sábado, 16 de agosto de 2025

Entrelinhas

O vácuo entre o som e a tua ausência fez de tudo aquilo hiato no momento exato em que o verso escrito viu-se concreto em minhas linhas. 

Imaginário é o verbo sagrado que trago nessas rimas conflitantes que não são de agora, nem de antes. 

É a prosa poética que leio nas entrelinhas de tantas frases por mim esquecidas, inauditas no meu tempo-espaço. 

São trechos revelados num único sopro de ar no meu peito, já desfeito, e pelo assovio do vento sacudindo as estrofes que perdi pelas esquinas.

sábado, 19 de julho de 2025

A luz que me guia

Poesia em mim é sobressalto.

É vento forte levantando a poeira

é rastro de fogo na beira do rio,

é a Iara-sereia que hipnotiza

enquanto canta seus versos 

na correnteza cega que me seduz.  


Poesia em mim é feito pranto.

Mas não um pranto triste. 

É pranto que arrebata, daquele que arrepia, acende a luz das almas, ilumina as noites, enobrece os dias. 


Poesia em mim é a luz que me guia. 

É o meu firmamento, candeeiro de rimas ora imperfeitas que cismam em riscar o céu da minha boca e deslizar na tua língua. 


Poesia em mim é juramento, é o verbo atestado, é o soco no peito do desavisado, a lira dos meus delírios mais profanos, a ode precisa e profunda de todos os meus planos, qual fossem estrofes mais perto do céu. 

segunda-feira, 30 de junho de 2025

Seiva bruta

É só poesia o que escorre da minha pele, acredite. E meu suor é a seiva doce das raizes com as quais eu lambuzo todos os dedos vacilantes e deslizo um por um na ponta da minha língua áspera, úmida, quente, ávida por palavras que me nutrem e que eu sorvo lentamente, derramadas em versos únicos neste corpo que ora habito. 

segunda-feira, 6 de janeiro de 2025

Outras preces

Ainda que eu não me salvasse, ainda que eu não resistisse, seria como se no fundo eu soubesse que algo em mim jamais se esvaía. 

Feito o sol se pondo lá fora com a certeza de voltar no outro dia junto às nuvens que bailam no céu coreografias que somem com o tempo. 


É ventania.


Dia desses sonhei com o mar avançando sobre as calçadas da cidade nua e toda aquela água salgada limpava meu corpo castigado e que também estava nu. Tudo em mim ardia. 


Como em todos os outros sonhos, mais uma vez eu estava só. 


Tinha os pés enterrados na areia, mãos apontando as estrelas, olhos refletindo 

as ondas em gestos contidos, e o pranto do arrebatamento sacudindo meu peito em silêncio, de um jeito que eu nunca soube explicar.


É porque trago em mim outras preces, outras rezas, outras crenças. 


Eu transformo dor em poesia.

quinta-feira, 17 de outubro de 2024

A vida é sagrada

Eu queria mesmo era escrever sobre um mundo em prosa, pintar nuvens cor de rosa nesse céu azul anil. Rimar meus versos tortos sobre as curvas das cadeias de montanhas, mergulhar com minhas frases neste imenso rio caudaloso que segue sereno seu curso em busca do mar. Cruzar palavras sonoras nas estrofes das minhas margens e me deixar plantar meus pés descalços feito sementes nessa terra quente, úmida, útero, mãe.

Porque a vida é sagrada.

Mas disso eles não sabem e nem querem saber. Senhores da Guerra. E nos separam, machucam, queimam, estraçalham, bombardeiam, nos tiram do mapa sem ter um porquê. Transmitem tudo online, on time, full time com cinismo e requintes de crueldade. São terríveis as cenas do fim do mundo nesse filme que eu sequer pedi para ver. Então, escrevo sobre balas traçantes, mísseis carregados de dor, sangue, cinza, chumbo, crianças com corpos mutilados, pais desesperados, pavor por todos os lados, um verdadeiro horror.

Mas a vida é sagrada, eu insisto. 

A vida é sagrada, eu repito. 

É sagrada, eu grito. 

(Ainda ontem ela chorou na mesa do bar e seus olhos inundaram os meus). 


 


domingo, 7 de julho de 2024

Pele

O corpo como expressão única do verbo infinitivo

- conjugado ao pé do ouvido - 

e a língua solta, breve, úmida, 

a deslizar entre os versos tímidos 

que transpiram vestes nuas.


quarta-feira, 27 de março de 2024

Creia

Segue essa vida, some na estrada, pega outra via, cruza avenidas. Vá, não espere mais nada. 

Encontre teus becos, repare em teus erros, ouça teus ecos, afaste teus medos e creia: há ruas que são mesmo vazias, onde vivem às escuras. 

Diante disso não corra, não fuja, não fique assustado. 


Tampouco parado. 

Pegue um rumo mais bonito, firma os pés no chão batido, plante boas sementes, colha dos teus frutos. Do lado de dentro é infinito, vê?


Então, acenda uma vela, reza um Pai Nosso e três Ave Maria para que Deus te ilumine e a nós não desampare. 


(fora da realidade é tudo mistério)


sexta-feira, 16 de fevereiro de 2024

Lírico

Traz de novo o gosto dos versos comuns, o manto doce das poesias, as rimas fáceis que rascunhas sobre esse corpo onde jaz teus verbos irregulares. 

Canta o que te faz contente, velhas cantigas de um trovador, mostra que és artista nobre, muito embora pobre, perdida no lirismo de um poeta-músico, este sim um sonhador.


Dança a música que toca agora, troca a tua pele, despe as tuas roupas, veste tua alegria enquanto rodopias nua neste salão vazio e cospe de uma vez por todas tua solidão. 

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2024

A sombrinha


Não sou fotógrafo, sou jornalista. E, como quase todo jornalista, sou observador. Carrego em mim palavras. Já meus olhos, muitas vezes cobrem-se de lentes coloridas e noutras tantas desbotadas. Sigo ajustando meus parágrafos enquanto foco em cenas comuns do dia-a-dia. Coisas sutis chamam a minha atenção: um olhar emocionado, um gesto atravessado, uma frase dita ao acaso, um abraço fora de hora, um céu de noites limpas e aquela senhora carregando flores e desaparecendo na esquina. Encantado, então, observo, absorvo, internalizo, registro e, quando posso, fotografo. 

Também não sou ciclista, mas pedalo. E volta e meia, enquanto pedalo aqui pelas bandas do planalto, esqueço que já passei dos 50 e me vejo menino de novo. Feito criança, enxergo tudo como se fosse novidade, como se eu estivesse descobrindo o mundo ali, sobre duas rodas, naquele instante. O que se apresenta diante de mim muitas vezes me espanta, me afeta, me alegra, me inspira e, quando não faço fotografias, guardo tudo no álbum que trago aqui dentro, que é pra eu nunca esquecer e, quem sabe, um dia escrever.

Dia desses, enquanto pedalava, resolvi parar um pouco para me esticar. Era início de tarde de um domingo, eu já havia dado umas duas voltas no parque, fazia calor e a luz do verão aqui no Cerrado clareando até o que a gente pensa que não dá mais para clarear. Fiquei um tempo ali, sozinho, parafraseando Gil, deitado na grama do parque sob o sol que ardia no alto do céu de Brasília. Lá longe, um casal apaixonado, braços dados, vem andando devagar. Ele com uma sombrinha vermelha a protegê-la do sol quente. Ela se derretendo toda para ele. Atrás deles, o lago cintilava, refletindo nuvens apressadas. Cena linda de se ver. 

Ao meu lado, as árvores sacodiam todos os galhos, como se aplaudissem "O Grande Produtor", agradecidas por espetáculo tão grandioso. Era, de fato, como se o amor, naquele breve momento, fizesse tudo ao meu redor sorrir. Eu também sorria. Por dentro e por fora eu também sorria. Na beira do lago, um senhor molhava os pés e levantava os braços como que em oração pelos dois enamorados - eu imaginava -, feito coisa de cinema, tal qual versos de um poema que um dia eu escrevi. 

Nunca esqueci.     


domingo, 17 de dezembro de 2023

Benditos sejamos

Abençoados pela chuva e pelo vento 

Pelo espaço e pelo tempo 

Por inteiro, não pela metade.


Agora é sarar tudo que arde

Estancar tudo que sangra: 

a pele, o peito, a alma.


(Tempo acalma essa vontade)


Benditos já fomos nós, lembra? 

Que outrora passeávamos nus por aqui.

 

Corpos molhados lado a lado,

Troncos e membros espalhados, 

Raízes profundas nesse chão.


(Tempo perdido volta mais não)


Glorificados sejam todos os que amam

Com bravura e com coragem,

Com firmeza e com verdade

Com encanto e liberdade.


Porque vida é tempestade, 

é esse aguaceiro, é vendaval.


(Amor é benção).

quinta-feira, 23 de novembro de 2023

Interpretação de texto

Escrevo como quem canta para ouvir a si mesmo, quebrando o pacto dos versos que trago em silêncio desde o dia em que aprendi que há tantos eus ecoando lá fora (à procura de outras rimas). 

sexta-feira, 3 de novembro de 2023

Virada de tempo

Bastava meia palavra para que tudo mudasse e outros ventos soprassem rajadas de versos nos nossos destinos. 

sexta-feira, 15 de setembro de 2023

Poesia oculta

Trago aqui dentro uma poesia silenciosa, um bailado perene de rimas passeando sorrateiramente na minha imaginação. 

Guardo frases nunca escritas, crio discursos jamais lidos, tenho diálogos ocultos em versos, não em prosa. 

Viver é verbo. 

O resto é ficção. 

terça-feira, 11 de julho de 2023

A estrada é de cada um

Já fiz coisas imperdoáveis desde que estou aqui. 
Amei quem não devia, mantive chamas acesas, brinquei noites e dias. 
Na cidade sem esquinas rascunhei versos impublicáveis, rompi com esquemas, 
me despi dos problemas, fui do céu ao inferno. 

Tudo do jeito que eu bem entendia. 

É que eu trouxe comigo a poesia. 
Espalhei aqui muitas das minhas estrofes, 
reescrevi meus parágrafos, me deixei levar por outros versos
sem nem sequer saber para onde eu ia. 

À minha frente há luz e sombra, eu sei. 
Acima, o Altíssimo camuflado desse azul tão claro, tão raro, que ora me cega. 
Abaixo, o fosso, a fenda no caminho, feito um hiato-tempo-espaço sob meus pés castigados pela seca. 

Ao redor é tudo barro, algumas frases mal escritas, tantas árvores retorcidas, passado, presente, vida, pó. 

Lá fora é muita gente. 
Dentro é sozinho. 

(A estrada é de cada um)


sexta-feira, 16 de junho de 2023

Beira d’água

Molha meus pés no ventre brilho beira d’água, correnteza deste breve oceano que ora jaz dentro de mim. Mergulha em meus segredos, suaves brisas, teu desejo, desapego entre meras nuvens adornadas de cetim. Frente fria anunciando, esse vento me cortando e eu ali calado, lado a lado, mão que afaga, afoga, afunda o ferro em minha alma e sangra a carne cor carmim. 


(poesia que transborda)

sábado, 3 de junho de 2023

Encruzilhada

Hoje sou minha própria estrada. 

Vê, tenho cá meus pés sujos do barro desse chão batido, trago o que há de mais bonito aqui por dentro, chega mais perto, sente esse vento soprando manso na alvorada do meu corpo e o vendaval nas curvas do meu caminho. 

Faz silêncio, senta aqui e escuta: acho que nunca te contei das vezes em que fui ilha e também encruzilhada. 

De quando desbravei mata virgem ou do tempo que conheci terra arrasada, bicho homem, bicho menino, meio sem rumo, meio sem nada. 

Porque minha vida nunca teve atalho. Eterna batalha interna entre a luz e a sombra, mão direita carregando a cruz, no meu peito eu enterrando a espada. 

sexta-feira, 25 de novembro de 2022

Do pó que viestes

Às vezes é como enlouquecer.

Perder os sentidos.

Deixar-se escorrer entreatos, roubar as cenas reescritas, decorar diálogos truncados, ouvir interpretações distorcidas. 


O bicho homem é vaidoso que só. 


Egocêntrico, eu sei. 

Falocêntrico eu sou. 


E também fanfarrão, iludido, vendido, desavergonhado, descompromissado, único, ciente que de pulvere venisses in pulverem reverteris. 


Tudo aqui se desfaz em pó. 

quarta-feira, 9 de novembro de 2022

Esses dias têm sido assim

Um choro de alívio incontido tem se abatido sobre mim esses dias.

É choro de alegria, que cai feito tempestade, dilúvio da minha alma, cântaros d'água lavando as dores que cismaram em derramar do meu peito aberto e veem chegar mais perto as faces de um outro eu. 

Já foi tudo mais confuso, lembra? 

O mundo sempre foi esse transe, agora eu sei e, não faz muito tempo, me ensinaram a dançar. 

Dois pra lá, dois pra cá, passos precisos, coreografados, milimetricamente ensaiados para essa estreia nossa de cada dia. 

Ouço música. O tempo inteiro ouço música. A vida de todo mundo tem uma trilha sonora, acredite, baby, eu sei que é assim. 

A minha tem mais de uma, confesso. 

Recebo, então, a notícia de que morreu Gal Costa e ali, mesmo que por um instante, muita coisa silenciou em mim. 

Porque o canto é o verbo em toada, nossa vida é breve, sua voz sagrada.

Choro. 

Alívio. 

Esses dias têm sido assim.

quinta-feira, 23 de junho de 2022

Calma

Outro dia mesmo eu li no perfil de um astrólogo que eu sigo que acalmar-nos é uma das primeiras e mais fundamentais habilidades que aprendemos na vida. Entre tantas outras coisas bacanas que esse astrólogo escreve quase que diariamente, essa foi uma das que mais me chamou a atenção nessas últimas semanas e me fez, muito mais que por alguns instantes, parar para pensar. A gente nasce no susto, rompe a barreira no trauma, num tremendo desespero, toda aquela pressão para a gente passar para o lado de cá. E, quando a gente passa, a gente se apavora e chora tentando colocar o ar para dentro dos pulmões. É bonito, mas é tenso.

Não me lembro como foi quando eu nasci, claro, mas tenho para mim que não tenha sido nada agradável deixar aquela vidinha confortável que eu levava dentro da barriga da senhora minha mãe para ter de encarar esse fuzuê aqui do lado de fora. Minha mãe costumava dizer que eu nasci berrando porque já nasci com fome e que ela logo me deu o peito para eu me acalmar. Era meio-dia e dez de uma sexta-feira calorenta, três dias depois do carnaval, quando eu, pisciano raiz com ascendente e lua em Touro, cheguei por essas bandas nervoso de fome e fui logo sendo obrigado a aprender a me acalmar. Por sorte, tive o colo da minha mãe. 

Até hoje vivo com fome e volta e meia eu ainda penso na falta que faz o colo da minha mãe quando eu sinto que estou ficando nervoso. Talvez por isso eu tenha associado esse acalmar-se, tão fundamental à sobrevivência nesse planeta, ao nascimento e ao momento em que a mãe, no caso a minha, pega o filho, no caso eu, e o acalma para que ela também se acalme. Há uma troca intensa ali. E de um aprendizado profundo, impossível de ser traduzido em palavras. Aquele que chega sem entender nada no colo daquela que já chegou faz um tempo e que certamente ainda não conseguiu entender muita coisa. Ou seja: a coisa é complexa desde o início. Um estresse.  

Não é fácil e ninguém disse que seria, eu sei. E hoje, cinco décadas depois de eu ter nascido e ter sido muito bem recebido, as coisas continuam não parecendo tão fáceis. Falta colo, o planeta está no limite e nós, seres ditos pensantes, nos agredindo nessa carnificina virtual globalizada, como se quiséssemos acelerar nosso fim logo de uma vez, numa espécie de surto coletivo. Esse retroceder da mentalidade humana é o que me causa surpresa e me assusta tanto quanto todo o preconceito, a violência, a hipocrisia, a mentira e o cinismo escancarado desses tempos complicados. 

Isso tudo sufoca a gente, deixa a gente triste, vai ficando todo mundo amuado, nervoso, mal humorado, doente, até que acaba morrendo mais rápido do que devia. Uma agonia que piora quando a gente liga o noticiário e é bombardeado pelo correio da má notícia e por todo esse volume absurdo de informações, boa parte delas inúteis, fúteis, descartáveis, que chegam até nós através de um simples toque numa tela pouco maior que a palma de nossas mãos. Estamos todos presos nessa teia, cegos, sem nos importar se do nosso lado matam pretos, matam pobres, matam indigenista, matam jornalista, matam todos eles, um a um, e a nós também, pouco a pouco. Distopia.

Mas, de acordo com o astrólogo, ter calma é fundamental. Mesmo que tudo ao redor esteja o caos, mesmo que os ignorantes tenham despertado, mesmo que os fariseus tenham ressurgido, mesmo com as guerras ininterruptas, mesmo com toda essa ganância, esse discurso violento, essa farsa, esses coturnos manchados de sangue mais uma vez ameaçando a democracia, essas bíblias compartilhando a palavra talhada na hipocrisia, mantenha a calma. Eu aqui tenho tentado me acalmar sozinho e seguir às margens deste outro eu transformado em rio caudaloso, superfície serena, que no fundo esconde a fúria da minha correnteza, arrastando tudo em direção ao mar. 



sexta-feira, 17 de junho de 2022

Tua poesia

Há tempos te devia essa poesia

Desde muito antes de te conhecer por aqui

Porque em mim já te carregava

Em mim tu já existia


Há tempos te devia essa poesia

Desde outras eras, desde outras vidas,

Desde o passado, o presente e o futuro

Momentos que eu nunca esqueci


Lembro que naqueles dias eu ria

Do mesmo jeito que estamos rindo agora

Um riso frouxo, uma alegria, uma coisa boa

É um fio de esperança, é um transbordar de emoção.


Há tempos te queria nessa poesia

Essa que sempre foi tua

Porque são raros esses encontros, eu sei

Tão raros que eu nunca esqueci.


Você também não.


Deixa o medo e vem segurar minha mão 

Caminhar do meu lado, misturar nossos hálitos 

Mirar teus olhos nos meus. 

Daqui ainda vejo teus rastros no parque


Foi lá a primeira vez, esqueceu?


Eu confesso que não esperava. 

Mas assim tão de perto, não resisti. 

Havia algo de arrebatador em nós

E tua loucura se fez poesia em mim.