domingo, 13 de outubro de 2013

Não sejamos tão ingênuos

Então você acorda e há um mundo diferente lá fora. Sim, é só mais um domingo, são as mesmas nuvens de algodão, o mesmo céu de anil, o mesmo gosto do café amargo e toda a falta que eu sinto de algumas partes de mim. O silêncio daquelas manhãs de domingo sempre me intrigaram. Para mim, tão afeito ao barulho e à velocidade do dia-a-dia rotineiro, era como se nelas, naquelas manhãs, o mundo descansasse e cedesse lugar à preguiça. A tal da pausa, tantas vezes necessária, até recomeçar.

Lembro bem de uma tia que sempre me dizia: "Levantar da cama aos domingos não é difícil. Difícil é recomeçar." Eu era criança quando ouvia tal frase e, confesso, custei a entender o que ela queria dizer com aquilo. Houve uma época em que eu achava que era um recado velado, como se ela implicasse com a minha preguiça, tão mais sem vergonha nas manhãs de domingo. Só mais tarde, anos depois da minha tia ter morrido, foi que entendi o que poderia estar implícito naquilo que ela tanto dizia. Não é mesmo nada fácil recomeçar.  

Eu queria levantar da cama aos domingos com superpoderes e, enfim, enxergar a vida com óculos cor-de-rosa. Queria poder prender cada sem-vergonha que se acha no direito de roubar o que é do outro, de cercear a liberdade de quem quer que seja, de surrupiar na maior cara-de-pau e de me dizer o que é certo, o que é errado ou o que pode e o que não pode. Queria, também, exterminar com as raças de alguns políticos que estampam as manchetes dos jornais e que estão há séculos no comando, acumulando e exercitando o egoísmo desacerbado, enquanto esquecem que é preciso compartilhar, dividir, multiplicar, socializar e respeitar a vida daquele que pisa neste solo com as mesmas necessidades que ele. Poque ele, assim como eu ou você, é um qualquer um.

Queria levantar da cama, correr na varanda e gritar para o meu vizinho que desce a rua que somos todos iguais. Queria que ele, que não perde um Jornal Nacional depois do jantar preparado pela esposa, soubesse que temos, sim o dever de nos manifestar, de invadir as ruas e exigir melhores condições. Queria que daquele domingo em diante a voz dos protesto legítimos não precisasse ceder espaço nos noticiários para os black blocs e sua quebradeira geral, que, juro, ainda tenho cá minhas dúvidas se são ou não necessárias. Queria, na verdade, que tudo isso fosse apenas parte de um processo de reconfiguração ou atualização de sistema da humanidade, feito um software mesmo ou um aplicativo que fizesse com que ela levantasse menos ingênua a cada manhã.

Aí, então, seria este o sinal de um recomeço? O ponto final que anuncia a pausa? Ou já seria o início de um novo parágrafo na nossa história? Eu, neste contexto, sou um personagem que convive com um exército de black blocs em mim não é de hoje, provocando uma quebradeira interna generalizada. Como se o centro desse mundo em ebulição doesse aqui no meu peito, feito a bala de borracha ou o tiro certeiro da arma letal dos meganhas. Porque meu peito é o núcleo quente que derrete, dissolve, digere, transforma e transfere. 

Eu, graças aos midiáticos vândalos que cá me habitam e tacam fogo no que não presta, carrego a certeza de que não sou mais o mesmo. Talvez por isso, hoje, neste domingo, eu tenha acordado vendo um mundo diferente lá fora.






sexta-feira, 20 de setembro de 2013

Desarrumação

Bastou uma rajada leve de vento para ele olhar para trás e se dar conta de que, mesmo que já tenham se passado mais de 40 anos, ainda havia muito o que arrumar naquela casa. 
Até ali, só o alicerce e a certeza de que a vida é uma faxina ininterrupta.

domingo, 8 de setembro de 2013

Enigma

Então me disse que faltava pouco para o fim e eu ali, parado, não acreditei. Preferi continuar sozinho, sem saber ao certo se era mesmo o tal destino que eu sempre havia traçado em linhas tortas ou se foi tudo culpa da falta de coragem, do medo e da distância entre o meu desejo e aquele que um dia habitou em mim.

Sem predicados

O tiro na testa foi certeiro. Ele não sentiu nada. Nem tampouco sentira o vento forte que levantara a poeira segundos antes, a mesma poeira que lhe sujara a face. Tombou o corpo pesado na esquina escura. Da cintura pra cima, calçada. As pernas, desajeitadas, no meio da rua. Mal anoitecera e a lua já despontava no céu sem nuvens. O estampido. O por quê. O acaso. Tudo mais ficara oculto. E o sujeito ali sem predicados. Quem era ele mesmo?

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Correnteza

Eu quero versos,
eu quero rimas,
quero esquecer o certo
em meio a linhas distorcidas.

Quero errar o tom,
acelerar na curva,
bailar descalço
enquanto cai a chuva.

Desbravar o céu,
me perder no ar,
pular da ponte,
na beira do mar.

Nesse mar gigante,
onde chega o rio
e a correnteza limpa,
lava o meu corpo.

Esse rio que chega no mar
já não é o mesmo rio.

Porque o rio passa,
e eu já não sou o mesmo,
muito embora o corpo,

perdido nas ondas,
em busca do gesto,
em estado de graça.

Os bons versos que me carreguem.

quarta-feira, 31 de julho de 2013

Grandeza

Meu mundo é pequeno,
cabe na palma da minha mão.
Já meu coração, esse não.
Meu coração é um poço sem fundo,
um céu de olhares infinitos,
um mar de versos bonitos
traduzidos em ondas que eu carrego
por onde quer que eu vá.

quarta-feira, 19 de junho de 2013

Dressed to kill

Janaína é uma mulata arrebatadora, com 1,75m, cintura fina, peitos fartos, cabelos tratados, cheirosa e vaidosa que só. Moradora de Marechal Hermes, trabalha no centro da cidade como secretária de um escritório de contabilidade. Casada, costuma sair cedo de casa para pegar o trem até a Central do Brasil, mas antes, prepara o café da manhã pro marido, Nestor, taxista, e pros filhos, Luana, Lorraine, Luan, de 5, 7 e 9 anos, que ficam com uma sobrinha. Janaína é do tipo que faz tudo todo dia sempre igual. Só que não.

Naquela manhã Janaína acordou mais cedo, tomou um banho demorado, passou cremes, caprichou na depilação e deu uma certa exagerada no perfume. Saiu do banheiro enrolada na toalha, entrou no quarto sem fazer muito barulho. Nestor ainda dormia, as crianças idem. Do fundo do armário tirou um vestido de jérsei com estampa de onça, decote sexy, comprimento acima do joelho, novinho em folha, nunca havia usado. Sobre o sutiã cor de pele e a calcinha sem costura, o vestido caiu feito uma luva. Brincos dourados, braceletes com pedrarias e um sapato alto salgo agulha completavam o visual mulata tipo exportação.

Na cozinha, deu um gole no café preto, comeu um pedaço de pão com manteiga e deixou sobre a mesa um bilhete para Nestor, o marido, dizendo que teve de sair mais cedo para preparar o almoço de aniversário de 70 anos do chefe, seu Hilário, mas que as mochilas das crianças estavam prontas e que era para ele deixá-las na casa da sobrinha, como de costume, que quando ela chegasse, mais tarde, ela passava lá para buscá-las.

Da estação de trem em Marechal Hermes à Central do Brasil e durante todo o dia Janaína ouviu cantadas de todos os feitios: Bom dia, tigresa. Que felina classuda. Essa gata é uma fera. E por aí vai. Janaína estava mesmo na alturas. O almoço do chefe foi um sucesso, todos os funcionários do escritório confraternizando, uma alegria contagiante. Parecia até festa de fim de ano.

No meio da tarde ainda teve bolo, salgadinhos e refrigerantes. O chefe não podia estar mais feliz. Nem Janaína, que vestida de onça, estava se sentindo mais poderosa que nunca. Até que no final do dia toca o seu celular. Era Nestor, o marido.

 - Fala, jaguar.

- Jaguar? Por quê?

- Você saiu de casa hoje igual a uma jaguatirica!

- Antes jaguatirica do que jararaca, feito a sua mãe. Faz o seguinte, Nestor, não me espera pra jantar. Pega as crianças e se vira, porque a jaguatirica aqui hoje vai demorar a chegar.

Desligou o telefone antes mesmo que o marido respondesse.


É isso q enfraquece...

sexta-feira, 14 de junho de 2013

Vergonha e covardia

Depois de uma noite no mínimo histórica, onde paulistas e cariocas apanharam brutalmente daqueles que são pagos para garantir a segurança de todos, me perdi entre debates e panfletagens virtuais que vararam a madrugada e me tiraram o sono. Na timeline do facebook, a verdadeira e legítima cobertura da manifestação que mobilizou milhares de pessoas em algumas cidades do Brasil, mas especialmente Rio de Janeiro e São Paulo. As imagens, os vídeos e os relatos eram impressionantes. E mais impressionantes ainda se comparados à cobertura da mídia tradicional, que ainda chamava os manifestantes de vândalos, como se o protesto fosse simples baderna.

Covardia.

Mas não só a covardia daqueles que humilham com o cassetete nas mãos, protegidos por patentes, escudos e capacetes e baixam a porrada em cima de jornalistas, estudantes, trabalhadores, homens, mulheres, enfim. Não. Covardia pelo que somos submetidos diariamente. Seja o cara que mora na baixada e precisa acordar às 4h para pegar o trem lotado, atrasado, mal conservado, sendo empurrado para dentro dos vagões com a delicadeza de um carcerário, ao empresário, dono do Market Place Center Fields, que mora numa cobertura na Delfim Moreira, ali no comecinho do Leblon, paga seus impostos e quer viver num país justo.

Por que não?.

Por várias vezes li textos e publicações, de gente próxima até, chamando os manifestantes de vândalos. Realmente, vandalismo é inadmissível, coisa de povo mal educado, porco, sujo. Pra quê pichar igrejas, monumentos, quebrar praças inteiras? Mas não foi só isso que eu vi. De certo houve vandalismo, o lado pequeno da história, e justamente o lado que tentaram vender nas manchetes dos jornais. Lembro de acordar na quarta-feira e ler na capa do impresso que amanhece em minha porta a seguinte chamada: A Marcha da Insensatez, referindo-se à manifestação que já havia deixado São Paulo e o país em alerta na terça-feira. Insensatez?

De quem?

Ninguém estava nas ruas para protestar apenas contra um aumento de míseros vinte centavos de real nas tarifas de ônibus. Muito embora míseros sejamos nós. O que se viu na noite desta quinta-feira nas ruas foram surtos de indignação, um movimento maciço de protesto contra o que oprime, contra o que é covarde, contra o que é verdadeiramente vandalismo. Porque somos, sim, nós, todos os brasileiros, vandalizados por esse poder que corrompe e assombra e maltrata.

Somos vandalizados no momento em que pagamos nossos impostos e não temos transporte público de qualidade, não temos um serviço de saúde que atenda a todos com um mínimo de dignidade, não temos segurança, esgoto, asfalto, luz, muitas vezes nada. Somos vandalizados quando tomamos porrada na cara e viramos alvo daqueles que deveriam garantir a nossa segurança. E não falo aqui somente da truculência da corporação militar. Falo daqueles que estão no Planalto Central ou dentro de seus palácios de governo interessados nos contratos que vão lhes garantir cada vez mais regalias e poder.

Vergonha.


sexta-feira, 7 de junho de 2013

Capitão Américo

Capitão Américo é daqueles militares que não deixam a patente cair nem quando estão em casa, no lazer com a família. Do tipo durão, acostumado a comandar batalhão de soldados, não é de dar explicações a ninguém. A não ser quando comandado, claro. Casado com Elenice, mulher batalhadora - apesar de ser loira, como ela mesmo faz questão de afirmar -, Capitão Américo traz o casamento no cabresto: gosta de chegar em casa e ver o jantar pronto, os filhos de banho tomado, o Jornal Nacional, a novela, o 'até amanhã, meus filhos', o 'chega pra cá, patroa', o 'foi bom pra você, amor?' e o "boa noite".

Ciumento num nível patológico, vive controlando as ligações que Elenice faz no celular e volta e meia quer saber quais sites ela acessa no laptop que ele deu de presente no último aniversário de casamento. Desde então, cada um tem o seu, que é para evitar briga e preservar a relação. Numa dessas noites, enquanto Elenice tomava banho e as crianças já dormiam, corroído por uma curiosidade absurda, fora dos padrões da normalidade, Capitão Américo resolve instalar um programa espião no laptop da mulher, para rastrear toda e qualquer conversa que ela viesse a ter nos chats das redes sociais. O processo não demorou muito e em poucos minutos o rastreador de conversas alheias estava infiltrado no laptop de Elenice. Capitão Américo só esqueceu de um detalhe: desaparecer com o papel das instruções de instalação. Esqueceu a prova do crime do ali mesmo, junto a umas correspondências e contas a pagar.

Dia seguinte Elenice acorda louca para acessar o seu facebook e dá de cara com o tal papel. Ela, que apesar de loira, de burra não tem nada, na hora se deu conta do que o marido fizera. Como vingança é mesmo um prato que se deve comer frio, deixou passar alguns dias - poucos, é verdade - e, num momento de distração do capitão Américo, foi lá e fez o mesmo no laptop dele. Só que, claro, jogou fora o papel com as instruções.

Num piscar de olhos começaram a surgir conversas comprometedoras do Capitão Américo com dezenas de mulheres nos mais variados chats. Uma delas, inclusive, a melhor amiga de Elenice. Caso clássico de adultério. Ficou puta. Fumou um maço de cigarros de uma vez. Gravou tudo num pendrive. Mas manteve a linha quando o marido voltou da caserna, agindo naturalmente, como se nada tivesse acontecido. Loira, inteligente e ardilosa, eu diria. Naquela mesma noite transformou aqueles arquivos num pdf, determinada a montar uma apresentação. O power point da traição virtual. Foi dormir cheia de si.

No café da manhã, após os filhos saírem para a escola e entre xícaras de café amargo e cestas de pão francês, Elenice diz que precisa mostrar uma coisa para Capitão Américo em seu laptop. Capitão Américo diz que não pode, que está atrasado, que hoje é dia de ordem unida, que ainda precisa engraxar o coturno, entre outras desculpas.

- Não aceito desculpas, Américo - disse ela, com a autoridade de um coronel.

O Capitão arregala os olhos e quase presta continência. Afinal, Elenice nunca havia falado assim com ele antes e antes mesmo que ele se recusasse mais uma vez, ela foi iniciando os slides. Um a um. Bem devagar, que era pra dar tempo dele (re)ler tudo o que havia escrito naquelas últimas semanas nos chats com as amigas.

Após o último slide, um silêncio que jamais houve naquela casa e uma única certeza: Capitão Américo perdera a batalha.

- Isso é só para te avisar que eu sou loira, mas não sou burra, e que a comandante dessa casa agora sou eu.

Isso sim é golpe de estado!

terça-feira, 4 de junho de 2013

A primeira pedra

Perdoa.
Porque é no erro que se revela o homem e eu aqui estou.
Joga você sobre esse corpo, que é o meu, todas as pedras.
Desde a primeira.

Atira em mim.
Mira em minha face suja suas verdades.
Faz do meu contorno o alvo e me acerta
a frase exata.

A palavra certa.
O gesto preciso.
A flecha que atravessa o peito
e fere o corte à lâmina que ainda sangra.

Tira.
Subtrai de mim o que não é certo,
Se decerto você estiver com a razão.
De outro modo, não.

Quem não tem pecados?


quinta-feira, 30 de maio de 2013

Composição

Quisera eu todos os aplausos ao encerrar meu canto
enquanto jaz a voz cansada, solitária,
a capela.

Muito embora eu jamais fosse um poeta lírico,
tenho cá também os meus delírios:
trato versos como fossem filhos.

Declamo.
Derramo.
Afago na hora da dor.

Pudera eu ser todas as rimas afinal,
se por muito pouco me traduzo estrofe
e me encontram em frases rascunhadas por cima do muro.

Carrego em mim o grito forte do trovador.

Poesia fina que resiste na guerrilha urbana,
dicionário lúdico de palavras soltas pelas ruas,
quase que escritas como que para estancar meu pranto.

Pois tudo o que eu digo se desdobra em brisa,
o sopro de um vento leve em busca do mar,
sou a dança profana das marés imprecisas.

Sou um rabisco.
Um risco qualquer.
O traço tênue entre o que é o que jamais será.

Sou prosa literária.
Filosofia amoral.
Retrato desnudo do caos.

Compositor do absurdo.


quarta-feira, 3 de abril de 2013

Chá da tarde



Na falta de algo mais forte para entorpecer e com o preço do tomate nas alturas, do removedor Faísca mais caro que um litro de vinho, e o passe das domésticas valendo mais que o seu, o cara chega em casa e resolve fazer um chá de alecrim, atraído pelas maravilhas recentes que têm sido postadas na web sobre a tal erva inofensiva: alegria, relaxamento, melhora da pressão arterial, sangue mais fino,combate ao diabetes...

O chá tinha gosto de focaccia, aquele pão italiano achatado e furadinho (sem sal grosso e azeite, claro!), e dava pra encarar meio assim assim. Pô, se tem todos esses benefícios, qual o problema de beber uma focaccia?, ele pensava enquanto mandava o líquido quente goela adentro.

Bebeu tudinho, não sobrou nem uma gota na xícara, e ele ficou esperando o resultado. De cara, um arroto. Logo depois, outro. E mais outro. Opa, ele pensou, tá fazendo efeito digestivo! Não demorou muito e deu uma leve tonteira, uma embaçada na visão, um suor frio e o pavor de ter arriado demais a pressão. A coisa foi tão forte que o pobre não conseguiu sequer levantar do sofá, ficou ali apavorado, achando que ia infartar e coisa e tal. Pânico total. Teto preto. Vontade de gritar, de chorar, de chamar pela mãe, até que foi melhorando aos poucos.

Teve forças para levantar o pescoço e olhar pela varanda da sala a chuva que não parava de cair. O vira-latas aos seus pés o encarava como quem dizia: e aí, mané, deu onda? Esboçou um sorriso amarelo ao olhar pro cachorro, lembrando dos tempos em que era adolescente e experimentava uma coisa aqui e outra ali. Saiu do sofá ainda cambaleando e com a nítida impressão que tinha passado da idade pra encarar o que quer que fosse, até mesmo um inocente chazinho de alecrim.

Eu, hein... que onda?!

terça-feira, 26 de março de 2013

Agora folha

Os ventos de outono me espalharam feito eu fosse folha de amendoeira amarelada que cobre todo o chão das ruas da cidade quente. Não adiantou gritar que sou gente, que eu não queria, que eu não esperava. Foi um grito estridente, amedrontador. Voei solto pelo ar que sujava meu rosto de fumaça e pó e ninguém viu. Só eu mais uma vez sozinho me dei conta de que as estações vão e vêm e trazem todas as certezas de que o mundo é mesmo um palco único, um teatro absurdo, um drama, uma comédia perdida entre esquinas que se cruzam e é preciso rir de si mesmo. Não há marcações, não há direção. É tudo um foco de luz apenas. Apaga-se o dia ou acende-se a noite entre as brisas frescas que surgem do nada, enquanto a plateia assiste atenta ao que se passa aleatoriamente. Há o silêncio, a pausa no texto, a descoberta da personagem inquietante que eu represento sem saber. 

-Onde está você?

Quando o outro se aproxima é então que mais me apavora. O não saber de nada, o desconhecido que me incinera o peito e arde a sua chama certeira na cicatriz que me revela, a marca que fica em minha pele suada, carne crua de poros úmidos que ainda implora suas mãos. Tudo o que eu espero é a verdade escrita, falada pausadamente em meus ouvidos, porque de resto em minha mente é só confusão. E eu peço tanto por dias mais tranquilos, aguardo ansiosamente por sopros de felicidade, sonho com gestos mais simples, imploro sorrisos mais sinceros, abraços mais apertados. 

Saudade é o que me invade nessas horas.

Olho pela janela do meu quarto e minha rua está vazia. A vizinhança dorme o sono que eu não encontro e vejo gatos pardos tropeçando nos telhados das casas apagadas, insetos que insistem em se queimar na luz pálida do poste alto que ilumina o rastro do que fica daquele que já não passa, que jaz na hora exata em que o meu relógio para. Eu me dou conta que não preciso do tempo, que meus músculos já perderam o tônus, que meu coração bate desaceleradamente e eu nem sei bem ao certo o que deixei escorrer entre meus dedos há poucos minutos. Quisera eu ter certezas absolutas, encontrar as palavras certas, as frases mais bonitas que escrevi e não sei onde guardei o bilhete de amor que eu deveria entregar àquela que me fez companhia todos esses anos.

- Talvez ela nunca entenda, eu sei.

Ainda há pouco mesmo era verão e todo aquele calor e eu me refrescava nas águas claras da montanha entre pedras e riachos que me inundavam e massageavam meu corpo que continua o mesmo, muito embora eu agora seja outro. O outro que eu não conhecia muito bem, mas no fundo sabia que existia. Foi preciso a ventania e os ventos da nova estação que me espalharam feito eu fosse folha. Sequer entendi por que caí e me deixei levar. Sob o céu azul e cintilante deste outono que hoje se anuncia eu sou quase todo incertezas. 

- Onde será que eu, agora leve feito folha, vou parar?      

sexta-feira, 1 de março de 2013

Ele já sabia

Foi quando ele me disse que se sentia honrado em ter me conhecido que me dei conta do quão nobre era tudo o que eu estava vivenciando naqueles últimos dias. Tentei fazer com que ele entendesse que era como se meu peito se expandisse, como se minha caixa torácica tivesse se transformado num balão de gás, desses que você sopra até quase estourar. Confessei-lhe que desde aquele encontro eu vivia deixando-me corroer pela ansiedade, tinha como companheiras a saudade e uma agitação maior que as de costume. Que os dias me pareciam mais curtos, relógios de horas encolhidas, e que o silêncio fazia das minhas noites companhia. Fiz questão de dizer-lhe coisas que jamais disse a ninguém. Me expus. Me revelei. Me deixei desenhar por suas mãos e só então, depois, em seus traços, foi que me reconheci.

Era como seu eu não tivesse existido antes, como se meu passado pouco importasse, página em branco, zero à esquerda, como se nada que eu vivera até então tivesse muita importância. O que verdadeiramente valia era dali para frente, aquele mundo de possibilidades que se apresentava agora. Não que ele fosse obrigado a me fazer companhia eternamente, a caminhar comigo por todo o sempre, forçar juras infinitas. Muito pelo contrário. Tínhamos, isso sim, firmado um pacto de felicidade, e a liberdade era a condição maior para a expressão do que estávamos experimentando juntos nessa vida. Não sobrava tempo para cair em armadilhas, emaranhados, redutos de tristeza, eu sabia. Ele também me dizia que não era hora para se ter juízo e que era preciso um pouco mais de loucura e coragem para ser feliz. Aspectos que eu tinha de sobra.

Eu cheguei a contar-lhe que nós éramos um o rascunho do outro e que a sombra dos nossos corpos que surgia na parede daquele quarto mais parecia o contorno da luz refletida a preencher todos os espaços. Lembro de uma vez tê-lo escrito dizendo-lhe que o meu mundo ao lado dele parecia bem melhor. Era como se a armadura que vesti durante tantos anos se desmanchasse e trouxesse à tona meus conflitos mais internos, minhas dúvidas transformando-se em certezas, e o peso que eu outrora carregava se fizera leve como as palavras mais bonitas que saíam de sua boca em minha direção.

A surpresa me pegou naquela noite, confessei-lhe. Nunca acreditei nessas histórias que me contavam sobre tudo o que envolve o coração. Pensava eu e meus botões: comigo não! O meu coração batia tão sossegado, adormecido, já meio que acostumado com a anestesia contaminada do dia a dia, amnésia de um cotidiano sem graça, sem novidades, só a mesma ladainha, enquanto tudo em volta era solidão. Guardava meus versos polidos em fundos de gaveta, junto a outros escritos que eu já me esqueci. Eu tinha todas as minhas chaves, trancava muito bem todos os meus segredos, cultivava com apreço certos medos, manias, esquisitices, até que ele apareceu e me disse que se sentia honrado, como eu já contei aqui antes.

Porque ele já sabia o que era o amor. O meu acabava de tomar forma naquele exato instante.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Vem

Vem, me dá a sua mão.
Quero correr contigo as estradas do destino,
ver brotar todo o amor que eu plantei
ainda sementes nestas terras quando menino.

Vem comigo.
Eu lhe prometo ser fiel até o fim.
Vou lhe contar tantas histórias,
deixar você saber ainda mais de mim.

São tantas coisas que você nem imagina:
os lugares por onde andei,
as vezes que me perdi, os passos que dei em falso,
as outras tantas em que caí.

Conte-me as coisas que eu também não sei.
Entregue-me aquelas cartas amareladas,
leia-me seus versos guardados no fundo da gaveta.
Aqueles que jamais recebi.

Tenho mapas refletidos em meus olhos,
trago bússolas presas em minhas mãos.
Veja: meu rosto é marcado, meu sorriso é indiscreto.
Guardo em meu peito segredos que vão lhe tirar do chão.

Vem,
sem você não vou acertar o caminho.
Vou procurar por atalhos, inventar mil desculpas.
Vou querer sair cedo, cerrar as cortinas do meu palco vazio.





segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Inspiração

Quero escrever sobre o que há de mais bonito,
esquecer o amargo da vida,
respirar outros ares,
sair por aí.

Rabiscar nos muros frases coloridas,
alegrar a cidade cinza,
me perder de mim num instante
e neste mesmo instante me encontrar em você.

Quero riscar na sua pele as estrofes da minha poesia
e rimar no seu corpo toda minha inspiração.
Só assim eu criaria os mais belos versos, ritmados, perfeitos, impróprios,
obras-primas rascunhadas em suas curvas pelas minhas próprias mãos, eu diria.

Quero acelerar meus batimentos, potencializar seu coração,
deixar vir à tona um outro sentido, sentir correr o sangue nas suas veias,
ruborizar minha face alheia, mudar o rumo desta prosa,
caminhar lado a lado, esquecer que existe outro mundo lá fora.

Só então entoar meus textos aos quatro cantos,
ver o sol amarelado desaparecer no apagar das horas,
pintar um céu aquarelado de estrelas refletidas, uma a uma,
e zarpar sem receio no seu mar infinito que tanto me encanta.

Porque todo poeta é um barco à deriva.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Fresta

E quando o outro, ao invés de metade, é espelho?
O reflexo daquilo que ninguém nunca viu?
Aquilo que só você sabia,
os sinais que só você conhecia,
o seu verdadeiro eu?

E quando o outro é aquele que se revela,
feito luz por detrás de uma fresta,
uma brecha que se desfaz em clarão?

Ainda há pouco estava tudo mesmo tão escuro.

sábado, 12 de janeiro de 2013

'O biso é rei' ou "O conto atrasado de Natal"

Clima bom de Natal. Casa cheia. Bacalhoada pronta. Pernil desossado. Rabanadas fritas. Peru assando no forno. Criançada pra lá de animada com os presentes e os mais velhos pra lá de animados com o vinho transbordando nas taças. Até que mamãe chega na varanda onde estávamos eu e meus primos e dispara:

. Seu avô Saulo não está nada bem, Mauro.

- O que foi? É a pressão de novo?

- Não. É a cabeça. Está falando umas coisas sem sentido, vai lá dentro pra você ver.

Vô Saulo tem 92 anos, é o patriarca da família. Figura adorável, querido por todos. Excelente contador de histórias, bem humorado que só, dono de um arsenal de piadas impróprias e por isso mesmo divertido. Festa com o vô Saulo era alegria na certa. Naquele Natal não poderia ser diferente. Mas foi. Ou não, dependendo do ponto de vista.

Fui até a sala e ele estava lá, sentado na cadeira de balanço. Ao seu lado o filho mais velho, tio Lauro, irmão de mamãe, com cara de poucos amigos.

- O que é isso, papai? O senhor está ficando louco? Depois de velho deu para falar insanidades?

- O que foi, vô? - perguntei.

- Só porque eu falei do Zezinho o Lauro ficou assim, nervoso, me chamando de doido.

- E quem é Zezinho, vô?

- Vai continuar com isso, papai? Quer estragar o Natal? Porra, Mauro, não dá corda pro seu avô, faça-me o favor. Vamos parar por aqui.

- Zezinho foi o meu primeiro amor.

Silêncio sepulcral. Tio Lauro com olhos arregalados. Minha mãe de queixo caído. Tia Odete, mulher do tio Lauro, sem saber onde se enfiar e eu meio sem entender se era aquilo mesmo o que eu tinha ouvido.

- Quem? - continuei.

- O Zezinho lá de Santo Antônio de Pádua. Ninguém aqui conheceu. Era um menino bonito. Meu amigo.

- Amor de amigo, claro - eu disse, tentando aliviar a situação e segurar o riso ao mesmo tempo. Todo mundo aqui tem um amigo do peito, daquele que é quase irmão - eu completei.

- Sinto saudade dos abraços que ele me dava lá na beira do rio.

- Também abraço meus amigos, vô. Dá aqui um abraço - tentei amenizar.

- A gente dava uns beijos também.

- Porra, pai. Vai continuar com isso? - esbravejou tio Lauro.

- Deixa ele falar, tio Lauro. É normal que amigos se beijem.

- Na boca?

- Mas era na boca, vô?

- Era. De língua e tudo.

Silêncio. Climão.

Tio Lauro enfurecido de um lado, mamãe e tia Odete ruborizadas do outro, enquanto vô Saulo continuava na cadeira de balanço com sua taça de vinho pela metade e os olhos distantes, pensando no tal do Zezinho. Eu, que estou acostumado a ver de tudo um pouco nessa vida, confesso que também achei aquilo muito esquisito. Pô, vô Saulo sempre teve uma imagem de macho viril, gostava de esportes, foi jogador de futebol, porte atlético, um senhor bem apessoado. Pelas fotos nos álbuns da família dava pra ver que ele tinha sido um jovem bonitão, sempre vestido em ternos bem cortados, cabelos engomados, um advogado bem sucedido. Casou cedo com vó Margareth, teve dois filhos, cinco netos, três bisnetos. Teve o que todos sempre consideraram um casamento perfeito, sólido, feliz mesmo. Um exemplo.

- Mas eu gostava mesmo era do Zezinho. Nunca me esqueci dele.

- Tá caducando, só pode - tia Odete falou baixinho, quase que sussurrando.

- Será que é Alzheimer? - perguntou mamãe, tensa que só ela.

- É falta de vergonha mesmo - disse tio Lauro.

A esta atura os demais primos e primas já estavam todos na sala sem entender muito bem o que estava acontecendo. Uns tentavam distrair as crianças, já com fome, e outros se metiam na conversa.

- Quem é Zezinho? - perguntou Cristina, a neta mais nova.

- Acho que era um namorado do vovô - disse Paulo, o primo mais velho.

- Tá de sacanagem, né? Piada, vô?

- Não, não é piada não. Zezinho foi meu primeiro amor. A gente andava muito por aqueles matos lá na roça. Eu tinha 14 anos e ele tinha 15. Bonito que só, vocês tinham que ver.

- Tô bege, vô - disse Cristina, a neta e minha prima mais nova, enquanto tio Lauro ficava cada vez mais roxo de raiva.

- Gente, o babado é fortíssimo - falou Paulo, o neto mais velho, meio que no deboche, meio que soltando a franga, vai saber.

- Que saudade do Zezinho. Ô, tempo bom aquele!

- Mas rolou sexo, vô? - tomei coragem e perguntei.

- Não. Só carinho.

- Perdi a fome - disparou tio Lauro. Não quero mais saber de pernil, bacalhau, rabanada, porra nenhuma. Pra mim chega. Acabou o Natal.

- Quer uma água com açúcar, um lexotan? - perguntou tia Odete que, sem obter resposta, engoliu o comprimido e a água açucarada de um gole só.

- E o peru? - perguntou vô Saulo.

- O meu está aqui, papai. O do senhor está aí. E ai de quem perguntar pelo peru do Zezinho! Eu não quero mais saber. Vou pro meu quarto. Me deem licença. 

Silêncio.

Thiago, o bisneto de apenas 6 anos, que até então brincava no seu tablet, vira pra Júlia, a bisneta de 3 anos e diz muito sério:

- O biso é gay.

Júlia, que mal sabia falar, começa a repetir aos quatro cantos:

- O biso é rei! O biso é rei!

Clima bom de Natal.


quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Uma outra luz

Acaba logo porque já deu a hora.
Saiba que é preciso acompanhar o passo
do mundo que escorre e corre,
enquanto uns morrem e outros apenas vão embora.

Ontem mesmo soprou por aqui o vento do passado.
Passou por mim assim sem jeito, o vento.
Fez como se fosse um gesto lento,
quase uma brisa leve. Breve.

Antes tivesse vindo um tormento, a fúria.
A tempestade anunciada logo cedo.
O mar quebrando em ondas na minha janela.
O medo que cega e paralisa o coração em silêncio.

Ouça o que eu digo e acaba com isso.
Apague as luzes e bata a porta.
Dê adeus e veja se não esqueceu nada.
O que não tem significado deixe mesmo para trás.

Há que se pensar no novo,
que vem num dia atrás do outro, uma certa ânsia de chegar.
Como os batimentos que não param no meu pulso,
lembram que o tempo é fracionado, ritmado, curto.

Porque é de repente que tudo se acaba.
Quando se vê, é mais um ano que termina.
O sol queimando as marcas da minha pele.
Um outro brilho ainda mais intenso que se descortina.

Fiat lux.



















quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Amigo é pra essas coisas

Quase uma da manhã e o telefone toca. A figura pula da cama, vai atender. Do outro lado da linha, seu melhor amigo com voz de quem está apavorado, como se o mundo estivesse acabando.
- Fodeu, roubaram meu carro - diz ele.
- Onde você está? Te machucaram? E a Lêda? As crianças? - o outro amigo pergunta.
- Estão bem. Estão aqui comigo, mas a Lêda está dizendo que vai se separar de mim.
- Mas o que tem a ver uma coisa com a outra?
- Culpa da minha sogra...
- Dona Nêuma? O que foi que ela fez?
- Morreu.
- Para de sacanagem. Tarde pra cacete e vc ligando pra minha casa pra passar trote?
- Não é trote. Roubaram meu carro e a dona Nêuma morreu, porra!
- Os assaltantes mataram ela? Vc já chamou a polícia?
- Não, não chamei e não foram os assaltantes que mataram a velha. Ela empacotou hj cedo enquanto a gente ia pra Minas passar o final de semana na casa de uns parentes. Um susto danado. Imagina?
- Sério?
- Sério, cara. No meio da viagem eu comecei a achar estranho o silêncio da jararaca. Ela, que sempre falava pelos cotovelos, estava calada por demais. Quando paramos para comer alguma coisa, já perto de São João Del Rey, ela parecia dormir profundamente. Chamamos uma, duas, três vezes e ela nada. Daniel disse que a avó estava gelada. Foi aí que bateu o frio na espinha. Lêda só chorava e pedia pra eu trazer a mãe dela de volta. Bate na cara daqui, pega no pulso dali e nada. Mortinha.
- E aí?
- E aí que eu disse que ia voltar pra casa, que não tinha mais jeito e que era melhor colocar o corpo da velha na mala do carro porque pagar translado de defunto devia ser caro pacas e sequer o décimo-terceiro eu tinha recebido.
- Não acredito que você colocou a dona Nêuma na mala?
- Coloquei, porra. Eu ia fazer o quê? Ligar pra polícia? Achei mais fácil trazer o corpo na mala e quando chegasse aqui eu dava um jeito. Esqueceu que o primo da Lêda é médico? Ele dá uns atestados sempre que alguém precisa. Ele não ia negar.
- Que merda, cara. Mas e o carro?
- Pois é. Roubaram na Avenida Brasil. Sabe ali onde fica o Bob´s?
- Sei.
- Foi ali. A gente estava chegando, mas o Daniel pediu pra eu parar porque ele precisava ir ao banheiro. Saímos todos do carro. Só a defunta ficou, claro.
- Não acredito.
- Quando voltamos não tinha mais carro, nem dona Nêuma, nem nada. Lêda quis me matar, Daniel danou a chorar e a Clarinha no colo, sem entender nada, tadinha.
- Cara, que louco isso. E agora?
- Não sei. Não posso nem acionar o seguro. Não paguei as últimas parcelas.
- Já se benzeu?
- Uma centena de vezes. Perdi a conta. Posso dormir aí? Lêda não quer que eu fique em casa.
- Vem, né? Já perdi o sono mesmo.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Oculta

És muito mais do que isso.
És tudo aquilo que não me foi permitido.

És aquela que não vê.
A luz que clareia.
A voz doce da sereia.
O encanto do mar.

És o calor que abafa.
O fogo que queima.
A mão que me afaga.
A outra que me arranha.

És de um jeito que arde.
Morde meus lábios tensos,
Chega perto, encosta.
Mostra os seios sobre minha face oculta.

És pedra bruta.
Virgem, santa,
intensa, pouca, louca.
Puta.

És outra que não a mesma.



terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Eu nada sei

Porque eu não sei de nada e você também vive no escuro.
Tão às cegas, tão alheio, tão não sei quê de mim que nem sei.
Certas horas tudo é tão complicado que o mundo parece que está todo errado, meu Deus.

A mentira que eu conto, a verdade que você esconde,
o tanto que eu procuro e não encontro, sem jeito,
um sujeito oculto e no outro, explícito, tão eu.

A face que reflete no espelho não é a minha, mas sou eu quem crio.
Tal qual a arte que trai e fere luminosamente minha retina,
ou o traço que desconheço, feito sombra que se arrasta num final de dia.

A luz que invade por detrás da cortina da sala
ilumina exatamente o verso que eu tento eternizar em minha pele.
É quando eu desconfio que nas minhas veias correm rimas soltas.

É só uma leve desconfiança.
Daquelas que se tem quando ainda se permite ser criança.
Porque o certo mesmo é que eu não sei de nada.

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Conforme a música

O bom é quando a vida é transparente
e sem os véus se revela
na luz que encontra brechas na janela
e no ar que instintivamente deixo entrar em meus pulmões.

Porque às vezes fica tudo nebuloso
e vem um peso enorme pressionar o peito,
como se quisesse dizer: não tem jeito,
caminhos, encruzilhadas, nós.

 Algumas pessoas se arriscam e dançam a ciranda lá fora
e do lado de cá outros não sabem sequer o que eu sei.
A vida é ritmo acelerado, é música em descompasso,
instrumento desafinado cujo som eu sempre gostei.

É preciso aprender com as partituras.

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Parágrafo curto

Resiste em mim um fio tênue da lembrança que insiste em rasgar meu corpo inteiro, feito lâmina afiada que deixa na pele cicatrizes e uma certa lucidez. O que a loucura quis fazer de mim cabe apenas em breve memória, das mais remotas, parágrafo curto de uma mesma história que eu não esqueci. Ainda sei de cor todas as frases que me cabem neste texto.

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Falta um mês

Tarde tensa na repartição, como de costume. O colega ao lado não consegue terminar o relatório, mas também não pede ajuda. A demanda da sucursal de Brasília é grande, o diretor-financeiro do grupo resolveu estender sua viagem ao exterior e esqueceu das pendências, o gerente da matriz parece ter surtado com tantos pedidos de última hora e até mesmo dona Lurdes, a moça da faxina, perdeu o bom humor habitual. Vai ver é a lua fora de curso, diria uma amiga, ligada nesse papo de astrologia e tal.

Eu consigo me manter relativamente equilibrado em meio àquele turbilhão de problemas. Minhas tarefas estão todas sob controle, os contratos que deveria assinar eu assinei, liguei para quem deveria ligar, fiz minhas notificações, conferi. Tudo certo. Cheguei até mesmo a me oferecer para ajudar ao colega que estava enrolado com tantos afazeres, mas recebi um 'não, obrigado' como resposta. Olhei para o relógio do meu monitor, que marcava cinco e trinta e três. Dali até que meu gerente resolvesse sentar comigo para analisar minha parte no processo, seriam horas intermináveis. Deu um certo desânimo. Foi quando levantei para dar uma mijada e garantir o bom funcionamento dos meus rins, tomar um café, fumar um cigarro no estacionamento e dar uma relaxada daquilo tudo. Do banheiro eu ouvia todo o falatório que vinha das salas ao lado e tive a impressão de ter escutado meu gerente gritar com o estagiário. Eu nunca gostei muito de estagiários, confesso, mas em compensação, nunca fui capaz de destratar nenhum deles. Na verdade isso tem a ver com o fato de eu não conseguir dividir tarefas. Além do mais, mesmo já tendo servido ao exército, não tenho voz de comando. Acabo resolvendo tudo sozinho. Meu terapeuta me sacaneia dizendo que eu tenho potencial para virar um eremita. Vai ver ele está certo.

Termino de me aliviar no mictório repleto de bolinhas de naftalina, lavo as mãos num fio tímido de água, me olho no espelho, cansado, ajeito o pouco que que me resta de cabelo e saio dali direto para a máquina de café. Quero um capuccino. Custa setenta e cinco centavos. Se fosse um expresso ou um longo eu não pagaria nada, mas o capuccino a firma não paga. Tiro do bolso uma moeda de um real, coloco na máquina, aperto o botão do danado do capuccino, a máquina começa a preparar meu pedido - que em segundos fica pronto - mas não me dá meu troco. Foda-se. Pego meu copo de plástico cheio daquela bebida quente e perfumada e desço as escadas para fumar meu Marlboro. Vício danado esse.

Lá embaixo, no estacionamento, um entra e sai confuso dos caminhões com as entregas que chegam de todo o país, o papo furado dos seguranças, o mau humor dos motoristas e um e outro colega que, como eu, não consegue abandonar o tabaco. Lauro é um deles. Fazia tempo que não esbarrava com ele. Das últimas vezes que nos encontramos eu não fui muito receptivo e fiquei com a impressão de tê-lo magoado. Lauro era um rapaz alto, magro feito um vara pau, ombros retraídos, pele excessivamente branca, óculos quadrados que lhe acentuavam ainda mais a aparência sensível, ingênua até. Dizia já ter sofrido muito por conta de uma timidez mórbida que o acompanhou durante toda a infância e boa parte da adolescência, mas agora estava curado. De origem humilde lá das bandas de Quintino, subúrbio da Central, onde sua família tinha um armazém. O pai herdara o negócio do avô, um português corpulento que jamais permitira que o neto ficasse atrás do balcão. Esse menino tem mais é que estudar, tirar um diploma, ser alguém na vida, o velho dizia. Lauro, que sempre gostou de ler e escrevia corretamente, optou pela advocacia e hoje, ao invés de vender as mercadorias que o avô vendia e que o pai seguiu vendendo, veste ternos e anda engravatado por aí, resolvendo pepinos e abacaxis dos outros. Assim que me viu veio em minha direção.

- Falta um mês, não é? - ele disse.

- Para o Natal? - eu perguntei.

- Não. Para o fim do mundo. Hoje é dia 21 de novembro e, conforme o calendário dos maias, dia 21 de dezembro acaba isso tudo.

- E você acredita nisso?

- Não. Até porque, para mim, o mundo já era faz tempo. Não posso acreditar no que estamos vivendo. Não foi isso o que sonhei pra mim e acho que nem ninguém sonhou algo tão absurdo - ele desembestou a falar, o que me fez duvidar se ele realmente chegou a sofrer daquela timidez mórbida que um dia me contou.

Lauro parecia calmo e discursava a respeito da nossa realidade sem demonstrar revolta. Era apenas uma constatação dos dias que vivíamos. Um reflexo de tudo que se passava ao nosso redor, talvez, mas que ele, com tamanha sensibilidade, devia captar com mais facilidade. Meu terapeuta volta e meia me diz que a grande maioria das pessoas apenas vive por instinto. Respira, come e caga sem pensar e sem enxergar muito mais do que se passa além de nossos limites. Ele me diz também que estas pessoas estão presas em suas vontades, vaidades incontroláveis, e não veem um palmo à frente do nariz. Talvez eu me enquadre nessa categoria, não sei.  Faz tempo já que eu apenas vivo um dia atrás do outro, sem me preocupar com o que acontece ao meu redor. Tenho um ego muito grande, sou egoísta por natureza, costumo dizer por aí que sou autossuficiente, que eu me basto e pronto. Não é verdade. No fundo, assim como Lauro, eu também sofria. Mas por defesa, sei lá, eu procurava disfarçar.

Lauro não disfarçava o que sentia. E cada vez mais fazia questão de demonstrar sua insatisfação e suas angústias fosse com quem fosse. Falava o que lhe vinha à cabeça. Muitas vezes parecia desequilibrado, muito embora tudo o que falasse fosse pertinente. Ultimamente estava cansado das guerras que entristecem e envergonham nossa raça. Dizia que não podia mais suportar os mandos e desmandos dos governantes, os aumentos absurdos, os impostos inexplicáveis, a corrupção que corria cada vez mais solta, a exploração do trabalhador, que vivíamos todos esmagados num contexto social aquém do que merecíamos, que a violência era tratada agora como um produto de marketing político, que não acreditava na humanidade, que não havia luz no fim do túnel, que a crise econômica era uma bola de neve, que nosso país vivia uma mentira e que a hipocrisia havia contaminado tudo e mais um monte de absurdos indiscutíveis.

- Eu também sou hipócrita - ele admitiu, enquanto eu dava o último trago no meu cigarro.

Permaneci calado, ouvindo tudo aquilo. Ele continuou afirmando que estávamos todos contaminados, cegos, tontos, caminhando sem rumo, feito máquinas sem controle, robotizados. Por um instante eu fui obrigado a pensar naquilo tudo e me dei conta que ele talvez estivesse certo e que se o mundo acabasse dali a um mês eu seria apenas mais um a virar poeira, assim como ele, mas só que ele tinha algumas contestações que o faziam diferente de mim e de todos os demais. Me deu uma sensação de vazio, de que até hoje eu não fizera nada, como se eu tivesse sucumbido e entrado naquela roda viva que me deixava inerte e inútil. O que eu poderia ter sido se perdeu e eu nem soube onde foi que isso se deu. Me subiu um frio na espinha. Apaguei o meu cigarro ali mesmo no chão do estacionamento, olhei para ele meio sem graça e admiti que tinha medo,  que eu também gostaria de viver num mundo diferente, mas que era daquele modo rude que a vida se apresentava para mim e para ele e que, sendo assim, era preciso aceitar o que o destino nos reservava. Disse essas coisas todas sem muita convicção e me despedi dele sem confessar que eu também era um hipócrita, um covarde, que deixei alguns amores escaparem nesta vida, deixei de agradecer a quem devia, que esqueci de alguns amigos e parei de escrever poesias para encarar um mundo que se mostrava a cada dia mais cruel.

Subi as escadas devagar. Já passava das seis. Lá em cima, o caos. E nem era o fim do mundo ainda.

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Líquido viscoso

Eu te daria um beijo na boca neste exato momento.

Daqueles que fazem perder o ar, o coração bater em disparada e tudo ao redor desaparecer. Depois eu apertaria mais seu corpo contra o meu, pegaria firme em sua nuca, roçaria minha barba em seu pescoço e teu dorso encontraria o que de mim jamais se perdeu. Seus mamilos rosados, duros, grandes, entre meus dedos tão rijos quanto o sexo que lateja em minha calça, e a minha mão, que ora desliza no toque suave da tua pele úmida, atraída pelo cheiro bom que exala enquanto alisa o que se esconde no vão de suas pernas.

É o que eu quero.

Eu te beijaria toda, nua, nesta noite clara onde a lua, tímida, seria só minha e sua. Levantaria sua blusa azul de seda, abriria seu sutiã de nobre renda e nas curvas dos teus seios fartos eu me perderia por dias e dias. Eu te apreciaria feito obra das mais valiosas, dessas que raramente vemos em exposição. Eu te usaria, abusaria de você, gastaria minha saliva em tuas ancas, misturaria o teu suor no meu, o teu gosto em minha boca, eu tentando entrar em você, você sem se importar com meu corpo pesando sobre o seu.

Eu juro.

Eu te deixaria completamente louca, vermelha de sangue jorrando em suas veias da face desavergonhada, entregue, puta, pequenos lábios inchados com o beijo sutil e meus cotovelos apoiados no encosto de couro cru no meio daquela sala vazia. Olharia para sua bunda empinada, redonda, lisa, linda, apontando para mim enquanto você se abriria suavemente a se mostrar por trás. Um tapa. Você pediria mais. Eu te obedeceria, satisfaria seus desejos mais mundanos, realizaria meus fetiches, te revelaria muitas das minhas taras.

Você imploraria.

Então eu te penetraria e te preencheria e seus músculos mais íntimos se contrairiam de prazer e me acolheriam, me sugariam ferozmente cada vez mais para dentro, bem no fundo, feito animal faminto, o cio, num vai e vem sem fim, até que eu me perdesse de mim em você.

Seríamos apenas líquido viscoso.



 

terça-feira, 13 de novembro de 2012

A dúvida

Às vezes é necessário que a poesia venha como um grito histérico de uma voz aguda há muito embargada que manda para fora aquilo que não nos serve mais.
É feito a água que transborda no copo translúcido - e até outrora sujo - apoiado sobre a mesa do centro da sala vazia e que escorre sem direção pelo chão frio e liso até molhar de leve a ponta dos nossos pés. 
É quando todas as luzes se acendem do nada e interrompem o exercício discreto e silencioso da escuridão, encontrando o que até então estava timidamente guardado, escondido, trancafiado a sete chaves presas à porta pesada de madeira nobre e talhada.
Lá no fundo a poeira, jogada displicentemente sob os tapetes desenhados e ásperos do tempo onde pisamos e sequer percebemos que os pisamos porque raramente nos damos conta de onde vamos ou o que verdadeiramente queremos e nos tornamos.
É só o pó, palavra, vento, verso, refrão, sem nexo, algum sexo, dia sim, outro não, quem sabe talvez.
Expõe-se assim a dúvida: é tudo em vão?  

domingo, 4 de novembro de 2012

Aquele que se fez de mudo

Não venha você mais uma vez tentar me fazer falar. Nem mesmo se eu conseguisse soltar minhas mordaças eu falaria. Optei por permanecer calado até o fim dos meus dias já que os demais não iam mesmo me ouvir. Nem a mim, nem a você, nem a ninguém. Não que eles tenham sido acometidos por alguma otite ou meningite ou qualquer outra desgraça terminada com o sufixo ite, e tenham perdido a audição. De jeito nenhum.

Sob o ponto de vista clínico, são todos saudáveis, diria o plantonista da emergência de uma unidade de pronto atendimento qualquer. O que talvez o tal plantonista não soubesse, o que o doutorzinho recém-formado sequer desconfiasse, é que todos ali são surdos em potencial e, portanto, não lhe dariam ouvidos.

O som da sirene atormentando lá fora, as buzinas incessantes, os gritos das crianças no pilotis e as armas de fogo comendo soltas nas ruas da maior cidade do país são apenas ruídos, sujeira urbana, o caos anunciando que a vida é um eterno conflito enquanto um cartaz entra em quadro e eu leio que a paz que eu procuro está no silêncio que eu não faço. Então, não venha você me fazer falar porque eu já avisei com toda a antecedência devida que estou mudo. Você me parece que não escuta muito bem.

Lembra que da última vez eu lhe disse que uma infinidade deles, além de surdos, têm graves problemas de visão e não enxergam além do espelho, não veem um palmo a frente, não olham para fora, perdem o foco, a clareza e o resto que sobra é só escuridão? Vivem numa solidão tão extrema que chega a sufocar, porque por mais que saibam se expressar, só conseguem falar de si mesmos, não entendendo muito bem o que se passa ao seu redor. A humanidade é mesmo um sem-número de ilhas.

Você sabe que eles falam demais e que toda esta verborragia na sua maioria das vezes não quer dizer nada, é tudo eco, apenas mais um texto mal escrito, umas frases sem significado, uma lição comum, de gente ordinária, sem papas na língua, pensamento acelerado, uísque, poder, luxúria, dinheiro, pó. Dá um vazio encontrar com gente assim.

Acredito que se você viesse conversar comigo numa outra ocasião eu sequer lhe daria atenção. Seria incapaz de ouvir toda aquela ladainha interminável de sempre, da qual eu já estou cansado de saber que poucas coisas mudaram desde a última vez que você me interrompeu no refeitório, sentando ao meu lado sem pedir licença e derramando as mesmas histórias escabrosas sobre a mesa, atrapalhando meu ritual de almoço solitário e por si só silencioso.

Assim como meu falecido pai, nunca gostei de falatório na hora das refeições. Era uma hora sagrada, ele dizia. Além do mais, hoje em dia eu procuro evitar contato mais próximo com quem quer que seja, não revelo a ninguém os meus problemas, não deixo transparecer minhas angústias, conservo minha intimidade. Há anos tento me acostumar a conversar somente o indispensável - sem deixar de lado a polidez -, que é para não parecer mal educado. Mas confesso que cansei.

Eu ando mesmo distraído, desatento, com meus reflexos mais lentos a cada dia, como se o foco fosse se desfazendo em plano sequência ali na tela imaginária que volta e meia se forma à minha frente e tudo o que resta de mim é um borrão, um pensamento inerte, alheio, sem direção.

Eu procuro não pensar muito no que pode estar acontecendo ao meu redor ou no que está me deixando deste ou daquele modo. Por mais que eu revire meus arquivos, não encontro a razão para que tudo se dissipe deste jeito. Confesso agora que não tenho noção de quanto tempo já me sinto assim. Talvez por eu me achar tão autossuficiente, tão dono do meu nariz, tão bem sucedido profissionalmente, tão egocêntrico e, por isso mesmo, tão diferente de tudo e de todos, me fecho agora numa redoma e não me importo se dela eu nunca mais sair. Porque eu fui único enquanto os demais eram só coadjuvantes, figuração sem a menor importância nesta história.

Não se assuste. Mande o pudor às favas e não venha tentar me revelar seu lado frágil. Também eu estou meio surdo e não sei se quero ouvir o que você tem a me dizer. Prefiro mastigar a carne mal passada que resta em minha boca cheia de dentes enquanto meus olhos fitam os seus, castigados pela vida e que há tempos eu conhecia, mas jamais me deixei enxergar de verdade.

Não que eu seja suscetível ao sofrimento. Meu ou seu. Muito pelo contrário. Há anos eu teria me ausentado e me encolhido numa bolha frágil e nada nem ninguém me faria ter uma outra visão. Eu também estaria cego e talvez por isso não seria capaz de perceber lágrimas nos meus olhos, já que tudo seria tão surreal para mim: um ser sempre tão duro, tão frio, que vive despertando inquietantemente com qualquer burburinho ao romper das manhãs.

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Quando o verbo escorre

Escrevo forte porque me preciso assim.
Soubesse eu verbalizar a frase precisa,
a palavra exata, a oração e o sujeito,
entre graves e agudos, eu me surpreenderia.

Escrevo por sorte.
Não fosse isso eu seria praticamente mudo,
alheio a tudo, o ser mais solitário do mundo.
Enquanto outros tantos falam demais.

Porque eu não sei me expressar tão bem.
Antes, talvez, fosse necessário aprender a gritar,
subir o tom, elevar a voz e me fazer ouvir.
É que eles falam muito, porém são surdos.

Ainda bem que não sou cego.
Enxergo tão perfeitamente
que em mim reflete
o que neles se esconde.

É quando então eu me revelo em versos,
transformo tudo em prosa,
o céu assume tons de cinza e rosa
e escorre a tinta sobre o meu papel.


terça-feira, 18 de setembro de 2012

Continuo vivo

Entretanto eu continuo vivo.
Mesmo que não exista mais razão
para que todos lá fora
afiem suas lâminas
e mirem em minha carne,
eu continuo vivo.

Por que sangra em mim todas as feridas
de um mundo que se desfaz em chagas
abertas na dor sem sentido?

A espada que me corta.
O tiro certeiro em minha testa.
A festa de despedida.

Eu continuo vivo.

Entre tantos que não acreditam
e que me fitam.
Incrédulos.
Pobres.
Coitados.
A mim dói muito mais que a eles.

Porque são todos cegos,
presos em suas cavernas,
submissos às menores vontades,
alianças do inimigo comum.
Porque a vida é um infinito de vaidades
enterradas a sete palmos de meus versos.

Aqui jaz não eu,
mas você,
que jamais saberá de mim.

Muito embora eu continue vivo.


quarta-feira, 12 de setembro de 2012

O sonho da tatuagem na coxa

Não fique chateado se eu lhe disser que sonhei com você e seu irmão gêmeo na noite passada. Fazia frio em meu quarto, mas as ruas as quais atravessamos estavam ensolaradas e de longe pude perceber que eram vocês. Idênticos. O mesmo corte de cabelo, as mesmas pernas finas, a mesma barba rala por fazer a sombrear-lhes as faces, os olhos arregalados e expressivos até que me fitaram e correram para dentro de um bonde sobre trilhos que desciam ladeiras numa velocidade além da permitida e desapareceram outra  vez.

Era uma manhã azul, com algumas nuvens baixas, abafadas e a assombrar-me claustrofobicamente. Muito barulho a perturbar-me, a desconcentrar-me e eu ali tentando fitar tanto um quanto o outro, sem saber ao certo quem era quem, mas feliz por vê-lo fosse quem você fosse porque eu sabia que só em sonho mesmo para poder encontrá-lo outra vez. Até agora não sei bem ao certo onde eu estava e o que eu fazia. Das minhas mãos pingava um suor amargo e minha pele branca ruborizava ao menor pensamento. Insano. Eu era louco. Sempre fui louco. Mamãe dizia que eu era um descompensado e que tinha medo das minhas reações, dos meus gritos, da minha voz grossa que até hoje ecoa em verso e prosa e histeria. Já uma outra tia me disse em seu leito de morte, na UTI coronariana de um hospital particular, em meio a tubos e aparelhos que ainda a mantinham viva, que eu era especial. Especial por quê? Eu era como todo mundo deveria ser, tinha um certo cuidado no trato com o outro, uma preocupação tola em tirar as coisas da ordem natural, mas de especial eu não tinha nada.

Esta minha tia morreu há mais de vinte anos e volta e meia vem me visitar em meus sonhos e vive a me encher de dúvidas sobre o que eu sou, o que eu fui, quem eu poderia ser e quem eu jamais seria. Estas dúvidas sempre me abateram, mas nunca me importei de fato. Certo mesmo é que eu, ali sozinho no quarto frio, nem percebia que estava dormindo e que ao abrir os olhos estaria tudo bem, muito embora naquele sonho eu tivesse uma certeza: eu estava doente e tinha noção do pouco que me restava. Rostos desconhecidos passavam ao meu lado e me diziam que eu ia morrer, que eu estava magro demais, que meus cabelos estavam caindo, que minha barba estava por demasiado branca e então, naquele devaneio onde eu por acaso vira ele e seu irmão gêmeo, no fundo sabia por que sofria e por que me deixara abater.

O medo da morte fez com que eu telefonasse para uma outra tia, esta sim viva, que em instantes foi ao meu encontro. Nua. Completamente despida ela atravessara a rua movimentada sem que ninguém a percebesse e foi ter comigo, me socorrer, pois eu estava morrendo e antes de morrer sofria de um medo inexplicável. Como se ela pudesse me salvar, pôs-se a desfiar um rosário de conselhos inúteis, dicas estranhas e outras tantas palavras absurdas que eu já me esqueci. Receitou fórmulas prontas, dessas que mandamos manipular em farmácias que proliferam nas esquinas dos bairros mais afastados. Eu não queria remédio. Eu queria é sorver sem culpa e sem demora o veneno da redenção. Era essa a falta que meu corpo sentia. Queria em doses cavalares do mesmo jeito que eu tomara há alguns meses e que de tempos em tempos me corroía e contraía minhas artérias sem dó nem piedade, adormecendo-me os braços, amortecendo-me a queda, ecoando em minha mente a imagem daquele que eu não encontraria jamais.

Mas você veio em minha direção, invadiu meu sonho, atendendo a um pedido que eu fizera desde sempre, desde que você deixou de existir naquilo que consideramos real. Porque você também morreu, eu sei, e jaz a figura que passou a permear minhas vontades, meus desejos, acompanhando minha solidão por onde quer que eu fosse. E neste caminho eu não sei mais quem você é e nos atalhos vêm as dúvidas outra vez em relação a tudo o que eu um dia pensei em me tornar. Uma amiga vem de novo e me diz que não entende esses meus múltiplos. Nem eu, confesso. E aquela minha tia ali completamente pelada, com seus seios fartos a roçar na minha pele, sorriso franco, a tatuagem na coxa esquerda a me erotizar, me enrijecer e o medo de ejacular e ser pecado porque, ora bolas, é minha tia ali, por mais que ela se parecesse com a menina da repartição e mesmo que eu não a conhecesse muito bem, ela estava ali para me salvar e eu nunca deveria tentar desrespeitá-la. Nem em sonho.

Você então desceu do bonde ávido por pecados e veio em minha direção. Seu irmão a nos observar e o adiantado das horas apressavam seu caminhar lépido, cortante, e em instantes estava em cima de mim, com o queixo a se apoiar em meu peito, como sempre fazia, a me encarar de muito perto, a me deixar com a visão embaçada, o ar ofegante, os mesmos olhos arregalados e tristes. Suspirei e senti até mesmo o seu hálito forte enquanto de sua voz ainda não se ouvia nada, mas pude sentir o coração batendo acelerado feito os primeiros acordes de uma escala em execução. Havia música no sonho, uma sonoridade específica que eu não saberia distinguir sequer quais instrumentos faziam parte ou mesmo se as notas eram graves ou harmônicas. Era apenas sonho. Eu e você ali. Ao nosso lado, minha tia, ainda nua, agora ainda mais parecida com a menina da repartição, morena simpática da coxa grossa tatuada, a exibir o sexo sem pudores, sem vergonhas, sem peso, nada, nua. Ela a observar o que fazíamos e a cantar para que minha morte ainda demorasse a chegar porque queria me ver feliz na hora da partida e eu e você ainda nem havíamos nos beijado.

Eu tentei me lembrar da música que tocava no final, mas não consegui. Tentei lhe segurar, mas não me foi permitido. Continuei a  prestar atenção nas ancas da morena que ora fora minha tia e que você sequer se dera conta da presença. De longe, do outro lado da rua, seu irmão cuidava de uns cavalos. Já não havia mais bonde, nem barulho, nem nuvens cinzas a abafar o azul do céu e a encobrir o que se quer do dia. Não havia remédio. Não havia solução. Apenas a felicidade de ter lhe encontrado no que eu sabia se tratar de um sonho, algo que não existe, assim como eu ou você.

Porque todo o tempo em que estou acordado você está em mim e eu estou em você, mesmo que eu não lhe conheça e nem você a mim. E eu continuo com o gosto do beijo do desconhecido e com minha língua a roçar na tatuagem da coxa nua daquela que já não é ninguém a me encher de desejos estranhos enquanto tudo ao redor se desfaz.

É sonho.


quinta-feira, 6 de setembro de 2012

A morta-viva

Lá estava ela mais uma vez na lanchonete da repartição. Fazia tempo que não a encontrava por lá. A correria do dia a dia tem uma enorme responsabilidade no distanciamento entre as pessoas, e as relações de amizade, se não bem cuidadas, acabam evaporando. Eu nem sou tão amigo dela assim. Mantenho uma relação cordial apenas. Até porque, nunca me senti verdadeiramente à vontade ali para fazer amigos. Nem ali nem em lugar algum. Mas sou um bom ouvinte e, como já dizia minha avó, tenho saco de filó. Portanto, volta e meia sou cooptado para ouvir uns desabafos, pieguices de gente dramática, que remói dor de cotovelo, que fala demais. Tenho um conhecido que diz que eu atraio gente louca. Desconfio que seja verdade.

- Eu morri para ele - ela me disse assim que eu sentei ao seu lado com meu copo de café nas mãos.

- Ele me ignora solenemente, como se eu tivesse morrido. Ou pior: como se eu nunca tivesse existido. Quando nos vimos pela última vez estava estampado em nossos olhos todo o amor que descobrimos sentir um pelo outro. Não foi por falta de amor que nos separamos, mas por circunstâncias da vida. Muito embora tais circunstâncias pudessem ser transpostas. Nada poderia impedir nossa felicidade, a não ser nós mesmos, com nossos medos que travam nossos corações e nos impedem de seguir adiante e experimentar o desconhecido. Hoje continuo com medo, muito mais até, e meu coração bate mais devagar, sigo meu caminho com o olhar distante, como se eu estivesse perdida, sem rumo, sei lá. Há quanto tempo nós não conversamos?

- Pra lá de mês - respondi mirando seus olhos tristes.

- De lá para cá já pensei tanta coisa, tantas bobagens já se passaram na minha cabeça. Voltei a sair com as minhas amigas, resolvi tentar me divertir, ver gente bonita, ouvir uma boa música, dançar. Até beijar na boca eu beijei. Mas não me esqueço dele. Acordo e durmo pensando nele, querendo saber se ele está bem, se já tem novos projetos, se conseguiu o diploma, se continua lindo, essas coisas tolas que a gente pensa quando está apaixonado. Você sabe, não é?

Continuei sem tirar os olhos dela, mas não lhe respondi.

- Ainda sinto muita saudade e me dá um aperto no peito toda vez que penso que nunca mais vou encontrá-lo, que ele vai fazer de tudo para não esbarrar comigo e se por acaso isso acontecer, está arriscado a ele fingir que não me conhece, virar o rosto, atravessar a rua, mudar de calçada. Como se eu fosse um ser asqueroso, uma mulher suja, contaminada, uma doença, detentora de todo mal. Quando isso não é verdade. Posso não ser pura, muito menos um anjo de candura, mas ainda guardo em meu peito um amor enorme, uma chama que trago acesa e que teima em me arder, em me queimar por dentro e que me revelou um sentimento lindo que eu também não conhecia. O que eu faço com isso, me diz?

- Não sei.

- Ninguém sabe. Já fui a pai de santo, astrólogo, igreja, terreiro, benzadeira, tudo. Já ouvi muitos conselhos, mas nenhum que me convencesse. Porque não adianta você chegar para mim e dizer "esquece". Não é assim que funciona. Se fosse assim, seria fácil demais. Talvez para ele tenha sido fácil. Talvez ele até tenha a fórmula para enterrar sentimentos tão nobres como o amor. Ou talvez ele nunca tenha me amado, o que é muito mais provável. Porque ele não sabia o que era amor, ele me disse uma vez. Disse ainda que nunca tinha ido para a cama com alguém que o tivesse deixado tão à vontade ou que lhe tivesse despertado tanto desejo. Não só pelo sexo em si, mas pelo carinho e por tudo o que envolvia a  nossa relação. Confesso que sinto falta do cheiro da pele dele, de ver aquele corpo esguio nu na minha frente, de me encostar nele, da língua em meu pescoço, das mãos nas minhas coxas e do encontro de nossas bocas.

Assim eu fico excitado, pensei.


Pensei também naquela mulher linda ali na minha frente, que tão pouco me conhece, a me contar tantos detalhes de uma relação amorosa que eu não tinha o por quê de saber. Nunca consegui entender como é que algumas pessoas conseguem se expor tanto, sem travas no que se refere à vida particular, principalmente a sentimental. Sempre fui adepto da máxima que diz que o que acontece entre quatro paredes, fica entre quatro paredes. Se eu gosto de apanhar, de bater, de xingar, de papai e mamãe, de oral, de anal, o escambau, o problema é meu e ninguém precisa saber. A não ser quem está comigo entre as quatro paredes, claro. Nem em mesa de bar, com o álcool transbordando nas ideias e amolecendo a língua, isso é coisa que se comente. E aquela mulher linda ali na minha frente, em plena lanchonete da repartição, a me contar seus particulares.

Quisera eu pudesse ajudá-la com alguma palavra de conforto ou de estímulo para ela sair daquela situação desconfortável em que se metera, mas pouco entendo das coisas do amor e talvez até me identifique com o tal sujeito que sumira da vida dela. Assim como ele, acho, eu nunca amei ninguém. Nunca soube o que é sentir saudade e jamais sofri por quem quer que fosse. Sofro por mim e as minhas dores já me bastam. Não poderia uma outra pessoa me fazer sofrer ainda mais. Eu não permitiria que alguém entrasse em minha vida para me fazer sofrer. Ninguém nunca iria me colocar no chão, me fazer de capacho, me usar, brincar comigo e depois desaparecer, me ignorar, não me responder, não querer me ver outra vez. Agir como se eu nunca tivesse existido, como se eu fosse alguém que pudesse ser descartado, enterrado vivo. Exatamente como ele havia feito com ela. Por isso eu não amo e nunca vou amar ninguém. Mas eu não disse nada disso a ela. Até porque, acho que ela não iria dar ouvidos.

- Preciso ir.

- Eu morri para ele - ela disse outra vez.

- Mas quantas vezes morremos?, retruquei, já levantando. Morremos de fome, de sede, de raiva, de nojo, de tesão, de vontade. E por isso continuamos vivos.

- Continuo viva, porém morta.

Bebi o último gole do meu café já frio, segurei nas mãos dela e me despedi sem dizer mais nada, apenas olhando aqueles olhos vacilantes. Voltei para a minha sala, para os meus projetos, para os meus prazos apertados. Mas dali até o final do expediente, me flagrei umas duas ou três vezes pensando naquela mulher e no quanto ela estava sofrendo. Agradeci a Deus por nunca ter me dado a oportunidade de encontrar um amor nesta vida. Agradeci por minha solidão, por minha vida sem grandes emoções, vazia até, e pelo silêncio que me acompanhava nas noites em que eu brigava com o sono na escuridão do meu quarto. Eu era feliz daquela maneira.

Pelo menos eu queria acreditar que era. 

sábado, 1 de setembro de 2012

A reboque

Quinta-feira. 16h10. Para variar, estou atrasado. E para piorar, rua Marquês de Pombal engarrafada. Ônibus de um lado, caminhões do outro, e eu ali, espremido e ávido por uma vaga para estacionar meu carro. Mensalão comendo solto, um deputado já condenado, pautas inacabadas, três páginas do site para editar, eleições Brasil afora, cabeça em disparada, até que entre uma kombi e um cone, vi que tinha espaço suficiente e não pensei duas vezes: liguei a seta, engrenei a ré, deixei que o carro que estava atrás de mim ultrapassasse e manobrei todo orgulhoso e agradecido à sorte de encontrar uma vaguinha a poucos metros da entrada do jornal. Peguei minha mochila, meu maço de cigarros, pendurei o crachá no pescoço, me benzi e fui para a guerra. De lá não sairia antes de meia-noite.

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Não sei quem foi que me disse outro dia que a vida é um campo de batalhas. Já faz muito tempo, porém, que eu aprendi que é preciso matar um leão por dia. De tanto ouvir esta frase quando pequeno, eu morria de medo de virar adulto porque achava que mais cedo ou mais tarde eu ia dar de cara com o rei da selva sabe-se lá aonde e acabaria esquartejado, servido em pedaços para uma família de felinos esfomeados e com minhas sobras disputadas por hienas e urubus. Coisa de criança. Bastou eu crescer um pouco para saber que não existiam leões soltos nas ruas da cidade. Foi então que me dei conta de que eu vivia entre selvagens. Éramos todos animais, eu pensava. Mas eu pensava. E sendo assim, fazia toda a diferença. Não que o que eu pensasse era o certo, até porque, nunca quis ser o certo. Gostava mesmo - e gosto até hoje - de caminhos tortos, de gestos espalhafatosos, de gargalhadas intermináveis, de olhar no olho do outro quando estou falando, de prestar muita atenção ao que estão me dizendo, de ficar em silêncio, de me recolher e ter o direito de desaparecer por um tempo.

Porque é preciso descansar da luta.

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Quinta-feira. 22h30. Desde que cheguei no jornal, só fui ao banheiro duas vezes. Volta e meia brinco com meu chefe dizendo que o jornal vai ter de me dar um rim novo quando eu sair de lá. Fora um pulmão, um coração e muitos fios de cabelo.O ritmo de trabalho numa redação é na maioria das vezes brutal. Informação em cima de informação, versões, fatos, denúncias, bastidores, falatório, telefones que não param de tocar, o segundo clichê não pode atrasar, olhos vermelhos revelando cansaço, fome, dor de cabeça, vontade de me esticar. Resolvo descer, fumar um cigarro e dar uma olhada no carro, só como quem não quer nada. Cadê o carro? Foi ali mesmo que eu parei? Olhei para um lado, para o outro, mais adiante, na rua detrás não foi. Tudo isso numa fração de segundos. Roubaram? Rebocaram? O segurança do jornal não soube responder, tinha acabo de chegar.

Traguei o cigarro até a guimba com vontade, num misto de raiva e resignação. Dali a uma hora e meia eu tinha que estar com minhas páginas prontas. Entre uma matéria publicada e uma foto legendada, dei uns dez telefonemas, acessei os sites do DETRAN e da Guarda Municipal na ânsia de descobrir se meu carro estava em algum depósito. Minha manchete era: PT anuncia substituto de João Paulo Cunha para eleição em Osasco. Minha preocupação era: onde está meu carro? Liga daqui e clica de lá, descubro que ele foi rebocado às 16h40 e que está no depósito da rua Benedito Hipólito, bem ali atrás do jornal. Imprimo os boletos, me conformo com o prejuízo e me preparo para acordar cedo no dia seguinte, acompanhado do leão que não me abandona nunca nessas horas.

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Sexta-feira. 9h40. Estou numa festa, a mãe do marido da minha cunhada me oferece um pedaço de quindão e antes mesmo que o provasse, toca o celular e eu acordo. É a Claudia, a leoa, me perguntando se eu não ia buscar o carro e se eu queria carona. Respondi que já estava levantando, mas que ainda ia passar no banco para pagar as taxas e que pegava um ônibus mesmo, sem problemas. Foi o que eu fiz. Corri no banco, enfrentei uma fila desumana, paguei o que devia, entrei num ônibus, paguei a passagem e só então me dei conta de que esqueci as chaves do carro em casa. Fiz sinal pro motorista parar, voltei em casa, peguei a danada da chave, desci minha rua, vi que não tinha mais trocado para pagar outra passagem, tiro R$ 50 do bolso, dou para o trocador que olha pra mim de cara feia.

Minha cara está mais feia que a dele.

O trânsito está bom, chego no depósito rápido, pouca gente na fila, o sistema está fora do ar e sem previsão para voltar. Respiro fundo. Conto até dez. Dou um pulo lá fora. O sistema volta, sou atendido e uma gordinha por trás das grades me diz que está faltando um documento autenticado e que sem ele meu carro não pode ser liberado. Eu pergunto para ela se ela tem noção da quantidade de praga que eu estou rogando naquele exato momento e ela me diz que tem o santo forte.

Sorte a dela.

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O relógio da Central do Brasil marcava meio-dia quando eu entrei de novo num ônibus para voltar pra casa e buscar o tal documento autenticado, pensando em quantas coisas podem dar errado e que eu poderia esbravejar, xingar, gritar, dizer que o prefeito é isso, que o governador é aquilo, que só tem ladrão, que nada é para facilitar a vida do povo e por aí vai. De nada adiantaria, eu falei baixinho. Num banco ao lado, uma mulher com os pés inchados e um vestido surrado de dar dó jamais poderia imaginar o que se passava comigo. Na minha frente um casal de idosos com olhar sossegado também não. O trocador, jovem, me parecia cansado de tanto que travava e destravava a roleta entre freadas e buzinas. Sequer olhou para mim quando eu lhe dei o dinheiro da passagem.

O motorista parecia atento.

Eu ainda não tinha almoçado, precisava tomar um banho, levar meu cachorro para fazer xixi e cocô na rua, voltar ao depósito, torcer para não faltar mais nada e poder liberar meu carro e correr para não chegar atrasado no jornal. Atualmente eu vivo correndo, sempre sem tempo para nada. Olho pela janela, está um dia lindo lá fora, um céu azul me chamando pra dar um rolé, o final de semana chegando e então me dou conta que tudo pode ser muito engraçado: o reboque, a gordinha atrás da grade, a chave que eu esqueci, as taxas que eu tive de pagar, os leões querendo me engolir, todo mundo na batalha, na selva, na luta, na guerra que não para.

A vida às vezes tira sarro da nossa cara. A vida é piada.

terça-feira, 21 de agosto de 2012

Idas e vindas

Vá.
Mas volte.
Porque mais importante do que saber aonde ir
É percorrer com passos livres o caminho
Que liga um ponto a outro
E talvez a lugar nenhum.

Lá.
Ou aqui.
Porque quanto mais perdido, mais distante,
Já que a estrada principal
É a que segue por dentro.
E as pegadas são palavras doces
Deixando suas marcas pelo chão.

Idas.
E vindas.
Quando pegar o retorno,
Que as boas coisas da vida te recebam de volta.
Que o lado bom prevaleça.
Que você tenha o amor que mereça.
Que te faça feliz.

Que reveja os amigos.
Que conheça mais gente.
Que se reoriente.
Que se empregue.
Que se encante.
Que se encontre.
Até partir novamente.

Felipe

Eles haviam se tornado amigos poucos meses antes de Felipe viajar. Para ser mais preciso, cinco meses antes. Mais tarde pude entender que, de certo modo, a proximidade da viagem foi o que possibilitou o surgimento daquela amizade e fez com que Felipe se dispusesse a experimentar um sentimento que ainda não conhecia. Não que não tivesse outros amigos. Na verdade, tinha muitos. Mas nenhuma amizade até então havia sido como aquela.

Por mais que fossem diferentes e por mais estranheza que a tal amizade pudesse causar à primeira vista, gostavam de estar juntos. Não era nada fácil para ambos estarem juntos. Muito pelo contrário. Era difícil admitir que queriam se encontrar, se ver, ter a companhia um do outro e deixar todos os outros afazeres para trás. Procuravam marcar uma vez por semana. Mais do que isso era um sofrimento danado, dava uma saudade apertada, uma vontade tamanha de que os dias voassem e que a data marcada chegasse logo sem prolongas.

Conversavam sobre tudo. Não havia segredo entre eles. Um sabia da vida do outro, dos problemas que enfrentavam, das paranoias, das fraquezas, dos sonhos de um futuro mais bonito. Gostavam de ir à praia, de cruzar as montanhas da cidade, andar pelas ladeiras do bairro alto e ver toda a gente lá embaixo, quando tudo parecia em silêncio e lento. Se estavam juntos o ritmo era outro, como se as horas soubessem que aquele pouco tempo que tinham lado a lado ficaria eternizado na memória dos dois.

Quem os via de longe tinha a impressão de se tratar de dois moleques sem juízo, fazendo o que seus pais passaram a vida inteira alertando para que não fizessem, saindo por aí sem rumo, sem direção, sem muita noção do que poderia ser certo ou errado. Mas quem pode nos dizer o que é certo ou errado? Havia amizade ali e isso era o que importava. Mais: havia amor entre aqueles dois amigos e talvez eles já tivessem se dado conta.

Tão distintos um do outro. Mas apesar de criados em realidades opostas, os dois tinham experiências duras de vida, amargas, tristes até. Talvez fosse isso que os atraía. Um tinha no outro um alento, uma espécie de cumplicidade, um tesão no desconhecido, a vontade de andar no limiar entre o que é proibido e aquilo que é consentido. Mas um detalhe causava angústia a um deles: aquela amizade tinha prazo para acabar. Felipe ia embora para talvez nunca mais voltar em poucas semanas. E assim foi feito.

Logo de início o outro se deu conta que sofreria quando seu amigo partisse. Com quem ele ia conversar sobre todos aqueles assuntos? Com quem ele ia fugir nas tardes ensolaradas para ver o sol se pôr? E as dicas de filmes sempre preciosas? E as músicas que gostavam de ouvir? Até mesmo o futebol... Era como se todas as boas referências fossem desaparecer depois que o avião decolasse e levasse Felipe para aquela terra tão distante.

Naquela época ainda não existiam todas essas facilidades de um mundo globalizado e suas redes sociais, que encurtam as distâncias, agilizam a comunicação e nos expõem aos quatro cantos do planeta. No máximo uma carta. Telefonema? Nem pensar! O custo de uma ligação internacional era um entrave e tanto, o que dificultava qualquer aproximação. A falta de notícias foi então criando em seu peito uma úlcera que abria mais e mais a cada dia, sangrando-lhe por dentro vagarosamente até que ficasse completamente seco, doente mesmo.

Lá de longe Felipe talvez soubesse que alguma coisa não estava indo muito bem por aqui, mas e daí? Ele tinha uma outra história para viver e não poderia deixar que aquela amizade atrapalhasse seus planos. Planos que ele havia traçado com fervor, planos que ele vinha organizando racionalmente há meses e que muito lhe consumiram. Ele não tinha como amolecer. O outro sabia disso tudo e nunca o culpou por nada, apesar de sofrer com o vazio que aquilo tudo lhe causava.

Só queria saber se estava tudo bem, um 'olá, como vai', até que a amizade de cinco meses ficasse apenas como uma lembrança boa, traduzida num encontro raro que poucos têm a chance de vivenciar por aqui. Mas Felipe preferiu desaparecer como se o outro nunca tivesse existido, como se aquela amizade não fosse nada, coisa sem importância esquecida num passado que deveria ser enterrado. O outro foi se conformando aos poucos com a dor da ausência daquele que foi seu único amigo.

Anos mais tarde, quando o outro me contou essa história, confessou que jamais houve um dia desde então que não lembrasse do Felipe. Contou-me também que o mundo perdera o colorido, que seus olhos nunca recuperaram o brilho e que seu coração fazia um esforço tremendo para bombear sangue em suas artérias. Não sabe se Felipe está vivo, se casou, se teve filhos, se é feliz, se conseguiu trilhar o caminho escolhido ou pior: que caminho ele havia escolhido trilhar?

- Você nunca vai saber - cansei de lhe dizer, na tentativa de ceder-lhe meu ombro amigo.

Mas ele nunca me considerou como tal, apesar de gostar de me ouvir e de não ter vergonha de me contar tudo aquilo. Afinal, o que eu poderia pensar? Logo eu, que costumo falar tão pouco sobre mim, que não me interesso por essas coisas complicadas da vida, que procuro não pensar que é para não me aborrecer. Quem sou eu para dar conselhos? Quem sou eu para querer ser amigo de alguém? Na verdade, eu não sabia ao certo o que falar. Muito provavelmente nem precisasse dizer nada. Por várias vezes tive a impressão de que bastava eu estar ali ao lado dele, olhando em seus olhos, ouvindo o que ele tinha para me contar. Papel de amigo, acho. E foi aos poucos que ele me contou tudo.

Um dia, antes de ir embora da repartição, já no final do expediente, me pediu um abraço. Ele estava fragilizado e não tive como negar. Abracei-o com vontade, como se eu já não o visse há décadas e dele sentisse uma enorme saudade. Nos despedimos no estacionamento ainda com um aceno e um sorriso tímido. Ele virou as costas, caminhando a passos lentos, cigarro aceso na mão, paletó pesando sobre os ombros e nenhum traço de esperança em seu rosto. No dia seguinte ele não apareceu para trabalhar. Nem na outra semana. Nem nunca mais. Sumiu sem deixar um rastro sequer. A família estava em frangalhos, sem saber mais o que fazer nem o que imaginar. Todos desesperados. Nem o seguro de vida receberam, já que não tinham como comprovar o óbito e o corpo nunca apareceu. 

Eu nunca mais esqueci daquele último abraço nem de toda aquela história de amor entre amigos que ele me contou. Ainda tenho esperança de reencontrá-lo. Na minha versão ele não morre no final. Prefiro acreditar que ele foi atrás do Felipe. Mas onde? Como? Ninguém conhecia o Felipe. Só ele. Só ele... 

sábado, 18 de agosto de 2012

Ciranda

Por aqui vem sempre um dia atrás do outro
Amanhece e anoitece sem descanso
O rio que passa
A água que corre
O vento que atravessa
E a montanha segue firme no mesmo lugar.

Há algo por aqui que segue perene
Dizendo com todas as letras que nada termina
O tempo que resta
As horas que sobram
Minutos que sopram
E o peito de repente se enche de ar.

Por aqui há os que se desnudam
Riscam na própria pele as suas marcas
A ferida que cicatriza
A arma que fere
A lâmina que rasga
E o sangue continua pulsando nas veias.

Por aqui há os que fogem de medo
Os que se pelam só de imaginar
A felicidade que insiste
O prazer que arrebata
A saudade que grita
Dos que chegam sem fazer barulho.

Por aqui nada permite silêncio
Porque se cala já deixou de existir
É fogo que arde
É luz que candeia
É brasa que queima
Enquanto o mundo lá fora é ciranda a girar, a girar.



sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Insônia

A cabeça do homem é uma central de mensagens. A minha funciona praticamente 24 horas. Elas chegam codificadas, zipadas, manuscritas, sussurradas e são lançadas ao mar em garrafas coloridas. Uma a uma, sem parar. Meu cérebro é um imenso oceano desconhecido de pensamentos e ideias à deriva. Navego em ondas incessantes que se formam muito além de onde a vista alcança o horizonte. Um farol esquecido em ilha distante. O pouco que eu vejo fica retido na retina por toda minha vida. Sou imagem invertida, barco naufragado, sujeito de ponta à cabeça. Sou a carta do louco projetada na parede fina que separa o real do absurdo. Sou sombra, vento, tempestade, sol, neblina. Eu sou isso tudo. E mais um pouco do que não faz sentido.

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Eu esqueço o que não devia, deixo para trás o que não queria, apago as linhas mal rabiscadas, reescrevo trechos, desfaço os versos, cruzo outras ruas, atravesso as mesmas esquinas de um jeito diferente até me dar conta de que estou mesmo sozinho e que por mais que tentem me dizer o contrário, a vida é assim. Quisera eu não pensar, não sentir, sequer amar e por amor me destruir até me refazer, ou quem sabe?, enlouquecer e me enquadrar no que dizem que é normal, no que é aceito, ser mais uma peça deste jogo social. Eu gosto do que é ilegal, do que é imoral, do que choca, surpreende, amedronta e me coloca frente a frente, dia a dia, toda hora. Tenho medo é de ser igual, ser mais um, apenas número, estatística, massa humana sem graça, sem raça, sem tesão nenhum. Meu nado nunca foi sincronizado. Sou contra a corrente. Às vezes sou tudo. Noutras vezes sou nada. Sou assim. Desde que me entendo por gente.