segunda-feira, 20 de junho de 2016

Nublado

Ela havia chorado um brado lamentoso, uma espécie de querela infinita a noite toda. Chorou sozinha no seu quarto cinza e o frio daquele inverno que mal começara entrava pela fresta da janela, cortinas fazendo sombra, cama bagunçada, lençóis baratos, livros, smartphone, televisão. A verdade é que ela estava só mais uma vez. Uma solidão que a deixava asfixiada, doía-lhe o peito, quase matava. Um sufocamento lento, gradativo, que aumentava a cada lembrança, a cada visita da saudade e essa saudade cada vez mais aflita, nervosa, histérica. A dor.

Quebrou um copo na parede, cravou as unhas no pescoço e as lágrimas já banhavam seus seios fartos, os mamilos arrepiados e o corpo nu em posição fetal largado bem ali no meio do chão. A madrugada toda e aquele cheiro de cigarro insuportável que emanava da sua pele. Dava dó de ver. Dias antes era lera um poema que dizia que o amor era uma espécie de câncer. Ora, como se ela não soubesse, como se ela não sentisse, como se ela não sofresse daquele mal. Então, chorava copiosamente.

Na playlist tocou Gal. Como dois e dois. Algumas lágrimas bastavam pra consolar e tudo em volta estava mesmo tão deserto, conforme dizia a música. Há certas coisas que não são simples coincidências, ela pensou. Pensou também que há meses tentava se reerguer e nada. Havia uma espécie de corrente, uma âncora imaginária que a prendia naquele mundo nublado, um mundo que nunca fora o dela. Logo ela, que gostava de dias pintados de azul. Mas aquele amor, aquele amor que o poeta chamou de câncer, desbotou tudo.

Lá fora já amanhecia e o canto de alguns pássaros anunciava um novo dia. Naquela hora tudo a afligia. Pra quê mais um dia? Ela não precisava de tudo aquilo de novo. Estava farta daquele recomeço, daquelas mesmas horas, das mesmas pessoas, da falta de assunto, tamanha mesmice. Odiava rotina, achava sem sentido, sem graça. Queria outra vida, mas precisava se livrar da âncora. Estava cansada. Fraca. Pouco tempo depois ela dormiu.

Teve sonhos em preto e branco.

domingo, 19 de junho de 2016

Final infeliz

Há amores que são feito um câncer:
quando surgem, nos destroem por completo,
nos arrebatam, nos tiram o chão.
nos deixam totalmente cegos.

São do tipo que se espalham por todo o corpo:
órgãos, pele, língua, boca, pulmão.
Criam feridas, viram metástases,
contaminam e matam sem dó nem perdão.

Esses amores são os doentios,
os que nos levam à derrocada.
Cravam uma facada em nosso peito
e enchem a nossa cara de porrada.

Da classe de amores que são tão ruins,
daqueles que devemos extirpar,
eliminar de uma vez da nossa vida
feito tudo aquilo que não presta.

Esses amores são finitos
e da história deles nada resta.
Por mais que no início tenha sido tudo tão bonito,
cedo ou tarde ele diz: não te amo mais.

Há amores com final infeliz.
















sábado, 28 de maio de 2016

A prisão nossa de cada dia

Ele encontrou comigo já passava da meia-noite. Fazia frio, eu estava indo para casa, com fome, cansado e tudo o que eu não queria era bater papo aquela hora. Mas ele deu cara comigo na esquina da minha rua e veio logo puxando assunto, falando com aquele timbre de voz alto, acelerado, meio fora do tom e aquela mania insuportável de pegar toda hora no meu braço. Na verdade, ele era sempre assim e eu também era sempre o chato que nunca estava a fim de nada. Minha timidez já há muito que se confundia com falta de educação eu não me importava mais com isso. Fato. Só que algumas pessoas ou se faziam de desentendidas ou não estavam nem aí e me atropelavam com conversas que pouco me interessavam. 

Ele era uma dessas pessoas.

Me contou que estava indo embora, que não estava mais aguentando tudo aquilo, que por muito tempo ele andou sufocado, um ar pesado invadia seu peito e aquelas palavras todas a embaralhar sua cabeça. Confessou que não conseguira assimilar tudo o que ocorreu na sua vida nos últimos meses, tantas perdas, um labirinto esquisito, uma saudade doída, uma casa desfeita, uma vida vazia. Amigos desempregados, um dia-a-dia difícil, um país de pernas para o ar e ele ali, se sentindo sozinho e ouvindo dele mesmo que ele estava preso às suas escolhas.

- Eu não escolhi isso, juro que não, ele repetia.

Ficava nervoso porque nem escrever ele conseguia mais. Estava com dois livros praticamente prontos, faltava só editar, tinha outras tantas poesias guardadas, uns contos e alguns rabiscos.Eram esses os seus pertences mais valiosos. Mas não terminava o que tinha para terminar. Era como se os dias não rendessem, se arrastassem e junto vinha a preguiça, a letargia e a depressão. Há tempos ele abandonara tudo e, sem sentir, foi se afastando daquele que um dia ele fora. Disse que estava difícil se reconhecer e que aquela confusão toda o deixava cada vez mais atormentado.

 - Por que isso?, ele perguntava.

Num rompante, bateu com força no peito, olhou nos meus olhos, apontou para o seu coração e me revelou que algumas cicatrizes nunca fecham e que as dores são eternas, assim como algumas lembranças que teimam em nos visitar. Eu precisei concordar. Também me sentia assim muitas vezes. Eu, na minha solidão, no meu isolamento consciente, brigava silenciosamente com meus bloqueios, na tentativa de enfrentar o que preciso fosse. Eu me enfrentava a todo instante. Várias vezes eu esmorecia. 

Ele também.

Foi quando as luzes do poste se apagaram que ele se despediu de mim. Apertou minha mão com força, me deu um abraço demorado, tirou do bolso um pedaço de papel dobrado - era um bilhete - e me entregou. Sussurrou alguma coisa em meu ouvido que eu não consegui entender. Uma ambulância cruzou a rua, uma sirene ensurdecedora, e ele desapareceu na sombra avermelhada daquelas esquinas. Quando dei por mim, eu estava sozinho outra vez. 

Eu e meu silêncio.

Fui caminhando para casa devagar, enchendo meus pulmões com o ar gelado de um inverno que já se aproximava. Na minha mente, uma vastidão de pensamentos. Deu uma vontade de chorar, apertei os olhos, respirei fundo e segui em frente. Na minha mão direita, as chaves. Na esquerda, o bilhete ainda dobrado que ele havia me dado antes de sumir. Abri para ler. Havia uma frase apenas.

LIBERTE-SE.

Assim mesmo, em letras garrafais.

     


terça-feira, 24 de maio de 2016

Sem saber

Ainda ouço o grito dos aflitos
e o eco que se forma no vazio que há em mim.
Às vezes sou como a sombra mal projetada na parede úmida,
a linha mal escrita no papel barato,
a ferida na carne escura que teima em sangrar meu peito.

É quando tudo dói.

Eu vejo todos os meus abismos e cerro os olhos.
Aqui dentro é só escuridão e eu sinto medo,
Fico mudo, quieto, estou nu pelo avesso
E já não entendo nada muito bem.
Nem eu nem você.

Nem ninguém.

Os verbos que já não conjugo,
O versos que me abandonaram,
As frases feitas que eu esqueci,
O rumo que se perdeu.
E eu continuava ali.

Sem saber por quê.

quinta-feira, 3 de março de 2016

Tempestade


Estou ilhado. Ao meu redor, um dilúvio de saudades.

Onde está você nesta tempestade, se não em mim?









segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

Amor que não se apaga

A última coisa que eu ouvi antes que tudo se apagasse naquela noite absurdamente quente foi um grito. Eu estava voltando para a minha casa, no subúrbio, completamente suado, cabelo oleoso, amarrotado, fedido, depois de um longo dia de trabalho árduo, dois ônibus sem ar condicionado, um trem lotado e muita aporrinhação. Eu estava cansado, só pensava em tirar os sapatos que me apertavam os joanetes, tomar um banho frio, comer alguma coisa e deitar no meu sofá só de cuecas, barriga apontando para o alto, meu maço de cigarros ao lado e duas latinhas de cerveja até pegar no sono ali mesmo na sala.

Ao descer na estação de trem perto de casa, notei algo estranho. O ar estava pesado, uma espécie de fumaça tomava conta do lugar. Fui logo botando a culpa no calor, que deixa a gente meio zonzo, causa um certo delírio e pode até mesmo matar. Tive um tio que morreu de calor, juro. Eu tentava encarar as pessoas que passavam por mim, mas eu não conseguia foco, a visão tinha ficado embaçada.

Lembro que por alguns segundos eu me encostei numa pilastra, completamente atordoado, um suor gelado que molhou toda a minha roupa, como se tivesse saído do chuveiro. "Devia ser hipoglicemia. Minha mãe tinha dessas coisas. Horrível. Vai passar", eu pensava. Ao meu redor, uma gente muito pálida me olhava, não para me oferecer ajuda, mas como se eles precisassem muito de alguma coisa, muito mais do que eu.

Quando consegui recobrar meus sentidos, estendi a mão para uma uma senhora com lenço branco na cabeça, pele enrugada, olhos fundos, magra, muito magra, saia longa de um tecido já desbotado, uma camisa puída, chinelo de dedos e os pés que mais pareciam raízes de tanto que pisaram esse chão. Mas ela recuou e desapareceu na mesma hora em que alguém gritou desesperadamente, eu caí e, então, tudo se apagou de vez.

Jamais vou conseguir precisar quanto tempo fiquei no escuro. Quando consegui abrir os olhos, custei a entender onde eu estava. Um silêncio e um vazio assustador tomavam conta da estação. Eu via apenas algumas sombras. Tentei chamar por alguém, mas minha voz falhou. Parecia um pesadelo. Eu ainda estava tonto, coração acelerado, uma certa dor nas têmporas e muito medo.

Foi quando eu ouvi um outro grito estridente e percebi uma sombra se aproximando à minha esquerda. Fiquei paralisado. Sequer respirava. Conforme chegava mais perto, mais apavorado eu ficava, até que consegui ouvir os passos, que me pareceram cansados, mas não ameaçadores. Quando passou por mim, a sombra se transformou na silhueta de um homem. Ele parou, percebeu que tinha alguém ali e, silenciosamente, sentou ao meu lado, tirou do bolso da calça um maço de cigarros amassado e uns papeis de carta. Milagrosamente, eu relaxei.

- Quer um cigarro? - ele me perguntou

- Quero.

- É sem filtro, tudo bem?

- Tudo bem,  respondi.

Ele tirou dois cigarros do maço, procurou um isqueiro, acendeu o primeiro, tragou e me deu. Um fumo forte, intenso, que queimava a garganta e batia direto no pulmão. Eu engasguei.

- Segura firme, ele disse.

Eu não consegui falar mais nada.

Ele pareceu não se importar com meu silêncio e desandou a falar. Contou que fora ele quem apagara todas as luzes e que não sabia ao certo o que estava fazendo ali. Havia saído de casa há mais de uma semana. Talvez duas. Carregava apenas uma mochila com duas camisetas, uma calça e um pulôver velho, mas que ele adorava. Presente da sua avó. Tinha também um caderno onde ele fazia algumas anotações, um lápis, uma caneta esferográfica sem tampa e um relógio de pulso preto, sem bateria, que ficava jogado no fundo da mochila e o coração nas mãos.

Confessou ter deixado escapar um grande amor recentemente e que desde então ele, seu coração, só sangrava. Não economizou palavras na tentativa de traduzir a dor que o término daquele relacionamento lhe causou. Metade culpa dele. A outra metade também era culpada. Falou de amor para mim como ninguém jamais fizera antes. Logo para mim, que nunca quis muita intimidade com esse negócio de amor. Mas ele falava de um jeito tão bonito, que mesmo sofrido, dava um alento só de ouvir.

Eu continuei sem conseguir falar nada, mas prestava muita atenção no que aquele homem dizia. Sequer estranhei que estava tudo às escuras e que já devia ser tarde da noite. Pouco me importava. Eu queria mesmo era ouvir o que aquele homem tinha para me contar. Quando eu poderia imaginar ter uma noite daquelas? Eu pensava que ia chegar em casa, tomar meu banho, beber minha cerveja e dormir. Só isso. Mas eu estava ali, no breu, sentado no chão de uma estação de trem imunda e com um homem desconhecido ao meu lado a me falar coisas de amor.

Eu não tinha o que dizer.

Por um instante ele também ficou calado. Acendeu outro cigarro e abriu um dos papeis de carta que ele trazia. Não faço ideia de como ele conseguiu enxergar o que estava escrito no papel, ou se realmente tinha algo escrito ali, mas ele começou a ler e foram as coisas mais lindas que eu já ouvi na minha vida. Naquela carta, ele se desnudava e contava tudo o que havia acontecido, desde quando eles se conheceram até quando tudo desmoronou. Ele contou da pureza e da grandeza de um amor de verdade. Disse que sentia falta da cumplicidade, de caminhar lado a lado, de ouvir as mesmas músicas, do toque, do cheiro, do sexo, de tudo, enfim.

Eu vi aquele homem chorar ao falar de um tipo de amor que eu nunca havia sentido. Eu vi aquele homem se desesperar porque ele sabia que precisava apagar todo aquele amor que ainda existia nele. Um amor que o encantou e que fez com que ele acreditasse que tudo era possível, por pior que fosse o cenário real. Mas a corda que durante tanto tempo os uniu havia arrebentado e fora cada um para um lado. Ele jamais soube da outra metade. Ele também não sabia mais o que restava dele.

Seu coração batia tão forte que eu podia ouvir o som do sangue pulsando. Ele suava. Eu também estava morrendo de calor. Senti minhas pernas formigarem de tanto que eu estava sentado na mesma posição. Senti muita pena dele. Senti inveja também e muita comiseração de mim. Há anos eu vivia sozinho, levando aquela vida medíocre e de relacionamentos superficiais com quem quer que fosse. Nunca me entreguei a nada nem a ninguém. Tudo aquilo que eu acabara de ouvir sobre o amor para mim era novidade ou coisa de novela, de livro, sei lá. Soava estranho. Eu sou um cara estranho.

Na carta, ele também falava das cicatrizes que ele carregava e do tanto que tinha se rasgado de amor, dos sacrifícios que ele precisou fazer, das noites que ficou sem dormir, de como era difícil toda aquela distância entre eles, dos abraços apertados, do carinho desmedido e da saudade absurda que parecia querer lhe enlouquecer dia e noite, noite e dia. Dizia que tudo doía: peito, juntas, cabeça, olhos. Um horror. E que ver tudo aquilo se apagando tinha um efeito devastador na sua vida. Ele queria ter tido mais tempo. Ele achava que ainda podia dar certo. Ele estava procurando a luz. Ele pensou ter encontrado. Mas, de novo, era só ele e a escuridão.

- Ainda está tudo aceso aí, eu falei baixinho.

Ele olhou nos meus olhos e não falou mais nada. Dobrou o papel, enfiou no bolso da calça, fumou outro cigarro e saiu sem se despedir de mim.

E eu fiquei ali no escuro, torcendo para tudo acender outra vez.

domingo, 21 de fevereiro de 2016

Em São Paulo já tem carnaval que eu sei

A cidade de São Paulo se rende ao carnaval

Agora que o carnaval finalmente acabou e que já não esbarramos mais com piratas, Frida Kahlo e bêbados agarrados numa garrafa de skol beats no metrô é que eu me sinto um pouco mais à vontade para escrever sobre a folia de Momo. Só que, meu, eu vou falar do que eu vi lá na terra da garoa, lá na cidade que Vinícius de Moraes apelidou de túmulo do samba, São Paulo. De antemão, já aviso que o poetinha estava errado. Injustiça, crueldade ou pura sacanagem mesmo chamar a maior cidade do nosso país de túmulo do samba. Ao menos nos dias de hoje. Ouso arriscar a dizer que os paulistanos, que agora descobriram as ruas como palco da maior manifestação popular do planeta, podem vir a ser os responsáveis pela renovação do carnaval de rua nos próximos anos. Digo isso com uma certa propriedade, já que passei praticamente os últimos três anos na ponte Rio-São Paulo e ao menos uma vez por mês eu baixava lá pelas bandas do Tietê. Tudo por amor, óbvio.

Durante esses três anos, tive a oportunidade de conhecer um outro circuito, diferente daquele que eu já conhecia de Vila Madalena, Pinheiros e Morumbi. Desci a Augusta, peguei a Consolação, fiquei bêbado na Roosevelt, fui feliz na Benedito Calixto, cruzei a República e comi uma feijoada num samba quente em plena praça Dom José Gaspar, atrás da biblioteca Mario de Andrade, num sábado frio de agosto. De uma outra vez, fui numa roda de samba que acontece todas as sextas-feiras bem em frente à Paróquia Nossa Senhora da Achiropita, na Rua Treze de Maio, lá pelas bandas da Bela Vista. O samba era de raiz, tinha uma gente bamba, italiano da Mooca, uma mistura boa, todo mundo na rua, cerveja gelada e era bonito de ver. Soube também do sucesso que faziam os ensaios da Vai Vai, uma das escolas de samba mais tradicionais de São Paulo e que, mesmo sendo uma das mais tradicionais, os ensaios aconteciam na rua. O trânsito dava um nó. Isso em falar no samba da vela, mas lá eu não fui.

No carnaval de 2014, conheci o Jegue Elétrico, um bloco que saía da Praça Roosevelt, onde ficam alguns teatros, como Sátiros e Parlapatões. O bloco não tinha um carro de som e, aparentemente, nem estrutura suficiente para sacudir a massa. O que existia de equipamento ficava em cima de uma bicicleta colorida e iluminada e de onde uns gaiatos se revezavam no microfone. O bloco demorou umas duas horas percorrendo uns 800 metros apenas. Juntou pra lá de mil pessoas. Todo mundo contente. Era carnaval.

Vale do Anhangabaú tomado pelos foliões


Eu já tinha gostado do clima uma dia antes, quando estive com um grupo de amigos na Benedito Calixto, uma outra praça, só que menos underground, onde vende um tal de buraco quente, que nada mais é que um sanduíche de carne moída deliciosamente temperada e servida num pão francês com um buraco no meio. Daí o nome. Na Benedito Calixto rola uma feira de antiguidades todos os sábados, com direito à roda de choro, um povo descolado, descontraído, bacana mesmo. Foi lá que vi os primeiros paulistanos fantasiados. Meio tímidos ainda, é verdade, como se não soubessem ao certo o que estavam fazendo, mas fantasiados. Bem legal, eu achei.

Já em 2015, fui apresentado ao Tarado Ni Você, um bloco que desfilava pela segunda vez apenas e que sai da esquina da Ipiranga com a São João, trecho ali no centrão velho imortalizado por Caetano Veloso e que só toca músicas do... Caetano Veloso, ora bolas. Quando eu cheguei por ali eu nada entendi. Ou melhor: entendi tudo. Uma multidão de paulistanos seguindo o trio que percorreu as ruas e avenidas de uma cidade escondida entre os arranha-céus e que parecia esquecer seu cinza e se deixava colorir com toda aquele energia que só o carnaval de rua tem. Teve catuaba, uma mania entre os paulistanos, teve beijo na beijo na boca, teve êta, êta, êta, é a luz de Tieta. Teve bunda de fora, suor, chuva, azaração, um bagulhinho bom, uma energia contagiante e a filha da chiquita bacana, porque ela não haveria de faltar. Eu me diverti.

Esse último ano, lá estava eu de novo em São Paulo. Mais por circunstâncias da vida do que por outra coisa qualquer. Dei de cara com o Ilú Obá de Min, um bloco percussivo feminino afrobrasileiro. Estávamos eu e meu filho número dois. Na véspera, Elza Soares havia participado de um cortejo carnavalesco com o Ilú Obá de Min. Tudo organizado, infraestrutura, carro de som, mulherada arrepiando na percussão, brilho, sol, muito sol, um calor que ninguém acredita que faz em São Paulo e muito ponto de macumba. Samba ou marchinha não tinha. Lembrei do Vinícius e saí de lá com a sensação de que eu teria achado muito mais legal o Acadêmicos do Baixo Augusta, bloco que tem como rainha ninguém menos que Alessandra Negrini, despertando tudo quanto é fantasia. E tem samba no pé. Não preciso falar mais nada. Ou preciso?

Foliões paulistanos

Na terça-feira de carnaval resolvi me juntar à massa de adoradores de última hora - ou não - de David Bowie e baixei no Tô de Bowie, um bloco em homenagem ao cantor inglês que morreu recentemente. Não me arrependi. Foi impressionante ver uma multidão brincando, ocupando as ruas próximo à Praça da República, ao Theatro Municipal de São Paulo, elogiando o Haddad e lotando o Vale do Anhangabaú. Não vi uma briga, uma confusão, um sinal sequer de falta de respeito. Muito pelo contrário. Também não vi quase ninguém fazer xixi na rua e nem presenciei cantada barata. Tinha cerveja de marcas variadas, não tinha cercadinho, não vi truculência de guarda municipal, não teve bomba de efeito moral, nem ninguém com a bunda roxa por ter apanhado de cassetete. Juro que não vi. Também não vi samba, confesso, Vinícius. Nem uma marchinha sequer. Senti falta, apesar de ter adorado ouvir Let's Dance ecoar acima do corredor Norte-Sul da cidade que não para.

Não sei se ano que vem estarei mais uma vez em São Paulo durante o carnaval. Tomara. É um carnaval diferente, que mistura rock com axé, arrocha com Sidney Magal, brega e coisa e tal, mas que lembra um pouco o clima bom do carnaval do Rio de Janeiro há uns 15 anos, quando também redescobrimos as ruas. Ok, Vinícius, concordo que falta um pouquinho mais de samba e uns clássicos como Carinhoso, do mestre Pixinguinha, para emocionar a paulicéia que é para lá de desvairada. Só isso. Mas eles vão chegar lá. Pode anotar.



Infinito é o mar

Corre lento alguma coisa em mim feito um rio caudaloso à procura do mar.
Às minhas margens, versos, pontes, restos de amores,
poças d'água onde insisto em chafurdar meus pés.

Às vezes chove em meu leito uma chuva forte, uma saudade que machuca,
que aperta o peito e me desfaz em correnteza.
Neste rio mergulham as Ofélias que me afagam o corpo,
me arrastam e me afogam até desaguar.

Metade de mim é este rio.
Infinito em mim é o mar.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

De novo

Há que se tentar o novo.
Nem que seja um verso,
um som mais grave,
um gesto mais suave,
ou parar no ar feito um beija-flor.

Experimente.
Faça algo que possa parecer sem nexo.
Pratique sempre um pouco mais de sexo.
Seja explícito, curioso, carinhoso,
diga que está a fim, vai por mim.

Há que se encantar mais uma vez.
Encontrar um outro amor,
deixar o passado nas esquinas,
caminhar por ruas desconhecidas,
sentir a pele queimar ao sol.

Siga em frente.
Mesmo em dias tão estranhos,
siga em frente.
Mesmo quando tudo ao redor é não,
siga em frente.

Encontre-se...
o quanto antes.






quarta-feira, 25 de novembro de 2015

Não vou reclamar

Há poucos dias prometi a mim mesmo que eu ia parar de reclamar. Nem eu nem ninguém estava me aguentando mais. Não tem sido um exercício fácil. Ainda mais nos dias de hoje, onde o mundo parece desmoronar, os valores estão todos distorcidos - se é que eles, os valores, existem -, o amor não acompanhou a velocidade da globalização, descobriu-se líquido e escorreu pelo ralo. Está todo mundo se matando, homens e mulheres bombas explodindo, genocídio, intolerância, um fuzuê danado.

Nas redes sociais, uma guerra. Um fala X, outro diz que é Y e todo mundo fica discorrendo teses sobre o abecedário inteiro ao mesmo tempo. Maior sanatório aquilo lá. Tem maluco que defende índio, que defende gay, que defende negro, que defende aborto, que defende a maconha. Tem também o bando que defende a liberação do porte de arma, que defende os valores da família tradicional, que defende quem bate em mulher, que defende o Bolsonaro, que é uma figura indefensável. Inacreditável.

Tem uma turma de doido que quando acontece uma atrocidade, manda logo um comentário pedindo para que um tal meteoro venha e acabe com tudo por aqui de uma vez por todas. Acho engraçada a piada, mas não sei se sou a favor de tamanha catástrofe. Penso em mim, nos meus filhos, neto e todos os que eu amo sendo esmagados por um bloco gigantesco de pedra em brasa e não curto. Não deve ser uma sensação nada agradável. Prefiro acreditar que vai ter um jeito. Só não sei qual ainda.

Mas sem querer reclamar e já reclamando, ando, sim, decepcionado. Acho que todo brasileiro está se sentindo desse jeito não é de hoje. Só que minha decepção não se resume ao PT, esse partido que ajudei a eleger mais de uma vez. De início votei convicto. O Brasil precisava mudar. Era muita roubalheira, havia anões do orçamento, compra de votos, estatais vendidas a preço de banana. Uma farra. O Brasil necessitava urgentemente de ética, de um partido com políticos de moral ilibada, honrados e comprometidos com o povo. E o Partido dos Trabalhadores, queira você ou não, representava tudo isso.

Quando inventaram o Lulinha paz e Amor, falando manso, com a barba aparada, ternos bem cortados e um Nizan Guanaes por trás, eu pensei: pronto, os caras vão comer na mão dele agora e vamos consertar esse país. Você certamente vai lembrar que quando o Lula falava, todo mundo baixava o tom de voz para ouvir o que aquele reles metalúrgico tinha para dizer. Mais uma vez, queria você ou não, era impressionante o carisma daquele barbudo semi-analfabeto, nordestino, filho da seca e da fome.

Então, finalmente, ele foi eleito. Eu fui para as ruas, usei botom com a estrela vermelha, camiseta, me emocionei, vibrei e acreditei. Como você, provavelmente.

Pouco tempo depois do operário chegar ao poder, estoura o escândalo do Mensalão, o famoso esquema de compra de votos de parlamentares que fez ruir com os ideais de ética e moral do povo tupiniquim, ingênuo, manso, massa de manobra, e trouxe à tona uma crise sem precedentes. Desestabilizou tudo. Desandou o bolo. Solou.

Lembro de petistas célebres me confessarem que tudo não se passava de um plano de poder, que era condição necessária para se governar e todo esse blá blá blá que a gente sabe que é verdade, mas que o PT, justo o PT, jamais deveria se sujar daquela maneira. Tanto se sujou que atualmente não temos mais o mensalão, mas temos uma Lava-Jato nas manchetes para ajudar na receita dos jornais.

Hoje, a gente vê um senador da República ser preso e um presidente da Câmara com tamanho cinismo ainda solto e pensa em até que ponto esses homens conseguem chegar. Eu sinceramente não sei.

Minha decepção é com isso tudo que eu tenho visto por aí. Não só no Brasil, que fique claro, mas no resto do planeta. Que raça mais desumana é essa? Na minha infância eu lembro de ter pesadelos com Hitler, a quem até hoje eu considero uma verdadeira aberração, a personificação da besta, e os vagões de trens que serviam de câmaras de gás para acabar com os judeus. Filme de terror. Mal sabia eu que ainda haveria coisa pior nesse mundo de meu Deus.

Dia desses deram fim a um rio por aqui. Senti como se fosse uma artéria minha carregada de veneno a me intoxicar lentamente. Assustador esse percurso da morte, eu tenho pensado. Centenas morreram em Paris numa sexta-feira 13 que jamais será esquecida. Imigrantes tentando cruzar fronteiras na tentativa desesperada de fugir dos horrores da barbárie. Irmão matando irmão. O mundo cada vez mais quente, cada vez mais sujo, cada vez mais pobre, tudo secando ao nosso redor e os homens disputando a tapas o troféu da ganância. É muito absurdo.

Que sinais são esses?

terça-feira, 10 de novembro de 2015

Onofre

Era domingo. Aniversário de sete anos da Isabella. O combinado era comemorar na praia, almoçar e, no final da tarde, encontrar os amiguinhos para cantar parabéns no boliche. A menina acordou cedo, antes mesmo que os pais levantassem da cama, e estava que era só animação. Pulava, cantava, rodopiava, dançava pela sala do pequeno apartamento e repetia que aquele era o dia mais feliz da sua vida. 

- Vamos, gente! Vamos porque eu estou muito feliz hoje!

Ela era a alegria da casa. Falante, educada, engraçada, vaidosa. Além de ser uma bonequinha. Morena, miudinha, cabelos encaracolados, olhos curiosos e dona do sorriso banguela mais lindo do planeta. Não havia quem não fosse apaixonado por Isabella. O pai babava. A mãe era só orgulho. Os avós? Corujas, claro. Isso sem falar na vizinhança. 

- Essa menina é uma simpatia, dizia dona Janete, a síndica, toda vez que a encontrava.  

- Ela é a coisa marfofa, exclamava Tereza, a vizinha do duzentos e dois, quando a via passar pelo corredor. 

- Bom dia, minha princesa, cumprimentava seu Jorge, o porteiro do prédio, sempre que Isabella ia para a escola, ainda com os olhinhos fechados de sono, antes das sete da manhã. 

E naquele domingo ela estava ainda mais radiante. Não cabia de tanta felicidade dentro do biquíni novo que ganhou da vó Cleide. Ganhou ainda um chapéu, um óculos de sol e uma saída de praia cor de rosa, que era a cor que ela mais gostava. Assim como seus pais, Isabella também adorava praia. Foi ela quem decidiu que queria ir à praia no dia do seu aniversário, almoçar fora e depois ir ao boliche com os amigos que ela mais gostava: Bianca, Isadora, Catarina, Arthur, Vinícius e Marina. Estava tudo combinado. Seria perfeito. A não ser por um simples detalhe: quando já estavam no carro, os pais de Isabella resolveram dar uma passada rápida no terreno que eles haviam comprado há poucos meses só para ver se o pessoal da obra tinha mesmo levantado o muro. 

- É caminho, filha. A gente nem vai parar, papai promete. 

Mentira. 

Chegando no terreno, todos saíram do carro para ver o muro que finalmente estava de pé. Jana, a rotveiller, veio correndo, toda estabanada, e por pouco não derrubou Isabella no chão de terra batida. A menina nem se abalou e foi atrás da mãe, que catava algumas mangas caídas de tão maduras. O pai foi conferir as sobras de material enquanto sonhava com o dia em que ia ver sua casa erguida ali, bem do jeito que ele sempre quis. Já sabia até onde ia ficar a piscina, a churrasqueira e a mesa de pingue-pongue. Era uma área boa, com pouco mais de 600 metros quadrados, mas que, até então, só tinha mato, duas mangueiras, uma jabuticabeira e a casinha da Jana, a rotveiller que tomava conta do terreno. 

- Tem um ovo, gritou Isabella. Tem um ovo aqui!

Antes mesmo que os pais falassem qualquer coisa, a menina veio correndo com o ovo na mão. Parecia um ovo de galinha, mas um pouco menor. 

- É de galo garnizé, afirmou a mãe, cheia de autoridade. 

- Como você sabe?, perguntou o pai. 

- Desse tamanho, só pode. 

- Posso ficar com ele?, apertou os olhinhos a menina.  

- Claro que não, respondeu o pai. 

- Isabella, a gente vai à praia, esqueceu?, disse a mãe. 

- Deixa o ovo onde você o encontrou. 

- Mas, papai, acho que está nascendo. Olha aqui, ergueu as duas mãos e mostrou o ovo que começava a rachar. 

Num impulso, Isabella levou as mãos fechadas à altura do peito e ficou acalentando aquele ovinho, como se estivesse mesmo chocando. Jana, a rotveiller, não parava de latir, correndo de um lado para o outro no terreno. A menina não pensou duas vezes. Agarrou-se com o ovo e entrou no carro. Ficou encolhida lá no canto e dizia para os pais que tinha desistido de ir à praia. Também não queria mais almoçar fora. Não queria mais nada, só queria chocar o ovinho. 

- Minha filha, você não é galinha. Esse pinto, se nascer, não vai sobreviver longe da mãe dele, sentenciou o pai. 

- Seu pai tem razão, Bella. Deixa o ovinho aqui e vamos à praia. É seu aniversário, lembra? 

- Mas mamãe, a mãe dele não está aqui. Ele não vai gostar de nascer e não encontrar a mãe dele. Deixa eu ser a mãe dele? 

Não demorou mais que dois minutos e o danado do pintinho começou a quebrar a casca do ovo. 

- Ai, meu Deus, tá nascendo, mãe! Vamos para casa, pai!

Não teve jeito. Naquele dia não teve mais praia, nem almoço em restaurante e muito menos boliche. Isabella quis comemorar o aniversário com o filhinho, digo, com o pintinho que nasceu nas suas mãos. 

- Onofre.O nome dele é Onofre, repetia a menina, encantada com o pinto que acabara de chocar. 

O fato é que Onofre sobreviveu. Com duas semanas, já era um frangote. E o mais incrível: por onde Isabella ia, Onofre ia atrás. Bastava ela chegar do colégio e, pronto. Eram inseparáveis. Dava gosto de ver. Dona Janete, a síndica, de início não gostou muito. Ficou preocupada com o que os outros moradores iam falar, já que Onofre piava dia e noite. 

- E quando esse bicho começar a cantar ainda de madrugada, como vai ser?

- Liga, não, dona Janete. Bom que a gente acorda cedo. Nesse prédio aqui todo mundo adora a Isabella. Duvido que alguém reclame, acalmou Tereza, a vizinha do duzentos e dois. 

E não deu tempo mesmo de ninguém reclamar. Onofre ainda não havia completado um mês e os pais de Isabella resolveram passar no terreno mais uma vez para acompanhar a obra. Foram todos. Isabella e Onofre no banco de trás. O galinho ia todo garboso ao lado da menina, que sorria, toda contente. Ela realmente nutria por ele um sentimento de mãe. Ela piava e ele piava em seguida, como se estivessem conversando. Todos riam. Onofre já era da família. Comia da melhor ração e bebia água sempre fresquinha. Era um galinho garnizé muito do bem tratado, com as penas avermelhadas, o bico brilhoso, peito estufado e a crista já dando sinas que ia tombar para a esquerda, feito um topete. 

Chegando no terreno, todos saíram do carro para ver o andamento da construção. Jana, a rotveiller, mais uma vez veio estabanada. Isabella pegou Onofre no colo, a mãe foi catar mangas, o pai foi ver as sobras de material. O muro já estava pintado, o mato havia sido capinado, o terreno ao lado já tinha sido comprado. Estava um dia quente, de sol, céu azul, quase nenhuma nuvem. Bom para um passeio. Tão bom que Isabella resolveu soltar o Onofre no chão para que ele pudesse conhecer o lugar de onde ele veio. 

- Foi bem aqui que eu te achei, Onofre, começou a contar Isabella. 

Onofre, tadinho, não deu meia dúzia de ciscadas no terreno. Jana, a rotveiller, quando viu aquele galo solto, correu feito uma louca e engoliu Onofre numa só mordida. 

Os pais se entreolharam incrédulos. Isabella, aterrorizada com a cena, deu um grito que ecoa até hoje e desmaiou. Jana, a assassina, digo, a rotveiller, percebendo que era culpada pela gravidade da situação, se escondeu no fundo da sua casinha e de lá só saiu quando começou a engasgar com o bico do Onofre, que era de difícil digestão. 

Tadinho do Onofre. Só sobrou o bico.

Tadinha da Isabella. Recuperou-se do trauma a duras penas. 

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

Quem é esse outro que está sempre ao meu lado?

Há mais de três meses que não caía uma gota de chuva sequer naquelas terras. Nuvens carregadas até pincelavam o céu de negro vez ou outra, mas logo se dissipavam e o azul infinito dominava a paisagem sem a menor cerimônia. O ar estava seco. A pele, os poros e as relações também. Os dias pareciam correr cansados e as noites, quentes e insones. Já não sabia mais há quanto tempo estava ali. Confessou-me mais tarde que lembra de ter ligado para ele no dia de sua morte e me disse, também, que nunca esperava que aquilo tudo um dia tivesse um fim. Mas era o corte que faltava, a ruptura abrupta, a ferida aberta e a saudade que se espalhava por todo o seu corpo feito vírus sem cura que lhe trouxera até ali.

- O que se afasta de mim me pertence, era a frase que repetia inúmeras vezes em meus ouvidos como se eu não estivesse prestando atenção em tudo o que me contava.

Eu custei a entender o que estava por trás daquela conversa toda. Por vezes pensei se tratar de sonho ou de alguma alucinação. Volta e meia eu costumava me deixar levar por devaneios e quando, mais cedo ou mais tarde, eu dava por mim, tudo não passava de fruto da minha imaginação. Eu até usava uma coisa ou outra para poder me iludir um pouco, mas daquela vez, não. Tudo era muito real. Aquela pessoa realmente existia e estava ali na minha frente, feito espelho que se quebra, a se permitir mosaico de si mesma. Engraçado é que há anos não nos víamos. Sabíamos um do outro, era como se caminhássemos lado a lado, mas não nos olhávamos, não nos procurávamos mais. Era como se algo tivesse se perdido entre nós. Como se tudo tivesse secado.

Mas naquela noite choveu. E conversamos. E choramos juntos. Inundamos nossas faces. Regamos nossas histórias. Transbordamos nossas memórias há muito esquecidas em terreno áspero e longínquo. Lembro que demos as mãos e foi então que, por muito tempo, não sei quanto, ficamos em silêncio. O barulho da chuva forte escorrendo no telhado da velha casa de paredes amarelas era o único som que havia ali. Tenho pra mim até que por alguns minutos paramos de respirar. Nossos corpos feito estátuas, inertes, tudo ao redor, mas tudo ao mesmo tempo ausente. Até que veio o vento e com ele as folhas das árvores que se sacudiam lá fora se espalharam por toda a sala, levantaram a poeira, bateram as portas, escancararam as janelas e aquele movimento todo fez com que despertássemos. Nossas mãos se soltaram. Olhos nos olhos. Corações a mil e os pensamentos feito as folhas espalhadas pela sala, bagunçando tudo, só que dentro de nós.

- O pacto era com a felicidade, eu consegui dizer num sopro de lucidez. Mas talvez você não tenha entendido o real significado e tenha te restado só esse vazio, esse oco, esse deserto onde você resolveu se instalar.

Não esperei resposta. Disse isso como se fosse uma verdade absoluta - tenho essa mania desagradável - e levantei para trancar as janelas e abrir algumas portas. Só ali onde estávamos havia luz. Os outros cômodos estavam todos apagados. O chão de tábua corrida rangia a cada passo que eu dava e eu podia perceber o quanto havia de solidão em mim também. O quanto meu pacto havia se quebrado, partido, estilhaçado e eu vi que eu era da mesma matéria que o pó que sujava meus pés descalços ali naquela noite de chuva forte depois de meses de estiagem.

- Eu também sou esse pó, respondeu, então, em voz baixa, quase um lamento. Eu sou o pó, mas há muito mais em mim. Eu sou o vento, sou o sol que castiga e sou essa chuva que alivia e traz alento. Eu sou o rio que se perde no mar, a fonte inesgotável da vontade, o brilho que te guia, os braços que te carregam. Eu sou o seu caminho. A sua estrada está em mim.

- Mesmo que eu me afaste?, perguntei.

- Não adianta se enganar e levantar com a desculpa de que vai trancar janelas e abrir algumas portas porque tudo acontece exatamente como deve acontecer, você sabe. É correnteza, é fluxo, é movimento, fluidez. Nada vai conseguir barrar. Chega a ser insensatez não perceber. Somos espelhos, lembra? Eu conheço tanto de você quanto você conhece de mim.

- Mas o que tem a ver se somos reflexo um do outro ou não? Onde foi que isso entrou em jogo? Foi você quem chegou aqui junto com a chuva e desandou a falar. Não te perguntei nunca nada. Há anos não lembrava da sua existência. [Mentira] Você hoje apareceu do nada, junto com toda essa chuva, e veio me contar do dia da sua morte, das suas feridas abertas e da saudade que machucava seu peito. Parecia alucinação.

- Anunciação, não alucinação. Não esqueça que eu trouxe, além da minha morte, a chuva que lava, que rega, que regenera e mata a sua sede e a minha.

Ouvi trovões lá fora.

(Quem é esse outro que está sempre ao meu lado?)


quarta-feira, 30 de setembro de 2015


Pra quem ainda não viu, aí vai minha participação no show do mestre Mautner, no Sesc Vila Mariana (SP), em março deste ano. Que honra, meu Deus, que honra!

sexta-feira, 28 de agosto de 2015

Assimétrico

Minhas palavras são tortas.
Já não sigo a linha reta.
Não encontro o jeito certo.
Não acesso.
Só há verso em meu avesso,
confesso.

quinta-feira, 30 de julho de 2015

Âncora

Há um imenso oceano lá fora
e a saudade ancorando dentro de mim.

Ondas que batem nas margens,
as minhas,
meus pés sujos de areia
se desfazendo em grãos
por onde pisei.

Nas estradas de onde eu vim,
meu céu de estrelas,
minhas flores,
de todas as cores.
O mais bonito jardim.

Marco encontro com minhas esquinas
meus desvios, curtos-circuitos,
passagens subterrâneas,
e me perco nas imagens presas na retina.
Cortina da fumaça que enche meus pulmões.

Ora sou o copo d'água que me afoga
antes de matar minha sede.

Ora sou a correnteza que me abraça
sem licença e me carrega.

Ora sou o vento que sopra minhas velas ao mar.

Oceano, saudade e âncora.

Tudo isso dentro de mim.











 
 












quarta-feira, 22 de julho de 2015

Zíper


21h30, ainda estou no jornal, quando toca o celular. No identificador de chamadas aparece escrito MÃE em letras garrafais. Eu atendo, lógico.
- Alô...
- Marcio, sou eu, você já está vindo pra casa?
- Já, mãe, estou desligando tudo aqui. O que houve? 
- É que eu fui no Imperator com a Soninha...
- E?
- Cheguei agora...
- Mas está tudo bem, mãe?
- Está... só estou entalada.
- O que foi que você comeu dessa vez, mãe? - pergunto já no nível do desespero.
- Nada demais.
- E está entalada com o quê?
- Com o vestido...
- Oi?
- O zíper, não estou conseguindo abrir o zíper.
- ...
- Não demora a chegar não, tá?
- Tô indo, mãe... tô indo!

Linha 247

20h30, vc já está podre de cansaço, condução cheia, engarrafamento master, ônibus incendiado na via de acesso ao seu bairro, sirenes atordoando lá fora, carros da PM tentando ultrapassar, inflação, Petrobras dissolvendo, máfia dos ônibus com dinheiro na Suíça, votação do Estatuto da Família, grana curta, fome, dor de cabeça, tiroteio no São João, até que começa um bate-boca na linha 247 entre uma loira de meia idade com shortinho e barriga vergonhosa pulando para fora e um senhor careca, camisa puída, tudo gente simples:

- Quer conforto? Vai de táxi, grita a loira.
- Abre essa janela! Está calor! , responde o senhor.
- Não está vendo que a janela está emperrada, p*rr@? , exclamou a princesinha.
- Mal educada!, gritaram lá atrás.
- Tua mãe!, bateu de pronto a desbocada.
- Cadê o ar condicionado desse ônibus?, disse um gaiato.
- Pergunta pro prefeito, respondeu outro.
Enquanto isso, passa um comboio do Bope armado até os dentes ao lado do ônibus. Todo mundo se cala. Tremendo silêncio até que o senhor careca se levanta, mete a mão no vidro e abre a janela de uma tacada só.
- Deixa essa merda aberta!
(E seguimos viagem)

Oi?

JN no ar, Lava-Jato encabeçando o noticiário, dona Lígia deitada no sofá, ar condicionado ligado, olhar intrigado, até que vira pra mim e diz:

- Como é que pode, né?
- Pois é, mãe, falta de vergonha na cara.
- Não é possível. Eles já eram ricos.
- Mas eles sempre querem mais. É muita ambição.
- Eu gostava deles. Cantavam desde criança.
- Quem, mãe? De quem você está falando?
- Sandy e Júnior. Não ouviu o repórter falar o nome deles? Que sujeira...
- Pelamordedeus, mãe! É Sandes Junior, deputado...
- Nem sabia que eles tinham entrado pra política, uai. Precisava disso?
- ...
(Não, mãe, não precisava!)

sexta-feira, 8 de maio de 2015

Síndrome do pânico

Vieram me contar que lá pelas bandas das montanhas infinitas das minas gerais, há muito pouco tempo atrás, havia uma menina moça que sofria de pânico, essa síndrome que mete um medo danado. Disseram também que essa menina moça era muito bonita, apesar de franzina. Dona de cabelos longos, rosto pálido, braços finos, cotovelos ressecados, mãos maltratadas, unhas roídas e os olhos, estes sempre perplexos, virados para os cantos da casa simples de piso frio, umas lajotas desbotadas, manchadas de cera barata. Os pés, sempre descalços e úmidos, grudados naquele chão. O mundo lá fora gritando que já era mais do que passada a hora e o coração, sempre agitado, a sufocar-lhe o peito e a dizer-lhe não.

Ela tinha medo de tudo. De fantasma, de escuro, de barata, de cachorro, até de gente. Mas não era nenhum desses medos que a apavoravam agora. Quando criança, brincava na rua, espalhava alegria, corria, dançava, pulava e se divertia. Sabia subir em árvores, ficava de ponta cabeça, virava cambalhotas, gostava de ouvir histórias e de uma boa cantoria. Tagarelava, contava causos, piadas, imitava vozes, ralava os joelhos e ao invés de chorar, sorria. Era a dona da gargalhada mais desconcertante e debochada daquela cidade com pouco mais de mil habitantes. Todos a conheciam. Todos a adoravam. Todos sempre queriam estar com ela.

Naquela época o céu pintava a vida de azul e aos olhos dela tudo era ainda mais bonito. O sol não castigava, a chuva não faltava, a fome não doía. Tempo bom aquele em que todo mundo se respeitava, ninguém se machucava, todo mundo se ajudava, um cuidava do outro e as manhãs chegavam mansas, anunciando mais um lindo dia que então passava até que vinha a tarde e soprava a brisa. Revoavam os pássaros. Anoitecia. Lua clara bem lá no alto e ao voltar para a casa, o colo quente da mãe, a comida farta no fogão e o beijo carinhoso do pai. Era assim naquela época.

Ninguém sabe bem ao certo, nem ela, quando foi que tudo mudou. Ela apenas lembra de ter acordado sobressaltada numa madrugada em que chovia, janela aberta, quarto molhado, portas batendo, ventania, falta de ar. O coração disparou, veio na boca, voltou, uma vontade de chorar, de sair dali, de berrar para que o temporal passasse e ela pudesse voltar a respirar e a dormir sossegada até amanhã de manhã. Quando levantasse, ela queria encontrar tudo como antes, no mesmo lugar. O mesmo céu, o mesmo azul, o mesmo jeito de enxergar.

Pouco tempo depois dessa madrugada ela já não saía mais de casa. Seus ombros se curvaram, suas sobrancelhas arriaram, seu sorriso murchou, a vida não tinha mais graça, era tudo cinza, barro, agonia, nó. Ninguém da cidade entendeu nada. Todos sentiam sua falta. Onde estava toda aquela graça? O que havia acontecido com ela? Ninguém sabia. Nem ela. E o tempo foi passando, cada um foi vivendo a sua história, procurando um final feliz. Só ela havia ficado ali. Paralisada. Entorpecida. Trancafiada em seu mundo. Sofrendo sozinha. Seus nervos estremeciam só em pensar em sair de casa. Foram meses assim. Quiçá alguns anos. Pânico.

Até que um dia apareceu na cidade um circo, desses que rodam o interior do país, com malabaristas, engolidores de fogo, mágicos, palhaços coloridos e todo aquele ar decadente. Montaram a lona na praça bem ao lado da igreja e anunciaram  num carro de som estridente o espetáculo daquela noite. "Respeitável público, o Grande Circo Lúdico chegou. Venham rir. Venham se emocionar. Venham se divertir", gritava o locutor. Ela deu um pulo e levantou da cama, calçou as sandálias e foi até ao portão. Um arco-íris nos céus, sabiás cantarolaram, a mãe não acreditou, o pai quase chorou, um vento leve desarrumou seus cabelos e ela então viu a equilibrista na corda bamba, os contorcionistas, a mulher barbada, os anões e o atirador de facas, que era um rapaz bem apessoado, cabelos dourados, braços fortes, lhe sorriu um sorriso farto que fez até sentir arder o rosto. Palpitação. Coração na boca. Rubor. Calor. Amor. 

Disseram que naquela mesma noite, depois do espetáculo, ela foi embora com o pessoal do circo. Deu adeus à mãe, pediu a benção ao pai, arrumou as trouxas, tomou coragem e partiu debaixo de um céu estrelado, estrada de terra iluminada pela lua cheia, olhares incrédulos e em seu peito só havia esperança e vontade. Corre à boca miúda que hoje ela voltou a ser feliz e a contagiar a todos que estão ao seu redor. De vez em quando ainda aparece na cidade para se apresentar com a trupe e visitar os pais. Casou com o atirador de facas, aquele rapaz bem apessoado, de cabelos dourados, braços fortes, sorriso farto e vive a mais linda história de amor. É uma das principais atrações do circo. Nem parece aquela menina moça que sofria de pânico e definhava meses e anos dentro de casa com palpitações e tremores. Destemida que só, virou mulher de fibra, deixa-se amarrar numa placa giratória de madeira e, enquanto tudo roda, ela sente as lâminas afiadas passarem rente ao seu corpo seminu. Uma a uma a tirar-lhe fino da pele lisa.

Na arquibancada improvisada, a plateia em silêncio sequer respira, atenta, tensa, em pânico, até romper nos mais intensos aplausos. No picadeiro iluminado, lá está ela sorrindo, tranquila. Sem medo algum.

Foi o que me contaram.            








sexta-feira, 27 de março de 2015

Onda

desfaz de mim a sombra e me deixa ver o sol.
me traz a luz do amanhecer,
aurora!
faz de mim o vento, o céu, o sal,
ressaca que arrebenta nas pedras do cais.

segura a minha mão quando eu quiser andar,
guia meus passos pelo chão,
abre meus olhos, revela suas cores,
livra minhas dores,
amores.

me deixa correr para o mar
molha meus pés na foz do rio que deságua .
me transforma em correnteza,
me solta,
me beija.

a mesma onda que me leva,
é aquela que depois me traz.

me leva...
... me traz...
me leva...
... me traz...

me leva...
... me traz...
me leva...
... me traz...

 me leva...
... me traz...
me leva...
... me traz...