sexta-feira, 25 de setembro de 2026

Eu vi um anjo

 Ele já tinha chegado perto de mim e me pedido pra ajudar comprando um pacote de balas, mas como eu havia acabado de fazer um pix para um outro casal que também me pedira uma ajuda, respondi que não tinha mais dinheiro. Ele não deveria ter mais de seis anos, de olhar manso, voz suave de criança boa, sabe? Usava uma camiseta com umas listras amarelas, um short azul marinho, desses de malha, uma pequena bolsa cruzando ombros desprotegidos e carregava nos braços uma caixa de balas de menta, as quais tentava vender. Talvez você, que por acaso está lendo esse texto agora, deva estar pensando que essa é uma cena da qual, infelizmente, estamos mais do que acostumados a presenciar em cada esquina dessa nossa cidade batucada, desigual, maravilhosa, sem igual, esse Rio de Janeiro, que é meu, é seu, é nossa e é de São Sebastião. E é verdade. Mas alguma coisa naquele menino me chamou a atenção. Tão logo falou comigo e eu não comprei suas balas, ele se afastou uns poucos passos e vi que um rapaz o abraçou carinhosamente, como se já o conhecesse. Achei bonito aquele gesto, me deu um alento, um conforto bom no meu peito, porque tinha carinho genuíno naquele abraço. Ainda fiquei sentado por um tempo ali, bem na lateral da Banca do André, local que já virou ponto de referência, resistência e ocupação cultural do espaço público da cidade e onde eu tenho meio que batido ponto ultimamente. Eu estava sozinho, o que é raro, fazendo hora para dar os parabéns a uma amiga que marcou de comemorar o aniversário no Amarelinho da Cinelândia, bem ali em frente. Levantei, fumei um cigarro, um grupo animado gargalhava ao meu lado, mais e mais pessoas foram chegando do trabalho, encontrando amigos, procurando namorados, ou só passando tempo mesmo que nem eu. O lugar ficou cheio, claro, e já estava dando a minha hora. Foi quando ele apareceu de novo na minha frente. Veio apontando para um dos adesivos, desses de campanha política, que estavam colados na minha camisa branca. “Esse aqui é o Lula?”, ele me perguntou. Eu respondi que sim. Ele prontamente me perguntou se eu já tinha visto o Lula e eu lhe contei que eu já tinha trabalhado em  Brasília e que, sim, já visto o presidente de perto umas duas ou três vezes. Seus olhos sorriram pra mim e, por alguns segundos, ele me pareceu esquecer que carregava uma caixa de balas pra vender e se permitiu sonhar com, quem sabe, um dia chegar perto de alguém tão importante como um presidente da República. Acontece que quem estava ali perto dele naquele momento era eu, que não tenho e não me dou quase importância alguma, diga-se de passagem. Ele me disse que não sei quem havia acabado de lhe dar um par de chinelos novos. Eram umas havaianas que, de tão brancas reluziam em seus pés. Até onde entendi, ele tinha vindo de casa, em Manguinhos, descalço mesmo, ainda pela manhã, acompanhado da mãe. Não vi a mãe por perto. O que eu via era um menino tão vulnerável, tão entregue à sorte, vendendo bala pra tentar sobreviver nesse mundo cada vez mais esquisito. “Não quer mesmo comprar pra me ajudar?”, ele me perguntou mais uma vez. “Eu queria mesmo é poder mudar sua vida, te pegar pelas mãos e te apresentar um futuro de verdade”, eu pensei em silêncio antes de pegar um pacote de balas e fazer um pix de dez reais num misto de culpa, revolta, tristeza e aperto no meu peito. Ele me agradeceu batendo sua mãozinha fechada na minha e me encarando com um olhar de pureza como há muito tempo eu não via em ninguém. “Qual seu nome?”, eu perguntei. Quando ele me respondeu “Ângelo”, eu não consegui dizer mais nada. Neste momento fui invadido por uma emoção tão grande como talvez só aqueles que estão acostumados a ver anjos por aí consigam explicar. Se eu tentar explicar, eu choro. E eu segurei o choro até a hora em que ele se despediu de mim e foi embora, ele e a caixa de balas. Eu ainda fiquei por ali alguns minutos até conseguir juntar meus cacos, só que eu não estava mais sozinho. Havia a presença do Ângelo em mim. 

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