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sexta-feira, 25 de junho de 2010

É Copa do Mundo, eu sei.


Nunca fui fã de futebol. Lembro que quando moleque até tentei me aventurar entre dribles e carrinhos, mas eu sequer conseguia fazer mais que duas embaixadinhas. Isso quando a bola não escapava dos meus pés logo de primeira. Motivo de chacota para alguns amigos que, só para me deixarem mais arrasado, volta e meia combinavam campeonato de embaixadinha. Minha participação chegava a ser ridícula. Mas eu tentava, confesso que tentava. Lembro até que cheguei a tirar umas fotos fantasiado de goleiro, com luvas, joelheiras e um indefectível kichute, num jogo organizado por algum pai de amigo da rua. Se não em engano tem fotos minhas em ação. Mas o primeiro capítulo da minha história com futebol termina aí.


A primeira Copa do Mundo da qual tenho lembrança é a Copa de 74, na então Alemanha Ocidental. Mas é uma vaga lembrança. Uma cena, para ser mais preciso. Um aparelho de televisão com imagens em preto e branco e meu tio Manoel sentado em frente, assistindo a um jogo que, lógico, não faço ideia de qual tenha sido. Depois, em 1978, veio a Copa da Argentina e a vitória pra lá de suspeita dos hermanos sobre o Peru por seis a zero. Este detalhe eu sei porque li mais tarde e não porque tenha me revoltado na época. Pouco lembro daquela Copa também.


Em 1982, na Espanha, a coisa muda de figura. Eu já era adolescente e a onda era pintar as ruas e os muros com o mascote da Copa, o Naranjito. O técnico era o Telê Santana e a seleção brasileira encantava o mundo com seus craques e seu futebol criativo. Havia uma expectativa de que o Brasil trouxesse a taça, mas fomos eliminados pela Itália na segunda fase. Lembro que na minha rua o tal Naranjito ficou desbotando por longos quatro anos, até ser substituído por uma caricatura do rosto do Leandro, ex-jogador do Flamengo que desistiu de embarcar para o México, na Copa de 86. O Brasil ficou em quinto lugar e o pai de um amigo meu morreu por conta disso. Triste.


Em 1990 eu já estava casado, meu filho mais velho era recém-nascido, a Copa foi na Itália e o técnico brasileiro Sebastião Lazaroni adotava o esquema defensivo. Era realmente uma outra fase. Para mim e para a seleção brasileira, eliminada logo nas oitavas de final. Meu casamento também não foi muito longe e menos de um ano depois eu estava de volta à casa dos meus pais. O que eu não poderia prever é que meu filho seria um verdadeiro fanático por futebol e que anos mais tarde ele seria o responsável por me levar ao Maracanã várias vezes para ver o Vasco jogar.


Mas aí veio 1994. A Copa foi nos Estados Unidos, um país que nunca teve a menor tradição no trato com a bola nos pés. Mas o Brasil tinha. E tinha também Romário, Bebeto, Parreira e Zagallo. Tinha ainda o então Ronaldinho, uma promessa que, se não me engano, jogava no Cruzeiro. A expressão "vai que é tuuuuua, Taffarel" virou mania. Foi uma Copa bonita, estádios cheios, todo aquele asseio norte-americano. Até um filme foi feito. E por brasileiros. Por fim, trouxemos a taça depois de uma final emocionante, num domingo que, peço a Deus eu nunca me esqueça daquele empate com a Itália e o coração entregue aos pênaltis. Era o tetra, vinte e quatro anos depois da Copa de 70, da qual só conheço as histórias. No tri eu tinha apenas um ano.


Quatro anos mais tarde, em 1998, eu confesso que não entendi nada. A seleção brasileira se curva diante da França e Ronaldo, que não lembro se ainda era Ronaldinho ou se já era o Fenômeno, teve aquelas estranhas convulsões. A seleção da casa derrotou os brasileiros por 3 x 0, num jogo em que nossa seleção foi protagonista de uma das mais polêmicas partidas de futebol de todos os tempos. E tristes. Pelo menos para nós, brasileiros.


Mas em 2002 a gente trouxe o pentacampeonato. Foi a Copa do Japão e da Coreia e dos horários mais absurdos para se ver jogos de futebol, diga-se de passagem. Ter de acordar ainda de madrugada para ver a seleção brasileira jogar só se valesse muito a pena. Eu já estava casado de novo, tinha mais um filho, muito sono e mesmo assim eu estava lá, de pé, com um copo de iogurte na mão às sete da manhã vendo o time de Cafu, Rivaldo e Ronaldinho Gaúcho surpreenderem mais uma vez o mundo. Mundo, aliás, que andava mudado por conta do 11 de setembro de alguns meses atrás.


Lembro que estava em Buenos Aires na Copa de 2006 e me arrisquei a torcer pelo Brasil num jogo contra o Japão, num bar de Palermo. Foi um risco que eu e Claudia só resolvemos correr no primeiro tempo. Antes que o segundo iniciasse, nós já estávamos seguros em nosso quarto de hotel. Nossa seleção era a favorita. Até mesmo nas palavras de Maradona, a personificação da marra Argentina. Mas como todo favoritismo é perigoso, perdemos. Não o jogo contra o Japão, mas com a França, que nos despacharia para casa nas quartas-de-final. Mais uma vez os franceses. Estranho, eu achava. Mas estranho mesmo foi ver a Argentina ser eliminada enquanto eu esperava a hora de embarcar no avião. Num bar localizado no hall do aeroporto da capital argentina, lotado de hermanos enlouquecidos eu escondia meu riso sarcástico sobre a gola do pulôver.


Confesso que ainda não consegui me empolgar para valer nesta Copa da África do Sul. Alguns jogos me surpreenderam, é verdade, como a eliminação da Itália pela Eslováquia. Um 3 a 2 emocionante. Apesar de não ter visto nenhum jogo inteiro, exceto os do Brasil, também gostei de saber que a seleção Paraguaia está classificada para as oitavas. Não gostei foi de saber que os jogadores da seleção da Costa do Marfim ainda são meio primitivos. A seleção do Dunga ainda não convenceu, já o mau humor do técnico rompeu as barreiras de qualquer treino secreto e já caiu na boca do povo. Uns detestam, outros defendem. O certo é que ninguém gosta.


O empate com Portugal deu uma esfriada nos ânimos já não muito alterados. Eu, que vi o jogo na casa dos meus sogros lusitanos e, portanto, em território inimigo, acabei torcendo pelo empate, o que era bom para as duas seleções. Meu sogro, o português mais zen que eu conheço - se é que existe outro -, assistia ao jogo do Brasil e Portugal na sala ao mesmo tempo que assistia aos trogloditas da Costa do Marfim contra os pobrezinhos da Coreia do Norte no quarto. Olho lá, olho cá, o medo dele era de que o Brasil fizesse um gol e a Costa do Marfim sete. Se os portugueses perdessem para o Brasil teriam de disputar a segunda vaga pelo saldo de gols. E olha que os patrícios tinham é gol de sobra.

_ Mas a coitadinha da Coreia é meio fraquinha, ele repetia com sotaque carregado.

Os olhos da minha sogra brilhavam pelo empate e os meus viram nos dela um coração divido entre duas nações. Porque foi lá que ela nasceu, mas foi aqui que plantou suas sementes e fincou suas raízes. Assim como ela, meu sogro, e mais 'meu' tio Joaquim e 'minha' tia Emília. Vimos o jogo juntos. Eu, Claudia e as crianças de um lado e os de além-mar do outro. E nem foi combinado. Já o empate me pareceu jogo de pai para filho. Ou de filho para pai.

_ Fica tudo em família, disse meu sogro.

Litealmente, eu pensei.

quinta-feira, 6 de maio de 2010

Há algo estranho no ar


A semana foi tensa. Não para mim, mas para o mercado econômico. A crise que abateu a Grécia tem deixado a todos os analistas mundiais preocupados e a queda das bolsas no mundo inteiro é reflexo desta insegurança que ronda alguns países da chamada zona do euro. Portugal é outro país que já começa a dar sinais de que pode quebrar, assim como a Espanha e a Irlanda. Pelo que eu tenho lido - e não é pouca coisa - somente a Alemanha e a França estão numa situação confortável. Ao menos por enquanto. Tanto que foram os principais credores do empréstimo de 110 bilhões de euros que os tais países da zona do euro, junto com o nosso conhecido FMI, fizeram na tentativa de tirar a Grécia da situação em que ela se encontra. Não sem antes impor condições austeras, claro, como corte de salários e aposentadorias do setor público.


Na Ásia, as bolsas de valores parecem sentir o reflexo desta situação na Europa e vivem dias de quedas bruscas em seus pregões. A situação da China, que ano após ano vem apresentando crescimento acima da média mundial, não é tão confortável assim. Por lá também ronda o perigo de uma tal bolha imobiliária, o que vem tirando o sono dos principais investidores. Por conta disso, caem as bolsas no Japão, na Malásia, em Cingapura, na Coreia do Sul e até na Austrália. Difícil de entender, né? Mas nada que uma leitura mais atenta e uma explicação aqui e outra ali para que o assunto comece a se tornar mais familiar.


Estou há quatro meses na redação de um jornal que é 90% de economia. Já perdi as contas de quantas matérias fiz sobre o mercado financeiro, sobre macroeconomia e sobre empresas. Esta semana mesmo algumas das principais empresas brasileiras começaram a divulgar seus resultados trimestrais. Umas parecem muito bem, outras nem tanto. Ontem mesmo dei uma nota dizendo que o número de pedido de falências de janeiro a março deste ano aumentou em relação ao mesmo período do ano passado. Sinal de que a nossa economia pode não estar tão bem quanto uns e outros gostam de dizer por aí.


Semana passada foi a vez da tal reunião do Copom, que é o Comitê de Pólítica Monetária do Banco Central. Foram dois dias em que os analistas do mercado especulavam a respeito do aumento da taxa Selic, que é a taxa básica utilizada como referência da política monetária. Eu havia apostado comigo mesmo que a taxa subiria um ponto percentual, já que este ano é ano de eleição e ninguém quer ficar mal na foto, com risco de aumentar a taxa numa nova reunião. O fato é que os analistas do Copom resolveram aumentar a taxa em 0,75 ponto percentual, o que nos levou a uma taxa de juros de 9,50% ao ano. Somos um dos países com a taxa de juros mais alta do mundo, mas pelo que eu entendi, esta é a maneira que os analistas têm para tentar conter a inflação, que parece querer voltar a nos assombrar. Eu, que sou de uma geração que convivia com reajustes de preços semanais e com a temida hiperinflação, confesso que prefiro juros mais altos a ter de volta o pesadelo de ir a um supermercado num dia, pagar X por determinado produto e na semana seguinte ver que aquele mesmo produto já está custando 2 vezes mais. Um absurdo, convenhamos.


O fato é que, mesmo que a imprensa anuncie aos quatro cantos que o pior da crise econômica mundial já passou, há um clima muito estranho e tenso no ar. É como se uma nova onda ruim estivesse em formação e ninguém sabe ao certo onde ela vai arrebentar primeiro. Como uma tsunami pairando num oceano de dúvidas. Pois não pense você que a crise se instalou no mundo todo somente a partir de setembro de 2008, com a quebra do banco americano Lehman Brothers. Não. A quebra da instituição financeira serviu apenas como um marco, destes que a gente está acostumado a estudar nos bancos escolares anos mais tarde. Já havia todo um cenário pronto bem antes. E o que se cochicha nos bastidores atualmente é onde e quando esta nova tsunami vai aparecer. Ninguém sabe. O que eu sei é que isso tudo me parece assustador, coisa de filme de terror.


Por enquanto podemos assistir cenas de uma verdadeira tragédia grega, com Atenas pegando fogo enquanto os deuses do Olimpo parecem estar dormindo e nem aí para o que se passa com o povo de lá. Três pessoas já morreram nos conflitos que diariamente estampam as manchetes dos jornais. Aqui no Brasil o que se ouve é que está tudo bem, que fomos um dos últimos a entrar na crise e um dos primeiros a conseguir sair dela. Pelo menos na teoria o texto é este. Na prática eu vejo a balança comercial brasileira amargar um déficit atrás do outro e as bolsas, que são um verdadeiro termômetro da nossa economia, despencarem. Na verdade, desde que o Copom anunciou a alta da taxa Selic, a Bovespa não conseguiu bons resultados. Com os juros altos, os investidores preferem outro tipo de aplicação, fogem das bolsas e partem para fundos de renda fixa. Além disso, com a crise na Europa, por exemplo, os investidores internacionais ficam mais cautelosos e cada vez mais conservadores. Para se ter uma ideia, se até uns 15 dias atrás a Bovespa ultrapassava a barreira dos 70 mil pontos, hoje ela não consegue passar dos 65 mil. E olhe lá. Se bem que eu ouvi estes dias lá no jornal que a fuga de investidores pode fazer com que a bolsa opere num patamar entre 40 e 45 mil pontos, o que não seria desesperador para o mercado brasileiro. A conferir. Por sua vez, o dólar também voltou a subir, já que esta bagunça no mercado tem deixado de lado os fundamentos da economia brasileira e os investidores, apavorados, correm para comprar a moeda norte-americana. Mas eu duvido muito que o dólar seja negociado a mais de R$ 1,90 até o final do ano. Podem escrever.


No mais, virei seguidor do Serra, da Dilma e da Marina no Twitter. Não gosto do Serra. Nunca gostei e já disse isso aqui antes, mas confesso que ele é quem mais me surpreende no microblog. Suas colocações nunca me pareceram impertinentes e ele vem demonstrando um bom humor que até então eu desconhecia. Será efeito de algum marqueteiro? É bem provável. A Dilma, coitada, depois que começou a dar alguns passos sem o seu mentor ao lado, anda se enrolando e parece que não junta lé com cré. Esta semana ao fazer comentários a respeito do romance Vidas Secas, de Graciliano Ramos, disse que os nordestinos migravam "do nordeste para o Brasil". Bola fora. Mais uma, aliás. Isso sem falar que ela é bem sem graça quando resolve tuitar. Já Marina Silva seria minha opção de voto. Mas ela é evangélica, não aceita o aborto e muito menos pesquisas com células-tronco, o que me parece um retrocesso. Ou seja, como tuitou uma amiga minha dia desses, "é dura a vida do eleitor brasileiro".