudei a eleger estava me incomodando tanto. Na verdade não era o filme que me incomodava, mas sim, o que Lula representa hoje. O que me incomoda é no que se transformou aquele homem que nasceu no interior de Pernambuco, que foi para São Paulo com a mãe e os irmãos em busca de novas oportunidades, que virou líder sindicalista, que representou a vontade de milhares de brasileiros contra um sistema que se mostrava demasiadamente desumano, que foi eleito, reeleito e que hoje parece ter passado para o lado de lá sem sequer ter pertencido ou representado o lado de cá.
Mas o filme retrata justamente a fase em que Lula representava a utopia de um país mais justo, sem mensalões, sem propinas, sem negociatas, sem amarras políticas. Retrata nossos ideais mais românticos e mais éticos, quando ainda se podia acreditar que tudo seria diferente e não a decepção de se saber tudo farinha do mesmo saco, até porque o filme narra a história de Lula desde o seu nascimento até a morte de sua mãe, quando ele tinha 35 anos e estava preso pela ditadura militar em vigor no país. Dia 1 de janeiro o filme entra em cartaz. Com ou sem Vale-Cultura; com ou sem as sei lá quantas salas de cinema no interior do Brasil; panfletário ou não. O certo é que o filme deve ser assistido por milhares de brasileiros e, de acordo com os comentários de quem já teve a oportunidade de assisti-lo, levar às lágrimas também. De certo que vou engrossar o coro.
No mais, acabo de ver na TV o governador do Distrito Federal, José Roberto Arruda, do DEM, partido da base oposicionista, que foi pego recebendo, junto com secretários do primeiro escalão de seu governo, dinheiro de propina, dizendo que fica até o fim de seu mandato. Ora bolas, por que não ficaria, não é mesmo? Aliás, está aí um bom roteiro para um próximo filme. Vai encarar, Barretão?

sábado, 14 de novembro de 2009

A primeira infância a gente nunca esquece

Tem três coisas que eu me lembro bem da minha primeira infância: a morte do Pixinguinha, um programa que eu adorava chamado "Banana Split e seus Amigos" e a música de abertura do Globinho Supercolorido. A morte do Pixinguinha vale um post só dele e prometo escrever em breve; já o Banana Split, segue um vídeo que acabei de pescar no Youtube, assim como a abertura do Globinho. O tema é de autoria do Marcos Valle. Tomara que os vídeos remetam todos vocês a boas lembranças. Eu estou aqui com meu filho do meio ao meu lado na maior nostalgia!




sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Uma mulher, muitas histórias e 3 rins


Conheci Tônia numa festa no Lapa Café, a mesma festa que já citei aqui dois ou três posts atrás. Estávamos sentados na mesma mesa sem saber o que pedir para comer, mas certos de que estávamos com fome. No cardápio um tal sanduíche de pizza margueritta que nada mais era do que um pão árabe recheado de muçarela (novas regras, não estranhem), tomates e manjericão. Ela gostou da ideia e embarcou no mesmo pedido que eu. Foi o bastante para iniciarmos um bate-papo descompromissado e carregado no bom humor, por vezes negro, mas sempre bom humor.

O calor estava no auge naquela noite e enquanto minha cerveja preta não chegava ela me contou que aos 18 anos resolveu morar no Senegal. Ficou por lá 3 anos suportando o calor e vivendo as mais exóticas experiências. O calor por lá era tanto _ no Senegal _ que era comum dormirem no chão enrolados em panos molhados. Loucura! Se bem que meu cachorro, o Bem, andou dormindo assim semana passada, eu disse a ela. Até porque, o calor aqui andou mesmo senegalês.

Da África ela rumou para a Suécia, onde conheceu o Gabeira, que até então era apenas o Fernando. Teve um rolo com ele e ficaram amigos até hoje. Fernando, o nosso Gabeira, a ensinou a fazer café e ela o ensinou a fazer arroz integral e a ter uma alimentação mais saudável. O rolo foi apenas um rolo mesmo e não durou muito. Era 1978 ou 1979, ela não soube bem precisar, mas foi na época da Abertura, quando Gabeira, o Fernando, pode voltar ao Brasil e ela rumou para Paris, até porque ela não era asilada política e queria mais era curtir a Europa. Sempre gastando cerca de 10 dólares por dia, ela me disse. Na França ela ficou por mais 1 ano e 8 meses trabalhando com o que aparecesse pela frente. Só não vendi drogas e nem o meu corpinho, de resto fiz de tudo um pouco, afirmou.


Nossos sanduíches chegaram. Frios, diga-se de passagem. A Cerpa que ela havia pedido já estava no fim e ela pediu outra à graçonete. Eu perguntei se a garçonete havia esquecido da minha cerveja preta. Ela me respondeu com um sorriso amarelo e disse que estava indo buscar naquele instante. Tudo bem, nem estava quente e minha sede pouco importava. O papo estava interessante e, na boa, eu nem sou tão fã de cerveja assim. Se a cerveja não aparecesse na mesa dali a instantes eu ia pedir uma soda mesmo, já que o que eu queria era matar a sede. E só.

Tônia voltou ao Brasil no início dos anos 80. Todas aquelas datas me deixaram intrigado com uma coisa: que idade aquela mulher teria? Se na década de 70, quando eu era apenas uma criança, ela ensinou ao Gabeira, então Fernando, a fazer arroz integral, já tinha morado 3 anos no Senegal, depois Suécia, França, isso sem falar em Nova Iorque, onde viveu um tempo antes de ir para a África, que idade aquela mulher teria agora, meu Deus? Fiquei com aquilo na cabeça até que não me contive:

_ Estou intrigado. Que idade você tem?
_ 53, ela respondeu sem a menor cerimônia.

Eu fiquei com cara de paisagem, pois aquela mulher aparentava no máximo uns 40 anos, mas com todas aquelas histórias que ela disse ter vivido ela não poderia mesmo ter a idade que eu estava imaginando. Ela continou dizendo que nunca teve problemas em revelar a idade e que achava a maior frescura das mulheres quando fingem ou escondem a idade que têm. Tônia era daquelas que realmente tinham seus 53 anos bem vividos, com muitas histórias, experiências fantásticas. É produtora. Tinha acabo de produzir o Fashion Rocks e já estava iniciando, mais uma vez, a produção do Vivo Open Air, evento que reúne gente bacana e cinema ao ar livre no Jóquei do Rio de Janeiro. Fez também o Survivor, programa estilo No Limite, gravado na Amazônia há uns anos. Foi lá que conheceu o Rodrigo, meu amigo, e por conta disso acabamos nos conhecendo naquela noite quente em plena Lapa.

Passado algum tempo, depois de eu ter desistido da cerveja preta, ter bebido minha soda e me conformado com uns copos de Cerpa e atento a outras tantas histórias, ela abriu a bolsa e puxou uma caixinha, daquelas de guardar comprimidos. Tirou 3, dos grandes, e engoliu a seco. Mais uma vez minha curiosidade falou mais alto e perguntei o por quê de tanto remédio. Foi aí então que ela me contou uma das histórias mais bacanas que eu já ouvi até hoje. Começou dizendo que as mulheres da suas família morrem cedo. Sua mãe morreu aos 66 e ela achava que não duraria muito mais também não. O pai, se estivesse ali naquele bar com a gente, eu não diria que já tem mais de 70. Mas ela havia puxado à mãe e sua saúde era frágil.

Há cerca de 3 anos fez um transplante renal. Estava na fila fazia anos e na iminência de ter de encarar hemodiálise, o que para ela seria o mesmo que a morte. Exames e mais exames entre os parentes e nada. Nenhum deles era compatível para doação. Pra não deixar a depressão tomar conta, pegou uma grana que tinha de reserva e rumou para Paris. Ficou por lá mais dois meses antes de voltar ao Brasil para começar as sessões de hemodiálise. Desembarcou por aqui dias antes do seu aniversário de 50 anos. Os amigos resolveram fazer uma festa surpresa e no meio desta festa uma amiga vira-se para ela e diz: "o meu rim é teu". Ela pensou se tratar de papo de bêbado e não deu muita atenção ao que amiga dissera até que no dia seguinte a tal amiga telefonou e confirmou o que havia dito na noite anterior. Ela ia ganhar um rim.

Com toda a urgência necessária para um transplante, as duas correram aos exames. Em poucos dias o resultado: tudo certo, era compatível. O rim saudável da amiga era o melhor presente que ela poderia ganhar nesta vida. A operação foi um verdadeiro sucesso e hoje ela vive com 3 rins. Os dois originais de fábrica não servem pra nada, mas estão lá guardadinhos. Já o que ela ganhou de presente, filtra tudo direitinho e permite que ela seja essa mulher espontânea que eu conheci numa noite quente num bar da Lapa e que continua a contar suas histórias por aí. Antes de nos despedirmos ela me confidenciou que seu sonho é montar uma banca de mixirica, nossa famosa tangerina, na beira de uma estrada qualquer, já que para todo profissional liberal a aposentadoria não passa de um sonho. Afinal, ela já estava cansada desta vida de produzir isso ou aquilo e já estava ficando velha. Disse a ela que assim que eu ganhar na mega sena compro não apenas uma banquinha, mas um hortifruti pra ela tomar conta e viver feliz para sempre. Porque ela merece.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Gaiola das Popozudas e outras preciosidades


Há quase dois anos eu estava em pleno processo de seleção para trabalhar no Sistema Globo de Rádio. A vaga era para produção de eventos e meu perfil parecia o ideal, de acordo com a pessoa que me indicou, e também, de acordo com as pessoas que me entrevistaram. Até porque, entre tantos outros candidatos, fui aprovado para a vaga e no primeiro dia últil de 2008 lá estava eu, na porta da Rádio, antes do horário combinado, ansioso para começar a trabalhar. Encontrei logo com aquela que seria minha chefe, que me pareceu gente boa, apesar da cara de poucos amigos. Alguma coisa fez com me identificasse com ela. Acho que o jeito fechadão, sério, meio frio até, o que pra mim era sinônimo de uma enorme timidez.
O certo é que ali começava meu martírio. Quem me conhece sabe que eu detesto funk, pagode, sertanejo ou qualquer outra coisa do gênero. Não que eu seja elitista, muito pelo contrário. Pelo menos eu não me vejo desta forma. Acho que eu sou pop pra caramba e minha juventude teve como trilha sonora Lulu Santos, Lobão, Metrô, Rádio Táxi, Kid Abelha, Léo Jaime, além dos clássicos da boa e velha MPB, claro. Tinha também Pink Floyd, Jimmy Hendrix, Janis Joplin, The Smiths, REM, The Cure e, mais recentemente, Radiohead, Coldplay, Beirut, Fleet Foxes, Céu, Maria Gadu... mas Belo, Suíngue Simpatia, Só Pra Contrariar, isso nunca! Então, cair dentro de uma rádio popular, foi o mesmo que mergulhar num abismo, num poço sem fundo, onde por mais que eu me esforçasse não conseguia fazer com que aquele tipo de música e de estilo de vida se adequasse ao que eu considerava normal ou aceitável. Na verdade eu nunca entendi e não entendo até hoje como uma rádio, com tamanha audiência, se prestava àquele papel. No meu entender aquilo tudo, aquela estética e aquele modo de pensar o gosto popular era muito rasteiro e um enorme desrespeito com o que é cultura popular de verdade. Ou será que é certo um meio de comunicação tão poderoso como uma rádio nivelar tão baixo assim e subestimar o povo e o que é considerado do povo?
Naquele meu primeiro dia de trabalho fui levado para fazer um tour nas casas de shows que eram parceiras dos programas da rádio, a antiga 98 FM. Era Verônica Costa, a Mãe Loura do Funk pra cá, um tal de Denis DJ, que eu nunca tinha ouvido falar, pra lá, entre outras preciosidades. Naquela noite, numa espécie de batismo, fui parar numa casa de shows no comecinho da Via Dutra, em São João de Meriti, onde a cerveja custava R$ 1,00 e o som que ali tocava não valia nem um centavo. Minha função era ver se as promotoras rebolavam direitinho em cima do palco e se jogavam os brindes na hora certa. Naquele instante eu comecei a achar que a rádio não apenas subestimava a inteligência do povo, mas a minha também.
Um pouco antes do carnaval eu comecei a promover um pagode embaixo do viaduto de Pilares, bairro onde meus pais nasceram, se conheceram, namoraram e viveram até eu completar um ano de idade. Toda sexta-feira, por volta das 22h lá ia eu revisitar minhas origens mas, confesso, era difícil me reconhecer por lá. Fácil era reconhecer a malandragem que ronda a noite carioca e mais uma vez eu me perguntava o que uma rádio daquele porte fazia ali.
Veio carnaval e eu fui escolhido para tomar conta do Terreirão do Samba, em plena Praça Onze. Todas as ações da rádio naquele local eram de minha inteira responsabilidade, desde a colocação do material de merchandising à distribuição dos brindes e tudo mais o que envolvesse promoção. Confesso que no começo fiquei assustado. Era muita gente e muito calor todos os dias. Mas foi animado, pois apesar de eu não gostar nem um pouco do conteúdo do que a rádio tocava nem de nenhum show daqueles que passaram por aquele palco no Terreirão, o pessoal que trabalhava comigo, a equipe da rádio, era muito bacana. Estávamos todos no mesmo barco e talvez por isso mesmo o espírito de união e de amizade prevalescesse sobre todas as outras coisas. Pelo menos no meu entender. E justamente por este motivo aquele carnaval vai ficar para sempre gravado na minha memória.
Depois do carnaval, enfim um trabalho bacana: transmissão ao vivo, via Internet, do programa do Sidney Rezende, direto da Casa de Cultura Laura Alvim, em homenagem ao aniversário da cidade. Convidados como Moacyr Luz, Jaqueline do vôlei, Sérgio Besserman, Perfeito Fortuna, entre outros, além da dinâmica da equipe de jornalismo do Sistema Globo de Rádio, me estimularam a encarar todo aquele trabalho e o desafio de transmitir pela primeira vez um programa de rádio via web tal e qual um talk show, com direito à imagens no site da Rádio CBN. Um marco. Pelo menos pra mim.
Terminado o evento, volto eu pra minha vidinha de pagodes e bailes funks. O último e derradeiro pagode embaixo do viaduto foi com apresentação do cantor Belo. O cara ainda estava cumprindo pena (olha o nível aí) e antes mesmo do show começar fui procurado por uma oficial de justiça que queria proibir o show por conta de uma dívida do artista. Não pensei duas vezes e enrolei a oficial enquanto pude e liguei para o coordenador da rádio. O cara mandou que eu não desse atenção à autoridade e que não deixasse aquilo atrapalhar nada, pois aquele show seria muito lucrativo para a rádio. Bastou ela me dar ordem de prisão para eu liberar tudo, inclusive onde ficava o controle financeiro do evento. Porra, imagina eu ser preso num pagode debaixo de um viaduto por conta de um show de um cantor que eu detesto promovido por uma rádio que confundia o popular com o baixo nível? Em menos de uma hora o coordenador da rádio chegava ao local do evento. Eu estava lá acompanhado da minha cara de poucos amigos. A não ser pela tal da Gracianne, não vi a menor graça naquele show. Minha reputação junto à diretoria do SGR se já não era boa, depois do Belo ficou pior. Pra completar, na semana seguinte era a vez de um baile funk com dezenas de convidados do tipo "Gaiola das Popozudas" e "Tati e as Gulosas" numa casa de shows lá pra dentro de São Gonçalo. Era muita gente, muitos ânimos alterados, muito dinheiro rolando e bem no finalzinho, depois de fechado o borderô e o resultado de quanto tinha dado em dinheiro, estancou uma porrada no palco. Eu, que não tinha nada a ver com aquilo, já estava no meu carro, pronto pra ir embora. Foi meu último evento na rádio. Na semana seguinte eu fui demitido.
Hoje, quando ouço som invasivo dos bailes funk nos morros cariocas e fico sabendo que o funk, com todas aquelas letras educativas, foi considerado patrimônio popular, cada vez mais eu penso no por quê de uma rádio como aquela existir. Qual a função de uma rádio? O lucro fácil manipulado pelo que ela considera gosto popular? Ou informar, educar e investir no que de melhor há em termos de cultura? Prometo continuar pensando nisso.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

O vazio, a dança, o Bem e outros bichos na minha cabeça.


Perdi a conta dos dias que não dou as caras aqui para escrever minhas bobagens. De vez em quando tenho dessas coisas. Desapareço. Ninguém me encontra. Nem eu. Parece que falta inspiração e a tela em branco do processador de word que praticamente carrego em mim é a última coisa que quero ver na minha frente. São dias em que somos _ eu e o tal processador _ como inimigos mortais, daqueles que um não pode esbarrar no outro. Isso é normal, eu já li por aí. Outro dia mesmo um cara que está lá no meu FB como meu amigo mas, aqui pra nós, nem é, revelou sofrer deste mesmo mal. E olha que o cara é talentoso, tem umas ideias ótimas, carisma, tio famoso e tal, mas sofre da mesma paranóia que eu e muitas vezes se vê impotente diante da obrigatoriedade de criar. Seja esta obrigatoriedade fruto de prazos estabelecidos mediante contratos profissionais ou não. Quantas vezes fui brifado com semanas de antecedência e o briefing lá, martelando na cabeça dias e dias e a danada da ideia só se concretizou praticamente em cima da hora? Criar é o maior estresse. E ter de criar é mais estressante ainda. Atualmente eu não tenho tido a obrigação de criar nada. E nem quero ter. Mandei tudo o que me estressava às favas e no meio disso percebi que eu posso ser muito mais criativo dando novos rumos à minha vida. Ando em busca da metamorfose. Pra ser mais exato estou no olho do furacão de uma. A primeira que não me deixa esquecer da lagarta que um dia eu fui ou que sequer deixarei de ser.
Estou em falta com uns amigos. O Romano é um deles. Temos um projeto valioso em mãos e não tenho encontrado tempo para me dedicar a ele da maneira como deveria. Falta ainda desenvolver pequenos detalhes, uns poucos ajustes mesmo, mas é coisa simples. Eu e ele sabemos disso. Mas por conta desta tal metamorfose resolvi encarar um curso todos os sábados deste mês de novembro. É um curso que se eu quiser realmente me dar bem no final preciso me dedicar bastante, inclusive _ e principalmente, eu diria _ durante os outros dias da semana. Daí que não tem me restado mais tempo para quase nada.
Para completar tem o Bem, um cachorro vira-latas bonitinho pra caramba que meus filhos ganharam mas que eu me apaixonei de cara. Domingo agora faz uma semana que ele chegou. Meu filho mais velho foi quem trouxe. Veio de Cabo Frio. As crianças estão em polvorosa desde então. É um tal de Bem pra cá e Bem pra lá que o pobre do cachorro, quando pode, escapa pra trás de um móvel ou pra um canto na varanda e dorme profundamente. Adora meu pé. Lambe meu dedão com uma categoria que eu vou te contar. Quando os dentes começarem a crescer pra valer é capaz de arrancar minha unha. Vou precisar ter cuidado. Por enquanto quase não come. Bom também que quase não caga. Terça-feira amanhecemos todos no veterinário. Tomou comprimido contra vermes e já está encarando tratamento contra uma otite leve. Ele não gosta nem um pouco quando a gente pinga o líquido dentro de seu ouvido. A gente não gosta nem um pouco de ter de limpar o cerume fedido com cotonetes. É manso até dizer chega. Veio com algumas pulgas que já foram devidamente expulsas. Ainda não latiu. Dorme sozinho na varanda numa boa. Só descobri isso depois de duas noites mal dormidas com ele dentro de casa. Odeio murrinha de cachorro. Hoje dei umas borrifadas de Bom Ar na sala e nos quartos antes de sair.
Fui na abertura do Festival Panorama de Dança ver o Ballet de Lorraine. Bacana. Mas sabe como é espetáculo de dança contemporânea, né? Como bem lembrou meu amigo Raul, é muita malha transparente, fragmentos de música e luz acesa para provocar e/ou constranger a plateia. Mas vale a pena conferir a programação. No site tem tudo, vai lá: http://www.panoramafestival.com/. Depois, uma festinha animada com o povo do festival no Lapa Café, outro lugar que também vale a pena conhecer. Misto de bar, boate e galeria de arte, serve várias marcas de cerveja. Bebi algumas e não paguei caro não. Voltei pra casa de táxi por conta da Lei Seca. Com quantas blitzes eu esbarrei? Nenhuma. No mais, tá um calor senegalês por aqui!

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Poesia é bom e eu gosto

Tem dias que acordo com umas palavras soando em minha mente. Aí eu sento e deixo as palavras soarem com mais clareza pra eu poder ouvi-las e escrevê-las. Quando mais novo usava meu caderno, hoje tenho este blog. O caderno ficava guardado até que um dia eu resolvesse mostrar a alguém o que havia nele. O blog, não. Aqui só não lê o que eu escrevo quem não quer.


Enquanto isso

Corre-me o tempo com a mesma doçura de quando eu era apenas uma criança.
Lava-me a chuva breve tal qual a tarde quente entre tantos outros campos.
Conta-me uma história, daquelas que nos fazem dormir em sonhos de menino.
Livra-me das amarras que me prendem aos encantos de nem saber por que partir.
Deixa-me ficar. Deixa... deixa...

Sinto-me dissolver em brumas leves até que ondas de otimismo invadem minha noite.
Fixo-me nos olhos da penumbra que aquece meu quarto enquanto a infância dorme ao lado.
Largo-me entre as palavras que me soam como o canto que assobia e eu via e ria. Eu cria.
Encanto-me ao ver que o passado já não mais habita em minha mente e eu sigo.

Enfrento-me. Despeço-me. Impeço-me. Desbravo-me.

Enquanto isso me encontro.

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

O episódio da porta do banco


O que vou relatar agora é a mais pura verdade. Quando conto, alguns amigos pensam se tratar de piada, mas apesar da história ser protagonizada por uma portuguesa, juro de pé junto que aconteceu pra valer. Aliás, corro o sério risco de ser banido da família por conta de postar tal acontecimento no meu blog, mas já passei tempo demais contando esta história para apenas uns poucos e bons. Já chega. Tomei a firme decisão de escrevê-la e eternizá-la para que ela ganhe a dimensão devida. Afinal, é uma história e tanto.
Bom... já faz alguns anos e minha sogra chegou em casa depois de um exaustivo dia de trabalho. Encontrei com ela na cozinha e, com o bom humor que lhe é característico, começou a me contar a vergonha que havia passado naquela tarde chuvosa e friorenta de um atípico inverno carioca fora de hora. Como não resisto a um bom papo resolvi sentar, me servir de um suco e prestar mais atenção ao que ela começava a relatar.
Com o sotaque carregado de quem havia acabado de chegar da terrinha ela disparou a falar: "Hoje à tarde fui ao banco". Até aí nada demais, né?, eu pensei. Volta e meia também preciso ir ao banco e, confesso, detesto. Mas aquela ida ao banco da minha sogra tinha um quê especial pelo simples motivo dela nunca ter precisado resolver nada no banco pessoalmente. Ou ela resolve via telefone, via Internet ou alguém resolve por ela. O fato dela ter de ir ao banco era mesmo uma novidade. Ela continou dizendo que estava em frente ao banco por volta das 15h30, quinze minutos antes do combinado com o gerente. Ao entrar travou na porta giratória. É aí que a piada, digo, que a graça da história começa.
_ A senhora pode voltar e se posicionar atrás da linha amarela, por favor, disse o segurança.
_ Pois não, disse minha sogra, voltando-se para atrás da linha amarela.
_ Agora pode vir, disse o segurança. Obediente como ela só, minha sogra foi e travou mais uma vez. Sem que o segurança pedisse ela voltou para atrás da linha amarela e esperou que ele fizesse sinal para que ela andasse para frente. Feito isso, ela travou de novo, já bastante sem graça, meio tonta até e sem entender o por quê de não conseguir ultrapassar os limites da porta giratória.
_ A senhora tem chaves?, perguntou educadamente o segurança.
_ Não, não tenho chaves, respondeu minha sogra, muito séria, de cenho franzido.
_ Então, por favor, volte mais uma vez para atrás da linha amarela, repetiu o segurança. Minha sogra fez o que ele pedia, enquanto uma fila de clientes do banco começava a se formar atrás dela. Ao tentar entrar pela quarta vez a porta giratória travou de novo e mais uma vez o segurança:
_ Tem certeza que a senhora não tem chaves?, indagou ele, desta vez demonstrando certa impaciência. Só que a impaciência que o segurança demonstrou foi o bastante para despertar a ira lusitana da minha sogra que, de pronto, respondeu:
_ Não, não tenho chaves, meu nome é fulana de tal, da empresa tal, tenho uma reunião marcada com o gerente deste banco daqui a 15 minutos e nunca me disseram que eu precisava ter chaves para entrar no banco!
Um silêncio constrangedor tomou conta da entrada do agência do Banco do Brasil naquele momento e por alguns instantes todos se entreolharam até que o segurança resolveu liberar a entrada da minha sogra. Ela entrou, agradeceu e seguiu para a tal reunião sem olhar pra trás. O encontro com o gerente não durou mais que meia hora. Resolveu o que tinha para resolver e voltou ao escritório. Do banco ao escritório são no máximo uns 10 minutos a pé, tempo mais que suficiente para minha sogra ensaiar uma tremenda bronca no office-boy. Até porque, a culpa dela não saber que para entrar naquele banco precisava de chaves era dele, ora pois!
Ao chegar no escritório minha sogra não pestanejou e foi direto falar com o Rafael, o boy:
_ Como é que tu não me avisas que é preciso chaves para entrar no banco?
O pobre do Rafael arregalou os olhos sem entender nada e, na verdade, sequer teve tempo de entender, já que minha sogra disparou a narrar o acontecido. Foi o bastante para que todos no escritório caíssem na gargalhada e o caso da porta do banco virar piada de português. Ou de portuguesa, como queiram!

De lá pra cá não me canso de contar esta história. Ou piada... ai, Jisuis!!