Noite adentro, lua crescendo lá fora, umas nuvens rabiscando o céu, e ele lá, daquele jeito, coração acelerado, aquelas lembranças todas. As mais recentes. As mais remotas. As festas de família na casa da avó e as poucas palavras que trocou a vida inteira com o avô. As cadeiras na calçada, o perigo que era a linha do trem, o posto de gasolina Atlantic bem na esquina e o cheiro de óleo queimado que vinha de lá.
Eram sempre umas histórias mal contadas, meias palavras, coisas que crianças não precisavam saber. Tabus, amores, a música de Keith Jarrett, o cheiro bom do sexo, o vício desnecessário do cigarro, as tardes cinzas de inverno e a mente a misturar-lhe o antes, o agora e o depois.
Parecia loucura.
Ele, então menino, já percebia aquela coisa toda. Desconfiava de que tudo era parte de uma correnteza perene daquele que era rio - e que era ele mesmo o próprio rio - desaguando, cedo ou tarde, caudaloso, em brancas páginas de papel.
Bastava-lhe só um sopro, e a inspiração, que é feito brisa, muitas vezes se transformava em vendaval. Um vento ensurdecedor, que derrubava todas as árvores, que agitava todas as ondas, que escancarava as portas, invadia as casas, levantava a poeira, levava todas as roupas do varal.
E ele ali, agora homem, a pisar descalço nesse chão sagrado, completamente nu, revelado em rima, em verso, em prosa, em coisa e tal.
Escrever é se despir.
sexta-feira, 8 de maio de 2015
Síndrome do pânico
Vieram me contar que lá pelas bandas das montanhas infinitas das minas gerais, há muito pouco tempo atrás, havia uma menina moça que sofria de pânico, essa síndrome que mete um medo danado. Disseram também que essa menina moça era muito bonita, apesar de franzina. Dona de cabelos longos, rosto pálido, braços finos, cotovelos ressecados, mãos maltratadas, unhas roídas e os olhos, estes sempre perplexos, virados para os cantos da casa simples de piso frio, umas lajotas desbotadas, manchadas de cera barata. Os pés, sempre descalços e úmidos, grudados naquele chão. O mundo lá fora gritando que já era mais do que passada a hora e o coração, sempre agitado, a sufocar-lhe o peito e a dizer-lhe não.
Ela tinha medo de tudo. De fantasma, de escuro, de barata, de cachorro, até de gente. Mas não era nenhum desses medos que a apavoravam agora. Quando criança, brincava na rua, espalhava alegria, corria, dançava, pulava e se divertia. Sabia subir em árvores, ficava de ponta cabeça, virava cambalhotas, gostava de ouvir histórias e de uma boa cantoria. Tagarelava, contava causos, piadas, imitava vozes, ralava os joelhos e ao invés de chorar, sorria. Era a dona da gargalhada mais desconcertante e debochada daquela cidade com pouco mais de mil habitantes. Todos a conheciam. Todos a adoravam. Todos sempre queriam estar com ela.
Naquela época o céu pintava a vida de azul e aos olhos dela tudo era ainda mais bonito. O sol não castigava, a chuva não faltava, a fome não doía. Tempo bom aquele em que todo mundo se respeitava, ninguém se machucava, todo mundo se ajudava, um cuidava do outro e as manhãs chegavam mansas, anunciando mais um lindo dia que então passava até que vinha a tarde e soprava a brisa. Revoavam os pássaros. Anoitecia. Lua clara bem lá no alto e ao voltar para a casa, o colo quente da mãe, a comida farta no fogão e o beijo carinhoso do pai. Era assim naquela época.
Ninguém sabe bem ao certo, nem ela, quando foi que tudo mudou. Ela apenas lembra de ter acordado sobressaltada numa madrugada em que chovia, janela aberta, quarto molhado, portas batendo, ventania, falta de ar. O coração disparou, veio na boca, voltou, uma vontade de chorar, de sair dali, de berrar para que o temporal passasse e ela pudesse voltar a respirar e a dormir sossegada até amanhã de manhã. Quando levantasse, ela queria encontrar tudo como antes, no mesmo lugar. O mesmo céu, o mesmo azul, o mesmo jeito de enxergar.
Pouco tempo depois dessa madrugada ela já não saía mais de casa. Seus ombros se curvaram, suas sobrancelhas arriaram, seu sorriso murchou, a vida não tinha mais graça, era tudo cinza, barro, agonia, nó. Ninguém da cidade entendeu nada. Todos sentiam sua falta. Onde estava toda aquela graça? O que havia acontecido com ela? Ninguém sabia. Nem ela. E o tempo foi passando, cada um foi vivendo a sua história, procurando um final feliz. Só ela havia ficado ali. Paralisada. Entorpecida. Trancafiada em seu mundo. Sofrendo sozinha. Seus nervos estremeciam só em pensar em sair de casa. Foram meses assim. Quiçá alguns anos. Pânico.
Até que um dia apareceu na cidade um circo, desses que rodam o interior do país, com malabaristas, engolidores de fogo, mágicos, palhaços coloridos e todo aquele ar decadente. Montaram a lona na praça bem ao lado da igreja e anunciaram num carro de som estridente o espetáculo daquela noite. "Respeitável público, o Grande Circo Lúdico chegou. Venham rir. Venham se emocionar. Venham se divertir", gritava o locutor. Ela deu um pulo e levantou da cama, calçou as sandálias e foi até ao portão. Um arco-íris nos céus, sabiás cantarolaram, a mãe não acreditou, o pai quase chorou, um vento leve desarrumou seus cabelos e ela então viu a equilibrista na corda bamba, os contorcionistas, a mulher barbada, os anões e o atirador de facas, que era um rapaz bem apessoado, cabelos dourados, braços fortes, lhe sorriu um sorriso farto que fez até sentir arder o rosto. Palpitação. Coração na boca. Rubor. Calor. Amor.
Disseram que naquela mesma noite, depois do espetáculo, ela foi embora com o pessoal do circo. Deu adeus à mãe, pediu a benção ao pai, arrumou as trouxas, tomou coragem e partiu debaixo de um céu estrelado, estrada de terra iluminada pela lua cheia, olhares incrédulos e em seu peito só havia esperança e vontade. Corre à boca miúda que hoje ela voltou a ser feliz e a contagiar a todos que estão ao seu redor. De vez em quando ainda aparece na cidade para se apresentar com a trupe e visitar os pais. Casou com o atirador de facas, aquele rapaz bem apessoado, de cabelos dourados, braços fortes, sorriso farto e vive a mais linda história de amor. É uma das principais atrações do circo. Nem parece aquela menina moça que sofria de pânico e definhava meses e anos dentro de casa com palpitações e tremores. Destemida que só, virou mulher de fibra, deixa-se amarrar numa placa giratória de madeira e, enquanto tudo roda, ela sente as lâminas afiadas passarem rente ao seu corpo seminu. Uma a uma a tirar-lhe fino da pele lisa.
Na arquibancada improvisada, a plateia em silêncio sequer respira, atenta, tensa, em pânico, até romper nos mais intensos aplausos. No picadeiro iluminado, lá está ela sorrindo, tranquila. Sem medo algum.
Foi o que me contaram.
Na arquibancada improvisada, a plateia em silêncio sequer respira, atenta, tensa, em pânico, até romper nos mais intensos aplausos. No picadeiro iluminado, lá está ela sorrindo, tranquila. Sem medo algum.
Foi o que me contaram.
sexta-feira, 27 de março de 2015
Onda
desfaz de mim a sombra e me deixa ver o sol.
me traz a luz do amanhecer,
aurora!
faz de mim o vento, o céu, o sal,
ressaca que arrebenta nas pedras do cais.
segura a minha mão quando eu quiser andar,
guia meus passos pelo chão,
abre meus olhos, revela suas cores,
livra minhas dores,
amores.
me deixa correr para o mar
molha meus pés na foz do rio que deságua .
me transforma em correnteza,
me solta,
me beija.
a mesma onda que me leva,
é aquela que depois me traz.
me leva...
... me traz...
me leva...
... me traz...
me leva...
... me traz...
me leva...
... me traz...
me leva...
... me traz...
me leva...
... me traz...
me traz a luz do amanhecer,
aurora!
faz de mim o vento, o céu, o sal,
ressaca que arrebenta nas pedras do cais.
segura a minha mão quando eu quiser andar,
guia meus passos pelo chão,
abre meus olhos, revela suas cores,
livra minhas dores,
amores.
me deixa correr para o mar
molha meus pés na foz do rio que deságua .
me transforma em correnteza,
me solta,
me beija.
a mesma onda que me leva,
é aquela que depois me traz.
me leva...
... me traz...
me leva...
... me traz...
me leva...
... me traz...
me leva...
... me traz...
me leva...
... me traz...
me leva...
... me traz...
terça-feira, 24 de março de 2015
Tempos de chuva
Finalmente havia começado a chover. Depois de meses de estiagem e ameaça de racionamento, chuva. Muita chuva. A pele já estava áspera, os lábios rachavam, as mãos como se estivessem cobertas por um fino pó, os pés feito cascos e aquele cheiro de podre no ar. A impressão que dava era a de que o mundo tinha passado dos limites. A classe dominante jamais deixaria de ser dominante e ele ali no meio daquele jogo sujo. Enquanto uns gritavam de cá, outros urravam de lá. Uma confusão generalizada, ninguém se entendia, toda hora uma discussão, um comentário mais agressivo, cada um com a sua opinião. Uma nova Torre de Babel, só que desta vez globalizada e com rede wi-fi.
Os telejornais e praticamente toda a mídia tradicional mais parecem os mensageiros do apocalipse. Tudo é tenso. As notícias são anunciadas numa rigidez cadavérica, causando um terror psicológico sem precedentes, insônia, pesadelo, crise nervosa, psoríase e até mesmo morte súbita. Lá no poder, os ratos, os gatunos, os larápios, os espertos, os filhos dos espertos, os netos, a família toda. Um lixo. Era difícil respirar. Para ele, então, que sofria de asma e aquela pressão toda em seu peito só causando peso, suor e dor. Era quando ele abria a janela e o vento soprava para dentro outros ares.
Ele dormia pouco, se mexia muito. O lençol nunca parava na cama, as pernas descobertas, os pés para fora do colchão de molas, a cabeça girando, a mente tentando acalmar e aquela voz aguda interna dizendo todas aquelas coisas que ele já sabia. Quase todas as noites era assim. Ele apagava as luzes, fechava e abria os olhos, se distraindo com o reflexo dos faróis acesos nos carros que aceleravam na rua. O sono não vinha. Deitava e rolava. De um lado para o outro. Até cansar e adormecer. Mas era um sono leve. Logo amanhecia e ao invés de pássaros cantando, buzinas apressadas anunciando que ele já estava atrasado mais uma vez.
Ele levantava, corria para o chuveiro, um banho frio, filete de água escorrendo no rosto para espantar o cansaço e se misturar ao pranto daquele que precisava esquecer o que tinha para ser esquecido. O que doía mesmo era a saudade do que havia ficado para trás. Especialmente naquelas manhãs cinzentas, quando ele se olhava no espelho embaçado e via que restavam apenas algumas peças precisando de encaixes. O trabalho estava uma merda. A arte não lhe dava dinheiro. Todos os que ele amava estavam longe. Ele não estava assim tão só, mas dentro era como se tudo estivesse oco, roído, evaporado. Ele estava seco.
Por sorte, a chuva havia chegado.
quarta-feira, 18 de março de 2015
Para detonar a cidade
Eu não vim aqui falar do kaos, nem dos deuses da chuva e da morte.
Vim aqui dizer que eu tive a sorte de encontrar no meu caminho um pensador.
E que por onde quer que eu ande ele vai estar ao meu lado,
mesmo que eu já não esteja mais aqui.
Assim como ele, eu vim trazer o doce mel da poesia.
O verbo que me rasga a noite.
A harmonia que me invade dia a dia.
O ritmo, a dissonância, a melodia.
Eu vim fazer soar os timbres das canções que eu nem sabia que havia em mim.
Porque o que temos aqui hoje é arte.
É som,
é música,
é o verso da palavra escrita, sílaba por sílaba,
até escorrer pelo canto da minha boca e da sua.
A rima que sussurra em meu ouvido
vem do acorde que te sobe e te arrepia.
Arte que ecoa e transforma e transmuta e atravessa o tempo.
Eternamente provisório é o tempo em minhas mãos.
E nas suas.
Mas do que é feito o tempo?
É a linha tênue entre um instante e outro,
aquilo que entrelaça, que une, que liga
e que de repente despedaça,
desfaz o nó.
O tempo faz a gente virar pó.
E do pó, a gente vira luz
E da luz a gente faz um som.
Para cantar e iluminar essa cidade.
Uma ode à vida, que é essa dança ininterrupta,
constante cultura.
Negra, branca, ameríndia,
Essa mistura amalgamada,
que volta e se junta aqui de novo mais uma vez.
Incessantemente.
Porque já dizia outro poeta: o tempo não pára.
E encontra as canções perdidas de um disco antigo
que nunca deixou de tocar, aqui, ali, em todo lugar.
Para detonar a cidade.
Que feliz cidade é essa?
Vim aqui dizer que eu tive a sorte de encontrar no meu caminho um pensador.
E que por onde quer que eu ande ele vai estar ao meu lado,
mesmo que eu já não esteja mais aqui.
Assim como ele, eu vim trazer o doce mel da poesia.
O verbo que me rasga a noite.
A harmonia que me invade dia a dia.
O ritmo, a dissonância, a melodia.
Eu vim fazer soar os timbres das canções que eu nem sabia que havia em mim.
Porque o que temos aqui hoje é arte.
É som,
é música,
é o verso da palavra escrita, sílaba por sílaba,
até escorrer pelo canto da minha boca e da sua.
A rima que sussurra em meu ouvido
vem do acorde que te sobe e te arrepia.
Arte que ecoa e transforma e transmuta e atravessa o tempo.
Eternamente provisório é o tempo em minhas mãos.
E nas suas.
Mas do que é feito o tempo?
É a linha tênue entre um instante e outro,
aquilo que entrelaça, que une, que liga
e que de repente despedaça,
desfaz o nó.
O tempo faz a gente virar pó.
E do pó, a gente vira luz
E da luz a gente faz um som.
Para cantar e iluminar essa cidade.
Uma ode à vida, que é essa dança ininterrupta,
constante cultura.
Negra, branca, ameríndia,
Essa mistura amalgamada,
que volta e se junta aqui de novo mais uma vez.
Incessantemente.
Porque já dizia outro poeta: o tempo não pára.
E encontra as canções perdidas de um disco antigo
que nunca deixou de tocar, aqui, ali, em todo lugar.
Para detonar a cidade.
Que feliz cidade é essa?
quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015
Impressões sobre o caos I
Eu quero a paz que vem depois de tudo isso,
a luz que me alumia,
a tempestade que cessa,
a porta que abre,
o vento que me refresca.
Eu tenho pressa,
quero tudo no mesmo dia:
a mão que afrouxa o nó,
o abraço que alivia o peito,
o alimento que me sacia.
Então, corre e me oferece uma prece,
uma prenda bonita que seja,
aqueles versos no meu ouvido,
a claridade dos seus olhos mansos
que me deixam ver quem você é.
Rasga a minha roupa suja,
revela a minha face oculta,
veste a minha carapuça,
mas olha para mim e fala comigo.
Encontra aquele que aqui dentro habita.
O mundo lá fora segue em chamas,
uma tremenda loucura,
eu ando meio perdido.
E você?
Fica comigo.
Não vira pro lado.
desliga a TV.
Eles só sabem do caos.
a luz que me alumia,
a tempestade que cessa,
a porta que abre,
o vento que me refresca.
Eu tenho pressa,
quero tudo no mesmo dia:
a mão que afrouxa o nó,
o abraço que alivia o peito,
o alimento que me sacia.
Então, corre e me oferece uma prece,
uma prenda bonita que seja,
aqueles versos no meu ouvido,
a claridade dos seus olhos mansos
que me deixam ver quem você é.
Rasga a minha roupa suja,
revela a minha face oculta,
veste a minha carapuça,
mas olha para mim e fala comigo.
Encontra aquele que aqui dentro habita.
O mundo lá fora segue em chamas,
uma tremenda loucura,
eu ando meio perdido.
E você?
Fica comigo.
Não vira pro lado.
desliga a TV.
Eles só sabem do caos.
quarta-feira, 14 de janeiro de 2015
Pensando em quê?
Eu vivo num lugar hostil. Por mais que o cenário ao meu redor seja dos mais bonitos do mundo, eu vivo num lugar hostil. É violência, falta de assistência, falsidade, cada vez menos oportunidades, pobreza, abandono, corrupção, pouca vergonha, nenhuma educação, rasteira, pernada, todo mundo querendo te derrubar no chão. As coisas andam quentes demais por aqui. Minha mãe tem reclamado sempre que eu chego em casa que o calor está fora do normal, que ela nunca viu um verão assim, que deve ter muita gente morrendo por aí. Eu respondo que sim, digo que as coisas estão realmente estranhas, que na minha opinião o mundo já acabou, que nós estamos apenas sobrevivendo com o que restou e que quando todas as fontes secarem, babau, já era pra nós, humanos, raça desgraçada. Ela arregala o olho bom, faz um muxoxo com a boca, acha que eu não estou falando sério e pede um copo d'água bem gelado.
Eu obedeço.
Tenho visto muita maldade por aí, e confesso, estou meio que anestesiado. É como se eu mergulhasse num mar de xilocaína antes de levantar da cama e sob o efeito anestésico e quase letárgico eu me mantivesse durante todo o dia, até voltar para casa, para dentro da minha fortaleza, no meu aconchego, na minha pseudo segurança, para aquilo que eu reconheço como sendo eu. O mundo é muito mais bonito dentro de mim. É um laço infinito de cor azul turquesa, são flores brancas que eu semeio num jardim e as cartas de amor que eu ainda rabisco sobre a mesa. Minha mãe sabe que existe esse outro mundo em mim, pois as mães sabem de tudo sempre. Ela faz questão de não me deixar esquecer um só instante daquilo que eu devo acreditar, diz que em breve essas coisas todas vão melhorar, que a crise vai passar e que os meninos que há poucos meses resolveram morar na esquina da minha rua vão voltar para suas casas. Eu respondo mal criado que sou que eles não têm casa, pois se tivessem, era lá que estariam agora e não na rua, à mercê da sorte. Eles não querem a morte, ela diz baixinho, enquanto pega o terço e vai rezar.
Eu me calo.
Penso em como ela consegue ser tão simples, encontrar as soluções mais fáceis, acreditar num mundo cor de rosa, criar uma outra realidade. Será efeito dos remédios?, eu me pergunto. Não, ela sempre foi assim, dessas que nunca reclamaram de nada e suportaram bem a dor. Tão diferente de mim, que não aceito, que me revolto, que esbravejo, falo alto, corro atrás daquilo que eu acho que é meu de direito, não engulo sapos, bato de frente, dedo em riste, olho no olho, dente por dente. A vida me transformou nesse sujeito da porta para fora. Criei cascas, usei armaduras, envelheci. Caíram meus cabelos, outros pêlos me nasceram brancos, deixei para lá tantas certezas, quero outra profissão, um recomeço, enquanto vejo no espelho à minha frente o mesmo riso franco que sempre me serviu de âncora todas as vezes que eu quis voltar para dentro de mim.
Pensando em quê?, minha mãe pergunta.
Nesse calor, minha mãe, nesse calor.
Eu obedeço.
Tenho visto muita maldade por aí, e confesso, estou meio que anestesiado. É como se eu mergulhasse num mar de xilocaína antes de levantar da cama e sob o efeito anestésico e quase letárgico eu me mantivesse durante todo o dia, até voltar para casa, para dentro da minha fortaleza, no meu aconchego, na minha pseudo segurança, para aquilo que eu reconheço como sendo eu. O mundo é muito mais bonito dentro de mim. É um laço infinito de cor azul turquesa, são flores brancas que eu semeio num jardim e as cartas de amor que eu ainda rabisco sobre a mesa. Minha mãe sabe que existe esse outro mundo em mim, pois as mães sabem de tudo sempre. Ela faz questão de não me deixar esquecer um só instante daquilo que eu devo acreditar, diz que em breve essas coisas todas vão melhorar, que a crise vai passar e que os meninos que há poucos meses resolveram morar na esquina da minha rua vão voltar para suas casas. Eu respondo mal criado que sou que eles não têm casa, pois se tivessem, era lá que estariam agora e não na rua, à mercê da sorte. Eles não querem a morte, ela diz baixinho, enquanto pega o terço e vai rezar.
Eu me calo.
Penso em como ela consegue ser tão simples, encontrar as soluções mais fáceis, acreditar num mundo cor de rosa, criar uma outra realidade. Será efeito dos remédios?, eu me pergunto. Não, ela sempre foi assim, dessas que nunca reclamaram de nada e suportaram bem a dor. Tão diferente de mim, que não aceito, que me revolto, que esbravejo, falo alto, corro atrás daquilo que eu acho que é meu de direito, não engulo sapos, bato de frente, dedo em riste, olho no olho, dente por dente. A vida me transformou nesse sujeito da porta para fora. Criei cascas, usei armaduras, envelheci. Caíram meus cabelos, outros pêlos me nasceram brancos, deixei para lá tantas certezas, quero outra profissão, um recomeço, enquanto vejo no espelho à minha frente o mesmo riso franco que sempre me serviu de âncora todas as vezes que eu quis voltar para dentro de mim.
Pensando em quê?, minha mãe pergunta.
Nesse calor, minha mãe, nesse calor.
sábado, 20 de dezembro de 2014
Nu
E eu,
que não sou nada disso,
não reconheço mais o inverso
que há em mim.
Então, eu recomeço,
recrio, invento,
tento.
Tudo ao mesmo tempo.
Ouça:
Ao meu redor ainda há outras rimas
procurando nas meninas
a alma, a pele, a coisa cristalina,
aquela luz que alumia o verso
até expandir meu plexo
e dar início à cantoria.
Clave de sol para esquentar minhas horas
e um sopro leve no final do dia.
O resto é sombra.
É rastro.
É pó de pedra no chão
de terra batida onde corre o rio.
E eu, que ora estou nu,
há muito já não sei para onde vou.
que não sou nada disso,
não reconheço mais o inverso
que há em mim.
Então, eu recomeço,
recrio, invento,
tento.
Tudo ao mesmo tempo.
Ouça:
Ao meu redor ainda há outras rimas
procurando nas meninas
a alma, a pele, a coisa cristalina,
aquela luz que alumia o verso
até expandir meu plexo
e dar início à cantoria.
Clave de sol para esquentar minhas horas
e um sopro leve no final do dia.
O resto é sombra.
É rastro.
É pó de pedra no chão
de terra batida onde corre o rio.
E eu, que ora estou nu,
há muito já não sei para onde vou.
quarta-feira, 1 de outubro de 2014
As horas passam rápido demais
Mesmo se ela chegasse ao som de música e me abreviasse a dor,
talvez eu não percebesse.
Eu ando mesmo muito desatento ultimamente com a poesia.
Há o descompasso, o ritmo acelerado e todo o barulho que faz do lado de fora,
o caos que teimam em chamar de vida em alguns livros e filmes por aí.
Então eu penso que já pode ter chegado a hora
e recolho tudo o que eu ainda não disse.
Eu guardo todas as palavras no meu velho baú,
junto as cartas nunca escritas e outras tantas que eu também não li,
é só silêncio no meu interior.
Eu já não ouço mais os versos que ali havia e que me sopravam todas aquelas rimas.
Eu ando mesmo saudosista esses dias.
Se minha avó ainda estivesse viva, ela ia cantar uma canção para eu dormir agora,
feito aquelas que ensaiava quando eu deitava em sua cama
nas noites em que eu não tinha sono.
Naquela época eu inventava histórias e prestava atenção em tudo o que eu via:
as crianças na praça, as mulheres na esquina, o cigarro aceso nas mãos do meu pai.
Eu sempre tive os olhos pequenos, porém ligeiros e sorridentes.
Os gestos lentos, estes se aproximaram com o passar dos anos
e foram se instalando por aqui.
Eu era o fruto bom amadurecendo devagar até me desprender do caule ao chão.
De uma só vez, eu semeei a terra úmida e quente que me amorteceu a queda
e me recebeu inteiro.
Porque jamais me desfiz em pedaços.
Jamais.
A morte pode ser lenta, eu sei, mas as horas pelas manhãs passam rápido demais.
talvez eu não percebesse.
Eu ando mesmo muito desatento ultimamente com a poesia.
Há o descompasso, o ritmo acelerado e todo o barulho que faz do lado de fora,
o caos que teimam em chamar de vida em alguns livros e filmes por aí.
Então eu penso que já pode ter chegado a hora
e recolho tudo o que eu ainda não disse.
Eu guardo todas as palavras no meu velho baú,
junto as cartas nunca escritas e outras tantas que eu também não li,
é só silêncio no meu interior.
Eu já não ouço mais os versos que ali havia e que me sopravam todas aquelas rimas.
Eu ando mesmo saudosista esses dias.
Se minha avó ainda estivesse viva, ela ia cantar uma canção para eu dormir agora,
feito aquelas que ensaiava quando eu deitava em sua cama
nas noites em que eu não tinha sono.
Naquela época eu inventava histórias e prestava atenção em tudo o que eu via:
as crianças na praça, as mulheres na esquina, o cigarro aceso nas mãos do meu pai.
Eu sempre tive os olhos pequenos, porém ligeiros e sorridentes.
Os gestos lentos, estes se aproximaram com o passar dos anos
e foram se instalando por aqui.
Eu era o fruto bom amadurecendo devagar até me desprender do caule ao chão.
De uma só vez, eu semeei a terra úmida e quente que me amorteceu a queda
e me recebeu inteiro.
Porque jamais me desfiz em pedaços.
Jamais.
A morte pode ser lenta, eu sei, mas as horas pelas manhãs passam rápido demais.
sábado, 13 de setembro de 2014
Palavra
Quisera eu que a palavra fosse simples palavra,
um substantivo concreto escrito em linhas tortas,
um rabisco em círculos na parede fosca,
um som, um verbo, um grito que sai da minha boca.
Quisera.
Tomara ela fosse palavra solta,
dessas que o vento faz que traz e noutras vezes carrega.
Palavra ventania. Palavra tempestade.
Palavra atemporal.
Tomara.
Quem dera essa palavra fosse pressa,
e ficasse presa em minha garganta,
deixasse algumas frases incompletas,
e uma ou outra oração sem o sujeito.
Seria perfeito.
Quem sabe fosse então palavra de honra,
um compromisso que se assume verbalmente,
o juramento que se fez um dia por escrito,
o documento, só o que vale, tudo aquilo que já foi dito.
Só isso.
um substantivo concreto escrito em linhas tortas,
um rabisco em círculos na parede fosca,
um som, um verbo, um grito que sai da minha boca.
Quisera.
Tomara ela fosse palavra solta,
dessas que o vento faz que traz e noutras vezes carrega.
Palavra ventania. Palavra tempestade.
Palavra atemporal.
Tomara.
Quem dera essa palavra fosse pressa,
e ficasse presa em minha garganta,
deixasse algumas frases incompletas,
e uma ou outra oração sem o sujeito.
Seria perfeito.
Quem sabe fosse então palavra de honra,
um compromisso que se assume verbalmente,
o juramento que se fez um dia por escrito,
o documento, só o que vale, tudo aquilo que já foi dito.
Só isso.
domingo, 7 de setembro de 2014
Hábito
Naquela manhã, ele, como de hábito, não tomou café, não leu os jornais, não ligou a TV. Naquela manhã, ele, como de hábito, não falou com ninguém. Andou pela casa descalço, abriu todas as janelas, deixou a luz entrar. Como de hábito.
Naquela manhã, havia com ele todos os não saberes, todos os questionamentos acumulados durante as noites mais escuras. Ele, então, como de hábito, abriu os braços, fechou os olhos, encheu o pulmão de ar até quase estourar. Um dois, três, quatro, cinco, seis, contou, e soltou tudo bem devagar.
Às vezes a vida é cristal transparente. Visão de lente sem filtro. Manhã de luz muito rara, pensou.
Pensou também no seu analista e no por quê de nunca mais tê-lo encontrado. Há certas coisas que somem de nossas vistas. Isso é fato. Melhor se fosse apenas um hiato.
Lembrou das tardes nas encostas do bairro da Glória, do cheiro de chuva que batia na pedra onde a água escorria, do vai e vem nas ladeiras altas, do sobe e desce nas escadarias, num tempo em que tudo dentro dele já não era só vazio e silêncio. Uma conversa interna, tantas outras personas, algumas não tão íntimas.
Quantos ainda lhe caberiam ser?, perguntou.
Toda aquela multiplicidade aparente e a vida, bem ali na frente, feito boca de cena, palco iluminado, peça de teatro. Tudo isso logo naquela manhã em que ele, como de hábito, queria respostas prontas e diretas.
(como se a vida já não fosse o óbvio)
Naquela manhã, havia com ele todos os não saberes, todos os questionamentos acumulados durante as noites mais escuras. Ele, então, como de hábito, abriu os braços, fechou os olhos, encheu o pulmão de ar até quase estourar. Um dois, três, quatro, cinco, seis, contou, e soltou tudo bem devagar.
Às vezes a vida é cristal transparente. Visão de lente sem filtro. Manhã de luz muito rara, pensou.
Pensou também no seu analista e no por quê de nunca mais tê-lo encontrado. Há certas coisas que somem de nossas vistas. Isso é fato. Melhor se fosse apenas um hiato.
Lembrou das tardes nas encostas do bairro da Glória, do cheiro de chuva que batia na pedra onde a água escorria, do vai e vem nas ladeiras altas, do sobe e desce nas escadarias, num tempo em que tudo dentro dele já não era só vazio e silêncio. Uma conversa interna, tantas outras personas, algumas não tão íntimas.
Quantos ainda lhe caberiam ser?, perguntou.
Toda aquela multiplicidade aparente e a vida, bem ali na frente, feito boca de cena, palco iluminado, peça de teatro. Tudo isso logo naquela manhã em que ele, como de hábito, queria respostas prontas e diretas.
(como se a vida já não fosse o óbvio)
segunda-feira, 28 de julho de 2014
Flores azuis miúdas
Se não estou enganado, foi numa noite turva de inverno que ele apareceu. O botequim da esquina ainda estava aberto. Dois ou três velhotes bêbados apoiavam-se no balcão gorduroso. Um deles carrega um rádio de pilha ligado, volume baixinho, numa estação cuja trilha sonora era a fina flor da música dor de corno. Um gato amarelo, já quase cego e sem rabo pousa esparramado entre garrafas empoeiradas de aguardente, equilibradas numa prateleira torta, pendurada precariamente na parede que um dia foi coberta de azulejos portugueses. Logo acima, um altar com a clássica imagem de São Jorge, o santo guerreiro, acompanhado de uma bandeirola já surrada do Vasco da Gama, umas fitas coloridas do Senhor do Bonfim, um copo de geleia com água e, dentro, uns galhos de arruda murcha e uma semente de olho de boi para espantar o mau olhado.
Abigail, a gorda, estava no caixa. Unhas impecavelmente pintadas de vermelho, bochechas rosadas, cabelos negros, ondulados, oleosos e displicentemente penteados para o alto, como de costume. Vestido preto, de corte vulgar, malha barata, marcando bem o excesso de curvas que se derramavam num decote generoso e revelavam o colo suado e o semblante cansado depois de um dia inteiro contando dinheiro entre um gole e outro de cerveja preta mais uns pedaços de carne assada. Abigail, além de ser gorda, era mal humorada, pavio curto e volta e meia desfiava todo o rosário de palavrões e xingamentos. Bastava se sentir acuada. Dava medo. Com ela não tinha fiado, não tinha conversa mole. Falava grosso. Era praticamente o homem da casa. Cliente nenhum tirava casquinha. Quem não a conhecia ainda tentava chegar perto, arriscar uma piada, um gracejo, uma cantada, mas levava logo um passa fora. Vivia sozinha nos fundos do botequim, numa espécie de meia-água que ela mesma ajudou a construir. O que ninguém jamais soube é por que ela chorava tanto todas as noites, pouco antes de pegar no sono.
Um choro que molhava todo o seu rosto e encharcava toda a sua cama, escorrendo pelo chão de cerâmica fria, transbordando todo o quarto, saindo pelas janelas, lavando ruas, ladeiras, vielas. Toda noite era assim. O pranto de Abigail ecoava feito canto, som agudo que doía, estuprava nossos tímpanos, causava em todos um certo espanto, um grito, um berro ao invés de um verbo, um verso simples, uma poesia única que rimasse todas palavras de todos os alfabetos do mundo com apenas uma: amor. Aí, então, ela acordava. Abria os olhos ainda úmidos. Espreguiçava afastando os braços nus e um bocejo de hálito forte. Levantava o corpo pesado devagar. Mexia com os dedos dos pés, sentava na beirada da cama, soltava um longo suspiro e ia se lavar. Dali a pouco precisava abrir o botequim. Todo dia era assim.
Quando ele chegou já era tarde.
- Está quase na hora de fechar, Abigail foi logo avisando. Não sai mais nada da cozinha, a cerveja está quente, aqueles ali já estão bêbados e eu estou cansada. Só dá para te servir uma pinga, um refrigerante ou uma água. É pegar ou largar.
- Uma água sem gelo, disse ele tranquilamente, ignorando a grosseria.
Ele parecia feliz. Tinha os olhos grandes e iluminados, a sobrancelha perfeita, os gestos largos, um nariz grande meio torto, a boca carnuda e cheia de dentes emoldurada por uma barba espessa e áspera. Bonito ele. Usava um terno cinza amarrotado, porém bem cortado, caimento perfeito, gravata de seda afrouxada, um molho de chaves, um maço de cigarros e um ramalhete de flores azuis miúdas nas mãos. Bebeu a água num só gole. Fazia frio. Tinha chovido. Ele não pretendia demorar. Só não sabia muito bem para onde ir. Não encontrara até então um lugar neste mundo. Ele não era daqui, pensava.
- O moço é daqui de perto?, perguntou Abigail.
- Não, eu não sou daqui, respondeu espantado com a coincidência da pergunta. Na verdade, acho que eu não sei de onde eu sou. A moça, por acaso, sabe de onde ela é?
Abigail desviou o olhar. Pela primeira vez desde que ela se conhecia por gente sentiu um certo constrangimento, um lampejo de timidez. A voz daquele homem tinha um timbre suave, agradável, firme e a maneira como ele a abordou a deixou sem graça.
- Sei, acho que sei.
- Já eu, sei que nada sei. Que nem o filósofo, sabe?
- Não, não sei.
- Esquece. O que eu quis dizer é que só importa a surpresa, aquilo que você ainda vai descobrir, o que você jamais imaginou e vai mudar teu rumo quando você menos espera. A carta da roda da fortuna no tarô cigano, o capricho vaidoso do destino, o homem quando deixa de ser menino, a derrapada na curva.
- O moço é poeta, é?
- Não sei. Sei que lhe trago flores, disse, oferecendo-lhe o ramalhete de flores azuis miúdas.
Abigail ficou muda.
Ele pagou a água com duas notas. Não quis o troco. Despediu-se. Desapareceu.
Daquela noite em diante Abigail nunca mais chorou. Também nunca mais dormiu. Sorria acordada, insone, durante toda a madrugada, olhos vidrados no ramalhete de flores azuis miúdas.
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quarta-feira, 4 de junho de 2014
Casa
Eu quero uma casa de pedra,
de paredes altas,
janelas abertas,
muros baixos,
figueiras frondosas no quintal,
frutos caídos pelo chão
de terra batida
num pátio iluminado,
onde eu possa ver o céu mudar de cor.
Eu quero a casa.
Eu quero a pedra.
Eu quero eu mesmo abrir as janelas,
deixar o sol se debruçar,
colher o doce mel do figo
com as minhas próprias mãos,
pisar com os pés descalços
o barro de onde eu vim.
Minha casa vai ter jardim,
flores, muitas, mato,
cheiro de capim mulato,
canários da terra,
melros,
pintassilgos e sabiás.
Todos soltos num laraiá laiá.
A casa vai ser minha
e também das minhas crianças,
e também dos meus amigos.
Todos vão poder chegar.
Sem precisar de convite,
sem precisar cerimônia,
sem precisar avisar.
Minha casa vai ser assim,
bem desse jeito que eu descrevi.
Sê bem-vindo.
de paredes altas,
janelas abertas,
muros baixos,
figueiras frondosas no quintal,
frutos caídos pelo chão
de terra batida
num pátio iluminado,
onde eu possa ver o céu mudar de cor.
Eu quero a casa.
Eu quero a pedra.
Eu quero eu mesmo abrir as janelas,
deixar o sol se debruçar,
colher o doce mel do figo
com as minhas próprias mãos,
pisar com os pés descalços
o barro de onde eu vim.
Minha casa vai ter jardim,
flores, muitas, mato,
cheiro de capim mulato,
canários da terra,
melros,
pintassilgos e sabiás.
Todos soltos num laraiá laiá.
A casa vai ser minha
e também das minhas crianças,
e também dos meus amigos.
Todos vão poder chegar.
Sem precisar de convite,
sem precisar cerimônia,
sem precisar avisar.
Minha casa vai ser assim,
bem desse jeito que eu descrevi.
Sê bem-vindo.
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