quarta-feira, 23 de maio de 2012
No céu até se perder
Há hoje uma enorme distância entre mim e o resto do mundo.
Feito linha que arrebenta e deixa a pipa solta no céu até se perder de vista e nunca mais.
Nunca mais.
Nunca mais.
sábado, 5 de maio de 2012
Tarja-preta
Era tarde já quando a encontrei perto da lanchonete. Sexta-feira na repartição é sempre uma corrreria, mais que o normal do dia a dia. É um entra e sai danado de gente, um falatório sem fim, um sobe e desce de escadas e pilhas e mais pilhas de processos que têm data para expirar. É o dia em que o chefe parece estar sempre mais nervoso, com os olhos revirados, poucas palavras e ordens, muitas ordens. Volta e meia, quando sobra um tempo para parar e pensar, tenho para mim que trabalho numa fábrica de loucos. Se eu resolvesse traçar um raio-x ou fazer uma espécie de anamnese de cada um daqueles que trabalha comigo, sei não, mas acho que eu teria um tratado sobre psicanálise que faria Freud regozijar de tesão com tamanho material humano.
Foi quando resolvi dar uma pausa para um café que encontrei a tal colega. Quarenta e poucos anos, mas com tudo em cima ainda, aparentando bem menos até. Coxas grossas, canela bem torneada, peitos fartos, sorriso generoso, cabelos bem tratados e sempre cheirosa. Além de bonita é simpática, atenciosa e sabe lidar desde o chefe até a moça da faxina. Não faz nem nunca fez distinção alguma. Deixa grande parte dos homens daquela repartição completamente envolvidos por ela. Eu, inclusive.
Peguei meu café e já ia voltando para a minha sala quando ela me chamou. Perguntou se eu estava muito ocupado e se eu podia bater um papo rápido. Respondi que sim, claro, e que estava mais era a fim de um pouco de conversa fiada àquela altura do dia, precisava relaxar. Deixou escapar logo de cara o tanto que vinha se sentindo incomodada ultimamente e precisava desabafar com alguém. Disse que não sabia o porquê, mas confiava em mim. Contou que fazia terapia já há alguns anos e que usava remédio controlado, tarja-preta mesmo. Fiquei espantado, mas procurei disfarçar. Nunca que eu poderia imaginar que uma mulher daquelas tivesse algo de maluca e precisasse se tratar, muito embora trabalhássemos todos naquela fábrica de fazer doido. Logo ela, que sempre me pareceu equilibrada.
Mas que nada. Vivia à base de remédios desde muito cedo, isso sim, era frágil, sentia-se desprotegida, sem um pingo de autoestima, vai entender, ela confessou. Tinha se apaixonado recentemente, coisa que não acontecia desde que ela se casara pela primeira vez, já que a segunda vez casou foi por necessidade mesmo, não por amor. Não tinha estrutura para viver sozinha, tinha dois filhos para criar, uma casa para manter e a juventude para ser usufruída. Esta parte eu tive de discordar, pois já que ela desejava usufruir da sua juventude, que se mantivesse livre, sem as amarras que uma relação a dois impõe. Discordei mas não falei nada, na verdade. Continuei apenas ouvindo.
Ele nunca mais me procurou, ela disse. Convivemos cinco meses antes dele viajar. Foi intenso demais, pelo menos para mim, confessava, enquanto em seus olhos ela deixava escapar uma tristeza profunda, daquelas que a gente vê em filmes de amor, quando a mocinha sofre ao perceber que foi enganada, que aquele por quem ela se apaixonara perdidamente não valia nada e era o verdadeiro vilão da história.
Pude ver ali, naquela muher, uma ingenuidade quase infantil e senti uma enorme vontade de abraçá-la e de dizer que aquele filho da puta não valia nada, que ela poderia ser feliz com quem bem quisessese e que se ela topasse eu poderia fazê-la a mulher mais feliz deste planeta. Eu sim, claro. Livre, desimpedido, solteiro, alguns anos mais jovem, carro novo, apartamento próprio, carreira estabelecida e coisa e tal, mas não falei nada. Continuei ouvindo.
Soube que o tal cara tinha viagem marcada. Ia morar fora por pelo menos dois anos, havia ganhado uma bolsa de estudos no Canadá, um frio do caralho, ia aprimorar o francês, o inglês, os estudos de botânica, as teses, as dissertações. Nunca escondeu isso dela, é verdade, mas chegou a dizer que a amava algumas vezes e quando estavam juntos a entrega era total, só ele e ela ali, onde quer que fosse, e a crença num amor verdadeiro fez de novo surgir nela uma alegria intensa de viver, coisa que ela já não sentia desde que conhecera seu primeiro marido. Chegada a hora ele foi embora. Passaram a se falar via internet, mas não com tanta frequência.
Pouco a pouco ele passou a evitá-la. Houve um dia em que ela estava mais fragilizada que nunca, com problemas no trabalho, a mãe doente, o mundo ruindo ao seu redor e ele estava online. Ela implorou que ele lhe telefonasse, precisava ouvir sua voz, uma palavra amiga daquele que por cinco longos meses fora o responsável por seu coração acelerar e por deixar suas mãos geladas feito a dos adolescentes que marcam um primeiro encontro. Ele não ligou. Disse que ela estava exagerando, que ela confundia tudo, que se ela continuasse daquele jeito ele seria obrigado a deletá-la de seus contatos. Frio. Estúpido. Covarde. Ela só conseguia chorar e se martirizar por ter sido tão sincera todo o tempo, por não ter conseguido mascarar seus sentimentos, por ter chegado a pensar em largar tudo para viver ao lado daquele homem que não se deixava mostrar de verdade quem ele era. Ele sim a confundia, parecia não aceitar o que sentia, escondendo-se sob uma capa, vestindo as armaduras sujas daqueles que não conseguem se entregar ao lado apaixonado da vida.
Ela me contou da vez que foram à praia porque ele queria se despedir do mar. A viagem estava se aproximando, seria dali a poucas semanas e eles poderiam aproveitar os dias de sol que ainda restavam antes de o inverno chegar para valer. Percorreu com ele praticamente toda a orla da cidade, pisaram descalços na areia, deram alguns mergulhos, foram almoçar num restaurante com vista para a restinga, conversaram a tarde toda, riram até, viram o por do sol do alto de uma pedra bonita e terminaram a noite num quarto de motel feito fazem os casais enamorados. Ele lhe disse que nunca mais esqueceria aquele dia. Ela disse que jamais esqueceria dele. Ele já a esqueceu, ela tinha certeza. Ela estava enlouquecendo.
Por mais que tentasse não pensar nele, dia e noite lembrava de seus pelos, de sua barba, de sua perna fina, seus cabelos negros, sua voz suave, seu hálito, tudo. Ele nunca mais apareceu online. Nunca mais deu sinal de vida, muito embora ela soubesse que ele estava bem, vivendo a história que escolheu viver. Dela ele não queria mais nada, era parte de um passado que talvez preferisse esquecer, apagar, sabe-se lá por que cargas d´água. Nem amizade, nem um sentimento, nada. Uma pá de cal, um ponto final sem nexo, feito uma história feia, proibida, sem explicação. Ela agora sabia como era morrer de amor.
E eu ali, só ouvindo.
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sábado, 28 de abril de 2012
Nem uma brisa
O vento soprou forte no final daquela manhã e, por detrás das montanhas, nuvens se aglomeravam e desciam sob as encostas anunciando mais uma frente fria. Quem mora na zona norte ou no subúrbio do Rio de Janeiro e tem como barreira o Maciço da Tijuca, onde ficam as antenas de tevê e rádio do Sumaré, quando vê as nuvens chegando, muitas vezes tem a impressão de que o cume dos morros está coberto por neve. Ou flocos de algodão. Chega a ser bonito. E o barulho que fazem as rajadas de vento, como se soprassem gritos agudos invadindo todas as frestas, derrubando árvores, postes, levantando a poeira a cada cruzamento ou esquina.
Do outro lado da calçada uma menina linda corre assustada na ponta dos pés, num misto de balé e malabarismo, pois ao mesmo tempo segurava a saia, os livros, a bolsa a tiracolo - que teimava em voar feito pipa - e desviava de quem porventura viesse em sua direção. Com os olhos cheios de terra trazida pelo vento ficava difícil enxergar e a menina, com as pupilas dilatadas, lindas, tentava segurar o choro. Ela tinha pavor de ventania.
Dois quarteirões a frente, a marquise de um edifício alto com grandes portões de ferro pintados recentemente, servia de abrigo a uma dezena de pessoas. Algumas gotas de chuva pesada já começavam a cair. Galhos secos, sacos plásticos, caixas de papelão, latas de cerveja e jornais velhos voavam como se tivessem vida, traçando rasantes. A menina linda tinha conseguido chegar até ali debaixo. A saia já comportada, o cabelo desarrumado, a pele suja, os livros meio que amassados e a bolsa ainda fora de lugar. A vista ardia, a respiração parecia menos ofegante, mas o vento ainda castigava e aquele espaço sob a marquise ia diminuindo a cada instante. Gente de todos os cantos ia chegando na tentativa de se proteger daquele capricho repentino da natureza. Raios e trovões ainda completavam o pesadelo daquele final de manhã. Ela estava assustada a menina linda.
A noite anterior não tinha sido das melhores. Estivera na casa da sua mãe. O pai havia morrido há poucas semanas e a viúva estava inconsolável com a perda. Há dois anos a doença veio arrasadora e levou daquele homem outrora forte toda a musculatura e a alegria de se saber vivo. Deixou-se dominar pelas dores e as articulações que travavam-lhe os movimentos mais sutis. Ela nunca sonhara em perder o pai tão cedo. Não que fantasiasse a imortalidade dos super-heróis, pois desde muito pequena tivera noção de que tudo tem um fim. Mas a imagem que sempre fizera do pai era a de um homem forte, corajoso, de voz grossa, sorriso largo, generoso. Ela achava o pai lindo, mesmo que já lhe faltassem cabelos, mesmo que a barba fosse branca e cada vez mais rala, mesmo que as rugas formassem sulcos em seu rosto e a pele soltasse de seus braços outrora tão ativos. Gostava de ouvir as histórias que o pai contava e sentiu uma saudade imensa de quando ainda criança o pai a embalava até que pegasse no sono. A mãe também amava aquele pai e o queria para ela mais que tudo. Disputava com a filha a atenção do marido praticamente desde que a menina nascera. Ela era uma linda menina. Tão linda quanto a mãe um dia também fora.
Na noite que antecedeu a ventania mãe e filha conversaram sobre coisas que nunca haviam conversado antes. Falaram da vida e do quanto foram felizes antes da doença do pai. Dos ciúmes que a mãe sentia dela quando o pai fazia suas vontades, da raiva que tinham uma da outra quando discordavam de um assunto qualquer, do orgulho de terem vencido as dificuldades que o dia a dia apresentava, da vez em que a filha torceu o pé e o pai a carregou no colo por cinco quarteirões até chegar em casa e aplicar compressas com gelo e do cheiro do perfume que o marido trouxera para a mulher de sua única viagem à Europa. A mãe guardava o frasco até hoje como se fosse uma relíquia, um talismã. A filha amava o cheiro daquele perfume e só de falar nele podia sentir todo aquele aroma de volta.
Falaram também das contas e das dívidas que o pai deixara. A doença consumiu todas as reservas, que não eram muitas. Só restou o apartamento no Andaraí, que estava com o condomínio há meses atrasado. A sociedade no botequim havia sido desfeita. Precisavam daquele dinheiro. A pensão que o pai deixou não ia dar para arcar com todas as despesas. A filha nunca trabalhara antes. A mãe ajudava no balcão do botequim e, com sorte, o ex-sócio do marido talvez precisasse de seus serviços. Ia ajudar a reforçar o orçamento. A menina linda ia ter de arrumar um emprego e esquecer os planos de ir morar na França, fazer intercâmbio, conhecer outras culturas. Deixa isso para mais tarde, quando as coisas melhorarem, você não vai querer me deixar sozinha, vai?
A filha não sabia o que responder. Chorou não por saudade do pai, mas por perceber que a vida estava lhe dando uma rasteira, que suas vontades não iam prevalecer desta vez, que era hora de esquecer os sonhos, que a vida real é muito dura e que o destino é traiçoeiro. Ela tivera noção ali naquela noite dos limites que se impõem à nossa vontade e, como um soco na boca do estômago, se deu conta da dor que a invadia. Levantou, foi até a cozinha, bebeu um copo d´água gelada, perguntou se a mãe queria. A mãe, que àquela altura não sentia sede, não sentia fome, não sentia nada, sequer respondeu. A filha não insistiu. Bebeu sua água, voltou para a sala, abriu a janela.
quinta-feira, 19 de abril de 2012
A porta do deserto
Ele só queria chegar até ao deserto.
Pisar na areia seca sob o sol forte a queimar-lhe a pele.
As rachaduras na carne a sangrar-lhe as feridas
e as cricatrizes que não fecham e ainda ardem como na hora do corte.
Por que ele vai sozinho, feito quem vai embora para sempre?
Nem mesmo olha para trás, segue em frente sem saber do que ficou.
Parece forte, mas é frágil como são frágeis os que não têm proteção.
Há muito tempo pararam de orar por ele. E seus olhos, tristes.
Menino solto na vida, que prende o choro, se engana, se encobre,
corre, desce, muitas vezes até esquece o quanto deixou se perder.
Lembra do que não lhe foi permitido, dos amores proibidos,
da razão que se fez grave em seus ouvidos, do pouco que falou quando foi feliz.
Ele mesmo quis se desfazer.
Tentava de todo modo esquecer, mudar o rumo da prosa, desaparecer.
Sem que ninguém o procurasse ou ao menos lhe desse falta,
a falta que só ele sentia.
No meio do caminho ele já não se reconhecia,
sequer sabia onde é que aquilo ia dar.
Estava fadado a dor, ele dizia.
Minha ou sua.
Porque eu também fiquei sozinho, pés descalços num chão frio,
o piso incerto, o passo em falso, a dor de me saber vazio.
Há dentro de mim a angústia do desencontro e meu pranto é tanto
que eu nem sei se conto.
Porque eu também sou frágil, embora não pareça.
Versos delicados insistem em me visitar.
Rimas preciosas, vaidosas, difíceis até, me arrancam de mim.
É quando então me sinto mais só.
Eu sou o deserto.
Pisar na areia seca sob o sol forte a queimar-lhe a pele.
As rachaduras na carne a sangrar-lhe as feridas
e as cricatrizes que não fecham e ainda ardem como na hora do corte.
Por que ele vai sozinho, feito quem vai embora para sempre?
Nem mesmo olha para trás, segue em frente sem saber do que ficou.
Parece forte, mas é frágil como são frágeis os que não têm proteção.
Há muito tempo pararam de orar por ele. E seus olhos, tristes.
Menino solto na vida, que prende o choro, se engana, se encobre,
corre, desce, muitas vezes até esquece o quanto deixou se perder.
Lembra do que não lhe foi permitido, dos amores proibidos,
da razão que se fez grave em seus ouvidos, do pouco que falou quando foi feliz.
Ele mesmo quis se desfazer.
Tentava de todo modo esquecer, mudar o rumo da prosa, desaparecer.
Sem que ninguém o procurasse ou ao menos lhe desse falta,
a falta que só ele sentia.
No meio do caminho ele já não se reconhecia,
sequer sabia onde é que aquilo ia dar.
Estava fadado a dor, ele dizia.
Minha ou sua.
Porque eu também fiquei sozinho, pés descalços num chão frio,
o piso incerto, o passo em falso, a dor de me saber vazio.
Há dentro de mim a angústia do desencontro e meu pranto é tanto
que eu nem sei se conto.
Porque eu também sou frágil, embora não pareça.
Versos delicados insistem em me visitar.
Rimas preciosas, vaidosas, difíceis até, me arrancam de mim.
É quando então me sinto mais só.
Eu sou o deserto.
sexta-feira, 23 de março de 2012
Pudera eu também falar
Dentro de mim há um parlatório,
Um desfiar de rosários, uma ladainha sem fim.
E os pensamentos em corredeiras,
penhascos, esquinas, ladeiras,
a percorrer cada canto
sobrevivendo como que por encanto
ao doce veneno do pranto
que melancolicamente escorre daqui.
Apenas ouço o que eles me dizem
mas não entendo muito bem o que eles querem.
Muito menos o que eles fazem.
São poetas a perderem tempo,
a vagabundearem por aí,
lapidando frases no mural da minha cabeça,
aquarela a derramar suas cores,
amores que eu jamais esqueci.
Gosto quando só o que resta é a palavra.
A fala bem marcada pela sílaba mais tônica
na voz solitária e doce de um cantador
que rima na lembrança o som daquilo que um dia se perdeu
na conversa que ficou eternizada no fundo da memória
afetivamente solidária, história escrita por diversos eus
que me revelam o significado do que jamais foi dito.
Repito: escrever, por vezes, me dói.
Pudera eu também falar.
Um desfiar de rosários, uma ladainha sem fim.
E os pensamentos em corredeiras,
penhascos, esquinas, ladeiras,
a percorrer cada canto
sobrevivendo como que por encanto
ao doce veneno do pranto
que melancolicamente escorre daqui.
Apenas ouço o que eles me dizem
mas não entendo muito bem o que eles querem.
Muito menos o que eles fazem.
São poetas a perderem tempo,
a vagabundearem por aí,
lapidando frases no mural da minha cabeça,
aquarela a derramar suas cores,
amores que eu jamais esqueci.
Gosto quando só o que resta é a palavra.
A fala bem marcada pela sílaba mais tônica
na voz solitária e doce de um cantador
que rima na lembrança o som daquilo que um dia se perdeu
na conversa que ficou eternizada no fundo da memória
afetivamente solidária, história escrita por diversos eus
que me revelam o significado do que jamais foi dito.
Repito: escrever, por vezes, me dói.
Pudera eu também falar.
sábado, 17 de março de 2012
Os poetas também morrem
Não sei quanto tempo ainda vou ficar por aqui.
Ele também não sabia.
Entretanto, conhecia ele o exato instante da palavra,
a urgência da frase ainda sequer escrita,
latente em suas ideias,
fremente em suas andanças,
firme em seus pensamentos traduzidos entre tantos versos
entreouvidos no murmurar da noite
reverberados, reinventados, alucinados até.
Sobe nas mesas e declama o texto de improviso
do orador de tantas vozes que se calam
num momento em que tudo para,
em que a gente dança no palco em que se cospe e se envenena
a lucidez que paralisa e bloqueia a fantasia,
e deixa então de ser real para se tornar poesia.
Corta, poeta.
Sangra em minha carne a tua vontade.
Faz de mim o verbo mais que imperfeito
E cicatriza na minha pele o gosto da tua verdade.
Antes que eu morra e tudo que eu fui desapareça
feito comida de traça no fundo do armário
ou o pó na estante que me serve de abrigo,
eu não ligo, apenas costuro o que você rascunha.
Então, rasga, poeta.
Esgarça, procura e provoca a minha inquietude.
Porque eu sei que também vou embora qualquer hora dessas
cedo ou tarde eu não vou me importar
e que seja em pleno caos da madrugada
sob a luz da tua retina descortinada sobre minha pele,
tua mão a me tocar de leve
e tua voz a me dizer não vá não vá não vá.
Ele também não sabia.
Entretanto, conhecia ele o exato instante da palavra,
a urgência da frase ainda sequer escrita,
latente em suas ideias,
fremente em suas andanças,
firme em seus pensamentos traduzidos entre tantos versos
entreouvidos no murmurar da noite
reverberados, reinventados, alucinados até.
Sobe nas mesas e declama o texto de improviso
do orador de tantas vozes que se calam
num momento em que tudo para,
em que a gente dança no palco em que se cospe e se envenena
a lucidez que paralisa e bloqueia a fantasia,
e deixa então de ser real para se tornar poesia.
Corta, poeta.
Sangra em minha carne a tua vontade.
Faz de mim o verbo mais que imperfeito
E cicatriza na minha pele o gosto da tua verdade.
Antes que eu morra e tudo que eu fui desapareça
feito comida de traça no fundo do armário
ou o pó na estante que me serve de abrigo,
eu não ligo, apenas costuro o que você rascunha.
Então, rasga, poeta.
Esgarça, procura e provoca a minha inquietude.
Porque eu sei que também vou embora qualquer hora dessas
cedo ou tarde eu não vou me importar
e que seja em pleno caos da madrugada
sob a luz da tua retina descortinada sobre minha pele,
tua mão a me tocar de leve
e tua voz a me dizer não vá não vá não vá.
domingo, 11 de março de 2012
Deslizes são fatais
O ano era 2008. Eu estava em Juiz de Fora fazendo mais uma campanha politica e não pude acompanhar atentamente a eleição para a prefeitura do Rio de Janeiro, mas óbvio que eu sabia muito bem quem levaria meu voto. Meu candidato - tanto o de Juiz de Fora quanto o do Rio de Janeiro - conseguiu levar o pleito para o segundo turno e segundo turno é outra campanha, completamente diferente, com outra dinâmica, ainda mais estressante, especialmente para quem foi pago para ganhar a eleição. Eu elegi meu candidato.
O de Juiz de Fora. O do Rio não.
Numa campanha politica uma série de fatores é responsável tanto pelo sucesso quanto pelo fracasso do candidato. Desde a empatia com o eleitorado e a diposição de se tornar popular à firmeza de um bom discurso político, consistente, propositivo, sério, livre de preconceitos. Coisa cada vez mais rara. Até porque, o ser político nos dias de hoje, é provido de descrença e de desconfiança e desprovido de moral. Não vou me arriscar aqui a dizer que ao ser político de hoje em dia também falta ética, porque ética tem a ver com caráter e caráter, a gente sabe, é inerente ao ser humano. Todos têm. Seja ele bom ou ruim. E não me cabe aqui julgamento algum.
Em Juiz de Fora eu conseguia ver qualidades no meu candidato. Ele havia sido considerado o melhor secretário de desenvolvimento social do país no ano anterior, tinha um discurso sério, nunca me pareceu leviano e se mostrou com uma enorme disposição de fazer uma campanha onde ele tivesse um contato mais direto com o eleitor. A camisa social azul e o paletó deram lugar a camisas pólo e muita sola de sapato. Nossos programas eram basicamente gravados em externas, numa agenda de apresentação de propostas feita com a participação popular. A boa capacidade de improvisar do candidato aliada a um roteiro de gravação pré-estabelecido com a equipe deu certo e aquele político com fama de elitizado viu que tinha potencial para se tornar o preferido do povão. Assim foi feito.
Do quarto lugar nas pesquisas para o cargo de prefeito foram quase quatro meses de intenso trabalho. Não me arrependo de nada do que fiz naquela campanha. Tudo o que foi ao ar, e que levava minha assinatura, tinha verdade. Os textos, as edições, nada foi manipulado para encobrir um mal feito ou uma mentira. Todas as acusações eram rebatidas e devidamente esclarecidas. Todo o trabalho da equipe de criação daquela campanha foi feito com muita emoção, diga-se de passagem. Voltei para casa saboreando o doce gosto da vitória.
Mas meu candidato no Rio não teve a mesma sorte.
Como eu relatei há alguns parágrafos acima, segundo turno é outra campanha e qualquer deslize pode arruinar uma candidatura. E foi o que aconteceu com o meu candidato no Rio. Ao cumprir uma agenda deixou escapar na frente de um repórter uma frase que comprometeu, a meu ver, toda a sua trajetória de homem público. Na sua frase infeliz, ele afirmava que uma determinada vereadora, integrante da sua coligação, teria uma "visão suburbana" sobre a construção de um aterro sanitário e mais: que ela seria uma "analfabeta política". Moradores do subúrbio, como eu, mais preciosos que nunca para ele, de postura "Zona Sul", consideraram o comentário de um enorme preconceito. O outro candidato, claro, usou e abusou do fato, noticiado com alarde por toda a imprensa e agradece a Deus - e ao repórter - até hoje pelo acontecido.
Dois anos mais tarde este mesmo candidato tentou se eleger governador do estado. Mais uma vez não conseguiu. A derrota nas urnas não foi culpa de nenhum repórter que ao cumprir seu ofício publicou uma declaração infeliz, mas tenho cá minhas desconfianças de que aquele episódio com os suburbanos foi responsável por uma campanha sem muita convicção por parte da militância e também de sua parte. Eu, como bom suburbano, confesso que não me empolguei nem um pouco em ceder-lhe meu voto. Imagino que muitos outros pensaram como eu naquela eleição. Uma pena.
Agora, às vésperas de uma nova eleição municipal, a campanha parece ter sido nacionalizada em São Paulo. Mais uma vez uma queda de braço entre o PT e o PSDB. Lula, mesmo afastado do poder, lutando contra um câncer na laringe, continua dando provas de sua força política e impôs o nome de Fernando Haddad como pré-candidato do partido à prefeitura da maior cidade da América Latina, enquanto Serra, que carrega a pecha de candidato derrotado, depois de negar e muito fazer suspense, se apresenta como o nome dos tucanos para o cargo. Os olhos da imprensa estão virados para São Paulo porque lá a briga já começou e promete ser boa.
Aqui no Rio a situação ainda estava morna e a batalha parecia ganha. O atual prefeito é candidato à reeleição e tem a seu favor a máquina e uma agenda de eventos pra lá de positiva, além de contar com apoio de mais 19 partidos, o que lhe garante um tempo bastante significativo de propaganda na TV. Nenhuma outra candidatura havia se apresentado para a luta até que, há poucos dias, um acontecimento movimentou a imprensa e a vida política da cidade. A bela filha do ex-governador Garotinho, Clarissa, anunciou que será a candidata a vice na chapa de Rodrigo Maia, filho do ex-prefeito Cesar Maia que, entre outros legados, deixou para os cariocas um elefante branco mais conhecido como Cidade da Música, obra que consumiu uma fortuna e que ainda está inacabada. Um casamento perfeito, já que assunto, piada e, por que não?, desespero, não faltariam para, nós, eleitores cariocas.
Mas um outro fato acendeu a luz no fim do túnel da eleição no Rio de Janeiro. O mesmo repórter que publicou a frase infeliz daquele que era o meu candidato a prefeito em 2008, foi o primeiro a publicar uma matéria onde o pré-candidato Marcelo Freixo, do PSOL, conhecido por seu combate às milícias, anuncia que o seu candidato a vice na chapa será o fundador do grupo O Rappa, Marcelo Yuka, um dos artistas mais engajados da atualidade. No ano 2000 Yuka, famoso por suas composições contundentes e sempre carregadas de críticas, ficou paraplégico após levar um tiro num assalto no bairro da Tijuca e desde então participa ativamente de projetos sociais e assim como o Freixo, é dono de um discurso que, no mínimo, merece ser ouvido com respeito e atenção. É claro que ele deve estar preparado para os impropérios que irão surgir no ringue durante a campanha. Os reacionários, os moralistas, os demagogos e, lógico, os marqueteiros, estarão mais a postos que nunca e vão carimbá-lo de tudo. De maconheiro incentivador do uso de drogas a vagabundo.
Qualquer deslize será fatal.
O de Juiz de Fora. O do Rio não.
Numa campanha politica uma série de fatores é responsável tanto pelo sucesso quanto pelo fracasso do candidato. Desde a empatia com o eleitorado e a diposição de se tornar popular à firmeza de um bom discurso político, consistente, propositivo, sério, livre de preconceitos. Coisa cada vez mais rara. Até porque, o ser político nos dias de hoje, é provido de descrença e de desconfiança e desprovido de moral. Não vou me arriscar aqui a dizer que ao ser político de hoje em dia também falta ética, porque ética tem a ver com caráter e caráter, a gente sabe, é inerente ao ser humano. Todos têm. Seja ele bom ou ruim. E não me cabe aqui julgamento algum.
Em Juiz de Fora eu conseguia ver qualidades no meu candidato. Ele havia sido considerado o melhor secretário de desenvolvimento social do país no ano anterior, tinha um discurso sério, nunca me pareceu leviano e se mostrou com uma enorme disposição de fazer uma campanha onde ele tivesse um contato mais direto com o eleitor. A camisa social azul e o paletó deram lugar a camisas pólo e muita sola de sapato. Nossos programas eram basicamente gravados em externas, numa agenda de apresentação de propostas feita com a participação popular. A boa capacidade de improvisar do candidato aliada a um roteiro de gravação pré-estabelecido com a equipe deu certo e aquele político com fama de elitizado viu que tinha potencial para se tornar o preferido do povão. Assim foi feito.
Do quarto lugar nas pesquisas para o cargo de prefeito foram quase quatro meses de intenso trabalho. Não me arrependo de nada do que fiz naquela campanha. Tudo o que foi ao ar, e que levava minha assinatura, tinha verdade. Os textos, as edições, nada foi manipulado para encobrir um mal feito ou uma mentira. Todas as acusações eram rebatidas e devidamente esclarecidas. Todo o trabalho da equipe de criação daquela campanha foi feito com muita emoção, diga-se de passagem. Voltei para casa saboreando o doce gosto da vitória.
Mas meu candidato no Rio não teve a mesma sorte.
Como eu relatei há alguns parágrafos acima, segundo turno é outra campanha e qualquer deslize pode arruinar uma candidatura. E foi o que aconteceu com o meu candidato no Rio. Ao cumprir uma agenda deixou escapar na frente de um repórter uma frase que comprometeu, a meu ver, toda a sua trajetória de homem público. Na sua frase infeliz, ele afirmava que uma determinada vereadora, integrante da sua coligação, teria uma "visão suburbana" sobre a construção de um aterro sanitário e mais: que ela seria uma "analfabeta política". Moradores do subúrbio, como eu, mais preciosos que nunca para ele, de postura "Zona Sul", consideraram o comentário de um enorme preconceito. O outro candidato, claro, usou e abusou do fato, noticiado com alarde por toda a imprensa e agradece a Deus - e ao repórter - até hoje pelo acontecido.
Dois anos mais tarde este mesmo candidato tentou se eleger governador do estado. Mais uma vez não conseguiu. A derrota nas urnas não foi culpa de nenhum repórter que ao cumprir seu ofício publicou uma declaração infeliz, mas tenho cá minhas desconfianças de que aquele episódio com os suburbanos foi responsável por uma campanha sem muita convicção por parte da militância e também de sua parte. Eu, como bom suburbano, confesso que não me empolguei nem um pouco em ceder-lhe meu voto. Imagino que muitos outros pensaram como eu naquela eleição. Uma pena.
Agora, às vésperas de uma nova eleição municipal, a campanha parece ter sido nacionalizada em São Paulo. Mais uma vez uma queda de braço entre o PT e o PSDB. Lula, mesmo afastado do poder, lutando contra um câncer na laringe, continua dando provas de sua força política e impôs o nome de Fernando Haddad como pré-candidato do partido à prefeitura da maior cidade da América Latina, enquanto Serra, que carrega a pecha de candidato derrotado, depois de negar e muito fazer suspense, se apresenta como o nome dos tucanos para o cargo. Os olhos da imprensa estão virados para São Paulo porque lá a briga já começou e promete ser boa.
Aqui no Rio a situação ainda estava morna e a batalha parecia ganha. O atual prefeito é candidato à reeleição e tem a seu favor a máquina e uma agenda de eventos pra lá de positiva, além de contar com apoio de mais 19 partidos, o que lhe garante um tempo bastante significativo de propaganda na TV. Nenhuma outra candidatura havia se apresentado para a luta até que, há poucos dias, um acontecimento movimentou a imprensa e a vida política da cidade. A bela filha do ex-governador Garotinho, Clarissa, anunciou que será a candidata a vice na chapa de Rodrigo Maia, filho do ex-prefeito Cesar Maia que, entre outros legados, deixou para os cariocas um elefante branco mais conhecido como Cidade da Música, obra que consumiu uma fortuna e que ainda está inacabada. Um casamento perfeito, já que assunto, piada e, por que não?, desespero, não faltariam para, nós, eleitores cariocas.
Mas um outro fato acendeu a luz no fim do túnel da eleição no Rio de Janeiro. O mesmo repórter que publicou a frase infeliz daquele que era o meu candidato a prefeito em 2008, foi o primeiro a publicar uma matéria onde o pré-candidato Marcelo Freixo, do PSOL, conhecido por seu combate às milícias, anuncia que o seu candidato a vice na chapa será o fundador do grupo O Rappa, Marcelo Yuka, um dos artistas mais engajados da atualidade. No ano 2000 Yuka, famoso por suas composições contundentes e sempre carregadas de críticas, ficou paraplégico após levar um tiro num assalto no bairro da Tijuca e desde então participa ativamente de projetos sociais e assim como o Freixo, é dono de um discurso que, no mínimo, merece ser ouvido com respeito e atenção. É claro que ele deve estar preparado para os impropérios que irão surgir no ringue durante a campanha. Os reacionários, os moralistas, os demagogos e, lógico, os marqueteiros, estarão mais a postos que nunca e vão carimbá-lo de tudo. De maconheiro incentivador do uso de drogas a vagabundo.
Qualquer deslize será fatal.
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sexta-feira, 9 de março de 2012
Eles não sabem o que dizem. Nem eu.
Ando cansado dos que nunca se cansam de falar de amor. Eles não sabem o que dizem. Toda esta teoria de que bate no peito e depois não tem jeito e que é preciso perder a razão tem um quê de loucura, o que, por si só, não tem explicação. Portanto, descarte as teorias e não perca seu tempo com quem acha que vai ditar qualquer tipo de regra. Balela. Não acredite neles. Preste atenção apenas naquilo que você experimenta com a prática, com a vivência do dia a dia, com o olho no olho, pele na pele, no arrepio e no descompasso das batidas do seu coração, revelando que você é muito mais do que poderia supor.
Mas isso se você for capaz, porque eu sei que é difícil. Para alguns é até impossível.
Tem de caminhar até a beira do abismo e preparar o salto, o mergulho profundo, a verdadeira viagem que se faz olhando para dentro ao descobrir-se infinito. Sem medo, vergonha ou pudor. Por mais que tudo lá fora um dia se acabe e perca o sentido daquilo que nunca teve um porquê. Assim como o Deus, que está morto, o amor, para existir como amor de verdade, precisa muito mais que coragem. É preciso dar um tiro no escuro, acreditar no abstrato, fugir dos conceitos pré-estabelecidos e deixar de lado de uma vez por todas os preconceitos do que é sujo, impróprio, imoral ou não é permitido. Porque o amor tudo pode.
Mas isso se você for capaz, porque eu sei que é difícil. Para alguns é até impossível.
Tem de caminhar até a beira do abismo e preparar o salto, o mergulho profundo, a verdadeira viagem que se faz olhando para dentro ao descobrir-se infinito. Sem medo, vergonha ou pudor. Por mais que tudo lá fora um dia se acabe e perca o sentido daquilo que nunca teve um porquê. Assim como o Deus, que está morto, o amor, para existir como amor de verdade, precisa muito mais que coragem. É preciso dar um tiro no escuro, acreditar no abstrato, fugir dos conceitos pré-estabelecidos e deixar de lado de uma vez por todas os preconceitos do que é sujo, impróprio, imoral ou não é permitido. Porque o amor tudo pode.
Permita-se.
Eu, que já me permiti tantas vezes, volta e meia me pego falando de amor por aí. Mas não me dê ouvidos. Isso cansa.
Eu, que já me permiti tantas vezes, volta e meia me pego falando de amor por aí. Mas não me dê ouvidos. Isso cansa.
quinta-feira, 8 de março de 2012
sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012
Da arte de deixar boas lembranças
Não faz dois dias e um conhecido meu me perguntou por que é que algumas pessoas apenas passam por nossas vidas. Eu não lembro bem o que foi que respondi, mas na hora pensei na terrível dor da perda e em como é importante deixar boas lembranças a quem quer que seja, já que mais cedo ou mais tarde vamos nos ver pela última vez.
A verdade é que, muitas vezes, um simples gesto, uma frase bem colocada ou um olhar sincero de amizade podem mudar o rumo de quem, num determinado momento, está apenas passando ao seu lado.
Lembro que há alguns anos, na minha primeira campanha política, indiquei três livros a um rapaz, o Patrick, que editava os vídeos comigo. Ele gostava de tocar violão e dos meus cds do Clube da esquina. Ele era de pouca conversa, mas comigo falava pelos cotovelos. Muito provavelmente porque eu puxava assunto, como todo bom jornalista.
O primeiro livro que indiquei foi Budapeste, do Chico Buarque, que ganhei da Rachel, grande amiga, assim que foi lançado e levei para ler durante os meses que passei no interior de São Paulo. O outro foi Pilates, do Cony, que eu considero uma obra-prima e que me foi apresentado por um outro amigo, o Aldenir. A história, sobre um homem que fora castrado, em princípio meu causou um certo estranhamento, mas antes que eu terminasse de ler a segunda página, já estava às gargalhadas, completamente vidrado no texto.
Confesso que eu nunca tinha gargalhado lendo um livro antes.
O terceiro que indiquei foi Ecce Homo, uma das obras mais loucas de Nietzsche, onde o filósofo faz meio que um apanhado de todo o seu pensamento e deixa revelar o receio que ele tinha em não ser compreendido. Um texto controverso de um autor com transtornos mentais e que nunca economizou nas palavras e nas afirmações. Até hoje eu não entendo muito bem o que Nietzsche quis dizer em seus livros, mas volta e meia releio o que ele escreveu e sei que de uma maneira ou de outra aquilo tudo que está escrito é primordial para a minha vida.
Faz oito anos que não vejo o Patrick.
O terceiro que indiquei foi Ecce Homo, uma das obras mais loucas de Nietzsche, onde o filósofo faz meio que um apanhado de todo o seu pensamento e deixa revelar o receio que ele tinha em não ser compreendido. Um texto controverso de um autor com transtornos mentais e que nunca economizou nas palavras e nas afirmações. Até hoje eu não entendo muito bem o que Nietzsche quis dizer em seus livros, mas volta e meia releio o que ele escreveu e sei que de uma maneira ou de outra aquilo tudo que está escrito é primordial para a minha vida.
Faz oito anos que não vejo o Patrick.
A última vez que tive notícias dele foi quando ele me mandou uma mensagem dizendo que não trabalhava mais como editor e que aqueles três livros que um dia eu disse para ele comprar tinham mudado a sua vida. Disse que tinha adorado os três e que Pilates arrancara-lhe crises de riso de passar vergonha dependendo do lugar em que estivesse.
Budapeste ele contou que finalizou num voo para Londres e que o livro marcou sua viagem para a terra dos reis e rainhas. No aeroporto de Lisboa ele conheceu uma brasileira que também estava lendo Budapeste e são amigos até hoje.
Quanto ao Nietzsche, ele me confessou ter sido seu primeiro contato com o pensamento científico e ler Ecce Homo foi definitivo na sua decisão pelo mundo acadêmico, vida que segue atualmente com muita alegria. Patrick me disse ainda que sem que eu soubesse acabei sendo muito importante na sua formação humana.
"Você me deu o exemplo certo no momento certo. Nunca tive a oportunidade de lhe agradecer por isso" foram as suas duas últimas frases.
Nunca mais nos vimos desde aquela campanha e até hoje tenho minhas dúvidas se posso servir de exemplo para o que quer que seja. Mas sempre que penso no Patrick tenho a certeza de que o que realmente importa são as boas lembranças.
---------------------------------------------------------------------
Algumas pessoas apenas passam por nossas vidas feito coisa sem importância, um rastro de córrego seco, um apertar de mãos efêmero, um apagar de luzes fugaz.
Tenho uma dó danada de quem apenas passa pela vida.
Quanto ao Nietzsche, ele me confessou ter sido seu primeiro contato com o pensamento científico e ler Ecce Homo foi definitivo na sua decisão pelo mundo acadêmico, vida que segue atualmente com muita alegria. Patrick me disse ainda que sem que eu soubesse acabei sendo muito importante na sua formação humana.
"Você me deu o exemplo certo no momento certo. Nunca tive a oportunidade de lhe agradecer por isso" foram as suas duas últimas frases.
Nunca mais nos vimos desde aquela campanha e até hoje tenho minhas dúvidas se posso servir de exemplo para o que quer que seja. Mas sempre que penso no Patrick tenho a certeza de que o que realmente importa são as boas lembranças.
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Algumas pessoas apenas passam por nossas vidas feito coisa sem importância, um rastro de córrego seco, um apertar de mãos efêmero, um apagar de luzes fugaz.
Tenho uma dó danada de quem apenas passa pela vida.
terça-feira, 7 de fevereiro de 2012
Eis aqui a minha palavra
A palavra é o meu reflexo,
o meu espelho.
É nela que se vê em mim o que há de mais nítido.
Na palavra eu me revelo,
Junto as frases, rimo um verso.
Simplifico o que pode ser complexo,
Traduzo, me explico, converso e troco.
A palavra me conquista.
Grifa rascunhos em mim.
Grava em meu peito escritos de sorte,
Feito tatuagem colorida,
Que alegra e cicatriza
O couro forte da minha própria pele.
Sou página em branco.
Um caderno sem pauta.
Letra morta enterrada entre parêntesis.
Uma espécie de aposto perdido nas vírgulas.
Sem nexo ou adjetivos nem verbetes que eu possa decifrar.
É na palavra que eu me mostro
Quando permito interpretar meu texto.
Folheio-me.
Leio-me.
Deleito-me.
Satisfaço meus hiatos,
Procuro sinônimos nas minhas entrelinhas,
Vou de encontro ao vocálico
Construindo monossilabicamente meus parágrafos
Até o ponto final.
Só então eu viro a página.
o meu espelho.
É nela que se vê em mim o que há de mais nítido.
Na palavra eu me revelo,
Junto as frases, rimo um verso.
Simplifico o que pode ser complexo,
Traduzo, me explico, converso e troco.
A palavra me conquista.
Grifa rascunhos em mim.
Grava em meu peito escritos de sorte,
Feito tatuagem colorida,
Que alegra e cicatriza
O couro forte da minha própria pele.
Sou página em branco.
Um caderno sem pauta.
Letra morta enterrada entre parêntesis.
Uma espécie de aposto perdido nas vírgulas.
Sem nexo ou adjetivos nem verbetes que eu possa decifrar.
É na palavra que eu me mostro
Quando permito interpretar meu texto.
Folheio-me.
Leio-me.
Deleito-me.
Satisfaço meus hiatos,
Procuro sinônimos nas minhas entrelinhas,
Vou de encontro ao vocálico
Construindo monossilabicamente meus parágrafos
Até o ponto final.
Só então eu viro a página.
sexta-feira, 27 de janeiro de 2012
Assepsia
Chovia copiosamente, feito um choro incontrolável e inexplicável naquela tarde pálida de sexta-feira. Fazia frio até. De ruas vazias, silêncio, solidão, preguiça e algumas xícaras de café sem açúcar. Faltava-lhe o sono, mas não o desejo de ficar na cama entre os tragos de cigarro sem filtro, o controle remoto e as centenas de canais inúteis e fúteis da tv a cabo. Os livros na cabeceira há muito já não lhe revelavam frases sem sentido e a pele seca a coçar e a soltar dos ossos ao mesmo tempo em que os pelos que não paravam de crescer em suas narinas.
A porta do quarto estava trancada, as luzes do apartamento apagadas, o piso do enorme corredor que ligava a sala aos demais cômodos havia sido encerado ainda naquela manhã e refletia a imagem do nada. Paredes nuas, discos velhos na estante e um cheiro forte e vulgar de essência de eucalipto. Cada coisa em seu lugar meio que para dar um aspecto de assepsia moral, sabe-se lá, o clima de tranquilidade criado, artificialmente estabelecido, como se pudesse esconder para debaixo do tapete a desordem e frear o fio da meada. De nada valia.
Ao mesmo tempo sentia vontade de pegar o telefone e ligar para quem quer que fosse e dizer que agora estava tudo bem, que a tempestade havia passado e que dava pra enxergar lá longe uma nesga de esperança de que tudo seria refeito e que aquela pressão em seu peito não existia mais. Que a luta havia sido árdua e as dores lancinantes foram como aprendizado, só não se sabe bem ao certo do quê ou por quê, mas deixaram marcas profundas e capazes de mudanças inimagináveis.
Como o prédio que do nada tomba e carrega vidas entre escombros do dia a dia e se desfaz em nuvem de cimento e cal, o mundo também caía ao seu redor e lhe derrubava e carregava junto o que jamais seria. Era assim que a vida se apresentava e era assim que ela queria. Em meio a tanta inquietude e fúria, onde muitas vezes só há o desassosego da mente e a malícia do olhar e na garganta doem as palavras soltas sem compaixão, sem amor, sem sentido algum.
Poderia até mesmo confessar sem esforço o quão difícil foi chegar ao fundo do poço e perceber que não há saída, que a vida é para ser vivida de uma vez só, que a sua história não pode ser reescrita e o que foi feito, foi feito, e o que passou não tem como voltar mais. Só no baú das lembranças. Boas e ruins.
Poderia também dizer que os anseios foram suprimidos e tudo o mais foi evitado e que vai ficar guardado a sete chaves o que sequer um dia existiu. A melancolia e a tristeza lhe fizeram companhia durante todo aquele tempo, eram-lhe fieis feito duas ninfas encantadoras e apaixonadas, conscientes do mal e das delícias que trazem em si. A inspiração profunda, a loucura iminente, a sabedoria e toda aquela coisa que faz a gente se mover e procurar saber e entender o que não faz nem nunca fez sentido.
Nunca saberia dizer, porém o que sentira até então. Como de fato tudo aquilo se passou, como foi que tudo aquilo se deu. Não saberia responder ao menos em que dia se perdeu ou por que resolveu mais uma vez abrir os olhos e respirar fundo naquela tarde em que chovia copiosamente feito um choro incontrolável. Inexplicável.
sexta-feira, 20 de janeiro de 2012
Te vejo depois
Esvazie o quarto,
A sala,
A casa,
A mente,
O peito.
Mas preencha o coração.
Deixe escorrer,
Sangrar,
Pular,
Bater,
Vazar.
Ouça o que ele tem a dizer.
Sem meias palavras,
Com tantas verdades.
Pare,
Olhe,
Pense,
Preste mesmo atenção.
Silêncio.
É a saudade.
Uma voz que vem de dentro.
Um grito estridente.
Uma falta constante.
Um amor tão presente.
Tudo o mais tão distante.
A sala,
A casa,
A mente,
O peito.
Mas preencha o coração.
Deixe escorrer,
Sangrar,
Pular,
Bater,
Vazar.
Ouça o que ele tem a dizer.
Sem meias palavras,
Com tantas verdades.
Pare,
Olhe,
Pense,
Preste mesmo atenção.
Silêncio.
É a saudade.
Uma voz que vem de dentro.
Um grito estridente.
Uma falta constante.
Um amor tão presente.
Tudo o mais tão distante.
sexta-feira, 13 de janeiro de 2012
Brasileia
Quinta-feira, 5 de janeiro de 2012, 16h10. O ano mal começara e eu acabava de chegar na redação do jornal onde trabalho. Dei, como de praxe, meu cordial boa tarde a todos, não sem antes cutucar uns e outros no caminho até minha mesa. Brincadeirinha inconveniente, eu sei, mas que, entre tantas, já fazem parte do meu folclore. Antes mesmo que eu sentasse para me logar no computador, minha subeditora abre seu sorriso característico, vira pra mim e diz que eu tenho a missão mais legal daquele dia: editar um vídeo.
Dias antes, o jornal havia publicado a primeira do que seria uma série de matérias a respeito da invasão de haitianos no Acre. O que eu sabia era que cerca de 1300 imigrantes ilegais vindos do Haiti haviam cruzado a fronteira entre a Bolívia e o Brasil e estavam instalados num hotel de uma cidade chamada Brasileia. Não tinha visto uma foto sequer de nenhum haitiano lá pela região Norte do país. Nem eu nem ninguém. As imagens que eu ia ver eram as primeiras a chegar na redação.
Abri minha mochila, peguei meu bloco, minha caneta, meu maço de cigarros e fui até a ilha de edição dar uma olhada no material. As primeiras imagens eram confusas, dois ou três vídeos, não lembro ao certo, de dois haitianos lavando roupa, umas panelas cheias de comida e uma tentativa de entrevista com um negro forte e de dentes muito brancos que repetia incesantemente que precisava trabalhar. Só com aquele material eu não poderia fazer nada. Eu edito, mas não faço mágica, foi o que eu disse pra minha subeditora. Pede para a Cleide arrumar uns personagens e fazer umas imagens da praça e do hotel onde os haitianos estão que é para eu poder montar uma história, completei.
Nem foi preciso. Profissional feito ela só, Cleide já tinha conseguido mais material e em pouco tempo enviou lá do Acre para a redação do jornal, na Irineu Marinho, vídeos e fotos suas e do Michel Filho, seu companheiro de pauta, que encheram os olhos de quem estava por perto na hora da edição. Eu confesso que esperava encontrar imagens do apocalipse ou a visão do inferno. Imagina? Mais de mil haitianos superlotando uma cidade escondida na região mais desabitada do nosso país não deveria ser nada bonito de se ver. Mas eu estava completamente equivocado e o que eu vi me deixou hipnotizado. A mim e à Suzane, minha parceira no resultado final de todo o material de vídeo.
Era muita imagem, de uma riqueza e de uma beleza impressionantes. Mais de mil haitianos reunidos numa praça de uma cidade típica do interior do Brasil e espremidos num hotel cuja lotação máxima era de cem hóspedes. As fotos da distribuição de pães na hora do café da manhã em pelo coreto da cidade, as entrevistas com as autoridades locais e a preocupação que tinham com a alimentação, a saúde e a situação ilegal daqueles imigrantes que chegavam ao país em busca de um futuro mais digno me fez ter a certeza de que eu poderia editar um vídeo bem interessante para o site. Vi todas as imagens, todas as fotos, todas as entrevistas e desci para fumar um cigarro e pensar num formato de edição. A generosidade do brasileiro e a esperança do haitiano foram fumar comigo.
Subi e numa afinidade única, eu e Suzane terminamos um primeiro corte em menos de duas horas. Na verdade, estava praticamente pronto, faltando apenas a abertura, uma trilha, alguns ajustes e uma ou outra imagem de fundo. A chegada, o sonho e a realidade da situação dos haitianos no Acre estavam na lata, como a gente costuma dizer quando um vídeo ou um filme ou algo do gênero fica pronto. Eu saí da edição com uma pontinha de orgulho e a certeza de ter feito um trabalho bacana e que ia ilustrar uma das reportagens mais inspiradoras que eu já vi nestes meus meus rasos anos de redação.
No dia seguinte, sexta-feira, foi a vez de mostrar o vídeo já finalizado para os chefes. Ambos aprovaram, não tinha como não ser diferente. A Cleide ligou do Acre para dizer que adorou, disse meu editor. Ela mandou um e-mail elogiando e agradecendo mais uma vez pela parceria, eu li mais tarde. Não era a primeira vez que eu editava material das reportagens dela. Já havia feito dois ou três antes e sempre com um ótimo resultado. Mas aquele, dos haitinos, era diferente. Tinha material humano o suficiente para emocionar e fazer com que o povo brasileiro se desse conta de como somos um povo generoso. Um povo que não ergue muros ou cercas elétricas em suas fronteiras. Um povo que sabe repartir o pão e que dá, mais uma vez ao mundo, este exemplo de como receber imigrantes de um país arrasado por tantas desgraças e que só querem um lugar ao sol e a chance de sobreviverem neste planeta que muitas vezes parece ser habitado pela ganância, pelo egoísmo e pelo protecionismo que exclui, fere e mata.
O vídeo foi publicado sábado à noite no site e ficou praticamente a semana inteira em destaque até que na quarta-feira chega um novo material para ser editado: mais fotos e um depoimento em vídeo do fotógrafo Michel Filho, contando como foi sua experiência no Acre. Mais uma vez eu e Suzane. Mais uma vez uma história bonita para contar. Desço sem pestanejar, costuro uma narrativa de menos de cinco minutos - o que em internet pode se transformar numa eternidade - em cima do depoimento do Michel, vejo imagens novas, aproveito outras do antigo material, digo que a trilha precisa ser emocionante. Suzane sabe tudo, faz os ajustes, cria o clima do vídeo e pronto, temos mais um na lata.
É sexta-feira de uma semana intensa e a impressão que tenho é que o ano passado ainda não terminou. Emendei a ressaca do ano novo com o plantão de final de semana e fazia 12 dias que eu entrava e saía sem descanso naquele jornal. São 16h20, estou atrasado e chego na redação louco para as horas voarem. O segundo vídeo dos haitianos foi publicado. Meu chefe está orgulhoso do material. Michel, o fotógrafo, manda e-mail agradecendo. Minha subetidora assiste e se emociona. Eu também tenho andado emocionado ultimamente, eu pensei numa fração de seguindos, mas antes precisava terminar uma matéria para segunda-feira. Vida que segue.
Vídeos:
Vídeos:
A situação dos haitianos no Acre
O relato do repórter fotográfico Michel Filho
domingo, 8 de janeiro de 2012
A fuga sob o céu do Aterro
Ele sequer se despediu. Sumiu entre os pilotis pensando se deveria ter falado tudo aquilo que falou. Não costumava se abrir com ninguém, gostava de manter sempre uma certa distância, o que para algumas pessoas podia parecer frieza. Ele não se importava. Na verdade poucas coisas tinham importância para ele: um belo dia de sol, a poesia de Mario Quintana, a saudade que sentia dos seus pais e de seus velhos discos de vinil. Mais nada. Então por que, pensava ele, resolveu se expôr daquela maneira? Logo ele, cujo sonho era se tornar invisível, quase um desejo inconsciente de passar em branco pela vida.
Desde moleque sentia medo de se relacionar. Foi uma criança retraída, de poucos amigos, aluno brilhante e de comportamento exemplar diante de olhos tão repressores. Filho único, vivia na barra da saia da mãe e sob as regras incontestáveis do pai, um ex-militar da marinha que sempre proibiu a esposa de trabalhar. Nunca contrariou a autoridade do pai nem a subserviência da mãe. Gostava da imposição do silêncio em sua casa, pois sabia que assim nunca seria obrigado a falar mais que o necessário. Se havia coisa que o incomodava era gente que falava demais.
Um dia ele se deu conta de que o amor também o incomodava. Na verdade, o amor o agredia. Nem todos os romances que devorou na solidão do seu quarto ou as centenas de filmes que gostava de assistir desacompanhado, aos sábados, na sessão das cinco no cinema em Botafogo foram capazes de despertar qualquer sentimento mais nobre a respeito de uma relação a dois. Sexo? Ninguém precisa de amor para se satisfazer sexualmente, ele dizia.
Era jovem ainda, vinte e oito anos, e já sabia vestir armaduras. Pouco sorria e nunca se deu conta de seus olhos tristes. Mas ela sim, desde que o viu pela primeira vez, ao entrar na repartição quase que imperceptivelmente para começar no novo trabalho numa manhã ensolarada de março, revelando toda a fragilidade que só os mais sensíveis são capazes de perceber. Aquele rapaz que parecia tão sério, tão alheio a tudo e a todos, na verdade também percebeu que ela existia. Pouco a pouco ele foi se aproximando dela, fosse para tirar alguma dúvida ou prestar algum serviço. A pausa para um café, uma ou outra gentileza e em menos de uma semana já saíam para almoçar juntos.
Não demorou muito e combinaram de assitir a um filme na cinemateca do MAM no final se semana. Um filme francês que ele nunca mais lembrou o nome porém nunca mais esqueceu do que sentiu ao deixar seu braço encostar no dela desde o início da sessão. Suas mãos gelaram enquanto o fogo tomava conta do resto do seu corpo ali mesmo naquelas cadeiras desconfortáveis da sala de cinema e ele foi capturado por um desejo de que aquela história nunca mais terminasse e que os personagens na tela congelassem e que aquele roteiro durasse por toda a eternidade. Mas na vida real tudo acaba, ele sabia.
Depois do cinema foram andar pelos jardins do museu, dividiram uma água de côco num quiosque de frente para a baía de Guanabara. Conversaram um pouco. Amenidades. Ela gostou do filme. Ele disse que também havia gostado. Já estava anoitecendo e o céu parecia tingido de rosa. A cor do amor, ela falou. Ele não respondeu. Fingiu que não ouviu, disse que precisava voltar para casa, tinha uns textos para ler e outras tantas coisas a fazer. Disse também que ele não deveria estar ali, que tinham feito tudo errado, que eram apenas amigos de trabalho e que não poderiam misturar as coisas. Deixou escapar que não acreditava no amor, que nunca iria se apaixonar, não queria saber de relacionamento sério e que nada iria afastá-lo de seus objetivos, mesmo que ninguém nunca soubesse que objetivos eram esses.
Foi então que ele pediu que ela fosse embora, que nunca mais falasse com ele, que fingisse que ele não existia, que nunca se conheceram. Ia tentar uma transferência para Brasília na segunda-feira, há muito já pensava nisso e que ela deveria odiá-lo e jamais lembrar dele como alguém que precisasse amar e ser amado porque isso não era verdade. Ela permaneceu calada, sem entender tamanho destempero, já que há poucos instantes parecia estar tudo bem, eles estavam se conhecendo, havia sido uma tarde agradável, um programa interessante, um lugar lindo, uma sensação boa até. Quando ela poderia imaginar que ele teria tantos problemas e neuroses e que fosse capaz de lhe dizer tantos impropérios? Logo para ela, que desde o primeiro dia se mostrou inteira, disponível, solidária, um porto seguro em meio ao absurdo que muitas vezes é a vida naquela repartição.
Ele não quis saber. Virou-lhe as costas e foi embora. Ela ficou ali sozinha, parada, vendo as luzes da cidade se acenderem sob o céu do Aterro enquanto ele desaparecia. Em poucos minutos não havia sequer sua sombra. Não havia nada. Nem ele, nem ela, nem ninguém. Tudo se dissolvia. O fim antes mesmo do começo. O medo. A incerteza. O desequilíbrio. A loucura. O amor. O sonho. A fantasia.
sábado, 7 de janeiro de 2012
O fio da navalha
Corta-me a carne em segredo
Só então depois desliza sua mão em minha alma.
Descobre se há em mim algo por inteiro,
Um pedaço do que sobra,
Um retrato do que eu fui,
O rascunho, não a obra.
Sustenta meus ossos.
Suporta o meu peso.
Fecha os meus olhos.
Me enche de beijos.
Dá cá suas entranhas.
Dia desses tive muito medo.
Rasga meu peito de uma só vez,
Desacelera o coração que me apavora,
Põe pra fora o que ele verdadeiramente sente.
Quem foi que disse que homem não chora?
Grita anestesiadamente.
Eu ando mesmo meio rouco.
Antes, me diz, sou louco?
Seja breve no diagnóstico
Porque sei que de médico todos temos um pouco.
Ainda te peço uma coisa: seja preciso quando for me falar.
Feito o fio da navalha.
Aquela com a qual você vai me cortar.
Só então depois desliza sua mão em minha alma.
Descobre se há em mim algo por inteiro,
Um pedaço do que sobra,
Um retrato do que eu fui,
O rascunho, não a obra.
Sustenta meus ossos.
Suporta o meu peso.
Fecha os meus olhos.
Me enche de beijos.
Dá cá suas entranhas.
Dia desses tive muito medo.
Rasga meu peito de uma só vez,
Desacelera o coração que me apavora,
Põe pra fora o que ele verdadeiramente sente.
Quem foi que disse que homem não chora?
Grita anestesiadamente.
Eu ando mesmo meio rouco.
Antes, me diz, sou louco?
Seja breve no diagnóstico
Porque sei que de médico todos temos um pouco.
Ainda te peço uma coisa: seja preciso quando for me falar.
Feito o fio da navalha.
Aquela com a qual você vai me cortar.
domingo, 25 de dezembro de 2011
Depois que tudo termina
Há algo de único na vida.
Um caminho traçado,
um risco iminente,
o que se faz consciente,
com o que restou do passado,
e o que se quer do presente.
Procuro.
Encontro.
Divido.
Multiplico.
Explico.
Explodo.
É tudo muito rápido na vida.
É como piscar os olhos
Ou estalar os dedos
E quando se vê, tudo escapa.
termina,
acaba,
finda.
Assim é a vida.
Não morro de medo da morte.
Mas quem sabe eu tenha sorte
e me faça imortal, posto que já fui imoral,
rei, réu, vítima, culpado,
testemunha da minha única história,
condenado de um só tribunal?
Há algo de mágico na vida.
Um movimento incessante,
uma amplitude interessante,
que nos inspira e nos renova
e nos recicla e nos refaz e reanima.
O recomeço depois que tudo termina.
Num instante.
Em poucos segundos,
questão de minutos,
horas,
meses,
anos.
Um caminho traçado,
um risco iminente,
o que se faz consciente,
com o que restou do passado,
e o que se quer do presente.
Há algo de lindo na vida.
Uma inquietude perene
feito a saudade que fica
de alguém que se vai para sempre,
ou de brindar aos que chegam,
porque tantos outros ainda estão por vir.
Há os que não querem partir,
há os que se sabem distantes,
os que se fazem ausentes
e desaparecem aos poucos.
Misturam-se na poeira do dia
indiferentemente.
Procuro.
Encontro.
Divido.
Multiplico.
Explico.
Explodo.
É tudo muito rápido na vida.
É como piscar os olhos
Ou estalar os dedos
E quando se vê, tudo escapa.
termina,
acaba,
finda.
Assim é a vida.
Não morro de medo da morte.
Mas quem sabe eu tenha sorte
e me faça imortal, posto que já fui imoral,
rei, réu, vítima, culpado,
testemunha da minha única história,
condenado de um só tribunal?
Há algo de mágico na vida.
Um movimento incessante,
uma amplitude interessante,
que nos inspira e nos renova
e nos recicla e nos refaz e reanima.
O recomeço depois que tudo termina.
Num instante.
Em poucos segundos,
questão de minutos,
horas,
meses,
anos.
sexta-feira, 23 de dezembro de 2011
Feliz Natal pra você e pra mim
Esta semana li no perfil de um pseudoamigo meu numas destas redes sociais a brilhante frase: "Natal é o momento em que todos são falsos consigo mesmos". Aquele surto de pseudointeligência me chamou a atenção. Confesso que volta e meia publico umas frases meio absurdas, na tentativa de também ser pseudointeligente, mas aquela, em especial, eu li, reli, li mais umas tantas vezes e não entendi muito bem o que ele quis dizer. Ou talvez tenha entendido tudo, sabe-se lá. A verdade é que eu, particularmente, gosto de Natal. Talvez porque ainda tenha filhos pequenos, e agora um neto, e enxergue neles muito do meu passado e das noites de Natal felizes que eu vivi na casa da minha avó Altair na minha mais remota infância, não sei. Só sei que gosto e pronto. Mas reconheço e respeito aqueles que não veem graça nesta data, talvez por considerá-la comercial demais, onde deixa-se de lado o verdadeiro significado do que é a noite de Natal e passa a valer apenas a figura caótica do bom velhinho derretendo dentro da fantasia e toda aquela correria pelos presentes e os shoppings lotados, as filas quilométricas dos supermercados, os preços absurdos e toda aquela gente se esbarrando nas ruas enquanto a juventude se bronzeia na praia lambuzada ao sol de 40 graus e as cariocas cada vez mais gostosas e quase nuas feito as índias de outrora e os marombeiros, os 'legalize', a playboyzada e a rapaziada reunida em cada esquina, sem camisa, um calor danado, o churrasco de final de ano, a cerveja no boteco, a caixinha dos porteiros, o bolão da mega-sena da virada, a saudade apertada daquele que você não encontra mais, a receita do pernil, um bom vinho, o bacalhau, as rabanadas, noite feliz.
Não.
Talvez seja melhor mesmo remoer aquela mágoa que existe entre os entes queridos da sua família e relembrar o incômodo daquele parente distante que só aparece nestas épocas e sempre com o mesmo assunto irritante. Pode ser o tal primo problemático, filho daquela sua tia histérica, viúva rica deslumbrada e que acabou de se mudar para uma mansão lá pelos lados da Barra e que o tempo todo não para de repetir que morre de medo de passar pela Linha Amarela depois das nove da noite e que sabe histórias terríveis de sequestros-relâmpagos com mulheres que dirigem sozinhas, ainda mais com o carro que ela tem agora, um importado coreano, tração nas quatro rodas, câmbio automático, computador de bordo, dvd e entrada usb, seu presente de Natal. Tem também toda aquela obrigação de estar sorrindo e desejando os melhores votos quando na verdade você acha aquilo tudo um saco e quer mais é que tudo se acabe pra você poder ficar sozinho, quieto no seu canto, sem falar nada e sem querer saber de mais ninguém.
Tudo bem.
Eu vou trabalhar neste Natal. Ano passado também trabalhei. Por incrível que pareça, não vou contrariado. Não é novidade para quase ninguém que eu detesto plantão, mas vida de jornalista é assim e eu já meio que me acostumei com toda esta urgência das notícias do dia a dia e de toda a agitação e tensão que é o trabalho numa redação de um grande jornal. O mundo realmente não para e as coisas acontecem a cada instante numa velocidade cada vez mais estonteante, on-line, on time, full time. Não é só porque é noite de Natal que vai ser diferente depois de um ano inteiro entre quedas de ministros, escândalos do governo Dilma, manifestações anticorrupção, faxinas, herança maldita, privatarias, o câncer do Lula, o do meu sogro, a morte da minha tia e também a do Sérgio Britto e do Joãosinho Trinta e da Cesária Évora todos no mesmo dia. Não. Pelo simples fato de ser noite de Natal estarei contente. E não estarei contente por obrigação, não carregarei o meu sorriso largo como um peso, um fardo, uma farsa, porque mesmo que alguma coisa me aborreça, que alguma eventualidade aconteça, vou sair do jornal a tempo de encontrar com algumas das pessoas que eu mais amo porque graças a Deus eu tenho amor para dar e vender e distribuir e semear assim mesmo sem pausa porque seja lá o que for é o que faz a minha vida ter mais sentido mesmo que tudo ao meu redor muitas vezes me diga não.
É o amor que me faz ser verdadeiro e é o amor que eu celebro nas noites de Natal. Não sou um seguidor fiel, puro e casto de religião alguma mas tenho sim minhas crenças e minhas falhas e meus pecados, confesso. Não sou perfeito mas minha fé é inabalável. Tudo vai dar certo no final desde que haja amor, eu penso, e lembro que há dois mil e onze anos nascia um cara que conseguiu decodificar um pouco este sentimento que chamamos amor e até hoje aquilo que ele pregava, as palavras que ele dizia, aquela parte da verdade que ele trazia estão vivos embora algumas vezes o homem pareça não se dar conta e prefira se esconder na falsidade de sentimentos que nada têm de nobres e esquecem e magoam e ferem e matam o amor.
Nas noites de Natal eu não sou falso comigo mesmo, como dizia a tal frase do meu pseudoamigo. Nunca fui. Nas noites de Natal, como nas outras noites do ano, eu sou verdadeiro. Porque eu só quero amor.
Pra você e pra mim.
quinta-feira, 22 de dezembro de 2011
Diagnóstico
Tudo o que há em mim sangra.
Escorre.
Vaza.
Molha.
Dói o corte abrupto que eu mesmo abri em minha pele.
E me expus carne.
E nervos.
E ossos.
E só.
Eu me esvazio.
Eu me mostro.
Eu falo.
Eu rio.
Eu ainda choro o que não cicatriza da ferida aberta.
É o tipo do mal que não há remédio.
Doença sem cura.
Loucura.
Na certa.
Escorre.
Vaza.
Molha.
Dói o corte abrupto que eu mesmo abri em minha pele.
E me expus carne.
E nervos.
E ossos.
E só.
Eu me esvazio.
Eu me mostro.
Eu falo.
Eu rio.
Eu ainda choro o que não cicatriza da ferida aberta.
É o tipo do mal que não há remédio.
Doença sem cura.
Loucura.
Na certa.
sábado, 10 de dezembro de 2011
Porque tudo se acaba
Se eu pudesse escrever sobre mim agora, no que penso e vivo exatamente neste momento, ou se eu tivesse o poder de me expressar como fazem os literatos, eu tudo contaria. Mas desconfio que não teria tamanha capacidade nem talento para fazer com que o que eu pense ou diga ou faça seja entendido por quem porventura lesse tal texto. Talvez eu viesse a ser mal interpretado e ficasse suscetível a análises e julgamentos rasos daqueles que acreditam que existe uma fórmula para viver e que a vida nada mais é que uma equação racional. Pode ser até que eles estejam certos, já que creem ser assim, mas eu não creio. Não que eu suponha que a vida para eles seja simples ou rasteira porque sei que não é. Ela pode até ser uma equação, porém irracional e no sentido literal da palavra, ou seja, desprovida de razão. Portanto, nem eu nem eles nem ninguém têm razão. E só o simples fato de eu perceber tamanha irracionalidade na vida me deixa cada vez mais preso à ideia de que não tenho amarras. Eu, longe de qualquer razão, sou livre.
Andei relendo Nietzsche e toda aquela soberba, toda aquela autoconfiança, todo aquele discurso existencialista fizeram com que eu me descobrisse ainda mais inteligente do que eu acreditava ser. Assim como o filófoso alemão, eu sei que sou um ser superior, que tenho dentro de mim todo um potencial infinito de transformação, de criação e de sabedoria. E quando digo que sou um ser superior, não é por falta de humildade ou qualquer coisa que o valha. É por uma simples constatação mesmo. E isso não me torna uma pessoa diferente de ninguém, não faz com que eu mude meus hábitos ou me considere num patamar acima de quem quer que seja. Não é isso. Mas é justamente por ter esta consciência que me diferencio. E me diferencio de mim mesmo, como se eu soubesse onde termina e onde começa aquele que é o outro em mim. Porque na verdade, a diferença maior é com aquele outro eu que eu era há poucos segundos e que eu sequer cheguei a conhecer muito bem. Nem ninguém.
Não sei quantos eu já fui e muito me assusta saber quanto tempo eu perdi tentando ser outros tantos que eu jamais seria. Assim como me assusta saber que mesmo sendo irracional e por este motivo, livre, a vida me impõe alguns limites. Logo eu, que tanto prezo o infinito das coisas, me vejo limitado a um só corpo, preso entre braços e pernas e movimentos lentos e por vezes até coreografados, ensaiados, meio que repetidos à exaustão. Porque mesmo que eu abra bem meus olhos e exercite todo o poder da minha visão, jamais enxergaria nitidamente o que a vida poderia me mostrar em sua plenitude. Daí que me sinto cego, impotente, fraco, humano demais. Mas se fecho meus olhos, aí sim, me enxergo de verdade. É quando vejo o que há de mais bonito e então encontro um amor sem limites, uma vontade sem tamanho, uma alegria imensa que supera a dor de me saber único e solto num ciclo ininterrupto mesmo que lá fora tudo se acabe.
Há um ser infinito dentro de mim.
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