domingo, 20 de agosto de 2017

Material humano - ou Como lidar com a solidão

Das coisas que mais sinto falta aqui em Brasília é material humano. Fora o pessoal do meu trabalho, os amigos dos finais de semana, os primos vez ou outra, aqui é difícil esbarrar com alguém para trocar um simples oi, tudo bem, bom dia, boa tarde ou boa noite. Que dirá trocar uma ideia. Não ando de ônibus (transporte público aqui é piada), não cruzo esquinas (elas não existem), não atravesso uma rua sequer. Até porque, aqui não tem rua, aqui tem quadra. É tudo muito organizado, planejado, vazio, grande, monumental. Tudo meio igual. Confunde quem chega assim, de repente, que nem eu. Dá dez da noite e já não tem mais ninguém andando entre as quadras. Dez da manhã também não tem, não se iluda. Sigo sozinho. Sinto falta de gente. Meus amigos daqui também sentem que eu sei. 

Nessa época, Brasília fica ainda mais bonita. Sim, nossa capital é muito bonita. Tem o traço do mestre Niemeyer, tem o céu mais incrível do mundo, uma luz indescritível e um pôr-do-sol e uma lua minguante, nova, crescente ou cheia, que são espetáculos à parte. Isso sem falar nos ipês, que colorem tudo de roxo, amarelo e branco ao redor, e a vista, que parece alcançar o infinito e além. Um verdadeiro convite à contemplação, ao silêncio e à solidão. Coisas a que não estava acostumado. 

Eu, curioso que só, bom de papo, bom ouvido, sempre ligado no que poderia resultar uma boa história, transformar tudo em contos, poesias, de repente me vejo forçado a exercitar a solidão e esse silêncio absoluto. Estranhei e ainda estranho, confesso. Mas já estou começando a gostar de conviver comigo mesmo. Até outro dia, eu dizia que precisava sair de casa para ver gente porque eu não me aguentava. Eu falo demais comigo mesmo. Eu me irrito. 

Neste domingo, como de costume, fui acordado pelo coronel, meu pai. Brigamos, como de costume também, mas depois fizemos as pazes. O ritmo sempre foi esse. Oremos que um dia isso mude. O fato é que depois do toque da alvorada, eu não consegui mais dormir. Aquele dia lindo lá fora, tudo azul, sem uma nuvem no céu, barcos no Paranoá, foi a dica para eu colocar minha sunga, pegar toalha, óculos, boné, celular e exercer meu papel de filho de Deus na beira da piscina. Sozinho, como de costume. 

O sol estava de rachar, o lugar já estava meio cheio, duas loiras com as bundas - uma murcha e outra bem razoável - para cima, uma senhora meio gordinha, mas bem resolvida, de biquíni e a barriga de fora, um marombado, a namorada do marombado, uma lésbica com cara de poucos amigos, dois maconheiros chapados, um casal cansado na faixa dos seus quarenta e tantos anos com uma filha pequena, magrinha, loirinha, tristinha, e um outro casal, hétero, em princípio, jovens e bem bonitos os dois, que ocupava uma das únicas mesas com ombrelone. Perto deles tinha uma cadeira e uma mesinha sobrando. 

- Posso usar?, perguntei.

- Pode. 

- Obrigado, respondi.

E não mais nos falamos. 

Desde que vim morar aqui nesse deserto, carrego comigo meus fieis companheiros: celulares, cigarros, isqueiro, uma garrafa d'água e mais recentemente introduzi uma caixinha de som que eu comprei aqui na Feira do Paraguai, uma espécie de camelódromo que eles preferem chamar de Feira dos Importados. Tudo muamba. Só sei que o som é bom à beça e sempre que eu vou para a piscina, evita que eu ouça o danado do sertanejo que cismam em botar para tocar aqui por essas bandas. Ouço as músicas que eu quero, pego meu sol, dou umas braçadas na piscina e agradeço ao cara lá de cima por estar me deixando saber como é a vida desse povo privilegiado, bem nascido, bem alimentado, supremacia total. Brincadeiras à parte, não me iludo, nem me contamino. Também carrego comigo desde que vim morar nesse deserto a certeza de que tudo é passageiro. Até o silêncio. 

Eu já tinha dado alguns mergulhos quando vi chegar um pai com sua filha. Ele careca, peludo, com a toalha estendida nas costas, e ela moreninha, espevitada, com uma boia cor de rosa na cintura. Vi também quando os olhinhos da menina que chegava cruzaram com os olhinhos da outra menina, loirinha, magrinha, tristinha, filha do casal cansado. Rapidamente, a menina que até então estava meio sorumbática, entediada, muito provavelmente porque estava se sentindo sozinha, nadou até a outra borda para dar as boas vindas para aquela que chegava. Já são amigas, pensei.

Que nada. Nunca haviam se encontrado antes na vida, mas emendaram num papo tão gostoso, como se fossem amigas de longa data. Uma delícia de cena bem ali na minha frente que eu esqueci até da música que estava tocando. Elas se apresentaram. Uma morava no 305 do bloco nove e a outra no 204 do bloco três. Uma tem seis anos e a outra sete. Uma é filha única e a outra tem dois irmãos, mas eles são implicantes e só gostam de jogar bola. Uma já tinha almoçado e a outra estava com fome. Uma cochicha. Outra ri. As duas mergulham, as duas pulam, as duas conversam. Os pais só de longe. 

E eu ali, dentro d'água, sozinho, achando a maior graça naquelas duas, que pareciam nem se dar conta de que estavam em Brasília e que em Brasília as pessoas não agem assim. Olhei ao redor. Todo mundo calado. Cada um na sua bolha. Como se o do lado não existisse.

A gente tem muito o que aprender com essas crianças.     




quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Litoral

Feito árvore, que dança com o vento ante a muralha de pedra, ali em frente, tronco firme, raiz forte, o sopro que vem do Norte, galhos a abraçar o céu vermelho, pincelado do barro de quem pisa a terra, bato no ritmo acelerado os meus pés descalços nesse chão.

É dia.

Nos arredores ainda há silêncio e, por sorte, eu acabo de chegar, vindo sabe-se lá de onde, tanto tempo andando que eu até já me esqueci.
O ar é seco, a linha é reta, não existe palavra certa e determinadas coisas não quero mesmo mais lembrar. Outras tantas gosto de saber que vieram comigo até aqui, acompanhando a correnteza desse rio que é a vida.

A minha.

Ontem, antes deles aparecerem, me fiz pedra de limo verde mais uma vez, que era para ficar parado e deixar o rio passar. Eles se foram, enfim.
Hoje, de novo sozinho, pouco antes da hora de voltar, saltei dessa pedra e desaguei no mar, visitei meus oceanos sempre tão profundos, nadei o quanto pude, até me espalhar nas ondas de espumas brancas que brincavam nas areias grossas do seu corpo, terra à vista, litoral.

Logo ali em frente, a árvore dançava com o vento ante a muralha de pedra.





quarta-feira, 9 de agosto de 2017

Pedra de rio

É como se algo tivesse se rompido em mim.
Um leve estampido, um tiro certeiro,
carcarás em céu azul sobrevoando o barro vermelho
e a bala atravessando meu peito ali exposto.
Nu.

Entre tantos outros, eu era só mais um corpo.
Uma mera estatística, um número a menos,
um leve rascunho em grafite barato,
uma página em branco,
e todo aquele silêncio que jamais entendi.

Porque só eu ouvia os gritos que vinham de dentro.
Ecos me sussurrando seus lamentos,
uma espécie de suplício, um gosto amargo doce em minha boca,
e o gesto brusco a me vendar os olhos.
Tirei, então, o véu.

Naquele instante, o que era novo se descortinou.
Feito água limpa que acabara de brotar da fonte,
molhando meus pés, lavando minha alma.
E eu ali, pedra de rio, parado,
deixando a correnteza levar tudo embora outra vez.








terça-feira, 20 de junho de 2017

Poço das Esmeraldas

Dia desses pulei da pedra e mergulhei na água verde,
cor de esmeralda, poço fundo, dia claro
e aquele sentimento raro,
luz de um riso fácil a me guiar na correnteza.

Solto.

Larguei meu corpo todo submerso no ventre daquele rio que me recebia.
Quem não sabia, achava que era só mais um corpo ali.

Mas era eu,
entregue, inteiro,
a me perder do homem
e me banhar menino.

Dia desses pulei da pedra e mergulhei no útero.




quarta-feira, 31 de maio de 2017

Despir-se

Noite adentro, lua crescendo lá fora, umas nuvens rabiscando o céu, e ele lá, daquele jeito, coração acelerado, aquelas lembranças todas. As mais recentes. As mais remotas. As festas de família na casa da avó e as poucas palavras que trocou a vida inteira com o avô. As cadeiras na calçada, o perigo que era a linha do trem, o posto de gasolina Atlantic bem na esquina e o cheiro de óleo queimado que vinha de lá.

Eram sempre umas histórias mal contadas, meias palavras, coisas que crianças não precisavam saber. Tabus, amores, a música de Keith Jarrett, o cheiro bom do sexo, o vício desnecessário do cigarro, as tardes cinzas de inverno e a mente a misturar-lhe o antes, o agora e o depois.

Parecia loucura.

Ele, então menino, já percebia aquela coisa toda. Desconfiava de que tudo era parte de uma correnteza perene daquele que era rio - e que era ele mesmo o próprio rio - desaguando, cedo ou tarde, caudaloso, em brancas páginas de papel.

Bastava-lhe só um sopro, e a inspiração, que é feito brisa, muitas vezes se transformava em vendaval. Um vento ensurdecedor, que derrubava todas as árvores, que agitava todas as ondas, que escancarava as portas, invadia as casas, levantava a poeira, levava todas as roupas do varal.

E ele ali, agora homem, a pisar descalço nesse chão sagrado, completamente nu, revelado em rima, em verso, em prosa, em coisa e tal.

Escrever é se despir.

quarta-feira, 24 de maio de 2017

Essa coisa toda

sei lá...
é um aperto que dá.
é um nó no meu peito,
uma falta de ar,
um país às avessas,
essa sede,
essa fome,
essa ira,
essa sujeira toda
e a saudade que eu sinto do mar.



segunda-feira, 3 de abril de 2017

Vida é encontro




Foi bater o olho um no outro e rolou logo uma coisa boa entre os dois. Ambos meio que recém-chegados, ele mais recém que ela. Ela com olhos sossegados, ele interessado em saber mais sobre o mundo dela. Ela gostava da noite. Ele já não contava os dias. O povo no bar animado, todo mundo falava, todo mundo bebia. Ele ali parado, achando tudo muito engraçado, e ela de longe só ria. 


A vida é uma sucessão de encontros.


domingo, 2 de abril de 2017

O barro que se apropriou de mim

Ontem fez exatos três meses que cheguei em Brasília. Não foi decisão fácil vir para cá, sair de perto dos filhos, deixar a casa onde você viveu praticamente toda a sua vida, pegar sua história, suas incertezas, suas angústias, esperanças, expectativas, juntar tudo numa mala e desembarcar numa cidade que, à primeira vista, é estranha à beça.

A começar pela política e os bastidores do centro do poder, a energia aqui é diferente. Tudo parece que vibra numa outra esfera. Para o bem e para o mal.

É uma cidade que não tem esquinas, onde não se esbarra com uma viva alma nas ruas, que não tem botequim e muito menos o português da padaria. Pãozinho francês quentinho no café da manhã? Esquece. Ainda não vi uma feira livre, antes mesmo das dez da noite já está o maior silêncio, chove aqui e não chove ali, a pele fica seca, o nariz sangra, falta o ar. Terrível.

Mas, pegando carona com nosso amigo Caetano, alguma coisa acontece no coração de quem se deixa levar pelo traço fino do arquiteto e pelas curvas dos monumentos que se juntam às nuvens de um céu que parece não ter fim.

Aqui já me perdi entre asas, quadras e eixos monumentais, já fiquei zonzo nas tesourinhas, queria ir para um lado, estava indo para o outro. Mas é aqui, onde precisei me perder várias vezes, que eu ando desconfiado que vou me encontrar. Ou, pelo menos, vou encaixar algumas peças nesse imenso quebra-cabeças vulgarmente conhecido como eu mesmo.

Não faz muito tempo e eu fui moído feito carne de segunda. Triturado. Pisoteado. Desfiz casamento, quebrei paradigmas, descobri outros amores, subi aos céus, caí no limbo, perdi vergonha, mantive a dignidade e a vontade de ter tudo de volta. Precisei ser forte quando meu irmão adoeceu. Precisei ser ainda mais forte quando minha mãe morreu. Me restou muita saudade, mas também uma certeza: eu sou uma fortaleza. Porque sou filho daquele que criou a rocha.

Forte e pisando firme eu cheguei aqui nessa cidade projetada em cima dessa terra vermelha, desse barro que teima em pintar o cenário e se apropriar dos meus pés e de tudo ao meu redor. Lá longe, o horizonte é de um azul tão bonito e tem o vento soprando em meus ouvidos que agora eu também sou parte disso.

O resto é passado. Já esqueci.


sexta-feira, 18 de novembro de 2016

As mais finas flores

Faz pelo menos dez dias que não se ouve um barulho sequer lá fora. Nem o sopro do vento, nem o balanço do mar, nem o tic tac das horas. Nada. Silêncio, silêncio e mais silêncio. Justo ali, onde poderíamos gritar aos quatro cantos  o que se passava dentro de nós. Mas sequer queríamos. Debruçadas na varanda, as luzes distantes de uma cidade inteira não paravam de brilhar. Ninguém nas ruas. Acima, o céu era dos pássaros que davam seus rasantes como fossem entrar pelas janelas da casa, no verde alto daquele morro. Abaixo, nossos pés pisavam em ladrilhos cor de nuvem cinza, chumbo, chão. O sol nas nossas mãos queimava os cigarros apertados com fumo das mais finas flores. No ar, um cheiro de mansidão.

E nós dois ali, germinados, a plantar sementes, calados, mudos, terra fértil, útero, seio, alimento, vida, sim e não.


terça-feira, 27 de setembro de 2016

Quase uma prece

Havia muito tempo ela já estava ali.
Ele também.
Mas ambos cegos.

Foi preciso um sopro de vento que lhes desembaçasse a visão e levantasse o véu das nuvens.

Alívio no peito, alegria na alma, perderam o chão.
A emoção era tanta que não cabia mais.
A madrugada fora a única testemunha.

Os dois com o coração em festa, a desnudar segredos, arrepiar os pêlos e umedecer a pele em silêncio, na sutileza do toque, quase uma prece.

O verdadeiro amor é sagrado.




terça-feira, 13 de setembro de 2016

Contramão

O coração do poeta vai na contramão do mundo.

Se há o caos lá fora,
a ira.
o ódio,  
todos os males.
Caixa de Pandora.

Aqui dentro, a paz,
a lira,
a dança,
o fluxo infinito
dos versos de amor que correm nas minhas veias.

No coração do poeta, o mundo é muito mais bonito.

quarta-feira, 17 de agosto de 2016

Paisagem






Da minha cidade eu vejo o mar.
Vejo a água que bate na pedra,
a onda que chega na areia,
maré baixa,
lua cheia,
o cais.

É linda a minha cidade.

sábado, 30 de julho de 2016

Plantio

Agora eu quero ficar sozinho.
Deitar no chão da sala e me encolher.
relembrar o útero,
fazer do meu abraço em mim um ninho, 
passarinho que sou, 
bem-te-vi. 

Voar para perto de mim. 
Meus braços-galhos, pés-raízes, 
frutos espalhados pelo chão
e o nó na minha garganta, tronco-árvore, 
corpo estendido, despido, germinando, 
plantação.

Encher de terra as minhas mãos. 
Cavar até as entranhas, 
procurar o lado mais profundo, 
descartar o raso, semear o riso fácil, 
sou sujeito simples, 
fecundo.

Semente de mim.


terça-feira, 26 de julho de 2016

Ou dá ou desce

- Alô?

- Fala aí! Te acordei?

- Não, mas já estava indo deitar. Tá tudo bem?

- Tá.

- Duvido. Pra você me ligar a essa hora é porque deu alguma merda. Fala logo.

- Lembra daquela mulher que eu saí lá em São Paulo?

- Aquela dos quinze segundos?

- A própria.

- Puta que pariu! Tá grávida?

- Claro que não!

- Menos mal, convenhamos. Imagina você trepar sem camisinha, o que é uma irresponsabilidade, gozar em quinze segundos, o que é uma vergonha, e ainda por cima engravidar a mulher que você acabou de conhecer e não sabe quando e nem se vai encontrar novamente? Só você, numa boa...

- Só eu.

- Mas diga lá. Qual é a dela?

- É louca.

- Isso você também é.

- Sou. Mas já basta a minha loucura, né?

- Isso é verdade. Como você dá conta eu não sei. Mas e ela? Conta aí.

- A mulher me liga todo dia. Gamou. Se quinze segundos fizeram isso com ela, imagina mais uns minutinhos? Diz que me ama, que vai casar comigo, quer me levar para a Itália, que eu sou o homem da vida dela, que vai me fazer feliz. Tem um papo meio de bruxa, sabe?

- Sei. Tá cheio dessas doidas por aí. Desde que me divorciei já conheci algumas. Esses aplicativos ajudam bastante. Mas só encontro gente rasa, carente, maluca. Outro dia conheci uma que cismou que ia cuidar de mim que nem minha mãe cuidava. Achei fofo, mas perdi o tesão. Imagina comer minha mãe?

- Porra, Édipo nível hard. Graças a Deus ela não quer ser minha mãe. Era só o que me faltava.

- Mas qual o problema, então?

- Quer me comer.

- Oi?

- Cismou que vai me comer, é mole?

- Ela quis dizer que vocês vão transar, que vocês vão gozar muito e que vai ser bom pra caralho, foi só isso, não foi?

- Não. Não foi isso. Ela quer comer meu cu. Disse com todas as letras. Está ameaçando sair de São Paulo e vir pra cá nesse final de semana. Diz que tem uma cinta com um pau preto pendurado. Que nem de filme, já viu?

- Já.

- E agora?

- KY, ora bolas.

- Sem sacanagem, vai. O que eu faço?

- Corre dessa demônia, né, porra? A não ser que...

- A não ser o quê?

- Ih... está em dúvida, já vi tudo.

- Dúvida o escambau!

- Então por que me ligou nervoso, aflito, angustiado? Ou dá ou desce!

- Ela é gente boa.

- Então, dá.

- Nem.

- Então, desce.

- Vou pensar.

- Humm... vai dar!

- Sifudê, cara!

- Ela não é gente boa?

- Muito. Gostosinha, pele macia, cheirosa, style, cheia de tatoo, bem estilo daquelas paulistanas da Rua Augusta.

- Tua cara.

- Pois é.

- Então, dá.

- Tô falando sério.

- Então, desce.

- Porra, me ouve. Eu gosto dela. Quero encontrar com ela de novo e tentar apagar aquela má impressão, pelo menos para mim, dos quinze segundos. Meu pavor é a gente lá na maior pegação e a danada começar com esse papo de inverter os papéis. Brochada na certa.

- Tô imaginando aqui.

- A brochada?

- Não. Ela te pegando de jeito!

- Pode parar!

- Parei. Vou ter pesadelo.

- Pesadelo é o que eu tô vivendo.

- Sem drama. Bebe que passa.

- Só bebendo mesmo, vou te contar. É cada uma...

- Bebe, mas não bebe muito. Cu de bêbado não tem dono!

- Ah, vai...

- Vou... vou tentar dormir depois dessa, isso sim. E você, cuidado com a maluca.

- Mas e eu? O que eu faço?

- Já disse: ou dá ou desce!

- Teu cu!

segunda-feira, 18 de julho de 2016

Quando seus olhos vieram morar nos meus

Ele me disse que queria me escrever uma carta para me dizer que fazia meses que andava engasgado, com um nó na garganta, olhos sempre marejados e o peito prestes a explodir. Uma bomba. Me disse que metade dele respira fundo e finge que está tudo bem, mas que a outra metade anda sufocada pelas ruas em busca do ser inteiro. Eu lhe disse que também sentia muita falta dele, mas que tenho sentido uma saudade enorme de mim, que atualmente meu mundo se fez deserto, mesmo eu frequentando todos os dias os mesmos lugares, andando pelas mesmas ruas, encontrando sempre as mesmas pessoas. Todas desconhecidas. Eu, inclusive.

Confessou que havia voltado para a terapia, mas acho que ele chegou a comentar isso comigo numa das últimas vezes em que eu o procurei. Depois de tantas perdas recentes, voltar para a terapia foi a decisão mais acertada da sua vida, eu lhe disse. Que precisava fazer alguma coisa por ele depois do tanto que fez por quem ele amava, depois de tudo o que ele passou, depois de tudo aquilo que se foi. Com a voz meio travada, ele me disse que uma parte muito bonita dele havia ido embora e eu tive medo de que ela fosse a sua melhor parte e que só tivesse restado, então, a sombra. 

Ele falava tanto que eu me esqueci de dizer-lhe que eu me senti muito só esse tempo todo. Por mais que eu tivesse companhia, por mais que eu saísse para me divertir, por mais que eu tivesse com quem conversar, eu me sabia só. Ele também estava só e aquilo o perturbava, mexia com ele, tirava seu sono. Em mim vieram as gripes incuráveis, as dores físicas, a tosse encatarrada e a porra de uma tristeza tentando arrombar a minha porta dia após dia. Foi quando já não aguentava mais que ligou para o terapeuta. Agora, ou vai ou Reich, ele brincou. 

Com tantos anos de terapia reichiana, não era muito difícil perceber onde suas frustrações se manifestavam em seu corpo. Ele me revelou que desta vez havia voltado às sessões consciente de que essa bronquite eterna, essa falta de ar constante, esse pulmão fragilizado, isso tudo é tristeza, é medo de se encher de ar, oxigênio, combustível da vida, e andar para frente. Enquanto ele falava, eu lembrei que também devo seguir o meu caminho, seja lá que caminho for. Ele também me fez perceber que eu preciso esquecer a dor do mundo que eu cismo de carregar. E é verdade. Por que eu busco esse peso? Por que, meu Deus, eu teimo em carregar essa tonelada nas minhas costas? 

Mas eu não disse nada na hora.

Ele, ao contrário de mim, não se furtou em repetir várias vezes que estava louco para me encontrar e me contar todas aquelas coisas, colocar tudo para fora, tudo o que sentiu nesses últimos meses. Sem o menor constrangimento, disse que eu o conhecia mais do que qualquer terapeuta e que ainda guardava uma confiança enorme em mim. Não sei por que, pensei. Logo eu, que me iludo tanto. Eu, que projeto muito do que eu desejo no outro. Eu, que idealizo, que sonho, que crio diálogos, frases que eu talvez nunca venha a usar, faço da minha vida uma verdadeira novela. E eu me engano muito, é lógico. 

Foi quando eu consegui lhe dizer que havia me enganado e que aquela seria a última vez que nos víamos. Fiquei com a nítida sensação de que ele não queria ir embora, que seria só um hiato, não um para sempre. Era final de tarde de verão. Estava muito quente. Um vaivém de gente. Calçadas disputadas, bares lotados, amigos, casais de namorados, mãos dadas, beijos, abraços, cervejas, encontros e eu ali, naquele pesadelo do adeus, olhando ele subir a rua até desaparecer, sem acreditar que seria até nunca mais. 

Mas foi.

 (E eu ainda guardo a lembrança daquela primeira vez, quando seus olhos vieram morar nos meus.)

domingo, 17 de julho de 2016

Feito ilha

Eis que estou aqui. Só.
De novo o barco sem rumo, 
à deriva. 
No peito eu carrego um nó. 

E a correnteza do rio que molha meus pés 
me leva até a foz do meu corpo,
que é filho d'água,
deságua em outro corpo que também é meu. 

Porque o leito que acolhe o rio é berço,
acalenta o meu caminho, 
nascente de mim, enchente de mim, 
estiagem de mim. 

Destino. 

E eu ali, parado, 
feito ilha. 

Um horizonte ao meu redor.


sábado, 2 de julho de 2016

Madrugada

A madrugada chega.

E com ela, o silêncio que faz a gente se desligar de todas as coisas e baixar as armas, retirar as máscaras, esquecer de tudo.

Luzes que se apagam, casais que se deitam, amores rarefeitos, beijos mais que perfeitos, desejos expostos e um certo cansaço no ar.

Janelas se fecham, alguns olhos bem abertos, insônias, sonhos, outros céus que se revelam em estrelas, Marte, Vênus e o balé da lua seduzindo as horas à espera do sol.

A madrugada gosta de me bolinar. Passar as mãos sobre o meu corpo, roçar a língua na minha língua, a pele na minha pele. Não faz cerimônia, fica comigo, escreve, rabisca, me enche de versos, estrofes sem fim. É meu prazer e minha interseção, dia após dia, é minha palavra em linha reta, minha inspiração.

A madrugada é breve e a vida passa mesmo num instante.

segunda-feira, 20 de junho de 2016

Nublado

Ela havia chorado um brado lamentoso, uma espécie de querela infinita a noite toda. Chorou sozinha no seu quarto cinza e o frio daquele inverno que mal começara entrava pela fresta da janela, cortinas fazendo sombra, cama bagunçada, lençóis baratos, livros, smartphone, televisão. A verdade é que ela estava só mais uma vez. Uma solidão que a deixava asfixiada, doía-lhe o peito, quase matava. Um sufocamento lento, gradativo, que aumentava a cada lembrança, a cada visita da saudade e essa saudade cada vez mais aflita, nervosa, histérica. A dor.

Quebrou um copo na parede, cravou as unhas no pescoço e as lágrimas já banhavam seus seios fartos, os mamilos arrepiados e o corpo nu em posição fetal largado bem ali no meio do chão. A madrugada toda e aquele cheiro de cigarro insuportável que emanava da sua pele. Dava dó de ver. Dias antes era lera um poema que dizia que o amor era uma espécie de câncer. Ora, como se ela não soubesse, como se ela não sentisse, como se ela não sofresse daquele mal. Então, chorava copiosamente.

Na playlist tocou Gal. Como dois e dois. Algumas lágrimas bastavam pra consolar e tudo em volta estava mesmo tão deserto, conforme dizia a música. Há certas coisas que não são simples coincidências, ela pensou. Pensou também que há meses tentava se reerguer e nada. Havia uma espécie de corrente, uma âncora imaginária que a prendia naquele mundo nublado, um mundo que nunca fora o dela. Logo ela, que gostava de dias pintados de azul. Mas aquele amor, aquele amor que o poeta chamou de câncer, desbotou tudo.

Lá fora já amanhecia e o canto de alguns pássaros anunciava um novo dia. Naquela hora tudo a afligia. Pra quê mais um dia? Ela não precisava de tudo aquilo de novo. Estava farta daquele recomeço, daquelas mesmas horas, das mesmas pessoas, da falta de assunto, tamanha mesmice. Odiava rotina, achava sem sentido, sem graça. Queria outra vida, mas precisava se livrar da âncora. Estava cansada. Fraca. Pouco tempo depois ela dormiu.

Teve sonhos em preto e branco.

domingo, 19 de junho de 2016

Final infeliz

Há amores que são feito um câncer:
quando surgem, nos destroem por completo,
nos arrebatam, nos tiram o chão.
nos deixam totalmente cegos.

São do tipo que se espalham por todo o corpo:
órgãos, pele, língua, boca, pulmão.
Criam feridas, viram metástases,
contaminam e matam sem dó nem perdão.

Esses amores são os doentios,
os que nos levam à derrocada.
Cravam uma facada em nosso peito
e enchem a nossa cara de porrada.

Da classe de amores que são tão ruins,
daqueles que devemos extirpar,
eliminar de uma vez da nossa vida
feito tudo aquilo que não presta.

Esses amores são finitos
e da história deles nada resta.
Por mais que no início tenha sido tudo tão bonito,
cedo ou tarde ele diz: não te amo mais.

Há amores com final infeliz.
















sábado, 28 de maio de 2016

A prisão nossa de cada dia

Ele encontrou comigo já passava da meia-noite. Fazia frio, eu estava indo para casa, com fome, cansado e tudo o que eu não queria era bater papo aquela hora. Mas ele deu cara comigo na esquina da minha rua e veio logo puxando assunto, falando com aquele timbre de voz alto, acelerado, meio fora do tom e aquela mania insuportável de pegar toda hora no meu braço. Na verdade, ele era sempre assim e eu também era sempre o chato que nunca estava a fim de nada. Minha timidez já há muito que se confundia com falta de educação eu não me importava mais com isso. Fato. Só que algumas pessoas ou se faziam de desentendidas ou não estavam nem aí e me atropelavam com conversas que pouco me interessavam. 

Ele era uma dessas pessoas.

Me contou que estava indo embora, que não estava mais aguentando tudo aquilo, que por muito tempo ele andou sufocado, um ar pesado invadia seu peito e aquelas palavras todas a embaralhar sua cabeça. Confessou que não conseguira assimilar tudo o que ocorreu na sua vida nos últimos meses, tantas perdas, um labirinto esquisito, uma saudade doída, uma casa desfeita, uma vida vazia. Amigos desempregados, um dia-a-dia difícil, um país de pernas para o ar e ele ali, se sentindo sozinho e ouvindo dele mesmo que ele estava preso às suas escolhas.

- Eu não escolhi isso, juro que não, ele repetia.

Ficava nervoso porque nem escrever ele conseguia mais. Estava com dois livros praticamente prontos, faltava só editar, tinha outras tantas poesias guardadas, uns contos e alguns rabiscos.Eram esses os seus pertences mais valiosos. Mas não terminava o que tinha para terminar. Era como se os dias não rendessem, se arrastassem e junto vinha a preguiça, a letargia e a depressão. Há tempos ele abandonara tudo e, sem sentir, foi se afastando daquele que um dia ele fora. Disse que estava difícil se reconhecer e que aquela confusão toda o deixava cada vez mais atormentado.

 - Por que isso?, ele perguntava.

Num rompante, bateu com força no peito, olhou nos meus olhos, apontou para o seu coração e me revelou que algumas cicatrizes nunca fecham e que as dores são eternas, assim como algumas lembranças que teimam em nos visitar. Eu precisei concordar. Também me sentia assim muitas vezes. Eu, na minha solidão, no meu isolamento consciente, brigava silenciosamente com meus bloqueios, na tentativa de enfrentar o que preciso fosse. Eu me enfrentava a todo instante. Várias vezes eu esmorecia. 

Ele também.

Foi quando as luzes do poste se apagaram que ele se despediu de mim. Apertou minha mão com força, me deu um abraço demorado, tirou do bolso um pedaço de papel dobrado - era um bilhete - e me entregou. Sussurrou alguma coisa em meu ouvido que eu não consegui entender. Uma ambulância cruzou a rua, uma sirene ensurdecedora, e ele desapareceu na sombra avermelhada daquelas esquinas. Quando dei por mim, eu estava sozinho outra vez. 

Eu e meu silêncio.

Fui caminhando para casa devagar, enchendo meus pulmões com o ar gelado de um inverno que já se aproximava. Na minha mente, uma vastidão de pensamentos. Deu uma vontade de chorar, apertei os olhos, respirei fundo e segui em frente. Na minha mão direita, as chaves. Na esquerda, o bilhete ainda dobrado que ele havia me dado antes de sumir. Abri para ler. Havia uma frase apenas.

LIBERTE-SE.

Assim mesmo, em letras garrafais.