terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Vergonha

Desde aquela tarde em que os termômetros marcavam mais um recorde de altas temperaturas na cidade, era como se ao redor dele tudo fosse se distanciando, perdendo o foco, saindo do seu campo de visão. Gradativamente. Melhor assim.

Aquele verão havia sido de um calor apocalíptico, pele constantemente suada, céu azul sem nuvens, sem água nas torneiras, sem trens, sem respeito algum. O trânsito ultrapassava os limites do suportável, infernal. A população inteira parecia estar vivendo à beira do caos, o IPTU, o IPVA, outras tantas contas a pagar e aquelas pessoas todas nas ruas, nas redes, tantas vozes estridentes e a porrada comendo solta em plena luz do dia.

Perderam a noção, ele dizia, ao mesmo tempo em que, pela tela plana da TV, ainda enxergava mais um homem morrer na praça, antes mesmo do sol se pôr.

O corpo daquele trabalhador havia tombado, a cabeça explodido, correria ao seu lado, imagina você a confusão que se formou. Já temos um mártir, anunciavam alguns. Foi assassinato, berravam outros tantos. Imprensa, polícia, vândalos, deputados, manifestantes, black blocs, milícia. Debates acalorados no palanque virtual. Um diz que é o certo. O outro afirma que nunca esteve errado. De ambos os lados, ânimos exaltados. Eles gritam estridentemente e ninguém mais pode se fazer de surdo.

No fundo ele tinha certeza do por quê daquilo tudo: nunca fizeram nada. Tal e qual um filho recém-parido que é abandonado na roda da sorte, o cidadão daquelas bandas era tão desassistido como um órfão esquecido no dormitório úmido do asilo junto a tantos outros iguais, largados ao Deus dará. Ele também se sentia sozinho.

O estado havia sido omisso desde os primórdios, as autoridades só enxergavam a si próprios, se escondiam nos palácios com seus assessores bem remunerados, covardes como sempre, enquanto ordens extremas liberavam o braço armado em cima de quem quer que fosse. O que começou pacífico, plural, espontâneo, bonito até, transformou-se numa luta desigual, ele sabia.

Cidades no país inteiro viraram palco de batalhas sangrentas como nunca antes na história desse país. Manifestante virou vândalo. Protesto virou baderna. Os ninjas quase viraram imprensa. A imprensa virou chacota. Enquanto os telejornais por um momento tentavam esconder, a internet mostrava tudo a quem quisesse ver: fogo, corre-corre, gás lacrimogêneo, jornalistas acuados na tentativa de cumprir seu dever, jovens machucados e a polícia agindo como se estivesse à caça de bandidos.

E ele então não esquecia que meses antes a mesma polícia deixava traficantes escaparem aos olhos de todos, mas agora, por todos os cantos, de todos os lados, era só tiro, porrada e bomba. Você precisava ver.

Dias difíceis, ele já suspeitava. Como o carro que derrapa na curva, a parábola que não tangencia o arco, o circo pegando fogo e tudo mais fora do controle. Maniqueísmos explícitos, partidos políticos chafurdados na lama, radicais inflamados, anarquistas desinformados, fascistas facínoras, psicopatas infiltrados, coxinhas bem arrumados, que tais, todos deixavam cair suas máscaras, as verdades descortinadas, preconceitos nus. Vergonha ele sentia.

Eu também sentia. Muito antes daquela tarde quente.



sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

Úmida

Desliza tua língua (sobre mim)
e deixa um rastro de saliva úmida (eu quero).

Junta o gosto ácido da palavra,
conjuga o verbo intransitivo do amor,
a frente, o verso,
a frase, a rima,
vem você aqui em cima,
espalha em minha carne o teu suor.

Debruça lentamente sua cabeça (no meu peito)
e afaga o que de mim ainda é seu (para sempre).

Percebe no meu toque o gesto simples,
segura firme com as suas minhas mãos,
lê todas essas linhas, montes, vênus,
desvenda meus segredos,
aperta os laços, intensifica os abraços,
seus lábios assim tão perto dos meus.

Desliza tua língua
no rastro da saliva úmida.

(certas noites morro de calor)




domingo, 19 de janeiro de 2014

Eu sei

Eu,
que apenas observo o mundo,
sigo tantas vezes calado,
me finjo de mudo,
noutras sou surdo,
mas cego nunca fui.

Do pouco que eu vi de tudo,
esse tudo me parece tão pequeno,
um quase nada,
um breve instante,
um leve sopro,
a mão suave a desfazer o nó.

Eu,
que já não sigo assim tão só,
persigo o que não conheço,
persisto nos mesmos apreços,
resisto até não poder mais,
insisto que eu existo.

Sou eu mesmo, juro.

Meu discurso nunca foi outro.
Minha vontade também não.
Mentiras se dispersam,
só as verdades me interessam,
sou aquele que se vai,
estou naquele que já vem.

Eu apenas observo aqueles que me observam.
Não enxergo nada além.

Nem eles, eu sei.

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

Dúvida

Quem era ele agora, se aquele que outrora fora se desfez? 
Onde ele houvera ficado?
Quando ele houvera partido? 
O que tivera feito para que até ali então chegasse?
O sol, o céu azul e as mesmas tardes de domingo 
a lhe refrescar com as brisas que ainda restavam. 
Naquelas tardes, bastava encher os pulmões com todo o ar e seguir em frente, 
como um náufrago à deriva num mar fecundo.
O medo.
O novo.
O mundo.
O mesmo mundo, muito embora para muitos aquele já tivera sido o fim.

terça-feira, 29 de outubro de 2013

Milagres urbanos

Você sai de casa apressado, pega o carro, o trânsito está misteriosamente bom. Você chega do Méier até a Praça XI em 15 minutos, vira a curva no quarteirão do Balança Mas Não Cai, tudo parado. Você freia. Não dá tempo, bate no carro da frente, o carro amassa. Você vê. A dona do carro também vê, dá ataque, você pede pra ela ficar calma e estacionar logo ali. Enquanto isso os cifrões turvam a sua visão. Você não pensa em mais nada, a vida tá complicada, você sai do carro, olha pro carro da dona, a dona olha pra sua cara, vocês olham de novo pro carro, cadê o amassado?, vocês perguntam, o amassado sumiu, não tem nem um arranhãozinho sequer, como pode?, ela indaga. Foi milagre, você diz. Então tá, até logo, você está atrasado, ela também. Você liga o carro, ela faz a curva, você ri sozinho e agradece, só agradece.

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Amor de menino

Dorme, menino bonito, dorme. 
Deixa o seu corpo arriar, 
que o que eu guardo em mim é o pouso infinito,
feito o céu que se desmancha em azul 
na superfície inquieta do mar. 

Esse mar que jamais descansa, 
que balança nas ondas da praia 
num eterno pra lá e pra cá. 

Esse mar de ressaca e esperança. 
É só o mar de quem sabe o que é amar. 

Sonha, menino, sonha.
Deixa o inconsciente chegar, 
que eu trago em meu peito os delírios mais lindos, 
desses que nos dão asas e brilho
e por aí evaporam, nos deixam soltos no ar.

Toca, menino, toca
com todos os seus anseios o meu coração, 
diz que jamais vai embora,
repete baixinho aqui no meu ouvido 
que nesse mundo a gente não se perde mais não.

Deixa, menino, deixa 
eu tentar fazer o que eu ainda não fiz. 
Deixa o tempo dizer e mostrar 
que é mais do que hora de saber ser feliz.

Fica, menino, fica 
comigo na minha vida, 
seguindo na mesma estrada, 
dedilhando as cordas numa outra lira. 

Faz de mim teu único instrumento, 
costura na minha carne todos os momentos, 
esculpe, molda, talha, nó.

Te amo, menino, te amo.

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Diários III

Na manhã seguinte, o outro havia desaparecido, virado pó, deletado os e-mails, apagado as mensagens, mudado todas as senhas, levado as chaves. Só havia sobrado ele ali, de pé, em frente ao espelho embaçado, reflexo tênue do que houvera sido. Naquela manhã, ele sequer conseguira respirar fundo, e o mundo, ao redor, nem melhor nem pior, seguia o seu rumo.

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Dê tempo ao tempo

Assim que ele conseguiu uma pausa para respirar depois daquela manhã agitada, 
foi que se deu conta de que a vida o levava lentamente.

Parou.
Respirou profundamente.

Uma. Duas. Infinitas vezes.

Dali a pouco era hora de recomeçar.

Não lhe era permitido perder tempo,
já que ele esquecera de sair do lugar.

No pulso, um relógio sem ponteiros
a desviar-lhe as horas.

Os segundos pulsavam presos
dentro do peito,
bombeando o sangue de areia grossa
que escorria naquela ampulheta.

Bem devagar.

terça-feira, 22 de outubro de 2013

Tempos difíceis

Certas horas a poesia silencia
e parece querer se esconder,
fugir de mim,
largar de mão,
desaparecer.

Justo nesses dias,
ela,
a poesia,
sumia.
Que tempos difíceis são esses?

Nas ruas, o bloco negro confundindo as massas,
levantando a voz, queimando a praça,
vidraças quebradas da hipocrisia.

Nas tevês, eles também confundem,
invertem o sentido, usam de artifícios,
roteiros pré-estabelecidos em horário nobre.

A manchete é o vandalismo.
A suíte é o lado sujo.
O mundo,
a cada virada de página,
fica ainda mais difícil.

Brigam os tradicionais e os alternativos
via redes sociais.
Surgem novas ferramentas,
instalam-se outros aplicativos,
um imenso flash mob do dever cívico.

E os ideais?  Quais?

O Estado revida,
bate,
maltrata,
fere com balas de borracha
e sufoca o grito daquele que corre atrás.

Nos palácios estão todos surdos,
fazendo-se de cegos,
contaminados pelo poder.
Não percebem que estão cercados.
Não sabem, não querem, não prestam.

Eles nada vão fazer.

Já não podem ouvir os gritos.
Há muito que eu também não ouvia.
Onde antes era só silêncio
há hoje o risco dos verbos calados à força
e das minhas estrofes continuarem vazias.

Logo as minhas,
que por acaso nasci poeta,
berrando os versos da poesia.

Que tempos difíceis são esses?



domingo, 13 de outubro de 2013

Não sejamos tão ingênuos

Então você acorda e há um mundo diferente lá fora. Sim, é só mais um domingo, são as mesmas nuvens de algodão, o mesmo céu de anil, o mesmo gosto do café amargo e toda a falta que eu sinto de algumas partes de mim. O silêncio daquelas manhãs de domingo sempre me intrigaram. Para mim, tão afeito ao barulho e à velocidade do dia-a-dia rotineiro, era como se nelas, naquelas manhãs, o mundo descansasse e cedesse lugar à preguiça. A tal da pausa, tantas vezes necessária, até recomeçar.

Lembro bem de uma tia que sempre me dizia: "Levantar da cama aos domingos não é difícil. Difícil é recomeçar." Eu era criança quando ouvia tal frase e, confesso, custei a entender o que ela queria dizer com aquilo. Houve uma época em que eu achava que era um recado velado, como se ela implicasse com a minha preguiça, tão mais sem vergonha nas manhãs de domingo. Só mais tarde, anos depois da minha tia ter morrido, foi que entendi o que poderia estar implícito naquilo que ela tanto dizia. Não é mesmo nada fácil recomeçar.  

Eu queria levantar da cama aos domingos com superpoderes e, enfim, enxergar a vida com óculos cor-de-rosa. Queria poder prender cada sem-vergonha que se acha no direito de roubar o que é do outro, de cercear a liberdade de quem quer que seja, de surrupiar na maior cara-de-pau e de me dizer o que é certo, o que é errado ou o que pode e o que não pode. Queria, também, exterminar com as raças de alguns políticos que estampam as manchetes dos jornais e que estão há séculos no comando, acumulando e exercitando o egoísmo desacerbado, enquanto esquecem que é preciso compartilhar, dividir, multiplicar, socializar e respeitar a vida daquele que pisa neste solo com as mesmas necessidades que ele. Poque ele, assim como eu ou você, é um qualquer um.

Queria levantar da cama, correr na varanda e gritar para o meu vizinho que desce a rua que somos todos iguais. Queria que ele, que não perde um Jornal Nacional depois do jantar preparado pela esposa, soubesse que temos, sim o dever de nos manifestar, de invadir as ruas e exigir melhores condições. Queria que daquele domingo em diante a voz dos protesto legítimos não precisasse ceder espaço nos noticiários para os black blocs e sua quebradeira geral, que, juro, ainda tenho cá minhas dúvidas se são ou não necessárias. Queria, na verdade, que tudo isso fosse apenas parte de um processo de reconfiguração ou atualização de sistema da humanidade, feito um software mesmo ou um aplicativo que fizesse com que ela levantasse menos ingênua a cada manhã.

Aí, então, seria este o sinal de um recomeço? O ponto final que anuncia a pausa? Ou já seria o início de um novo parágrafo na nossa história? Eu, neste contexto, sou um personagem que convive com um exército de black blocs em mim não é de hoje, provocando uma quebradeira interna generalizada. Como se o centro desse mundo em ebulição doesse aqui no meu peito, feito a bala de borracha ou o tiro certeiro da arma letal dos meganhas. Porque meu peito é o núcleo quente que derrete, dissolve, digere, transforma e transfere. 

Eu, graças aos midiáticos vândalos que cá me habitam e tacam fogo no que não presta, carrego a certeza de que não sou mais o mesmo. Talvez por isso, hoje, neste domingo, eu tenha acordado vendo um mundo diferente lá fora.






sexta-feira, 20 de setembro de 2013

Desarrumação

Bastou uma rajada leve de vento para ele olhar para trás e se dar conta de que, mesmo que já tenham se passado mais de 40 anos, ainda havia muito o que arrumar naquela casa. 
Até ali, só o alicerce e a certeza de que a vida é uma faxina ininterrupta.

domingo, 8 de setembro de 2013

Enigma

Então me disse que faltava pouco para o fim e eu ali, parado, não acreditei. Preferi continuar sozinho, sem saber ao certo se era mesmo o tal destino que eu sempre havia traçado em linhas tortas ou se foi tudo culpa da falta de coragem, do medo e da distância entre o meu desejo e aquele que um dia habitou em mim.

Sem predicados

O tiro na testa foi certeiro. Ele não sentiu nada. Nem tampouco sentira o vento forte que levantara a poeira segundos antes, a mesma poeira que lhe sujara a face. Tombou o corpo pesado na esquina escura. Da cintura pra cima, calçada. As pernas, desajeitadas, no meio da rua. Mal anoitecera e a lua já despontava no céu sem nuvens. O estampido. O por quê. O acaso. Tudo mais ficara oculto. E o sujeito ali sem predicados. Quem era ele mesmo?

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Correnteza

Eu quero versos,
eu quero rimas,
quero esquecer o certo
em meio a linhas distorcidas.

Quero errar o tom,
acelerar na curva,
bailar descalço
enquanto cai a chuva.

Desbravar o céu,
me perder no ar,
pular da ponte,
na beira do mar.

Nesse mar gigante,
onde chega o rio
e a correnteza limpa,
lava o meu corpo.

Esse rio que chega no mar
já não é o mesmo rio.

Porque o rio passa,
e eu já não sou o mesmo,
muito embora o corpo,

perdido nas ondas,
em busca do gesto,
em estado de graça.

Os bons versos que me carreguem.

quarta-feira, 31 de julho de 2013

Grandeza

Meu mundo é pequeno,
cabe na palma da minha mão.
Já meu coração, esse não.
Meu coração é um poço sem fundo,
um céu de olhares infinitos,
um mar de versos bonitos
traduzidos em ondas que eu carrego
por onde quer que eu vá.

quarta-feira, 19 de junho de 2013

Dressed to kill

Janaína é uma mulata arrebatadora, com 1,75m, cintura fina, peitos fartos, cabelos tratados, cheirosa e vaidosa que só. Moradora de Marechal Hermes, trabalha no centro da cidade como secretária de um escritório de contabilidade. Casada, costuma sair cedo de casa para pegar o trem até a Central do Brasil, mas antes, prepara o café da manhã pro marido, Nestor, taxista, e pros filhos, Luana, Lorraine, Luan, de 5, 7 e 9 anos, que ficam com uma sobrinha. Janaína é do tipo que faz tudo todo dia sempre igual. Só que não.

Naquela manhã Janaína acordou mais cedo, tomou um banho demorado, passou cremes, caprichou na depilação e deu uma certa exagerada no perfume. Saiu do banheiro enrolada na toalha, entrou no quarto sem fazer muito barulho. Nestor ainda dormia, as crianças idem. Do fundo do armário tirou um vestido de jérsei com estampa de onça, decote sexy, comprimento acima do joelho, novinho em folha, nunca havia usado. Sobre o sutiã cor de pele e a calcinha sem costura, o vestido caiu feito uma luva. Brincos dourados, braceletes com pedrarias e um sapato alto salgo agulha completavam o visual mulata tipo exportação.

Na cozinha, deu um gole no café preto, comeu um pedaço de pão com manteiga e deixou sobre a mesa um bilhete para Nestor, o marido, dizendo que teve de sair mais cedo para preparar o almoço de aniversário de 70 anos do chefe, seu Hilário, mas que as mochilas das crianças estavam prontas e que era para ele deixá-las na casa da sobrinha, como de costume, que quando ela chegasse, mais tarde, ela passava lá para buscá-las.

Da estação de trem em Marechal Hermes à Central do Brasil e durante todo o dia Janaína ouviu cantadas de todos os feitios: Bom dia, tigresa. Que felina classuda. Essa gata é uma fera. E por aí vai. Janaína estava mesmo na alturas. O almoço do chefe foi um sucesso, todos os funcionários do escritório confraternizando, uma alegria contagiante. Parecia até festa de fim de ano.

No meio da tarde ainda teve bolo, salgadinhos e refrigerantes. O chefe não podia estar mais feliz. Nem Janaína, que vestida de onça, estava se sentindo mais poderosa que nunca. Até que no final do dia toca o seu celular. Era Nestor, o marido.

 - Fala, jaguar.

- Jaguar? Por quê?

- Você saiu de casa hoje igual a uma jaguatirica!

- Antes jaguatirica do que jararaca, feito a sua mãe. Faz o seguinte, Nestor, não me espera pra jantar. Pega as crianças e se vira, porque a jaguatirica aqui hoje vai demorar a chegar.

Desligou o telefone antes mesmo que o marido respondesse.


É isso q enfraquece...

sexta-feira, 14 de junho de 2013

Vergonha e covardia

Depois de uma noite no mínimo histórica, onde paulistas e cariocas apanharam brutalmente daqueles que são pagos para garantir a segurança de todos, me perdi entre debates e panfletagens virtuais que vararam a madrugada e me tiraram o sono. Na timeline do facebook, a verdadeira e legítima cobertura da manifestação que mobilizou milhares de pessoas em algumas cidades do Brasil, mas especialmente Rio de Janeiro e São Paulo. As imagens, os vídeos e os relatos eram impressionantes. E mais impressionantes ainda se comparados à cobertura da mídia tradicional, que ainda chamava os manifestantes de vândalos, como se o protesto fosse simples baderna.

Covardia.

Mas não só a covardia daqueles que humilham com o cassetete nas mãos, protegidos por patentes, escudos e capacetes e baixam a porrada em cima de jornalistas, estudantes, trabalhadores, homens, mulheres, enfim. Não. Covardia pelo que somos submetidos diariamente. Seja o cara que mora na baixada e precisa acordar às 4h para pegar o trem lotado, atrasado, mal conservado, sendo empurrado para dentro dos vagões com a delicadeza de um carcerário, ao empresário, dono do Market Place Center Fields, que mora numa cobertura na Delfim Moreira, ali no comecinho do Leblon, paga seus impostos e quer viver num país justo.

Por que não?.

Por várias vezes li textos e publicações, de gente próxima até, chamando os manifestantes de vândalos. Realmente, vandalismo é inadmissível, coisa de povo mal educado, porco, sujo. Pra quê pichar igrejas, monumentos, quebrar praças inteiras? Mas não foi só isso que eu vi. De certo houve vandalismo, o lado pequeno da história, e justamente o lado que tentaram vender nas manchetes dos jornais. Lembro de acordar na quarta-feira e ler na capa do impresso que amanhece em minha porta a seguinte chamada: A Marcha da Insensatez, referindo-se à manifestação que já havia deixado São Paulo e o país em alerta na terça-feira. Insensatez?

De quem?

Ninguém estava nas ruas para protestar apenas contra um aumento de míseros vinte centavos de real nas tarifas de ônibus. Muito embora míseros sejamos nós. O que se viu na noite desta quinta-feira nas ruas foram surtos de indignação, um movimento maciço de protesto contra o que oprime, contra o que é covarde, contra o que é verdadeiramente vandalismo. Porque somos, sim, nós, todos os brasileiros, vandalizados por esse poder que corrompe e assombra e maltrata.

Somos vandalizados no momento em que pagamos nossos impostos e não temos transporte público de qualidade, não temos um serviço de saúde que atenda a todos com um mínimo de dignidade, não temos segurança, esgoto, asfalto, luz, muitas vezes nada. Somos vandalizados quando tomamos porrada na cara e viramos alvo daqueles que deveriam garantir a nossa segurança. E não falo aqui somente da truculência da corporação militar. Falo daqueles que estão no Planalto Central ou dentro de seus palácios de governo interessados nos contratos que vão lhes garantir cada vez mais regalias e poder.

Vergonha.


sexta-feira, 7 de junho de 2013

Capitão Américo

Capitão Américo é daqueles militares que não deixam a patente cair nem quando estão em casa, no lazer com a família. Do tipo durão, acostumado a comandar batalhão de soldados, não é de dar explicações a ninguém. A não ser quando comandado, claro. Casado com Elenice, mulher batalhadora - apesar de ser loira, como ela mesmo faz questão de afirmar -, Capitão Américo traz o casamento no cabresto: gosta de chegar em casa e ver o jantar pronto, os filhos de banho tomado, o Jornal Nacional, a novela, o 'até amanhã, meus filhos', o 'chega pra cá, patroa', o 'foi bom pra você, amor?' e o "boa noite".

Ciumento num nível patológico, vive controlando as ligações que Elenice faz no celular e volta e meia quer saber quais sites ela acessa no laptop que ele deu de presente no último aniversário de casamento. Desde então, cada um tem o seu, que é para evitar briga e preservar a relação. Numa dessas noites, enquanto Elenice tomava banho e as crianças já dormiam, corroído por uma curiosidade absurda, fora dos padrões da normalidade, Capitão Américo resolve instalar um programa espião no laptop da mulher, para rastrear toda e qualquer conversa que ela viesse a ter nos chats das redes sociais. O processo não demorou muito e em poucos minutos o rastreador de conversas alheias estava infiltrado no laptop de Elenice. Capitão Américo só esqueceu de um detalhe: desaparecer com o papel das instruções de instalação. Esqueceu a prova do crime do ali mesmo, junto a umas correspondências e contas a pagar.

Dia seguinte Elenice acorda louca para acessar o seu facebook e dá de cara com o tal papel. Ela, que apesar de loira, de burra não tem nada, na hora se deu conta do que o marido fizera. Como vingança é mesmo um prato que se deve comer frio, deixou passar alguns dias - poucos, é verdade - e, num momento de distração do capitão Américo, foi lá e fez o mesmo no laptop dele. Só que, claro, jogou fora o papel com as instruções.

Num piscar de olhos começaram a surgir conversas comprometedoras do Capitão Américo com dezenas de mulheres nos mais variados chats. Uma delas, inclusive, a melhor amiga de Elenice. Caso clássico de adultério. Ficou puta. Fumou um maço de cigarros de uma vez. Gravou tudo num pendrive. Mas manteve a linha quando o marido voltou da caserna, agindo naturalmente, como se nada tivesse acontecido. Loira, inteligente e ardilosa, eu diria. Naquela mesma noite transformou aqueles arquivos num pdf, determinada a montar uma apresentação. O power point da traição virtual. Foi dormir cheia de si.

No café da manhã, após os filhos saírem para a escola e entre xícaras de café amargo e cestas de pão francês, Elenice diz que precisa mostrar uma coisa para Capitão Américo em seu laptop. Capitão Américo diz que não pode, que está atrasado, que hoje é dia de ordem unida, que ainda precisa engraxar o coturno, entre outras desculpas.

- Não aceito desculpas, Américo - disse ela, com a autoridade de um coronel.

O Capitão arregala os olhos e quase presta continência. Afinal, Elenice nunca havia falado assim com ele antes e antes mesmo que ele se recusasse mais uma vez, ela foi iniciando os slides. Um a um. Bem devagar, que era pra dar tempo dele (re)ler tudo o que havia escrito naquelas últimas semanas nos chats com as amigas.

Após o último slide, um silêncio que jamais houve naquela casa e uma única certeza: Capitão Américo perdera a batalha.

- Isso é só para te avisar que eu sou loira, mas não sou burra, e que a comandante dessa casa agora sou eu.

Isso sim é golpe de estado!

terça-feira, 4 de junho de 2013

A primeira pedra

Perdoa.
Porque é no erro que se revela o homem e eu aqui estou.
Joga você sobre esse corpo, que é o meu, todas as pedras.
Desde a primeira.

Atira em mim.
Mira em minha face suja suas verdades.
Faz do meu contorno o alvo e me acerta
a frase exata.

A palavra certa.
O gesto preciso.
A flecha que atravessa o peito
e fere o corte à lâmina que ainda sangra.

Tira.
Subtrai de mim o que não é certo,
Se decerto você estiver com a razão.
De outro modo, não.

Quem não tem pecados?