terça-feira, 4 de junho de 2013

A primeira pedra

Perdoa.
Porque é no erro que se revela o homem e eu aqui estou.
Joga você sobre esse corpo, que é o meu, todas as pedras.
Desde a primeira.

Atira em mim.
Mira em minha face suja suas verdades.
Faz do meu contorno o alvo e me acerta
a frase exata.

A palavra certa.
O gesto preciso.
A flecha que atravessa o peito
e fere o corte à lâmina que ainda sangra.

Tira.
Subtrai de mim o que não é certo,
Se decerto você estiver com a razão.
De outro modo, não.

Quem não tem pecados?


quinta-feira, 30 de maio de 2013

Composição

Quisera eu todos os aplausos ao encerrar meu canto
enquanto jaz a voz cansada, solitária,
a capela.

Muito embora eu jamais fosse um poeta lírico,
tenho cá também os meus delírios:
trato versos como fossem filhos.

Declamo.
Derramo.
Afago na hora da dor.

Pudera eu ser todas as rimas afinal,
se por muito pouco me traduzo estrofe
e me encontram em frases rascunhadas por cima do muro.

Carrego em mim o grito forte do trovador.

Poesia fina que resiste na guerrilha urbana,
dicionário lúdico de palavras soltas pelas ruas,
quase que escritas como que para estancar meu pranto.

Pois tudo o que eu digo se desdobra em brisa,
o sopro de um vento leve em busca do mar,
sou a dança profana das marés imprecisas.

Sou um rabisco.
Um risco qualquer.
O traço tênue entre o que é o que jamais será.

Sou prosa literária.
Filosofia amoral.
Retrato desnudo do caos.

Compositor do absurdo.


quarta-feira, 3 de abril de 2013

Chá da tarde



Na falta de algo mais forte para entorpecer e com o preço do tomate nas alturas, do removedor Faísca mais caro que um litro de vinho, e o passe das domésticas valendo mais que o seu, o cara chega em casa e resolve fazer um chá de alecrim, atraído pelas maravilhas recentes que têm sido postadas na web sobre a tal erva inofensiva: alegria, relaxamento, melhora da pressão arterial, sangue mais fino,combate ao diabetes...

O chá tinha gosto de focaccia, aquele pão italiano achatado e furadinho (sem sal grosso e azeite, claro!), e dava pra encarar meio assim assim. Pô, se tem todos esses benefícios, qual o problema de beber uma focaccia?, ele pensava enquanto mandava o líquido quente goela adentro.

Bebeu tudinho, não sobrou nem uma gota na xícara, e ele ficou esperando o resultado. De cara, um arroto. Logo depois, outro. E mais outro. Opa, ele pensou, tá fazendo efeito digestivo! Não demorou muito e deu uma leve tonteira, uma embaçada na visão, um suor frio e o pavor de ter arriado demais a pressão. A coisa foi tão forte que o pobre não conseguiu sequer levantar do sofá, ficou ali apavorado, achando que ia infartar e coisa e tal. Pânico total. Teto preto. Vontade de gritar, de chorar, de chamar pela mãe, até que foi melhorando aos poucos.

Teve forças para levantar o pescoço e olhar pela varanda da sala a chuva que não parava de cair. O vira-latas aos seus pés o encarava como quem dizia: e aí, mané, deu onda? Esboçou um sorriso amarelo ao olhar pro cachorro, lembrando dos tempos em que era adolescente e experimentava uma coisa aqui e outra ali. Saiu do sofá ainda cambaleando e com a nítida impressão que tinha passado da idade pra encarar o que quer que fosse, até mesmo um inocente chazinho de alecrim.

Eu, hein... que onda?!

terça-feira, 26 de março de 2013

Agora folha

Os ventos de outono me espalharam feito eu fosse folha de amendoeira amarelada que cobre todo o chão das ruas da cidade quente. Não adiantou gritar que sou gente, que eu não queria, que eu não esperava. Foi um grito estridente, amedrontador. Voei solto pelo ar que sujava meu rosto de fumaça e pó e ninguém viu. Só eu mais uma vez sozinho me dei conta de que as estações vão e vêm e trazem todas as certezas de que o mundo é mesmo um palco único, um teatro absurdo, um drama, uma comédia perdida entre esquinas que se cruzam e é preciso rir de si mesmo. Não há marcações, não há direção. É tudo um foco de luz apenas. Apaga-se o dia ou acende-se a noite entre as brisas frescas que surgem do nada, enquanto a plateia assiste atenta ao que se passa aleatoriamente. Há o silêncio, a pausa no texto, a descoberta da personagem inquietante que eu represento sem saber. 

-Onde está você?

Quando o outro se aproxima é então que mais me apavora. O não saber de nada, o desconhecido que me incinera o peito e arde a sua chama certeira na cicatriz que me revela, a marca que fica em minha pele suada, carne crua de poros úmidos que ainda implora suas mãos. Tudo o que eu espero é a verdade escrita, falada pausadamente em meus ouvidos, porque de resto em minha mente é só confusão. E eu peço tanto por dias mais tranquilos, aguardo ansiosamente por sopros de felicidade, sonho com gestos mais simples, imploro sorrisos mais sinceros, abraços mais apertados. 

Saudade é o que me invade nessas horas.

Olho pela janela do meu quarto e minha rua está vazia. A vizinhança dorme o sono que eu não encontro e vejo gatos pardos tropeçando nos telhados das casas apagadas, insetos que insistem em se queimar na luz pálida do poste alto que ilumina o rastro do que fica daquele que já não passa, que jaz na hora exata em que o meu relógio para. Eu me dou conta que não preciso do tempo, que meus músculos já perderam o tônus, que meu coração bate desaceleradamente e eu nem sei bem ao certo o que deixei escorrer entre meus dedos há poucos minutos. Quisera eu ter certezas absolutas, encontrar as palavras certas, as frases mais bonitas que escrevi e não sei onde guardei o bilhete de amor que eu deveria entregar àquela que me fez companhia todos esses anos.

- Talvez ela nunca entenda, eu sei.

Ainda há pouco mesmo era verão e todo aquele calor e eu me refrescava nas águas claras da montanha entre pedras e riachos que me inundavam e massageavam meu corpo que continua o mesmo, muito embora eu agora seja outro. O outro que eu não conhecia muito bem, mas no fundo sabia que existia. Foi preciso a ventania e os ventos da nova estação que me espalharam feito eu fosse folha. Sequer entendi por que caí e me deixei levar. Sob o céu azul e cintilante deste outono que hoje se anuncia eu sou quase todo incertezas. 

- Onde será que eu, agora leve feito folha, vou parar?      

sexta-feira, 1 de março de 2013

Ele já sabia

Foi quando ele me disse que se sentia honrado em ter me conhecido que me dei conta do quão nobre era tudo o que eu estava vivenciando naqueles últimos dias. Tentei fazer com que ele entendesse que era como se meu peito se expandisse, como se minha caixa torácica tivesse se transformado num balão de gás, desses que você sopra até quase estourar. Confessei-lhe que desde aquele encontro eu vivia deixando-me corroer pela ansiedade, tinha como companheiras a saudade e uma agitação maior que as de costume. Que os dias me pareciam mais curtos, relógios de horas encolhidas, e que o silêncio fazia das minhas noites companhia. Fiz questão de dizer-lhe coisas que jamais disse a ninguém. Me expus. Me revelei. Me deixei desenhar por suas mãos e só então, depois, em seus traços, foi que me reconheci.

Era como seu eu não tivesse existido antes, como se meu passado pouco importasse, página em branco, zero à esquerda, como se nada que eu vivera até então tivesse muita importância. O que verdadeiramente valia era dali para frente, aquele mundo de possibilidades que se apresentava agora. Não que ele fosse obrigado a me fazer companhia eternamente, a caminhar comigo por todo o sempre, forçar juras infinitas. Muito pelo contrário. Tínhamos, isso sim, firmado um pacto de felicidade, e a liberdade era a condição maior para a expressão do que estávamos experimentando juntos nessa vida. Não sobrava tempo para cair em armadilhas, emaranhados, redutos de tristeza, eu sabia. Ele também me dizia que não era hora para se ter juízo e que era preciso um pouco mais de loucura e coragem para ser feliz. Aspectos que eu tinha de sobra.

Eu cheguei a contar-lhe que nós éramos um o rascunho do outro e que a sombra dos nossos corpos que surgia na parede daquele quarto mais parecia o contorno da luz refletida a preencher todos os espaços. Lembro de uma vez tê-lo escrito dizendo-lhe que o meu mundo ao lado dele parecia bem melhor. Era como se a armadura que vesti durante tantos anos se desmanchasse e trouxesse à tona meus conflitos mais internos, minhas dúvidas transformando-se em certezas, e o peso que eu outrora carregava se fizera leve como as palavras mais bonitas que saíam de sua boca em minha direção.

A surpresa me pegou naquela noite, confessei-lhe. Nunca acreditei nessas histórias que me contavam sobre tudo o que envolve o coração. Pensava eu e meus botões: comigo não! O meu coração batia tão sossegado, adormecido, já meio que acostumado com a anestesia contaminada do dia a dia, amnésia de um cotidiano sem graça, sem novidades, só a mesma ladainha, enquanto tudo em volta era solidão. Guardava meus versos polidos em fundos de gaveta, junto a outros escritos que eu já me esqueci. Eu tinha todas as minhas chaves, trancava muito bem todos os meus segredos, cultivava com apreço certos medos, manias, esquisitices, até que ele apareceu e me disse que se sentia honrado, como eu já contei aqui antes.

Porque ele já sabia o que era o amor. O meu acabava de tomar forma naquele exato instante.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Vem

Vem, me dá a sua mão.
Quero correr contigo as estradas do destino,
ver brotar todo o amor que eu plantei
ainda sementes nestas terras quando menino.

Vem comigo.
Eu lhe prometo ser fiel até o fim.
Vou lhe contar tantas histórias,
deixar você saber ainda mais de mim.

São tantas coisas que você nem imagina:
os lugares por onde andei,
as vezes que me perdi, os passos que dei em falso,
as outras tantas em que caí.

Conte-me as coisas que eu também não sei.
Entregue-me aquelas cartas amareladas,
leia-me seus versos guardados no fundo da gaveta.
Aqueles que jamais recebi.

Tenho mapas refletidos em meus olhos,
trago bússolas presas em minhas mãos.
Veja: meu rosto é marcado, meu sorriso é indiscreto.
Guardo em meu peito segredos que vão lhe tirar do chão.

Vem,
sem você não vou acertar o caminho.
Vou procurar por atalhos, inventar mil desculpas.
Vou querer sair cedo, cerrar as cortinas do meu palco vazio.





segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Inspiração

Quero escrever sobre o que há de mais bonito,
esquecer o amargo da vida,
respirar outros ares,
sair por aí.

Rabiscar nos muros frases coloridas,
alegrar a cidade cinza,
me perder de mim num instante
e neste mesmo instante me encontrar em você.

Quero riscar na sua pele as estrofes da minha poesia
e rimar no seu corpo toda minha inspiração.
Só assim eu criaria os mais belos versos, ritmados, perfeitos, impróprios,
obras-primas rascunhadas em suas curvas pelas minhas próprias mãos, eu diria.

Quero acelerar meus batimentos, potencializar seu coração,
deixar vir à tona um outro sentido, sentir correr o sangue nas suas veias,
ruborizar minha face alheia, mudar o rumo desta prosa,
caminhar lado a lado, esquecer que existe outro mundo lá fora.

Só então entoar meus textos aos quatro cantos,
ver o sol amarelado desaparecer no apagar das horas,
pintar um céu aquarelado de estrelas refletidas, uma a uma,
e zarpar sem receio no seu mar infinito que tanto me encanta.

Porque todo poeta é um barco à deriva.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Fresta

E quando o outro, ao invés de metade, é espelho?
O reflexo daquilo que ninguém nunca viu?
Aquilo que só você sabia,
os sinais que só você conhecia,
o seu verdadeiro eu?

E quando o outro é aquele que se revela,
feito luz por detrás de uma fresta,
uma brecha que se desfaz em clarão?

Ainda há pouco estava tudo mesmo tão escuro.

sábado, 12 de janeiro de 2013

'O biso é rei' ou "O conto atrasado de Natal"

Clima bom de Natal. Casa cheia. Bacalhoada pronta. Pernil desossado. Rabanadas fritas. Peru assando no forno. Criançada pra lá de animada com os presentes e os mais velhos pra lá de animados com o vinho transbordando nas taças. Até que mamãe chega na varanda onde estávamos eu e meus primos e dispara:

. Seu avô Saulo não está nada bem, Mauro.

- O que foi? É a pressão de novo?

- Não. É a cabeça. Está falando umas coisas sem sentido, vai lá dentro pra você ver.

Vô Saulo tem 92 anos, é o patriarca da família. Figura adorável, querido por todos. Excelente contador de histórias, bem humorado que só, dono de um arsenal de piadas impróprias e por isso mesmo divertido. Festa com o vô Saulo era alegria na certa. Naquele Natal não poderia ser diferente. Mas foi. Ou não, dependendo do ponto de vista.

Fui até a sala e ele estava lá, sentado na cadeira de balanço. Ao seu lado o filho mais velho, tio Lauro, irmão de mamãe, com cara de poucos amigos.

- O que é isso, papai? O senhor está ficando louco? Depois de velho deu para falar insanidades?

- O que foi, vô? - perguntei.

- Só porque eu falei do Zezinho o Lauro ficou assim, nervoso, me chamando de doido.

- E quem é Zezinho, vô?

- Vai continuar com isso, papai? Quer estragar o Natal? Porra, Mauro, não dá corda pro seu avô, faça-me o favor. Vamos parar por aqui.

- Zezinho foi o meu primeiro amor.

Silêncio sepulcral. Tio Lauro com olhos arregalados. Minha mãe de queixo caído. Tia Odete, mulher do tio Lauro, sem saber onde se enfiar e eu meio sem entender se era aquilo mesmo o que eu tinha ouvido.

- Quem? - continuei.

- O Zezinho lá de Santo Antônio de Pádua. Ninguém aqui conheceu. Era um menino bonito. Meu amigo.

- Amor de amigo, claro - eu disse, tentando aliviar a situação e segurar o riso ao mesmo tempo. Todo mundo aqui tem um amigo do peito, daquele que é quase irmão - eu completei.

- Sinto saudade dos abraços que ele me dava lá na beira do rio.

- Também abraço meus amigos, vô. Dá aqui um abraço - tentei amenizar.

- A gente dava uns beijos também.

- Porra, pai. Vai continuar com isso? - esbravejou tio Lauro.

- Deixa ele falar, tio Lauro. É normal que amigos se beijem.

- Na boca?

- Mas era na boca, vô?

- Era. De língua e tudo.

Silêncio. Climão.

Tio Lauro enfurecido de um lado, mamãe e tia Odete ruborizadas do outro, enquanto vô Saulo continuava na cadeira de balanço com sua taça de vinho pela metade e os olhos distantes, pensando no tal do Zezinho. Eu, que estou acostumado a ver de tudo um pouco nessa vida, confesso que também achei aquilo muito esquisito. Pô, vô Saulo sempre teve uma imagem de macho viril, gostava de esportes, foi jogador de futebol, porte atlético, um senhor bem apessoado. Pelas fotos nos álbuns da família dava pra ver que ele tinha sido um jovem bonitão, sempre vestido em ternos bem cortados, cabelos engomados, um advogado bem sucedido. Casou cedo com vó Margareth, teve dois filhos, cinco netos, três bisnetos. Teve o que todos sempre consideraram um casamento perfeito, sólido, feliz mesmo. Um exemplo.

- Mas eu gostava mesmo era do Zezinho. Nunca me esqueci dele.

- Tá caducando, só pode - tia Odete falou baixinho, quase que sussurrando.

- Será que é Alzheimer? - perguntou mamãe, tensa que só ela.

- É falta de vergonha mesmo - disse tio Lauro.

A esta atura os demais primos e primas já estavam todos na sala sem entender muito bem o que estava acontecendo. Uns tentavam distrair as crianças, já com fome, e outros se metiam na conversa.

- Quem é Zezinho? - perguntou Cristina, a neta mais nova.

- Acho que era um namorado do vovô - disse Paulo, o primo mais velho.

- Tá de sacanagem, né? Piada, vô?

- Não, não é piada não. Zezinho foi meu primeiro amor. A gente andava muito por aqueles matos lá na roça. Eu tinha 14 anos e ele tinha 15. Bonito que só, vocês tinham que ver.

- Tô bege, vô - disse Cristina, a neta e minha prima mais nova, enquanto tio Lauro ficava cada vez mais roxo de raiva.

- Gente, o babado é fortíssimo - falou Paulo, o neto mais velho, meio que no deboche, meio que soltando a franga, vai saber.

- Que saudade do Zezinho. Ô, tempo bom aquele!

- Mas rolou sexo, vô? - tomei coragem e perguntei.

- Não. Só carinho.

- Perdi a fome - disparou tio Lauro. Não quero mais saber de pernil, bacalhau, rabanada, porra nenhuma. Pra mim chega. Acabou o Natal.

- Quer uma água com açúcar, um lexotan? - perguntou tia Odete que, sem obter resposta, engoliu o comprimido e a água açucarada de um gole só.

- E o peru? - perguntou vô Saulo.

- O meu está aqui, papai. O do senhor está aí. E ai de quem perguntar pelo peru do Zezinho! Eu não quero mais saber. Vou pro meu quarto. Me deem licença. 

Silêncio.

Thiago, o bisneto de apenas 6 anos, que até então brincava no seu tablet, vira pra Júlia, a bisneta de 3 anos e diz muito sério:

- O biso é gay.

Júlia, que mal sabia falar, começa a repetir aos quatro cantos:

- O biso é rei! O biso é rei!

Clima bom de Natal.


quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Uma outra luz

Acaba logo porque já deu a hora.
Saiba que é preciso acompanhar o passo
do mundo que escorre e corre,
enquanto uns morrem e outros apenas vão embora.

Ontem mesmo soprou por aqui o vento do passado.
Passou por mim assim sem jeito, o vento.
Fez como se fosse um gesto lento,
quase uma brisa leve. Breve.

Antes tivesse vindo um tormento, a fúria.
A tempestade anunciada logo cedo.
O mar quebrando em ondas na minha janela.
O medo que cega e paralisa o coração em silêncio.

Ouça o que eu digo e acaba com isso.
Apague as luzes e bata a porta.
Dê adeus e veja se não esqueceu nada.
O que não tem significado deixe mesmo para trás.

Há que se pensar no novo,
que vem num dia atrás do outro, uma certa ânsia de chegar.
Como os batimentos que não param no meu pulso,
lembram que o tempo é fracionado, ritmado, curto.

Porque é de repente que tudo se acaba.
Quando se vê, é mais um ano que termina.
O sol queimando as marcas da minha pele.
Um outro brilho ainda mais intenso que se descortina.

Fiat lux.



















quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Amigo é pra essas coisas

Quase uma da manhã e o telefone toca. A figura pula da cama, vai atender. Do outro lado da linha, seu melhor amigo com voz de quem está apavorado, como se o mundo estivesse acabando.
- Fodeu, roubaram meu carro - diz ele.
- Onde você está? Te machucaram? E a Lêda? As crianças? - o outro amigo pergunta.
- Estão bem. Estão aqui comigo, mas a Lêda está dizendo que vai se separar de mim.
- Mas o que tem a ver uma coisa com a outra?
- Culpa da minha sogra...
- Dona Nêuma? O que foi que ela fez?
- Morreu.
- Para de sacanagem. Tarde pra cacete e vc ligando pra minha casa pra passar trote?
- Não é trote. Roubaram meu carro e a dona Nêuma morreu, porra!
- Os assaltantes mataram ela? Vc já chamou a polícia?
- Não, não chamei e não foram os assaltantes que mataram a velha. Ela empacotou hj cedo enquanto a gente ia pra Minas passar o final de semana na casa de uns parentes. Um susto danado. Imagina?
- Sério?
- Sério, cara. No meio da viagem eu comecei a achar estranho o silêncio da jararaca. Ela, que sempre falava pelos cotovelos, estava calada por demais. Quando paramos para comer alguma coisa, já perto de São João Del Rey, ela parecia dormir profundamente. Chamamos uma, duas, três vezes e ela nada. Daniel disse que a avó estava gelada. Foi aí que bateu o frio na espinha. Lêda só chorava e pedia pra eu trazer a mãe dela de volta. Bate na cara daqui, pega no pulso dali e nada. Mortinha.
- E aí?
- E aí que eu disse que ia voltar pra casa, que não tinha mais jeito e que era melhor colocar o corpo da velha na mala do carro porque pagar translado de defunto devia ser caro pacas e sequer o décimo-terceiro eu tinha recebido.
- Não acredito que você colocou a dona Nêuma na mala?
- Coloquei, porra. Eu ia fazer o quê? Ligar pra polícia? Achei mais fácil trazer o corpo na mala e quando chegasse aqui eu dava um jeito. Esqueceu que o primo da Lêda é médico? Ele dá uns atestados sempre que alguém precisa. Ele não ia negar.
- Que merda, cara. Mas e o carro?
- Pois é. Roubaram na Avenida Brasil. Sabe ali onde fica o Bob´s?
- Sei.
- Foi ali. A gente estava chegando, mas o Daniel pediu pra eu parar porque ele precisava ir ao banheiro. Saímos todos do carro. Só a defunta ficou, claro.
- Não acredito.
- Quando voltamos não tinha mais carro, nem dona Nêuma, nem nada. Lêda quis me matar, Daniel danou a chorar e a Clarinha no colo, sem entender nada, tadinha.
- Cara, que louco isso. E agora?
- Não sei. Não posso nem acionar o seguro. Não paguei as últimas parcelas.
- Já se benzeu?
- Uma centena de vezes. Perdi a conta. Posso dormir aí? Lêda não quer que eu fique em casa.
- Vem, né? Já perdi o sono mesmo.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Oculta

És muito mais do que isso.
És tudo aquilo que não me foi permitido.

És aquela que não vê.
A luz que clareia.
A voz doce da sereia.
O encanto do mar.

És o calor que abafa.
O fogo que queima.
A mão que me afaga.
A outra que me arranha.

És de um jeito que arde.
Morde meus lábios tensos,
Chega perto, encosta.
Mostra os seios sobre minha face oculta.

És pedra bruta.
Virgem, santa,
intensa, pouca, louca.
Puta.

És outra que não a mesma.



terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Eu nada sei

Porque eu não sei de nada e você também vive no escuro.
Tão às cegas, tão alheio, tão não sei quê de mim que nem sei.
Certas horas tudo é tão complicado que o mundo parece que está todo errado, meu Deus.

A mentira que eu conto, a verdade que você esconde,
o tanto que eu procuro e não encontro, sem jeito,
um sujeito oculto e no outro, explícito, tão eu.

A face que reflete no espelho não é a minha, mas sou eu quem crio.
Tal qual a arte que trai e fere luminosamente minha retina,
ou o traço que desconheço, feito sombra que se arrasta num final de dia.

A luz que invade por detrás da cortina da sala
ilumina exatamente o verso que eu tento eternizar em minha pele.
É quando eu desconfio que nas minhas veias correm rimas soltas.

É só uma leve desconfiança.
Daquelas que se tem quando ainda se permite ser criança.
Porque o certo mesmo é que eu não sei de nada.

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Conforme a música

O bom é quando a vida é transparente
e sem os véus se revela
na luz que encontra brechas na janela
e no ar que instintivamente deixo entrar em meus pulmões.

Porque às vezes fica tudo nebuloso
e vem um peso enorme pressionar o peito,
como se quisesse dizer: não tem jeito,
caminhos, encruzilhadas, nós.

 Algumas pessoas se arriscam e dançam a ciranda lá fora
e do lado de cá outros não sabem sequer o que eu sei.
A vida é ritmo acelerado, é música em descompasso,
instrumento desafinado cujo som eu sempre gostei.

É preciso aprender com as partituras.

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Parágrafo curto

Resiste em mim um fio tênue da lembrança que insiste em rasgar meu corpo inteiro, feito lâmina afiada que deixa na pele cicatrizes e uma certa lucidez. O que a loucura quis fazer de mim cabe apenas em breve memória, das mais remotas, parágrafo curto de uma mesma história que eu não esqueci. Ainda sei de cor todas as frases que me cabem neste texto.

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Falta um mês

Tarde tensa na repartição, como de costume. O colega ao lado não consegue terminar o relatório, mas também não pede ajuda. A demanda da sucursal de Brasília é grande, o diretor-financeiro do grupo resolveu estender sua viagem ao exterior e esqueceu das pendências, o gerente da matriz parece ter surtado com tantos pedidos de última hora e até mesmo dona Lurdes, a moça da faxina, perdeu o bom humor habitual. Vai ver é a lua fora de curso, diria uma amiga, ligada nesse papo de astrologia e tal.

Eu consigo me manter relativamente equilibrado em meio àquele turbilhão de problemas. Minhas tarefas estão todas sob controle, os contratos que deveria assinar eu assinei, liguei para quem deveria ligar, fiz minhas notificações, conferi. Tudo certo. Cheguei até mesmo a me oferecer para ajudar ao colega que estava enrolado com tantos afazeres, mas recebi um 'não, obrigado' como resposta. Olhei para o relógio do meu monitor, que marcava cinco e trinta e três. Dali até que meu gerente resolvesse sentar comigo para analisar minha parte no processo, seriam horas intermináveis. Deu um certo desânimo. Foi quando levantei para dar uma mijada e garantir o bom funcionamento dos meus rins, tomar um café, fumar um cigarro no estacionamento e dar uma relaxada daquilo tudo. Do banheiro eu ouvia todo o falatório que vinha das salas ao lado e tive a impressão de ter escutado meu gerente gritar com o estagiário. Eu nunca gostei muito de estagiários, confesso, mas em compensação, nunca fui capaz de destratar nenhum deles. Na verdade isso tem a ver com o fato de eu não conseguir dividir tarefas. Além do mais, mesmo já tendo servido ao exército, não tenho voz de comando. Acabo resolvendo tudo sozinho. Meu terapeuta me sacaneia dizendo que eu tenho potencial para virar um eremita. Vai ver ele está certo.

Termino de me aliviar no mictório repleto de bolinhas de naftalina, lavo as mãos num fio tímido de água, me olho no espelho, cansado, ajeito o pouco que que me resta de cabelo e saio dali direto para a máquina de café. Quero um capuccino. Custa setenta e cinco centavos. Se fosse um expresso ou um longo eu não pagaria nada, mas o capuccino a firma não paga. Tiro do bolso uma moeda de um real, coloco na máquina, aperto o botão do danado do capuccino, a máquina começa a preparar meu pedido - que em segundos fica pronto - mas não me dá meu troco. Foda-se. Pego meu copo de plástico cheio daquela bebida quente e perfumada e desço as escadas para fumar meu Marlboro. Vício danado esse.

Lá embaixo, no estacionamento, um entra e sai confuso dos caminhões com as entregas que chegam de todo o país, o papo furado dos seguranças, o mau humor dos motoristas e um e outro colega que, como eu, não consegue abandonar o tabaco. Lauro é um deles. Fazia tempo que não esbarrava com ele. Das últimas vezes que nos encontramos eu não fui muito receptivo e fiquei com a impressão de tê-lo magoado. Lauro era um rapaz alto, magro feito um vara pau, ombros retraídos, pele excessivamente branca, óculos quadrados que lhe acentuavam ainda mais a aparência sensível, ingênua até. Dizia já ter sofrido muito por conta de uma timidez mórbida que o acompanhou durante toda a infância e boa parte da adolescência, mas agora estava curado. De origem humilde lá das bandas de Quintino, subúrbio da Central, onde sua família tinha um armazém. O pai herdara o negócio do avô, um português corpulento que jamais permitira que o neto ficasse atrás do balcão. Esse menino tem mais é que estudar, tirar um diploma, ser alguém na vida, o velho dizia. Lauro, que sempre gostou de ler e escrevia corretamente, optou pela advocacia e hoje, ao invés de vender as mercadorias que o avô vendia e que o pai seguiu vendendo, veste ternos e anda engravatado por aí, resolvendo pepinos e abacaxis dos outros. Assim que me viu veio em minha direção.

- Falta um mês, não é? - ele disse.

- Para o Natal? - eu perguntei.

- Não. Para o fim do mundo. Hoje é dia 21 de novembro e, conforme o calendário dos maias, dia 21 de dezembro acaba isso tudo.

- E você acredita nisso?

- Não. Até porque, para mim, o mundo já era faz tempo. Não posso acreditar no que estamos vivendo. Não foi isso o que sonhei pra mim e acho que nem ninguém sonhou algo tão absurdo - ele desembestou a falar, o que me fez duvidar se ele realmente chegou a sofrer daquela timidez mórbida que um dia me contou.

Lauro parecia calmo e discursava a respeito da nossa realidade sem demonstrar revolta. Era apenas uma constatação dos dias que vivíamos. Um reflexo de tudo que se passava ao nosso redor, talvez, mas que ele, com tamanha sensibilidade, devia captar com mais facilidade. Meu terapeuta volta e meia me diz que a grande maioria das pessoas apenas vive por instinto. Respira, come e caga sem pensar e sem enxergar muito mais do que se passa além de nossos limites. Ele me diz também que estas pessoas estão presas em suas vontades, vaidades incontroláveis, e não veem um palmo à frente do nariz. Talvez eu me enquadre nessa categoria, não sei.  Faz tempo já que eu apenas vivo um dia atrás do outro, sem me preocupar com o que acontece ao meu redor. Tenho um ego muito grande, sou egoísta por natureza, costumo dizer por aí que sou autossuficiente, que eu me basto e pronto. Não é verdade. No fundo, assim como Lauro, eu também sofria. Mas por defesa, sei lá, eu procurava disfarçar.

Lauro não disfarçava o que sentia. E cada vez mais fazia questão de demonstrar sua insatisfação e suas angústias fosse com quem fosse. Falava o que lhe vinha à cabeça. Muitas vezes parecia desequilibrado, muito embora tudo o que falasse fosse pertinente. Ultimamente estava cansado das guerras que entristecem e envergonham nossa raça. Dizia que não podia mais suportar os mandos e desmandos dos governantes, os aumentos absurdos, os impostos inexplicáveis, a corrupção que corria cada vez mais solta, a exploração do trabalhador, que vivíamos todos esmagados num contexto social aquém do que merecíamos, que a violência era tratada agora como um produto de marketing político, que não acreditava na humanidade, que não havia luz no fim do túnel, que a crise econômica era uma bola de neve, que nosso país vivia uma mentira e que a hipocrisia havia contaminado tudo e mais um monte de absurdos indiscutíveis.

- Eu também sou hipócrita - ele admitiu, enquanto eu dava o último trago no meu cigarro.

Permaneci calado, ouvindo tudo aquilo. Ele continuou afirmando que estávamos todos contaminados, cegos, tontos, caminhando sem rumo, feito máquinas sem controle, robotizados. Por um instante eu fui obrigado a pensar naquilo tudo e me dei conta que ele talvez estivesse certo e que se o mundo acabasse dali a um mês eu seria apenas mais um a virar poeira, assim como ele, mas só que ele tinha algumas contestações que o faziam diferente de mim e de todos os demais. Me deu uma sensação de vazio, de que até hoje eu não fizera nada, como se eu tivesse sucumbido e entrado naquela roda viva que me deixava inerte e inútil. O que eu poderia ter sido se perdeu e eu nem soube onde foi que isso se deu. Me subiu um frio na espinha. Apaguei o meu cigarro ali mesmo no chão do estacionamento, olhei para ele meio sem graça e admiti que tinha medo,  que eu também gostaria de viver num mundo diferente, mas que era daquele modo rude que a vida se apresentava para mim e para ele e que, sendo assim, era preciso aceitar o que o destino nos reservava. Disse essas coisas todas sem muita convicção e me despedi dele sem confessar que eu também era um hipócrita, um covarde, que deixei alguns amores escaparem nesta vida, deixei de agradecer a quem devia, que esqueci de alguns amigos e parei de escrever poesias para encarar um mundo que se mostrava a cada dia mais cruel.

Subi as escadas devagar. Já passava das seis. Lá em cima, o caos. E nem era o fim do mundo ainda.

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Líquido viscoso

Eu te daria um beijo na boca neste exato momento.

Daqueles que fazem perder o ar, o coração bater em disparada e tudo ao redor desaparecer. Depois eu apertaria mais seu corpo contra o meu, pegaria firme em sua nuca, roçaria minha barba em seu pescoço e teu dorso encontraria o que de mim jamais se perdeu. Seus mamilos rosados, duros, grandes, entre meus dedos tão rijos quanto o sexo que lateja em minha calça, e a minha mão, que ora desliza no toque suave da tua pele úmida, atraída pelo cheiro bom que exala enquanto alisa o que se esconde no vão de suas pernas.

É o que eu quero.

Eu te beijaria toda, nua, nesta noite clara onde a lua, tímida, seria só minha e sua. Levantaria sua blusa azul de seda, abriria seu sutiã de nobre renda e nas curvas dos teus seios fartos eu me perderia por dias e dias. Eu te apreciaria feito obra das mais valiosas, dessas que raramente vemos em exposição. Eu te usaria, abusaria de você, gastaria minha saliva em tuas ancas, misturaria o teu suor no meu, o teu gosto em minha boca, eu tentando entrar em você, você sem se importar com meu corpo pesando sobre o seu.

Eu juro.

Eu te deixaria completamente louca, vermelha de sangue jorrando em suas veias da face desavergonhada, entregue, puta, pequenos lábios inchados com o beijo sutil e meus cotovelos apoiados no encosto de couro cru no meio daquela sala vazia. Olharia para sua bunda empinada, redonda, lisa, linda, apontando para mim enquanto você se abriria suavemente a se mostrar por trás. Um tapa. Você pediria mais. Eu te obedeceria, satisfaria seus desejos mais mundanos, realizaria meus fetiches, te revelaria muitas das minhas taras.

Você imploraria.

Então eu te penetraria e te preencheria e seus músculos mais íntimos se contrairiam de prazer e me acolheriam, me sugariam ferozmente cada vez mais para dentro, bem no fundo, feito animal faminto, o cio, num vai e vem sem fim, até que eu me perdesse de mim em você.

Seríamos apenas líquido viscoso.



 

terça-feira, 13 de novembro de 2012

A dúvida

Às vezes é necessário que a poesia venha como um grito histérico de uma voz aguda há muito embargada que manda para fora aquilo que não nos serve mais.
É feito a água que transborda no copo translúcido - e até outrora sujo - apoiado sobre a mesa do centro da sala vazia e que escorre sem direção pelo chão frio e liso até molhar de leve a ponta dos nossos pés. 
É quando todas as luzes se acendem do nada e interrompem o exercício discreto e silencioso da escuridão, encontrando o que até então estava timidamente guardado, escondido, trancafiado a sete chaves presas à porta pesada de madeira nobre e talhada.
Lá no fundo a poeira, jogada displicentemente sob os tapetes desenhados e ásperos do tempo onde pisamos e sequer percebemos que os pisamos porque raramente nos damos conta de onde vamos ou o que verdadeiramente queremos e nos tornamos.
É só o pó, palavra, vento, verso, refrão, sem nexo, algum sexo, dia sim, outro não, quem sabe talvez.
Expõe-se assim a dúvida: é tudo em vão?  

domingo, 4 de novembro de 2012

Aquele que se fez de mudo

Não venha você mais uma vez tentar me fazer falar. Nem mesmo se eu conseguisse soltar minhas mordaças eu falaria. Optei por permanecer calado até o fim dos meus dias já que os demais não iam mesmo me ouvir. Nem a mim, nem a você, nem a ninguém. Não que eles tenham sido acometidos por alguma otite ou meningite ou qualquer outra desgraça terminada com o sufixo ite, e tenham perdido a audição. De jeito nenhum.

Sob o ponto de vista clínico, são todos saudáveis, diria o plantonista da emergência de uma unidade de pronto atendimento qualquer. O que talvez o tal plantonista não soubesse, o que o doutorzinho recém-formado sequer desconfiasse, é que todos ali são surdos em potencial e, portanto, não lhe dariam ouvidos.

O som da sirene atormentando lá fora, as buzinas incessantes, os gritos das crianças no pilotis e as armas de fogo comendo soltas nas ruas da maior cidade do país são apenas ruídos, sujeira urbana, o caos anunciando que a vida é um eterno conflito enquanto um cartaz entra em quadro e eu leio que a paz que eu procuro está no silêncio que eu não faço. Então, não venha você me fazer falar porque eu já avisei com toda a antecedência devida que estou mudo. Você me parece que não escuta muito bem.

Lembra que da última vez eu lhe disse que uma infinidade deles, além de surdos, têm graves problemas de visão e não enxergam além do espelho, não veem um palmo a frente, não olham para fora, perdem o foco, a clareza e o resto que sobra é só escuridão? Vivem numa solidão tão extrema que chega a sufocar, porque por mais que saibam se expressar, só conseguem falar de si mesmos, não entendendo muito bem o que se passa ao seu redor. A humanidade é mesmo um sem-número de ilhas.

Você sabe que eles falam demais e que toda esta verborragia na sua maioria das vezes não quer dizer nada, é tudo eco, apenas mais um texto mal escrito, umas frases sem significado, uma lição comum, de gente ordinária, sem papas na língua, pensamento acelerado, uísque, poder, luxúria, dinheiro, pó. Dá um vazio encontrar com gente assim.

Acredito que se você viesse conversar comigo numa outra ocasião eu sequer lhe daria atenção. Seria incapaz de ouvir toda aquela ladainha interminável de sempre, da qual eu já estou cansado de saber que poucas coisas mudaram desde a última vez que você me interrompeu no refeitório, sentando ao meu lado sem pedir licença e derramando as mesmas histórias escabrosas sobre a mesa, atrapalhando meu ritual de almoço solitário e por si só silencioso.

Assim como meu falecido pai, nunca gostei de falatório na hora das refeições. Era uma hora sagrada, ele dizia. Além do mais, hoje em dia eu procuro evitar contato mais próximo com quem quer que seja, não revelo a ninguém os meus problemas, não deixo transparecer minhas angústias, conservo minha intimidade. Há anos tento me acostumar a conversar somente o indispensável - sem deixar de lado a polidez -, que é para não parecer mal educado. Mas confesso que cansei.

Eu ando mesmo distraído, desatento, com meus reflexos mais lentos a cada dia, como se o foco fosse se desfazendo em plano sequência ali na tela imaginária que volta e meia se forma à minha frente e tudo o que resta de mim é um borrão, um pensamento inerte, alheio, sem direção.

Eu procuro não pensar muito no que pode estar acontecendo ao meu redor ou no que está me deixando deste ou daquele modo. Por mais que eu revire meus arquivos, não encontro a razão para que tudo se dissipe deste jeito. Confesso agora que não tenho noção de quanto tempo já me sinto assim. Talvez por eu me achar tão autossuficiente, tão dono do meu nariz, tão bem sucedido profissionalmente, tão egocêntrico e, por isso mesmo, tão diferente de tudo e de todos, me fecho agora numa redoma e não me importo se dela eu nunca mais sair. Porque eu fui único enquanto os demais eram só coadjuvantes, figuração sem a menor importância nesta história.

Não se assuste. Mande o pudor às favas e não venha tentar me revelar seu lado frágil. Também eu estou meio surdo e não sei se quero ouvir o que você tem a me dizer. Prefiro mastigar a carne mal passada que resta em minha boca cheia de dentes enquanto meus olhos fitam os seus, castigados pela vida e que há tempos eu conhecia, mas jamais me deixei enxergar de verdade.

Não que eu seja suscetível ao sofrimento. Meu ou seu. Muito pelo contrário. Há anos eu teria me ausentado e me encolhido numa bolha frágil e nada nem ninguém me faria ter uma outra visão. Eu também estaria cego e talvez por isso não seria capaz de perceber lágrimas nos meus olhos, já que tudo seria tão surreal para mim: um ser sempre tão duro, tão frio, que vive despertando inquietantemente com qualquer burburinho ao romper das manhãs.

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Quando o verbo escorre

Escrevo forte porque me preciso assim.
Soubesse eu verbalizar a frase precisa,
a palavra exata, a oração e o sujeito,
entre graves e agudos, eu me surpreenderia.

Escrevo por sorte.
Não fosse isso eu seria praticamente mudo,
alheio a tudo, o ser mais solitário do mundo.
Enquanto outros tantos falam demais.

Porque eu não sei me expressar tão bem.
Antes, talvez, fosse necessário aprender a gritar,
subir o tom, elevar a voz e me fazer ouvir.
É que eles falam muito, porém são surdos.

Ainda bem que não sou cego.
Enxergo tão perfeitamente
que em mim reflete
o que neles se esconde.

É quando então eu me revelo em versos,
transformo tudo em prosa,
o céu assume tons de cinza e rosa
e escorre a tinta sobre o meu papel.