quinta-feira, 12 de julho de 2012

Pedra de limo verde

Certas noites eu chego em casa assim, meio que massacrado, como se eu tivesse passado o dia inteiro num martírio, me sentindo um nada, um ser passivo, subserviente, daqueles que assiste contemplativamente o mundo lá fora avançar em suas guerras podres de poder e corrupção. Nestas horas eu não queria ter nascido gente, essa espécie esquisita, que rouba, mata, ri, chora, brinca e grita. Preferia ter nascido pedra de limo verde na beira de um rio claro, lá pelas bandas da Serra da Mantiqueira, onde logo cedo faz um frio danado, mas o céu é azulzinho e a água ainda corre boa. Tem vaca no pasto, roupa coarando no varal entortado, cheiro de pão fresquinho, café no fogão a lenha e tempo de sobra. Tem cigarro de palha, conversa fiada, filharada na rede, pinga da boa, mulher rindo à toa, roda de viola e muita cantoria. É uma alegria. O pintassilgo assovia, o sabiá vem de lá, tem biquinho de lacre, melro, canário da terra, pardal, rolinha. Tem até beija-flor, que é o mesmo que colibri, que eu já vi.

Mas acontece que eu nasci gente, nesta terra estranha, de família pobre, com poucos recursos, cheia de manias e não me toques, um não fala com o outro, isso você não pode saber, aquilo outro é proibido, não faça, não venha, não olhe, pare, saia. Ganância, poder, corrupção, tudo a gente vendo lá fora, outros tantos vendendo a alma, a mãe, a vergonha e a moral. Qual é a moral, eu me pergunto? Onde me enquadro nisso tudo se há comida em minha mesa e na calçada agora mesmo eu vi um menino deitado sobre folhas soltas de jornal onde a manchete era o rombo de mais um parlamentar nos nossos bolsos? Eu tenho náuseas. Eu vomito. Fico doente. Incham-me as glândulas e sufoca-me não ter mais com quem conversar por horas e me perco entre os abraços que ficaram no vácuo da lembrança que jaz morta entre a ferida cicatrizada na epiderme úmida e suja feito tatuagem mal feita, borrada, mancha negra bem do lado esquerdo do meu peito.

É lá que dói e pulsa e carrega o sangue quente por todo o meu corpo pesado, inútil, fútil, do mesmo jeito de quando eu chego em casa assim, massacrado, consumido de um dia inteiro na rua em que o tempo não para, que nem a água clara que corre perene no rio onde fica encravada a pedra do limo verde. A água passa, esbarra, encobre, mas não carrega a pedra. A pedra é firme. Quem me dera ser.

Com início, meio e fim

Se não está acabado é porque sequer comecei. O que deixo de lado é só desprezo.

sexta-feira, 22 de junho de 2012

Bonança

Às vezes é preciso parar e ouvir o lado bom da história. Rever lições esquecidas, mesmo que tenhamos de voltar as páginas e ler de novo uma, duas, mil vezes a mesma frase até que ela ganhe um novo sentido. Então você vê que é o mesmo parágrafo, mas com um não sei quê de diferente.

Tenho um amigo que diz - e eu acredito nele - que o nosso maior esforço por estas bandas é aprender a reinterpretar. A vida é um palco e você é o personagem, mas isso não quer dizer que você tenha de interpretar sempre o mesmo papel, ele repete toda vez que me encontra.

Diz também que a vida fica muito mais divertida quando observada de outros ângulos e que de pernas para o ar é tudo ainda mais engraçado. Pode ser, eu digo.

Ele me diz que eu deveria ter certeza, que o que a gente tem de bom e positivo é a firmeza, é o que nos faz seguir em frente, passo a passo, pé no chão.

Esse meu amigo foi o mesmo que me disse tempos atrás que nunca teve vergonha dos seus rascunhos. Que ele era mesmo um esboço de algo que não se sabia nem melhor nem pior, mas outro que não aquele. Ele.

Falou que a realidade é bem melhor que o sonho, mas que o sonho faz um bem danado à realidade e que uma coisa é o que move a outra. Simples assim.

Que é preciso respirar com calma, puxar o ar bem fundo, inflar o peito, encher os pulmões e reabastecer. Porque não somos máquina. Ou somos?

Que tem o lado de fora e o lado de dentro e que muitas vezes o lado de dentro é mais interessante que o lado de fora, mas que quem olha muito para dentro está, na verdade, por fora. Um egoísmo danado.

Porque chega uma hora em que cansa, dá vontade de voltar a ser descompromissadamente criança e nem se dar conta que no mundo chamado real existem barreiras, que os adultos se isolam, criam fronteiras, sobem muros, pulam, pisam, matam. Não.

Leia o texto de novo, ele sempre me diz. Tente ir mais devagar da próxima vez e veja se consegue repetir as mesmas rimas e entender nas entrelinhas só o que for mais bonito.

Por mim.

Porque sou verso manso que deságua na poesia como a chuva que declama em temporal.


quarta-feira, 13 de junho de 2012

Reprises

A pergunta que eu não quis ouvir.
A resposta que eu não soube dar.
A verdade que eu não percebi.
Tudo aquilo que eu deixei pra lá.

Eu via tamanha beleza onde sequer havia.
Vazio.

Eu vivia tomado de silêncio e drama.
Entre passos desertos, pistas em falso, conselhos diversos,
Fosse dia ou fosse noite,
Confesso: não sabia mesmo onde ir.

Eu via tantas coisas ao mesmo tempo.
Disperso.

Lhe peço um pouco mais de atenção.
Dá aqui sua mão sobre a minha,
Quero ler linha por linha
De uma história diferente a cada dia.

Eu via tudo tão igual.
Reprises.

Posso começar de novo?

sábado, 9 de junho de 2012

Tecidos

Guardo em minha boca um misto de amargo e de silêncio,

do vício que me cala entre os segredos,

moído no pó que me transforma

e me espalha pelas bordas e me leva embora daqui.

Voando entre panos e cordas coloridas

Há um coração que bate para lá e para cá num trapézio.

Pulsa pendurado aqui e ali.

Sobe e desce sozinho no balé ritmado pelo arfar exagerado que vem do seu peito.

Coreografia improvisada nos ares onde ainda vejo seu corpo

a girar e a desenrolar os tecidos que lhe roçam a pele.

É tudo imaginação, eu penso.

Então, respiro.

Até que aquilo se desfaça no vento quente que sai de minhas narinas,

entre mucosas e o suor azedo dos meus poros,

que molham os parangolés que eu nunca conheci.

Paro. Expiro.

Sopro. Transpiro.

Danço. Solto. Só.

Entre panos e cordas coloridas.




quinta-feira, 7 de junho de 2012

Calendário

Passa o tempo, passa.
Corre e avança sobre minhas ladeiras.
Marca transparentemente em minha pele os dias
E deixa voar páginas soltas em meu calendário.
Ando mesmo perdido nas horas.

Chego sempre atrasado.
Subo os degraus lentamente desde que tudo se foi.
Esqueço o que fui.
Não sei o que sou.
O que restou de mim, me diz?

A menor parte.
A parte pequena.
Os desejos miúdos.
A dança efêmera.
O ritmo feroz.

Tudo ficou para trás.
Como o trem que acabou de partir para longe,
Para outra estação, onde as portas se abrem
E o entra e sai de gente estranha a me dizer:
Agora é nunca mais.

Logo eu, que queria tudo para sempre.
Insistentemente eu pedia.
Implorava despudoradamente.
Como se eu soubesse que tudo aquilo urgia.
Mas ele se foi e preferiu não saber.

E eu aqui, a cronometrar-me em segundos.
Uma bomba-relógio prestes a deixar de existir.
A acertar os ponteiros do pouco que me resta.
E eu nem sei bem quanto.
Quase nenhum.

Sou mesmo um homem sem tempo.

sábado, 2 de junho de 2012

Chegadas e partidas

Passava um pouco das cinco da tarde quando ele foi expulso do ventre de sua mãe. Fazia frio naquela sala repleta de umas luzes muito fortes e lençóis sujos de sangue. A pessoa que o puxou para fora, que ele não lembra se era homem ou mulher, tinha as mãos firmes e num primeiro momento não lhe pareceram nada delicadas. Talvez ele esperasse uma recepção mais calorosa, vai saber, com direito a banda de música, canapés e bebericos. Muito pelo contrário. Foram logo lhe enfiando dedos pela goela, dando-lhe uns tapas, cortando-lhe o cordão umbilical e deitando-lhe numa placa de aço tão gelada quanto um iceberg. Desagradável assim. A mãe, estirada na maca, ainda sem ter visto como eram as suas feições, quis saber se  era perfeito, se tinha todos os dedos, se era bonito. Não, não era. Nenhum bebê ao nascer é bonito, já lhe dizia sua avó. Ele tinha as pálpebras dos olhos inchados, quase nenhum cabelo, rugas na testa, uma enorme mancha vermelha que ia da bochecha esquerda à base da orelha e um nariz gordo, amassado, que ficava ainda mais estranho quando ele chorava. E como ele chorava. Mas era perfeito.

No dia seguinte mesmo foram para casa. Hospital público, sabe como é, não dá para ficar ocupando leito à toa. É só o tempo da mãe descansar do parto, recuperar as forças, aprender a dar de mamar e então o médico chega, examina aqui, ali, vê se está tudo bem e pronto: rua. Embrulhado num pano flanelado, com uma fralda mal colocada e curativo no umbigo, lá foi ele no colo da mãe sem saber que lugar era aquele, que gente toda era aquela, o barulho, o vai e vem, o entra e sai, uma sensação estranha, uma saudade danada do lugar de onde ele acabara de sair e a certeza de que aquele era um caminho sem volta. Tanto para ele quanto para sua mãe.

Ele nunca conheceu o pai, um advogado bem sucedido, casado, filho de uma família classe média tijucana, que a mãe encontrou apenas três vezes em toda a vida e que nunca poderia imaginar que numa daquelas vezes ela ia engravidar. Falta de cuidado, de responsabilidade, loucura de quem ainda vivia sob aura da adolescência, mesmo que já tivesse passado dos 20 e tantos anos. Não conhece camisinha? Nunca ouviu falar em anticoncepcional? Pensou em abortar, mas não conseguiu dinheiro nem coragem que bastasse e o jeito foi se conformar com o filho que crescia dentro dela. A avó do menino se propôs a ajudar no que fosse possível. Ela jamais cogitou a hipótese de procurar o pai para contar-lhe da gravidez. Ele não teve culpa. Ela deu porque quis, porque estava com vontade, provocou, deu em cima mesmo, criou a oportunidade, se ofereceu para valer. Água ladeira abaixo, fogo ladeira acima e mulher quando quer dar, ninguém segura, já dizia o dito popular. E ela era bem crescidinha, determinada, sabia exatamente o que queria da vida e nunca, em tempo algum, ia depender da vontade de homem e muito menos se rebaixar, se humilhar ou mesmo complicar a vida daquele que lhe serviu de companhia por uns bons momentos de prazer e sexo. Nada mais.

Criou o moleque sozinha ali mesmo pelas bandas da Usina, na rua São Miguel, aos pés do morro do Boréu, bem pertinho da antiga fábrica Souza Cruz de cigarros, que deixava toda aquela área cheirando a fumo fresco, antes de ser prensado, enrolado e empacotado nos maços que viciaram e mataram seu avô. Cozinheira de mão cheia, fazia uns croquetes de camarão com catupiry sequinhos que ela vendia para um bar na rua Garibaldi, aquela mesma rua onde João Bosco e Aldyr Blanc tantas vezes se encontraram para beber e compôr algumas das mais bonitas letras do nosso cancioneiro. Vinha gente de longe para provar os tais croquetes e não demorou muito até que o dono do bar, um português franzino, viúvo, a convidasse para trabalhar com ele dia e noite, noite e dia. Ela gostava da conversa mole daquele português, gostava do jeito meio ingênuo dele se referir a ela, de ver que ele ficava sem graça quando ela o encarava e ajeitava o decote e deixava a alça do sutiã à mostra, de propósito. Ela nunca deu para o português. Afinal, sua mãe sempre lhe dissera que onde se ganha o pão não se come a carne. Mas volta e meia saía com um freguês ou outro, sempre depois que o bar fechava e o português lhe pagava o que lhe devia da féria do dia.

O menino estudou em colégio público, era inteligente, bom em tudo o que fazia. As professoras sempre o elogiavam, suas notas eram sempre as mais altas, o que enchia a mãe de orgulho, mesmo que ela custasse a admitir. Gostava de jogar futebol, nunca teve dificuldade em fazer amigos e nutria uma verdadeira paixão pelos livros. Machado de Assis o havia arrebatado desde muito cedo, quando sem mais nem menos, pegou emprestado na biblioteca da escola um exemplar de Memórias Póstumas de Brás Cubas, "o defunto-autor", obra-prima da nossa literatura. Depois vieram Clarice, Guimarães Rosa, Graciliano Ramos, como se um fosse chamando o outro, até que chegaram Joyce, Pessoa, Sartre, Nietzsche, Kafka, Cony e os diálogos ácidos de alguns romances de Rubem Fonseca. Mas isso foi bem mais tarde.

Morria de ciúmes do português e sua mente fértil - muito provavelmente por conta dos livros que lia - o fazia imaginar as mais estranhas situações envolvendo o dono daquele bar que ele considerava mal frequentado e a mulher que lhe dera a luz. Por muitos anos acreditou que ele e sua mãe eram amantes. Que viviam uma tórrida história de amor às escondidas. Tinha pesadelos horríveis em que a mãe aparecia em cenas pouco ortodoxas protagonizadas pelo português. Acordava assustado, suado, tenso. Sensação horrorosa, ele pensava. Mãe é mãe. É quase uma santa. Mãe não fode, é assexuada, não usa calcinha indecente, não tem vontades, não tem orgasmo. Onde já se viu mãe gozar? Nunca!

Ele sim, gozava. Quando descobriu o prazer solitário, lá pelos doze, treze anos, batia punheta quase que sem parar. Tinha uma coleção de revistas de sacanagem dos mais variados tipos que guardava escondida dentro de uma caixa de papelão embaixo da cama, junto com uns cadernos antigos. Na gaveta da mesa de cabeceira ele mantinha um saco plástico onde derramava o líquido viscoso que esguichava do seu pau, seu companheiro mais que fiel, seu melhor amigo. Pensava na vizinha, nas meninas uniformizadas em suas saias curtas do colégio, na melhor amiga de sua mãe, na atriz da novela, na loura, na morena, na branquinha sem marca de biquíni, na ruiva que ele vira passando na rua outro dia. E pensava também no português filho da puta que comia sua mãe e aquilo que lhe dava uma raiva danada.

Quando ele completou quinze anos o português morreu. Foi de repente. O velhote levou a mão ao peito e caiu ali, bem atrás do balcão do bar, estatelado entre garrafas de cerveja vazias e piso escorregadio de tanta gordura da fritura que vinha da cozinha. Infarte fulminante. Ninguém sabia, mas o português há meses que sentia umas dores estranhas, um desânimo, um cansaço pouco comum em se tratando de lusitanos. A mãe ficou triste por demais. Ele não conseguiu disfarçar um certo alívio. O enterro no cemitério de Inhaúma foi simples. O português não tinha filhos, era de poucos amigos, tinha um irmão com quem não fazia questão de cultivar boas relações e um primo distante, que encomendou uma coroa de flores, a única do féretro, com os dizeres "vá em paz". Ele nunca tinha ido a um velório antes, mas fez questão de ficar ali, bem ao lado do caixão, olhando ora para o defunto, ora para sua mãe. Não verteu uma lágrima sequer. A mãe se debulhava como se tivesse realmente enviuvado.

Passava um pouco das cinco da tarde quando a última pá de cal foi jogada sobre a lápide da quadra de número 711. Fazia sol. Céu azul. Um silêncio sepulcral. Olhou para a mãe. Ela estava cansada, envelhecida, deixando-se curvar pelo peso dos ombros. Ele a abraçou. Se pudesse, pegaria ela em seu colo, segurando-a com as mãos firmes. Pensou em falar qualquer coisa, mas logo desistiu. Dizer o quê? Meus pêsames? Ou contar-lhe que ele sempre soube que os dois tinham um caso? Melhor ficar calado, ele pensou. A mãe também não disse nada. Aliás, a mãe quase nunca lhe dizia nada mesmo. Ele sabia muito pouco sobre a mãe, o que ela realmente gostava, quais eram seus anseios, o que fazer para agradá-la. Se a mãe estava sofrendo naquele momento e se sentindo ainda mais sozinha, o certo era que ele também estava mergulhado numa profunda solidão. Se ele parasse para pensar ia saber que a vida inteira foi assim e que não tinha como ser diferente. Mas talvez ele esperasse uma recepção mais calorosa, vai saber.

quarta-feira, 23 de maio de 2012

No céu até se perder




Há hoje uma enorme distância entre mim e o resto do mundo.
Feito linha que arrebenta e deixa a pipa solta no céu até se perder de vista e nunca mais.
Nunca mais.
Nunca mais.

sábado, 5 de maio de 2012

Tarja-preta

Era tarde já quando a encontrei perto da lanchonete. Sexta-feira na repartição é sempre uma corrreria, mais que o normal do dia a dia. É um entra e sai danado de gente, um falatório sem fim, um sobe e desce de escadas e pilhas e mais pilhas de processos que têm data para expirar. É o dia em que o chefe parece estar sempre mais nervoso, com os olhos revirados, poucas palavras e ordens, muitas ordens. Volta e meia, quando sobra um tempo para parar e pensar, tenho para mim que trabalho numa fábrica de loucos. Se eu resolvesse traçar um raio-x ou fazer uma espécie de anamnese de cada um daqueles que trabalha comigo, sei não, mas acho que eu teria um tratado sobre psicanálise que faria Freud regozijar de tesão com tamanho material humano.

Foi quando resolvi dar uma pausa para um café que encontrei a tal colega. Quarenta e poucos anos, mas com tudo em cima ainda, aparentando bem menos até. Coxas grossas, canela bem torneada, peitos fartos, sorriso generoso, cabelos bem tratados e sempre cheirosa. Além de bonita é simpática, atenciosa e sabe lidar desde o chefe até a moça da faxina. Não faz nem nunca fez distinção alguma. Deixa grande parte dos homens daquela repartição completamente envolvidos por ela. Eu, inclusive.

Peguei meu café e já ia voltando para a minha sala quando ela me chamou. Perguntou se eu estava muito ocupado e se eu podia bater um papo rápido. Respondi que sim, claro, e que estava mais era a fim de um pouco de conversa fiada àquela altura do dia, precisava relaxar. Deixou escapar logo de cara o tanto que vinha se sentindo incomodada ultimamente e precisava desabafar com alguém. Disse que não sabia o porquê, mas confiava em  mim. Contou que fazia terapia já há alguns anos e que usava remédio controlado, tarja-preta  mesmo. Fiquei espantado, mas procurei disfarçar. Nunca que eu poderia imaginar que uma mulher daquelas tivesse algo de maluca e precisasse se tratar, muito embora trabalhássemos todos naquela fábrica de fazer doido. Logo ela, que sempre me pareceu equilibrada.

Mas que nada. Vivia à base de remédios desde muito cedo, isso sim, era frágil, sentia-se desprotegida, sem um pingo de autoestima, vai entender, ela confessou. Tinha se apaixonado recentemente, coisa que não acontecia desde que ela se casara pela primeira vez, já que a segunda vez casou foi por necessidade mesmo, não por amor. Não tinha estrutura para viver sozinha, tinha dois filhos para criar, uma casa para manter e a juventude para ser usufruída. Esta parte eu tive de discordar, pois já que ela desejava usufruir da sua juventude, que se mantivesse livre, sem as amarras que uma relação a dois impõe. Discordei mas não falei nada, na verdade. Continuei apenas ouvindo.

Ele nunca mais me procurou, ela disse. Convivemos cinco meses antes dele viajar. Foi intenso demais, pelo menos para mim, confessava, enquanto em seus olhos ela deixava escapar uma tristeza profunda, daquelas que a gente vê em filmes de amor, quando a mocinha sofre ao perceber que foi enganada, que aquele por quem ela se apaixonara perdidamente não valia nada e era o verdadeiro vilão da história.

Pude ver ali, naquela muher, uma ingenuidade quase infantil e senti uma enorme vontade de abraçá-la e de dizer que aquele filho da puta não valia nada, que ela poderia ser feliz com quem bem quisessese e que se ela topasse eu poderia fazê-la a mulher mais feliz deste planeta. Eu sim, claro. Livre, desimpedido, solteiro, alguns anos mais jovem, carro novo, apartamento próprio, carreira estabelecida e coisa e tal, mas não falei nada. Continuei ouvindo.

Soube que o tal cara tinha viagem marcada. Ia morar fora por pelo menos dois anos, havia ganhado uma bolsa de estudos no Canadá, um frio do caralho, ia aprimorar o francês, o inglês, os estudos de botânica, as teses, as dissertações. Nunca escondeu isso dela, é verdade, mas chegou a dizer que a amava algumas vezes e quando estavam juntos a entrega era total, só ele e ela ali, onde quer que fosse, e a crença num amor verdadeiro fez de novo surgir nela uma alegria intensa de viver, coisa que ela já não sentia desde que conhecera seu primeiro marido. Chegada a hora ele foi embora. Passaram a se falar via internet, mas não com tanta frequência.

Pouco a pouco ele passou a evitá-la. Houve um dia em que ela estava mais fragilizada que nunca, com problemas no trabalho, a mãe doente, o mundo ruindo ao seu redor e ele estava online. Ela implorou que ele lhe telefonasse, precisava ouvir sua voz, uma palavra amiga daquele que por cinco longos meses fora o responsável por seu coração acelerar e por deixar suas mãos geladas feito a dos adolescentes que marcam um primeiro encontro. Ele não ligou. Disse que ela estava exagerando, que ela confundia tudo, que se ela continuasse daquele jeito ele seria obrigado a deletá-la de seus contatos. Frio. Estúpido. Covarde. Ela só conseguia chorar e se martirizar por ter sido tão sincera todo o tempo, por não ter conseguido mascarar seus sentimentos, por ter chegado a pensar em largar tudo para viver ao lado daquele homem que não se deixava mostrar de verdade quem ele era. Ele sim a confundia, parecia não aceitar o que sentia, escondendo-se sob uma capa, vestindo as armaduras sujas daqueles que não conseguem se entregar ao lado apaixonado da vida.

Ela me contou da vez que foram à praia porque ele queria se despedir do mar. A viagem estava se aproximando, seria dali a poucas semanas e eles poderiam aproveitar os dias de sol que ainda restavam antes de o inverno chegar para valer. Percorreu com ele praticamente toda a orla da cidade, pisaram descalços na areia, deram alguns mergulhos, foram almoçar num restaurante com vista para a restinga, conversaram a tarde toda, riram até, viram o por do sol do alto de uma pedra bonita e terminaram a noite num quarto de motel feito fazem os casais enamorados. Ele lhe disse que nunca mais esqueceria aquele dia. Ela disse que jamais esqueceria dele. Ele já a esqueceu, ela tinha certeza. Ela estava enlouquecendo.

Por mais que tentasse não pensar nele, dia e noite lembrava de seus pelos, de sua barba, de sua perna fina, seus cabelos negros, sua voz suave, seu hálito, tudo. Ele nunca mais apareceu online. Nunca mais deu sinal de vida, muito embora ela soubesse que ele estava bem, vivendo a história que escolheu viver. Dela ele não queria mais nada, era parte de um passado que talvez preferisse esquecer, apagar, sabe-se lá por que cargas d´água. Nem amizade, nem um sentimento, nada. Uma pá de cal, um ponto final sem nexo, feito uma história feia, proibida, sem explicação. Ela agora sabia como era morrer de amor.

E eu ali, só ouvindo.

sábado, 28 de abril de 2012

Nem uma brisa

O vento soprou forte no final daquela manhã e, por detrás das montanhas, nuvens se aglomeravam e desciam sob as encostas anunciando mais uma frente fria. Quem mora na zona norte ou no subúrbio do Rio de Janeiro e tem como barreira o Maciço da Tijuca, onde ficam as antenas de tevê e rádio do Sumaré, quando vê as nuvens chegando, muitas vezes tem a impressão de que o cume dos morros está coberto por neve. Ou flocos de algodão. Chega a ser bonito. E o barulho que fazem as rajadas de vento, como se soprassem gritos agudos invadindo todas as frestas, derrubando árvores, postes, levantando a poeira a cada cruzamento ou esquina. 

Do outro lado da calçada uma menina linda corre assustada na ponta dos pés, num misto de balé e malabarismo, pois ao mesmo tempo segurava a saia, os livros, a bolsa a tiracolo - que teimava em voar feito pipa - e desviava de quem porventura viesse em sua direção. Com os olhos cheios de terra trazida pelo vento ficava difícil enxergar e a menina, com as pupilas dilatadas, lindas, tentava segurar o choro. Ela tinha pavor de ventania.

Dois quarteirões a frente, a marquise de um edifício alto com grandes portões de ferro pintados recentemente, servia de abrigo a uma dezena de pessoas. Algumas gotas de chuva pesada já começavam a cair. Galhos secos, sacos plásticos, caixas de papelão, latas de cerveja e jornais velhos voavam como se tivessem vida, traçando rasantes. A menina linda tinha conseguido chegar até ali debaixo. A saia já comportada, o cabelo desarrumado, a pele suja, os livros meio que amassados e a bolsa ainda fora de lugar. A vista ardia, a respiração parecia menos ofegante, mas o vento ainda castigava e aquele espaço sob a marquise ia diminuindo a cada instante. Gente de todos os cantos ia chegando na tentativa de se proteger daquele capricho repentino da natureza. Raios e trovões ainda completavam o pesadelo daquele final de manhã. Ela estava assustada a menina linda.

A noite anterior não tinha sido das melhores. Estivera na casa da sua mãe. O pai havia morrido há poucas semanas e a viúva estava inconsolável com a perda. Há dois anos a doença veio arrasadora e levou daquele homem outrora forte toda a musculatura e a alegria de se saber vivo. Deixou-se dominar pelas dores e as articulações que travavam-lhe os movimentos mais sutis. Ela nunca sonhara em perder o pai tão cedo. Não que fantasiasse a imortalidade dos super-heróis, pois desde muito pequena tivera noção de que tudo tem um fim. Mas a imagem que sempre fizera do pai era a de um homem forte, corajoso, de voz grossa, sorriso largo, generoso. Ela achava o pai lindo, mesmo que já lhe faltassem cabelos, mesmo que a barba fosse branca e cada vez mais rala, mesmo que as rugas formassem sulcos em seu rosto e a pele soltasse de seus braços outrora tão ativos. Gostava de ouvir as histórias que o pai contava e sentiu uma saudade imensa de quando ainda criança o pai a embalava até que pegasse no sono. A mãe também amava aquele pai e o queria para ela mais que tudo. Disputava com a filha a atenção do marido praticamente desde que a menina nascera. Ela era uma linda menina. Tão linda quanto a mãe um dia também fora.

Na noite que antecedeu a ventania mãe e filha conversaram sobre coisas que nunca haviam conversado antes. Falaram da vida e do quanto foram felizes antes da doença do pai. Dos ciúmes que a mãe sentia dela quando o pai fazia suas vontades, da raiva que tinham uma da outra quando discordavam de um assunto qualquer, do orgulho de terem vencido as dificuldades que o dia a dia apresentava, da vez em que a filha torceu o pé e o pai a carregou no colo por cinco quarteirões até chegar em casa e aplicar compressas com gelo e do cheiro do perfume que o marido trouxera para a mulher de sua única viagem à Europa. A mãe guardava o frasco até hoje como se fosse uma relíquia, um talismã. A filha amava o cheiro daquele perfume e só de falar nele podia sentir todo aquele aroma de volta.

Falaram também das contas e das dívidas que o pai deixara. A doença consumiu todas as reservas, que não eram muitas. Só restou o apartamento no Andaraí, que estava com o condomínio há meses atrasado. A sociedade no botequim havia sido desfeita. Precisavam daquele dinheiro. A pensão que o pai deixou não ia dar para arcar com todas as despesas. A filha nunca trabalhara antes. A mãe ajudava no balcão do botequim e, com sorte, o ex-sócio do marido talvez precisasse de seus serviços. Ia ajudar a reforçar o orçamento. A menina linda ia ter de arrumar um emprego e esquecer os planos de ir morar na França, fazer intercâmbio, conhecer outras culturas. Deixa isso para mais tarde, quando as coisas melhorarem, você não vai querer me deixar sozinha, vai?

A filha não sabia o que responder. Chorou não por saudade do pai, mas por perceber que a vida estava lhe dando uma rasteira, que suas vontades não iam prevalecer desta vez, que era hora de esquecer os sonhos, que a vida real é muito dura e que o destino é traiçoeiro. Ela tivera noção ali naquela noite dos limites que se impõem à nossa vontade e, como um soco na boca do estômago, se deu conta da dor que a invadia. Levantou, foi até a cozinha, bebeu um copo d´água gelada, perguntou se a mãe queria. A mãe, que àquela altura não sentia sede, não sentia fome, não sentia nada, sequer respondeu. A filha não insistiu. Bebeu sua água, voltou para a sala, abriu a janela.

Nem uma brisa.

quinta-feira, 19 de abril de 2012

A porta do deserto

Ele só queria chegar até ao deserto.
Pisar na areia seca sob o sol forte a queimar-lhe a pele.
As rachaduras na carne a sangrar-lhe as feridas
e as cricatrizes que não fecham e ainda ardem como na hora do corte.

Por que ele vai sozinho, feito quem vai embora para sempre?
Nem mesmo olha para trás, segue em frente sem saber do que ficou.
Parece forte, mas é frágil como são frágeis os que não têm proteção.
Há muito tempo pararam de orar por ele. E seus olhos, tristes.

Menino solto na vida, que prende o choro, se engana, se encobre,
corre, desce, muitas vezes até esquece o quanto deixou se perder.
Lembra do que não lhe foi permitido, dos amores proibidos,
da razão que se fez grave em seus ouvidos, do pouco que falou quando foi feliz.

Ele mesmo quis se desfazer.
Tentava de todo modo esquecer, mudar o rumo da prosa, desaparecer.
Sem que ninguém o procurasse ou ao menos lhe desse falta,
a falta que só ele sentia.

No meio do caminho ele já não se reconhecia,
sequer sabia onde é que aquilo ia dar.
Estava fadado a dor, ele dizia.
Minha ou sua.

Porque eu também fiquei sozinho, pés descalços num chão frio,
o piso incerto, o passo em falso, a dor de me saber vazio.
Há dentro de mim a angústia do desencontro e meu pranto é tanto
que eu nem sei se conto.

Porque eu também sou frágil, embora não pareça.
Versos delicados insistem em me visitar.
Rimas preciosas, vaidosas, difíceis até, me arrancam de mim.
É quando então me sinto mais só.

Eu sou o deserto.

sexta-feira, 23 de março de 2012

Pudera eu também falar

Dentro de mim há um parlatório,
Um desfiar de rosários, uma ladainha sem fim.
E os pensamentos em corredeiras,
penhascos, esquinas, ladeiras,
a percorrer cada canto
sobrevivendo como que por encanto
ao doce veneno do pranto
que melancolicamente escorre daqui.

Apenas ouço o que eles me dizem
mas não entendo muito bem o que eles querem.
Muito menos o que eles fazem.
São poetas a perderem tempo,
a vagabundearem por aí,
lapidando frases no mural da minha cabeça,
aquarela a derramar suas cores,
amores que eu jamais esqueci.

Gosto quando só o que resta é a palavra.
A fala bem marcada pela sílaba mais tônica
na voz solitária e doce de um cantador
que rima na lembrança o som daquilo que um dia se perdeu
na conversa que ficou eternizada no fundo da memória
afetivamente solidária, história escrita por diversos eus
que me revelam o significado do que jamais foi dito.
Repito: escrever, por vezes, me dói.

Pudera eu também falar.

sábado, 17 de março de 2012

Os poetas também morrem

Não sei quanto tempo ainda vou ficar por aqui.

Ele também não sabia.

Entretanto, conhecia ele o exato instante da palavra,
a urgência da frase ainda sequer escrita,
latente em suas ideias,
fremente em suas andanças,
firme em seus pensamentos traduzidos entre tantos versos
entreouvidos no murmurar da noite
reverberados, reinventados, alucinados até.

Sobe nas mesas e declama o texto de improviso
do orador de tantas vozes que se calam
num momento em que tudo para,
em que a gente dança no palco em que se cospe e se envenena
a lucidez que paralisa e bloqueia a fantasia,
e deixa então de ser real para se tornar poesia.

Corta, poeta.

Sangra em minha carne a tua vontade.
Faz de mim o verbo mais que imperfeito
E cicatriza na minha pele o gosto da tua verdade.
Antes que eu morra e tudo que eu fui desapareça
feito comida de traça no fundo do armário
ou o pó na estante que me serve de abrigo,
eu não ligo, apenas costuro o que você rascunha.

Então, rasga, poeta.

Esgarça, procura e provoca a minha inquietude.
Porque eu sei que também vou embora qualquer hora dessas
cedo ou tarde eu não vou me importar
e que seja em pleno caos da madrugada
sob a luz da tua retina descortinada sobre minha pele,
tua mão a me tocar de leve
e tua voz a me dizer não vá não vá não vá.

domingo, 11 de março de 2012

Deslizes são fatais

O ano era 2008. Eu estava em Juiz de Fora fazendo mais uma campanha politica e não pude acompanhar atentamente a eleição para a prefeitura do Rio de Janeiro, mas óbvio que eu sabia muito bem quem levaria meu voto. Meu candidato - tanto o de Juiz de Fora quanto o do Rio de Janeiro - conseguiu levar o pleito para o segundo turno e segundo turno é outra campanha, completamente diferente, com outra dinâmica, ainda mais estressante, especialmente para quem foi pago para ganhar a eleição. Eu elegi meu candidato.

O de Juiz de Fora. O do Rio não.

Numa campanha politica uma série de fatores é responsável tanto pelo sucesso quanto pelo fracasso do candidato. Desde a empatia com o eleitorado e a diposição de se tornar popular à firmeza de um bom discurso político, consistente, propositivo, sério, livre de preconceitos. Coisa cada vez mais rara. Até porque, o ser político nos dias de hoje, é provido de descrença e de desconfiança e desprovido de moral. Não vou me arriscar aqui a dizer que ao ser político de hoje em dia também falta ética, porque ética tem a ver com caráter e caráter, a gente sabe, é inerente ao ser humano. Todos têm. Seja ele bom ou ruim. E não me cabe aqui julgamento algum.

Em Juiz de Fora eu conseguia ver qualidades no meu candidato. Ele havia sido considerado o melhor secretário de desenvolvimento social do país no ano anterior, tinha um discurso sério, nunca me pareceu leviano e se mostrou com uma enorme disposição de fazer uma campanha onde ele tivesse um contato mais direto com o eleitor. A camisa social azul e o paletó deram lugar a camisas pólo e muita sola de sapato. Nossos programas eram basicamente gravados em externas, numa agenda de apresentação de propostas feita com a participação popular. A boa capacidade de improvisar do candidato aliada a um roteiro de gravação pré-estabelecido com a equipe deu certo e aquele político com fama de elitizado viu que tinha potencial para se tornar o preferido do povão. Assim foi feito.

Do quarto lugar nas pesquisas para o cargo de prefeito foram quase quatro meses de intenso trabalho. Não me arrependo de nada do que fiz naquela campanha. Tudo o que foi ao ar, e que levava minha assinatura, tinha verdade. Os textos, as edições, nada foi manipulado para encobrir um mal feito ou uma mentira. Todas as acusações eram rebatidas e devidamente esclarecidas. Todo o trabalho da equipe de criação daquela campanha foi feito com muita emoção, diga-se de passagem. Voltei para casa saboreando o doce gosto da vitória.

Mas meu candidato no Rio não teve a mesma sorte.

Como eu relatei há alguns parágrafos acima, segundo turno é outra campanha e qualquer deslize pode arruinar uma candidatura. E foi o que aconteceu com o meu candidato no Rio. Ao cumprir uma agenda deixou escapar na frente de um repórter uma frase que comprometeu, a meu ver, toda a sua trajetória de homem público. Na sua frase infeliz, ele afirmava que uma determinada vereadora, integrante da sua coligação, teria uma "visão suburbana" sobre a construção de um aterro sanitário e mais: que ela seria uma "analfabeta política". Moradores do subúrbio, como eu, mais preciosos que nunca para ele, de postura "Zona Sul", consideraram o comentário de um enorme preconceito. O outro candidato, claro, usou e abusou do fato, noticiado com alarde por toda a imprensa e agradece a Deus - e ao repórter - até hoje pelo acontecido.

Dois anos mais tarde este mesmo candidato tentou se eleger governador do estado. Mais uma vez não conseguiu. A derrota nas urnas não foi culpa de nenhum repórter que ao cumprir seu ofício publicou uma declaração infeliz, mas tenho cá minhas desconfianças de que aquele episódio com os suburbanos foi responsável por uma campanha sem muita convicção por parte da militância e também de sua parte. Eu, como bom suburbano, confesso que não me empolguei nem um pouco em ceder-lhe meu voto. Imagino que muitos outros pensaram como eu naquela eleição. Uma pena.

Agora, às vésperas de uma nova eleição municipal, a campanha parece ter sido nacionalizada em São Paulo. Mais uma vez uma queda de braço entre o PT e o PSDB. Lula, mesmo afastado do poder, lutando contra um câncer na laringe, continua dando provas de sua força política e impôs o nome de Fernando Haddad como pré-candidato do partido à prefeitura da maior cidade da América Latina, enquanto Serra, que carrega a pecha de candidato derrotado, depois de negar e muito fazer suspense, se apresenta como o nome dos tucanos para o cargo. Os olhos da imprensa estão virados para São Paulo porque lá a briga já começou e promete ser boa.

Aqui no Rio a situação ainda estava morna e a batalha parecia ganha. O atual prefeito é candidato à reeleição e tem a seu favor a máquina e uma agenda de eventos pra lá de positiva, além de contar com apoio de mais 19 partidos, o que lhe garante um tempo bastante significativo de propaganda na TV. Nenhuma outra candidatura havia se apresentado para a luta até que, há poucos dias, um acontecimento movimentou a imprensa e a vida política da cidade. A bela filha do ex-governador Garotinho, Clarissa, anunciou que será a candidata a vice na chapa de Rodrigo Maia, filho do ex-prefeito Cesar Maia que, entre outros legados, deixou para os cariocas um elefante branco mais conhecido como Cidade da Música, obra que consumiu uma fortuna e que ainda está inacabada. Um casamento perfeito, já que assunto, piada e, por que não?, desespero, não faltariam para, nós, eleitores cariocas.

Mas um outro fato acendeu a luz no fim do túnel da eleição no Rio de Janeiro. O mesmo repórter que publicou a frase infeliz daquele que era o meu candidato a prefeito em 2008, foi o primeiro a publicar uma matéria onde o pré-candidato Marcelo Freixo, do PSOL, conhecido por seu combate às milícias, anuncia que o seu candidato a vice na chapa será o fundador do grupo O Rappa, Marcelo Yuka, um dos artistas mais engajados da atualidade. No ano 2000 Yuka, famoso por suas composições contundentes e sempre carregadas de críticas, ficou paraplégico após levar um tiro num assalto no bairro da Tijuca e desde então participa ativamente de projetos sociais e assim como o Freixo, é dono de um discurso que, no mínimo, merece ser ouvido com respeito e atenção. É claro que ele deve estar preparado para os impropérios que irão surgir no ringue durante a campanha. Os reacionários, os moralistas, os demagogos e, lógico, os marqueteiros, estarão mais a postos que nunca e vão carimbá-lo de tudo. De maconheiro incentivador do uso de drogas a vagabundo.

Qualquer deslize será fatal.

sexta-feira, 9 de março de 2012

Eles não sabem o que dizem. Nem eu.

Ando cansado dos que nunca se cansam de falar de amor. Eles não sabem o que dizem. Toda esta teoria de que bate no peito e depois não tem jeito e que é preciso perder a razão tem um quê de loucura, o que, por si só, não tem explicação. Portanto, descarte as teorias e não perca seu tempo com quem acha que vai ditar qualquer tipo de regra. Balela. Não acredite neles. Preste atenção apenas naquilo que você experimenta com a prática, com a vivência do dia a dia, com o olho no olho, pele na pele, no arrepio e no descompasso das batidas do seu coração, revelando que você é muito mais do que poderia supor.

Mas isso se você for capaz, porque eu sei que é difícil. Para alguns é até impossível.

Tem de caminhar até a beira do abismo e preparar o salto, o mergulho profundo, a verdadeira viagem que se faz olhando para dentro ao descobrir-se infinito. Sem medo, vergonha ou pudor. Por mais que tudo lá fora um dia se acabe e perca o sentido daquilo que nunca teve um porquê. Assim como o Deus, que está morto, o amor, para existir como amor de verdade, precisa muito mais que coragem. É preciso dar um tiro no escuro, acreditar no abstrato, fugir dos conceitos pré-estabelecidos e deixar de lado de uma vez por todas os preconceitos do que é sujo, impróprio, imoral ou não é permitido. Porque o amor tudo pode.

Permita-se.

Eu, que já me permiti tantas vezes, volta e meia me pego falando de amor por aí. Mas não me dê ouvidos. Isso cansa.

quinta-feira, 8 de março de 2012

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Da arte de deixar boas lembranças

Não faz dois dias e um conhecido meu me perguntou por que é que algumas pessoas apenas passam por nossas vidas. Eu não lembro bem o que foi que respondi, mas na hora pensei na terrível dor da perda e em como é importante deixar boas lembranças a quem quer que seja, já que mais cedo ou mais tarde vamos nos ver pela última vez.


A verdade é que, muitas vezes, um simples gesto, uma frase bem colocada ou um olhar sincero de amizade podem mudar o rumo de quem, num determinado momento, está apenas passando ao seu lado.

Lembro que há alguns anos, na minha primeira campanha política, indiquei três livros a um rapaz, o Patrick, que editava os vídeos comigo. Ele gostava de tocar violão e dos meus cds do Clube da esquina. Ele era de pouca conversa, mas comigo falava pelos cotovelos. Muito provavelmente porque eu puxava assunto, como todo bom jornalista.

O primeiro livro que indiquei foi Budapeste, do Chico Buarque, que ganhei da Rachel, grande amiga, assim que foi lançado e levei para ler durante os meses que passei no interior de São Paulo. O outro foi Pilates, do Cony, que eu considero uma obra-prima e que me foi apresentado por um outro amigo, o Aldenir. A história, sobre um homem que fora castrado, em princípio meu causou um certo estranhamento, mas antes que eu terminasse de ler a segunda página, já estava às gargalhadas, completamente vidrado no texto.

Confesso que eu nunca tinha gargalhado lendo um livro antes.

O terceiro que indiquei foi Ecce Homo, uma das obras mais loucas de Nietzsche, onde o filósofo faz meio que um apanhado de todo o seu pensamento e deixa revelar o receio que ele tinha em não ser compreendido. Um texto controverso de um autor com transtornos mentais e que nunca economizou nas palavras e nas afirmações. Até hoje eu não entendo muito bem o que Nietzsche quis dizer em seus livros, mas volta e meia releio o que ele escreveu e sei que de uma maneira ou de outra aquilo tudo que está escrito é primordial para a minha vida.

Faz oito anos que não vejo o Patrick.

A última vez que tive notícias dele foi quando ele me mandou uma mensagem dizendo que não trabalhava mais como editor e que aqueles três livros que um dia eu disse para ele comprar tinham mudado a sua vida. Disse que tinha adorado os três e que Pilates arrancara-lhe crises de riso de passar vergonha dependendo do lugar em que estivesse.

Budapeste ele contou que finalizou num voo para Londres e que o livro marcou sua viagem para a terra dos reis e rainhas. No aeroporto de Lisboa ele conheceu uma brasileira que também estava lendo Budapeste e são amigos até hoje.

Quanto ao Nietzsche, ele me confessou ter sido seu primeiro contato com o pensamento científico e ler Ecce Homo foi definitivo na sua decisão pelo mundo acadêmico, vida que segue atualmente com muita alegria. Patrick me disse ainda que sem que eu soubesse acabei sendo muito importante na sua formação humana.

"Você me deu o exemplo certo no momento certo. Nunca tive a oportunidade de lhe agradecer por isso" foram as suas duas últimas frases.

Nunca mais nos vimos desde aquela campanha e até hoje tenho minhas dúvidas se posso servir de exemplo para o que quer que seja. Mas sempre que penso no Patrick tenho a certeza de que o que realmente importa são as boas lembranças.

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Algumas pessoas apenas passam por nossas vidas feito coisa sem importância, um rastro de córrego seco, um apertar de mãos efêmero, um apagar de luzes fugaz.

Tenho uma dó danada de quem apenas passa pela vida.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Eis aqui a minha palavra

A palavra é o meu reflexo,
o meu espelho.

É nela que se vê em mim o que há de mais nítido.

Na palavra eu me revelo,
Junto as frases, rimo um verso.
Simplifico o que pode ser complexo,
Traduzo, me explico, converso e troco.

A palavra me conquista.
Grifa rascunhos em mim.
Grava em meu peito escritos de sorte,
Feito tatuagem colorida,
Que alegra e cicatriza
O couro forte da minha própria pele.

Sou página em branco.
Um caderno sem pauta.
Letra morta enterrada entre parêntesis.
Uma espécie de aposto perdido nas vírgulas.

Sem nexo ou adjetivos nem verbetes que eu possa decifrar.

É na palavra que eu me mostro
Quando permito interpretar meu texto.
Folheio-me.
Leio-me.
Deleito-me.

Satisfaço meus hiatos,
Procuro sinônimos nas minhas entrelinhas,
Vou de encontro ao vocálico
Construindo monossilabicamente meus parágrafos
Até o ponto final.

Só então eu viro a página.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Assepsia

Chovia copiosamente, feito um choro incontrolável e inexplicável naquela tarde pálida de sexta-feira. Fazia frio até. De ruas vazias, silêncio, solidão, preguiça e algumas xícaras de café sem açúcar. Faltava-lhe o sono, mas não o desejo de ficar na cama entre os tragos de cigarro sem filtro, o controle remoto e as centenas de canais inúteis e fúteis da tv a cabo. Os livros na cabeceira há muito já não lhe revelavam frases sem sentido e a pele seca a coçar e a soltar dos ossos ao mesmo tempo em que os pelos que não paravam de crescer em suas narinas.

A porta do quarto estava trancada, as luzes do apartamento apagadas, o piso do enorme corredor que ligava a sala aos demais cômodos havia sido encerado ainda naquela manhã e refletia a imagem do nada. Paredes nuas, discos velhos na estante e um cheiro forte e vulgar de essência de eucalipto. Cada coisa em seu lugar meio que para dar um aspecto de assepsia moral, sabe-se lá, o clima de tranquilidade criado, artificialmente estabelecido, como se pudesse esconder para debaixo do tapete a desordem e frear o fio da meada. De nada valia.

Ao mesmo tempo sentia vontade de pegar o telefone e ligar para quem quer que fosse e dizer que agora estava tudo bem, que a tempestade havia passado e que dava pra enxergar lá longe uma nesga de esperança de que tudo seria refeito e que aquela pressão em seu peito não existia mais. Que a luta havia sido árdua e as dores lancinantes foram como aprendizado, só não se sabe bem ao certo do quê ou por quê, mas deixaram marcas profundas e capazes de mudanças inimagináveis.

Como o prédio que do nada tomba e carrega vidas entre escombros do dia a dia e se desfaz em nuvem de cimento e cal, o mundo também caía ao seu redor e lhe derrubava e carregava junto o que jamais seria. Era assim que a vida se apresentava e era assim que ela queria. Em meio a tanta inquietude e fúria, onde muitas vezes só há o desassosego da mente e a malícia do olhar e na garganta doem as palavras soltas sem compaixão, sem amor, sem sentido algum.


Poderia até mesmo confessar sem esforço o quão difícil foi chegar ao fundo do poço e perceber que não há saída, que a vida é para ser vivida de uma vez só, que a sua história não pode ser reescrita e o que foi feito, foi feito, e o que passou não tem como voltar mais. Só no baú das lembranças. Boas e ruins.

Poderia também dizer que os anseios foram suprimidos e tudo o mais foi evitado e que vai ficar guardado a sete chaves o que sequer um dia existiu. A melancolia e a tristeza lhe fizeram companhia durante todo aquele tempo, eram-lhe fieis feito duas ninfas encantadoras e apaixonadas, conscientes do mal e das delícias que trazem em si. A inspiração profunda, a loucura iminente, a sabedoria e toda aquela coisa que faz a gente se mover e procurar saber e entender o que não faz nem nunca fez sentido.

Nunca saberia dizer, porém o que sentira até então. Como de fato tudo aquilo se passou, como foi que tudo aquilo se deu. Não saberia responder ao menos em que dia se perdeu ou por que resolveu mais uma vez abrir os olhos e respirar fundo naquela tarde em que chovia copiosamente feito um choro incontrolável. Inexplicável.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Te vejo depois

Esvazie o quarto,
A sala,
A casa,
A mente,
O peito.
Mas preencha o coração.
Deixe escorrer,
Sangrar,
Pular,
Bater,
Vazar.
Ouça o que ele tem a dizer.
Sem meias palavras,
Com tantas verdades.
Pare,
Olhe,
Pense,
Preste mesmo atenção.
Silêncio.
É a saudade.
Uma voz que vem de dentro.
Um grito estridente.
Uma falta constante.
Um amor tão presente.
Tudo o mais tão distante.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Brasileia

Quinta-feira, 5 de janeiro de 2012, 16h10. O ano mal começara e eu acabava de chegar na redação do jornal onde trabalho. Dei, como de praxe, meu cordial boa tarde a todos, não sem antes cutucar uns e outros no caminho até minha mesa. Brincadeirinha inconveniente, eu sei, mas que, entre tantas, já fazem parte do meu folclore. Antes mesmo que eu sentasse para me logar no computador, minha subeditora abre seu sorriso característico, vira pra mim e diz que eu tenho a missão mais legal daquele dia: editar um vídeo.




Dias antes, o jornal havia publicado a primeira do que seria uma série de matérias a respeito da invasão de haitianos no Acre. O que eu sabia era que cerca de 1300 imigrantes ilegais vindos do Haiti haviam cruzado a fronteira entre a Bolívia e o Brasil e estavam instalados num hotel de uma cidade chamada Brasileia. Não tinha visto uma foto sequer de nenhum haitiano lá pela região Norte do país. Nem eu nem ninguém. As imagens que eu ia ver eram as primeiras a chegar na redação.




Abri minha mochila, peguei meu bloco, minha caneta, meu maço de cigarros e fui até a ilha de edição dar uma olhada no material. As primeiras imagens eram confusas, dois ou três vídeos, não lembro ao certo, de dois haitianos lavando roupa, umas panelas cheias de comida e uma tentativa de entrevista com um negro forte e de dentes muito brancos que repetia incesantemente que precisava trabalhar. Só com aquele material eu não poderia fazer nada. Eu edito, mas não faço mágica, foi o que eu disse pra minha subeditora. Pede para a Cleide arrumar uns personagens e fazer umas imagens da praça e do hotel onde os haitianos estão que é para eu poder montar uma história, completei.




Nem foi preciso. Profissional feito ela só, Cleide já tinha conseguido mais material e em pouco tempo enviou lá do Acre para a redação do jornal, na Irineu Marinho, vídeos e fotos suas e do Michel Filho, seu companheiro de pauta, que encheram os olhos de quem estava por perto na hora da edição. Eu confesso que esperava encontrar imagens do apocalipse ou a visão do inferno. Imagina? Mais de mil haitianos superlotando uma cidade escondida na região mais desabitada do nosso país não deveria ser nada bonito de se ver. Mas eu estava completamente equivocado e o que eu vi me deixou hipnotizado. A mim e à Suzane, minha parceira no resultado final de todo o material de vídeo.




Era muita imagem, de uma riqueza e de uma beleza impressionantes. Mais de mil haitianos reunidos numa praça de uma cidade típica do interior do Brasil e espremidos num hotel cuja lotação máxima era de cem hóspedes. As fotos da distribuição de pães na hora do café da manhã em pelo coreto da cidade, as entrevistas com as autoridades locais e a preocupação que tinham com a alimentação, a saúde e a situação ilegal daqueles imigrantes que chegavam ao país em busca de um futuro mais digno me fez ter a certeza de que eu poderia editar um vídeo bem interessante para o site. Vi todas as imagens, todas as fotos, todas as entrevistas e desci para fumar um cigarro e pensar num formato de edição. A generosidade do brasileiro e a esperança do haitiano foram fumar comigo.




Subi e numa afinidade única, eu e Suzane terminamos um primeiro corte em menos de duas horas. Na verdade, estava praticamente pronto, faltando apenas a abertura, uma trilha, alguns ajustes e uma ou outra imagem de fundo. A chegada, o sonho e a realidade da situação dos haitianos no Acre estavam na lata, como a gente costuma dizer quando um vídeo ou um filme ou algo do gênero fica pronto. Eu saí da edição com uma pontinha de orgulho e a certeza de ter feito um trabalho bacana e que ia ilustrar uma das reportagens mais inspiradoras que eu já vi nestes meus meus rasos anos de redação.




No dia seguinte, sexta-feira, foi a vez de mostrar o vídeo já finalizado para os chefes. Ambos aprovaram, não tinha como não ser diferente. A Cleide ligou do Acre para dizer que adorou, disse meu editor. Ela mandou um e-mail elogiando e agradecendo mais uma vez pela parceria, eu li mais tarde. Não era a primeira vez que eu editava material das reportagens dela. Já havia feito dois ou três antes e sempre com um ótimo resultado. Mas aquele, dos haitinos, era diferente. Tinha material humano o suficiente para emocionar e fazer com que o povo brasileiro se desse conta de como somos um povo generoso. Um povo que não ergue muros ou cercas elétricas em suas fronteiras. Um povo que sabe repartir o pão e que dá, mais uma vez ao mundo, este exemplo de como receber imigrantes de um país arrasado por tantas desgraças e que só querem um lugar ao sol e a chance de sobreviverem neste planeta que muitas vezes parece ser habitado pela ganância, pelo egoísmo e pelo protecionismo que exclui, fere e mata.



O vídeo foi publicado sábado à noite no site e ficou praticamente a semana inteira em destaque até que na quarta-feira chega um novo material para ser editado: mais fotos e um depoimento em vídeo do fotógrafo Michel Filho, contando como foi sua experiência no Acre. Mais uma vez eu e Suzane. Mais uma vez uma história bonita para contar. Desço sem pestanejar, costuro uma narrativa de menos de cinco minutos - o que em internet pode se transformar numa eternidade - em cima do depoimento do Michel, vejo imagens novas, aproveito outras do antigo material, digo que a trilha precisa ser emocionante. Suzane sabe tudo, faz os ajustes, cria o clima do vídeo e pronto, temos mais um na lata.



É sexta-feira de uma semana intensa e a impressão que tenho é que o ano passado ainda não terminou. Emendei a ressaca do ano novo com o plantão de final de semana e fazia 12 dias que eu entrava e saía sem descanso naquele jornal. São 16h20, estou atrasado e chego na redação louco para as horas voarem. O segundo vídeo dos haitianos foi publicado. Meu chefe está orgulhoso do material. Michel, o fotógrafo, manda e-mail agradecendo. Minha subetidora assiste e se emociona. Eu também tenho andado emocionado ultimamente, eu pensei numa fração de seguindos, mas antes precisava terminar uma matéria para segunda-feira. Vida que segue.

Vídeos:

A situação dos haitianos no Acre

O relato do repórter fotográfico Michel Filho





domingo, 8 de janeiro de 2012

A fuga sob o céu do Aterro

Ele sequer se despediu. Sumiu entre os pilotis pensando se deveria ter falado tudo aquilo que falou. Não costumava se abrir com ninguém, gostava de manter sempre uma certa distância, o que para algumas pessoas podia parecer frieza. Ele não se importava. Na verdade poucas coisas tinham importância para ele: um belo dia de sol, a poesia de Mario Quintana, a saudade que sentia dos seus pais e de seus velhos discos de vinil. Mais nada. Então por que, pensava ele, resolveu se expôr daquela maneira? Logo ele, cujo sonho era se tornar invisível, quase um desejo inconsciente de passar em branco pela vida.




Desde moleque sentia medo de se relacionar. Foi uma criança retraída, de poucos amigos, aluno brilhante e de comportamento exemplar diante de olhos tão repressores. Filho único, vivia na barra da saia da mãe e sob as regras incontestáveis do pai, um ex-militar da marinha que sempre proibiu a esposa de trabalhar. Nunca contrariou a autoridade do pai nem a subserviência da mãe. Gostava da imposição do silêncio em sua casa, pois sabia que assim nunca seria obrigado a falar mais que o necessário. Se havia coisa que o incomodava era gente que falava demais.



Um dia ele se deu conta de que o amor também o incomodava. Na verdade, o amor o agredia. Nem todos os romances que devorou na solidão do seu quarto ou as centenas de filmes que gostava de assistir desacompanhado, aos sábados, na sessão das cinco no cinema em Botafogo foram capazes de despertar qualquer sentimento mais nobre a respeito de uma relação a dois. Sexo? Ninguém precisa de amor para se satisfazer sexualmente, ele dizia.



Era jovem ainda, vinte e oito anos, e já sabia vestir armaduras. Pouco sorria e nunca se deu conta de seus olhos tristes. Mas ela sim, desde que o viu pela primeira vez, ao entrar na repartição quase que imperceptivelmente para começar no novo trabalho numa manhã ensolarada de março, revelando toda a fragilidade que só os mais sensíveis são capazes de perceber. Aquele rapaz que parecia tão sério, tão alheio a tudo e a todos, na verdade também percebeu que ela existia. Pouco a pouco ele foi se aproximando dela, fosse para tirar alguma dúvida ou prestar algum serviço. A pausa para um café, uma ou outra gentileza e em menos de uma semana já saíam para almoçar juntos.



Não demorou muito e combinaram de assitir a um filme na cinemateca do MAM no final se semana. Um filme francês que ele nunca mais lembrou o nome porém nunca mais esqueceu do que sentiu ao deixar seu braço encostar no dela desde o início da sessão. Suas mãos gelaram enquanto o fogo tomava conta do resto do seu corpo ali mesmo naquelas cadeiras desconfortáveis da sala de cinema e ele foi capturado por um desejo de que aquela história nunca mais terminasse e que os personagens na tela congelassem e que aquele roteiro durasse por toda a eternidade. Mas na vida real tudo acaba, ele sabia.



Depois do cinema foram andar pelos jardins do museu, dividiram uma água de côco num quiosque de frente para a baía de Guanabara. Conversaram um pouco. Amenidades. Ela gostou do filme. Ele disse que também havia gostado. Já estava anoitecendo e o céu parecia tingido de rosa. A cor do amor, ela falou. Ele não respondeu. Fingiu que não ouviu, disse que precisava voltar para casa, tinha uns textos para ler e outras tantas coisas a fazer. Disse também que ele não deveria estar ali, que tinham feito tudo errado, que eram apenas amigos de trabalho e que não poderiam misturar as coisas. Deixou escapar que não acreditava no amor, que nunca iria se apaixonar, não queria saber de relacionamento sério e que nada iria afastá-lo de seus objetivos, mesmo que ninguém nunca soubesse que objetivos eram esses.



Foi então que ele pediu que ela fosse embora, que nunca mais falasse com ele, que fingisse que ele não existia, que nunca se conheceram. Ia tentar uma transferência para Brasília na segunda-feira, há muito já pensava nisso e que ela deveria odiá-lo e jamais lembrar dele como alguém que precisasse amar e ser amado porque isso não era verdade. Ela permaneceu calada, sem entender tamanho destempero, já que há poucos instantes parecia estar tudo bem, eles estavam se conhecendo, havia sido uma tarde agradável, um programa interessante, um lugar lindo, uma sensação boa até. Quando ela poderia imaginar que ele teria tantos problemas e neuroses e que fosse capaz de lhe dizer tantos impropérios? Logo para ela, que desde o primeiro dia se mostrou inteira, disponível, solidária, um porto seguro em meio ao absurdo que muitas vezes é a vida naquela repartição.



Ele não quis saber. Virou-lhe as costas e foi embora. Ela ficou ali sozinha, parada, vendo as luzes da cidade se acenderem sob o céu do Aterro enquanto ele desaparecia. Em poucos minutos não havia sequer sua sombra. Não havia nada. Nem ele, nem ela, nem ninguém. Tudo se dissolvia. O fim antes mesmo do começo. O medo. A incerteza. O desequilíbrio. A loucura. O amor. O sonho. A fantasia.

sábado, 7 de janeiro de 2012

O fio da navalha

Corta-me a carne em segredo
Só então depois desliza sua mão em minha alma.
Descobre se há em mim algo por inteiro,
Um pedaço do que sobra,
Um retrato do que eu fui,
O rascunho, não a obra.

Sustenta meus ossos.
Suporta o meu peso.
Fecha os meus olhos.
Me enche de beijos.
Dá cá suas entranhas.
Dia desses tive muito medo.

Rasga meu peito de uma só vez,
Desacelera o coração que me apavora,
Põe pra fora o que ele verdadeiramente sente.
Quem foi que disse que homem não chora?
Grita anestesiadamente.
Eu ando mesmo meio rouco.

Antes, me diz, sou louco?
Seja breve no diagnóstico
Porque sei que de médico todos temos um pouco.
Ainda te peço uma coisa: seja preciso quando for me falar.
Feito o fio da navalha.
Aquela com a qual você vai me cortar.

domingo, 25 de dezembro de 2011

Depois que tudo termina

Há algo de único na vida.
Um caminho traçado,
um risco iminente,
o que se faz consciente,
com o que restou do passado,
e o que se quer do presente.


Há algo de lindo na vida.
Uma inquietude perene
feito a saudade que fica
de alguém que se vai para sempre,
ou de brindar aos que chegam,
porque tantos outros ainda estão por vir.


Há os que não querem partir,
há os que se sabem distantes,
os que se fazem ausentes
e desaparecem aos poucos.
Misturam-se na poeira do dia
indiferentemente.


Procuro.
Encontro.
Divido.
Multiplico.
Explico.
Explodo.

É tudo muito rápido na vida.
É como piscar os olhos
Ou estalar os dedos
E quando se vê, tudo escapa.
termina,
acaba,
finda.

Assim é a vida.

Não morro de medo da morte.
Mas quem sabe eu tenha sorte
e me faça imortal, posto que já fui imoral,
rei, réu, vítima, culpado,
testemunha da minha única história,
condenado de um só tribunal?

Há algo de mágico na vida.
Um movimento incessante,
uma amplitude interessante,
que nos inspira e nos renova
e nos recicla e nos refaz e reanima.
O recomeço depois que tudo termina.

Num instante.
Em poucos segundos,
questão de minutos,
horas,
meses,
anos.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Feliz Natal pra você e pra mim

Esta semana li no perfil de um pseudoamigo meu numas destas redes sociais a brilhante frase: "Natal é o momento em que todos são falsos consigo mesmos". Aquele surto de pseudointeligência me chamou a atenção. Confesso que volta e meia publico umas frases meio absurdas, na tentativa de também ser pseudointeligente, mas aquela, em especial, eu li, reli, li mais umas tantas vezes e não entendi muito bem o que ele quis dizer. Ou talvez tenha entendido tudo, sabe-se lá. A verdade é que eu, particularmente, gosto de Natal. Talvez porque ainda tenha filhos pequenos, e agora um neto, e enxergue neles muito do meu passado e das noites de Natal felizes que eu vivi na casa da minha avó Altair na minha mais remota infância, não sei. Só sei que gosto e pronto. Mas reconheço e respeito aqueles que não veem graça nesta data, talvez por considerá-la comercial demais, onde deixa-se de lado o verdadeiro significado do que é a noite de Natal e passa a valer apenas a figura caótica do bom velhinho derretendo dentro da fantasia e toda aquela correria pelos presentes e os shoppings lotados, as filas quilométricas dos supermercados, os preços absurdos e toda aquela gente se esbarrando nas ruas enquanto a juventude se bronzeia na praia lambuzada ao sol de 40 graus e as cariocas cada vez mais gostosas e quase nuas feito as índias de outrora e os marombeiros, os 'legalize', a playboyzada e a rapaziada reunida em cada esquina, sem camisa, um calor danado, o churrasco de final de ano, a cerveja no boteco, a caixinha dos porteiros, o bolão da mega-sena da virada, a saudade apertada daquele que você não encontra mais, a receita do pernil, um bom vinho, o bacalhau, as rabanadas, noite feliz.



Não.



Talvez seja melhor mesmo remoer aquela mágoa que existe entre os entes queridos da sua família e relembrar o incômodo daquele parente distante que só aparece nestas épocas e sempre com o mesmo assunto irritante. Pode ser o tal primo problemático, filho daquela sua tia histérica, viúva rica deslumbrada e que acabou de se mudar para uma mansão lá pelos lados da Barra e que o tempo todo não para de repetir que morre de medo de passar pela Linha Amarela depois das nove da noite e que sabe histórias terríveis de sequestros-relâmpagos com mulheres que dirigem sozinhas, ainda mais com o carro que ela tem agora, um importado coreano, tração nas quatro rodas, câmbio automático, computador de bordo, dvd e entrada usb, seu presente de Natal. Tem também toda aquela obrigação de estar sorrindo e desejando os melhores votos quando na verdade você acha aquilo tudo um saco e quer mais é que tudo se acabe pra você poder ficar sozinho, quieto no seu canto, sem falar nada e sem querer saber de mais ninguém.



Tudo bem.




Eu vou trabalhar neste Natal. Ano passado também trabalhei. Por incrível que pareça, não vou contrariado. Não é novidade para quase ninguém que eu detesto plantão, mas vida de jornalista é assim e eu já meio que me acostumei com toda esta urgência das notícias do dia a dia e de toda a agitação e tensão que é o trabalho numa redação de um grande jornal. O mundo realmente não para e as coisas acontecem a cada instante numa velocidade cada vez mais estonteante, on-line, on time, full time. Não é só porque é noite de Natal que vai ser diferente depois de um ano inteiro entre quedas de ministros, escândalos do governo Dilma, manifestações anticorrupção, faxinas, herança maldita, privatarias, o câncer do Lula, o do meu sogro, a morte da minha tia e também a do Sérgio Britto e do Joãosinho Trinta e da Cesária Évora todos no mesmo dia. Não. Pelo simples fato de ser noite de Natal estarei contente. E não estarei contente por obrigação, não carregarei o meu sorriso largo como um peso, um fardo, uma farsa, porque mesmo que alguma coisa me aborreça, que alguma eventualidade aconteça, vou sair do jornal a tempo de encontrar com algumas das pessoas que eu mais amo porque graças a Deus eu tenho amor para dar e vender e distribuir e semear assim mesmo sem pausa porque seja lá o que for é o que faz a minha vida ter mais sentido mesmo que tudo ao meu redor muitas vezes me diga não.




É o amor que me faz ser verdadeiro e é o amor que eu celebro nas noites de Natal. Não sou um seguidor fiel, puro e casto de religião alguma mas tenho sim minhas crenças e minhas falhas e meus pecados, confesso. Não sou perfeito mas minha fé é inabalável. Tudo vai dar certo no final desde que haja amor, eu penso, e lembro que há dois mil e onze anos nascia um cara que conseguiu decodificar um pouco este sentimento que chamamos amor e até hoje aquilo que ele pregava, as palavras que ele dizia, aquela parte da verdade que ele trazia estão vivos embora algumas vezes o homem pareça não se dar conta e prefira se esconder na falsidade de sentimentos que nada têm de nobres e esquecem e magoam e ferem e matam o amor.



Nas noites de Natal eu não sou falso comigo mesmo, como dizia a tal frase do meu pseudoamigo. Nunca fui. Nas noites de Natal, como nas outras noites do ano, eu sou verdadeiro. Porque eu só quero amor.



Pra você e pra mim.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Diagnóstico

Tudo o que há em mim sangra.
Escorre.
Vaza.
Molha.

Dói o corte abrupto que eu mesmo abri em minha pele.
E me expus carne.
E nervos.
E ossos.

E só.

Eu me esvazio.
Eu me mostro.
Eu falo.
Eu rio.

Eu ainda choro o que não cicatriza da ferida aberta.
É o tipo do mal que não há remédio.
Doença sem cura.
Loucura.

Na certa.

sábado, 10 de dezembro de 2011

Porque tudo se acaba

Se eu pudesse escrever sobre mim agora, no que penso e vivo exatamente neste momento, ou se eu tivesse o poder de me expressar como fazem os literatos, eu tudo contaria. Mas desconfio que não teria tamanha capacidade nem talento para fazer com que o que eu pense ou diga ou faça seja entendido por quem porventura lesse tal texto. Talvez eu viesse a ser mal interpretado e ficasse suscetível a análises e julgamentos rasos daqueles que acreditam que existe uma fórmula para viver e que a vida nada mais é que uma equação racional. Pode ser até que eles estejam certos, já que creem ser assim, mas eu não creio. Não que eu suponha que a vida para eles seja simples ou rasteira porque sei que não é. Ela pode até ser uma equação, porém irracional e no sentido literal da palavra, ou seja, desprovida de razão. Portanto, nem eu nem eles nem ninguém têm razão. E só o simples fato de eu perceber tamanha irracionalidade na vida me deixa cada vez mais preso à ideia de que não tenho amarras. Eu, longe de qualquer razão, sou livre.



Andei relendo Nietzsche e toda aquela soberba, toda aquela autoconfiança, todo aquele discurso existencialista fizeram com que eu me descobrisse ainda mais inteligente do que eu acreditava ser. Assim como o filófoso alemão, eu sei que sou um ser superior, que tenho dentro de mim todo um potencial infinito de transformação, de criação e de sabedoria. E quando digo que sou um ser superior, não é por falta de humildade ou qualquer coisa que o valha. É por uma simples constatação mesmo. E isso não me torna uma pessoa diferente de ninguém, não faz com que eu mude meus hábitos ou me considere num patamar acima de quem quer que seja. Não é isso. Mas é justamente por ter esta consciência que me diferencio. E me diferencio de mim mesmo, como se eu soubesse onde termina e onde começa aquele que é o outro em mim. Porque na verdade, a diferença maior é com aquele outro eu que eu era há poucos segundos e que eu sequer cheguei a conhecer muito bem. Nem ninguém.



Não sei quantos eu já fui e muito me assusta saber quanto tempo eu perdi tentando ser outros tantos que eu jamais seria. Assim como me assusta saber que mesmo sendo irracional e por este motivo, livre, a vida me impõe alguns limites. Logo eu, que tanto prezo o infinito das coisas, me vejo limitado a um só corpo, preso entre braços e pernas e movimentos lentos e por vezes até coreografados, ensaiados, meio que repetidos à exaustão. Porque mesmo que eu abra bem meus olhos e exercite todo o poder da minha visão, jamais enxergaria nitidamente o que a vida poderia me mostrar em sua plenitude. Daí que me sinto cego, impotente, fraco, humano demais. Mas se fecho meus olhos, aí sim, me enxergo de verdade. É quando vejo o que há de mais bonito e então encontro um amor sem limites, uma vontade sem tamanho, uma alegria imensa que supera a dor de me saber único e solto num ciclo ininterrupto mesmo que lá fora tudo se acabe.




Há um ser infinito dentro de mim.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Preferências

Gosto do sorriso largo daqueles que mostram o siso sem receio,
Dos que gargalham e se encontram imperfeitos por inteiro,
sem medo.
Distancio-me do que fere e reflete a alma cheia de espinhos
que afasta, repulsa, expulsa de mim a alegria
rouba-me dia a dia.
Inquieto, fico em silêncio durante a noite que revela minhas sombras
Até deixar-me sem pudor entre tantas dores
de amores.
Danço conforme a música que eu ouço do samba das meninas
E da falta que me consome o compasso em que tropeço
um gesto em falso.
Um corte que não cicatriza na ferida exposta que ainda sangra,
No talho profundo do que sinto de saudade do que falta
do vazio.
Do oco.
Do eco.
Do louco que reverbera em mim
E grita palavras de ordem desordenadas em frases sem destino,
Buscando o verbo solto entre conjugações perdidas.
Qual a forma mais bonita.
Sonoridade.
Plasticidade.
Estética perfeita
Do amor desfeito entre lençóis e o suor da carne que arde
Por quem queima a brasa dos que se iludem
e jamais esquecem.
E erram.
E não se escondem.
E se entregam com fé
Porque sabem que é preciso vestir a fantasia da vida
e sair por aí.
Despidos de si.

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

cego surdo mudo

é como se a imagem fosse desfocando aos poucos
desaparecendo contra a minha vontade
sumindo do meu campo de visão
para sempre.

feito a água que evapora com o calor
ou o barco que se deixa levar no horizonte
sobre as ondas que ainda escorrem em minhas mãos
e o sal que eu limpo em minha pele

Lentamente.

se eu pudesse doutrinar o vento
confiaria a ele a minha voz
um novo canto ele sopraria
estancaria então meu pranto

se eu fizesse do vermelho o branco
pintaria as nuvens de aquarela escarlate
desenharia o leite derramado
entre seios e braços numa tela qualquer

Displicentemente.

faço então só o rascunho
o traço rabiscado na parede
quadro negro onde um dia o giz apaga
a imensidão do mar onde o meu amor se afoga

meus olhos náufragos já não o veem.
há muito que não lhe ouço.
carregou com ele as tintas, os versos e algumas tantas palavras.
foi então que fiquei mudo.

Conscientemente.

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Ainda dá tempo?

Não é de hoje que ele trava uma enorme batalha contra o tempo. Já há alguns anos ele se dera conta de que vivia num mundo acelerado, corrido, tenso. Um mundo onde os segundos são preciosos e num piscar de olhos passam-se os dias, os minutos, os meses, a vida, enfim. Toda esta efemeridade o fazia pensar na distância que percorrera até aquele momento, na sua trajetória, naquilo que construiu, naquilo que viveu, nas pessoas que amou, nas que não tiveram coragem de amá-lo e nas outras tantas que deixou para trás. Ele procurava não se arrepender do que fizera de errado no passado. Poucas coisas ele considerava erradas, aliás, mas tinha uma enorme vontade de acertar dali para frente. Um misto de ansiedade e medo o acompanhava desde sempre e talvez fosse isso o que dificultava ainda mais as suas escolhas, ele pensava. Já havia tentado a ioga, a meditação transcendental, seitas esotéricas, centros de umbanda, candomblé, magia negra, igrejas evangélicas, chás alucinógenos e drogas, muitas drogas. Nenhuma pior que o cigarro, de certo. Mas o fato é que ele já experimentara de tudo. E continuava sem entender nada.


Eu também entendia muito pouco do que ele dizia.


Há coisa de duas semanas ele chegou na repartição calado. Seus olhos estavam inchados como se tivesse chorado ou então vitimado por uma alergia braba. Conjuntivite? Perguntei e ele não respondeu. Fez que não ouviu. Sequer esboçou reação. Passou a tarde inteira mergulhado nos processos, assinando petições, lendo cláusulas de contratos entre um gole de café e respiração ofegante, como se estivesse exausto. Desceu umas duas vezes para fumar, meio contrariado, é verdade, já que não conseguia se livrar daquele vício. Nem dos outros que só ele sabia quais eram. Não saiu para almoçar, não pediu o lanche, como de hábito, e nem ao menos levantou para beber um gole d'água. Os colegas estranharam aquele comportamento, mas como aquela repartição não era lugar para se fazer amigos, ninguém teceu longos comentários. Apenas um olhar ou outro meio que perguntando na surdina o que poderia estar acontecendo. Mais nada.

Eu também preferi ficar calado e agilizar o meu trabalho.


As horas pareceram se arrastar naquela tarde e a impressão que eu tive era a de que os ponteiros do relógio que repousava em cima da minha mesa estavam congelados. Só aos poucos a repartição foi ficando vazia e um até amanhã aqui e uma boa noite ali denunciaram o passar do tempo. Quando me dei conta eram mais de 20h e só restávamos eu, ele e a secretária, dona Cleonice, uma mulata de corte sensual, que retocava a maquilagem ali na nossa frente, o mesmo gestual que repetia há quase 15 anos para deixar bem claro que chegara a sua hora. Eu também já não tinha muito mais o que fazer por ali, apenas precisava enviar alguns e-mails para meu assistente e conferir os itens que deveriam ser entregues na manhã seguinte quando passasse o rapaz do primeiro malote. Dona Cleonice deu umas borrifadas de perfume barato no pescoço e se despediu. Eu comecei a recolher a papelada em cima da mesa, a fechar minhas gavetas e percebi que ele também já se preparava para sair. Foi quando ele perguntou numa voz soturna
se eu poderia lhe ouvir um minuto.


Não pensei duas vezes e disse que sim, claro, eu poderia ouvi-lo o tempo que fosse, respondi.


Um breve silêncio se fez entre nós até que um rosário de lamentos e frustrações foi sendo desfiado pouco a pouco bem ali na minha frente. Aquele homem se revelava frágil, sozinho, tenso, preocupado, querendo se livrar das amarras, tentando a todo custo ser um espírito livre, humano, ele dizia. Tão demasiadamente humano que ecoou dentro de mim feito a filosofia das realidades eternas e verdades absolutas que um dia li e muito pouco entendi num livro do Nietzsche. Ele discorreu sobre metafísica e tudo o mais que supunha incompreensível, sobre a existência ou a farsa de Deus, sobre as limitações da vida, sobre a certeza da morte e se havia mesmo o tal do destino. Eu estava mudo, porém atento a todas aquelas palavras proferidas com tamanha sinceridade ali, no meio da noite, naquela repartição vazia, por um homem que lutava para se libertar e enfim se descobrir.


Eu prestei muita atenção no que ele disse, confesso.


Ele falava de uma maneira bonita, apesar de toda a melancolia. Ele parecia ter todas as respostas que eu mesmo buscava para mim. Eu, sempre tão inconformado com a minha origem humana, que nunca entendi ao certo o por quê de tantas atrocidades e tanta ignorância cometidas pela minha raça, me peguei ouvindo aquilo tudo como se fosse eu mesmo falando em frente a um espelho. Como se aquela voz que dele saísse fosse a minha voz interior reverberando, martelando, despertando ideias adormecidas lá no fundo da minha mente. E ele também falava sobre o amor, sobre perdas, sobre a saudade, sobre o papel de cada um na sociedade, sobre representar uma personagem, ilusões, fantasias, escolhas e mais todas essas coisas que nos deixam meio apreensivos quando paramos para refletir de verdade. A maioria de nós apenas passa pela vida, deixa o tempo correr e nunca para para pensar. Feito máquina de comer, processar e cagar. E vive assim até morrer porque é mesmo muito mais cômodo não pensar, ele afirmava categoricamente com todas as letras. É muito mais fácil aceitar a vida da maneira como ela se estabelece e se apresenta. Por que ir contra ao arroz e feijão de cada dia, ao papai e mamãe no escuro do quarto aos finais de semana, ao contracheque magro no final do mês se tudo parece tão certo, tão seguro, tão prontamente estabelecido?


Ele não queria mais nada daquilo, ele dizia.



A única coisa que ele realmente queria era ter tempo. E o tempo, como ele mesmo já dissera outras vezes, parecia voar, como se escapasse de suas mãos. O tempo o deixava apavorado porque era a única coisa que ele sabia que não teria volta. Passa, escorre, apaga, enterra, esquece. Não dá para interromper o tempo. Nem com todo o esforço humano. Nem com a ajuda da Ciência. Nem com reza forte. Nem nada. Foi quando, de súbito, ele parou de falar. Não olhou mais em meus olhos. Baixou a cabeça. Guardou algumas pastas. Fechou as gavetas e se despediu com um aceno, sem esboçar nenhuma palavra. Eu também não consegui falar nada.

Naquela noite eu voltei para casa andando mais devagar e pensando no tempo que ainda me restava.

domingo, 20 de novembro de 2011

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

De tempos em tempos

O tempo apaga
O tempo muda
O tempo leva
O tempo jaz

O tempo cura
O tempo vira
O tempo segue
O tempo vai

O tempo vem
O tempo traz
O tempo lento
O tempo voa

O tempo todo
O tempo à toa
O tempo bom
O tempo certo

O tempo inteiro
O tempo passa

Tempo é dinheiro

O tempo ultrapassa
O tempo urge

O tempo surge
O tempo foge
O tempo para
O tempo acaba

Dê tempo ao tempo

(agora leia de novo, desta vez mais rápido)

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Respostas

Faz tempo que eu venho procurando em mim determinadas respostas para sabe-se lá quantas perguntas. De uma hora para outra minha mente se tornou um campo fértil para inúmeros questionamentos que brotam incessantemente. Se antes eu dormia pouco, agora durmo menos ainda. A insônia chega junto comigo do jornal quase que todas as noites. É a companheira, cúmplice e testemunha mor das minhas eventuais angústias. E angústia, você bem sabe, é um desassossego só. Traz o cansaço, o desânimo, a inquietação. Um passo e você entra em depressão. Loucura.

Há mais ou menos seis meses que faço análise. Tem sido um processo prazeroso e ao mesmo tempo doloroso, sofrido, tenso até. Se por um lado eu consigo ter clareza naquilo que eu sou e naquilo que eu um dia fui, é barra pesadíssima reconhecer que este eu - que agora já se entende como vários - não tem certeza do que virá a ser. Muito provavelmente este eu já não é o mesmo de alguns minutos atrás porque a cada segundo este eu me descobre em nuances diferentes. Outro dia mesmo me vi diante de um espelho e o meu analista ali do meu lado, pedindo que eu me aproximasse cada vez mais daquele que eu via no reflexo. De longe eu era bem diferente daquele de quem eu chegava perto. E ao pedir que eu me afastasse do espelho, aquele que estava perto ficou com muito do que estava longe. E vice-versa.

Nada fácil de entender.

Eu não tenho entendido mesmo muitas coisas ultimamente. Tenho pensado muito e tenho sonhado muito também. Tenho sentido saudades de coisas que jamais imaginei. Tenho percebido mais nitidamente as marcas que o tempo tem deixado em meu rosto. Meus cabelos cada vez mais ralos - e raros -, minha barba cada vez mais branca, o vinco na minha testa, os pelos nas minhas orelhas. Saber que muito provavelmente já vivi mais da metade do que me foi designado a viver me assusta. E meus planos de ser eternamente jovem, onde ficam? E meu corpo que talvez já não acompanhe a velocidade da minha mente? Eu tenho pensado muito nisso tudo. Tenho olhado fundo nos meus olhos. Tenho ficado muito tempo sozinho. Tenho chorado como nunca chorei. Mas tenho rido também. Carrego comigo desde sempre um certo deboche e um certo desdém pelas armadilhas da vida. Não que eu ignore os tropeços, muito pelo contrário. Tenho ficado mais atento, só isso, para na hora exata do tombo não me machucar por demais. Porque tombos são inevitáveis, agora eu sei.

Há que se levantar e se reencantar pela vida, eu costumo dizer a mim mesmo. Há que se deixar banhar no mar gelado num meio de semana de um céu azul sem nuvens e nada mais com o que se preocupar. Há que se permitir uma tarde sob o sol do Aterro a cruzar os olhos às margens da baía até onde os olhos puderem enxergar. Há que subir as Paineiras e lembrar que foi feliz ali outro dia. E então registrar na memória só o que restar de bom. Feito turista de si mesmo fotografando a cidade mais bonita, em busca do melhor ângulo. Aqui e ali, pouco importando se a luz está perfeita ou se o cenário e o figurino são adequados. Porque no fundo ele sabe que nada é perfeito ou adequado. Por que eu deveria ser? Aliás, o que eu deveria ser?

Eu tenho mesmo muitos questionamentos e tão poucas respostas.

sábado, 29 de outubro de 2011

Nu. Vem.





Para se desfazer em nuvens é preciso estar leve.
É preciso estar entregue e se permitir.
Porque o vento sopra e você nem percebe.
Quando se dá conta já é hora de ir.

Entre as montanhas.
Aos pés do redentor.
Nos arranhacéus.
Sobre toda a cidade.

De todas as formas.
Com nuances de cor
No por do sol
À procura do amor.

Partícula.
Água.
Gelo.
Vapor.

Condensação.
Sólido.
Líquido.
Seja lá o que for.

Para se desfazer em nuvens é preciso estar livre.
Soltar as amarras, seguir a corrente.
Deixar a máscara cair, se despir por inteiro.
E deixar desprender do varal.

Com a delicadeza da brisa,
A força da ventania,
Ou a fúria de um vendaval.
É preciso ter coragem.

Para se desfazer
Em nevoeiro,
Chuva fina,
Tempestade.

Então vem, nuvem,
Vem.
Nu.
Vem.

domingo, 23 de outubro de 2011

Raíssa

Mais uma semana e ele ainda não estava curado. Sentia-se mal com frequência. Uma letargia, uma falta de apetite, a vontade de não fazer nada, sequer de sair de casa, mãos geladas e uma dor nas têmporas constante. Estava assim desde que Raíssa partiu, há pouco mais de dois meses, naquela tarde fria de agosto.



Ele sempre soube que ela iria embora e que muito provavelmente eles nunca mais se encontrariam. A história dos dois tinha todos os ingredientes para se transformar num romance, destes que a gente chama de pocket book, curto, do tipo que a gente lê rapidinho numa viagem de trem, com princípio, meio e fim. Não parecia ter enredo de novela.



Ele não estava preparado para se apaixonar. Tinha acabado de sair de um relacionamento desgastado, com brigas frequentes, filhos traumatizados, advogados, partilhas de bens. Uma confusão só. Ela estava focada na vida que ia levar em Berlim, precisava resolver os trâmites burocráticos de quem vai morar fora do Brasil, um corre-corre danado e ainda queria aproveitar ao máximo o tempo que teria junto de sua família e de seus amigos.



- Tudo, menos me apaixonar - ela repetia feito um mantra.



Foi por acaso que eles se conheceram. Uma troca de mensagens por engano resultou num bate-papo bem-humorado e despretensioso que se repetiu por mais três dias. Até que depois de dezenas de mensagens, tantas coisas em comum e um misto de curiosidade e carência, resolveram se conhecer.



Raíssa morava com um irmão em Vila Isabel, numa espécie de sobrado bem na esquina de uma rua tranquila, com ar de cidade de interior. Foi fácil chegar lá. Na manhã daquela quinta-feira de outono, com o céu pintado de azul e o trânsito da Grajaú-Jacarepaguá fluindo bem, da Freguesia até a casa dela foram menos de vinte minutos. Ele estava nervoso. Ela também. No carro, Nine of ten na voz de Caetano Veloso. A boca seca. O coração acelerado. Parecia que estava fazendo algo proibido.



Ela também se auto-censurava, contou depois. Disse que pensou muito antes de aceitar sair com ele, que aquilo nunca tinha acontecido antes, que ele era mais velho, que ela ia viajar, que eles não deviam se envolver. Ele também não queria, dizia. Estava fragilizado com o término recente do casamento. Não queria saber de compromisso tão cedo. No máximo seriam bons amigos.



Ela entrou no carro com uma garrafa de água mineral nas mãos, vestia uma camiseta vermelha de algodão leve e gola v, uma bermuda cinza, bastante magra, seios rijos, cabelos negros soltos na altura do ombro, olhos grandes, repuxados, donos de uma profunda tristeza e uma voz serena de arrepiar. Ele sorriu, tirou os óculos e, olhando firme para ela, perguntou se tinha cara de mau.



- Não.



Sem saber onde levá-la, resolveu subir o Alto da Boa Vista e seguiu rumo à Floresta da Tijuca. Conversaram o tempo todo. Um contava um pouco o que achava que o outro podia saber. Afinal, era um primeiro encontro e todo primeiro encontro tem uma certa polidez e só se mostra o que cada um tem de mais bonito. Mas falaram da vida, das suas alegrias, suas frustrações, coisas íntimas até. Não havia por que se esconder, não havia nada a perder e no mais, ele teve a impressão de que já se conheciam há anos.



Parou o carro em frente a um mirante, desceram em meio aos mosquitos, ele soube que a mãe dela havia morrido, ela soube que ele sentiu vontade de morrer. Falaram também daquela situação em que se encontravam, que não deviam se envolver, que nenhum dos dois queria sofrer, que talvez aquela seria a primeira e última vez, mas ela cedeu a um beijo. Ele ainda roubou-lhe outro e todo o discurso racional começou a desmoronar ali.



No dia seguinte, já tarde da noite, ele estava no meio do trabalho quando ela mandou uma mensagem: preciso de um abraço. Em questão de segundos ele terminou o que tinha para terminar e num piscar de olhos estava em Vila Isabel envolvendo Raíssa em seus braços dentro do carro e numa explosão de sentimentos a tentar lhe confundir a vida. O coração batia forte, descompassado, esperançoso e feliz. A cabeça não parava de pensar que aquilo não poderia acontecer, que ele ia se dar mal mais uma vez, que tudo o que ele não precisava naquele momento era se envolver com alguém. Tudo ao mesmo tempo. A eterna disputa da razão versus coração.



E Raíssa ali, com o corpo leve em seu colo, entregue, frágil, linda. Ela também não sabia se o que estava fazendo era o certo, se devia ter mandado a mensagem, se não teria sido melhor nunca mais procurá-lo. Mas alguma coisa havia de mais forte ali com aqueles dois. Entre os olhares e beijos e sussurros, perderam a noção da hora e a madrugada avançava sobre eles. Alguns bêbados passavam ao lado do carro sem se dar conta do casal que ali estava. Àquela altura o casal já não se dava conta de muita coisa. O tempo foi passando, as madrugadas passaram a ser mais constantes. Ele insistia. Ela dizia que não queria. Ele sofria. Ela então cedia.



Faltando pouco mais de um mês para que ela fosse embora para Berlim foi que deixou escapar que o amava. Ele, que já se entregara há muito tempo, não se conteve de tanta felicidade. Parecia mesmo um sonho tudo aquilo que estava vivendo. Logo ele, que tinha certeza que nunca mais voltaria a amar outra mulher na vida e que - mais grave - não se achava merecedor do amor de mais ninguém. Ouvir que alguém o amava, especialmente ouvir que Raíssa o amava, era como encontrar um novo final nessa trama mal escrita que é a vida.



Mas Raíssa o amava racionalmente. Era como se ela fosse feita de uma casca dura, grossa, e só lá no fundo, a muito custo, amaciava. Ela o amava. Ele sabia disso. Mas ela se contentava em vê-lo uma ou duas vezes na semana, quando não tinha compromissos com os amigos, quando não tinha roda de samba, quando não tinha que defender um troco ou quando não estava cansada. Mas ela o amava, ele sabia disso. Mas ela não falava coisas bonitas, não o convidava para as festas, não telefonava, sumia, só aparecia quando queria.



Ele foi ficando triste porque ele sabia que a amava. Ele gostava de falar coisas bonitas, de sair para encontrá-la onde quer que fosse, a hora que fosse. Pouco importava. Ele a amava. Sabia que não deveria, mas amava. Sabia que era loucura, mas amava. Sabia que não teria chance, mas amava. Ele quase ficou louco de tanto amar.



Mais louco ficou quando se deu conta que teria de dar um fim àquele amor. Mas como? Como ele ia conseguir se desfazer de todo aquele amor depois que ela fosse para Berlim viver plenamente tudo o que ela teria para viver por lá? Onde ficava a tecla que ia fazer com que aquele jogo terminasse? Como fazer para surgir na tela o game over?



Raíssa cumpriu o seu destino e foi embora. Na véspera de partir repetiu que o amava. Disse também que era para ele se cuidar, seguir a vida em frente. Raíssa, vinte anos mais jovem, parecia tão coerente. Raíssa não se deixava revelar quase nunca. Ele, sim, sofria e ao mesmo tempo ficava cada vez mais fascinado. Ele estava fraco. Raíssa parecia tão forte. Raíssa não chorava. Não na frente dele. Ele vivia com os olhos cheios dágua porque sabia que ela o amava.


Raíssa está em Berlim. Ele continua na Freguesia. Raíssa tem novos amigos. Ele quase já não encontra os seus. Volta e meia Raíssa manda umas mensagens. Esteve em Barcelona, Amsterdam, Londres. Da última vez ela contou sobre uma tal ponte dos artistas, em Paris, onde ia comer queijos e beber uns vinhos à noite com uns amigos. Ele teve vontade de pegar o primeiro avião para encontrá-la e dividirem uma garrafa de tinto. Mas ele não podia. Ele não tinha muito o que contar. Não quis falar das dores, muito menos da saudade e da falta que ela fazia em sua vida.



Só ele sabia. E isso bastava.