quarta-feira, 8 de julho de 2026

Vai ficar tudo bem

Ele chegou implorando silêncio. Não que tivesse alguém falando naquela sala estreita. Éramos só eu e ele, duas poltronas coloridas, um espelho grande com marcas de dedos apoiado na parede, três ou quatro almofadas puídas e mais um tapete áspero, desses de sisal, que escondia o chão de tacos de madeira. Nada ali emitia algum tipo de som, exceto a minha respiração e a dele - mais ofegante que a minha, diga-se de passagem. Ele não parecia estar nervoso. Era só angústia mesmo. Por pior que ele estivesse se sentindo, mantinha um autocontrole absurdo. Disse-me ele tão logo nos conhecemos que sempre foi assim. No máximo, sentia um desconforto. Mas desconforto esse que ultimamente se refletia em dores espalhadas pelo corpo inteiro, como se tivesse acabado de levar uma surra. E eu, nas minhas anotações, acendia o alerta, tentando decifrar se aquelas dores não eram por conta do esforço tamanho que ele, a meu ver, fazia para que nada dentro dele saísse do eixo. 

Naquela tarde, finalmente, ele desabou, rompeu uma casca, perdeu a batalha para a angústia que, de certo, há muito tempo o acompanhava, o atormentava e transformava sua mente numa confusão danada, uma verdadeira algazarra de vozes as mais diversas, frases desconexas, pensamentos sem sentido. Ruídos. Muitos ruídos. Não só as lembranças do passado, as escolhas erradas, os caminhos mal traçados, mas principalmente o presente, o caos social bem ali na sua frente, a fome, a violência, a guerra e a incerteza do futuro, tudo isso estava conseguindo desestabilizá-lo como nunca antes havia acontecido. Ele me olhava como que me pedindo ajuda porque no fundo ele sabia que eu também convivia com as minhas angústias e que talvez eu pudesse dizer a ele como lidar com as suas. Eu não conseguia falar nada. Nem mesmo se eu quisesse. Por muito tempo continuei em silêncio. Mas olhei ainda mais fundo em seus olhos e mentalmente era como se eu tivesse pedindo que ele imaginasse minhas mãos segurando nas suas mãos e então, num segundo, eu lhe soprasse que ele não estava nem nunca esteve sozinho. Fosse no passado, que o assombrava; fosse no presente, que o agredia; fosse no futuro, que sequer existia. 

De repente, ele esboçou um sorriso, coçou a barba, estalou o pescoço e, rompendo o silêncio, me disse com voz suave que havia lido um poema bonito na noite anterior, que os versos o fizeram mergulhar num oceano de rimas e métricas até que adormecesse. Mais uma vez, sonhou com sua avó. Não aquele sonho recorrente, que ele já havia me contado diversas vezes, onde eles se encontravam diante de um prédio alto com janelas de madeira e uma espécie de escada em caracol que levava até uma trilha em meio a uma floresta quente e úmida feito útero mesmo. Desta vez, foi um sonho mais real, era numa loja de departamentos, um monte de gente passando, fila para pagar as compras, ele e ela. Ela na frente, ele atrás. Muito embora ele não conseguisse ver o rosto da sua avó, ele tinha certeza que era ela. Ele conhecia muito bem aquele perfume, tinha cheiro de colo, de saudade, de infância. Ela estava feliz, bem vestida, altiva, majestosa, como sempre foi em vida, e lhe entregava um presente: uma caixa grande e pesada, devidamente embrulhada com um papel de seda vermelho com desenhos que lembravam dragões chineses. Lá dentro, os livros que ele nunca escreveu. Acordei com esse buraco em mim hoje, disse ele. 

Foi quando eu senti vontade de romper o meu silêncio e dizer-lhe que mergulhasse fundo naquele buraco, que percorresse e iluminasse todos os cantos mais resguardados da sua mente, que ele buscasse lá dentro dele aquilo que ele sempre quis proteger tanto e que ele podia, sim, ser vulnerável, frágil, inseguro e que estava tudo bem. Como é difícil para tantas pessoas perceberem que as coisas são como são, eu me perguntava. Abrir os olhos todas as manhãs, levantar da cama e se dar conta de que está começando tudo de novo requer valentia, cara. Pequenos heroísmos do cotidiano, diria Camus. Porque a vida é de fato uma experiência brutal. Há fome na esquina, exploradores da boa fé aos quatro cantos, mentiras, trapaças, embargos, bombas, terremotos e um sistema numa espiral cada vez mais negativa que nos engole sem dó nem piedade. Só que a vida também é essa coisa fantástica, esse mundo de cores e sons e toques e cheiro de mato, de beira do mar, de leito de rio, de pai, de mãe, de filhos, sementes que brotam e florescem no peito de cada um de nós o tempo inteiro. A vida é um presente, ao mesmo tempo em que tudo soa absurdo. Só que naquele momento eu ainda não podia dizer-lhe nada disso.

Passado algum tempo, ele já não implorava mais por silêncio, e sim, falava pausado, como se procurasse cuidadosamente uma a uma as palavras. Só depois de encontrá-las é que colava uma na outra e ia ordenando as ideias, montando as frases, até que conseguisse se expressar na tentativa de se fazer entender. Me fez refletir se aquela busca pelas palavras não era, portanto, a busca por si mesmo, a tentativa de sanar a desordem interior, de decifrar o que para ele não fazia sentido. Daí vinha sua angústia, creio. Desde muito garoto ele ouvia as mais diversas frases sendo sussurradas na sua cabeça. Era aos montes, nas horas mais inusitadas, pegando-o desprevenido, muitas vezes vinham discursos inteiros de supetão. Sua mãe chegou a levá-lo num psiquiatra achando que o filho era perturbado, mas foi num centro de umbanda lá em Santa Cruz que uma entidade, o Seu Sete da Lira, disse que de doido o menino não tinha nada. O que o menino tinha era que "dar passagem e escrevinhar tudo aquilo de bonito que estavam falando dentro da cabeça dele". Os primeiros versos talvez tenham surgido ali, ele me disse. Menino poeta, de mente fértil, mãos inquietas e pés firmados no terreiro do mundo. Com o tempo, o que antes era barulho, foi se transformando numa prosa poética, registro de toda uma vida. Das rimas pueris aos poemas da maturidade, da inocência às cicatrizes, todas aquelas vozes desde sempre desconexas, agora traduzidas em palavras devidamente coladas uma nas outras, feito um mosaico lírico, um balé de narrativas escritas num pedaço de papel.

A novidade daquela tarde entre nós para ele era a tomada de consciência de que a nossa existência é, de fato, o absurdo. O que o ajudou foram os velhos livros de filosofia, herança do seu pai, que andou folheando recentemente, ele me confessou. Entre tantas descobertas, duas coisas ele jamais vai esquecer: que a revolta é o que dá valor à vida; e que o maior desespero da nossa existência é não ser quem se é. Eu vivo esse desespero, disse-me ele calmamente. Sou poeta, mas não sei se isso basta, se sou só isso, se são as rimas que me compõem e formam o conjunto da minha obra, ele deixou escapar. Eu apenas balancei a cabeça, como se estivesse entendendo tudo, muito embora nem eu mesmo soubesse exatamente se eu sou quem eu penso que sou. 

Ninguém sabe o que é, disse-lhe eu, rompendo o meu silêncio. Ele cruzou os braços e me olhou com olhos questionadores, como se me perguntasse que caminhos percorrer. O do enfrentamento, eu pensei em responder, mas apenas lhe disse para continuar, que desistir não era uma alternativa, que procurasse a lucidez e tentasse desviar das ilusões. Sugeri, também, que ele andasse por aí, que percorresse a cidade, observasse as pessoas nas ruas, cada uma no seu ritmo, encapsuladas, absortas, alheias ao que acontece ao redor. Andar por aí ajuda a organizar os pensamentos e talvez assim a angústia em seu peito se dissipasse e sob seus olhos uma nova realidade se descortinasse, rompendo os véus que deixavam turva sua visão de mundo. Ele foi ficando quieto até que não disse mais nada. Passou o restante do tempo olhando fixamente para um ponto preto pintado de propósito no teto. O silêncio havia voltado ali naquela sala estreita. O único barulho que se ouvia era o da sua respiração e da minha. A minha, agora, mais ofegante que a dele. Não demorou muito, levantou e antes de se despedir, sorriu, se aproximou de mim e falou baixinho no meu ouvido: eu sou a desordem poética de mim mesmo e vai ficar tudo bem. 

(Eu sei que vai)

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