sexta-feira, 23 de julho de 2010

Papo paralelo


Há anos existe um outro dentro de mim me contando coisas. Este outro praticamente não para de falar um só instante. Enche meus ouvidos. Me dá umas ideias. Volta e meia me vem com uma frase pronta, quase que um verso. Já aconteceu de me soprar um poema inteirinho, estrofe por estrofe, e eu sem ter onde anotar. Isso mais de uma vez. Quando cisma, me diz as coisas aos poucos, como se preparasse o terreno. E de uma maneira ou de outra eu sempre paro para escutar o que este outro tem a me dizer. Confesso que me surpreendo a cada dia. Me emociono até.

Não raro não consigo ouvir muito bem o que ele me fala. O mundo é muito barulhento e está cada vez mais difícil ficar em silêncio para poder ouvir aquilo que o outro tem a nos dizer. Entenda como este outro aquele que está dentro de nós. É difícil, eu sei. Talvez a tarefa mais difícil de nossa existência. Lembro que há uns 17 anos eu tomei ayhuasca, numa cerimônia do Santo Daime. Naquela noite, aos pés da Floresta da Tijuca, eu tive uma das experiências mais marcantes da minha vida.


Depois de beber o chá e de cantar uns hinos, o corpo meio que se anestesiou e era como se eu fizesse parte de uma outra vibração. Como se eu pudesse realmente ver um universo paralelo. Ver e sentir. O frio virara calor. Não havia o tempo. E a respiração era longa, tranquila, serena. Quase imperceptível. O mundo ficara lá fora.

- Que louco, você deve estar pensando.

O silêncio entre um hino e outro era o sinal para que eu megulhasse mais profundo naquilo que eu desconhecia. Naquela noite - tenho certeza absoluta - fui apresentado a mim mesmo e a tudo àquilo que eu entendo até hoje como infinito. Não tive medo pelo simples fato de eu poder abrir os olhos e, ao abrir os olhos, me dava conta do quanto nosso mundo externo é limitado. Ou o tanto que ele nos impõe de limites. Enquanto que ao fechar os olhos um mundo de possibilidades se abria. Parece antagônico. E é. Mas desde então tem alguém me dizendo que a mágica talvez esteja em olhar para fora sem deixar de olhar para dentro.

Caso contrário, eu me perco.

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Música até o fim

Nunca tive um só cd de Elizeth Cardoso. Embora conheça suas músicas desde criança graças à minha minha mãe, que volta e meia cantarolava uns versos que, conforme suas palavras, eram do tempo do ronca. Só bem mais tarde fui prestar atenção naquelas músicas e no talento daquela que foi uma das maiores cantoras brasileiras. Eram preciosidades feito Ellizeth Cardoso que faziam sucesso e a cabeça da geração dos meus pais. Lembro eu, bem menino, de um lp da Maysa e toda aquela fossa na minha casa. Dalva de Oliveira era habitué e volta e meia surgia uma Ângela Maria. Nelson Gonçalves também batia ponto e Roberto Carlos nunca perdeu a majestade. É o rei. O primeiro disco de João Gilberto tenho guardado até hoje. Depois veio Elis. Lembro que minha avó, mãe do meu pai, só se deu conta do talento da Elis pouco antes de morrer. Eu não. Gosto dela desde sempre.

Um dia eu descobri o Milton e os mineiros do Clube da Esquina. Injetei na veia. Sentinela é um dos discos cujas faixas devem constar do meu dna de tanto que me emocionam e me inspiram. Um pouco antes conheci Vinícius, Toquinho e toda sua poesia. Chico veio depois, meio tímido, mas arrebatador. Por Caetano sempre rolou admiração e muita atenção ao que ele dizia. Gil foi com Realce. E teve Baby, teve Moraes, teve Alceu. Mas Elizeth Cardoso nunca.

Daí que hoje cedo, ao ler o jornal, dei de cara com uma matéria falando da Divina. Dos seus 90 anos. A matéria começava com uma declaração de Tom Jobim, explicando o por quê de Elizeth ter sido escolhida para gravar o LP Canção do Amor Demais, onde se ouve pela primeira vez o violão de João Gilberto. Li de um fôlego só e levantei do sofá com o firme propósito de comprar um cd ao menos daquela que era dona de uma suavidade mais suburbana do que de beira de praia, conforme a matéria dizia. Me arrumei para ir pro jornal e no caminho entrei na loja de discos mais antiga do Méier. Uma das únicas do Rio de Janeiro que, por ora, sobreviveram aos downloads. Entrei meio descrente de que iria encontrar o que eu queria. Afinal, disco de Elizeth Cardoso, no Méier? Só deve ter na Modern Sound, eu pensava. Que nada. Comprei logo dois.

No jornal, mostrei para um amigo as aquisições, mas fui cooptado por uma passeata, por um comício e por seus flashes intermináveis. O tempo voou na redação hoje por conta disso. Quando vi já eram mais de dez da noite, eu só tinha ido ao banheiro duas vezes, comido um sanduíche entre uma publicação e outra e ainda me restavam duas páginas para virar até meia-noite, antes de chegar em casa, relaxar e ouvir Elizeth. Até lá eu estaria no olho do furacão e nem sei como consegui tempo de me emocionar com um vídeo que postaram no Twitter. É uma gravação com o grande Paulo Moura, feita dias antes de sua morte, esta semana. Ele na varanda da Clínica Sao Vicente, nos últimos sopros de vida. Um olhar já distante. Uma postura elegante. E música até o fim.

Despedida from Eduardo Escorel on Vimeo.

Eu também quero música até o fim da minha vida. Juro.

sexta-feira, 9 de julho de 2010

O cansaço, os mortos e a política


Minha semana teve doze dias. O plantão de sábado e domingo no jornal fez com que eu fosse apresentado a uma sensação de cansaço até então inimaginável. Quem acorda de manhã cedo, depois de uma boa noite de sono, talvez não tenha noção do trabalho que dá para produzir as notícias que batem à nossa porta. A redação do jornal nunca para. Por volta das onze da noite, quando a maioria dos trabalhadores brasileiros já está na cama, ainda pode-se estar discutindo qual será a manchete do dia seguinte. Isso se não mudar tudo com uma notícia urgente, daquelas de última hora.


Esta semana, por exemplo, andei torcendo para que o José Alencar, nosso vice-presidente, não morresse. Ou ao menos que não morresse no meu plantão ou na hora do meu fechamento. Por sorte o que ele teve foi uma crise de hipertensão. Coitado. Simpatizo com ele e admiro a luta que ele trava contra o câncer. Desde que ele surgiu no cenário da política nacional que é sabido de todos a sua doença. E nas inúmeras vezes em que ele sai de um hospital após alguma internação, nunca vi aquele homem com ar de derrota. Nunca. Sempre confiante. O último boletim da equipe médica esta noite dizia que seu estado era estável. Foi a nota que eu publiquei pouco antes de sair do jornal, na torcida para que ele melhorasse mais uma vez.

Quem morreu de verdade foi o Ezequiel Neves. Produtor musical, jornalista, ator e a todo vapor. Não o conheci. Não pessoalmente, mas para quem é da geração do Barão Vermelho e do Cazuza, como eu, nunca foi um nome que soasse estranho. Zeca, como era chamado pelos mais chegados, descobriu o som do Barão e apadrinhou muita gente na seara do rock brasileiro dos anos 80. A relação dele com Cazuza rendeu coisas boas, como 'Codinome beija-flor', que não parava de tocar nas rádios justamente numa época em que eu estava me separando da mãe do meu filho mais velho. Melhor trilha sonora, impossível. Zeca morreu aos 72 anos, sem deixar de lado suas doses mortais de vodca, exatos 20 anos depois de Cazuza.


- Deve estar acontecendo a maior festa de arromba no céu, gritaram na redação.


- Deus é mesmo um mestre na arte de criar roteiros, eu pensei baixinho.


Quem não morreu, mas já tem seu obituário pronto é Marcello Alencar, ex-prefeito e ex-governador do Rio de Janeiro. Qual não foi meu susto ao me deparar com um texto esquecido numa das gavetas da casa de um amigo, também jornalista, anunciando a sua morte? Não que eu seja fã dele ou algo parecido, mas é que quando eu li aquela notícia fiquei realmente na dúvida se ele havia morrido ou não. A matéria tinha sido escrita há mais de dois meses e eu não lembrava de ter ouvido falar ou lido qualquer coisa a respeito.
- Esta matéria eu fiz há uns dois meses. Se o cara morresse ela já estaria pronta, faltando só uns ajustes, ele me disse.
Lembro que trabalhei na Prefeitura na época em que ele era o prefeito. Tinha um ar bonachão, uma fala mansa e a fama de que gostava de um goró. Na verdade, whisky. Um dia ele passou mal e foi internado às pressas. Ia ter de fazer uma cirurgia e se não me engano, foi alguma coisa nos rins. Cálculo, talvez. Mas o boato que corria na rádio corredor era de que o prefeito havia engolido a tampinha de uma das tantas garrafas que entornara. Pura maldade.

Para terminar, a gente não pode é se fazer de morto. As eleições estão aí, a campanha já começou, os candidatos estão nas ruas e a gente sabe que o que mais tem é político vivo aos quatro cantos. Entenda este vivo como algo não muito positivo. Pelo menos não para nós, eleitores. Este ano teremos uma eleição diferente e que já começou diferente por vários aspectos. Como se não bastasse, é a primeira, em anos, sem a opção de voto no Lula. Temos duas mulheres concorrendo ao mais alto cargo da nossa política. Temos também a Lei da Ficha Limpa. E temos a internet e com ela todo o seu poder de mobilização. Pelo menos é isso que será posto à prova neste pleito. Qual candidato vai realmente saber usar o poder da rede mundial de computadores e transformá-lo em voto? Qual marqueteiro brasileiro vai se sobressair e virar o novo Papa das campanhas eleitorais? Quem vai ocupar a vaga deixada por Nizan Guanaes e Duda Mendonça? Ou vai me dizer que ninguém lembrou de escrever seus obituários por aí?

sexta-feira, 2 de julho de 2010

Like a poem





I


Há um risco em toda palavra

Escrita

Em toda frase dita

Por toda parte

Há um risco.


II


Por vezes me falta o ar
E minha cabeça ainda gira.
É quando preciso ficar sozinho
Para dar passagem às palavras
Nem sempre certas
Que carrego em mim desde então.

Ainda hoje mesmo lembrei do meu quarto de menino.


Dos meus livros, desenhos e poemas.

Ah, como eu gostava de ser menino.


É que o mundo não me parecia tão pequeno.

Naquele mundo eu corria.
Cruzava suas esquinas, praças e avenidas.
Por ali eu desaparecia.
Num mundo que cabia naquele quarto.
No quarto daquele menino.

sexta-feira, 25 de junho de 2010

É Copa do Mundo, eu sei.


Nunca fui fã de futebol. Lembro que quando moleque até tentei me aventurar entre dribles e carrinhos, mas eu sequer conseguia fazer mais que duas embaixadinhas. Isso quando a bola não escapava dos meus pés logo de primeira. Motivo de chacota para alguns amigos que, só para me deixarem mais arrasado, volta e meia combinavam campeonato de embaixadinha. Minha participação chegava a ser ridícula. Mas eu tentava, confesso que tentava. Lembro até que cheguei a tirar umas fotos fantasiado de goleiro, com luvas, joelheiras e um indefectível kichute, num jogo organizado por algum pai de amigo da rua. Se não em engano tem fotos minhas em ação. Mas o primeiro capítulo da minha história com futebol termina aí.


A primeira Copa do Mundo da qual tenho lembrança é a Copa de 74, na então Alemanha Ocidental. Mas é uma vaga lembrança. Uma cena, para ser mais preciso. Um aparelho de televisão com imagens em preto e branco e meu tio Manoel sentado em frente, assistindo a um jogo que, lógico, não faço ideia de qual tenha sido. Depois, em 1978, veio a Copa da Argentina e a vitória pra lá de suspeita dos hermanos sobre o Peru por seis a zero. Este detalhe eu sei porque li mais tarde e não porque tenha me revoltado na época. Pouco lembro daquela Copa também.


Em 1982, na Espanha, a coisa muda de figura. Eu já era adolescente e a onda era pintar as ruas e os muros com o mascote da Copa, o Naranjito. O técnico era o Telê Santana e a seleção brasileira encantava o mundo com seus craques e seu futebol criativo. Havia uma expectativa de que o Brasil trouxesse a taça, mas fomos eliminados pela Itália na segunda fase. Lembro que na minha rua o tal Naranjito ficou desbotando por longos quatro anos, até ser substituído por uma caricatura do rosto do Leandro, ex-jogador do Flamengo que desistiu de embarcar para o México, na Copa de 86. O Brasil ficou em quinto lugar e o pai de um amigo meu morreu por conta disso. Triste.


Em 1990 eu já estava casado, meu filho mais velho era recém-nascido, a Copa foi na Itália e o técnico brasileiro Sebastião Lazaroni adotava o esquema defensivo. Era realmente uma outra fase. Para mim e para a seleção brasileira, eliminada logo nas oitavas de final. Meu casamento também não foi muito longe e menos de um ano depois eu estava de volta à casa dos meus pais. O que eu não poderia prever é que meu filho seria um verdadeiro fanático por futebol e que anos mais tarde ele seria o responsável por me levar ao Maracanã várias vezes para ver o Vasco jogar.


Mas aí veio 1994. A Copa foi nos Estados Unidos, um país que nunca teve a menor tradição no trato com a bola nos pés. Mas o Brasil tinha. E tinha também Romário, Bebeto, Parreira e Zagallo. Tinha ainda o então Ronaldinho, uma promessa que, se não me engano, jogava no Cruzeiro. A expressão "vai que é tuuuuua, Taffarel" virou mania. Foi uma Copa bonita, estádios cheios, todo aquele asseio norte-americano. Até um filme foi feito. E por brasileiros. Por fim, trouxemos a taça depois de uma final emocionante, num domingo que, peço a Deus eu nunca me esqueça daquele empate com a Itália e o coração entregue aos pênaltis. Era o tetra, vinte e quatro anos depois da Copa de 70, da qual só conheço as histórias. No tri eu tinha apenas um ano.


Quatro anos mais tarde, em 1998, eu confesso que não entendi nada. A seleção brasileira se curva diante da França e Ronaldo, que não lembro se ainda era Ronaldinho ou se já era o Fenômeno, teve aquelas estranhas convulsões. A seleção da casa derrotou os brasileiros por 3 x 0, num jogo em que nossa seleção foi protagonista de uma das mais polêmicas partidas de futebol de todos os tempos. E tristes. Pelo menos para nós, brasileiros.


Mas em 2002 a gente trouxe o pentacampeonato. Foi a Copa do Japão e da Coreia e dos horários mais absurdos para se ver jogos de futebol, diga-se de passagem. Ter de acordar ainda de madrugada para ver a seleção brasileira jogar só se valesse muito a pena. Eu já estava casado de novo, tinha mais um filho, muito sono e mesmo assim eu estava lá, de pé, com um copo de iogurte na mão às sete da manhã vendo o time de Cafu, Rivaldo e Ronaldinho Gaúcho surpreenderem mais uma vez o mundo. Mundo, aliás, que andava mudado por conta do 11 de setembro de alguns meses atrás.


Lembro que estava em Buenos Aires na Copa de 2006 e me arrisquei a torcer pelo Brasil num jogo contra o Japão, num bar de Palermo. Foi um risco que eu e Claudia só resolvemos correr no primeiro tempo. Antes que o segundo iniciasse, nós já estávamos seguros em nosso quarto de hotel. Nossa seleção era a favorita. Até mesmo nas palavras de Maradona, a personificação da marra Argentina. Mas como todo favoritismo é perigoso, perdemos. Não o jogo contra o Japão, mas com a França, que nos despacharia para casa nas quartas-de-final. Mais uma vez os franceses. Estranho, eu achava. Mas estranho mesmo foi ver a Argentina ser eliminada enquanto eu esperava a hora de embarcar no avião. Num bar localizado no hall do aeroporto da capital argentina, lotado de hermanos enlouquecidos eu escondia meu riso sarcástico sobre a gola do pulôver.


Confesso que ainda não consegui me empolgar para valer nesta Copa da África do Sul. Alguns jogos me surpreenderam, é verdade, como a eliminação da Itália pela Eslováquia. Um 3 a 2 emocionante. Apesar de não ter visto nenhum jogo inteiro, exceto os do Brasil, também gostei de saber que a seleção Paraguaia está classificada para as oitavas. Não gostei foi de saber que os jogadores da seleção da Costa do Marfim ainda são meio primitivos. A seleção do Dunga ainda não convenceu, já o mau humor do técnico rompeu as barreiras de qualquer treino secreto e já caiu na boca do povo. Uns detestam, outros defendem. O certo é que ninguém gosta.


O empate com Portugal deu uma esfriada nos ânimos já não muito alterados. Eu, que vi o jogo na casa dos meus sogros lusitanos e, portanto, em território inimigo, acabei torcendo pelo empate, o que era bom para as duas seleções. Meu sogro, o português mais zen que eu conheço - se é que existe outro -, assistia ao jogo do Brasil e Portugal na sala ao mesmo tempo que assistia aos trogloditas da Costa do Marfim contra os pobrezinhos da Coreia do Norte no quarto. Olho lá, olho cá, o medo dele era de que o Brasil fizesse um gol e a Costa do Marfim sete. Se os portugueses perdessem para o Brasil teriam de disputar a segunda vaga pelo saldo de gols. E olha que os patrícios tinham é gol de sobra.

_ Mas a coitadinha da Coreia é meio fraquinha, ele repetia com sotaque carregado.

Os olhos da minha sogra brilhavam pelo empate e os meus viram nos dela um coração divido entre duas nações. Porque foi lá que ela nasceu, mas foi aqui que plantou suas sementes e fincou suas raízes. Assim como ela, meu sogro, e mais 'meu' tio Joaquim e 'minha' tia Emília. Vimos o jogo juntos. Eu, Claudia e as crianças de um lado e os de além-mar do outro. E nem foi combinado. Já o empate me pareceu jogo de pai para filho. Ou de filho para pai.

_ Fica tudo em família, disse meu sogro.

Litealmente, eu pensei.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

O gago, a zebra, os gols e o mito da caverna



O prédio em que eu moro tem 4 porteiros que se revezam entre os turnos da manhã e da noite. Um deles, o mais velho, é um senhor bem alto, negro, muito educado, gentil, prestativo. Só que é gago. Mas é daqueles gagos que, para piorar a situação, falam acelerado, querendo se livrar logo das palavras. Não consigo entender patavinas do que ele diz. No começo eu até me esforçava, mas acho que a cara que eu fazia para tentar decifrar o tal dialeto deixava o pobre ainda mais nervoso. Ou seja, desisti. Hoje, quando eu passo pela portaria e é ele quem está por lá, faço questão de dar meu boa noite, boa tarde ou bom dia. Ele responde lá do jeito dele. Complicado mesmo é quando chega a fatura do condomínio ou alguma outra encomenda e é ele quem interfona para avisar. Nestas horas eu tenho de ser direto:

- É pra buscar aí embaixo, né?
- É...é...é...é...é.

Terça-feira. 9h da manhã. Um frio desagradável no Rio de Janeiro. Eu estava descendo com o danado do meu cachorro quando o porteiro, gago, entrou no elevador. Foi a senha para o vira-latas abusado e nota zero em simpatia começar a rosnar e a latir. O coitado do porteiro, de negro, amarelou. Parecia que ia colar na parede do elevador e desembestou a falar um monte de coisa que só ele entendia.

- Cala a boca!, eu dizia. Pro cachorro, claro.

Quarta-feira. Meio-dia e quinze. Saio da esteira completamente suado depois de 25 minutos correndo. É o máximo que meu fôlego me permite. Pelo menos por enquanto. Parei de pedalar e estou tentando me acostumar a correr. Só fico grilado com meu joelho. Não sinto nada, é verdade, mas sinto que não posso exagerar. Há 41 anos que eles funcionam perfeitamente bem e eu faço votos de que funcionem por outros tantos. A academia está vazia. Apenas uns gatos pingados aninhados perto das TVs, todas ligadas na Copa do Mundo. A Grécia acabou de fazer mais um gol e virou o placar contra a seleção da Nigéria. Eu e a torcida do Flamengo estávamos certos que ia dar Nigéria.

- Deu zebra na África, eu disse, usando e abusando do clichê.

Quinta-feira. Quase dez da manhã. Claudia me acorda com a desagradável notícia de que a empregada não aparecera para trabalhar e ela já estava atrasada para levar as crianças. Eu rosnei qualquer coisa e me enrolei ainda mais no edredon. Mas pensar em ter de passar um pano na varanda onde dorme o canino e lavar a louça que reinava na pia me fez levantar. Lavei o rosto, li o que eu tinha de ler no jornal, abri um iogurte, misturei uma granola, pus a coleira no vira-latas e fui dar a conferida diária nos postes, hidrantes e canteiros da minha rua. A Argentina estava em campo contra a Coreia do Sul. Passo pela portaria e o gago está lá, de olho no jogo.

_ Gol da Argentina, ele disse com todas as letras.
_ O quê?, respondi, incrédulo. Não com o gol dos hermanos, mas em tê-lo entendido.

Ainda na quinta-feira, por volta das quatro da tarde. Chego no jornal e a redação já está fervilhando. É pauta pra lá e pra cá e não demora muito já é hora de decidir qual será a virada, ou seja, a manchete que temos de deixar no online até a manhã seguinte. Isso fora todas as outras matérias que serão destaque na capa da nossa editoria. O clima nunca é tenso, mas é de total responsabilidade. Todo mundo apurando, escrevendo, mas interagindo. Rolam até umas piadas e outras tiradas engraçadas. Ainda estou apanhando de uma das ferramentas que temos de utilizar. Não é tão simples quanto a do outro jornal. E isso está me deixando meio puto. Onze e tal da noite. O Tribunal Superior Eleitoral aprovou por seis votos a um a lei da Ficha Limpa.

- O País literalmente ferve, eu digo pra mim mesmo.

Sexta-feira. O dia vai ser longo. Pulo da cama, bebo minha água e vou direto acessar a internet. Uma notícia me entristece logo pela manhã: Morre, aos 87 anos, José Saramago, o único escritor de língua portuguesa que ganhou um Nobel de literatura. Lembro de Ensaio sobre a Cegueira e de O Evangelho segundo Jesus Cristo, os dois únicos livros dele que eu li. O Evangelho eu não gostei ou não entendi, mas Ensaio é dos meus livros favoritos. Não apenas pela angústia dos acontecimentos da narrativa, mas pelo mito da caverna que nele eu descobri implícito. Lendo Saramago foi que eu me dei conta de que realmente era preciso abrir os olhos.


- O mundo ficara mais escuro naquela manhã, eu pensei.

quarta-feira, 26 de maio de 2010

Sou feliz desde então


Bem aqui ao lado do meu prédio tem uma escola. Das sete da manhã até por volta de umas cinco da tarde o play list dos baixinhos é repleto de musiquinhas tatibitates. Vai desde bate-palminha, bate até tindolelê, sem deixar de esquecer que o vovô viu a uva. Ou será que estou confundindo tudo com o tempo em que eu lia Davi, meu amiguinho? Mas isso não interessa!


Fui ao cinema domingo, segunda e terça desta semana. Domingo nem conta. Filme de criança. Horroroso. Não por ser filme de criança, pois adoro, mas nem meus filhos, estes sim, crianças, gostaram. Segunda fui ver "Viajo porque preciso, volto porque te amo". Fui esperando uma coisa e era outra. Travei uma batalha interna para não dormir enquanto assistia, confesso. Filme lento. Arrastado. Os personagens principais em momento nenhum aparecem. Nunca tinha visto um filme com uma narrativa daquelas. É documentário sem deixar de ser ficção. É digital e, acho, super-8, câmera de celular e mais umas outras possibilidades. Muitas fotos também. Um road movie sem lugar-comum. Um retrato fiel e atual de boa parte do povo brasileiro que, também confesso, me deixou bastante impressionado. Hoje agradeço por não ter cedido aos apelos de Morfeu. É um tipo de filme que bate depois. É isso.

Terça fui ver "O segredo dos teus olhos" e só pude confirmar que nossos hermanos estão mesmo fazendo filmes muito bons. Já na abertura o filme te conquista ao mesmo tempo que também te confunde. Faz como se embaralhasse tua mente para lá na frente te fazer juntar as peças. É agil. Conta com um elenco fantástico. Tem uma história de amor mal resolvida - o que, talvez para alguns, seja o ponto fraco do roteiro - e uma história de amor trágica. Uma tem final feliz. A outra? Dependendo do ponto de vista, também. É o tipo de filme que te faz sair do cinema saciado de uma história bem contada. Fui com Fred, a personificação da unanimidade e meu amigo pra lá de querido. Nem eu nem ele ficamos elocubrando a respeito da estética ou da narrativa do que acabamos de assistir. Não é do nosso feitio. Fred fez apenas uma observação, esta em relação à interpretação dos argentinos. "São mais naturais", ele disse, com razão. Tenho um outro amigo, que já se aventurou pelas searas do cinema nacional, que não tem o menor pudor em afirmar que não há atores no Brasil. Nem unzinho sequer. Sei também de um ator que diz por aí aos quatro cantos que o que falta mesmo são bons diretores. Acho que da próxima vez que eu encontrar com eles vou sugerir uma visitinha à Argentina.

Semana passada fui ver Beth Goulart interpretando Clarice Lispector. Simplesmente espetacular. Foi a Claudia quem lembrou e disse que aquela seria a última semana e que não poderíamos deixar de assistir. Ela mesma ligou para o teatro e soube que ainda havia uns 50 ingressos à venda. Fui correndo comprar. Sorte que o teatro é pequeno e que a fila I não ficava tão afastada do palco assim. Lembro muito pouco da imagem de Clarice Lispector. Quando ela morreu, em dezembro de 1977, eu tinha apenas 8 anos de idade e, confesso, não sou um exímio conhecedor da sua obra. Li muito pouca coisa dela. Uns trechos de "Água Viva" e um ou outro conto de "Para não esquecer" e tenho a impressão de ter visto, logo após sua morte, um programa de entrevistas com ela. Daí ver Beth Goulart no palco impressionantemente parecida com Clarice já valeria o espetáculo. Mas Beth faz muito mais além de dirigir e atuar. Ela nos toca profundamente com a sensibilidade única e complexa daquela escritora. A peça não conta uma história com começo meio e fim. Mas os textos de Clarice emocionam até o cerrar das cortinas. É peça em que o público bate palmas com vontade quando termina.

Saí de lá com uma sensação boa e repetindo algumas frases de Clarice feito um mantra. Eu estava mesmo num momento bom. Há poucas horas havia feito uma entrevista para trabalhar no O Globo. Uma vaga na editoria de política de um dos maiores jornais do País. O sonho que eu acalentava desde sempre. A oportunidade que eu esperava agora estava ali, meio que de repente. Uma conjunção de fatores positivos a começar por grandes amigos, como a Rachel, e minha presteza em colaborar com um amigo de um amigo. Isso sim. Mas esta é uma história que eu só conto ao vivo. O certo é que a ansiedade me corroeu exatas 24h após aquela entrevista.

Quinta-feira. Dia 20 de maio. 15h15. Rua Dias da Cruz engarrafada. Estou voltando do Jornal do Commercio, onde estava desde o início da manhã. Uma ambulância implora por passagem. Não sei como, mas ouço meu celular tocar. Número que eu não conhecia.

_ Márcio?
_ Eu.
_ Fulana de tal, do O Globo, tudo bem?
_ Tudo...
_ A vaga é sua.

Se a tal ambulância conseguiu passar, eu não lembro e nem lembro ao certo o que eu respondi no celular. Só lembro que eu não sabia se ria, se chorava, se corria ou se pulava. Fui para casa agradecendo mentalmente a quem eu devia agradecer, acompanhado de uma sensação parecida com a que eu tive quando Claudia finalmente decidiu ceder aos meus apelos por nossa história de amor. Isso há quase 15 anos. Sou feliz desde então.

quinta-feira, 6 de maio de 2010

Há algo estranho no ar


A semana foi tensa. Não para mim, mas para o mercado econômico. A crise que abateu a Grécia tem deixado a todos os analistas mundiais preocupados e a queda das bolsas no mundo inteiro é reflexo desta insegurança que ronda alguns países da chamada zona do euro. Portugal é outro país que já começa a dar sinais de que pode quebrar, assim como a Espanha e a Irlanda. Pelo que eu tenho lido - e não é pouca coisa - somente a Alemanha e a França estão numa situação confortável. Ao menos por enquanto. Tanto que foram os principais credores do empréstimo de 110 bilhões de euros que os tais países da zona do euro, junto com o nosso conhecido FMI, fizeram na tentativa de tirar a Grécia da situação em que ela se encontra. Não sem antes impor condições austeras, claro, como corte de salários e aposentadorias do setor público.


Na Ásia, as bolsas de valores parecem sentir o reflexo desta situação na Europa e vivem dias de quedas bruscas em seus pregões. A situação da China, que ano após ano vem apresentando crescimento acima da média mundial, não é tão confortável assim. Por lá também ronda o perigo de uma tal bolha imobiliária, o que vem tirando o sono dos principais investidores. Por conta disso, caem as bolsas no Japão, na Malásia, em Cingapura, na Coreia do Sul e até na Austrália. Difícil de entender, né? Mas nada que uma leitura mais atenta e uma explicação aqui e outra ali para que o assunto comece a se tornar mais familiar.


Estou há quatro meses na redação de um jornal que é 90% de economia. Já perdi as contas de quantas matérias fiz sobre o mercado financeiro, sobre macroeconomia e sobre empresas. Esta semana mesmo algumas das principais empresas brasileiras começaram a divulgar seus resultados trimestrais. Umas parecem muito bem, outras nem tanto. Ontem mesmo dei uma nota dizendo que o número de pedido de falências de janeiro a março deste ano aumentou em relação ao mesmo período do ano passado. Sinal de que a nossa economia pode não estar tão bem quanto uns e outros gostam de dizer por aí.


Semana passada foi a vez da tal reunião do Copom, que é o Comitê de Pólítica Monetária do Banco Central. Foram dois dias em que os analistas do mercado especulavam a respeito do aumento da taxa Selic, que é a taxa básica utilizada como referência da política monetária. Eu havia apostado comigo mesmo que a taxa subiria um ponto percentual, já que este ano é ano de eleição e ninguém quer ficar mal na foto, com risco de aumentar a taxa numa nova reunião. O fato é que os analistas do Copom resolveram aumentar a taxa em 0,75 ponto percentual, o que nos levou a uma taxa de juros de 9,50% ao ano. Somos um dos países com a taxa de juros mais alta do mundo, mas pelo que eu entendi, esta é a maneira que os analistas têm para tentar conter a inflação, que parece querer voltar a nos assombrar. Eu, que sou de uma geração que convivia com reajustes de preços semanais e com a temida hiperinflação, confesso que prefiro juros mais altos a ter de volta o pesadelo de ir a um supermercado num dia, pagar X por determinado produto e na semana seguinte ver que aquele mesmo produto já está custando 2 vezes mais. Um absurdo, convenhamos.


O fato é que, mesmo que a imprensa anuncie aos quatro cantos que o pior da crise econômica mundial já passou, há um clima muito estranho e tenso no ar. É como se uma nova onda ruim estivesse em formação e ninguém sabe ao certo onde ela vai arrebentar primeiro. Como uma tsunami pairando num oceano de dúvidas. Pois não pense você que a crise se instalou no mundo todo somente a partir de setembro de 2008, com a quebra do banco americano Lehman Brothers. Não. A quebra da instituição financeira serviu apenas como um marco, destes que a gente está acostumado a estudar nos bancos escolares anos mais tarde. Já havia todo um cenário pronto bem antes. E o que se cochicha nos bastidores atualmente é onde e quando esta nova tsunami vai aparecer. Ninguém sabe. O que eu sei é que isso tudo me parece assustador, coisa de filme de terror.


Por enquanto podemos assistir cenas de uma verdadeira tragédia grega, com Atenas pegando fogo enquanto os deuses do Olimpo parecem estar dormindo e nem aí para o que se passa com o povo de lá. Três pessoas já morreram nos conflitos que diariamente estampam as manchetes dos jornais. Aqui no Brasil o que se ouve é que está tudo bem, que fomos um dos últimos a entrar na crise e um dos primeiros a conseguir sair dela. Pelo menos na teoria o texto é este. Na prática eu vejo a balança comercial brasileira amargar um déficit atrás do outro e as bolsas, que são um verdadeiro termômetro da nossa economia, despencarem. Na verdade, desde que o Copom anunciou a alta da taxa Selic, a Bovespa não conseguiu bons resultados. Com os juros altos, os investidores preferem outro tipo de aplicação, fogem das bolsas e partem para fundos de renda fixa. Além disso, com a crise na Europa, por exemplo, os investidores internacionais ficam mais cautelosos e cada vez mais conservadores. Para se ter uma ideia, se até uns 15 dias atrás a Bovespa ultrapassava a barreira dos 70 mil pontos, hoje ela não consegue passar dos 65 mil. E olhe lá. Se bem que eu ouvi estes dias lá no jornal que a fuga de investidores pode fazer com que a bolsa opere num patamar entre 40 e 45 mil pontos, o que não seria desesperador para o mercado brasileiro. A conferir. Por sua vez, o dólar também voltou a subir, já que esta bagunça no mercado tem deixado de lado os fundamentos da economia brasileira e os investidores, apavorados, correm para comprar a moeda norte-americana. Mas eu duvido muito que o dólar seja negociado a mais de R$ 1,90 até o final do ano. Podem escrever.


No mais, virei seguidor do Serra, da Dilma e da Marina no Twitter. Não gosto do Serra. Nunca gostei e já disse isso aqui antes, mas confesso que ele é quem mais me surpreende no microblog. Suas colocações nunca me pareceram impertinentes e ele vem demonstrando um bom humor que até então eu desconhecia. Será efeito de algum marqueteiro? É bem provável. A Dilma, coitada, depois que começou a dar alguns passos sem o seu mentor ao lado, anda se enrolando e parece que não junta lé com cré. Esta semana ao fazer comentários a respeito do romance Vidas Secas, de Graciliano Ramos, disse que os nordestinos migravam "do nordeste para o Brasil". Bola fora. Mais uma, aliás. Isso sem falar que ela é bem sem graça quando resolve tuitar. Já Marina Silva seria minha opção de voto. Mas ela é evangélica, não aceita o aborto e muito menos pesquisas com células-tronco, o que me parece um retrocesso. Ou seja, como tuitou uma amiga minha dia desses, "é dura a vida do eleitor brasileiro".

quinta-feira, 29 de abril de 2010

É só o que resta







Esta semana pegou fogo. Literalmente. Foi na segunda-feira, por volta das quatro da tarde, pouco depois de eu ter saído do jornal, que começou um incêndio num mercado de comércio popular, uma espécie de camelódromo, entre a Central do Brasil e o Terminal Rodoviário Américo Fontenelle. Passo ali em frente pelo menos duas vezes por dia e sequer posso imaginar o desespero dos comerciantes em meio ao fogo na tentativa de salvarem suas vidas e suas mercadorias.
Incêndios sempre me impressionaram. Lembro que quando pequeno vi num telejornal, provavelmente o Jornal Nacional, cenas que nunca mais me saíram da memória. Era um incêndio num prédio em São Paulo, chamado Joelma. Uma tragédia que depois virou filme até. Um horror. Agora mesmo, ao escrever estas poucas palavras, me vêm em mente as imagens daquelas pessoas se atirando das janelas do prédio, sem esperança de serem salvas do fogo. Era o salto para a morte.
Graças a Deus neste incêndio no camelódromo da Central não houve feridos. Penso que as perdas materiais tenham de fato sido muito grandes para aqueles que dali tiravam seu sustento. Mas todos continuaram vivos, na luta pelo pão nosso de cada dia.
Não faço ideia de quando ou como a Prefeitura e/ou o Governo do estado vão procurar resolver a situação deles. Até porque nem a Prefeitura nem o Governo ligam muito para o que acontece de fato com o povo. Isso a gente sabe. E isso é tema para outro post.
Passados 3 dias do incêndio, começaram a demolir o que sobrou de pé. O resultado? Algumas montanhas de ferro retorcido, que muitos curiosos feito eu fizeram questão de parar para ver e fotografar. Não sei, mas me pareceu cenário de filme de terror ou suspense. Algo meio Alfred Hitchcock, que por sinal, faz 30 anos hoje, dia 29 de abril, que passou desta para melhor. Ou pior, né? Vai saber. No mais, só restaram as fotos.

terça-feira, 13 de abril de 2010

Arnaldo Jabor, redes sociais, tuiteiros e ignorantes


Atualmente eu tenho tuitado mais do que qualquer outra coisa. Na verdade só o online do Jornal do Commercio me toma mais tempo em frente ao computador hoje em dia do que o tal do twitter. Entre uma nota e outra que publico no online, depois da cotação do dólar ou antes do pregão da Bovespa, lá estou eu ligado no twitter. Funciona meio que como uma válvula de escape ou uma janela para o mundo, onde posso me expressar (em no máximo 140 caracteres, é verdade!), me comunicar, trocar ideias, pensamentos, discordar, reclamar. Sei lá. Só sei que ainda estou meio que descobrindo essa ferramenta e a arte de ser sucinto com as palavras.

Lembro que dia desses, na casa de um amigo, rolou um papo a respeito dessas redes sociais e sua utilidade. Dos cinco amigos reunidos, só eu e o dono da casa éramos usuários das tais redes. De carteirinha, diga-se de passagem. Para ser sincero, acho que todos tinham lá seus orkuts e facebooks, porém, devidamente abandonados.

_ Não me sobra tempo, foi o que disse uma amiga.

E eu acredito que seja falta de tempo, mesmo, afinal, ela faz doutorado e doutorado não deve ser moleza não. O marido desta amiga minha foi logo torcendo o nariz, como se fazer parte de uma dessas redes fosse a coisa mais esquisita do mundo. Mas ele é um cara antenado, inteligente, descolado. Está perdodado. A outra amiga é mãe de uma menina de 2 anos e acabou de se mudar pra Salvador depois de quase 20 anos trabalhando duro na redação de um jornal diário aqui no Rio. Tem orkut que eu sei. Facebook também. Twitter acho que não, mas volta e meia nos falamos via google talk. Ou seja: está na rede. Porque o importante é não deixar esse movimento _ que vem trazendo uma nova maneira de se comunicar com o mundo _, passar. É preciso embarcar junto nesta e fazer parte desta revolução. Caso contrário, é como se você perdesse a viagem. Pelo menos na minha concepção.

Uma das viagens do twitter é justamente ser um espaço democrático para você se expressar seja lá como for. Tudo bem que volta e meia surgem uns seguidores meio indesejáveis (sempre tive grilos com gente me seguindo), tipo o Governo do estado que resolveu me seguir sejá lá pra quê. Se o seu Cabral vai começar a me vigiar, vai perder seu tempo porque de besta eu não tenho nada (ou quase nada) e nunca, nunquinha, vou postar alguma coisa que possa me comprometer. Mas, quer saber? Já andei reclamando do governo por lá. É meu direito de cidadão e, além do mais, esta semana mesmo vi uma entrevista do general Newton Cruz, o temível, onde ele afirmava que o Brasil vive uma democracia e nada pode mudar isso. Se ele, um ícone dos anos da ditadura, disse isso, é sinal de que eu posso respirar aliviado e continuar tuitando sem me estressar.

E tem gente que quando se estressa vai tuitar. É melhor do que socar a mesa, por exemplo. Acho que foi o caso de um amigo meu hoje cedo que, ao ler a crônica do Arnaldo Jabor no Segundo Caderno, ao invés de esbravejar ou amassar o jornal, foi para a rede e chamou os pobres e inocentes pais do cineasta/dublê de cronista de ignorantes. Tudo porque se sentiu ofendido com a frase "como ensinar a população ignorante que só um choque democrático e empresarial pode enxugar a máquina podre das oligarquias enquistadas do estado?". Ele vai votar no Lula, quero dizer, na Dilma, claro. E me parece que vai votar sem pensar, o que me causa muito estranhamento, já que este meu amigo de burro não tem nada. Muito pelo contrário. Sempre foi contestador, bem informado, culto. Mas foi pego por um sentimento que eu nem sei bem qual é, mas que me fez lembrar meu avô materno e seu amor incondicional a Getúlio Vargas, o pai dos pobres. Já prometi a ele uma foto do Lula com a faixa presidencial. Se bem que não duvido nada que ele já tenha arrumado uma.

Do Jabor eu curto os filmes Tudo Bem _ com a Fernandona_, e Eu sei que vou te amar _ com a Fernandinha. Do Lula eu confesso que gosto de algumas coisas também. Sempre gostei. Mas com mais fidelidade e dedicação. Até porque eu me dei conta de que ele não é tão fiel assim àqueles ideais que defendia antes de subir a rampa do Planalto. Basta vermos as incansáveis vezes em que ele, que um dia já se confundiu com a ética e com a moral, se mostrou omisso. E, por que não, leviano? Hoje já consigo me imaginar votando num José Serra, por exemplo. Principalmente porque sei que o governo FHC, dos tucanos, foi um governo que marcou positivamente a vida dos brasileiros. Foi ali, com Fernando Henrique, com o fortalecimento da nossa moeda e da nossa economia, que o nosso País começou a trilhar um outro caminho. Portanto, eu não posso ser injusto nem ingênuo e embarcar numa guerra de nós contra eles. Porque o Brasil é um só, mesmo que múltiplo em suas culturas. Não dá para apagar um passado e achar que só existe Brasil depois de 2002. Isso não é verdade. Quem pensa assim está sendo ignorante.

Ou não é ignorância apoiar políticos como Garotinho? Ou não é ignorância desrespeitar e debochar da legislação eleitoral, que proíbe campanhas fora de hora? Ou não é ignorância espalhar boatos de que um provável governo do PSDB acabaria com o programa Bolsa Família? Ou não é ignorância um Estado governado por sindicalistas deslumbrados com as mamatas do poder? Mas acho que o Jabor _ por quem eu nem nutro tanta admiração assim, repito _, não se referia a este tipo de ignorância, mas àquela em que falta o conhecimento. E daí para gerar mal entendidos, é um pulo. Tal e qual aconteceu com meu amigo, que de ignorante não tem nada.

sábado, 13 de março de 2010

Entre cegos e porcos


Era sexta-feira e já passava das três da tarde quando eu cheguei na gare da Central do Brasil. O movimento me pareceu maior do que o normal para o horário. Muita gente se espremendo em enormes filas antes das catracas. Não pensei duas vezes e dei um jeito de me espremer também. Eu estava cansado e queria chegar cedo em casa. Calor. Sede. Fome. Sono. Muito sono.

O painel eletrônico informava que o parador para Bangu sairia às 15h16 da plataforma 4 D. Tive de correr para não perder o trem, que estava cheio. Tudo bem. Da Central ao Méier são apenas 15 minutos e eu já havia ficado a manhã toda e o começo da tarde sentado na redação. Precisava fazer meu sangue circular. Um dos milhares de vendedores ambulantes que ficam num vai-e-vem entre os vagões gritava ao meu lado que o tal picolé moleca é o que tem melhor sabor e melhor paladar. Nunca tive coragem de comprar nada dentro do trem. Segundos antes de partir um segurança da Supervia entra no vagão com um cego pelas mãos. "É o parador para Bangu"?, o ceguinho perguntou . "É sim", respondeu uma mocinha, que foi logo levantando e cedendo seu lugar para que o cego sentasse. Ao lado da tal mocinha estavam dois rapazes, de olhos bem abertos, mas que se fizeram de cegos, surdos e mudos para não notarem a gentileza da moça. Sentados estavam, sentados ficaram.

Assim que o trem fez sinal de que ia partir, uma mulher com um semblante sofrido conseguiu correr e entrar no vagão com duas crianças que não deveriam ter mais de dois anos. Passou por mim a passos rápidos, mas pude notar que ela estava grávida de mais um. Conseguiu que um rapaz lhe cedesse lugar mais à frente. Tão logo o trem começou a andar, o menino, mais novo, fez que ia chorar. "Não é hora de manha", disse-lhe a mãe, num misto de firmeza e grosseria. O menino engoliu o choro, só que quem começou a chorar foi ela. Àquela altura eu já imaginava que a viagem até o Méier duraria muito mais que apenas os 15 minutos de praxe. Um silêncio constrangedor tomou conta do vagão e a história daquela mulher, que há quase dois meses devia o aluguel para uma tal de dona Ivete numa comunidade que eu não entendi bem qual era, passou a tomar conta da viagem. Ela dizia, aos prantos, que precisava arrumar R$ 170,00 até o final daquele dia e que só tinha conseguido R$ 40,00. Tinha saído cedo de casa com os filhos na tentativa desesperada de conseguir o dinheiro do aluguel. Ainda não tinham comido nada. Ela já não sabia mais o que fazer. Se voltasse para a comunidade sem o dinheiro do aluguel, o chefe do morro iria bater nela e expulsá-la de lá. "E os meus filhos"?, ela perguntava. "E os meus filhos"? A tal da dona Ivete já havia avisado ao tal chefe do morro que o prazo para que ela pagasse o que devia era aquela sexta-feira. É a lei do cão. Um horror.

Eu, que tenho ido ao Frei Luiz desde meados do ano passado, procurando um alento espiritual e ensinamentos que me deixem mais sereno, coloquei a mão no bolso e vi que tinha uns R$20,00. Na hora eu pensei nas facilidades que tenho em minha vida e nas vezes em que eu reclamo de barriga cheia. Aquelas duas crianças no colo daquela mãe desesperada me encheram de um sentimento que eu nem sei dizer ao certo qual foi. Lembrei dos meus três filhos e de todo o amor que eles têm, fora as facilidades materiais que a vida sempre lhes proporcionou. Saí de onde eu estava, fui até à mulher. Tirei todo o dinheiro que eu tinha no bolso e entreguei a ela sem dizer uma só palavra. Ela ergueu as mãos, pegou o dinheiro, me olhou no fundo dos olhos e agradeceu. Sem graça, meio que sem saber se eu deveria ter deixado que "minha mão esquerda visse o que fez minha mão direita", voltei para o lugar onde eu estava. Talvez aqueles R$ 20,00 não fossem resolver os problemas daquela mulher. E talvez não resolvessem mesmo. Mas tenho certeza que algo em mim estaria me perturbando muito mais até agora se eu não tivesse aquela reação de sair de onde eu estava e lhe entregar todo o dinheiro que eu tinha no bolso. "Eu tinha feito a minha parte", repetia para mim mesmo como um mantra.

Não demorou muito para que um rapaz, negro, de bermudas e chinelos, também fosse até ela com alguns trocados. Confesso que não reparei se muitas outras pessoas fizeram o mesmo. Creio que não. Estamos todos muito alheios ao que se passa ao nosso redor. Pouco nos importa o que acontece com o outro. Achamos tudo normal. Não sei se nos tornamos frios ou anestesiados diante de tantas mazelas, mas o fato é que essas histórias acabam se tornando comuns. Só que não deveriam ser. E não pense você que é pelo fato de eu estar escrevendo estas linhas, narrando esta história, que eu esteja me autoproclamando um ser superior, bonzinho, iluminado, ou o escambau. Nada disso. Eu faço parte desta massa que também anda às cegas por aí _ tal e qual o mito da caverna _, que não vê ou não quer enxergar que alguma coisa ainda pode ser feita para que o mundo seja um lugar mais bonito. Só que de vez em quando eu abro o olho.

P.S.: Pouco antes do trem chegar ao Méier, um rapaz, branco, vestindo uma camisa de corte moderno, e que estava bem na minha frente, terminava de beber sua água mineral. Foi só o trem abrir as portas para ele jogar a garrafa de plástico nos trilhos na maior cara de pau. "Este, além de cego, é porco", eu pensei.

terça-feira, 9 de março de 2010

Mea culpa


Estou em falta aqui com meu blog. Na verdade, sábado à noite sentei e escrevi um texto enorme. Na hora de postar digitei alguma tecla misteriosa e o danado do texto desapareceu. Eu havia escrito sobre meus demônios. Sim, eu tenho alguns, mas ando a fim de me desfazer deles. É uma tarefa pra lá de difícil, eu sei. Mas acho também que meus anjos da guarda, que me protegem e sempre me protegeram, não querem que eu dê muita atenção a eles, os tais demônios, e por isso mesmo fizeram o favor de sumir com o tal texto. De lá pra cá não tive mais tempo de me dedicar a escrever o que quer que fosse, afinal, tenho acordado às 5h30 da manhã, pois preciso estar no jornal às 7h em ponto por conta do online. Ou seja: estou que nem zumbi, num sono danado durante todo o dia. Só consigo escrever no jornal e assim mesmo porque as pautas surgem a cada cinco minutos na minha frente e ai de mim se não transformar cada pauta daquelas em notícia. Para completar ainda tem o caderno de artes onde uma vez por semana tem uma matéria minha. E das grandes, com entrevistas, fotos e tudo a que tenho direito. Espero conseguir dar conta.


Portanto, só vim aqui rapidinho, pra dar uma satisfação a vocês e a mim mesmo.


Eis aqui um mea culpa.

segunda-feira, 1 de março de 2010

Ler é o melhor remédio


Dias chuvosos são sempre estressantes para mim. Não gosto. Nunca gostei. E nem adianta aquela lenga-lenga de que o barulhinho de chuva caindo lá fora é uma delícia, um convite ao romance e à preguiça. Concordo apenas com a preguiça e muito por conta do transtorno que é sair de casa em meio àquela chuvinha incessante. Porque quando eu tenho a opção de ficar em casa em dias de chuva, eu fico. Sem traumas. Mas não esperem me encontrar debaixo de um edredom assistindo Sessão da Tarde. Isso nunca. Faz pelo menos uns 25 anos que não assisto Sessão da Tarde e, se não me engano, da última vez era um filme do Jerry Lewis. Eu achava muita graça nos filmes do Jerry Lewis. Hoje, não mais. Continuo gostando de filmes, claro. Mas prefiro ir ao cinema do que ver pela TV. Em casa eu prefiro um bom livro. Isso quando me sobra tempo, lógico. Afinal, vocês sabem que meus três filhos quase não me permitem um tempo livre para ler o que quer que seja. Jornal? Só bem cedo, antes mesmo dos mais novos acordarem.
Sempre gostei de livros. Desde muito pequeno, quando as gravuras e as encardenações eram o que mais me atraíam. Lembro que quando fiz oito anos minha tia Marília me deu um livro de presente. Era um livro grosso, de capa dura, com alguns desenhos e repleto de fábulas do Esopo, que só muito tempo mais tarde vim saber que se tratava de um escravo contador de histórias e que as tais fábulas nada mais são do que contos com moralidade popular. Mas isso é papo para outro post. O certo é que aquele livro que minha tia me deu ficou pra sempre registrado na minha lembrança como sendo o primeiro livro que eu tive curiosidade de ler. Depois vieram outros. Muitos outros. Desde então o hábito de ler nunca me abandonou.
Talvez o gosto pela leitura tenha sido o meu diferencial diante do mundo, já que nunca fui um aluno brilhante, daqueles que sempre se destacavam. A não ser pelas minhas redações, que sempre foram motivo de orgulho e de elogios, posso me considerar ter sido um aluno medíocre. Não gostava mesmo de estudar, tinha verdadeiro pavor de matemática e não entendia como alguns amigos e primos conseguiam ficar horas debruçados sobre um livro de física, por exemplo, tentando decorar todas aquelas fórmulas. Eu preferia me envolver pelos crimes que saíam da imaginação de Agatha Christie, pelos contos de Machado de Assis, pelas histórias fantásticas das Brumas de Avalon, pelos dramas de Shakespeare e mais tarde, bem mais tarde, pelas Ilusões Perdidas de Balzac e pela filosofia de Nietzsche.
Nunca na minha vida vou esquecer da emoção de ler pela primeira vez um livro do Carlos Heitor Cony chamado Pilatos, que ele escreveu no ano em que eu nasci, 1969. O livro conta a terrível história de um homem que teve seu pênis decepado e passa o tempo todo com ele, seu pênis, dentro de um pote de maionese. Pode soar estranho, mas foi o livro mais engraçado que eu já li durante estes meus 41 anos. Cony, o autor, tem uma relação polêmica quando o assunto é ditadura e os militares, mas Pilatos trata justamente da castração em que se encontrava a sociedade naqueles anos de chumbo.
Confesso que eu estava meio sem inspiração para vir aqui neste meu blog e escrever sobre o que quer que fosse, mas ontem, quando soube da morte de José Mindlin, alguma coisa despertou em mim. A história daquele senhor de 95 anos que dedicou sua vida aos livros e ao Brasil me comoveu. Desde criança ele se dedicava a montar uma das maiores bibliotecas do país, com mais de 45 mil livros, entre eles exemplares pra lá de raros, como o original do Grande Sertão Veredas, um dos livros que mais me impressionaram, seja pelo seu conteúdo ou seja pela forma como foi brilhantemente escrito. Hoje eu li no blog da Míriam Leitão que o sonho de Mindlim era que o Brasil lesse mais. Eu também sonho este mesmo sonho. Porque sou exemplo vivo de como a leitura pode ser benéfica na vida de alguém. Afinal, se eu sou o que sou hoje, muito se deve ao meu prazer pela leitura. Não que eu seja alguma coisa ou que tenha cargos importantes. Nada disso. Quando digo "o que eu sou hoje" é simplesmente em relação ao que se transforma em mim a cada frase que leio ou a cada verso que escrevo. Só isso. E isso, no Brasil de hoje, já é muito.
Que venham as novas gerações e com elas o gosto pela leitura. E que o sonho de José Mindlim e de outros brasileiros como eu se concretize.

P.S.: Nas imagens do velório de José Mindlim eu vi vários políticos: FHC, Serra e até Marta Suplicy. E o Lula? Ah... este não gosta de ler, não é mesmo? Uma pena.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Faz frio. Em Vancouver.


Terça-feira de carnaval. 21h. Rua Dias da Cruz num mar de gente de todos os tipos. Às já tradicionais kombis e carrocinhas de espetinhos juntaram-se centenas de outras barracas que vendiam de um tudo. Uma menina de peruca rosa e barriga sobrando pra fora da camiseta ensaia uns passos ao som de uma música que era tudo, menos samba. Um pouco mais à frente, perto da rua onde moram meus pais, um palco. Lá em cima um animador agradecia ao apoio do vereador fulano de tal. O povo grita que quer música e que não é hora de fazer discurso pra político nenhum. Concordo. Parece que teve desfile da Banda do Méier, tradicional para os pinguços da área. Ao meu lado passa uma fileira de clóvis e suas roupas pra lá de coloridas. Uns 10 pelo menos.

(Quando eu era moleque, lá em Pilares, eu chamava clóvis de bate-bola. Morria de medo. Uma vez, bem pequeno, vestido de pirata, um bate-bolas chegou bem pertinho de mim e puxou meu chapéu. Foi um dos maiores sustos da minha vida. Só me livrei do trauma anos mais tarde, quando minha tia Marilda, irmã do meu pai, fez uma fantasia de bate-bola pra mim. Preta e branca. Com capa espelhada e o escambau. Nas mãos, uma bexiga amarrada nuns dois metros de linha grossa. Nossa, como aquela bexiga fedia! Lembro de comprá-la de um senhor negro que puxava da perna e que, sempre na época do carnaval, passava em frente à casa da minha avó empurrando um carrinho de madeira, desses que se vê ainda hoje em algumas feiras-livres por aí, cheio das tais bexigas e de máscaras de morcego que ele mesmo fazia. Isso há mais de 30 anos.)

Encontro meus pais na esquina. Minha mãe me parece bem, apesar da taxa de açúcar ter oscilado estes dias. Meu pai termina uma cerveja. Quase nunca na vida vi meu pai beber cerveja. Aliás, quase nunca na vida vi meu pai ao lado da minha mãe num carnaval. Por instantes eu penso que a vida nos reserva mesmo muitas surpresas. Eles perguntam como estão as crianças. Voltam na sexta, eu respondo. Já passa das nove e o termômetro marca 38°. Não rola um vento sequer. Todos reclamamos do calor. Imagina se falta água, meu pai diz. Aí é o fim do mundo, se espanta minha mãe.

(A verdade é que o Rio de Janeiro está pegando fogo e nós, cariocas, já começamos a sentir na pele os efeitos do aquecimento global. A tal da sensação térmica e seus 50° já fazem parte do nosso dia a dia. Praticamente a filial do inferno. Se é que lá não é mais fresco, convenhamos. Eu confesso que adoro sol. Sou avesso a frio. Ataca minha bronquite, a pele resseca, o lábio fica rachado e por aí vai. Só que este calor já está passando dos limites. Ainda mais agora que o carnaval está terminando, Unidos da Tijuca campeã, e o ano finalmente começando. Hoje o ar condicionado da redação não estava dando vazão. Terminei o texto suado. Literalmente. Entre uma frase e outra _ e de olho na apuração das escolas de samba _, muitos goles dágua pra ajudar a refrescar.)

Meu pai pergunta se eu vi o acidente que matou o atleta que fazia um treino no dia da abertura das olímpiadas de inverno. Respondo que sim, horrível, e digo que lá eles devem estar morrendo de frio e nós, aqui, de calor. Peço um suco gelado pra mim e outro pra minha mãe. Trabalho no dia seguinte. Meu pai não quer mais nada. Volto pra casa, tomo um banho e ligo a televisão. Por coincidência está passando uma retrospectiva com os melhores momentos das olímpiadas em Vancouver, Canadá. Fico sabendo que temos cinco atletas brasileiros competindo. Isabel Clark, a brasileira do snowboard não faz um bom tempo. Não está desclassificada, mas vai depender do resultado das outras competidoras.

(As montanhas de Vancouver estão tomadas de neve. Aliadas ao ar condicionado do meu quarto, que está no máximo, me dão um certo alívio do calor. Na tela é a vez da final de patinação artística em dupla. A apresentação do casal russo é quase irrepreensível, não fosse a patinadora ter perdido o equilíbrio numa das piruetas. Seu par não a deixa fraquejar e a apresentação segue firme. Os franceses, logo depois, emocionam com a música escolhida. Parecem ter perfeita sintonia. Os dois lado a lado, um dando apoio ao movimento do outro. Tudo milimetrado. Até que um giro em falso leva ao chão o patinador. De pronto ele se levanta e continua como se nada tivesse acontecido. O público aplaude ao final. O casal chinês vem com uma apresentação arrebatadora. Equilíbrio do início ao fim. Ginásio completamente em delírio. Medalha de ouro, claro.)

Não sei bem o por quê, mas foi aí que me veio o lampejo, dos mais piegas, por sinal: que tanto numa prova de patinação artística quanto na vida, o importante é caminhar lado a lado e saber encontrar o equilíbrio, mesmo com as imperfeições de cada um de nós.


(Antes de dormir tentei mentalizar e sonhar que estava em Vancouver só para sentir um pouquinho de frio. Não deu certo. Sonhei que estava na praia. Acredita? Ô calor!)





quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

É carnaval. E daí?


Ando sem tempo. Com algumas pitadas de preguiça e outras tantas de cansaço mesmo. Tudo bem, eu tenho acordado tarde, por volta das 9h, pois saí da academia. O contrato de seis meses havia expirado, a grana andava curta e para completar, tinha uma meia dúzia de senhoras completamente histéricas já às sete da manhã, que eu resolvi dar um tempo e ver até onde isso pode chegar. Entenda como "isso" a minha barriga, ok?
Tenho acordado mais tarde muito por conta do meu horário no jornal. Entro à tarde na redação, pelo menos por enquanto. Nunca chego cedo em casa. Como alguma coisa e corro para o quarto. Banho. Frio, claro. Ar condicionado no máximo. Mulher e filhos prostrados na cama. Ainda bem que a cama é grande e cabe todo mundo. Na verdade eu fico meio espremido entre eles, com os pés para fora. O cachorro, que adora um ar condicionado, também está no quarto e morde meu dedão.
A mim quase não me permitem falar, pois a novela do senhor Manoel Carlos é sagrada, assim como o Big Brother Brasil, que começa imediatamente depois. Daí, devo confessar, entro no climão e assisto o BBB com todos eles. A Lia é a maior gostosa, seguida bem de perto pela Cacau, que namora o crianção, mas qué é alvo de paquera da Angélica, a assumida. Dicésar e Serginho também são assumidos. A Lena me parece louca. O BBB 10 é GLS. Meus filhos assistem. Torcem pro Dourado. Minha mulher fica hipnotizada com o Cadu. Físico perfeito, ela diz. Olho para ela. Entenda este último "ela" como a minha barriga, ok? Resmungo que preciso voltar a malhar. Muitas vezes já passa da meia-noite e as crianças precisam dormir. Claudia desmaia logo depois. Eu não. Eu custo muito a dormir.
Gosto de escrever à noite. Junto com o silêncio na casa. Sempre fui assim. Mas nestes dias de verão carioca, com a tal da sensação térmica chegando aos 50 graus, sem chances de pensar em escrever o que quer que seja neste blog. Ainda mais depois de passar a tarde escrevendo textos para o jornal. Tenho feito a cobertura do caso da compra da Cimpor, uma cimenteira portuguesa que vem sendo disputada a ferro e fogo pelas brasileiras CSN, Camargo Corrêa e Votorantim. Vou aprender muito no Jornal do Commercio. Como Sócrates, eu também "sei que nada sei".
Amanhã, sexta-feira, véspera de carnaval. Não vou trabalhar. Vou para a casa de praia. Sol. Calor. Engarrafamento. A mulher e os filhos foram hoje cedo para evitar o trânsito. A casa fica estranha sem eles. Não vi BBB. Ainda não liguei o ar. Encontrei um CD maravilhoso do Egberto Gismonti e Naná Vasconcellos, "Duas Vozes", o mesmo que eu estava ouvindo uma horinha antes na casa de um amigo, o Raul. Quis ouvir de novo. Tenho este CD há mais de dez anos e hoje ele me soou tão diferente. Volta e meia me acontece. Não encontrava meus amigos desde antes do Natal. Dei carona para o Fred. Garoto bom está ali. Liguei para o Henrique, outro que não vejo há tempos. Era tarde e ele já estava dormindo. Combinamos uma cerveja na semana que vem, sem falta. Volto na terça. Engarrafamento? Prefiro imaginar que não. Quarta-feira de cinzas tenho de estar no jornal. Preciso descansar. Antes, resolvi escrever. No mais, não me leve a mal, já é carnaval, já é carnaval!



segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Hay que encaretar pero sin perder la loucura jamás


Quinta-feira da semana passada. Chego na redação do jornal com minha garrafa de 1 litro e meio de água mineral gelada nas mãos para matar a sede durante a tarde quente. Cumprimento um ou outro enquanto caminho em direção à minha mesa. Ao meu lado ouço a diretora executiva do jornal, num bate-papo animado com o trainee, dizer que as redações hoje em dia estão repletas de gente careta e que na década de 70 o desbunde era geral. As festas eram regadas a drogas, muito papo-cabeça, algum sexo descompromissado e todos viravam noites e noites sem cessar. As matérias eram escritas em enormes e pesadas máquinas, daquelas que só encontramos em museus atualmente; as pautas eram passadas aos repórteres por pauteiros, profissional que praticamente desapareceu das redações; era permitido fumar no local de trabalho e uma grande maioria realmente fumava a valer; o trabalho do diagramador era quase artesanal e demorado; o fax era a maior novidade em termos tecnológicos e, mesmo assim, nem todos os jornais o tinham. Muitos ainda contavam com o telex, mas o certo mesmo era apurar via telefone e olhe lá. "Era uma verdadeira loucura e todos pareciam mais felizes", era sua conclusão.
Hoje as coisas mudaram. Outro dia eu ouvi um colega da redação dizer que não saberia viver sem o Google. Melhor dizer sem o São Google! Encontra-se de tudo lá, basta um clique. Tudo está mais rápido e as informações perdem seu valor de um momento para o outro. Quer fazer um teste? Basta acessar agora mesmo o seu jornal online de preferência e amanhã, nas bancas, o que você acabou de ler está lá, com as mesmas manchetes repetidas. E o que era para ser novidade, deixa de ser. A velocidade da informação chegou a níveis que há pouco tempo eram inimagináveis. Coisa de filmes e livros de ficção científica. Daí que eu me pergunto: o que virá depois disso? Não sei, mas o que sei é que não só nas redações dos jornais, mas no mundo todo tudo parece mais careta.
Uns dizem que foi a AIDS, esta doença maldita que serviu para dar um freio no desbunde generalizado; outros dizem que é culpa do puritanismo norte-americano e suas implicações num mundo globalizado. Prefiro acreditar que é só uma onda, uma fase e que a loucura que todos nós guardamos bem lá dentro uma hora vai dar o ar da sua graça. Confesso que nunca fui de me desbaratinar por aí inconsequentemente. Acho que nunca fiz nada que pudesse prejuducar quem quer que fosse em meus momentos de loucura. Talvez por ter sido pai muito cedo meu senso de responsabilidade tenha me deixado com os pés mais no chão. Mas isso não quer dizer que eu não cometa minhas insanidades. Até hoje, prestes a completar 41 anos, ainda adoro quebrar protocolos e (me) surpreender. Isso quando posso, claro. Porém acho que as minhas insanidades são saudáveis, em sua maioria, e eu detesto aqueles que se fazem de certinhos, aqueles que se adequam às regras sem ao menos tentar entender o por quê delas. Detesto mais ainda aqueles que estão sempre sorridentes, sempre simpáticos, com um bom humor patológico. Estes me parecem sempre prontos a dar um bote a qualquer momento. Basta você dar bobeira.
Mas a caretice que ronda essa nova geração é um fato. São jovens que cresceram sem serem incentivados a ler um clássico; não conheceram o que é ter senso crítico; só pensam de acordo com o que manda a massa; não apuraram seus gostos musicais; não valorizam nossa língua e, por consequência, escrevem cada vez pior. Fora a falta de educação, a falta de gentileza, a falta de respeito com tudo e com todos. Lógico que estou generalizando, pois acredito que ainda encontremos jovens que pensem diferente, que queiram quebrar estas regras que foram impostas Deus sabe por quem.
Eu também sou contra as drogas e toda a violência que está por trás de um inocente baseadinho; também sou contra aqueles que tentam driblar as blitzes da Lei Seca através de sites de relacionamento feito o Twitter; só que acima de tudo eu sou contra a caretice e a favor da loucura. Portanto, enlouqueçam! Porque os loucos estão mais perto de Deus.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Com a vida nos trilhos


Nestes últimos dias eu tenho feito coisas que nunca havia feito antes na minha vida. Ainda não comentei com quase ninguém, mas semana passada fui contratado para trabalhar como repórter no Jornal do Commercio, um dos mais antigos do Rio de Janeiro. Talvez vocês não saibam, mas o fato é que eu me formei em jornalismo no começo da década de 90, há quase 20 anos. De lá pra cá dei muitas cabeçadas em dezenas de empregos, mas nunca havia pisado de verdade numa redação, só uma colaboração ou outra numa coluna aqui e outra ali. Nada mais. E não me pergunte o por quê. Não sei se conseguiria responder, mas tenho cá minhas desconfianças de que inconscientemente tentei me afastar da minha verdadeira vocação. Mas foi preciso amadurecer e assumir que o que eu mais gosto de fazer é mesmo escrever. Portanto, se a vida começa de verdade aos 40, eu acabo de nascer para a minha carreira. E o engraçado disso tudo é que nunca tive dúvidas na hora de escolher a minha profissão. Mas daí a entender as voltas que o mundo dá é uma outra história.

Mas como eu disse lá no começo deste post, tenho feito coisas nestes últimos dias que eu nunca havia feito antes. Trabalhar numa redação de um jornal diário é uma e a outra é andar de trem. Isso mesmo, andar de trem. Sempre morei no Méier e sempre convivi com os trilhos da linha férrea, porém nunca precisei ou quis andar de trem. E onde já se viu suburbano que nunca andou de trem? Já estava mais do que na hora de vencer este tabu. Meu pai já tinha me falado das vantagens do trem, como o fato de chegar mais rápido ao centro da cidade, não pegar engarrafamentos, não parar em centenas de pontos, fora o fato de ter vagões com ar condicionado. Mas confesso que não dei muita atenção ao que meu pai me dizia. Foi dia desses, conversando com um vizinho, advogado do BNDES, que prefere deixar seu carro na garagem e vai trabalhar de trem, que fui me dar conta do quanto eu estava sendo preconceituoso. Logo eu, que há uns posts atrás falei de preconceito!

Portanto resolvi encarar os trilhos e debutei num vagão de trem até a estação Central do Brasil no início da tarde de uma segunda-feira calorenta. Devo admitir que me enrolei um pouco, pois achava que era como no Metrô e precisava de bilhete. Mas não. Pelo menos na estação do Méier você paga e passa pela roleta, como se fosse a catraca de um ônibus qualquer. Devo admitir também que fiquei meio desorientado, sem saber de que lado embarcar, com medo de seguir viagem em direção contrária. Mas não. Bastou perguntar em qual plataforma era o embarque para a Central e estava tudo resolvido. O trem chegou rápido. Era o parador, com ar condicionado e vagões civilizadamente tranquilos, muito melhor que qualquer Metrô que a gente vê por aí. Ou por aqui pelo Rio de Janeiro, claro.

Em pouco mais de 20 minutos eu chegava à Central sem uma gota de suor sequer. Bastava apenas atravessar a rua e pegar um ônibus que me deixasse do outro lado do túnel, bem ali atrás da Rua Barão de Tefé. Ou seja, em meia hora eu estava dentro da redação pensando em como é bom experimentar coisas novas nas nossas vidas. E que estas coisas novas me ajudem a colocar minha vida nos trilhos, mesmo que estes trilhos sejam os da Central do Brasil!

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Os monstros que vivem dentro de nós


Final de tarde. Nuvens carregadas no céu anunciam que vem chuva das boas. Dentro de casa o corre-corre é grande. Vamos deixar as crianças com a sogra e partir para a sessão de cinema em Botafogo. Não podemos atrasar um minuto caso contrário perdemos o início do filme. Eu detesto perder o início de qualquer filme. Não fiz a barba. Vou deixar para amanhã. Ligo pra sogra e a Fátima vai descer e buscar as crianças na portaria. Desta vez eles não reclamaram, mas foi preciso negociar com antecedência. Com eles agora é assim. Acham que mandam nas nossas vidas e eu desconfio de que mandam mesmo. Isso porque a gente permite. Quero ver mais tarde, quando já estiverem grandes, com suas namoradas, se vão querer saber de ficar por perto. Duvido.
O trânsito está bom. Em menos de 15 minutos cruzo a Radial Oeste e entro no elevado que vai me levar ao Rebouças e dali ao cinema são mais uns 10 minutinhos. Dentro do túnel eu e Claudia damos um grau e o som que rola é "Never gonna girl like you before". Vontade de dançar. A música ainda rola mais uma vez. Há uma fila grande em frente ao cinema. Dois filmes bem cotados estreando hoje, mas eu saí de casa com a intenção de ver "Onde vivem os monstros", de Spike Jonze, o mesmo diretor de "Quero ser John Malcovitch". O relógio da esquina da Voluntários da Pátria marca 19h13. O filme começa às 19h15. Ainda não estacionei o carro. Dou uma volta no quarteirão e por sorte um carro está saindo da vaga. Pego dois reais para o guardador e praticamente arrasto a Claudia pra fila dos ingressos. Ela não gosta. Reclama que sou estressado. Às vezes sou mesmo. Ainda mais quando quero ver um filme e estou atrasado. Enquanto ela fica na fila vou ao banheiro. Ela resolve ir ao banheiro quando já está com os ingressos na mão e o filme começando. Entro sozinho na sala. Perdi o comecinho do filme mas não o fio da meada. Ela demora um pouco mais a entrar na sala. Ficou chateada porque eu não esperei por ela. Diz que foi falta de consideração minha. Eu acho que a falta de consideração foi dela e não respondo mais nada. Quero prestar atenção no filme. A trilha sonora é espetacular e a história é uma fábula delirante baseada num clássico da literatura infantil norte-americana. Não sei se é um filme para crianças, mas de certo que é um filme para a criança que ainda existe em cada um de nós.
O filme conta a história de Max, um menino bastante levado e dono de uma imaginação pra lá de fértil. Uma noite, ao desobedecer sua mãe, leva uma enorme e merecida bronca. De castigo e fantasiado de lobo, sua imaginação o leva a um lugar fantástico, povoado por criaturas gigantes. A partir daí o filme se transforma numa enorme aventura, repleto de referências lúdicas, além de questões relacionadas aos sentimentos mais primitivos da infância, como o medo, a raiva, a solidão e o lado selvagem que todos nós temos. Seriam estes sentimentos os verdadeiros monstros que carregamos dentro de nós? O filme nos dá esta resposta de uma maneira sensível, divertida e, por que não?, deslumbrante.
Saí do cinema pensando no quanto eu fui solitário quando criança e no quanto a minha imaginação me levou a lugares tão fantásticos quanto a história que eu acabara de assistir. Lembrei do medo que eu sentia ao ficar sozinho em casa, mesmo estando junto de meu irmão mais novo. Da raiva que eu sentia quando contrariado. Dos monstros que habitavam minha imaginação. Das histórias que minha mãe contava para que eu dormisse. Das artes que eu aprontava. Dos meus tempos de menino. Tempo este que eu ainda guardo dentro de mim, mesmo que os monstros ao redor teimem em me dizer que ele não volta mais.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

All we need is love


Depois de alguns dias fora de casa, cheguei e dei de cara com a geladeira praticamente vazia. Alguns alimentos já vencidos que a empregada esquecera de jogar fora, outros já nos finalmentes e a certeza de ter de encarar um mercado mesmo com os 50 graus que torram os miolos de qualquer mortal que se arrisca nas ruas do Rio de Janeiro em pleno verão do aquecimento global. A notícia logo pela manhã da morte de Zilda Arns, vítima do terremoto que arrasou o já arrasado Haiti, fez meu dia começar estranho. Minha cabeça ainda parecia balançar feito o barco em que estive praticamente todo o dia de ontem e eu fiquei com receio de ser uma crise de labirintite, mas não, tudo indica que foi alarme falso; minha mulher e meus filhos mais novos não conseguiram levantar da cama antes das 10h30; o café da manhã saiu por volta do meio-dia; às duas da tarde a vizinha convidou os pequenos para um cineminha com os filhos dela e o jeito foi improvisar um almoço pra eles não irem ao cinema com fome. No freezer, um pote com o que um dia foi uma feijoada e no armário, dois pacotes de macarrão instantâneo. Em menos de cinco minutos eles já tinham almoçado e estavam prontos para o passeio. Paz. Sossego. Ar condicionado. Clima de montanha no meu quarto. E de romance também.
Algumas horas se passaram. O telefone tocou. Era a vizinha dizendo que estava tudo bem, que iam fazer um lanche e demorar mais um pouquinho. Sem problemas. Aquele final de tarde estava mesmo preguiçosamente gostoso, mas minha mulher resolveu levantar da cama e sair para revelar as fotos acumuladas na câmera e de quebra passar na padaria para comprar umas coisas para o lanche. Não tive coragem de sair do quarto e encarar o caldeirão que se formava à beira do corredor do meu apartamento.
- Quer ir comigo, ela teve coragem de me perguntar.
- Nem morto, eu respondi.
Aproveitei que eu estava no ar condicionado e tomei coragem para ligar para a NET e resolver o problema dos canais que estavam fora do ar. Juro que eu pensei que fosse ficar horas pendurado com aqueles atendentes e seus gerúndios intermináveis. Quebrei a cara, pois em menos de dez minutos os canais estavam todos restabelecidos. Na GloboNews uma entrevista com um coronel do exército brasileiro comentava a situação do Haiti e mais uma vez eu lembrei da Zilda Arns e do quanto somos carentes de bons exemplos feito ela. Mais cedo eu havia lido no blog da colunista Míriam Leitão uma frase a respeito de Zilda Arns que me fez pensar na missão de cada um aqui por estas bandas. O título do post era "Zilda Arns: combateu o bom combate pelas crianças", onde ela afirmava que a perda de Zilda era uma grande perda para o país. Assim como a colunista, eu também sempre tive uma enorme admiração pela fundadora da Pastoral da Criança. Nunca tive a sorte de entrevistá-la, mas sempre que tinha a oportunidade de vê-la na TV não tinha dúvidas de se tratar de uma pessoa especial, daquelas que deixam para sempre a marca do bem por onde quer que passem. Depois de salvar a vida de milhares de brasileiros em condições de miséria, Zilda Arns resolveu levar a Pastoral da Criança para outros tantos países do mundo. Estava no Haiti para mais uma destas missões. Junto com ela morreram mais 11 militares brasileiros e outras cerca de 100 mil pessoas. Na internet o que se vê é o retrato de um país devastado e suas necessidades infinitas. No G1 a manchete é de que Lula telefonou para Obama e pediu ajuda às vítimas no Haiti, mas eu não sei se "o cara" vai conseguir alguma coisa com o Nobel da Paz. Angelina Jolie e Brad Pitt já se comprometeram a ajudar.
Em meio a tantos pensamentos as crianças chegaram do cinema praticamente ao mesmo tempo que minha mulher com as fotos devidamente ampliadas e nosso lanche da padaria. Com tanto calor não sinto muita fome. Comi um sanduíche misto e bebi um mate com bastante gelo. Enquanto os filhos dos vizinhos iam entrando eu ia saindo para encarar o mercado. Calor. No céu, algumas nuvens. Mercado vazio. Achei tudo mais caro. A comida do cachorro, então, estava pela hora da morte. Isso porque o índice da inflação de 2009, anunciado hoje, foi o segundo menor da década. Comprei apenas o que precisava comprar e na hora de pagar tive uma surpresa: dei de cara com o livro "O Banquete", de Platão, nas mãos do caixa que me atendeu. Fiquei surpreso e feliz ao mesmo tempo. Este livro é um dos que minha mulher mais gosta e eu só li porque ela me obrigou. É um livro de leitura difícil, sem nenhum apelo popular, apesar de se tratar de uma celebração ao amor, ingrediente que anda faltando nas prateleiras de muitos corações por aí. O rapazinho do caixa disse que não sabia se ia conseguir ler até o fim porque estava achando meio complicado.
- Li "O Mundo de Sofia" e parti pra este, ele me disse.
Eu respondi que era pra ele não desistir, mas não sei se consegui convencê-lo. Tomara que sim. Até porque, hoje, depois da morte de Zilda Arns, só consigo pensar que tudo o que mais precisamos é amor. Seja ele como ele for.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Folia de Reis, subúrbio e preconceito.


Só fui me dar conta de que eu era suburbano quando entrei na faculdade. Até então eu não tinha a menor noção de que eu pertencia a uma subespécie, considerado por muitos um ser de outro mundo, um alien ou algo parecido. Foi preciso atravessar o túnel Santa Bárbara diariamente e estudar jornalismo na FACHA para me dar conta de que eu era suburbano com todas as letras. Nunca, em momento nenhum da minha vida, o fato de morar no subúrbio foi um empecilho pra mim. Desde que descobri vida após o túnel _ nem sempre vida inteligente, diga-se de passagem _ usei e abusei do meu direito de ir e vir pra onde quer que fosse, pouco me importando que tipo de tribo eu iria encontrar ou se eu poderia pertencer a esta ou àquela. Se eu estivesse a fim de ver um filme na sessão da meia-noite nos primórdios do Cineclube Estação Botafogo, eu ia; se eu quisesse ficar na Farani até tarde da madrugada e depois voltar de ônibus pra casa sem receio de assaltos, eu ficava; se a vontade era de ver o pôr do sol no Arpoador, lá estava eu, da mesma maneira que eu ia pros cafundós de Niterói ou Realengo ou Tijuca e Rio Comprido na casa de meus amigos.
Digo isso porque hoje, conversando com um amigo, morador de Botafogo, percebi enraizado nele o tom do preconceito que muitas vezes nós, brasileiros, conseguimos camuflar. Não sou negro, não sou gay, não sou judeu, não sou portador de necessidades especiais, mas sou suburbano, o que para muitos é quase um pecado, motivo de piadas. Ou defeito, sei lá. "Mas por que você resolveu comprar um apartamento no Méier?" é uma das perguntas que mais ouço, sempre acompanhada de uma cara de estranhamento. Na maioria das vezes não me dou ao trabalho de responder e cada vez mais tenho a certeza de que esses que me fazem este tipo de questionamento pensam como aqueles que vivem no Primeiro Mundo e acham que vão encontrar macacos e índios soltos nas ruas de nossas cidades. Porque o estranhamento é o mesmo, só que numa visão macro. Ou não?
Mas vamos deixar o preconceito pra trás e falar das coisas boas do subúrbio. Ontem, assim que deu meia-noite, soou um foguetório dos bons aqui perto de casa. Desta vez era pra anunciar o Dia de Reis. Mais uma vez fui apanhado por boas lembranças da minha infância, no subúrbio de Pilares, onde nasci, morei até um ano de idade, mas por conta da minha avó e de outras tias, tios e primos, frequentei até a adolescência. Lá passava a Folia de Reis de casa em casa. Lembro de uns homens de uniforme e seus instrumentos musicais, umas meninas carregando umas bandeiras, a do Divino, e minha avó com um bolo que ela fazia com as frutas secas e as nozes que sobravam do Natal. Minha mãe também costumava fazer bolo nesta data, mas de uns tempos pra cá, por conta da diabetes, ela perdeu o prazer de fazer doces e seus bolos, assim como os da minha avó, ficaram na saudade. Confesso que faz anos que não vejo passar uma Folia de Reis. Mesmo aqui pelas bandas do Méier, subúrbio do Rio de Janeiro, o Dia de Reis é apenas o dia de desmontar a árvore e guardar os enfeites de Natal. E só. É como diz a letra da música do Tim Maia: "Hoje é o Dia de Santos Reis, anda meio esquecido, mas é dia da festa de Santos Reis!"
No mais, fui com meu filho, o número um, assistir ao filme do Lula. A oposição pode ficar tranquila. Não é um filmaço. Não emociona. E pela pequena quantidade de pessoas na sessão, deve durar pouco tempo em cartaz. É apenas um registro de parte da história de um homem que conseguiu romper com tudo aquilo que um dia conhecemos como preconceito. Mesmo que este preconceito ainda continue velado por aí.