sábado, 24 de setembro de 2011
eco ou "para ler repetidas vezes"
nem sei se saberia escrevê-la
sequer talvez nem pudesse percebê-la
eu me ocupo demais com besteira.
bobagens
Pode ser que esta poesia nem chegue
feito a carta que se escreve e se deixa perder no caminho
feito a água que corre sobre o limo das pedras no riacho
e se acomoda quando chega na represa.
triste destino
Talvez sejam apenas pequenos versos tímidos
mínimos detalhes, até mesmo despercebidos,
destes que a gente olha mas não vê
porque se escondem
por quê?
Mas quem sabe sejam versos quentes,
como os dos amantes que se deixam levar por um sopro na nuca
e se rendem ao contato da carne, esfregando a pele na pele,
chupando as entranhas na dança dos corpos.
rima profana
E se forem versos sagrados, imaculados,
destes que falam de Deus, que contêm a verdade da vida,
com mensagens de esperança e a certeza de um novo dia
eu acho que não seriam versos.
homilia.
Às vezes é só uma frase que não sai da cabeça,
uma oração sem sujeito, um verbo sem sentido
palavra por palavra martelando soltas no ar
corrente de vento que repete sempre os mesmos versos.
feito eco.
sexta-feira, 16 de setembro de 2011
Um silêncio ensurdecedor
sábado, 10 de setembro de 2011
Mosaico
Eu lhe mostraria outros lugares ainda mais bonitos.
Se eu pudesse impedir que você se fosse
Eu criaria as rimas mais preciosas,
Eu deixaria tudo em verso e prosa,
Eu juro.
Só para você,
Se eu pudesse.
Se eu pudesse estancar a minha dor,
Fazer parar agora,
Jogar os restos todos fora.
Cicatrizar.
Esquecer o que passou,
Tirar dos ombros o peso do mundo,
Limpar em mim o que ainda está sujo
E beber da água que me purifica.
Eu ficaria então mais leve.
Eu viveria mais alegre.
Eu teria enfim um porquê.
A vida parece não me dar sentido,
Parece até mesmo brincar comigo,
Feito que fosse me enlouquecer.
Se eu pudesse ia agora me banhar na fonte,
Dos pés à cabeça me lavar por inteiro,
Deixar-me levar numa outra poesia.
Mas a vida não me deixa escolher.
Ela finge permitir o fluxo
E me confunde com tantos caminhos,
Me coloca num redemoinho,
Um labirinto de decisões.
Se eu pudesse me fazer correnteza
Eu ia encher meu peito de ar,
Descer as curvas do rio sem medo,
Deixar meus restos de encontro ao mar.
Só então ia juntar meus pedaços,
Ia colar caco por caco,
Feito um mosaico de mim mesmo.
Como se eu pudesse me completar por inteiro.
(Mas sem você eu não posso)
quarta-feira, 7 de setembro de 2011
Quando a paz é uma farsa
domingo, 4 de setembro de 2011
A parte invisível que me cabe
Ficou quase dois dias inteiros sem falar. Não saiu de casa, não atendeu interfone, desligou celular, tirou telefone do gancho. Ficou mudo. Nem um murmúrio, nem um ai, nada. Nem ele ouviu o som de sua voz. Esvaziou a mente, limpou a sujeira, sacodiu a poeira, deitou, tentou dormir, levantou, caiu. Levou junto o outro, que estava sempre ali a postos e parecia enlouquecer com tamanha indiferença. Ele havia conseguido erguer uma barreira entre os dois, como se não quisesse mais ver o outro na sua frente.
Não sou e nem quero ser invisível, dizia o outro. Dizia também que não precisava viver escondido, trancado a sete chaves, segredo de estado. Não era nenhum criminoso, fugitivo ou um ser esqueroso, portador de doença contagiosa. Nada disso. Ele existia, sim, e amava, sim, e sorria, sim, e cantava os versos da alegria, dia e noite e noite e dia. O outro também sofria, sentia na pele as feridas, tentava driblar as tantas dores da vida. Aquilo tudo o incomodava demais. E mais o silêncio. E mais a distância. Foi então que o outro, já quase louco, começou a se dar conta de que com ele estaria cada vez mais sozinho. Por mais que o outro precisasse dele.
E ele - que na verdade era o outro - para o outro - que na verdade era ele - para todos os efeitos não existia.
sexta-feira, 2 de setembro de 2011
Vertigem
Eu sou destes que morre de saudades.
Agosto foi tão estranho que uma tia minha, irmã mais velha da minha mãe, faleceu, aos 72 anos de idade, depois de ter sido desenganada pelos médicos aos cinco anos. Eu, que achava que ela nunca ia morrer, fui pego de surpresa em plena sexta-feira, 19 de agosto, com a noticia de que ela havia morrido. Morreu dormindo, não sentiu nada, não sofreu. Já tinha sofrido demais antes. Uma história tão triste que não me cabe aqui contar. Até porque, esta minha tia tinha como uma de suas principais características - a principal era a gulodice - o jeito alegre de encarar a vida. Como se debochasse das porradas que a vida lhe dera. E garanto que não foram poucas. Se eu parar para pensar, a vida desta minha tia foi uma sucessão de agostos.
Pensei nisso e em tantas outras histórias desta minha tia na noite daquela sexta-feira, enquanto voltava de carro para a redação, depois de ter providenciado seu atestado de óbito.
sexta-feira, 26 de agosto de 2011
das ruas ele fez um deserto
das ruas ele fez um deserto. apagava as imagens de quem quer que passasse por ele. desviava o foco, perdia a atenção, avançava os sinais, cruzava as avenidas, parava em qualquer lugar, mas nunca, nunca descansava. perdeu o brilho, ele pensava. perdeu a graça, ele repetia. perdeu o sentido, ele sabia. e chovia e chovia e chovia. sem parar, ele dizia que nada mais o interessava, que nada mais servia, que nada mais ele queria. tudo terminava ali. não havia ninguém. no quarto, uma luz acesa. a cama vazia. os pés descalços sobre o chão gelado e o frio que percorria toda a espinha. o vento que batia as portas vinha da varanda. as janelas continuavam fechadas. um silêncio estranho que não existia.
uma, duas, três, quatro horas e nada. ninguém aparecia. não que estivesse esperando alguém pois este alguém não chegaria. ele sabia. ele não estava cansado mas seus olhos não se abriam. não percebia mais se era noite ou se era dia. trocou o fuso, já nem dormia. não enxergava mais, apenas via o resto do que sobrou dele mesmo. o que ele havia conseguido guardar do que fora um dia. só ele podia ver. de certo que não fazia a menor importância. ver para quê? se ele pudesse fazer alguma coisa, ele se multiplicaria. porque ser um só a vida inteira é desperdício, ele achava. bom mesmo é ser muitos e ao mesmo tempo não ser nada, acreditava.
leu todos os versos do drummond, decorou as músicas do vinícius, ouviu tom, caetano, baby, milton, john. escreveu nas paredes, rascunhou na própria pele, desenhou outro cenário, fez tudo o que podia e sabia. estava tudo diferente. mesmo assim as horas não passavam, quiçá os dias, os meses, o ano. um calendário inteiro a percorrer e ele ali, esperando, enquanto suportasse. dia a dia. sem cessar. num movimento interminável, incontrolável, involuntário. como respirar. e pulsar. acelerado e bem devagar. até parar. um dia.
neste dia ele estava sozinho.
quarta-feira, 17 de agosto de 2011
Eu, que estava perto
sexta-feira, 5 de agosto de 2011
Logo ali na esquina

sábado, 23 de julho de 2011
Está tudo assim tão diferente
a cama desfeita,
as roupas no chão,
o cheiro de cigarro impregnado no ar.
Vem.
Lembra da tarde perfeita,
da luz em seus seios,
das mãos em meus pelos,
das juras de amor que deixei escapar.
Já faz algum tempo, lembra?
Eu te falava segredos, eu te fazia carinho.
Eu te falava baixinho que eu morria de amores.
Personagem de um sonho que eu nunca esqueci.
Você olhava em meus olhos,
você morava em meus olhos,
você se via em meus olhos,
eu só tinha olhos para você.
Fiquei cego de amor.
Completamente vendado,
totalmente vendido,
me despi menino, me fiz amante, me vesti poeta.
Reescrevi meus versos sobre a linha do destino já traçado nas palmas de nossas mãos.
Rascunhei outras histórias,
reinventei outros roteiros.
Rabisquei,
pintei e bordei.
Agora vem.
Deixa tudo como está:
o mesmo cheiro de cigarro impregnado no ar,
as mesmas roupas no chão,
a mesma cama desfeita.
Mas vem diferente.
Porque eu não sou mais o mesmo.
sexta-feira, 8 de julho de 2011
Estranho
Na esquina, dois mendigos dividiam civilizadamente um cobertor e uma garrafa de cachaça enquanto liam versos do Neruda. Ao lado deles, um cachorro de pelúcia cor de rosa preso numa coleira improvisada com barbante parecia latir de verdade. Mas ele passou e sequer percebeu. Não notou também que as portas da padaria ainda estavam abertas e que lá dentro, nas prateleiras, no lugar de pães, havia restos de comida. Um carro de som em alta velocidade cruzou a avenida tocando as bachianas brasileiras de Villa Lobos. Logo atrás, um ônibus com os faróis apagados. Ele fez sinal, entrou, tirou uns trocados do bolso, passou a roleta e sentou ao lado de uma velha com um terço de prata enrolado nas mãos. Mais uma vez ele lembrou da avó. Estranho, ele pensou.
O trocador tinha cabelo nas orelhas e um dos dedos da mão esquerda tinha a unha comprida, bem feita, firme feito um casco de cavalo. Ele coçava as narinas com ela, ao mesmo tempo em que tentava equilibrar um rádio de pilha que transmitia uma partida de futebol entre Brasil e França pelas quartas de final da Copa de 86, aquela em que Zico perdeu um pênalti. A menina no banco da frente, linda, de cabelos negros, lisos, e vestido de cetim vermelho, não tirava os olhos dele. Ela escondia um sorriso de canto de boca e revelava as coxas tenras, de pele macia, os pés descalços. Um cheiro doce exalava daquela menina e por um instante ele imaginou se não seria o cheiro da sua buceta. Quis provar, derramar-se em seu seio rijo, roçar seu pau duro naqueles mamilos, passar a língua sobre a nuca, esfregar a barba em suas costas, pegá-la por trás e ali mesmo, naquele ônibus, açoitá-la num coito frenético, ritmado, intenso, feroz até. Só então gozar, disse a velha, olhando pela janela e com o terço de prata ainda enrolado nas mãos. Muito estranho tudo isso, disse alguém lá nos fundos.
A voz soou familiar. Era seu pai, a barba por fazer, o hálito forte. Com o mesmo pijama listrado, as meias de lã e os tamancos de madeira, desses que portugueses costumavam usar. O pai dele sempre estave em todos os lugares, observando cada passo, cada lira com defeito, feito o olho que tudo vê. E julgava. E percebia. Como se soubesse o que devia ou não devia falar. O pai dele nunca se calava. Talvez por isso mesmo parecesse tão rouco, como se a voz fizesse um enorme esforço para sair. Mas ele sempre ouvia seu pai, mesmo que não entendesse ou não fizesse muita questão de escutar. É estranho explicar, eu sei.
A angústia não passava. Uma freada brusca. O rádio de pilha do trocador cai no chão. Anda mais devagar, ô filho da puta, berrou a menina linda do vestido de cetim vermelho. O motorista, um adolescente franzino, com goma nos cabelos e aparentando menos de dezesseis anos de idade, mandou que ela tomasse no cu e acelerou. A velha, o tempo todo com o terço enrolado nas mãos, riu e abriu a janela do ônibus e pôs a cabeça para fora e a boca aberta e o vento gelado a estapear-lhe as bochechas. O pai, falando baixinho, esticou-se no banco traseiro do ônibus e acendeu um cigarro sem filtro. Foi então que ele fez sinal para sair do ônibus. Outra freada. A porta do ônibus abre para ele saltar. A velha quer que ele fique, a menina quer que ele vá. Pela primeira vez o pai não quis se pronunciar. O motorista não olhou e o trocador fingiu que não viu. Ele então tomou a decisão de voltar.
Mas ele ia voltar estranho.
quinta-feira, 30 de junho de 2011
Minha fé é meu código de conduta

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Quarta-feira, 29 de junho de 2011, 15h40.
sábado, 25 de junho de 2011
Não sabia?
sábado, 11 de junho de 2011
et cetera
me drogar desta fonte inesgotável que é a poesia
deixar me contaminar
da hipocrisia me liberar
entre versos pelos poros
todas essas toxinas
pobre da palavra que não foi escrita
feito rima que fatou sílaba
feito peito que ficou sem ar
letras que já eram mortas
frases muitas vezes tortas
desencontro vocálico é o que há
na oração da menina linda
falta o verbo não conjugado
o intransitivo no livro é direto
tudo o que se lê deve ser concreto
o sujeito e a ligação com o predicado
ponto, vírgula e et cetera
porque página em branco é feito deserto
é como caminhar por aí sozinho
calado
então vou e escrevo poesias
domingo, 5 de junho de 2011
Duas ou três coisas que eu queria esquecer

18 anos para ser mais exato.
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Noite fria de sábado, 21 de maio de 2011, casa do Raul, depois de uma tentativa frustrada de ir ao show do Arnaldo Antunes na lona montada no Arpoador por conta do Viradão Carioca. No playlist, Marcelo Petit e Leonard Cohen se misturavam às revelações sobre amores, alegrias, dores, frustrações, planos, viagens, amigos, idade. Baseados nisso tudo, foram muitos os nossos questionamentos sobre as emoções que nos acometem e uma só conclusão: a importância da terapia e do bem-estar mental que ela pode nos proporcionar. Naquela noite, depois de uma taça de vinho tinto e alguns copos d´água, voltei para casa decidido a procurar um terapeuta.
Foi o que eu fiz.
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Segunda-feira, 29 de maio de 2011. A entrevista com o terapeuta era às duas da tarde e eu estava pelo menos meia hora adiantado. Ansiedade, de certo. Fazia sol, eu estava com sede, subi e desci a ladeira da Cândido Mendes, na Glória, pelo menos umas duas vezes até que deu a minha hora. De cara eu gostei do terapeuta. A metade do meu tamanho, uns vinte anos mais velho, cabelos fartos e grisalhos, a fala mansa, os gestos contidos, os olhos atentos e os ouvidos bem abertos. Trabalha com o método reichiano. Me deixou tão à vontade que eu, que estava ali com o firme propósito de entender o por quê de tantas angústias, não desperdicei meu tempo e falei muito naquele primeiro encontro. Disse também que no dia seguinte eu tinha uma outra entrevista com um outro profissional. Eu precisava fazer uma pesquisa, inclusive de custos, fui sincero, mas que eu ligava para dizer se sim ou não.
Três dias depois eu estava de volta à Glória para dar início, de fato, à terapia.
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Outro dia escrevi aqui neste blog que cada um de nós traz as suas próprias tragédias pessoais. Não que eu viva me remoendo ou que eu tenha pensamentos negativos. Longe disso. Mas o certo é que eu penso muito, sofro as dores do mundo, carrego pesos que muitas vezes não são meus, como se os meus já não me bastassem. Eu penso muito. Minha cabeça não para. Presto atenção em mim mesmo, nas minhas reações, no que cada um que habita em mim tem para me dizer. Sempre fui assim. E para completar o álbum, trago lembranças das mais remotas. Boas e ruins: o chão gelado da varanda da casa da minha avó, em Pilares; as brincadeiras na vila da minha prima Mônica; o gosto do doce de côco ralado em casa que só minha tia Ida sabia fazer; o dia em que meu avô ameaçou tirar o cinto para me bater porque eu, ainda criança, falei um palavrão na hora do almoço; a inveja que senti do meu irmão e sua camisa azul com um desenho de um urso que ele usou no seu aniversário de dois anos; o dia em que meus pais se separaram; a primeira vez que fiquei em casa sozinho; e a primeira vez em que me senti sozinho de verdade.
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Início da tarde do dia 26 de novembro de 2010, Vila Cruzeiro, Complexo do Alemão. Vivíamos um clima de guerra no Rio de Janeiro, com atentados por toda a cidade. Na redação, os olhos fixos na tevê enquanto as imagens mostram uma quadrilha fugindo por uma trilha no alto do morro. Não houve troca de tiros e praticamente nenhum bandido foi preso. Uma atuação exemplar do Bope, diziam os especalistas em segurança pública. Mais uma comunidade pacificada. Mais uma UPP instalada e o discurso inflamado de orgulho dos nossos políticos.
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Início da manhã de sábado, dia 4 de junho de 2011, Quartel General do Corpo de Bombeiros, em frente ao Campo de Santana. Desde a noite anterior mais de mil bombeiros haviam invadido o quartel em protesto por melhores salários. Eles também reivindicavam por melhores condições de trabalho e queriam ser recebidos pelo comandante-geral da corporação. A insatisfação dos bombeiros, que sempre contaram com a aceitação da população carioca, já não era novidade há meses e o clima entre eles estava, com perdão do trocadilho, pegando fogo. O estopim da crise foi a invasão do quartel. Madrugada tensa, helicópteros sobrevoavam a área, mulheres e crianças também estavam no local, sem dormir, com frio. Amanhece. O Bope, que em suas incursões "pacíficas" às comunidades do Rio de Janeiro, dificilmente prende um traficante, cerca o quartel e prende os manifestantes de uma corporação que sempre foi parceira da polícia militar do Rio de Janeiro.
Mesmo que eu passe o resto da minha vida na terapia, nunca vou esquecer a imagem daqueles mais de 400 bombeiros humilhados, chamados de vândalos pelo governador, rendidos e cercados pelos policiais do Bope. Assim também como nunca mais vou esquecer os bandidos em fuga na Vila Cruzeiro, que escaparam sob os olhares daqueles mesmos policiais.
Que Deus esteja com eles e que Reich esteja comigo.
Amém!
quinta-feira, 26 de maio de 2011
O lado ruim

Músculos atrofiados,
Defesa,
Frieza,
Distância,
Altos e baixos.
Desencontros,
Diferenças,
Incertezas,
Saudades,
Proibido,
Beijos e abraços.
Tesão,
Pele,
Pelo,
Poros,
Suor,
Um puta cansaço.
Encontros,
Certezas,
Promessas,
Calor,
Cigarro,
Só mais um trago.
Cinema,
Romance,
Um livro,
Um drama,
A comédia,
A complexidade humana.
A dúvida,
A prece,
Depressa,
Esquece,
Desaparece,
É preciso ter fim?
Sofre,
Chora,
Grita,
Berra,
Entristece,
O amor tem um lado ruim.
sexta-feira, 20 de maio de 2011
Dark room

Que melhores armas ele poderia ter para enfrentar as batalhas do dia a dia, senão acreditar no amor e na justiça?
Não que ele já não tivesse experimentado as lágrimas. Claro que já. Mas não havia sobrado mácula, mágoa, ressentimento. Nada. Sob a redoma da ingenuidade, conscientemente ou não, ele se resguaradava, ele se protegia. Para apagar de vez um gesto mais ríspido, bastava-lhe um sorriso de bom dia e o de ruim que tivesse acontecido ficava no passado. Não precisava nem de desculpas.
Ele era feliz assim, mas não sabia.
Foi mais tarde, bem mais tarde que ele soube que a vida tinha um lado frio e cruel. E não foi preciso que mãe ou pai morressem ou algum outro tipo pior de desgraça para ele entender que cada um traz consigo as suas próprias tragédias. Elas permanecem feito código genético, passam de geração em geração, são como marcas perenes da existência humana. E não há nada que se possa fazer quanto a isso. A não ser enfrentá-las sem medo de encarar a dor.
Completamente nu, deitado naquele chão frio e sujo, o ar pesado, o cheiro de urina misturado ao mofo e à umidade das paredes. Um cenário triste e até mesmo assustador. Não havia barulho lá fora. O silêncio era tanto que ele conseguia ouvir o ritmo descompassado do seu batimento cardíaco, o que o perturbava ainda mais. Sua voz não existia, quase não conseguia se mover, sequer enxergava um palmo a sua frente. O simples ato involuntário de respirar era sacrificante. Era como se puxasse o ar e o ar não viesse. Asfixiante.
Por que, meu Deus, aquilo tudo?
Não conseguia supor quem o abandonara ali. Com o passar das horas e dos dias aquele alguém era o que menos importava. Quem era ele? Sentir sua carne apodrecendo e aquele odor insuportável de excrementos ao seu redor, mais a cabeça que não parava de latejar e pensar um só instante, já eram passatempos que bastassem. Enquanto isso, tudo mais se desfazia. Aquele que um dia ele fora se dissolvia, escorria pelo ralo sujo do destino sem volta. Feito a morte.
Mas ela não vinha.
Durante anos ele permaneceu trancado naquele quarto escuro sem que ninguém soubesse. E durante todo o tempo ele tentou sair dali. Nunca desistiu. Mas ninguém nunca percebeu nada.
A vida é mesmo um vai e vem de cegos.
quinta-feira, 5 de maio de 2011
A beira do cais

Sem sequer me importar com a maré das incertezas.
Nadei sem perceber onde ia dar a correnteza
E deixei-me levar pelas ondas que inundavam minha vida.
Foi ali que eu vi que eu já não era mais aquele que um dia eu conheci.
Ainda ontem mesmo fiz de mim um oceano
E entendi que a água só passa pela areia porque a areia deixa a água passar.
Então o que era grão em mim se desfez
E o que era sujo eu deixei lavar.
Foi ali que eu vi que eu já não era mais aquele em quem um dia eu me reconheci.
Porque ainda ontem eu era o náufrago de mim mesmo.
Feito um barco sem âncora que ruma ao sabor do vento
Eu também deixei o vento me soprar ao encontro da arrebentação.
Ainda ontem.
Agora vejo o menino no horizonte e da minha proa já consigo encostar a beira do cais.
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Para o meu neto Kadu, que acabou de nascer.
sexta-feira, 29 de abril de 2011
A travessia

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Eu já contei aqui que plantão é uma coisa pra lá de horrorosa que acontece na vida de todo jornalista uma vez por mês, não é? Plantão em pleno feriado consegue ser pior ainda, acredite. Por sorte, este meu plantão na Semana Santa foi tranquilo. Sem terremotos e tsunamis no Japão, sem guerra do tráfico, sem visita de presidente norteamericano, sem enchentes ou deslizamentos. Tudo correu na santa paz. A notícia que mais me mobilizou foi a de que Rosinha Garotinho, prefeita de Campos, cidade de meus avós maternos, teria sido expulsa do PMDB. Mas o que me chamou a atenção não foi o fato de ela ter sido expulsa do partido, mas sim porque a expulsão havia ocorrido há três dias e ninguém, até então, noticiara. Teria Rosinha Garotinho perdido a importância para a política nacional?
Fica aqui a pergunta.
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Segunda-feira pós-feriado. O céu está nublado, as horas se arrastam no jornal, nada acontece em Brasília, não sabemos nem se teremos manchete e eu crente que vou sair no meu horário habitual. Afinal, é segunda-feira, a capital federal está um marasmo que só, nossos políticos ainda não voltaram do final de semana prolongado e as notícias só falam sobre o número de mortos nas rodovias federais. Depressão é pouco.
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A natureza, vendo aquele cenário triste de jornalistas em busca de um fato realmente relevante para publicar, resolveu que estava na hora de providenciar uma chuvinha. E já que o sol reinou toda a Semana Santa, mandou logo um temporal que é para não deixar dúvidas da sua força. Em poucos minutos, a área da Tijuca, Maracanã e Praça da Bandeira virou uma enorme banheira e o trânsito, um verdadeiro caos. Em questão de segundos o clima na redação era outro. Olhos arregalados. Uma certa tensão no ar. Alguém lembrou que foi justamente na segunda-feira após a Páscoa do ano passado que outro temporal havia arrasado com a cidade.
- Coincidência - eu disse.
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Estava preocupado em adiantar meu trabalho e torcendo para que a chuva desse uma trégua para eu poder voltar para casa. Mas nada aconteceu como eu gostaria naquela noite e só saí da redação às duas da manhã, quando os motoristas que conseguiam voltar para o jornal disseram que tinha um caminho em que os carros poderiam passar. Era só seguir pelo viaduto São Sebastião até o Santo Cristo, contornar o largo à esquerda, entrar na primeira à direita, ir em frente, passar nos fundos da rodoviária, virar de novo à esquerda e subir o viaduto da Francisco Bicalho. De lá, decidir se vai pela Quinta da Boa Vista ou pela Linha Vermelha e depois, Linha Amarela.
Foi o que eu fiz.
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Fora dois bolsões dágua nos fundos da rodoviária, fui bem até chegar ao viaduto da Francisco Bicalho, onde encontrei o trânsito completamente parado. A pista da esquerda, a que eu estava, tomada por ônibus e caminhões enormes. Lá embaixo, uma infinidade de faróis prestes a boiar nas águas podres do Canal do Mangue me fez pensar no apocalipse. Ao meu lado vejo passar uns fotógrafos, todos atrás das melhores imagens. A chuva aperta. Não perdoa. Percebo o tempo passar quando o cd do Marcelo Jeneci chega ao fim. Assim como na canção, eu também estava longe. De repente, a pista da direita começa a andar. Sem pensar duas vezes, embiquei o carro, consegui uma brecha e segui o fluxo para ver onde ia dar. A pista para quem ia pegar a Linha Vermelha ficou livre e eu fui com a cara, a coragem e a certeza de viver numa cidade despreparada.
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Páscoa, do hebraico Pessach, quer dizer passagem, travessia. Eu, que até então não tinha me dado conta de que a Páscoa se fora, lembrei disso assim que pisei em casa, depois de ter cruzado a cidade de madrugada e debaixo daquele temporal.
quarta-feira, 20 de abril de 2011
Indispensável

É preciso celebrar a vida.
Deixar-se levar pelas tardes de outono.
Apaixonar-se na luz de cada esquina.
Embriagar-se de amor.
Revelar-se.
Fotografar o ângulo mais bonito.
Registrar o que jamais foi dito.
Nunca deixar de tentar.
E amar.
Sobretudo amar.
É preciso.
Não tenha medo. Tente.
Alimente seus desejos mais nobres.
Sacie todas as suas vontades.
Encha o peito de amor.
Experimente.
Depois, respire fundo.
Aquiete-se.
Volte-se para o seu silêncio.
Só então solte o ar.
Bem devagar.
Num mesmo ritmo.
Repetidas vezes.
Incessantemente.
Sem parar para pensar.
Porque a vida é precisa.
Indispensável é o amor.