sexta-feira, 20 de maio de 2011

Dark room




Ele só percebeu que estava preso naquele quarto escuro horas mais tarde. Pior ainda: foi como se depois dos quarenta anos só fizesse sentido somente a partir dali, daquele ponto em que se deu conta de que estava preso. Pés e mãos atados. Os olhos vendados, a boca amordaçada. Ficou paralisado, consciente de que não teria mais como fugir de si mesmo. Lembrou da sua terapeuta e das massagens que ela fazia nele após as sessões semanais de tortura mental. Era uma espécie de alento após a dor profunda. E para ele nunca fora fácil expor as suas dores, muito menos reconhecer que a vida não era feita somente de amores. Ele já não era tão jovem, mas conservava os sonhos e os ideais que considerava os mais justos.

Que melhores armas ele poderia ter para enfrentar as batalhas do dia a dia, senão acreditar no amor e na justiça?

Não que ele já não tivesse experimentado as lágrimas. Claro que já. Mas não havia sobrado mácula, mágoa, ressentimento. Nada. Sob a redoma da ingenuidade, conscientemente ou não, ele se resguaradava, ele se protegia. Para apagar de vez um gesto mais ríspido, bastava-lhe um sorriso de bom dia e o de ruim que tivesse acontecido ficava no passado. Não precisava nem de desculpas.

Ele era feliz assim, mas não sabia.

Foi mais tarde, bem mais tarde que ele soube que a vida tinha um lado frio e cruel. E não foi preciso que mãe ou pai morressem ou algum outro tipo pior de desgraça para ele entender que cada um traz consigo as suas próprias tragédias. Elas permanecem feito código genético, passam de geração em geração, são como marcas perenes da existência humana. E não há nada que se possa fazer quanto a isso. A não ser enfrentá-las sem medo de encarar a dor.

Completamente nu, deitado naquele chão frio e sujo, o ar pesado, o cheiro de urina misturado ao mofo e à umidade das paredes. Um cenário triste e até mesmo assustador. Não havia barulho lá fora. O silêncio era tanto que ele conseguia ouvir o ritmo descompassado do seu batimento cardíaco, o que o perturbava ainda mais. Sua voz não existia, quase não conseguia se mover, sequer enxergava um palmo a sua frente. O simples ato involuntário de respirar era sacrificante. Era como se puxasse o ar e o ar não viesse. Asfixiante.

Por que, meu Deus, aquilo tudo?

Não conseguia supor quem o abandonara ali. Com o passar das horas e dos dias aquele alguém era o que menos importava. Quem era ele? Sentir sua carne apodrecendo e aquele odor insuportável de excrementos ao seu redor, mais a cabeça que não parava de latejar e pensar um só instante, já eram passatempos que bastassem. Enquanto isso, tudo mais se desfazia. Aquele que um dia ele fora se dissolvia, escorria pelo ralo sujo do destino sem volta. Feito a morte.

Mas ela não vinha.

Durante anos ele permaneceu trancado naquele quarto escuro sem que ninguém soubesse. E durante todo o tempo ele tentou sair dali. Nunca desistiu. Mas ninguém nunca percebeu nada.

A vida é mesmo um vai e vem de cegos.

quinta-feira, 5 de maio de 2011

A beira do cais





Ainda ontem mesmo mergulhei no mar
Sem sequer me importar com a maré das incertezas.
Nadei sem perceber onde ia dar a correnteza
E deixei-me levar pelas ondas que inundavam minha vida.

Foi ali que eu vi que eu já não era mais aquele que um dia eu conheci.

Ainda ontem mesmo fiz de mim um oceano
E entendi que a água só passa pela areia porque a areia deixa a água passar.
Então o que era grão em mim se desfez
E o que era sujo eu deixei lavar.

Foi ali que eu vi que eu já não era mais aquele em quem um dia eu me reconheci.

Porque ainda ontem eu era o náufrago de mim mesmo.
Feito um barco sem âncora que ruma ao sabor do vento
Eu também deixei o vento me soprar ao encontro da arrebentação.


Ainda ontem eu era só mais um corpo à deriva.

Ainda ontem.

Hoje não mais.

Agora vejo o menino no horizonte e da minha proa já consigo encostar a beira do cais.

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Para o meu neto Kadu, que acabou de nascer.

sexta-feira, 29 de abril de 2011

A travessia





Para quem teve a oportunidade de viajar, o feriado da Semana Santa este ano não poderia ter sido melhor. O sol e o calor civilizado de outono abençoaram ainda mais o significado daqueles dias. Este ano não viajei, não fui à igreja e nem acompanhei a procissão, como é de costume. Na sexta-feira da Paixão eu estava de plantão no jornal e com a missão de preparar o peixe para o almoço da família. No dia anterior, além de ter sido aniversário do meu filho mais velho e chá de bebê do meu neto, eu, Claudia e Rosa, amiga de longa data, emendamos a noite num show e depois numa outra festa. Dançamos e nos divertimos até as três da manhã, coisa que não fazíamos há anos. Resultado: acordei tarde e perdi a hora da missa.

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Eu já contei aqui que plantão é uma coisa pra lá de horrorosa que acontece na vida de todo jornalista uma vez por mês, não é? Plantão em pleno feriado consegue ser pior ainda, acredite. Por sorte, este meu plantão na Semana Santa foi tranquilo. Sem terremotos e tsunamis no Japão, sem guerra do tráfico, sem visita de presidente norteamericano, sem enchentes ou deslizamentos. Tudo correu na santa paz. A notícia que mais me mobilizou foi a de que Rosinha Garotinho, prefeita de Campos, cidade de meus avós maternos, teria sido expulsa do PMDB. Mas o que me chamou a atenção não foi o fato de ela ter sido expulsa do partido, mas sim porque a expulsão havia ocorrido há três dias e ninguém, até então, noticiara. Teria Rosinha Garotinho perdido a importância para a política nacional?

Fica aqui a pergunta.

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Segunda-feira pós-feriado. O céu está nublado, as horas se arrastam no jornal, nada acontece em Brasília, não sabemos nem se teremos manchete e eu crente que vou sair no meu horário habitual. Afinal, é segunda-feira, a capital federal está um marasmo que só, nossos políticos ainda não voltaram do final de semana prolongado e as notícias só falam sobre o número de mortos nas rodovias federais. Depressão é pouco.

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A natureza, vendo aquele cenário triste de jornalistas em busca de um fato realmente relevante para publicar, resolveu que estava na hora de providenciar uma chuvinha. E já que o sol reinou toda a Semana Santa, mandou logo um temporal que é para não deixar dúvidas da sua força. Em poucos minutos, a área da Tijuca, Maracanã e Praça da Bandeira virou uma enorme banheira e o trânsito, um verdadeiro caos. Em questão de segundos o clima na redação era outro. Olhos arregalados. Uma certa tensão no ar. Alguém lembrou que foi justamente na segunda-feira após a Páscoa do ano passado que outro temporal havia arrasado com a cidade.

- Coincidência - eu disse.

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Estava preocupado em adiantar meu trabalho e torcendo para que a chuva desse uma trégua para eu poder voltar para casa. Mas nada aconteceu como eu gostaria naquela noite e só saí da redação às duas da manhã, quando os motoristas que conseguiam voltar para o jornal disseram que tinha um caminho em que os carros poderiam passar. Era só seguir pelo viaduto São Sebastião até o Santo Cristo, contornar o largo à esquerda, entrar na primeira à direita, ir em frente, passar nos fundos da rodoviária, virar de novo à esquerda e subir o viaduto da Francisco Bicalho. De lá, decidir se vai pela Quinta da Boa Vista ou pela Linha Vermelha e depois, Linha Amarela.

Foi o que eu fiz.

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Fora dois bolsões dágua nos fundos da rodoviária, fui bem até chegar ao viaduto da Francisco Bicalho, onde encontrei o trânsito completamente parado. A pista da esquerda, a que eu estava, tomada por ônibus e caminhões enormes. Lá embaixo, uma infinidade de faróis prestes a boiar nas águas podres do Canal do Mangue me fez pensar no apocalipse. Ao meu lado vejo passar uns fotógrafos, todos atrás das melhores imagens. A chuva aperta. Não perdoa. Percebo o tempo passar quando o cd do Marcelo Jeneci chega ao fim. Assim como na canção, eu também estava longe. De repente, a pista da direita começa a andar. Sem pensar duas vezes, embiquei o carro, consegui uma brecha e segui o fluxo para ver onde ia dar. A pista para quem ia pegar a Linha Vermelha ficou livre e eu fui com a cara, a coragem e a certeza de viver numa cidade despreparada.


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Páscoa, do hebraico Pessach, quer dizer passagem, travessia. Eu, que até então não tinha me dado conta de que a Páscoa se fora, lembrei disso assim que pisei em casa, depois de ter cruzado a cidade de madrugada e debaixo daquele temporal.




Que venha, agora, a renovação.

quarta-feira, 20 de abril de 2011

Indispensável


É preciso celebrar a vida.
Deixar-se levar pelas tardes de outono.
Apaixonar-se na luz de cada esquina.
Embriagar-se de amor.
Revelar-se.

Fotografar o ângulo mais bonito.
Registrar o que jamais foi dito.
Nunca deixar de tentar.
E amar.
Sobretudo amar.

É preciso.

Não tenha medo. Tente.
Alimente seus desejos mais nobres.
Sacie todas as suas vontades.
Encha o peito de amor.
Experimente.

Depois, respire fundo.
Aquiete-se.
Volte-se para o seu silêncio.
Só então solte o ar.
Bem devagar.

Num mesmo ritmo.
Repetidas vezes.
Incessantemente.
Sem parar para pensar.
Porque a vida é precisa.

Indispensável é o amor.

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Eu só sei fazer poesia


Ainda bem cedo percebi que tem gente que não sabe doar.
Só mais tarde me dei conta que eu também não sabia.
Eu não soube lidar.
Eu não soube sequer entender o que eu era.
Quisera eu compreender.
Quem dera.

Algum tempo depois aprendi que é preciso dividir para multiplicar.
E me troquei por mais de mil pedaços.
Distribuí salivas em milhões de beijos.
E me perdi na conta e no suor dos seus abraços.
Até me juntar por inteiro.
E de novo repartir.

Incessantemente.

Misteriosamente então parti.

Furiosamente me joguei sem saber por onde ir.
Silenciosamente vi a ciranda que não para.
Eu entrei na roda, eu rodei na gira.
Eu virei criança.
Recriei versos com as rimas que eu trazia da minha infância.
Eu me reconhecia.

Era eu ali.
Bem perto.
No sentido daquelas palavras.
No arfar daquele peito.
No eco de tantas vozes.
Por dentro, por fora e ao redor de mim.

Porque eu só sei fazer poesia.

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Parece loucura


Já faz algum tempo e eu passava ali pela Fonte da Saudade quando vi uma cena que nunca me saiu da cabeça. Era final de uma manhã ensolarada. Destas em que a palheta de cores que nossos olhos refletem fica muito mais intensa. Nas manhãs ensolaradas o tempo também anda bem mais devagar.

Foi em câmera lenta que eu contornei o largo em direção ao engarrafamento que me levaria ao Humaitá quando, à minha esquerda, um grupo de meninas com no máximo nove anos de idade, com uniforme de escola pública, atravessava a rua, em fila indiana. A professora ia na frente e atrás dela aquelas meninas - umas dez, talvez - com praticamente a mesma altura e todas, sem exceção, com mochilas nos mais variados tons de rosa nas costas. A professora, inclusive.

Aquelas meninas estavam felizes naquela manhã. E eu também.

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Tenho acordado cedo estes últimos dias. Muito por conta da criançada que desde às 7h começa a chegar ao colégio que tem bem ao lado do meu prédio. Tem um menino - um dia vou descobrir o nome dele - com o tom de voz acima do que é permitido por lei, que vive aos berros. Já consegui descobrir que seus melhores amigos são a Camila, o Igor e o Bernardo de tanto que ele grita seus nomes. Acho que ele gosta da Camila, mas a Camila gosta do Igor, que não gosta dela. Já o Bernardo, eu não sei. Só sei que tenho acordado cedo por conta do movimento no colégio ao lado.

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Aí, levanto, leio o jornal, dou um giro na internet. Nunca como nada de manhã. Não consigo. No máximo bebo um suco. Segundas e quartas os professores de violão e desenho dos meus mais novos amanhecem lá em casa. Nos outros dias, eles dormem até mais tarde. Os meus filhos. Os professores, eu não sei. Nunca ligo a TV pela manhã. Nesta quinta-feira, sabe-se lá por que cargas dágua, eu liguei.

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As cenas de um massacre numa escola americana que tanto me impressionaram há alguns anos já estavam escondidas no meu baú de lembranças ruins. Os filmes Tiros em Columbine e Elefante também. Não poderia imaginar que, ao ligar a TV na manhã daquela quinta-feira, todas aquelas cenas que eu pensava ter esquecido voltariam à tona. Eu só queria ver se a Ana Maria Braga - e daí? - ia fazer alguma receita que valesse a pena. Só isso. Mas Ana Maria e seu inseparável Louro José estavam conversando com uma menina que havia sofrido bullying - o tema da moda - na escola. A mãe, costureira, achava que a filha sofria preconceito por ter vindo do interior do Paraná.

- Lá no interior do Paraná, de onde nós viemos, nós temos o sotaque carregado mesmo -justificava a mulher, com todos os "esses e erres" bem torcidinhos, antes de ser interrompida por uma chamada do plantão do RJ TV.

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Uma escola municipal na Zona Oeste do Rio de Janeiro havia sido invadida por um bandido. A única informação era que tiros foram disparados dentro da escola e a sensação de que alguma coisa muito grave estava acontecendo por lá. Olhei pela janela do meu quarto e vi cruzar no céu nublado dois helicópteros. O barulho que eles fizeram despertou a ira do meu vira-latas, que deu o ar da graça na varanda. Meus filhos continuavam dormindo, minha mulher tinha levado meu sogro para fazer exame de sangue, e eu ali na cama, com a TV ligada e as imagens de um crime sem precedentes invadindo a minha manhã e contaminando todo o meu dia.

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Saí do quarto, tomei meu banho, me arrumei e corri para o Largo do Machado. Desde a semana passada eu tinha marcado um compromisso que me tomaria todo o início da tarde. Fui ouvir que preciso aprender a falar francês, que tenho de levar meus textos a uma editora, que necessito urgentemente voltar a fazer exercícios físicos e que, ora bolas, a Claudia era a mulher da minha vida. Ouvi também que não sou filho do meu pai, que minha mãe só veio aqui para me encontrar, que não posso nunca usar acento no meu nome, que meu filho mais velho já foi filho da minha mulher e que eu só fiz 18 anos em 1995. Portanto, só tenho 34 anos e não 42. Parece loucura.

Naquelas duas horas eu ouvi muita coisa. Mas nada a respeito da louco que invadiu o colégio em Realengo e matou 12 crianças inocentes.

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Cheguei na redação mais cedo que de costume naquela quinta-feira. Clima pesado. Todos, cada um a seu modo, chocados com as notícias que, infelizmente, teríamos de publicar. A editoria Rio precisando de reforço, as pautas que não paravam de surgir, as histórias dramáticas daquelas vidas interrompidas, a impotência de nossas autoridades, o choro da nossa presidenta, o desespero dos pais que perderam seus filhos e em mim a certeza de que sou de outro planeta.

Eu estava triste e tinha a sensação de que todo mundo também estava.

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- Agora vai todo mundo achar que só porque você é tímido, retraído, que gosta de ficar sozinho e que passa horas na Internet, que você é louco, me disse um amigo, no dia seguinte à tragédia.

- É um risco que não corremos sozinhos, respondi. Respondi também que outros fatores deveriam ser observados e que se analisássemos a fundo história de vida daquele rapaz que invadiu a escola e que disparou contra os alunos poderíamos encontrar algumas explicações. Só não iríamos encontrar uma coisa: amor.

- Ou a gente ama ou a gente enlouquece, eu falei.

E aquela brutalidade toda, naquela escola em Realengo, naquela manhã nublada de quinta-feira... meu Deus, que loucura!

domingo, 27 de março de 2011

A Porta


Um vento gelado rasgava-lhe o rosto em pedaços. O frio àquela época do ano não era comum, mas todos pareciam não perceber que uma realidade diferente estava brotando. Sonhos, medos, fantasias e um enorme desejo de tornar-se verdadeiro. Era assim que ele sentia-se diante do mundo. Muitos séculos já haviam chegado. Outros tantos haviam de vir? Ali, no meio da rua larga, onde carros e guardas e padres passavam sem olhar sequer ao redor, ele pensava que aquele poderia ser seu último dia. Seu último instante. Seria ele o último homem?


Um bar. O mesmo bar de sempre. As mesmas luzes. O mesmo cheiro. O mesmo cálice de conhaque. Outros tantos pensamentos revirados, revisados, rebuscados. Ao encontro de si mesmo. Mas ele nem sabia o que poderia vir a ser. Apenas estava ali, naquele bar, esquentando o frio e fugindo do vento gelado que cortava-lhe o rosto. Estava quente no bar. A garçonete ainda era a mesma morena que meses atrás implorava-lhe que não fosse embora. Que ficasse. Que a amasse, a possuísse, a desejasse. Mas ele nem ao menos dera-lhe atenção. Ela lhe parecera vulgar. E talvez fosse mesmo. Mas qual é o homem que não gosta de um pouco de vulgaridade? Uma puta revigora qualquer um. Faz pulsar, sentir vivo, firme. E o que é melhor: sem o fardo do compromisso e as mazelas da rotina.


Mas ele não queria apenas uma trepada. Muito menos compromisso. Ele estava à espera do encontro com o que poderia ser sua cartada final. Ele tinha apenas 35 anos e já pensava que aquela poderia ser sua cartada final. O fim. E não o recomeço. O entendimento. Apesar do absurdo. Do caótico. Do visceral. Ele sempre vivera assim: no limite. Prestes a sacar uma arma, a explodir granadas, a detonar tantas bombas. O mundo o transformara nisso. E ele procurava a razão. Se é que havia alguma.


Outro conhaque. Já era o terceiro. A morena procurava fazer-se notar. Exibia um decote generoso que deixava à mostra suas carnes ainda tenras. Ela era jovem. Bonita. Mas era vulgar. E isso ele não perdoava. Com perfume barato e cabelos oleosos.


_ Você hoje não vai falar nada? Só veio beber? Encher a cara e se afundar nos pensamentos mais estranhos, sórdidos, loucos?


_ Talvez eu não tenha muito o que dizer. Não vim aqui para conversar. Nem sei ao certo por que estou aqui.


_ Talvez eu saiba... venha, vou lhe mostrar!


Ele a seguiu. Pela primeira vez em tantos meses ele a seguiu. Desceram por umas escadas sujas e sombrias. Vozes, gemidos, gritos. Luz. Lá no fundo havia uma luz que o cegava, mas que ao mesmo tempo o atraía. Era pra lá que ela o levava. Ele já não enxergava nada. Apenas a seguia de mãos dadas. Eram mãos quentes as da morena. Macias. Por um instante ele lembrou das mãos de sua mãe. Ela morrera há anos. Ele ainda era um menino. Naquele momento ele era um menino. Já não havia mais gritos, gemidos ou vozes. Só a luz, uma porta e a morena a dar-lhe as mãos.


_ Vê? É até aqui que nós podemos chegar juntos. A porta é você quem deve abrir e decidir se vai ou não seguir. Nunca segui adiante. Não posso e não quero. Mas você pode. Aliás, você sempre procurou por esta porta. Está preparado?


_ Não. Não sei... talvez... acho que sim. Estou com medo.


_ Este é o nosso pior inimigo. O nosso verdadeiro fantasma. Liberte-se ou volte comigo para suas angústias, suas questões mal resolvidas, sua vida medíocre. Você pode decidir e lhe prometo: se voltar comigo, não vai lembrar de nada. Não vai imaginar as escadas, os gritos, a luz. Nada. Vai voltar ao que era antes. Vai voltar à sua quarta dose de conhaque barato, naquele bar mal frequentado.


_ Eu vou abrir. Preciso. Por favor, me ajude...


_ Só você pode abrir esta porta. Esta porta é a sua porta. Abra!


Ele soltou a mão da morena e abriu a porta. Desapareceu em meio à luz e ao vento quente. Nunca mais a morena soube dele.


Nem ele... nem ele...

quinta-feira, 24 de março de 2011

Eu não sou perfeito


Desaprendi a mentir, pois já soube. Hoje, meus olhos quase não me permitem mais. Não levo em consideração as pequenas e inocentes mentiras. Até porque, não saberia dizer quais são as pequenas e quais são as inocentes. Falo da pior mentira, que é a de não ser verdadeiro consigo mesmo.

Antes de me afogar no vidro de rivotril ou de me perder com outras drogas, mergulhei na verdade.

Overdose de verdade.

Tomei consciência dos meus 40 anos, olhei para o espelho, vi meus cabelos mais ralos, minha barba grisalha, uma vida passando. Metade dela, talvez.

Entendi que eu não era perfeito, que eu tinha defeito e que aquele defeito é meu, só meu e de mais ninguém. Sinal de que eu, finalmente, me rendi à verdade.

Logo depois entendi que ninguém é obrigado a conviver com meus defeitos. Nem eu.

Ninguém aguenta.


Feito homeopatia, provei do meu próprio veneno para conseguir encarar minhas verdades. Chamei de meus tantos defeitos, convivi mais de perto com eles, dialogamos, brigamos e procuramos nos entender. Provar deste veneno exigiu de mim verdade e desapego. Foi então que descobri o melhor da brincadeira: desapegarmos de nós mesmos.

Porque somos nós aquelas falhas todas.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Uma questão de nonsense


Se havia algo de estranho naquela manhã, era o silêncio. No elevador, ao sair de casa, sequer um bom dia da vizinha adolescente, que tinha fones no lugar de brincos nas orelhas. O zelador, para variar, não estava na portaria. A garagem, além de escura, vazia. Entra no carro, bate a porta com cuidado, o cheiro forte de cigarro no estofado, o celular descarregado, ajeita os espelhos, gira a chave. Só o ronco do motor. O rádio não funciona. O vidro elétrico também não. O filtro do ar condicionado precisa ser trocado, assim como os dois pneus traseiros.


É cedo. Ainda não há trânsito.

Pouco dormira na noite anterior. A dor intensa que sentia na perna direita não deixara que relaxasse um só instante. Aquele furúnculo não parava de crescer e o inchaço no tornozelo era indisfarçável. Há duas semanas que ele aparecera. Num primeiro momento parecia mordida de inseto. Coçava até. E desde então, só aumentava. Precisava urgente procurar um médico.

Há mais de dois anos não procurava sua mãe.

Na entrada principal do edifício comercial em que trabalhava, uma placa onde se lia 'não abriremos hoje'. Um velho que recolhia restos de papelão não soube lhe responder por quê. A mulher da banca de jornal também não e o dono da lanchonete ao lado nunca foi mesmo de muita conversa. Precisava de uma explicação. Qualquer uma que fosse. A perna doía. Latejava demais aquilo. De vermelho, o tornozelo estava quase roxo. Precisava sentar. Enquanto tudo ao seu redor vertiginosamente rodava.

Caía.

Quando retomou a consciência, já não havia mais ninguém ali. Só a dor na perna direita que insistia em não ir embora. Feito mágoa que não se apaga, não se afoga, não se esquece, não se liberta. Bem ali, naquela rua deserta, onde placas indicavam pistas sem saber onde parar. Entre os arranha-céus, bem lá no alto, nuvens aceleradas num balé frenético davam sinais de que o tempo urgia em se apressar.

- Corra!, pensou.

Seu corpo permanecia imóvel e não respondia a nenhum estímulo. Nada se mexia. Era só o pensamento e a respiração. Mais pensamento que respiração. Como se tivesse fumado erva das mais fortes. Trincava-lhe os dentes. Cerrava-lhe os olhos. Aumentava-lhe os sentidos. E a dor e a dor e a dor e a dor.

A dor.

Tinha saudade de casa. Da infância esquecida nos subúrbios. Do cheiro de doce de batata doce que só a sua avó fazia. Da casa cheia de alegria. Do abraço forte que acolhia. Dos tombos no quintal e dos pés descalços que pisavam a terra descompromissadamente. Molhada, seca ou fria. A terra tudo absorvia... vagarosamente.

Ardia.

Pulsava.

Sangrava.

Saía.

Lá fora, um silêncio enlouquecedor.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Karla com K

Estava tudo muito claro naquela manhã. Era outono e as manhãs de outono nem sempre são alegres ou inspiradoras. Os canários cantavam na varanda daquele apartamento no décimo-segundo andar como se soubessem ser aquele o último dia. No prédio em frente, a vizinha cismava em gritar com o neto a mesma ladainha de sempre. A impressão que dava era a de que o moleque pouco se importava. Importante mesmo era perder o primeiro tempo de aula. Lá embaixo os carros passavam lentamente, anunciando um engarrafamento monstruoso que se estendia por toda a rua, a principal via de entrada e saída daquele bairro decadente.


O quarto ainda cheirava a cigarro e a suor de uma madrugada movimentada. Ao lado da cama, dois copos derramados e um cinzeiro lotado de guimbas de Marlboro vermelho. Os armários abertos e as calças e camisetas jogadas de qualquer maneira denunciavam o desleixo. No criado-mudo, um velho despertador parecia cansado de anunciar que já estava mais do que na hora de levantar. Mas sobre o colchão um casal permanecia enrolado em lençóis baratos de algodão.


Não demorou muito e Leonel virou a cabeça em direção à luz que vinha da varanda. Pareceu não saber onde estava ou o que fizera nas últimas horas. Ao seu lado, ainda dormindo, uma negra com os cabelos pintados de vermelho e um cordão de um metal meio esverdeado onde se lia Karla. Assim mesmo, com K. Havia marcas de quelóide no pescoço da mulher e outras tantas que pareciam ter sido feitas com pontas de cigarro. Ela dormia profundamente e sua respiração era quase imperceptível. Estava gelada e completamente nua. Leonel levantou sem fazer barulho, mas uma forte ardência na região da virilha o impediu de dar mais que três passos naquele quarto minúsculo. Numa rápida inspeção viu que estava tudo no lugar, mas seu saco também havia sido queimado por pontas de cigarros.
Que porra era aquela? O que ele estava fazendo ali? Quem era a negra deitada nua na cama? Que quarto era aquele? E que dor filha da puta!


O telefone tocou estridente. Ele atendeu ofegante. Do outro lado uma voz aguda disse que tudo havia saído como combinado e que dentro de duas ou três horas ele estaria livre.


- Livre do quê? Quem está falando? Que combinado? E esta mulher que não acorda?


- Ela não vai acordar. E se você não fizer exatamente o que combinamos, amanhã estará estampando as páginas policias dos principais jornais, acusado de assassinato.


- Assassinato? Como assim? Alô... Alô...


Uma terrível dor de estômago, acompanhada de ânsia de vômitos impedia Leonel de raciocinar naquele instante. Ele pôs o telefone no gancho e correu nu até a varanda repleta de gaiolas com canários que sujavam de cascas de alpiste e merda o chão de cerâmica vermelha. Olhou ao redor, mas não conseguiu identificar sequer em que bairro estava. Lá embaixo aquele engarrafamento parecia não ter fim. Em frente, a velha já sem o neto em casa, estendia algumas roupas num varal improvisado e nem se deu conta da presença de um homem completamente pelado na varanda do prédio vizinho. “Caralho... o que está acontecendo? No que foi que eu me meti?”


Ao entrar novamente no quarto ele viu que havia alguma coisa escrita na porta. Não reconheceu a letra como sendo dele. Mas aquela frase _ “Vou te queimar até o meu amor morrer” _ era de uma canastrice sem tamanho e o sangue usado para escrevê-la ainda estava fresco. De novo a ânsia de vômito. Ele sempre odiou sangue e qualquer tipo de violência. O máximo que se permitia na hora do vamos ver eram uns tapinhas inocentes e, mesmo assim, quando as parceiras exigiam. Gostava mesmo era de uma boa trepada sem muitas estripulias. Na verdade ele nunca se considerou um cara criativo quando o assunto era sexo. Papai e mamãe pra ele já estava bom. O importante era aliviar a tensão.



A porra da porta estava trancada e ele não tinha a menor idéia de onde poderia estar a chave. Suas bolas ardiam muito e mesmo assim ele resolveu vestir a calça. Nunca ficara muito à vontade andando pelado. Havia sido criado por uma mãe austera. Vai ver era por isso. Aproveitou para cobrir o corpo da tal Karla, não sem antes observar melhor aquele pedaço de carne que jazia na cama. Era realmente um mulherão. Uma negra de se tirar o chapéu e de se render dúzias de homenagens. Assim, deitada de barriga para cima, parecia ter saído de uma tela de Di Cavalcanti, tamanhas as curvas de seu corpo. Os pentelhos estavam bem aparados e deixavam à mostra um beicinho vermelho-carmim. Os seios? Firmes e com os mamilos escuros, que mais pareciam umas grandes chupetas. Ele estava ficando excitado.



O que poderia ter acontecido durante aquela madrugada? Há quanto tempo ele estava naquele apartamento? Os canários não paravam de cantar na varanda e o barulho das buzinas dos carros engarrafados lá embaixo não estavam colaborando para que ele pudesse raciocinar. A sua carteira com documentos estava intacta: cartão de crédito, do plano de saúde, carteira de identidade, duas folhas do talão de cheques e alguns trocados. Nem um vestígio do uso de drogas ilícitas. Em compensação ele contou treze maços de Marlboro vazios e dois ainda fechados. Foi aí que se deu conta da sujeira daquele cárcere.



O piso era coberto por um carpete áspero e cheio de falhas. A cama era daquelas de viúva, parecia feita de madeira de jacarandá e com uns rococós entalhados na cabeceira. O colchão era de molas, daqueles que você afunda e acorda quebrado de dor nas costas. Sobre o criado-mudo, o velho despertador e alguma coisa que um dia ousaram chamar de abajur. O lençol e as fronhas estavam úmidos de suor e outras secreções. Próximo às pernas da morta, uma mancha de sangue. Ele virou a tal da Karla de bruços e não viu nenhum ferimento que pudesse ter sangrado. Apenas as centenas de queimaduras de cigarro que já criavam certa casca e, no máximo, soltavam um prurido. Ele também não tinha um corte sequer. Será que ela estava menstruada? E desde quando cadáveres menstruam? Não se fez de rogado e abriu-lhe as pernas para ver se isso era possível. “Porra, essa filha da puta está morta e mesmo assim menstrua!”.



Aquela rápida passada de dedo entre as pernas do cadáver da negra despertou nele um desejo incontrolável. Como num insight, algumas cenas dos dois naquele quarto foram surgindo em sua mente. A fumaça do cigarro, a luxúria, a dor e o orgasmo ainda entranhados numa faísca de memória. A imagem da negra pincelando os dedos na buceta e escrevendo a tal frase na porta. A entrega dela na hora do sexo. A loucura dele em querer queimá-la e em se deixar queimar. A morte e o tesão que ele sentia em matar alguém de prazer.



Quando se deu conta, estava tendo uma espécie de convulsão, debruçado sobre o cadáver e quase sufocando entre os seios de Karla. Na verdade ele tinha acabado de gozar num corpo sem vida e aquilo não parecia lhe incomodar. Levantou lentamente e tirou um lenço imundo do bolso. Limpou a si e a mulher. Enxugou o suor do rosto com o mesmo lenço, enfiou-o no bolso da calça outra vez, pegou a camisa vermelha que estava jogada na porta do armário e vestiu. Cuidadosamente pegou a lingerie da mulher e começou a vesti-la também. Depois o vestido, as sandálias e por último aqueles brincos enormes. Passou-lhe um pente nos cabelos mal tratados para que ela parecesse estar apenas dormindo. Sentou na beirada da cama, segurou as mãos da morta como se estivesse pedindo perdão, acendeu mais um cigarro e tragou profundamente. Permaneceu assim tempo bastante para fumar mais dois cigarros até que o telefone tocou outra vez. Agora ele já não estava mais ofegante. Parecia saber de tudo. Do outro lado da linha a mesma voz aguda:



- A porta está aberta. Você fez tudo certo.

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

O que há de mais bonito


Existem pessoas que são especiais. Meu filho mais velho, por exemplo. Chegou cedo. Muito cedo. Eu e a mãe dele éramos ainda muito jovens. Ela, adolescente. Eu, não muito diferente. Dois irresponsáveis, muitos sonhos e um ser lindo em nossos braços.

Lembro perfeitamente do dia em que ele nasceu. Um sábado. Sexta-feira era o prazo limite dado pela médica para que esperássemos pelo parto normal. Dentro daquela barriga enorme ele quase já não tinha espaço para se mexer. Se aguardássemos mais, talvez pudéssemos fazer com que ele entrasse em sofrimento. Pelo menos esta era a versão da médica. Diante da pressão, a cesariana foi marcada para o dia seguinte. Não dava mais para esperar.

Dia 21 de abril de 1990. 10h da manhã. O dia amanheceu iluminado naquele sábado. Na minha memória, o cenário é de céu azul com direito a todas as demais cores de um outono que jamais se perderá de mim. Demos entrada no hospital Lar Fabiano de Cristo, no Engenho Novo. No quarto, os preparativos e procedimentos necessários para uma cirurgia comum. Jejum. Assepsia total. Enfermeiras entrando e saindo todo o tempo. Ansiedade. Tensão. E todos os demais sentimentos que antecedem o nascimento de uma criança.

16h. A obstetra nos avisa que está tudo certo, que a cesariana está devidamente marcada e que ela iria em casa tomar um banho e voltar renovada para trazer nosso filho ao mundo. A mãe, deitada de lado, sustentando o peso da barriga na cama daquele hospital e o pai, desconfortavelmente instalado num daqueles sofás-camas que acabam com a coluna de qualquer acompanhante.

16h30. A mãe levanta. Precisa fazer xixi. Com aquele andar de pato que é característico das mulheres prestes a parir, lá foi ela. O pai, mezzo sentado, mezzo esparramado no tal sofá-cama, pergunta se está tudo bem . Um breve aceno de cabeça e a resposta é positiva. Um. Dois. Três. Quatro. Cinco... de repente um grito irrompe do banheiro.

- A bolsa estourou!

Numa velocidade digna de ter sido estudada pelo mais conceituado detentor de um prêmio Nobel de Física, corro com ela para debaixo do chuveiro, chamo a enfermeira, ligo para a médica, procuro manter a calma, está tudo bem, todos vão chegar a tempo. Começam as contrações. Respira. Conta até dez. Relaxa. Alivia. O intervalo entre uma contração e outra vai diminuindo.

- Dói!, ela reclama.

19h30. Quase três horas depois. O quarto está lotado de gente. Médica, pediatra, anestesista, assistente, pai, mãe, sogro, sogra, irmão, cunhada, cunhado, tias. Respira. Conta até dez. Relaxa. Alivia? Impossível com mais de oito de dilatação. Quase uma festa e aquele menino já coroando e outra cena que nunca mais vou esquecer: momentos antes da mãe ser levada para o centro cirúrgico já dava para ver perfeitamente a cabeça cabeluda do bebê apontando para fora. Ele estava mesmo chegando.

Eu não quis, não fui incentivado e hoje acho que não estava realmente preparado para assistir ao parto do meu filho mais velho. Lembro bem que fiquei no hall próximo ao centro cirúrgico escutando os gritos que vinham lá de dentro. Verdade que foram poucos os gritos. Para quem conhece a mãe, pode parecer que eu estou mentindo, mas não houve escândalo. Juro. O escândalo quem fez fui eu, ao ouvir o primeiro choro do meu filho que acabava de nascer, às 20h43.

-Quero ver meu filho!, gritei, num tom de voz visceral e desesperador que só quem me conhece de verdade sabe que eu sou capaz de gritar.

Como num passe de mágica surge a médica assistente com meu filho nos braços e ainda envolvido naquele misto de gordura e sangue. O olho esquerdo, se não me engano, fechado. O direito tentando exergar que lugar era aquele. Todo enrugado. Frágil e forte ao mesmo tempo. Lágrimas. Todas de felicidade. Deu tudo certo. Abraços. A mãe está ótima. Ele é perfeito.

- Tem todos os dedos, eu pensava comigo mesmo, enquanto agradecia a Deus aquele momento único.

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Meu primeiro casamento acabou exatamente um ano e uma semana depois daquela noite. Mas o amor incondicional de pai e filho e toda uma história de amizade e respeito foi traçada desde então. Nunca deixei de me fazer presente e vivi todas as dores e as delícias de ser pai solteiro. Tivemos nossos problemas, claro. Não é nada fácil criar um filho. Mas foram poucas as vezes em que precisei ser rígido ou usar de palavras ásperas. Sempre tive a impressão de que meu filho número um me conhecia no olhar e vice-versa. Pode ser simples ilusão de pai. Pode ser. Mas guardo em meu peito as melhores impressões da paternidade. Por sorte tive o prazer de ter mais dois filhos e confirmar que tudo aquilo é realmente verdade.

Hoje, passados mais de vinte anos daquele dia 21 de abril de 1990, estou vendo uma história se repetir. E é engraçado e surpreendente como elas realmente se repetem. No mesmo mês, com a mesma idade que eu tinha, desta vez recebo o roteiro e fico sabendo que o personagem de pai não caberá a mim, mas a meu filho. Fiquei com o papel de avô. Confesso que custei a assimilar a ideia de ter um neto aos 42 anos, mesmo com os cabelos do peito teimando em nascer brancos e a barba cada vez mais grisalha. Coincidentemente - ou não - leio num site que a vida é um eterno ir e vir das mesmas histórias. Só que com diferentes protagonistas: o pai, o filho, o neto e o que há de mais bonito.


* Este post é especialmente para meu filho número um. Aquele que desde muito cedo - mesmo antes de nascer - teve o dom de despertar em mim o que há de mais bonito.

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Histórias do apocalipse


Nada neste mundo me deixa mais estressado do que rotina. Detesto ter de fazer sempre as mesmas coisas, ir sempre aos mesmos lugares, ver sempre as mesmas pessoas. Sempre fui assim. Desde pequeno. Na infância, lembro que meu pai sempre perguntava a mim e ao meu irmão onde nós queríamos ir passear. Uma vez eu escolhia e da outra vez, meu irmão. Civilizadamente.


Ou seria rotineiramente?


Cinemas, feira de selos (que colecionávamos), o clube numa Barra da Tijuca ainda antes da invasão dos emergentes e o saudoso Tívoli Parque, na Lagoa, eram algumas das minhas opções. Já meu irmão, não pensava duas vezes antes de responder:

- Zoológico!

Devo ter ido umas 287 vezes ao zoológico do Rio antes mesmo de completar dez anos de idade. Se você fizer as contas, dá uma média de 28,7 visitas por ano aos leões, macacos, girafas, zebras, pavões. Se eu tivesse guardado todos os tíquetes de entrada, poderia estar no Guiness, o livro dos recordes, com toda a certeza.


Para se ter uma ideia, de tanto ler as mesmas plaquinhas em frente às jaulas, eu sabia - e acho que ainda sei - de cor e salteado quais eram as preferências alimentares de cada animal, quanto cada um pesava, quais eram os seus países de origem.

Só nunca consegui saber uma coisa:

- Como meu irmão não enjoava de fazer sempre o mesmo passeio?

Esta minha aversão à rotina talvez possa explicar a minha trajetória profissional. Já corri o mundo quando se trata de trabalho na área de comunicação social. De produtora à agência de publicidade, passando por assessorias de imprensa e roteiros para institucionais e curtas-metragens, já fiz de tudo e um pouco mais.


Vai ver a escolha por jornalismo já trazia, inconscientemente, a certeza de ter uma profissão onde eu não fosse obrigado a fazer sempre as mesmas coisas e que me abrisse um leque de opções. Aliado ao prazer de escrever, eu teria um mundo de gente interessante para conhecer e uma infinidade de histórias para contar. E o que é melhor: usando das mais variadas linguagens.

Hoje, prestes a completar 42 anos e ganhar um neto, me vejo dentro da redação de um dos maiores jornais do país com a mesma garra dos jovens com seus vinte e poucos e em início de carreira. São jovens tão cheios de certezas e planos e eu ali, entre eles, com um único plano - o de aprender mais - e tão poucas certezas. Apenas com a leve desconfiança de que vida não carrega em si nenhuma verdade absoluta.

A vida, isso sim, é cheia de surpresas. Boas e ruins.

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Quarta-feira, 12 de janeiro. Saio da cama, leio o jornal e vou passear com o cachorro, o que já virou rotina, diga-se de passagem. O clima está abafado. Céu nublado e muitas nuvens carregadas. Choveu durante a madrugada. Começam a chegar as notícias de que um temporal havia feito estragos em Teresópolis e Nova Friburgo, cidades da região serrana do Rio de Janeiro. O que não se poderia imaginar é que os estragos, na verdade, se tratavam de uma enorme tragédia, com um número assustador de mortes e cenas que vão demorar um bom tempo para saírem de nossa memória.

Chego no jornal meia hora mais cedo, ávido por saber exatamente o que estava acontecendo. Se imaginávamos que teríamos uma semana tranquila, onde apenas uma reunião ministerial ou a chegada de Ronaldinho Gaúcho ao tal clube da Gávea pudessem valer de manchete, a tromba dágua que destruiu boa parte daquelas cidades e arrastou centenas ou talvez milhares de pessoas, ganhou, de longe, a disputa pelas primeiras páginas e a atenção de todos. E com ela, mais um mutirão de repórteres naquela redação dispostos a levar ao leitor a melhor informação, a melhor cobertura, as melhores histórias. O número de mortos não parava de aumentar e todos, de todas as editorias, solidários com a dor e a tragédia daqueles que presenciaram cenas de um verdadeiro apocalipse.

- Definitivamente, não há rotina dentro de uma redação - eu concluía, triste, com tudo aquilo que estava vendo e ouvindo.

Entre imagens impressionantes de barrancos desabando sobre bairros inteiros e resgates dignos de filmes-catástrofes, analistas e autoridades começavam a dominar os noticiários com suas afirmações, certezas e declarações pontuadas pelo que há de mais hipócrita e , por que não?, demagogo que possa existir.

- Afinal, sempre temos enchentes, senhor governador.

- Não há novidade alguma nisso, senhor prefeito.

- São histórias que se repetem ano após ano, presidente.

Histórias que mesmo aqueles que não gostam de rotina, feito eu, não sentem o menor prazer em contar.

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

O cavalheirismo acabou


Meu filho número dois dia desses virou para mim e disse com todas as letras que o cavalheirismo havia acabado. Eu fiquei surpreso com aquela frase dita por um menino de apenas nove anos. Tudo porque minutos antes, ao entrar no carro, ele, mais o meu filho número três, de sete anos, e mais a Vitória, a amiga que também tem nove, quase saíram no tapa porque todos queriam viajar ao lado da janela.

- Deixem a Vitória ir na janela hoje. Sejam cavalheiros - eu disse, tentando resolver a crise dos pequenos.

- Papai, o cavalheirismo acabou.

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Não faz muito tempo e minha mulher reclamou que eu nunca abro a porta do carro para ela entrar e nem a espero sair do elevador. Não sei se pelo fato de sempre termos sido amigos muito antes de namorarmos e entre nós nunca ter havido muita cerimônia, o certo é que não sou mesmo aquilo que se pode chamar de cavalheiro.

Sou meio desligado, só isso.

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Eu demorei alguns segundos para processar a informação que eu acabara de receber do meu filho. Quando eu poderia imaginar que um menino de apenas nove anos de idade pudesse ser tão claro, direto e objetivo ao decretar o fim de uma regra tão básica de educação e bons modos?

Ele ainda completou seu raciocínio dizendo que as mulheres hoje em dia são que nem os homens. Que elas trabalham, ganham dinheiro e não sabem fazer comida.

- Que nem a mamãe, ele disse.

Vitória, a única representante do sexo feminino naquele carro, concordava com tudo e ainda tinha lá seus argumentos, o que me fez ter a certeza de que aquela geração era mesmo diferente. O que cada uma daquelas crianças dizia tinha fundamento. Não eram frases soltas, como se repetissem o que ouviram há pouco. Não. As ideias se complementavam independentemente do sexo e era como se não houvesse mesmo diferença alguma entre meninos e meninas. Eu não tive outra opção a não ser em concordar com o fim do cavalheirismo.

Não sem antes fazer com que eles prometessem que nunca vão deixar a gentileza acabar.


- A gentileza é o cavalheirismo que não depende de gênero feminino ou masculino, eu pensei naquele exato instante.

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Se as mulheres há muito que vêm ocupando um espaço que até então era dos homens, os homens, por sua vez, já começaram a invadir o terreno das mulheres. Tenho cá minhas desconfianças de que seja mais por institinto de sobrevivência - da espécie, do casal e do relacionamento - do que propriamente por vontade própria que boa parte dos homens vai para a cozinha lavar a louça do jantar, por exemplo. Hoje, o tão discutido sexo frágil só dá sinais de fragilidade quando lhe convém ou quando precisa encarar um vidro de palmitos ou de azeitonas.

- Não tenho força, elas dizem.

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Minha mãe sempre teve uma postura que me parecia submissa. Era dona de casa, sabia cozinhar, fazia bolos que deixavam a vizinhança com água na boca e acreditava em tudo o que meu pai dizia. Hoje ela não faz mais bolos, quase não cozinha e a casa, boa parte da semana fica a cargo do meu pai, em quem ela ainda acredita em tudo o que fala.

Tenho minhas desconfianças de que o jeito manso da minha mãe talvez fosse só um disfarce.

Na verdade, acho que minha mãe é forte pra caramba.

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Meu pai tem cara de poucos amigos, daqueles que gostam de alimentar fama de durão. É macho alfa, autoritário e muitas vezes tentou fazer da nossa casa uma extensão dos quartéis que comandava com seus banhos frios, horários e regras.

- Não pense que está falando com seus soldados, respondia, de igual para igual, a minha mãe.

Volta e meia me pego pensando que este lado coronel do meu pai é só um disfarce para sua enorme fragilidade. O coronel, no fundo, no fundo, é frágil.

Já o vi - e o fiz - chorar algumas vezes.

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"Homem não chora!" era o que dizia a minha avó quando eu porventura me machucava.

Homem não chorava, isso sim. Assim como não lavava louça, não passava roupa, não arrumava a casa, não botava as crianças para dormir, não cuidava do almoço... ah, vó, o mundo está mesmo muito mudado!

Hoje as mulheres disputam o mercado de trabalho de igual para igual com os homens. São nossas chefes, governam nosso país, fumam, votam, usam calças, saem para beber sozinhas, compram camisinhas, pagam a conta, dão em cima, dizem não, discordam, concordam, amam, odeiam.

Hoje é todo mundo igual, vó. A geração dos seus bisnetos sabe muito bem disso e, entre outras coisas, já deu por encerrado o cavalheirismo.

- Só não deixem a gentileza acabar, eu imploro.

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Emaranhado

Por ora me despi da arte, engavetei as ideias, pus na estante os capítulos rascunhados das histórias que eu mesmo criei.

Por ora virei máquina, engrenagem, ferramenta, coadjuvante, figurante, apenas mais um em cena, diluído num sistema que eu sempre critiquei.

Só reconheço em mim a poesia.

Brota feito o gérmen que colore a sua vida. Que não para. Que não pensa. Só depois então respira. E vira a paráfrase, a metáfora, a antítese e outras tantas figuras que liberto por aqui, neste emaranhado de palavras.

Minha verdadeira poesia é uma viagem solitária, uma visão particular, uma singularidade. Vem num ritmo, tal a água que percorre o rio e refresca e limpa e entra e filtra.

Na poesia eu me sacio.

Porque muito de mim é poesia e do pouco que sobra eu faço versos.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Ídolos


Eu nunca tive ídolos. Nem na infância, quando os filhos costumam achar que seus pais são super-herois. Até porque, meu pai nunca fez questão de esconder suas fraquezas nem seu lado de pobre mortal. E não encare esta frase como uma crítica ou uma confissão daquelas que a gente só faz depois de anos na análise. Nada disso. É apenas uma constatação racional. Nada mais.

Na adolescência, quando me interessei de verdade pelos livros, vi despertar uma certa simpatia pelos mártires e suas histórias de luta pela liberdade. Che Guevara era para mim o maior de todos. Não necessariamente fiz dele um ídolo. Sequer deixei-me levar pelo modismo e nunca pendurei nenhum pôster com sua tradicional foto nas paredes do meu quarto. Mesmo assim, ele era um mito.

Um pouco antes, entre a infância e a adolescência, teve o Zico.

Apesar de eu torcer - sem muita convicção, confesso - pelo Vasco da Gama, o galinho de Quintino representava muito mais para mim do que o artilheiro do meu time, Roberto Dinamite. Zico era um jovem humilde, de um talento extraordinário, boa praça, bom moço, do tipo família. Não que o Dinamite não fosse. Mas o Zico, ele sim, era para mim um exemplo.

Uma das lembranças mais bacanas que eu tenho desta fase em que eu me despedia da infância é justamente a de uma tarde, num feriado de dia das crianças, talvez, quando o Zico apareceu na minha rua, no subúrbio do Méier, para distribuir brindes de uma loja de esportes que tinha bem na esquina de onde eu morava. Lembro que no tal sorteio eu ganhei uma bola de futebol com a assinatura dele.

Nem por isso ele se tornou meu ídolo.

No segundo grau, atual ensino médio, tive um professor de geografia que fazia a cabeça de boa parte da minha turma. Inlcusive a minha. Articulado até dizer chega, Dinaldo - nunca me esqueci seu nome - era o tipo de professor que tinha total domínio sobre os alunos. Não me lembro de uma única vez em que tenha se estressado com a turma por conta de falatório fora de hora ou outro inconveniente qualquer. O respeito que ele conquistara fora por conta da consciência política que ele fizera despertar naqueles jovens filhotes da ditadura militar.

Era 1985. Tancredo Neves havia sido eleito indiretamente presidente da República, o primeiro presidente civil depois de 21 anos com o Brasil entregue aos generais. E por conta daquele professor de geografia eu li 'As veias abertas da América Latina', do Eduardo Galeano, que trago como referência de formação intelectual. Por conta daquele professor de geografia, até hoje acho que comer no Mac Donald´s é praticamente um crime inafiançável. Coca-Cola? Adoro. Mas tenho plena consciência da dominação yankee que aquela bebida dos deuses representa.

Tudo por causa daquele professor de geografia.

Mesmo assim, ele nunca foi meu ídolo. Posso garantir.

Mais tarde, já na faculdade, quando descobri o sentido da palavra antropofagia, foi que me uni socialmente, economicamente e filosoficamente a todos e a tudo. Daí para a desconstrução de qualquer mito, foi um pulo. Se eu já desconfiava que não havia diferenças, foi então que pude ter certeza de que éramos todos iguais. Nem melhores nem piores. Naquela época, cursando os primeiros períodos de uma faculdade de jornalismo, eu vivia a era das minhas certezas mais absolutas.

Eu poderia mudar o mundo. 'Yes, you can', era a minha frase muito antes do Obama - que de ídolo não tem nada - ter se apropriado dela.

Hoje as minhas certezas estão longe de serem verdades absolutas. Mas aprendi com o tempo a mudar de opinião. Aprendi que é do vento que se faz a brisa e o tufão. E assim como o Raul, eu também prefiro ser esta metamorfose ambulante do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo. Afinal, a vida fica muito mais fácil quando se é maleável. Mas desconfio que esta maleabilidade só vem com o tempo, com a maturidade, ou seja lá que nome isso tenha.

Aos 41 anos, casado pela segunda vez, pai de três filhos e prestes a ter um neto - portanto, mais maleável que nunca -, penso que o tal sentido da antropofagia me desconstruiu e fez de mim o que eu sou hoje: aquilo que eu ainda não sei bem o que é.

Então, veio a dúvida: seria o Oswald de Andrade o meu ídolo?

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

#rio40caos


Eu estava de plantão no domingo, quando começaram a surgir as notícias dos primeiros ataques do tráfico na cidade. Um carro da aeronáutica tinha sido alvejado na Linha Vermelha e mais dois carros de passeio, incendiados. Para quem chegou na redação achando que o domingo seria mais animado por conta do show do Paul McCartney em São Paulo, ledo engano. A simpatia do velho beatle e a emoção de ouvir aquelas canções eternizadas no coração de uma multidão de fãs foram atropelados violentamente por uma sucessão de notícias cada vez mais sérias. Da Zona Norte à Zona Sul, o clima na cidade outrora maravilhosa era tenso.

O barril de pólvora finalmente havia estourado.

A editoria RIO estava mais movimentada que de costume. Eu, recém-saído de uma eleição presidencial, quando raramente ia para casa antes de uma hora da manhã, não estava achando nada demais naquela agitação toda. Na verdade, eu estava até gostando. É muito ruim plantão aos domingos. Cada hora parece ter o dobro dos minutos. Quase nada acontece. Temos poucas matérias para publicar. O jornal de segunda-feira é pequeno. Um tédio só.

- Puta que pariu!, gritaram lá do fundo da redação.

Washington, jogador do Fluminense, não está numa boa fase. Perdeu um gol feito. Mas tão feito que até eu, que tenho uma relação conflituosa com a pelota, teria marcado aquele gol. Ramona, da ECONOMIA, tricolor fanática, não se conteve e a partir daquele momento parou de escrever e ficou de pé, em frente à TV. Completamente vidrada. Para ela, nada poderia ser mais importante do que aqueles vinte e dois homens em campo. Ela só relaxou quando o São Paulo começou a afrouxar. Com dois jogadores expulsos no time paulistano e com o futebol importado do Conca, o time carioca encostava a mão na taça. Mas não teve muitos motivos para comemorar.

- Arrastão na rua das Laranjeiras!

- Tiroteio na Avenida Brasil!

- Mais dois carros pegando fogo!

Aquelas notícias que não paravam de chegar tinham um apelo muito maior do que a briga pelo campeonato brasileiro. Infelizmente. Se as fotos do carro da aeronáutica cravejado de balas já tinham me deixado impressionado com o atrevimento daqueles marginais, aquela onda de terror começava a me estressar.

Naquela noite eu voltei correndo para casa.

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Confesso que não consigo me lembrar exatamente da cronologia dos fatos e do que aconteceu na segunda, na terça e na quarta-feira. A cada dia que se passava a ousadia dos traficantes revelava não ter limites e a população do Rio de Janeiro fez-se refém. Mesmo que a rotina ainda se fizesse presente, o cidadão carioca, o fluminense, aquele que por aqui é bem acolhido, seja ele de onde for, estava de sobreaviso. Alguma coisa muito ruim estava acontecendo na nossa cidade. E a transmissão era online. On time. Full time.


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Quinta-feira. 10h10. Claudia está atrasada para o trabalho. A faxineira não chegou ainda. A pia está cheia de louça. O balde cheio de roupas. As crianças não escovaram os dentes. Um quer pão, outro quer continuar dormindo.

- Acho que ela não vem, eu disse.

- Quem?

- A filha-da-puta da Andréa. Volta e meia ela faz isso. Não dá para confiar!

Claudia concordou comigo, mas no fundo sabia que eu não ia deixar a casa desarrumada.

Em questão de segundos ficamos só eu e o cachorro. Antes que ele cismasse de marcar território, vesti minha bermuda, escovei meus dentes, peguei a coleira e quando eu já ia saindo, dei de cara com a Andrea, a filha-da-puta, entrando pela porta da cozinha.

- Bom dia, Márcio. Claudia já foi? Tive de ir ao médico antes, ela disse com a cara-de-pau mais saudável do mundo.

- Quer um Targifor? Pela quantidade de louça e de roupa, você é capaz de precisar, ironizei.

- Não. Sou alérgica.
(E debochada, eu pensei.)

11h10. Obrigações matinais com o cão em dia. Calor. O sol resolveu aparecer em meio ao caos. De sunga e com Ó debaixo do braço, vou para a piscina. Uma ducha para aliviar o suor. Uma pausa no noticiário. Uma boa dose de vitamina D. Outras tantas braçadas de uma borda a outra e a certeza de que preciso voltar a me exercitar urgentemente.

13h30. Na Globo News, imagens do caveirão do Bope tentando furar umas barreiras na Vila Cruzeiro. Um caminhão atravessado numa viela impede a passagem dos policiais. Focos de incêndio se espalham pela comunidade. Nas lajes, moradores acenam com panos brancos pedindo paz. Mais de 200 soldados do tráfico cruzam o alto de um morro numa rota de fuga que, não se sabe bem como, os homens do Bope não conseguiram evitar. Apenas um tiro acerta a perna de um dos bandidos. A cidade para para ver.

#rio40caos.

15h45. Rua de Santana. Padaria perto do jornal lotada. Todos ligados na TV, feito final de copa do mundo ou algo parecido. Na redação, o clima é enlouquecedor. Se normalmente já fala-se muito na redação, naquela tarde em especial, o falatório era geral e a certeza era uma só: o Rio de Janeiro estava em guerra.

Se o Palocci ia para a Casa Civil ou o Paulo Bernardo para a Secretaria-Geral da Presidência, pouco importava. Se o Sílvio Santos vai falir, se as ações da Petrobras vão cair ou se a Anac está preocupada com o caos aéreo no final do ano, isso também pouco importava. O Fluminense? Não se ouviu falar mais dele. O que importava era o clima de violência desenfreada que os cariocas estavam vivenciando e a busca frenética pela melhor cobertura jornalística. Mais nada.

Por mais cansativo e tenso que pudesse ser, foi bonito ver aquele mutirão de jornalistas comprometidos com o ofício de informar. Todos, de todas as editorias, deram sua contribuição naquele momento. Histórico, eu diria.

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Em meio a tudo isso, Gus, um amigo meu, publicou numa destas redes sociais que o coronel Nascimento, do filme Tropa de Elite 2, é uma mentira, que ele não existe e que nós, a população da cidade, deveríamos ir para as ruas exigir do Estado que ele faça o seu papel. Eu nunca tive ídolos na minha vida. Nem unzinho sequer. Mas cheguei a pensar que o (tenente-) coronel Nascimento pudesse mesmo se tornar uma espécie de heroi nacional, pois o discurso daquele personagem inserido na história daquele filme tão real é o discurso que trazemos engasgados há décadas. A famosa cena da surra no político corrupto é a catarse de um desejo coletivo.

Não sei se vale a pena ir para as ruas e dar uma surra em cada político que encontrarmos pela frente. Pelo menos por ora não. Pensei num abaixo-assinado pela PAZ, nos mesmo moldes do que fizemos com o Ficha Limpa, mas neste caso teria o mesmo efeito de abraçar uma lagoa.

Enquanto eu penso no que fazer, exército, polícia federal e polícia militar cercam o Complexo do Alemão com um efetivo de quase mil homens para combater não se sabe bem ao certo quantos traficantes. São cerca de 400 mil moradores naquela região. Todos, sem exceção, vítimas do descaso.

Assim como eu e você.

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Ele voltou!

Foram mais de 3 semanas sem computador. Nem sei como consegui sobreviver. Mas ele voltou, e eu também, com a corda toda. Me aguardem!!

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Em manutenção

Acho que devo uma explicação aos meus fiéis (!!) seguidores por conta da ausência de textos nestas últimas semanas. Além da falta de tempo, meu notebook e meu PC resolveram tirar umas férias e... pifaram. Portanto, dependendo do orçamento, volto a escrever por aqui em breve.

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Impressões


Acabou.

Terminou na noite desta sexta-feira uma das campanhas eleitorais mais feias de que já se teve notícia por aqui. A começar por um primeiro turno morno. Requentado apenas pelo pipocar de escândalos alimentados pela mídia. Dia após dia. Um primeiro turno tão morno que, no último debate da TV, os principais candidatos sequer se confrontaram. Um equivocado duelo entre covardes.

Ao menos foi o que me pareceu.

Sem que se pudesse piscar, começava o segundo turno. Outro clima. Mais pressão. Uns amam. Outros tantos odeiam. O cansaço deixando marcas na expressão de todos. Na redação, as folgas ficaram para depois. Antes, as notícias. De preferência em primeira mão. Exclusivas. Se fosse um furo, seria a glória.

Já no primeiro confronto na TV com apenas os dois candidatos, ficou claro que o tom do segundo turno seria áspero e que o jogo seria duro. Acusações. Escândalos. Boatos. O pior dos mundos. Tudo aquilo estampando as manchetes dos jornais diários. Uns até tomaram partido. Uma amiga brigou comigo numa destas redes sociais porque eu discordei de uma opinião dela e ela discordou de uma opinião minha.

Normal. Eu estou mais que acostumado.

Prova de que, se a campanha nas ruas teve direito a ataques com bolinhas de papel e balões com água, na internet o clima também esquentou. Dos que haviam esverdeado, muitos desbotaram e não tomaram partido. Porém outros, foram botando os bicos e as estrelas de fora e cada vez mais assumiam em qual lado estavam. Na eleição dos 140 caracteres, as redes sociais muitas vezes se transfomaram em tribunas da verdade alheia. Podia-se concordar. Ou não. E discutia-se. E tentava-se provar que A estava errado, embora B nunca estivesse certo.

Vídeos difamatórios multiplicavam-se numa velocidade estonteante e que nos deixava sem saber o que ainda poderia surgir. Foi então que vi o cenário da estratégia de marketing digital tupiniquim antropofágica montado. Complicado. Na tenativa de trilhar um caminho parecido com a campanha do Obama nos EUA dois anos antes, nossos cientistas políticos - ou publicitários, ou marqueteiros, ou seja lá o nome que se queira dar - ficaram pelo caminho e não entenderam nada. Ou então, viram o lado mau da força.

Era assim que eu pensava.

Enquanto escrevo este texto, a campanha ainda não está decidida. Só saberemos quem vai governar nosso país pelos próximos quatro anos no domingo, quando a última urna tiver sido apurada. Até lá é só especulação e uma ou outra pesquisa que se possa confiar. O último encontro dos candidatos na TV nesta eleição terminou há pouco. Levou para a TV eleitores indecisos e suas dúvidas foram traduzidas em perguntas. Os candidatos ficavam no centro, feito leões jogados numa arena.

Sem dúvida, um debate num formato inovador e que teve o mérito de encerrar esta campanha, tão marcada pelo excesso de baixarias e pela falta de propostas, com uma discussão onde os candidatos conseguiram ao menos manter um certo nível. Sabiamente, a regra do último debate proibia que os candidatos fizessem perguntas entre si. Desta forma, as acusações saíram de cena. Os protagonistas foram os eleitores - e seus nomes pra lá de estranhos - de cada região do país presentes naquele estúdio. Só então surgiram as propostas.

E eu fiquei com a nítida impressão de que já era tarde.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

A dúvida




Se tem coisa que eu detesto, é hipocrisia. Mas vivo mergulhado nela. Por onde quer que eu ande e para onde quer que eu olhe, dou de cara com a hipocrisia.


E não estou aqui tentando me eximir da culpa de ser hipócrita, porque eu sei que sou hipócrita. Você também é. Não se engane. Afinal, todo mundo veste suas máscaras. Somos o que costumo chamar de sociedade dos mascarados. Mascaramos a nossa realidade, mascaramos nossos sentimentos, mascaramos até nossas vontades.

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Esta semana a sociedade brasileira foi às urnas esolher novos representantes. Centenas de políticos foram eleitos por todo o país. Senadores, deputados, governadores. Palhaços, até. Na maioria dos estados tudo se resolveu já no primeiro turno e a eleição agora praticamente se resume a quem vai ocupar o cargo de Presidente da República. São dois candidatos. Um homem e uma mulher. Nenhum representa o discurso da mudança. A novidade? Se houve, ficou de fora, no ambientalismo político da outra candidata, terceira colocada.

O segundo turno não me pegou de surpresa. E nem me tirou a esperança, diga-se de passagem. As mais recentes pesquisas apresentavam indícios de que teríamos de voltar às urnas em 31 de outubro. Uma tal onda verde arrastou uma multidão de eleitores e por pouco não se torna uma tsunami, ameaçando a candidatura de um dos dois candidatos que estava na frente. Talvez - e isto não é nada mais nada menos que uma suposição - se a campanha tivesse mais umas duas ou três semanas, o quadro fosse outro e a discussão fosse mais propositiva do que caluniosa.

Já disse aqui mais de uma vez e repito: esta foi uma campanha atípica. Começou dois anos antes, quando o criador resolveu aparecer com a sua criatura. Ali - de um modo que só um político que sabe muito bem o que quer, faz - dava-se início à corrida eleitoral. Todos os dias, nas páginas dos principais jornais, lá estava a criatura junto ao criador. Quando a criatura já tinha nome e sobrenome, começou a ser fotografada sozinha. Já tinha vida própria e já gerava pauta sem se esforçar. Especulações. Teorias. Denúncias. Câncer. Temer. E assim, aos poucos, surgia oficialmente uma candidatura.

Do outro lado, uma oposição sem um líder, sem uma voz que a representasse de verdade e que se sobrepusesse ou que ao menos falasse de igual para igual com o criador. O criador era o cara e a cara da oposição não surgia. Por várias vezes tive a impressão de que a oposição não sabia o que fazer. Falavam muito. Especulavam. Enraiveciam. Ouvi soar os tambores de Minas, mas não sei se por esperteza ou se por vaidade, os tambores não ultrapassaram suas montanhas. Demoraram a dar a cara a tapa e eis que surge então o candidato. Aquele. O mesmo que já se esperava que fosse. Discursos. Frases feitas. Promessas. Saúde. Falta de carisma, de vice. E assim, aos poucos, surgia a candidatura da oposição.

Pouco se discutiu a respeito de política de lá para cá. Só escândalos e denúncias. Estes não faltaram. Para se ter noção do quanto esta campanha foi atípica e, por que não?, chata, basta lembrar do último debate do primeiro turno. Não houve o enfrentamento que se esperava. Os candidatos mais bem colocados nas pesquisas se evitaram e o que se viu na TV - disponível no Youtube perto de você - daqui a alguns anos vai virar tese de doutorado de um aspirante a cientista político.

O segundo turno, claro, não poderia começar bem. Questões que deveriam ser tratadas sob a ótica da responsabilidade e do esclarecimento estão sendo usadas como armas numa guerra suja e de viéis moralista e, portanto, hipócrita.



Esta campanha, além de atípica, está feia.

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Há dois anos eu fiz parte de uma equipe vitoriosa que elegeu um prefeito numa campanha no mínimo emocionante. Quando nós chegamos na cidade, o então candidato estava em segundo lugar com tendência de queda. Pelo menos era o que apontavam os estudiosos. Ele teria de disputar votos com aquele que por anos foi seu pior inimigo político. Era um embate quase que familiar. A outra candidata era uma mulher que corria por fora, era da onda vermelha, e nunca havia se candidatado a nenhum cargo público. Ela enchia a cidade de margaridas e de discursos acadêmicos enquanto meu candidato, um digno representante da classe dos almofadinhas, arregaçava as mangas e ia apertar a mão de cada morador daquela cidade.

Ele descobriu que tinha carisma e eu descobri mais ou menos como é que se constrói um astro pop - com as devidas proporções, claro.

Aquele que um dia foi considerado de elite, agora era o candidato do povo. O seu pior inimigo tinha ficado para trás e o foco era ela: a acadêmica, a mulher, a novidade, a mudança. Só que ela esqueceu ou não sabia que para governar ia precisar de um programa de governo. Foi então que não perdoamos. Aquela era uma candidata sem programa de governo, repetíamos exaustivamente. Já o meu candidato, este tinha pelo menos 45 pontos que poderiam ser discutidos em seu programa, devidamente impresso e distribuído.

Ganhamos de virada.

Desde então me pergunto se não fui hipócrita naquela campanha.

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Diários I

Escrevo por ansiedade. Não que eu saiba escrever ou mesmo entenda o que escrevo. Não. Eu finjo. Desde que soube que todo poeta é um fingidor que eu finjo. Invento os versos. Conto as histórias. Junto frases despudoradamente, confesso.
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Eu preciso parar o tempo, me esconder das horas, fugir dos minutos. Há poucos segundos corri na janela em busca de um vento. Estava mesmo sem ar. Então invento histórias para prestar atenção em mim. Um estalar de coisas, de cores desconexas, de frases que refrescam as tintas nas minhas paredes. Feito a pele branca que me encosta e eu me enrosco, toco, aliso, quero e gozo.
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Pode ser que ao abrir os olhos eu não me reconheça. Pode ser que assim, depressa, tudo passe e eu nem perceba. Por que risco o traço sem certeza? Isso pouco importa, tanto faz. Eu fiz e sou e sigo as mesmas pistas de anos atrás.

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Mataram Romeu Tuma


Não vejo a hora destas eleições terminarem. De uns tempos para cá, meus dias têm sido consumidos por escândalos, falta de propostas, polêmicas e conspirações. Acrescente mais umas doses de tensão e responsabilidade com o fechamento da editoria de política da versão online do jornal em que trabalho. Este é basicamente o meu dia a dia. Eu vivo tenso. Mesmo que aparentemente eu esteja tranquilo, é só fachada. Eu vivo tenso. Por sorte pratiquei ioga antes de encarar esta rotina de jornal. Então eu paro, respiro e penso.

Hoje minha mulher me telefonou. Ela normalmente liga num horário péssimo, que é quando me reúno com o editor para saber quais matérias vamos dar de manchetes do dia seguinte. Eu e ela conversamos rapidamente em meio a um turbilhão de vozes que ecoavam das mais variadas editorias.

- Mamãe vai fazer cabrito assado amanhã e quer saber se você vai almoçar lá, disse ela num tom provocativo, ciente da minha tara por cabrito.

- Tipo de coisa que você não precisa nem me perguntar, respondi.

- Estou com saudades, ela deixou escapar.

- Te amo, falei baixinho.

O som das dezenas de TVs e rádios ligados nos mais diferentes canais não combinava com o clima de declarações do casal. Os resultados das mais novas pesquisas do Ibope para governadores e senadores de todo o Brasil abreviaram ainda mais nosso sopro de romantismo.

Em noite de pescoção é que não dá para ter romantismo mesmo.

[Pescoção, para quem não sabe, é a sexta-feira nas redações dos jornais diários. Dia de fechar, além da edição de sábado, a de domingo. No pescoção, que não tem ombro, vai-se madrugada adentro.]

Entre uma publicação e outra, tenho de dar uma olhada nas agendas dos candidatos. Tanto para presidente quanto para governador. Tem sempre aqueles que deixam para publicar suas agendas tarde da noite. Muitas vezes já passa da meia-noite quando chegam as danadas das agendas. Mas eleição é assim mesmo. Eu, que já estive no centro de algumas, sei bem como é isso.

Pausa para o banheiro. São quase oito da noite.

Volto para meu lugar. Ainda preciso acrescentar umas informações numas matérias. Daqui a pouco, no Jornal Nacional, sai a nova pesquisa Ibope sobre a corrida presidencial. Começo a pensar no texto. Dou uma twuitada para ver se algum jornalista adiantou o resultado, mas nada. Vou ter mesmo de esperar pela Fátima Bernardes.

- Tuma morreu!, alguém anunciou na redação.

- Cuma?

- Morreu. Está aqui na internet.

- Estava internado há mais de um mês no Sírio e Libanês, em São Paulo.

- Tinha câncer.

- Confirma isso aí. Morreu mesmo?

Corri pro Google e, ao digitar o nome do senador Romeu Tuma, duas matérias em dois sites respeitados e com credibilidade reconhecida noticiavam a morte do político. Poucos minutos depois, e numa velocidade que só mesmo o mundo virtual tem, milhares de pessoas já replicavam aquela notícia na rede.

- É notícia falsa. Tuma não morreu, gritaram lá do fundo.

- A família está desmentindo, disse um.

- O hospital também, disse outro.

- Ainda bem que não publicamos nada no site, eu pensei.

Mas o estrago estava feito. Romeu Tuma, ainda que a beira da morte, estava vivinho da Silva e seu nome havia entrado para os trends topics do Twitter, uma espécie de 15 minutos da fama no mundo dos 140 caracteres. Imagino que deva ter gerado um certo mal estar para os jornalistas que publicaram nos sites as matérias que anunciavam a morte do senador. Estas notícias a gente tem sempre de apurar. Com ou sem apuração, são fatos como estes que divertem, ensinam e ficam para sempre gravados na história de uma redação.

Romeu Tuma não foi minha manchete na página esta noite. Outras tantas matérias, sim. Termino de publicar tudo. Vídeos, textos, áudios, diagramação. Tudo em ordem. São uma e quinze da manhã. O motorista do jornal já está me esperando. Estou louco para chegar em casa. Chove um pouco. O chão molhado indica que já choveu bastante. Nem me dei conta. Entro no carro, chego o banco um pouco para trás, coloco o cinto. Estou sem sono. Seu Maurílio, o motorista, diz que ainda vai encarar a estrada para Juiz de Fora. Penso no plantão do final de semana às vésperas da eleição.

- Vai bater, eu disse assustado, vendo o carro do jornal derrapar em direção a uma van parada na Presidente Vargas.

Seu Maurílio conseguiu desviar. Por sorte. Eu poderia ter me machucado seriamente. Culpa de um irresponsável num carro estilo jipe importado, que passou por nós num ziguezague a cem por hora. Cheguei a anotar a placa do incosequente. Ou delinquente, sei lá.

- Numa dessas é que morre gente inocente por aí, esbravejou seu Maurílio.

O bom desta história é que ninguém morreu. Nem o Tuma nem eu.

Chego em casa, está tudo tranquilo. Todos dormem. Menos o cachorro, claro. Abro a porta da varanda, faço um carinho nele, ele pula no meu colo, me dá umas lambidas. Sente saudades, acho.

Ligo a TV. Duas da manhã. Reprise do programa da Astrid. Ela não sabia que o prazo para tirar a segunda via do título de eleitor havia sido prorrogado e nem soube explicar ao certo o empate na votação da Lei da Ficha Limpa que movimentou o SFT na noite anterior. Tive impressão que a Astrid não sabia mesmo muitas coisas. No seu programa, que passa ao vivo entre sete e oito da noite, ela também confirmou veementemente a morte do Romeu Tuma.

- Mal informada, eu ria sozinho.

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Meninos




Esta semana foi aniversário dos meus filhos mais novos. Um fez nove e o outro, sete. O mais velho completou 20 anos em abril. Quando ele nasceu eu ainda era um menino, assim que nem ele é hoje. Aqui em casa são três meninos. Cada um com uma personalidade diferente, mas todos se parecem. Eu, que também sou diferente deles, me reconheço em gestos distintos de cada um daqueles três meninos. O modo de falar de um, o gosto apurado de outro, o humor, o porte, o olhar, os gestos. Cada um daqueles três meninos carrega muito de mim.

- É este o verdadeiro sentido da palavra reprodução - digo para mim mesmo.

Eu sou do tipo que acredita em vida após a morte, mas mesmo que eu não acreditasse, eu teria a certeza de que muito de mim vai seguir com meus meninos depois que eu terminar o que tiver de fazer por aqui. Com eles eu perpetuei a minha espécie, são continuações de mim. E olha que faz anos eu li um livro que falava sobre a filosofia perene, aquela que segue, que continua, que não tem fim. Eu lembro de ler tal livro dentro do metrô, voltando do trabalho. Eu era recém-formado. Um menino. Eu lia e pensava na vida e em como todos os fatores externos mudam a cada momento e em como estes fatores nos afetam. Aquele livro me ensinou que alguma coisa em meio a tantas mudanças permanecia.

- Eu só não entendia bem o que era - confesso.

'Sei que vou morrer mais tarde' é a frase com que começo um poema que escrevi ainda antes de entrar para a faculdade. O que talvez possa soar mórbido, trata-se de uma das maiores declarações de amor à vida que eu já fui capaz de expressar. Mesmo que naqueles versos eu deixassse claro que a história teria fim. Até porque, parte dela termina mesmo. A parte que envelhece, que se curva, que enrijece, que se cansa e que um dia para. Feito máquina. Nestas horas olho para os meus três meninos e vejo pulsando em cada um deles um pouco de mim.

- É como a centelha que nunca se apaga - eu penso.

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Nonsense




O texto que vocês vão ler abaixo não é uma história de ficção. Aconteceu de verdade numa destas redes sociais que brotam na web. Um mal intencionado, já a fim de criar polêmica, postou uma espécie de viral político. Agradou a alguns. Desagradou a outros tantos. Do nada surgiram comentários que resultaram num entrave bolchevique versus czar de fundo de quintal. O mal intencionado foi obrigado a intervir. O nível das ofensas extrapolou e beirou o nonsense.

Foi então que comecei a achar graça.

O fato de conhecer dois dos personagens centrais da história talvez tenha contribuído para que eu montasse a cena todinha na minha cabeça. Ao ler as frases eu conseguia ouvir a voz de um e de outro. Sabia exatamente o acento que cada um carregava nas palavras escritas ali, soltas naquela página da internet. Ou melhor, presas e devidamente registradas num site de relacionamento.

Imaginem um filme. Três grandes personagens. O primeiro é o mal intencionado, o que gosta de ver o circo pegar fogo, o que lança as polêmicas. O segundo é o pilhado, aquele que não tem noção de limites. Inteligente. Estudado. Mas, como eu disse, não tem noção de limites. O terceiro personagem escreve errado. É o representante da classe trabalhadora, a voz dos oprimidos. O segundo e o terceiro em instantes se transformam em inimigos mortais. Há uma batalha verbal, virtual, surreal entre eles.

Resolvi reproduzir os diálogos praticamente como foram escritos. Suprimi apenas personagens e nomes reais por fictícios para não comprometer nem A, nem B, nem C e muito menos me comprometer.


Com olhos de espectador foi que me diverti:

Quarta-feira. 21h52.
Mal intencionado publica um viral em sua página pessoal.
Em instantes começam a surgir alguns comentários. Alguns com erros gritantes de português.

Quarta-feira. 21h58. Bolchevique diz: A burguesia fede mas tem dinheiro pra comprar perfume, né? Esse comportamento de vcs é só mais uma prova do condicionamento burgues de vcs. Vão pras ruas e ousasm (ouçam, por favor) as pessoas POBRES.

Assim mesmo, tudo em caixa alta.

Quarta-feira. 22h22. Mal intencionado diz: ‎"Nunca na historia desse pais (sem acento) houve tanto dinheiro derramado em propaganda (sem vígula) companheiros". Alex meio programa da daquele pertido coisa feia, dava pra fazer 2 longas metragens e acho que umas 15 peças de teatro!!!! pensa nisso....ou vc ta ganhando bolsa familia tambem???/ bjs e saudades.

O mal intencionado não é dos piores. Tem muitos amigos. Começa aquela troca de mensagens carinhosas entre trogloditas que se conhecem há anos. Um sacaneia o outro. Coisa normal ente crianças na faixa dos trinta anos.

É aí que o nosso segundo personagem principal entra em cena.

Quinta-feira. 21h06· Czar se metendo onde não é chamado diz: Acho engraçado esses ataques à "burguesia" mas que não defendem tal candidatura. Atacou a burguesia, o estilo da roupa, mas não falou sobre os fatos apresentados aqui. Quero ver defender a candidatura e suas contradições apresentadas nesse vídeo...?

Quinta-feira. 21h28. Bolchevique sem entender diz: CUMA?????

Quinta-feira. 21h31. Czar gentil diz: Lê o texto mais 3 vezes que você entende.

Quinta-feira. 21h39. Bolchevique sem acreditar na grossseria diz: Acho que o companheiro quer uma posição mais clara. Se formos devender contradições para defender-mos (sic) um ponto de vista; nada nessa vida merecerá uma defessa (ôpa). A contradição é uma condição humana; não estamos livres dela, sem antes nos livra...r-mos (êita) de nosso ego, companheiro!

Quinta-feira. 21h44. Surtado diz: Eu quero que o companheiro se foda! Isso aqui não é lugar pra babaca nenhum vir me dizer o que eu devo pensar, dizer ou agir! sai fora camarada!

Quinta-feira. 21h45. Czar engajado diz: Eu defendo que as regras de trânsito devem ser respeitadas mas já cometi infrações. Políticos pregam por governos honestos e desviam milhões. Ambos estão em contradição, mas como tudo na vida, existe o mal e o pior. O filho da Cissa Guimarães estava andando de skate no túnel ilegalmente. O seu algoz, também. No entanto, a ilegalidade do ato do primeiro seria incapaz de tirar uma vida. Já o do segundo, não. O errado e o imperdoável. O direito, arte da defesa, usa justamente as contradiçoes para desvendar e desmascarar a impunidade. Dentro das variadas formas de defender um ponto de vista, é justamente através da contradiçao que se defende um ponto de vista num tribunal.Peço novamente, defenda a candidatura sem desviar a conversa para termos defasados como "podre burguesia", coisa que você não fez até agora nos seus inúmeros comentários.

Quinta-feira. 22h10. Bolchevique perdendo a razão diz: PIIIIIIIIIIIIIIII...


Quinta-feira. 22h11. Czar com vontade de brigar diz: calculo que vc esteja falando com outra pessoa, visto que nunca me adequei a tal terminologia (i.e. companheiro, camarada). Termilogia tão fora de moda, por sinal, que não se aplica nem mesmo na atual Rússia.

Quinta-feira. 22h11. Bolchevique chutando pau da barraca diz: Ok. E vai tomar no cú ainda está em moda?

Quinta-feira. 21h11. Czar já completamente pilhado diz: Está. Só que hoje em dia não é mais ofensivo. Pelo contrário, fala-se até para agradar alguém. Exemplo: você ganha um presente surpresa e fala: Ah, vai tomar no cú!!!Para ser ofensivo tem que dar endereço ao cú. VAI TOMAR BEM NO CENTRO DO S...EU SEBENTO CÚ!!!Se tiver mais coisas a aprender, é só perguntar.P.S.- No entanto, CUMA, está bastante fora de moda. Eu tiraria esse termo Didi Mocó do seu vocabulário.

Quinta-feira. 23h16. Mal intencionado tenso e carregando no sotaque diz: Ô, coquinho (o apelido do Czar é coquinho), vc tomou o q hj???? A personagem daquele vídeo, além de ser mentirosa arrogante, é mt feia e eu odeio mulher feia...e tem uma outra chata que nao fala nada com nada...putz e tem quem começou com essa merda de proibir o cigarro!!!!! Todos uma merda!!!!!! vou votar em papai noel!!!!!!! Sai de mim mulher feia

Quinta-feira. 23h44. Intruso diz: coquinho deixa de ser otário cara, tá querendo tirar onda de que? deixa de cafona cara, seu lugar é no orkut, lá que povo gosta de se meter na conversa alheia... deixa de ser baixo astral! E vai fazer um cursinho de coste (la coste?) e costura já que vc gosta tanto de moda assim!

Quinta-feira. 23h46. Czar que já virou coquinho diz: Pensou para caramba e veio com esse trocadilho sem graça sobre moda...? Ô, mal intencionado, o seu colega da claquete falsificada me manda tomar no cú sem me conhecer, e você pergunta o que eu tomei? Mas já estou acostumado com pessoas que votam neste partido mas não conseguem argumentar o porquê. É realmente uma missão difícil. Tem que se recorrer a ofensas mesmo. Obviamente, isso demonstra o fraco poder de argumentação dos seus caros colegas, mas isso é outra história. Agora, quero ver me perguntar ao vivo se tomar no cú, tá na moda. No facebook é fácil. Quando vier ao Rio, me apresenta para ele. Posso dar um workshop sobre outras utilidades para uma claquete.

Quinta-feira.23h48. Bolchevique boca-suja diz: é pq eu não fico plantado diante do computador.... tenho mais o que fazer ô babaca. tô dizendo que vc é muito tosco filho! Quem aqui vai votar naquela candidatura? só se for vc! quem tá fazendo papel de homenzinho revoltadinho aqui é vc, mando vc tomar no cú ao vivo do jeito que vc quiser! E enfio a mão na sua cara a hora que vc quiser... prego... procure saber quem eu sou pra depois dizer que minha claquete é falsificada, e sobre utilidades da claquete eu ensino na minha segnda aula na universidade. Não sou cara de workshopzinhos não, cresça e apareça! vc deve tá na TPM procura outro pra encher o saco, hoje é quinta-feira, toma um banhozinho e vai caçar um homem na rua cara e me deixa!

Sexta-feira. 14h23. Mal intencionado acorda, lê e diz: sabia que vc dois iam se amar!!!!! incrivel!!! o lance vcs tem que se conhecer!!!!!


Sexta-feira. 15h30. Bolchevique curto e grosso diz: tb acho

Sexta-feira. 15h31. Coquinho czar diz: Eu faço questão de conhecer. Pode demorar o tempo que for. Mas, quando isso acontecer, vai ficar muito feio se afinar. Já vi o físico da criança... Só não dá para ser em Muriaé pq é longe pra caralho.



Sexta-feira, 17h13. Mal intencionado preocupado diz: chegar no Rio vamos nos encontrar e conversar!!!!!!


Sexta-feira. 17h18. Bolchevique espantado diz: Muriaé??? ixiiii o cara tá na minha cola... mas com uns 7 meses de atrazo (assim com z) rssss .... afinar?... não me conhece mesmo!

Sexta-feira. 17h18. Coquinho já no ringue diz: Pelo q vi da sua foto, afinar não se aplica mesmo a vc. Já engordar...


Sexta-feira. 17h19. Bolchevique solta o verbo: Caralho vc é doente! Chato e carente! PQP me erra cara!


Sexta-feira. 17h22. Czar superior diz: Vou equiparar o seu nível infantil: vc é gordo, feio, estrábico e quatro olhos. Nhonho do caralho. nananinaná.


Até o encerramento deste texto nenhum personagem fez mais nenhum comentário.


E, que eu saiba, ainda não se encontraram.