É preciso começar um novo capítulo,
se dedicar a outras lições.
Há tanta coisa guardada dentro do peito:
um nó, um peso, um amor rarefeito
e muitos versos perdidos que eu nem sei se existem mais.
Se eu te encontrasse nas palavras certas
do passado, presente ou futuro, te juro,
você seria a mais nova poesia
tatuada para sempre em minha pele-página.
Eu teria como ler para você todas as frases soltas,
rasuradas nas linhas tênues do meu corpo.
Seria o seu romance, seu homem-livro imaginário,
seu melhor enredo, sua história mais bonita.
Só você não acredita.
Mas agora é outra vida.
Acredite.
domingo, 21 de outubro de 2018
sexta-feira, 14 de setembro de 2018
Paris foi uma festa
Dia desses pedi licença ao Hemingway e também fiz de Paris uma festa. Nunca tinha ido à França, nunca tinha ido à Europa, nunca tinha cruzado o Atlântico. Eu tinha apenas quinze dias de férias, tinha uma grana guardada, tinha muita vontade de viajar e tenho também uma amiga, a Regina, que me deu o toque de que estava rolando promoção de passagem pra Cidade Luz e que era para eu entrar no site da companhia aérea naquele minuto, não pensar duas vezes e garantir logo meu lugar no voo. Adoro gente decidida, que manda as coordenadas, que resolve tudo. Obedeci.
Aí foi que veio o frio na barriga. Fui ver meu passaporte: vencido. Euro? Só tinha ouvido falar. Inglês? Em construção. Francês? Jamé parlei. Mas a ideia de viajar sozinho para o exterior pela primeira vez na vida já me acompanhava desde algum tempo, mais ou menos o mesmo tempo em que vivo eu e eu em Brasília, o silêncio, esse céu, o barro que pinta de vermelho meus pés. Prato cheio para o meu analista. Ele adora. Ainda não o encontrei desde que cheguei de viagem. Não sabe de nada.
Não sabe da felicidade com a qual cheguei e que me acompanhou por todos os dias naquela cidade. Não sabe do meu primeiro piquenique na grama rala em frente à Torre Eiffell tão logo pisei por lá, sob um céu azul pintado especialmente para mim, presente do Grande Produtor, com quem tenho uma boa relação, graças a Deus e a Adriane, que nos apresentou. Não sabe da minha amiga Ana Paula, que numa única frase num bate-papo online, eu ainda no Brasil, ela na França, me arrumou um lugarzinho bacana pra caramba pra eu ficar, bem pertinho do metrô, ao lado do Champ de Mars, o Rio Sena logo ali, vizinho de uma lojinha de queijos pela qual eu me apaixonei à primeira vista e dos quais comi alguns fartamente acompanhado de muito vinho de todas as cores desde a hora em que eu acordava até a hora em que eu ia dormir.
Meu analista sabe que eu costumo acordar bem humorado todos os dias. O que ele não sabe até agora é que eu acordava ainda mais bem humorado em Paris. Devia ser por causa das baguetes que eu comprava numa boulangerie - frescura e biquinho à parte, não dá para traduzir boulangerie como uma simples padaria porque, na boa, não pode e pronto - perto de casa para comer com aquela manteiga que só tem por lá, com homus de todos os tipos, com um suco de pêra que eu sabia que ia sentir saudades desde o primeiro gole, com aqueles telhados todos à minha frente. Era mais ou menos desse jeito que eu forrava meu estômago todas as manhãs antes de ir para a rua, abrir a primeira garrafa de rosé, refresco num verão inesquecível, e sair flanando, verbo intransitivo e ocioso, sem rumo e destino certo naquela cidade linda de viver.
Ainda não decidi se conto para o meu analista que os franceses foram simpáticos comigo quase que o tempo todo. Só resmungavam quando eu esquecia de iniciar qualquer frase naquela língua pra lá de romântica sem um bonjour antes. Foi assim no metrô, quando cheguei meio tímido meio decidido e mandei ân tíquete sivuplé, assim mesmo, com sotaque carioca, pro bilheteiro. Foi o bastante para ele franzir o cenho olhando no meu olho, rosnar alguma coisa que eu não entendi _ e que me gelou a espinha na hora de tamanho nervoso, confesso _, apontar o dedo estressado para uma maquininha onde estava escrito BONJOUR, assim mesmo, em letras garrafais, e me dizer com todas as sílabas "tu es à Paris". Tradução: você está em Paris. Ali eu entendi que minha mãe tinha razão e que eu precisava ser mais bem educado, dizer bonjour sempre que fosse pedir qualquer informação, que não bastava aquela troca de olhares, um cumprimento sutil de sobrancelhas, um sorrisinho de canto de boca como muitas vezes estamos acostumados por aqui. Óbvio que eu esqueci desse detalhe mais umas duas vezes até o final da viagem, mas em se tratando de mim, desligado e desmemoriado, já era de se esperar. Era pardón pra cá, pardón pra lá e au revoir.
Uma coisa é certa: vou contar para o meu analista que o Louvre fecha toda terça-feira e que eu, desavisado e desinformado, dei com a cara na porta minutos depois de ter dado com a cara na porta do Museu L'Orangerie, ali perto, onde estão as Ninfeias de Monet e que também não abre às terças. Ainda bem que entre um museu e outro fica aquela lindeza que é o Jardim de Touleires e que eu vim a saber, via Google, é o primeiro jardim público de Paris. Aliás, vou confessar para vocês em primeira mão que nem me importei muito em não ter conseguido entrar no Louvre. Na noite anterior eu fiz um passeio de barco pelo Rio Sena e uma das curiosidades que o guia falou e que mais me chamou a atenção foi que se ficássemos apenas três segundos em frente a cada obra do museu, levaríamos três meses para ver todo seu acervo. Me deu preguiça e resolvi deixar o Louvre para uma próxima vez, no inverno, talvez. Preferi aproveitar Paris à céu aberto, sentir na pele toda aquela luz que mais me soava como poesia.
Quando eu disser para o meu analista que eu troquei o Louvre por uma caminhada até o Arco do Triunfo e que de lá fui comer um tal de beef bourguignon e dar uma calibrada no nível alcoólico pelas ladeiras de Montmartre depois de ter me emocionado na Sacré Couer, ele vai entender. Vai entender também o porquê de eu ter me apaixonado pelo alaranjado do pôr do sol na beira do Sena e ter perdido a conta de quantas garrafas de vinho compradas por quatro, cinco euros num supermercado Carrefour eu bebi naquelas margens em meio a tantas risadas cúmplices, Marília, Letícia, novas amizades, e os beijos na boca que eu provoquei. Paris te seduz assim, de cara. Irresistível.
Meu analista vai gostar de saber que eu andava uma média de 16 quilômetros por dia, de acordo com um aplicativo que eu nem sabia que eu já tinha e descobri quando cheguei lá. Ele vai gostar de saber que eu não perdi a mania de estar sempre atrasado e que de tão atrasado só fiquei meia hora no Jardim de Luxemburgo, outra lindeza daquela cidade, e que fecha às oito da noite. Tudo bem que nem era noite, era verão em Paris e ainda era dia, mas fechava mesmo assim. Eu lá, sentado depois de andar por horas, com os pés cansados, crente que ia relaxar um pouco e o guardinha começa a apitar, avisando que os portões iam fechar e que era para todo mundo sair. Eu saí, claro.
Não vou conseguir lembrar se foi naquela noite que resolvi ir até o Marrais, o tal bairro moderninho de Paris, e acabei numa espécie de inferninho de duas alemãs ali pelas bandas da République, uma versão mais cosmopolita da Rua Augusta. Foi lá que encontrei uma brasileira, baiana, Maria, bêbada, acompanhada por dois alemães enormes, também bêbados, e que se fizeram de mal encarados quando me apresentei, talvez pelo fato de eu também ser brasileiro e Maria ter puxado assunto comigo, samba, capoeira, essas coisas que eu nem entendo muito bem, na verdade. Não demorei, paguei minha birita, voltei andando pro Marrais e cheguei numa praça linda, isso é redundância, eu sei, cheia de galerias de arte e bares ao redor, a Place des Vosges, onde morou Victor Hugo, o escritor. Foi naquela noite que eu, alcoolizado e sem internet para chamar um Uber ou sequer consultar um aplicativo que me indicasse como fazer para voltar para casa, quase surtei. Imagina eu ali, sozinho, tarde da noite, com vinhos de um dia inteiro nas ideias, longe pra caramba de onde eu estava hospedado, com meu francês inexistente e meu inglês cansado. A sorte foi que uma alma bondosa percebeu meu desespero e me disse que o último trem do metrô para a estação de Bir-Hakeim ia passar dali a quinze minutos na estação Saint Paul e que era para eu correr. Voei.
Preciso contar pra ele como foi bonito esbarrar com uma estátua gigante do Arcanjo São Miguel em plena Praça Saint Michel, claro, e silenciosamente agradecer pela proteção e por todos aqueles dias bacanas daquela viagem que eu nunca mais vou esquecer. Agradeci por tudo, também, assim que pisei na Catedral de Notre-Dame, ali pertinho, depois de me engordurar com um croissant de chocolate, de pé, sob o sol, ao lado de noivas japonesas e suas fotos de casamento. Agradeci até mesmo quando estava no bar que fica no terraço do Centro George Pompidou, que maravilha, boa conversa, novas amizades, encontros que a vida te proporciona, admirando, hipnotizado, lá do alto, a cidade. Coisa mais linda.
E foi para fechar com chave de ouro que, na última noite, uma amiga francesa, Heloise, que morou anos no Rio de Janeiro, mas que eu só conhecia via Facebook, me chamou para um jantar de despedida na casa dela. Pode trazer quem você quiser, ela disse. Levo uns vinhos também, respondi, comendo uma galette e aproveitando o wi-fi de graça em frente ao Museu d'Orsay, depois de passar a manhã e a tarde andando pra lá e pra cá me despedindo de Paris. Voltei pra casa, tomei um banho, deixei a mala praticamente pronta, vesti uma calça jeans, escolhi uma camisa invocada, peguei o metrô e fui encontrar Heloise com a estranha sensação de que eu estava indo conhecer uma amiga do peito, irmã, camarada e que é a boa energia e os afetos instantâneos que unem as pessoas. Naquela minha última noite em Paris, Heloise, que só me conhecia de Facebook, Letícia, que eu conheci dias antes e que era amiga de Marília, que mora em Paris, que já tinha virado minha amiga e que por coincidência conhece vários amigos meus, nos conhecemos ainda mais e brindamos à nossa capacidade de compartilhar afetos e transformar a vida, onde quer que a gente esteja, numa verdadeira festa.
Voltei para o Brasil horas depois, ainda bêbado, ainda mais feliz. Trouxe muito de Paris comigo. Deixei muito de mim por lá. Qualquer hora eu volto, eu sei.
domingo, 22 de julho de 2018
Aquela torre alta
Por tantas vezes eu te quis aqui no meu peito horizonte até me perder de vista. Sentado ao teu lado, muros vindo abaixo, tua pele na minha, suor, silêncio, rima e aquela torre alta na cidade sem montanhas a nos desorientar. Um norte eu pedia, o rumo eu perdia, e o coração jaz rascunho de um mapa amassado, jogado no chão. Dá aqui tua mão, segura na minha, ainda sinto muito tua falta nesse frio que volta e meia faz por aqui. Por que te esconder em teu deserto se eu sou rio em curso incerto?
Vem molhar teu corpo em mim.
quarta-feira, 30 de maio de 2018
Convicta
Dia desses lembrei, assim, do nada, dela me contando quando viu a lua cheia, enorme, surgir de repente nesse céu que é mar aqui na secura do Planalto Central. Era noite fria na capital e as luzes dos faróis dos carros que cruzavam apressados as superquadras pareciam não enxergá-la. Muitas vezes ela se escondia mesmo. Tinha o sonho de se tornar invisível quando bem entendesse que é para só observar, voyeur numa cidade sem esquinas, distâncias, monumental. Ela confessou mais tarde que estava ali, de pé, fazia um tempo já, procurando seu eixo entre as curvas traçadas pelo arquiteto, entre espaços vazios, entre tantos silêncios, novos amigos, outros amores.
Não importa onde, a vida é sempre um risco, ela dizia convicta.
Eu prestava muita atenção em tudo o que ela me falava, apesar de tê-la encontrado muito poucas vezes por aqui. Muito menos do que eu gostaria. Vivia cheia de histórias, personagens incríveis, planos sedutores, uma facilidade para entreter quem quer que fosse, dona de uma gargalhada sonora e aquele olhar verdadeiro que te desnudava, você querendo ou não. Sempre gostei de gente assim, muito embora por muitos anos eu jurasse de pé junto que não. Isso foi antes de eu entender que timidez e orgulho são farinha do mesmo saco e me colocar humilde diante das muitas verdades que um dia eu peguei como se fossem minhas, absolutamente minhas. Hoje em dia eu tenho muitas dúvidas sobre mim mesmo. Ainda bem.
Pouco importa o homem, mas sim, a mensagem, ela me diria.
Ela me diria também que eu não me preocupasse com nada, que no final dá tudo certo, que é possível sim escrever torto em linha reta, que a vida pode e deve ser uma festa, que o amor é de fato o que há de mais importante nesta existência, que é preciso olhar para o lado, estender a mão, que tudo é experiência, que é para se permitir, compartilhar, compreender. Só que ela não está mais aqui. Não me disse para onde foi. Celular sempre desligado. Nunca mais mandou nenhum recado, sequer me deu tempo para uma despedida, um bate papo na varanda, um trago, uma birita. Apenas se foi. E eu deixei que ela se fosse, luzes se apagando, desaparecendo dentro de mim. Melhor assim. Quase ninguém soube, quase ninguém viu. Saudades, lembranças, frases que não foram ditas e a falta do abraço que ficou para depois, quem sabe, um dia. A vida é uma sucessão de encontros, agora eu sei, coisa que antes eu não sabia.
Hoje eu vi a lua cheia.
segunda-feira, 14 de maio de 2018
Despedidas
Quando eu vim morar em Brasília, longe de todas as minhas referências afetivas mais viscerais, uma das coisas que mais me afligia era pensar que eu poderia estar vendo aquela pessoa querida pela última vez sem saber. E, pior, que eu não estaria por perto na hora da despedida. Essa sensação talvez fosse em parte porque volta e meia ainda me vem à lembrança tudo o que passei há pouco mais de dois anos com minha mãe e meu irmão internados em estado grave numa São Paulo deserta para mim. Minha mãe se foi. Meu irmão está aí firme e forte. E eu agradeço por ter tido o privilégio de estar presente do início ao fim daquele ciclo que se encerrou e deixou um ensinamento único nas nossas vidas. Dona Lígia fechou com chave de ouro sua passagem por estas bandas. E eu estava ao lado dela.
Na manhã desta segunda-feira, uma prima-irmã, dessas com as quais a gente já nasce com os laços estreitados, unidos, raros, cientes serem de uma mesma raiz, se foi. Estive com ela pela última vez em março, no hospital, no dia em que ela acabara de ter alta depois de ter ficado internada por algumas semanas em estado grave no CTI. Eu nunca lidei muito bem com doença, com médicos, hospitais, agulhas, exames, nada disso. Quando precisei cuidar do meu irmão e da minha mãe, foi como se eu tivesse respirado fundo e mergulhado naquele mar revolto num fôlego só, sem tempo de parar e pensar em nada. Portanto, ver minha prima ali naquele leito era ter noção de que o caminho era sem volta, de que mais um ciclo se encerrava, que nós, nessa aventura humana, independente de raça, cor e credo, somos finitos.
Naquela tarde em que nos vimos pela última vez, ela ainda preservava o sorriso largo e o jeito doce e carinhoso de olhar pra gente e dizer que estava tudo bem. Eu havia chegado de Brasília e fui direto do aeroporto para o hospital de mala e cuia. Lá estavam ela e minha tia num exercício pleno de amor entre mãe e filha que sabiam que iam precisar se despedir muito em breve. Só eu sei o quanto me segurei para não desabar ali na frente daquelas duas mulheres que eu tanto admirava. Por dentro, eu era só o pó. Quando nos falamos de fato pela última vez, num bate-papo rápido via celular, há uns vinte dias, minha prima me confessou, com a voz bem fraca, que já estava cansada de tentar encontrar forças, que estava difícil, que tudo doía muito. Aquilo doeu profundamente em mim também. Ruim demais imaginar o sofrimento daqueles que você ama. Ainda mais estando longe, como eu. Dá um nó na garganta, sabe?
A verdade é que as últimas duas semanas foram de muita apreensão. Minha prima havia piorado e voltado para o hospital. Minhas tias por parte de mãe sempre foram muito unidas, sempre estiveram muito presentes nas nossas vidas e, por conta disso, as relações que temos entre os primos é muito forte. Coisa de irmão, sangue, família. Amor mesmo. Vivíamos uns nas casas dos outros e a casa dessa minha prima era meio que o porto seguro de todo mundo. Era para lá que corríamos quando havia festa ou algum problema. Ou seja, estávamos todos muito fragilizados, preocupados, entristecidos com o que estava acontecendo. A gente sabia que estava chegando a hora de a Mônica ir embora, mas a gente não entendia por que tinha que ser ela, por que tinha que ser daquele jeito, por que tão cedo, por que tanta dor. A gente só sabia que estava chegando a hora e pronto.
Aí, então, nessas horas a memória resolve brincar e chega trazendo as imagens de uma infância cheia de histórias, das brincadeiras na vila de um subúrbio ainda ingênuo e tranquilo, dos primeiros bailes da nossa adolescência no Clube dos Sargentos de Cascadura, da primeira vez que fomos à praia de Ipanema sozinhos de ônibus, do primeiro porre, da vigilância cerrada do meu tio, das tardes na piscina, das sacanagens que eu falava, das merdas que eu aprontava, do comportamento exemplar da minha prima que não falava nome feio e não se revoltava com nada. Eu, o doido. Ela, a boazinha. A gente se completava assim desde que nos entendemos por gente. Casei, ela foi minha madrinha. Ela casou, eu fui seu padrinho. Mal ou bem, a gente estava sempre perto um do outro. Mas na manhã desta segunda-feira ela se foi e eu estava aqui, longe dela.
Agora ela é mais uma que vive dentro de mim.
domingo, 29 de abril de 2018
Amais-vos, porra!
O mundo acabou, a humanidade é que ainda não se deu conta disso. Afirmo isso talvez porque volta e meia penso que sejamos uma raça alienada, atrasada e destinada a exterminar nossa própria espécie. Somos cegos, alguns se fazem de surdos e outros tantos de mudos. Assim somos nós, os humanos, voltados para os nossos próprios umbigos. Não faz muito tempo e eu ouvi de uma pessoa próxima que pouco importava o que se passava com o outro. Importante, para ele, era o seu bem-estar e o bem-estar da sua família. O resto era o resto, não lhe interessava.
Eu, que sou por muitos considerado esquerdopata, comunista, pró-direitos humanos, louco, entre tantos outros impropérios, só conseguia olhar para aquela pessoa e pensar em como o egoísmo e a falta de cuidado com o outro são atitudes nocivas ao ser humano e, consequentemente, ao nosso planeta. Todas essas guerras, todo esse discurso de nós contra eles, toda essa divisão imposta pelo sistema gera desigualdade, que gera ódio, tristeza, pobreza, atraso, miséria, caos e fim. E é isso tudo o que estamos vendo com os nossos próprios olhos por aí, não é mesmo?
Perceba que isso não é privilégio nosso, do povo brasileiro. A situação é grave em todo o planeta, cada povo com as suas mazelas. Sejam elas de cunho material ou moral. Ou ambos, o que acho ainda mais grave. Acontece lá, imediatamente a gente sabe aqui e muitas vezes vamos juntos inconscientemente num mesmo movimento (quem não lembra da Primavera Árabe que chegou aqui nas manifestações de 2013?). Tudo isso agora, num mundo cada vez mais globalizado, com todas essas facilidades tecnológicas da atualidade ao nosso alcance, nos aproximando mais uns dos outros e ao mesmo tempo nos afastando, nos deixando cada vez mais sozinhos, ilhados nas nossas bolhas.
Preocupante, eu acho.
Hoje tudo é para ontem. Se não for para ser agora, já não presta mais. Imediatismo. Respostas rasas. Pouco tempo para um aprofundamento em seja lá qual assunto for. Ninguém mais lê nada que não tenha mais de dois parágrafos, não se concentra em nada por mais de dois minutos, as relações não fluem, pais não veem os filhos, os afetos se resumem a emoticons em mensagens via redes sociais. É tudo muito rarefeito, escapa pelas nossas mãos. E o cenário parece ainda mais assustador quando esfregam na nossa cara que a maior concentração de renda fica nas mãos de poucos, muito poucos, por pura ganância e egoísmo mesmo, e daí? Exploração total e absoluta. A consequência? Essa realidade atual e cada vez mais impactante para nós, brasileiros, e para nós, raça humana.
Como eu disse lá em cima, o mundo acabou. Mas é verdade também que podemos tentar criar um mundo diferente e a hora para um levante é agora. Não dá mais para esperarmos. Não é preciso pegar em armas. Não vamos cair no discurso do lado negro da força e alimentar ainda mais o ódio e a violência. Nada disso! Precisamos deixar esses sentimentos ruins se diluírem por si só e pronto. Nossas armas são outras. Nossas armas são o conhecimento, o respeito, o empoderamento, o cuidado com o outro, a igualdade de direitos e o amor. A revolução que a humanidade precisa agora não é mais a revolução cognitiva, dessa já tomamos consciência. A hora é da Revolução do coração.
Amais-vos, porra!
domingo, 15 de abril de 2018
Verbo intransigente
Cada vez que meu coração esvazia
uma estrela se apaga no céu,
é meia-noite invadindo o meio-dia,
raios, trovões, ventania,
um peso no peito,
é essa agonia.
Cada vez que meu coração esvazia
tudo ao redor escurece,
o sol meio que desaparece,
não tem luz de fim de tarde,
não tem luz no fim do túnel,
cegueira, poeira, pó.
Cada vez que meu coração esvazia
um sorriso vira lágrima em algum lugar,
chora o grande, chora o pequeno,
o antídoto é o mesmo que o veneno,
todo mundo junto de novo - eu, tu, ele,
conjugando o verbo intransigente:
amar.
uma estrela se apaga no céu,
é meia-noite invadindo o meio-dia,
raios, trovões, ventania,
um peso no peito,
é essa agonia.
Cada vez que meu coração esvazia
tudo ao redor escurece,
o sol meio que desaparece,
não tem luz de fim de tarde,
não tem luz no fim do túnel,
cegueira, poeira, pó.
Cada vez que meu coração esvazia
um sorriso vira lágrima em algum lugar,
chora o grande, chora o pequeno,
o antídoto é o mesmo que o veneno,
todo mundo junto de novo - eu, tu, ele,
conjugando o verbo intransigente:
amar.
sexta-feira, 13 de abril de 2018
Porto solidão
Carrego o mar em mim.
Sou maré cheia, correnteza,
onda brincando na areia,
água salgada, arrebentação.
Banho meu corpo em oceanos profundos,
nesses, onde o amor é mais bonito,
lá fora horizonte infinito, e eu ali,
ainda menino, aprendendo a nadar.
Porto solidão
Sou maré cheia, correnteza,
onda brincando na areia,
água salgada, arrebentação.
Banho meu corpo em oceanos profundos,
nesses, onde o amor é mais bonito,
lá fora horizonte infinito, e eu ali,
ainda menino, aprendendo a nadar.
Porto solidão
segunda-feira, 5 de março de 2018
Dá aqui um abraço
Era fim de tarde, tinha chovido demais, nuvens cinzas num céu carregado de relâmpagos, asfalto molhado, pistas derrapando, motoristas desatentos, imprudentes, um perigo constante nessa cidade sem esquinas. Ele já havia caminhado não se sabe por quantos quilômetros nem por quanto tempo, muito menos por onde. Ele não se importava com a chuva, que nesta época do ano vem aguar o Cerrado. Ele não se importava com a lama, que vem da terra vermelha e molhada que tingia seus pés. Ele sequer falava.
Ele apenas caminhava.
Por horas, dias, meses, uma vida inteira se preciso fosse. Ele seguia em silêncio. Olhava curioso para fora, prestava muita atenção no que vinha de dentro. Havia o ritmo, ele sabia. Um compasso suave, uma mente mais quieta e outras tantas lições para que ele pudesse aprender a viver sozinho e a não reclamar mais de nada. Não é de hoje que ele só olhava para frente, traçava o caminho, pisando descalço, aquelas mesmas músicas na playlist, os livros de sempre na mochila, outros sonhos em mente e lá adiante, por onde quer que ele fosse, o destino.
Eu não lembro muito bem onde ele estava quando encontrou o outro. Fazia tempo que não se falavam, que não se viam. Era como se não se conhecessem mais. Estavam ambos muito diferentes. Sei que ele seguia em frente, como de praxe, e o outro ali, parado, sem esperar nada nem ninguém, um álbum cheio de recortes, poucas histórias, uma vida distante, planos meio que esparramados pelo chão, numa confusão latente que eu confesso que nunca entendi. Era tudo muito estranho, mas ao mesmo tempo envolvente. Talvez por serem tão diferentes, não sei, pareciam se entender e saber o que cada um necessitava. Foi o que eu pude observar naquele fim de tarde, já quase noite, quando eles finalmente se encontraram depois de toda aquela chuva.
Eles se olharam.
Custaram um pouco a se falar. Lembro que foi ele quem quebrou o gelo e perguntou se estava tudo bem, por onde ele havia andado todo aquele tempo, que ele sentia saudades, mas que a vida era feito um rio caudaloso, desses que a correnteza te levava e você ia, apenas ia, mesmo sem saber onde aquele rio vai desaguar. O outro carregava uma certa tensão, tinha um jeito sério, um olhar tristonho, perdido. Respondeu quase que num sussurro que estava precisando chorar, que tinha um monte de coisas engasgadas, um peso que não era dele, um fardo que o deixava preso nesse chão e que seu terapeuta ultimamente tem sido cruel e que nas últimas sessões de análise tem apanhado sem dó nem piedade. Era preciso crescer, ele respondeu. Mas o outro parecia não dar atenção.
Mesmo assim, ele contou ao outro que fazia tempo que vinha andando por aí, que passou por poucas e boas, conheceu tantos lugares, conversou com tanta gente, amou, traiu, iludiu, se deixou iludir, pensou já ter encontrado a verdade, perdeu as máscaras, criou armaduras, não deixou endurecer seu coração, não perdeu a ternura, disse que quer amar de novo, que vinha esbarrando cada vez mais vezes com a felicidade e que a liberdade era o que deixava mais confiante na vida. O outro ouvia aquilo tudo em silêncio, sorvia cada palavra, sorria por dentro, se soltava aos poucos e deixava revelar um brilho manso no olhar. O outro muitas vezes não sabia o que falar. Não estava acostumado, não gostava de gente, achava vantagem ter poucos amigos. Vai ver é vantagem mesmo e eu não sei. Ele também parecia não saber, mas o outro estava acostumado assim. Ele gostava do outro. O outro dizia que também gostava dele. Eles eram amigos.
- Dá aqui um abraço.
(E isso naquele momento bastava)
quinta-feira, 1 de março de 2018
Pele precipício
Hoje sou janela que abre pra dentro e pra fora.
Parapeito a debruçar sobre mim mesmo
até perder-me no horizonte, essa linha tênue,
que me divide entre o raso e o profundo,
entre o claro e o escuro,
a razão e o coração,
o sim e o não,
minhas luzes, tantas sombras.
Carrego tudo aqui comigo.
Ganhei de presente cenas do céu mais bonito,
da lua cheia iluminando estrelas azuis
e a constelação de escorpião no centro do meu país,
bem no alto da minha cabeça,
fazendo tudo ao redor girar.
Sim, eu sou janela que um vento quente e forte cisma em querer fechar.
Porém, meus olhos, esses sempre bem abertos,
veem que lá fora já se despede a madrugada, essa insone inveterada.
Ela desconfia que trago dentro do peito a esperança,
feito catarse refletida nos primeiros raios de sol
de outras manhãs de amor infinito a me tatuar.
Ainda não te contei do inferno a queimar minha pele precipício.
Nem do salto que eu dei.
Nem do abismo em que eu mergulhei.
Nem do medo que eu não senti.
Não precisa.
Isso é só o início.
Parapeito a debruçar sobre mim mesmo
até perder-me no horizonte, essa linha tênue,
que me divide entre o raso e o profundo,
entre o claro e o escuro,
a razão e o coração,
o sim e o não,
minhas luzes, tantas sombras.
Carrego tudo aqui comigo.
Ganhei de presente cenas do céu mais bonito,
da lua cheia iluminando estrelas azuis
e a constelação de escorpião no centro do meu país,
bem no alto da minha cabeça,
fazendo tudo ao redor girar.
Sim, eu sou janela que um vento quente e forte cisma em querer fechar.
Porém, meus olhos, esses sempre bem abertos,
veem que lá fora já se despede a madrugada, essa insone inveterada.
Ela desconfia que trago dentro do peito a esperança,
feito catarse refletida nos primeiros raios de sol
de outras manhãs de amor infinito a me tatuar.
Ainda não te contei do inferno a queimar minha pele precipício.
Nem do salto que eu dei.
Nem do abismo em que eu mergulhei.
Nem do medo que eu não senti.
Não precisa.
Isso é só o início.
sexta-feira, 22 de dezembro de 2017
Tô chegando, Rio. Até já, Brasília.
Confesso que cheguei em Brasília sem saber exatamente o que eu estava vindo fazer aqui e muito menos o porquê de ter aceitado o convite para vir para cá. O trabalho não me assustava, muito pelo contrário. Dessa parte eu estava bem consciente da responsabilidade que iria assumir e, apesar de confiante, nunca deixei que a soberba e o orgulho dessem as cartas. Carrego comigo a humildade de aprender todo dia com todo mundo desde sempre e aqui não foi diferente.
Passei todos esses doze meses dividindo o pequeno espaço da quitinete onde eu moro e que cismo em chamar de apartamento, com uma mala cor de cinza chumbo. Eu olhava diariamente para esta mala e era como se ela olhasse para mim e me dissesse para eu não esquecer que tudo é passageiro, que a vida é uma eterna sala de embarque e desembarque, e que a qualquer momento te apontam um próximo destino.
Uma das minhas maiores dúvidas antes de chegar aqui, depois de ter chegado e até esse momento, é como sobreviver longe das nossas raízes e dos nossos frutos? Como não me sentir abandonado e, tampouco, abandonando? Foram 48 anos morando sempre com alguém, dividindo quarto, compartilhando amor, casa cheia, comida no fogão, pai, mãe, irmão, mulheres, três filhos, um neto. Companhia. Tinha sempre alguém comigo. Fosse para namorar, brigar, cuidar, dormir, rir, chorar, jogar conversa fora. Nunca, jamais, em tempo algum eu havia ficado sozinho de fato. Eu e eu por tanto tempo. Um desafio e tanto. Brasília me colocou à prova.
De cara, estranhei o silêncio. Brasília, por si só, já é uma cidade silenciosa, sem esquinas, sem ninguém, cheia de espaços, cheia de vazios, retas e curvas que elegantemente te convidam à solidão. Não foi difícil me acostumar com o silêncio da cidade, nem com a distância entre tudo e todos. A luta maior foi entender como lidar com meu próprio silêncio, chegar em casa, saber que eu não teria com quem conversar e ter de aceitar a minha própria companhia. Foi um processo me aproximar de mim. Corre para a análise. Corre para a Chapada. Lê Espinosa, tira os sapatos, se encanta, encanta, faz versos, prosa, poesia. Precisei de um tempo, é verdade, e durante esse tempo eu me dividi entre querer ficar sozinho e exercitar o dom que Deus me deu de fazer amigos. Consegui as duas coisas. Já tenho amigos muito queridos aqui, reuni uma turma boa. Já tenho também a noção daquele que se cala dentro de mim, daquele que se permite ouvir e que reconhece quando é o outro que está falando e não ele e que ele não precisa ouvir o que não quer. É só fazer silêncio. Agora eu sei.
Aqui onde eu moro, pelas bandas da Asa Norte, entre o Congresso e o Palácio da Alvorada, tem uma varanda que dá vista para uma área verde, bonita, bem cuidada, e de onde dá para ver um pedaço do lago Paranoá. É uma varanda minúscula, mas que te acolhe e te chama para ficar por ali para sempre. Eu, que nunca recusei um bom convite, perdi a conta de quantas noites e madrugadas fiquei por ali sem abrir a boca, só eu e minhas saudades, uma orquídea que teima em viver florida, meus cigarros, algumas doses de gin tônica, meus medos, dores, angústias, dúvidas, amores, muita gratidão por tudo e todo aquele céu, ora me abraçando em nuvens, ora me sorrindo em estrelas. É realmente lindo, demasiadamente lindo, o céu de Brasília.
Amanhã, antevéspera de Natal, embarco à tarde para o Rio de Janeiro. Vou ficar um tempo perto das minhas raízes e dos meus frutos, das minhas memórias afetivas. Vou ver meus filhos, neto, pai, irmão, o mar. Vou dar um tempo do Cerrado, do pequi, da música sertaneja, essas evidências todas, e vou ao encontro das montanhas, florestas, morros e contornos da cidade quente, purgatório da beleza e do caos, mas que para mim continua sendo maravilhosa, não me pergunte o porquê. Vou, mas volto. E se volto é porque ainda não acabou. Vai ver está só começando.
Tô chegando, Rio. Até já, Brasília.
Passei todos esses doze meses dividindo o pequeno espaço da quitinete onde eu moro e que cismo em chamar de apartamento, com uma mala cor de cinza chumbo. Eu olhava diariamente para esta mala e era como se ela olhasse para mim e me dissesse para eu não esquecer que tudo é passageiro, que a vida é uma eterna sala de embarque e desembarque, e que a qualquer momento te apontam um próximo destino.
Uma das minhas maiores dúvidas antes de chegar aqui, depois de ter chegado e até esse momento, é como sobreviver longe das nossas raízes e dos nossos frutos? Como não me sentir abandonado e, tampouco, abandonando? Foram 48 anos morando sempre com alguém, dividindo quarto, compartilhando amor, casa cheia, comida no fogão, pai, mãe, irmão, mulheres, três filhos, um neto. Companhia. Tinha sempre alguém comigo. Fosse para namorar, brigar, cuidar, dormir, rir, chorar, jogar conversa fora. Nunca, jamais, em tempo algum eu havia ficado sozinho de fato. Eu e eu por tanto tempo. Um desafio e tanto. Brasília me colocou à prova.
De cara, estranhei o silêncio. Brasília, por si só, já é uma cidade silenciosa, sem esquinas, sem ninguém, cheia de espaços, cheia de vazios, retas e curvas que elegantemente te convidam à solidão. Não foi difícil me acostumar com o silêncio da cidade, nem com a distância entre tudo e todos. A luta maior foi entender como lidar com meu próprio silêncio, chegar em casa, saber que eu não teria com quem conversar e ter de aceitar a minha própria companhia. Foi um processo me aproximar de mim. Corre para a análise. Corre para a Chapada. Lê Espinosa, tira os sapatos, se encanta, encanta, faz versos, prosa, poesia. Precisei de um tempo, é verdade, e durante esse tempo eu me dividi entre querer ficar sozinho e exercitar o dom que Deus me deu de fazer amigos. Consegui as duas coisas. Já tenho amigos muito queridos aqui, reuni uma turma boa. Já tenho também a noção daquele que se cala dentro de mim, daquele que se permite ouvir e que reconhece quando é o outro que está falando e não ele e que ele não precisa ouvir o que não quer. É só fazer silêncio. Agora eu sei.
Aqui onde eu moro, pelas bandas da Asa Norte, entre o Congresso e o Palácio da Alvorada, tem uma varanda que dá vista para uma área verde, bonita, bem cuidada, e de onde dá para ver um pedaço do lago Paranoá. É uma varanda minúscula, mas que te acolhe e te chama para ficar por ali para sempre. Eu, que nunca recusei um bom convite, perdi a conta de quantas noites e madrugadas fiquei por ali sem abrir a boca, só eu e minhas saudades, uma orquídea que teima em viver florida, meus cigarros, algumas doses de gin tônica, meus medos, dores, angústias, dúvidas, amores, muita gratidão por tudo e todo aquele céu, ora me abraçando em nuvens, ora me sorrindo em estrelas. É realmente lindo, demasiadamente lindo, o céu de Brasília.
Amanhã, antevéspera de Natal, embarco à tarde para o Rio de Janeiro. Vou ficar um tempo perto das minhas raízes e dos meus frutos, das minhas memórias afetivas. Vou ver meus filhos, neto, pai, irmão, o mar. Vou dar um tempo do Cerrado, do pequi, da música sertaneja, essas evidências todas, e vou ao encontro das montanhas, florestas, morros e contornos da cidade quente, purgatório da beleza e do caos, mas que para mim continua sendo maravilhosa, não me pergunte o porquê. Vou, mas volto. E se volto é porque ainda não acabou. Vai ver está só começando.
Tô chegando, Rio. Até já, Brasília.
terça-feira, 19 de dezembro de 2017
Hemisférios
Eu não sei o que eu faço de mim
se cada pedaço é de um jeito,
se ainda há nós dentro do peito,
um traço preciso dividindo tudo ao meio,
hemisférios norte e sul.
Meus dois lados.
Um bonito e um feio,
um vazio e um cheio,
um arrumado e um desfeito
e essa lua minguando de fases lá fora.
Traz com ela o vento insone da noite,
céu de estrelas coloridas,
abro os olhos,
tudo brilha,
e metade de mim quer andar descalço
nas areias quentes desse meu deserto particular.
A outra metade que fica quer se derramar em temporal,
se despir nas águas limpas do rio verde,
corpo solto,
correnteza,
mato, vida, natureza,
verso, verbo, rima.
Ponto final.
se cada pedaço é de um jeito,
se ainda há nós dentro do peito,
um traço preciso dividindo tudo ao meio,
hemisférios norte e sul.
Meus dois lados.
Um bonito e um feio,
um vazio e um cheio,
um arrumado e um desfeito
e essa lua minguando de fases lá fora.
Traz com ela o vento insone da noite,
céu de estrelas coloridas,
abro os olhos,
tudo brilha,
e metade de mim quer andar descalço
nas areias quentes desse meu deserto particular.
A outra metade que fica quer se derramar em temporal,
se despir nas águas limpas do rio verde,
corpo solto,
correnteza,
mato, vida, natureza,
verso, verbo, rima.
Ponto final.
segunda-feira, 27 de novembro de 2017
Operários
Não faz muito tempo
e eu tenho andado em silêncio
tentando entender o que se passa ao redor.
Se lá fora o caos,
já encontrei vários de mim por aí.
Perdidos, todos.
Tolos, cegos, loucos.
Muitos deixei para trás,
outros seguem comigo.
Já são meus amigos,
pouco importa onde eu vou.
Eles sabem de tudo,
nunca perguntam quem sou.
Eu, um homem, de fato,
de carne, de osso,
argamassa, barro, construção.
Operários de mim.
Com eles vou construindo meu templo
e sigo pisando firme nesse chão.
Sou cabeça, tronco, membros,
sou tantas outras possibilidades.
Sou mosaico, sou inteiro.
Tudo aquilo que não é pela metade.
Tudo aquilo que não é pela metade.
quarta-feira, 25 de outubro de 2017
Sinais do apocalipse
Domingo passado fui do céu ao inferno. Pela quinta vez desde que vim morar em Brasília, peguei a estrada e fugi pra Chapada dos Veadeiros. A primeira vez que estive lá foi em junho, já na época da seca. Desde então, volto sempre que posso. A estrada até lá é um tapete, os contornos dos morros são deslumbrantes, o verde sobrevivendo na aridez vermelha do barro é emocionante, a enorme rocha de quartzo rosa ali embaixo, o berço dos nossos rios, as veredas de buritis, o silencio nas trilhas, a água limpa das cachoeiras. A Chapada dos Veadeiros é a experiencia viva de Espinoza, um filósofo português/holandês do século XVII que anda fazendo a minha cabeça. Impactante. Mas pegou fogo em quase tudo. E eu vi a tragédia de perto.
Os focos de incêndio já haviam começado uns dez dias antes, quando eu também estava lá com um grupo de vinte amigos, numa viagem inesquecível. O Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros, motivo da discórdia e do ódio dos fazendeiros da região, já estava fechado por conta do fogo ainda sob controle. Durante a semana eu ia acompanhando as notícias, meio apreensivo, pois os focos de incêndio estavam aumentando, o parque continuava fechado, a mata ardia em chamas, a preocupação aumentava, até que no sábado, ainda de madrugada, peguei a estrada e lá fui eu mais uma vez rumo ao paraíso, sem saber ao certo o que eu ia encontrar. Fomos eu e uma amiga, Rosa, que tinha chegado do Rio de Janeiro para se desligar do mundo aqui pelas bandas do Cerrado.
Fomos direto para Cavalcante. Quatro horas de viagem. Mais uma hora numa estrada de terra batida até chegar na comunidade quilombola dos Kalungas, onde ainda encaramos mais uma hora de trilha sob um sol escaldante entre pedras e árvores retorcidas. A recompensa? As cachoeiras da Capivara e Santa Bárbara, esta última mais parece um altar banhado por uma água azul como eu nunca tinha visto antes. Agradeci por poder estar ali, por poder sentir aquilo tudo que eu estava sentindo, por poder me reconhecer enquanto menino, mato, pedra, água, ar. Era eu e o todo ali. O todo era eu. A Chapada me fez perceber ser assim desde a primeira vez.
Domingo, depois da preguiça e do café da manhã, era hora de voltar pra Brasília. Não sem antes dar um mergulho numa outra cachoeira e passar por São Jorge, que minha amiga queria conhecer e eu queria apresentar. De Cavalcante a Alto Paraíso, um rastro crescente de destruição foi nos acompanhando de um lado e de outro da estrada. Quando pegamos a reta para São Jorge, não demorou muito e o cenário foi ficando ainda mais assustador. Não havia mais o azul do céu, só uma densa camada de fumaça negra, o Morro da Baleia completamente tomado pelo fogo, o Jardim de Maytrea com seus buritis de mais de trezentos anos agonizava, aves voavam sem rumo e eu também fiquei sem saber para onde ir.
Parei o carro no meio da pista sem acreditar no que eu estava vendo, sem saber se eu chorava, sem saber para onde eu olhava, sem saber o que eu fazia. Abri os vidros, foi quase impossível respirar. Atônito, fiz algumas fotos e dei meia volta. Era arriscado seguir em frente. Coração na boca, cabeça a mil, carro a 150 por hora, voltei para Brasília com uma tristeza muito grande no peito. Ver aquele paraíso transformado em inferno pela ganancia humana foi das piores sensações que eu tive desde que cheguei aqui. Eu vi o apocalipse. Nunca vou esquecer.
E um silencio ensurdecedor fez-se em mim.
Semana que vem faz dez meses que cheguei em Brasília. Dez meses sem andar de ônibus, sem meus meninos todos os dias por perto, sem ouvir as histórias nas ruas que alimentavam meus textos, sem passar na casa do Raul para bater um papo despretensioso num fim de tarde qualquer, sem subir as ladeiras de Santa Teresa e encontrar os amigos no Largo das Neves, sem a linha do trem da Central do Brasil que divide o meu subúrbio, sem uma ducha lá no alto das Paineiras, sem o gosto salgado do mar. Dez meses que estou aqui, no centro de um planalto já não tão vazio. Na capital do país que arde.
Fui bem recebido. Brasília me acolheu de uma maneira que me surpreendeu. Quem me conhece sabe que eu nunca, jamais, em tempo algum pensei em morar aqui. A ideia de morar no Cerrado não passava pela minha cabeça. Longe de tudo e de todos, eu, que fui acostumado com casa cheia? Nem em sonho! A verdade é que aqui estou e não me arrependo de ter vindo. Mesmo isso aqui sendo um deserto, mesmo com tantas tesourinhas e superquadras que me deixam perdido, mesmo aqui sendo palco desse circo político que acaba com a dignidade do nosso povo, mesmo com essa proximidade com o falso poder, mesmo com tudo isso que está aí, é aqui em Brasília que eu estou aprendendo a viver sozinho, a lidar de verdade comigo mesmo, a enfrentar meus medos e silêncios. Eu sempre tive medo do silêncio.
E de fogo também, confesso.
#soschapadadosveadeiros
domingo, 20 de agosto de 2017
Material humano - ou Como lidar com a solidão
Das coisas que mais sinto falta aqui em Brasília é material humano. Fora o pessoal do meu trabalho, os amigos dos finais de semana, os primos vez ou outra, aqui é difícil esbarrar com alguém para trocar um simples oi, tudo bem, bom dia, boa tarde ou boa noite. Que dirá trocar uma ideia. Não ando de ônibus (transporte público aqui é piada), não cruzo esquinas (elas não existem), não atravesso uma rua sequer. Até porque, aqui não tem rua, aqui tem quadra. É tudo muito organizado, planejado, vazio, grande, monumental. Tudo meio igual. Confunde quem chega assim, de repente, que nem eu. Dá dez da noite e já não tem mais ninguém andando entre as quadras. Dez da manhã também não tem, não se iluda. Sigo sozinho. Sinto falta de gente. Meus amigos daqui também sentem que eu sei.
Nessa época, Brasília fica ainda mais bonita. Sim, nossa capital é muito bonita. Tem o traço do mestre Niemeyer, tem o céu mais incrível do mundo, uma luz indescritível e um pôr-do-sol e uma lua minguante, nova, crescente ou cheia, que são espetáculos à parte. Isso sem falar nos ipês, que colorem tudo de roxo, amarelo e branco ao redor, e a vista, que parece alcançar o infinito e além. Um verdadeiro convite à contemplação, ao silêncio e à solidão. Coisas a que não estava acostumado.
Eu, curioso que só, bom de papo, bom ouvido, sempre ligado no que poderia resultar uma boa história, transformar tudo em contos, poesias, de repente me vejo forçado a exercitar a solidão e esse silêncio absoluto. Estranhei e ainda estranho, confesso. Mas já estou começando a gostar de conviver comigo mesmo. Até outro dia, eu dizia que precisava sair de casa para ver gente porque eu não me aguentava. Eu falo demais comigo mesmo. Eu me irrito.
Neste domingo, como de costume, fui acordado pelo coronel, meu pai. Brigamos, como de costume também, mas depois fizemos as pazes. O ritmo sempre foi esse. Oremos que um dia isso mude. O fato é que depois do toque da alvorada, eu não consegui mais dormir. Aquele dia lindo lá fora, tudo azul, sem uma nuvem no céu, barcos no Paranoá, foi a dica para eu colocar minha sunga, pegar toalha, óculos, boné, celular e exercer meu papel de filho de Deus na beira da piscina. Sozinho, como de costume.
O sol estava de rachar, o lugar já estava meio cheio, duas loiras com as bundas - uma murcha e outra bem razoável - para cima, uma senhora meio gordinha, mas bem resolvida, de biquíni e a barriga de fora, um marombado, a namorada do marombado, uma lésbica com cara de poucos amigos, dois maconheiros chapados, um casal cansado na faixa dos seus quarenta e tantos anos com uma filha pequena, magrinha, loirinha, tristinha, e um outro casal, hétero, em princípio, jovens e bem bonitos os dois, que ocupava uma das únicas mesas com ombrelone. Perto deles tinha uma cadeira e uma mesinha sobrando.
- Posso usar?, perguntei.
- Pode.
- Obrigado, respondi.
E não mais nos falamos.
Desde que vim morar aqui nesse deserto, carrego comigo meus fieis companheiros: celulares, cigarros, isqueiro, uma garrafa d'água e mais recentemente introduzi uma caixinha de som que eu comprei aqui na Feira do Paraguai, uma espécie de camelódromo que eles preferem chamar de Feira dos Importados. Tudo muamba. Só sei que o som é bom à beça e sempre que eu vou para a piscina, evita que eu ouça o danado do sertanejo que cismam em botar para tocar aqui por essas bandas. Ouço as músicas que eu quero, pego meu sol, dou umas braçadas na piscina e agradeço ao cara lá de cima por estar me deixando saber como é a vida desse povo privilegiado, bem nascido, bem alimentado, supremacia total. Brincadeiras à parte, não me iludo, nem me contamino. Também carrego comigo desde que vim morar nesse deserto a certeza de que tudo é passageiro. Até o silêncio.
Eu já tinha dado alguns mergulhos quando vi chegar um pai com sua filha. Ele careca, peludo, com a toalha estendida nas costas, e ela moreninha, espevitada, com uma boia cor de rosa na cintura. Vi também quando os olhinhos da menina que chegava cruzaram com os olhinhos da outra menina, loirinha, magrinha, tristinha, filha do casal cansado. Rapidamente, a menina que até então estava meio sorumbática, entediada, muito provavelmente porque estava se sentindo sozinha, nadou até a outra borda para dar as boas vindas para aquela que chegava. Já são amigas, pensei.
Que nada. Nunca haviam se encontrado antes na vida, mas emendaram num papo tão gostoso, como se fossem amigas de longa data. Uma delícia de cena bem ali na minha frente que eu esqueci até da música que estava tocando. Elas se apresentaram. Uma morava no 305 do bloco nove e a outra no 204 do bloco três. Uma tem seis anos e a outra sete. Uma é filha única e a outra tem dois irmãos, mas eles são implicantes e só gostam de jogar bola. Uma já tinha almoçado e a outra estava com fome. Uma cochicha. Outra ri. As duas mergulham, as duas pulam, as duas conversam. Os pais só de longe.
Que nada. Nunca haviam se encontrado antes na vida, mas emendaram num papo tão gostoso, como se fossem amigas de longa data. Uma delícia de cena bem ali na minha frente que eu esqueci até da música que estava tocando. Elas se apresentaram. Uma morava no 305 do bloco nove e a outra no 204 do bloco três. Uma tem seis anos e a outra sete. Uma é filha única e a outra tem dois irmãos, mas eles são implicantes e só gostam de jogar bola. Uma já tinha almoçado e a outra estava com fome. Uma cochicha. Outra ri. As duas mergulham, as duas pulam, as duas conversam. Os pais só de longe.
E eu ali, dentro d'água, sozinho, achando a maior graça naquelas duas, que pareciam nem se dar conta de que estavam em Brasília e que em Brasília as pessoas não agem assim. Olhei ao redor. Todo mundo calado. Cada um na sua bolha. Como se o do lado não existisse.
A gente tem muito o que aprender com essas crianças.
A gente tem muito o que aprender com essas crianças.
quarta-feira, 16 de agosto de 2017
Litoral
Feito árvore, que dança com o vento ante a muralha de pedra, ali em frente, tronco firme, raiz forte, o sopro que vem do Norte, galhos a abraçar o céu vermelho, pincelado do barro de quem pisa a terra, bato no ritmo acelerado os meus pés descalços nesse chão.
É dia.
Nos arredores ainda há silêncio e, por sorte, eu acabo de chegar, vindo sabe-se lá de onde, tanto tempo andando que eu até já me esqueci.
O ar é seco, a linha é reta, não existe palavra certa e determinadas coisas não quero mesmo mais lembrar. Outras tantas gosto de saber que vieram comigo até aqui, acompanhando a correnteza desse rio que é a vida.
A minha.
Ontem, antes deles aparecerem, me fiz pedra de limo verde mais uma vez, que era para ficar parado e deixar o rio passar. Eles se foram, enfim.
Hoje, de novo sozinho, pouco antes da hora de voltar, saltei dessa pedra e desaguei no mar, visitei meus oceanos sempre tão profundos, nadei o quanto pude, até me espalhar nas ondas de espumas brancas que brincavam nas areias grossas do seu corpo, terra à vista, litoral.
Logo ali em frente, a árvore dançava com o vento ante a muralha de pedra.
quarta-feira, 9 de agosto de 2017
Pedra de rio
É como se algo tivesse se rompido em mim.
Um leve estampido, um tiro certeiro,
carcarás em céu azul sobrevoando o barro vermelho
e a bala atravessando meu peito ali exposto.
Nu.
Entre tantos outros, eu era só mais um corpo.
Uma mera estatística, um número a menos,
um leve rascunho em grafite barato,
uma página em branco,
e todo aquele silêncio que jamais entendi.
Porque só eu ouvia os gritos que vinham de dentro.
Ecos me sussurrando seus lamentos,
uma espécie de suplício, um gosto amargo doce em minha boca,
e o gesto brusco a me vendar os olhos.
Tirei, então, o véu.
Naquele instante, o que era novo se descortinou.
Feito água limpa que acabara de brotar da fonte,
molhando meus pés, lavando minha alma.
E eu ali, pedra de rio, parado,
deixando a correnteza levar tudo embora outra vez.
Um leve estampido, um tiro certeiro,
carcarás em céu azul sobrevoando o barro vermelho
e a bala atravessando meu peito ali exposto.
Nu.
Entre tantos outros, eu era só mais um corpo.
Uma mera estatística, um número a menos,
um leve rascunho em grafite barato,
uma página em branco,
e todo aquele silêncio que jamais entendi.
Porque só eu ouvia os gritos que vinham de dentro.
Ecos me sussurrando seus lamentos,
uma espécie de suplício, um gosto amargo doce em minha boca,
e o gesto brusco a me vendar os olhos.
Tirei, então, o véu.
Naquele instante, o que era novo se descortinou.
Feito água limpa que acabara de brotar da fonte,
molhando meus pés, lavando minha alma.
E eu ali, pedra de rio, parado,
deixando a correnteza levar tudo embora outra vez.
terça-feira, 20 de junho de 2017
Poço das Esmeraldas
Dia desses pulei da pedra e mergulhei na água verde,
cor de esmeralda, poço fundo, dia claro
e aquele sentimento raro,
luz de um riso fácil a me guiar na correnteza.
Solto.
Larguei meu corpo todo submerso no ventre daquele rio que me recebia.
Quem não sabia, achava que era só mais um corpo ali.
Mas era eu,
entregue, inteiro,
a me perder do homem
e me banhar menino.
Dia desses pulei da pedra e mergulhei no útero.
cor de esmeralda, poço fundo, dia claro
e aquele sentimento raro,
luz de um riso fácil a me guiar na correnteza.
Solto.
Larguei meu corpo todo submerso no ventre daquele rio que me recebia.
Quem não sabia, achava que era só mais um corpo ali.
Mas era eu,
entregue, inteiro,
a me perder do homem
e me banhar menino.
Dia desses pulei da pedra e mergulhei no útero.
quarta-feira, 31 de maio de 2017
Despir-se
Noite adentro, lua crescendo lá fora, umas nuvens rabiscando o céu, e ele lá, daquele jeito, coração acelerado, aquelas lembranças todas. As mais recentes. As mais remotas. As festas de família na casa da avó e as poucas palavras que trocou a vida inteira com o avô. As cadeiras na calçada, o perigo que era a linha do trem, o posto de gasolina Atlantic bem na esquina e o cheiro de óleo queimado que vinha de lá.
Eram sempre umas histórias mal contadas, meias palavras, coisas que crianças não precisavam saber. Tabus, amores, a música de Keith Jarrett, o cheiro bom do sexo, o vício desnecessário do cigarro, as tardes cinzas de inverno e a mente a misturar-lhe o antes, o agora e o depois.
Parecia loucura.
Ele, então menino, já percebia aquela coisa toda. Desconfiava de que tudo era parte de uma correnteza perene daquele que era rio - e que era ele mesmo o próprio rio - desaguando, cedo ou tarde, caudaloso, em brancas páginas de papel.
Bastava-lhe só um sopro, e a inspiração, que é feito brisa, muitas vezes se transformava em vendaval. Um vento ensurdecedor, que derrubava todas as árvores, que agitava todas as ondas, que escancarava as portas, invadia as casas, levantava a poeira, levava todas as roupas do varal.
E ele ali, agora homem, a pisar descalço nesse chão sagrado, completamente nu, revelado em rima, em verso, em prosa, em coisa e tal.
Escrever é se despir.
Eram sempre umas histórias mal contadas, meias palavras, coisas que crianças não precisavam saber. Tabus, amores, a música de Keith Jarrett, o cheiro bom do sexo, o vício desnecessário do cigarro, as tardes cinzas de inverno e a mente a misturar-lhe o antes, o agora e o depois.
Parecia loucura.
Ele, então menino, já percebia aquela coisa toda. Desconfiava de que tudo era parte de uma correnteza perene daquele que era rio - e que era ele mesmo o próprio rio - desaguando, cedo ou tarde, caudaloso, em brancas páginas de papel.
Bastava-lhe só um sopro, e a inspiração, que é feito brisa, muitas vezes se transformava em vendaval. Um vento ensurdecedor, que derrubava todas as árvores, que agitava todas as ondas, que escancarava as portas, invadia as casas, levantava a poeira, levava todas as roupas do varal.
E ele ali, agora homem, a pisar descalço nesse chão sagrado, completamente nu, revelado em rima, em verso, em prosa, em coisa e tal.
Escrever é se despir.
quarta-feira, 24 de maio de 2017
Essa coisa toda
sei lá...
é um aperto que dá.
é um nó no meu peito,
uma falta de ar,
um país às avessas,
essa sede,
essa fome,
essa ira,
essa sujeira toda
e a saudade que eu sinto do mar.
é um aperto que dá.
é um nó no meu peito,
uma falta de ar,
um país às avessas,
essa sede,
essa fome,
essa ira,
essa sujeira toda
e a saudade que eu sinto do mar.
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