segunda-feira, 9 de março de 2026

Escrever é acender pequenas luzes

Por vezes ultrapasso limites,
sigo linhas tênues, rompo barreiras,
corro risco nas encruzilhadas e aponto dedos
para os céus da minha boca em noites estreladas. 

Nas madrugadas, elas, as palavras, vêm me visitar
e, feito nuvens sorrateiras, invadem minha alma já inquieta, deixam minha mente sempre viva
e a língua leve e solta
a desamarrar os versos que ora canto. 

Não, não é meu pranto, nem é lamento triste.
É tudo o que cabe aqui dentro. 

Cada palavra em si guardada é fonte iluminada,
é candeeiro nesse mundo de nosso Senhor.

Onde do verbo também se faz vida,
da cicatriz que já foi ferida,
dos meus pés que tropeçaram nas pedras
e o coração pulsando em meu peito,
semeando tudo como fosse flor. 


 


quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

(In)sanidade

E se o castelo desabasse, o mundo desmoronasse, tudo mais se esvaísse?
Quantos laços seriam desfeitos entre frases inauditas, gestos involuntários,
ou as tais preces que ninguém nunca sussurrou?

Ainda trago amor em meu peito, te digo.
E mais tudo aquilo que arde, dilata, ilude, transpassa,
rompe o que não deveria ter sido e, por isso mesmo, permanece em mim. 

Enquanto isso, um rio corre silencioso lá fora, nuvens borram o alto do céu. 

É dia. 

Aqui dentro, entre medos e desertos, abre-se um clarão. 

É luz. 

O que tu vês? Consegues enxergar o que carrego em minhas mãos?
São os versos que eu roubei da tua boca e que hoje esfrego
sem pudor na minha língua áspera, úmida, casta,
dividida entre a moralidade e o desejo. 

Poucas vezes estive tão são. 

quarta-feira, 3 de dezembro de 2025

Tudo é verbo

Tenho palavras guardadas em lugares secretos, mantidas à distância de um verso. Como um sopro num poema, uma prosa pequena qualquer. 

Também trago rimas escondidas e estrofes confusas, onde o amor nem sempre é a matéria-prima. Porque aqui dentro de mim tudo é verbo, delírio, lira e gritaria. 

Lá fora, resta o eco sobrepondo-se ao tempo e o céu a derramar-se encantos sobre meu peito farto.

Esqueço algumas frases, confesso, mas o pouco que guardo na memória me atravessa os olhos.
 São poesias, tanto as dores quanto as alegrias, e elas nem só a mim pertencem. 


Sou poeta, ora. 


E porque sou poeta, rabisco em mim rascunhos de um pretérito imperfeito que ainda se faz presente nesta carne, neste sangue, neste corpo que hoje habito, mas que um dia a terra há de comer.


Daí, então, só me restará o silêncio. 

quinta-feira, 27 de novembro de 2025

O que eu ainda não disse

Eu deveria me escrever mais cartas. Cartas onde eu contaria para mim mesmo tudo aquilo que ainda não disse a respeito desse que ora pensa que sou eu. 

Porque nunca me importou saber, é fato. 


Se sou força e também sou farsa. Soro e também veneno. Se sou grande ou sou pequeno e toda essa luz dessa fé que me cega, me guia e me assombra. 

 

Sou o bem, sou o mal. Já fui et cetera, noutras vezes fui o tal. 

 

Sou isso, porém nunca omisso, muito embora eu fosse tudo aquilo que eu não gostaria de ter sido. Desde o início. 

 

Eu deveria me escrever mais cartas, confesso, me contando o que eu nem sei se eu gostaria de saber o que eu sou. 

 

Então, eu me apressaria a me dizer o que ninguém nunca me disse. Eu repetiria, feito eco, quantas vezes o outro eu me pedisse, eu juro. 

 

Eu não me levaria a mal. 

 

Porque eu sou o que eu quiser. 

 

(Você também, e daí?)

 

 

 


quinta-feira, 20 de novembro de 2025

Então, dance!

Parece que o tempo nem existe nesse derramar dos olhos nus a céus abertos, quando tudo, enfim, é verso-correnteza, braço de rio caudaloso desaguando rimas breves no movimento das marés. 

É a voz do vento que sopra a estrofe, o ritmo do poema que encanta e estanca a ferida exata na métrica ora estética dos sonetos, que hoje soam perdidos, feito a desesperança daqueles que ainda insistem em viver sem dançar. 

sábado, 16 de agosto de 2025

Entrelinhas

O vácuo entre o som e a tua ausência fez de tudo aquilo hiato no momento exato em que o verso escrito viu-se concreto em minhas linhas. 

Imaginário é o verbo sagrado que trago nessas rimas conflitantes que não são de agora, nem de antes. 

É a prosa poética que leio nas entrelinhas de tantas frases por mim esquecidas, inauditas no meu tempo-espaço. 

São trechos revelados num único sopro de ar no meu peito, já desfeito, e pelo assovio do vento sacudindo as estrofes que perdi pelas esquinas.

sábado, 19 de julho de 2025

A luz que me guia

Poesia em mim é sobressalto.

É vento forte levantando a poeira

é rastro de fogo na beira do rio,

é a Iara-sereia que hipnotiza

enquanto canta seus versos 

na correnteza cega que me seduz.  


Poesia em mim é feito pranto.

Mas não um pranto triste. 

É pranto que arrebata, daquele que arrepia, acende a luz das almas, ilumina as noites, enobrece os dias. 


Poesia em mim é a luz que me guia. 

É o meu firmamento, candeeiro de rimas ora imperfeitas que cismam em riscar o céu da minha boca e deslizar na tua língua. 


Poesia em mim é juramento, é o verbo atestado, é o soco no peito do desavisado, a lira dos meus delírios mais profanos, a ode precisa e profunda de todos os meus planos, qual fossem estrofes mais perto do céu. 

segunda-feira, 30 de junho de 2025

Seiva bruta

É só poesia o que escorre da minha pele, acredite. E meu suor é a seiva doce das raizes com as quais eu lambuzo todos os dedos vacilantes e deslizo um por um na ponta da minha língua áspera, úmida, quente, ávida por palavras que me nutrem e que eu sorvo lentamente, derramadas em versos únicos neste corpo que ora habito. 

segunda-feira, 6 de janeiro de 2025

Outras preces

Ainda que eu não me salvasse, ainda que eu não resistisse, seria como se no fundo eu soubesse que algo em mim jamais se esvaía. 

Feito o sol se pondo lá fora com a certeza de voltar no outro dia junto às nuvens que bailam no céu coreografias que somem com o tempo. 


É ventania.


Dia desses sonhei com o mar avançando sobre as calçadas da cidade nua e toda aquela água salgada limpava meu corpo castigado e que também estava nu. Tudo em mim ardia. 


Como em todos os outros sonhos, mais uma vez eu estava só. 


Tinha os pés enterrados na areia, mãos apontando as estrelas, olhos refletindo 

as ondas em gestos contidos, e o pranto do arrebatamento sacudindo meu peito em silêncio, de um jeito que eu nunca soube explicar.


É porque trago em mim outras preces, outras rezas, outras crenças. 


Eu transformo dor em poesia.

quinta-feira, 17 de outubro de 2024

A vida é sagrada

Eu queria mesmo era escrever sobre um mundo em prosa, pintar nuvens cor de rosa nesse céu azul anil. Rimar meus versos tortos sobre as curvas das cadeias de montanhas, mergulhar com minhas frases neste imenso rio caudaloso que segue sereno seu curso em busca do mar. Cruzar palavras sonoras nas estrofes das minhas margens e me deixar plantar meus pés descalços feito sementes nessa terra quente, úmida, útero, mãe.

Porque a vida é sagrada.

Mas disso eles não sabem e nem querem saber. Senhores da Guerra. E nos separam, machucam, queimam, estraçalham, bombardeiam, nos tiram do mapa sem ter um porquê. Transmitem tudo online, on time, full time com cinismo e requintes de crueldade. São terríveis as cenas do fim do mundo nesse filme que eu sequer pedi para ver. Então, escrevo sobre balas traçantes, mísseis carregados de dor, sangue, cinza, chumbo, crianças com corpos mutilados, pais desesperados, pavor por todos os lados, um verdadeiro horror.

Mas a vida é sagrada, eu insisto. 

A vida é sagrada, eu repito. 

É sagrada, eu grito. 

(Ainda ontem ela chorou na mesa do bar e seus olhos inundaram os meus). 


 


domingo, 7 de julho de 2024

Pele

O corpo como expressão única do verbo infinitivo

- conjugado ao pé do ouvido - 

e a língua solta, breve, úmida, 

a deslizar entre os versos tímidos 

que transpiram vestes nuas.


quarta-feira, 27 de março de 2024

Creia

Segue essa vida, some na estrada, pega outra via, cruza avenidas. Vá, não espere mais nada. 

Encontre teus becos, repare em teus erros, ouça teus ecos, afaste teus medos e creia: há ruas que são mesmo vazias, onde vivem às escuras. 

Diante disso não corra, não fuja, não fique assustado. 


Tampouco parado. 

Pegue um rumo mais bonito, firma os pés no chão batido, plante boas sementes, colha dos teus frutos. Do lado de dentro é infinito, vê?


Então, acenda uma vela, reza um Pai Nosso e três Ave Maria para que Deus te ilumine e a nós não desampare. 


(fora da realidade é tudo mistério)


sexta-feira, 16 de fevereiro de 2024

Lírico

Traz de novo o gosto dos versos comuns, o manto doce das poesias, as rimas fáceis que rascunhas sobre esse corpo onde jaz teus verbos irregulares. 

Canta o que te faz contente, velhas cantigas de um trovador, mostra que és artista nobre, muito embora pobre, perdida no lirismo de um poeta-músico, este sim um sonhador.


Dança a música que toca agora, troca a tua pele, despe as tuas roupas, veste tua alegria enquanto rodopias nua neste salão vazio e cospe de uma vez por todas tua solidão. 

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2024

A sombrinha


Não sou fotógrafo, sou jornalista. E, como quase todo jornalista, sou observador. Carrego em mim palavras. Já meus olhos, muitas vezes cobrem-se de lentes coloridas e noutras tantas desbotadas. Sigo ajustando meus parágrafos enquanto foco em cenas comuns do dia-a-dia. Coisas sutis chamam a minha atenção: um olhar emocionado, um gesto atravessado, uma frase dita ao acaso, um abraço fora de hora, um céu de noites limpas e aquela senhora carregando flores e desaparecendo na esquina. Encantado, então, observo, absorvo, internalizo, registro e, quando posso, fotografo. 

Também não sou ciclista, mas pedalo. E volta e meia, enquanto pedalo aqui pelas bandas do planalto, esqueço que já passei dos 50 e me vejo menino de novo. Feito criança, enxergo tudo como se fosse novidade, como se eu estivesse descobrindo o mundo ali, sobre duas rodas, naquele instante. O que se apresenta diante de mim muitas vezes me espanta, me afeta, me alegra, me inspira e, quando não faço fotografias, guardo tudo no álbum que trago aqui dentro, que é pra eu nunca esquecer e, quem sabe, um dia escrever.

Dia desses, enquanto pedalava, resolvi parar um pouco para me esticar. Era início de tarde de um domingo, eu já havia dado umas duas voltas no parque, fazia calor e a luz do verão aqui no Cerrado clareando até o que a gente pensa que não dá mais para clarear. Fiquei um tempo ali, sozinho, parafraseando Gil, deitado na grama do parque sob o sol que ardia no alto do céu de Brasília. Lá longe, um casal apaixonado, braços dados, vem andando devagar. Ele com uma sombrinha vermelha a protegê-la do sol quente. Ela se derretendo toda para ele. Atrás deles, o lago cintilava, refletindo nuvens apressadas. Cena linda de se ver. 

Ao meu lado, as árvores sacodiam todos os galhos, como se aplaudissem "O Grande Produtor", agradecidas por espetáculo tão grandioso. Era, de fato, como se o amor, naquele breve momento, fizesse tudo ao meu redor sorrir. Eu também sorria. Por dentro e por fora eu também sorria. Na beira do lago, um senhor molhava os pés e levantava os braços como que em oração pelos dois enamorados - eu imaginava -, feito coisa de cinema, tal qual versos de um poema que um dia eu escrevi. 

Nunca esqueci.     


domingo, 17 de dezembro de 2023

Benditos sejamos

Abençoados pela chuva e pelo vento 

Pelo espaço e pelo tempo 

Por inteiro, não pela metade.


Agora é sarar tudo que arde

Estancar tudo que sangra: 

a pele, o peito, a alma.


(Tempo acalma essa vontade)


Benditos já fomos nós, lembra? 

Que outrora passeávamos nus por aqui.

 

Corpos molhados lado a lado,

Troncos e membros espalhados, 

Raízes profundas nesse chão.


(Tempo perdido volta mais não)


Glorificados sejam todos os que amam

Com bravura e com coragem,

Com firmeza e com verdade

Com encanto e liberdade.


Porque vida é tempestade, 

é esse aguaceiro, é vendaval.


(Amor é benção).

quinta-feira, 23 de novembro de 2023

Interpretação de texto

Escrevo como quem canta para ouvir a si mesmo, quebrando o pacto dos versos que trago em silêncio desde o dia em que aprendi que há tantos eus ecoando lá fora (à procura de outras rimas). 

sexta-feira, 3 de novembro de 2023

Virada de tempo

Bastava meia palavra para que tudo mudasse e outros ventos soprassem rajadas de versos nos nossos destinos. 

sexta-feira, 15 de setembro de 2023

Poesia oculta

Trago aqui dentro uma poesia silenciosa, um bailado perene de rimas passeando sorrateiramente na minha imaginação. 

Guardo frases nunca escritas, crio discursos jamais lidos, tenho diálogos ocultos em versos, não em prosa. 

Viver é verbo. 

O resto é ficção. 

terça-feira, 11 de julho de 2023

A estrada é de cada um

Já fiz coisas imperdoáveis desde que estou aqui. 
Amei quem não devia, mantive chamas acesas, brinquei noites e dias. 
Na cidade sem esquinas rascunhei versos impublicáveis, rompi com esquemas, 
me despi dos problemas, fui do céu ao inferno. 

Tudo do jeito que eu bem entendia. 

É que eu trouxe comigo a poesia. 
Espalhei aqui muitas das minhas estrofes, 
reescrevi meus parágrafos, me deixei levar por outros versos
sem nem sequer saber para onde eu ia. 

À minha frente há luz e sombra, eu sei. 
Acima, o Altíssimo camuflado desse azul tão claro, tão raro, que ora me cega. 
Abaixo, o fosso, a fenda no caminho, feito um hiato-tempo-espaço sob meus pés castigados pela seca. 

Ao redor é tudo barro, algumas frases mal escritas, tantas árvores retorcidas, passado, presente, vida, pó. 

Lá fora é muita gente. 
Dentro é sozinho. 

(A estrada é de cada um)


sexta-feira, 16 de junho de 2023

Beira d’água

Molha meus pés no ventre brilho beira d’água, correnteza deste breve oceano que ora jaz dentro de mim. Mergulha em meus segredos, suaves brisas, teu desejo, desapego entre meras nuvens adornadas de cetim. Frente fria anunciando, esse vento me cortando e eu ali calado, lado a lado, mão que afaga, afoga, afunda o ferro em minha alma e sangra a carne cor carmim. 


(poesia que transborda)