quarta-feira, 3 de dezembro de 2025

Tudo é verbo

Tenho palavras guardadas em lugares secretos, mantidas à distância de um verso. Como um sopro num poema, uma prosa pequena qualquer. 

Também trago rimas escondidas e estrofes confusas, onde o amor nem sempre é a matéria-prima. Porque aqui dentro de mim tudo é verbo, delírio, lira e gritaria. 

Lá fora, resta o eco sobrepondo-se ao tempo e o céu a derramar-se encantos sobre meu peito farto.

Esqueço algumas frases, confesso, mas o pouco que guardo na memória me atravessa os olhos.
 São poesias, tanto as dores quanto as alegrias, e elas nem só a mim pertencem. 


Sou poeta, ora. 


E porque sou poeta, rabisco em mim rascunhos de um pretérito imperfeito que ainda se faz presente nesta carne, neste sangue, neste corpo que hoje habito, mas que um dia a terra há de comer.


Daí, então, só me restará o silêncio. 

quinta-feira, 27 de novembro de 2025

O que eu ainda não disse

Eu deveria me escrever mais cartas. Cartas onde eu contaria para mim mesmo tudo aquilo que ainda não disse a respeito desse que ora pensa que sou eu. 

Porque nunca me importou saber, é fato. 


Se sou força e também sou farsa. Soro e também veneno. Se sou grande ou sou pequeno e toda essa luz dessa fé que me cega, me guia e me assombra. 

 

Sou o bem, sou o mal. Já fui et cetera, noutras vezes fui o tal. 

 

Sou isso, porém nunca omisso, muito embora eu fosse tudo aquilo que eu não gostaria de ter sido. Desde o início. 

 

Eu deveria me escrever mais cartas, confesso, me contando o que eu nem sei se eu gostaria de saber o que eu sou. 

 

Então, eu me apressaria a me dizer o que ninguém nunca me disse. Eu repetiria, feito eco, quantas vezes o outro eu me pedisse, eu juro. 

 

Eu não me levaria a mal. 

 

Porque eu sou o que eu quiser. 

 

(Você também, e daí?)

 

 

 


quinta-feira, 20 de novembro de 2025

Então, dance!

Parece que o tempo nem existe nesse derramar dos olhos nus a céus abertos, quando tudo, enfim, é verso-correnteza, braço de rio caudaloso desaguando rimas breves no movimento das marés. 

É a voz do vento que sopra a estrofe, o ritmo do poema que encanta e estanca a ferida exata na métrica ora estética dos sonetos, que hoje soam perdidos, feito a desesperança daqueles que ainda insistem em viver sem dançar. 

sábado, 16 de agosto de 2025

Entrelinhas

O vácuo entre o som e a tua ausência fez de tudo aquilo hiato no momento exato em que o verso escrito viu-se concreto em minhas linhas. 

Imaginário é o verbo sagrado que trago nessas rimas conflitantes que não são de agora, nem de antes. 

É a prosa poética que leio nas entrelinhas de tantas frases por mim esquecidas, inauditas no meu tempo-espaço. 

São trechos revelados num único sopro de ar no meu peito, já desfeito, e pelo assovio do vento sacudindo as estrofes que perdi pelas esquinas.

sábado, 19 de julho de 2025

A luz que me guia

Poesia em mim é sobressalto.

É vento forte levantando a poeira

é rastro de fogo na beira do rio,

é a Iara-sereia que hipnotiza

enquanto canta seus versos 

na correnteza cega que me seduz.  


Poesia em mim é feito pranto.

Mas não um pranto triste. 

É pranto que arrebata, daquele que arrepia, acende a luz das almas, ilumina as noites, enobrece os dias. 


Poesia em mim é a luz que me guia. 

É o meu firmamento, candeeiro de rimas ora imperfeitas que cismam em riscar o céu da minha boca e deslizar na tua língua. 


Poesia em mim é juramento, é o verbo atestado, é o soco no peito do desavisado, a lira dos meus delírios mais profanos, a ode precisa e profunda de todos os meus planos, qual fossem estrofes mais perto do céu. 

segunda-feira, 30 de junho de 2025

Seiva bruta

É só poesia o que escorre da minha pele, acredite. E meu suor é a seiva doce das raizes com as quais eu lambuzo todos os dedos vacilantes e deslizo um por um na ponta da minha língua áspera, úmida, quente, ávida por palavras que me nutrem e que eu sorvo lentamente, derramadas em versos únicos neste corpo que ora habito. 

segunda-feira, 6 de janeiro de 2025

Outras preces

Ainda que eu não me salvasse, ainda que eu não resistisse, seria como se no fundo eu soubesse que algo em mim jamais se esvaía. 

Feito o sol se pondo lá fora com a certeza de voltar no outro dia junto às nuvens que bailam no céu coreografias que somem com o tempo. 


É ventania.


Dia desses sonhei com o mar avançando sobre as calçadas da cidade nua e toda aquela água salgada limpava meu corpo castigado e que também estava nu. Tudo em mim ardia. 


Como em todos os outros sonhos, mais uma vez eu estava só. 


Tinha os pés enterrados na areia, mãos apontando as estrelas, olhos refletindo 

as ondas em gestos contidos, e o pranto do arrebatamento sacudindo meu peito em silêncio, de um jeito que eu nunca soube explicar.


É porque trago em mim outras preces, outras rezas, outras crenças. 


Eu transformo dor em poesia.