sexta-feira, 25 de novembro de 2022

Do pó que viestes

Às vezes é como enlouquecer.

Perder os sentidos.

Deixar-se escorrer entreatos, roubar as cenas reescritas, decorar diálogos truncados, ouvir interpretações distorcidas. 


O bicho homem é vaidoso que só. 


Egocêntrico, eu sei. 

Falocêntrico eu sou. 


E também fanfarrão, iludido, vendido, desavergonhado, descompromissado, único, ciente que de pulvere venisses in pulverem reverteris. 


Tudo aqui se desfaz em pó. 

quarta-feira, 9 de novembro de 2022

Esses dias têm sido assim

Um choro de alívio incontido tem se abatido sobre mim esses dias.

É choro de alegria, que cai feito tempestade, dilúvio da minha alma, cântaros d'água lavando as dores que cismaram em derramar do meu peito aberto e veem chegar mais perto as faces de um outro eu. 

Já foi tudo mais confuso, lembra? 

O mundo sempre foi esse transe, agora eu sei e, não faz muito tempo, me ensinaram a dançar. 

Dois pra lá, dois pra cá, passos precisos, coreografados, milimetricamente ensaiados para essa estreia nossa de cada dia. 

Ouço música. O tempo inteiro ouço música. A vida de todo mundo tem uma trilha sonora, acredite, baby, eu sei que é assim. 

A minha tem mais de uma, confesso. 

Recebo, então, a notícia de que morreu Gal Costa e ali, mesmo que por um instante, muita coisa silenciou em mim. 

Porque o canto é o verbo em toada, nossa vida é breve, sua voz sagrada.

Choro. 

Alívio. 

Esses dias têm sido assim.

quinta-feira, 23 de junho de 2022

Calma

Outro dia mesmo eu li no perfil de um astrólogo que eu sigo que acalmar-nos é uma das primeiras e mais fundamentais habilidades que aprendemos na vida. Entre tantas outras coisas bacanas que esse astrólogo escreve quase que diariamente, essa foi uma das que mais me chamou a atenção nessas últimas semanas e me fez, muito mais que por alguns instantes, parar para pensar. A gente nasce no susto, rompe a barreira no trauma, num tremendo desespero, toda aquela pressão para a gente passar para o lado de cá. E, quando a gente passa, a gente se apavora e chora tentando colocar o ar para dentro dos pulmões. É bonito, mas é tenso.

Não me lembro como foi quando eu nasci, claro, mas tenho para mim que não tenha sido nada agradável deixar aquela vidinha confortável que eu levava dentro da barriga da senhora minha mãe para ter de encarar esse fuzuê aqui do lado de fora. Minha mãe costumava dizer que eu nasci berrando porque já nasci com fome e que ela logo me deu o peito para eu me acalmar. Era meio-dia e dez de uma sexta-feira calorenta, três dias depois do carnaval, quando eu, pisciano raiz com ascendente e lua em Touro, cheguei por essas bandas nervoso de fome e fui logo sendo obrigado a aprender a me acalmar. Por sorte, tive o colo da minha mãe. 

Até hoje vivo com fome e volta e meia eu ainda penso na falta que faz o colo da minha mãe quando eu sinto que estou ficando nervoso. Talvez por isso eu tenha associado esse acalmar-se, tão fundamental à sobrevivência nesse planeta, ao nascimento e ao momento em que a mãe, no caso a minha, pega o filho, no caso eu, e o acalma para que ela também se acalme. Há uma troca intensa ali. E de um aprendizado profundo, impossível de ser traduzido em palavras. Aquele que chega sem entender nada no colo daquela que já chegou faz um tempo e que certamente ainda não conseguiu entender muita coisa. Ou seja: a coisa é complexa desde o início. Um estresse.  

Não é fácil e ninguém disse que seria, eu sei. E hoje, cinco décadas depois de eu ter nascido e ter sido muito bem recebido, as coisas continuam não parecendo tão fáceis. Falta colo, o planeta está no limite e nós, seres ditos pensantes, nos agredindo nessa carnificina virtual globalizada, como se quiséssemos acelerar nosso fim logo de uma vez, numa espécie de surto coletivo. Esse retroceder da mentalidade humana é o que me causa surpresa e me assusta tanto quanto todo o preconceito, a violência, a hipocrisia, a mentira e o cinismo escancarado desses tempos complicados. 

Isso tudo sufoca a gente, deixa a gente triste, vai ficando todo mundo amuado, nervoso, mal humorado, doente, até que acaba morrendo mais rápido do que devia. Uma agonia que piora quando a gente liga o noticiário e é bombardeado pelo correio da má notícia e por todo esse volume absurdo de informações, boa parte delas inúteis, fúteis, descartáveis, que chegam até nós através de um simples toque numa tela pouco maior que a palma de nossas mãos. Estamos todos presos nessa teia, cegos, sem nos importar se do nosso lado matam pretos, matam pobres, matam indigenista, matam jornalista, matam todos eles, um a um, e a nós também, pouco a pouco. Distopia.

Mas, de acordo com o astrólogo, ter calma é fundamental. Mesmo que tudo ao redor esteja o caos, mesmo que os ignorantes tenham despertado, mesmo que os fariseus tenham ressurgido, mesmo com as guerras ininterruptas, mesmo com toda essa ganância, esse discurso violento, essa farsa, esses coturnos manchados de sangue mais uma vez ameaçando a democracia, essas bíblias compartilhando a palavra talhada na hipocrisia, mantenha a calma. Eu aqui tenho tentado me acalmar sozinho e seguir às margens deste outro eu transformado em rio caudaloso, superfície serena, que no fundo esconde a fúria da minha correnteza, arrastando tudo em direção ao mar. 



sexta-feira, 17 de junho de 2022

Tua poesia

Há tempos te devia essa poesia

Desde muito antes de te conhecer por aqui

Porque em mim já te carregava

Em mim tu já existia


Há tempos te devia essa poesia

Desde outras eras, desde outras vidas,

Desde o passado, o presente e o futuro

Momentos que eu nunca esqueci


Lembro que naqueles dias eu ria

Do mesmo jeito que estamos rindo agora

Um riso frouxo, uma alegria, uma coisa boa

É um fio de esperança, é um transbordar de emoção.


Há tempos te queria nessa poesia

Essa que sempre foi tua

Porque são raros esses encontros, eu sei

Tão raros que eu nunca esqueci.


Você também não.


Deixa o medo e vem segurar minha mão 

Caminhar do meu lado, misturar nossos hálitos 

Mirar teus olhos nos meus. 

Daqui ainda vejo teus rastros no parque


Foi lá a primeira vez, esqueceu?


Eu confesso que não esperava. 

Mas assim tão de perto, não resisti. 

Havia algo de arrebatador em nós

E tua loucura se fez poesia em mim.



quarta-feira, 15 de junho de 2022

O que restou

Eu não sei o que ainda resta de lúcido em mim. Às vezes amanheço assim, entre névoas e memórias nada ortodoxas que há muito cismaram de não me abandonar. São como versos ruins, poesias sem rima, frases mal escritas num pedaço qualquer de papel esquecido sobre a mesa empoeirada da velha sala de jantar. Acho que é porque tenho tido sonhos barulhentos ultimamente e neles eu ando pelas cercanias da cidade alta, ladeiras, becos, bares, lares, tudo sempre tão deserto. Não sinto frio nem calor, não falo nada, mas ouço sempre as mesmas vozes sussurrando segredos esquizofrênicos em meus ouvidos até a hora em que as luzes se apagam. É quando acordo com a certeza de que eu sempre estive só.

Às vezes a vida dá um nó, a garganta aperta, surgem os bichos de sete cabeças, todos eles dentro da gente, martelando, batendo, gritando, sacudindo meias verdades pra lá e pra cá. Desconfio mesmo de que eu nunca tive um rumo, que eu sempre andei às cegas por essas indelicadezas da vida, nascido de mãe parideira e pai desconhecido Quem me ensinou a desviar do erro fui eu mesmo. Lá se vão mais de 50 anos e eu ainda não sei se fiz o certo. De fato eu nunca entendi nada direito e até hoje paira a dúvida do que eu posso ou devo fazer. Não me pergunte o porquê, mas nesses dias em que amanheço entre névoas é melhor mesmo não ter nenhum traço de lucidez. Nada.

São dias sem o menor sentido, de manhãs pálidas e um vento frio constante que atravessa meu corpo feito navalha afiada. Não ouço mais o canto dos pássaros, mas há nuvens escorregando ligeiras pelo céu como se quisessem esbarrar neste lugar onde me encontro. Daqui do alto não vejo mais o mar e é então quando eu canto de saudade. Faz tempo que não banho meu corpo em águas salgadas e me deixo levar pelas marés e correntezas. Queria por mais uma vez ter meu corpo devolvido ainda com vida lá bem junto de onde a areia brinca na beira do mar. Porque o sal que hoje jaz em meu rosto é o que dá gosto às lágrimas que insistem em afogar meus olhos, mesmo eu repetindo para mim mesmo que está tudo bem. São dias sem o menor sentido, eu já disse. 

Onde foi que perdi minha lucidez? Como foi que se desfez o templo que havia erguido em mim? Ainda carrego muitas perguntas, eu sei. Porque não foram raras as vezes em que me perdi. E em todas essas vezes eu lembrava da última mulher que amei tentando me convencer de que era preciso deixar-se perder. Já naquela época eu caminhava em círculos desconexos, meus pés em espiral, cabeça nas nuvens, que só depois eu fui perceber que eram as mesmas nuvens que escorregavam ligeiras pelo céu como se quisessem esbarrar neste lugar onde me encontro até hoje. Ou o que restou em mim. 

quinta-feira, 13 de janeiro de 2022

A crueldade do mundo

Noite dessas andou fazendo frio por aqui. Já não é tempo disso. Ninguém nas ruas dessa cidade sem esquina e enormes distâncias. Um vento silencioso e gelado, daqueles de cortar os lábios, invadia a sala do apartamento, quinto andar, de fundos, janelões de madeira voltados para um muro de concreto e cal. Na vitrola, bem baixinho, Gymnopédies N1, e todo aquele minimalismo da música de Erik Satie, refletindo muito bem o que se passava naquele ambiente. 

No fundo da parede, ao lado de um sofá de canto, um abajur de ferro fundido, medindo mais ou menos um metro e meio de altura, iluminava timidamente seu rosto embrutecido, olhar ansioso, respiração curta, deitado ali fazia horas e quase entrando numa espécie de desespero, daqueles que só sente quem se dá conta de que não sabe mais o que pode vir a acontecer dali para frente. 

Há meses que ninguém o visitava. E ele não parecia se importar com isso. Muito provavelmente fora escolha dele viver cada vez mais sozinho. Desde moleque sempre gostou de se isolar. Por muito tempo escondeu de muita gente, e até dele mesmo, que muitas coisas ao redor o machucavam e doíam nele como doem os olhos quando a gente sai do mais absoluto escuro e dá de cara com aquela enormidade de luz à nossa frente. Palavras, gestos, olhares feriam-no muito mais do que as surras que seus pais nunca lhe deram, muito embora as merecesse. Estar só foi a maneira que ele encontrou de se preservar daquilo que mais tarde ele mesmo batizou de a crueldade do mundo. 

Há meses, também, que ele começou a escrever umas cartas. Diariamente. O curioso é que são cartas que ele resolveu escrever para ele mesmo. Envelopadas, endereçadas e com o nome do remetente e do destinatário. Muitas delas tiveram direito a respostas, réplicas e tréplicas. Outras geraram ressentimentos, mexeram em feridas profundas. Mas todas, sem exceção, revelavam uma infinidade de reconciliações profundamente íntimas. Como se ele tivesse conseguido entrelaçar todos aqueles que até ali se apresentaram e os textos se esparramaram pelos cômodos do apartamento.

"Sinto saudades de você e de toda essa sua vontade, essa gana, essa pressa estranha que tantas vezes chega metendo o pé na porta, escancarando, sem meias palavras, fazendo barulho, rindo, acelerando e mudando o percurso do meu caminho. Eu, que me vejo tão parado, letárgico, caótico, e você vem e me puxa pelas mãos, encontra tempo para um carinho, abraça, arrasta, beija e não deixa ninguém esquecer que uma hora ou outra a gente também vai precisar ser feliz."

"Cansado da sua covardia, desse teu medo que te suga e faz o colágeno dessa tua cara feia derreter ainda mais rápido do que deveria. Segue em frente, porra, deixa pra trás teus erros. Uma hora ou outra você vai aprender com eles. Ou não. Talvez você seja do time daqueles que não vão aprender nunca e vai ficar por isso mesmo porque essa é a sua história, e daí? Você não é sinônimo de perfeição, cara. Ninguém é. Nem eu. Relaxa."

"Lembro de uma festa na casa de uma das suas tias, você deveria ter uns seis, sete anos, trilha da novela Estúpido Cupido tocando bem alto, você começou a ensaiar uns passos desencontrados junto da sua prima mais velha, quando seu pai chegou e viu você ali. Na mesma hora você parou de dançar. Ficou todo duro, paralisado. Eu lembro da sensação de frio na espinha que você teve porque viu, refletido no olhar do seu pai, o repressor que já naquele tempo te habitava. Você só voltou a dançar na época da faculdade. E mesmo assim muito pouco. Você precisa dançar mais, cara. Teu pai não tem nada a ver com isso."

"Mentira sua quando você diz por aí que eu me arrependi de ter amado do jeito que eu amei. E eu amei quem eu quis e bem entendi. Alguns amores eu vou amar para sempre, eu sei disso, e essa talvez seja a minha cruz. O amor, acredite, me deu muitas coisas boas nessa vida. As melhores, eu diria. E eu sempre tive muita clareza a esse respeito. Talvez por sempre ter trazido dentro do peito esse tanto de sentimento que mexe comigo e que eu mesmo custei a entender como é que funciona, como é que faz para usar. Até hoje não sei, te confesso. Não tem fórmula. Mas eu vou e uso. São coisas que acontecem, histórias bonitas com personagens mais bonitos ainda. E eu gosto de ser protagonista de histórias bonitas. Você não?"

"Eu tenho andado angustiado. Faz tempo que as notícias não são boas. Lembra de quando você era adolescente e estourou a Guerra das Malvinas? Você voltava do colégio todo dia naquele Chevrolet Veraneio verde oliva, uma bagunça danada, e você calado, para variar, prestando atenção nas notícias que você ouvia no rádio. A ideia de uma guerra te deixava desestruturado, vinham cenas na sua cabeça, histórias que seus avós contavam sobre a primeira e a segunda guerras mundiais, Hitler, câmaras de gás, bomba atômica, destruição. Você morria de medo. Eu também.  A crueldade do mundo ali bem na nossa frente. Não mudou muita coisa, reparou? Isso não te deixa angustiado?"

As cartas foram escritas compulsivamente. A última ele escreveu naquela manhã, dia 8 de dezembro, dia de Nossa Senhora da Conceição, ao voltar de uma consulta no cardiologista, depois de ter visto um rapaz num semáforo segurando um cartaz onde lia-se "Fome. Pelo amor de Deus, ajude-me". Mais uma vez, aquilo que estava ao seu redor o machucava. Ele de fato não entendia como tamanha desigualdade poderia existir. Há muita crueldade no mundo, essa é a realidade. E aquilo doía nele como doem os olhos quando a gente sai do mais absoluto escuro e dá de cara com aquela enormidade de luz à nossa frente, eu repito. Ainda cego, pegou todo o dinheiro que tinha na carteira, pouco mais de cinquenta reais, esticou o braço para fora do carro e tentou de alguma maneira se livrar daquela culpa que não era dele. 

Mas ele achava que era.

Eu também acho que é culpa minha.

Quando eu escrevo é pra me livrar de muita coisa. 



domingo, 14 de novembro de 2021

Neblina

Gosto quando tudo se revela mais bonito entre vento nuvens dissipando nesse céu borrado de diferentes tons azuis. 

Eis, então, que surge o verso em pretérito imperfeito desenhando letras garrafais em algum muro no caminho, revelando outras rimas sempre bem guardadas nesse peito em descompasso, palavras repetidas tantas vezes sem sentido e sem coragem, amores em desalinho. 

O resto é o eco, o vazio. 

E a sombra da solidão que não existe mais. 

sexta-feira, 13 de agosto de 2021

No way out

Andou esfriando esses dias. 

E a pálida luz que invadia a sala daquele apartamento no último andar do bairro mais tranquilo da cidade inquietava seu coração. Assim como a saudade de tudo que ficara para trás, o frio nunca lhe fizera bem. Apertava-lhe o peito, retraía os órgãos, doía de tremer seus ossos. Era quando sentia-se só, mesmo que com todos os que, de uma maneira ou de outra, sempre pensavam estar por perto. 

Naquelas manhãs era só o vazio mesmo, o vácuo, a insegurança da palavra proibida rabiscada na parede ocre, que sustentava a estante improvisada e coberta de livros. Tantas histórias, memórias, fotografias esquecidas em álbuns empoeirados de uma vida que não existia mais. Estava quase tudo ali. Bem na sua frente. Bastava abrir os olhos úmidos. 

Mas a luz pálida daquelas manhãs prejudicava a visão e o vento que corria fazia lembrar daqueles que carregam uma enorme frieza na alma, pesada como um muro de pedras, barreira milimetricamente erguida. Autossuficientes e indiferentes, eles dizem. Ai de quem cruza com essas almas. No way out.  

Não faz muito tempo, antes do fim da última primavera, talvez, quis ouvir palavras bonitas novamente. Pediu que lhe sussurrassem pequenos versos de arrepiar do dedo do pé ao pescoço, que lhe transformassem tudo ao redor em poesia nua, como sempre fizera em suas rimas despidas de pudor. Vida é poema, alguém lhe disse um dia. Nunca mais esqueceu disso e, desde então, implora para que o novo lhe toque a alma nesses tempos tão estranhos. 

Os ipês chegaram mais cedo este ano. Tomara seja um bom sinal, tomara. 


domingo, 23 de maio de 2021

Sem dor nem fúria

Ouvir The Köln Concert, do avassalador Keith Jarret, ao final de mais um domingo, em que mais uma vez tivemos provas de que estamos vivendo num mundo assustadoramente doente, me soa como uma espécie de alento, me faz sentir menos culpado enquanto pertencente a essa raça que se autodenomina humana. Não sei como vocês lidam com a realidade ou qual o nível de entorpecimento de cada um, mas eu, por exemplo, me vejo inserido numa sociedade despedaçada. Seja ela despedaçada porque de fato ruiu - o que foi projetado como sociedade ou a coisa em si -, ou despedaçada por estar aos pedaços, perdida, isolada, feito peças de um quebra-cabeças que precisa ser montado. 

E não é essa sociedade despedaçada o que me destrói por dentro, muito embora me apavore. Desde muito cedo que eu gosto de ter a consciência do caos, do som ao meu redor. Eu procuro prestar atenção, ficar atento. É como se naquele momento algo de muita importância e que eu nem sei exatamente o que é se organizasse dentro de mim. O que me destrói por dentro é a inércia nossa de cada dia. Reparem que eu me incluo nessa. Talvez muitos de vocês também se sintam assim, não sei. 

Aqui em Brasília é um pouco mais complicado estruturar qualquer tipo de análise mais ampla da sociedade. Pelo menos para mim, como mero observador que sou e autor de análises rasas, é bastante complicado. Aprendi a amar essa cidade. De verdade. Mas Brasília é uma cidade de distâncias. Se você é daqueles que não gosta de muita aproximação com ninguém, aqui é o lugar ideal. Não é o meu caso. Eu gosto de gente. E gosto de Brasília. Parece contraditório e de fato é. 

Mas é que aqui, depois de um breve estranhamento, passei a fazer outro tipo de análise, posicionei meu observador num outro lugar e foi como se meu ângulo de visão se estreitasse e eu passasse a enxergar apenas poucas pessoas. Para algumas dessas poucas pessoas, inclusive, foi como se eu tivesse olhado com lupa. E então, o que de cara se mostrava distante, logo se aproximava e se revelava com muito mais riqueza de detalhes. E o curioso é que, na mesma proporção que havia essa aproximação com os de fora, havia uma enorme aproximação com aqueles que eu carrego dentro de mim, que agora também deixavam que eu os observasse e com a mesma riqueza de detalhes. 

Talvez essa aproximação com todos esses que habitam ao redor e dentro de mim tenha ajudado para que eu não me despedaçasse nesses últimos tempos tão estranhos, pandemia, isolamento social, perdas e saudades. Mesmo eu tendo a consciência de que eu pertenço a essa sociedade despedaçada, que eu sou peça desse quebra-cabeças, que carrego minhas culpas e que sou o único responsável por minhas tragédias mais íntimas. 

Confesso que não sei o porquê de eu escrever essas poucas linhas tortas nesse final de domingo se o que eu queria mesmo era ter o poder de livrar todo mundo desse Mal que eu infelizmente vejo tão próximo de todos nós, sem exceção, e não tenho. Escrevendo, infelizmente, ainda não consigo nos livrar dos que estão cegos e inseridos numa espiral negativa que pode arrastar todos nós para uma tragédia coletiva. Tragédia essa que já está batendo em nossas portas e andando de moto bem debaixo do nosso nariz.

(escrever sempre foi meu desabafo comigo mesmo quando tudo parece fora do lugar) 

sexta-feira, 2 de abril de 2021

Metaforicamente

Ah, quantas vezes já quis parar o mundo nem que fosse por um segundo e me perder nesse poço sem fundo dentro de mim? Aqui fora, meu corpo é verso rabiscado na parede branca e aquilo que cai deitado ali, meio inclinado, é minha sombra, meu reverso, o avesso, a não poesia. 

Percebe como minha voz às vezes é mansa?

Lembra canto de ave rara, canto breve em sol menor, feito a brisa suave que sopra rima em seus ouvidos. Ouve só. Voz de menino passarinho avoando bem baixinho como fazem as gaivotas quando encostam suas asas delicadamente na superfície do mar. Chego a ficar sem ar. 

Ondas rebentando na areia e eu ali, exposto. Não me importo. 

Naquele momento é como seu eu conseguisse de fato parar o mundo. Respiro fundo. Inspiro. Estamos por aqui sozinhos mesmo, eu sei. Isso também já não me importa. Expiro. A verdade é que não falta muito tempo, já é outono novamente, o céu borrado de azul deixa meus dias mais bonitos e, juro, tenho ouvido Nick Cave. 

Não sei se te falei, mas ontem mesmo me disseram que a vida é uma grande metáfora. Acreditei. 

E metaforicamente mergulhei em mim. 

(você estava lá?) 

domingo, 14 de fevereiro de 2021

E daí?

Dia desses eu o vi atravessando a rua aqui perto de casa. Da última vez que nos encontramos ele me revelou ter fracassado no amor. Ora bolas, como se isso fosse algo raro de acontecer desde que o mundo é mundo. Eu também havia fracassado tantas vezes, confessei, e todas as vezes foram como se um véu se descortinasse bem diante dos meus olhos turvos, tantos gestos tristes, lentos, juntando pedaços de mim. 

Naqueles dias eu era metade neblina, metade temporal. 

Era como se em minhas veias corressem versos tímidos, verbos atropelados, palavras na contramão, tudo ao mesmo tempo agora. E então, eu aqui fora, me derramava em poesias de fuga, inventava uma nova rota, criava outras histórias e me escondia entre as rimas que eu mesmo trazia desde que vim parar aqui. 

É estranho, eu sei. Confuso até. 

Mas está tudo dentro de mim, assim como está tudo dentro dele também, nós dois sabemos muito bem disso. Essas coisas sufocam a gente, quase não dá pra contar. Melhor seria uma existência sem afetos, sem proximidade, sem intimidade, toque, pele, sexo, nada disso. Um pra lá, outro pra cá. Isso tudo dá muito trabalho, envolve outras pessoas, cada um é cada um, reage de um jeito, pensa diferente, enxerga assim ou assado, um quer enquanto o outro não quer. É sempre assim. Difícil. 

Já é madrugada. 

Chove sem parar nessa cidade faz mais de duas horas. 

Não teve carnaval esse ano, e daí? 

Eu sinto falta mesmo é do meu coração batendo em descompasso.  

(e de um abraço)

quinta-feira, 3 de dezembro de 2020

Poesia perdida

Parte teu peito em pedaços e joga teus restos nas margens desse rio de águas profundas em que te banhas.

Nada contra as correntes, deixa por lá esse amargo que ainda habita na tua boca quando fala, quando afoga, quando traga e vem me dar um beijo.

Mata esse desejo.

Solta esse teu corpo tão fechado em cima do meu corpo tão cansado e vem com calma.

Deságua tua alma em meus abraços e confia nos meus olhos de farol.

Vem ser meu guia na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, vem correr perigo, vem ficar comigo.

Vem.


quinta-feira, 12 de novembro de 2020

Tudo vai mudar

Dia desses li num post de uma amiga numa dessas redes sociais algo a respeito de uma certa ausência criativa que muitas vezes acomete quem tem o hábito de escrever. Confesso que quando essa pandemia de coronavírus começou eu até pensei que fosse baixar o santo escrevinhador em mim, um caboclo contador de boas histórias, mas me enganei. Talvez o fato de eu ter ficado um bom tempo isolado, sem encontrar quase ninguém nessa Brasília já tão árida, só eu comigo mesmo, tenha servido para me mostrar que eu não sou um bom laboratório para quem, como eu, gosta de brincar com as palavras vez ou outra. Não que eu não seja interessante, isso eu sei que eu sou. E não há nada de soberba nessa afirmação. É que eu sou um cara confuso, cheio de nuances, trago comigo as percepções únicas de uma vida que desde cedo vejo passar feito um filme diante dos meus olhos, lentes miúdas, muitas vezes tão sensíveis, e então, crio cenas ao meu redor.

E eu acho isso muito interessante.

Escrevi uns dois ou três pequenos poemas nesses meses, é verdade. Esses poemas por aí que eu escrevo desde sempre. Eu ainda era um menino e, quisesse ou não, já criava algumas estrofes mal estruturadas na minha cabeça e corria para botar tudo no papel. Hoje, um pouco mais crescidinho que aquele menino, descobri que a matéria-prima do poema sou eu conversando com os outros que só eu sei que habitam em mim. Para eu parir um poema é só eu navegar para dentro desse mar de versos, rimas, dores e amores desses eus que seguem a minha correnteza, nesse eu oceano, e nadar com eles sem perder o fôlego, até a minha arrebentação.

Palavras, são tantas, a me nausear.

Não fiz amigos novos nesse ano esquisito. Digo amigos físicos mesmo, desses que a gente olha no olho, abraça quando é de abraço e beija quando é de beijo. Aqui em Brasília eu tenho uns poucos e bons, minhas referências afetivas do Cerrado, que estiveram por perto nesses dias estranhos e que estarão para sempre por perto, mesmo que estejamos longe. Por outro lado, fiz alguns amigos virtuais, desses que a gente nunca viu ao vivo e a cores, mas que acabam sendo amigos também devido a esses Facebooks e Instagrams da vida, que estreitam muitos laços e fazem com que a gente se sinta íntimo de uma pessoa só porque ela publica determinadas coisas que vão ao encontro do que você pensa e faz e gosta. Então, a gente se aproxima e se atrai e se fala de vez em quando e se abre e se descobre um pouco naquele outro que está longe, naquele outro que a gente nunca viu, mas que também já é amigo, claro.  

Eu gosto muito disso.

No meu último dia no Rio de Janeiro, dois dias antes de tudo fechar por conta desse vírus que está aí, acordei cedo porque precisava voltar para Brasília e lembro que ao levantar da cama uma voz falou no meu ouvido que minha vida ia mudar. É bastante esquizofrênico, eu sei, mas eu ouvi a voz me dizer com todas as letras que minha vida ia mudar, acredite. Na hora não dei atenção, mas os dias foram passando e aquela frase passava a fazer todo sentido. Em menos de quinze dias eu mudei de apartamento. Saí de perto do lago, vim para o plano. Saí de um flat sem fogão e vim para um apartamento de verdade. Deixei a piscina para trás e me encontrei no pedal. Quase não ando mais de carro, tenho andado muito a pé. Nunca mais apareci para trabalhar no escritório, resolvo tudo em casa, na maioria das vezes pelo meu celular mesmo. Meus ternos estão cheirando a naftalina, minhas calças estão pensando que se aposentaram, meus sapatos já nem lembram mais de mim.

E eu não acho isso ruim.

Hoje, um pouco antes de eu resolver sentar para escrever esses poucos parágrafos aqui, uma dessas amigas virtuais que fiz esse ano me mandou uma mensagem dizendo que com certeza ela vai sair desse ano uma outra pessoa. Eu respondi que está todo mundo tendo de lidar com uma questão muito importante nas suas vidas e que quem tem um mínimo de sensibilidade vai sair diferente disso tudo. Ela me disse que agora sabe que não tem controle de nada. Eu disse que não adianta planejar nada porque a vida vem e te mostra que quem manda é ela e pronto.

Ponto final.

terça-feira, 1 de setembro de 2020

É preciso sonhar

Há meses ele não sonhava. Talvez porque de olhos abertos o mundo já se apresentava por demais surreal, convenhamos. O que outrora soprava feito brisa, hoje irrompe em vendaval, essa é que é a verdade. Ele mostrava-se surpreso, pois ninguém esperava que fosse acontecer tudo aquilo em tão breve espaço de tempo, toda essa mudança repentina, antigos elos se rompendo e aquele ego frágil ali, ferido, perdendo o controle de tudo e as máscaras caindo ao seu redor. As imagens vinham como náuseas naquela sala onde ele sufocava entre os livros espalhados pelo chão de tábua corrida, deitado num sofá de couro velho e ressecado, desconfortável como a vida de fato é. Ele sempre esteve ali sozinho e isso era o que mais lhe machucava e destruía tudo por dentro. Lá fora, só o silêncio constrangedor dos que não enxergam nada além do próprio nariz. 

Não faz tanto tempo assim, talvez dois ou três anos, era noite e suas mãos seguraram e apoiaram outras mãos, um sentimento forte, arrebatador, olhares cúmplices, luxúria, pecados da carne que ele insistia em chamar de amor. Fez de tudo para que aquele sentimento não se esvaísse, não fosse apenas mais um, não escorresse pelo ralo e fosse embora até nunca mais. Ao contrário, cultivava cada pequeno gesto, cada palavra bonita, cada verso, rima, canção. Algumas coisas, então, começaram a fazer sentido: o que ele vivera até ali, os laços cada vez mais estreitos, portas entreabertas, histórias mal contadas, luzes e sombras entre as frestas, tantos segredos, tanto prazer e tanta dor. O resto era música em seus ouvidos e o outro sempre a lhe dizer que não.

Não era a hora, era muito cedo, ele não queria e não adiantava insistir. A vida já havia lhe mostrado um outro lado que talvez fosse melhor esquecer, deixar no passado, não tinha o porquê reviver. Bom seria se tudo pudesse ser apagado, tal e qual aquele filme de uma mente sem lembranças, deletar todos os arquivos, passar uma borracha e não deixar mais ninguém se aproximar, só relações fortuitas mesmo, sem envolvimento, sem carinho, rituais mecânicos, desprovidos de qualquer sentimento, o falo duro, um gozo e nada mais. E o outro preso na armadilha, sem conseguir se desvencilhar, fugir, correr, tentando sobreviver, respirar um pouco, encontrar uma saída. 

Eram dias de muita angústia aqueles. Do céu haviam sumido as estrelas e em nossos pés o barro seco a levantar poeira. Calor. O suor escorrendo enquanto os barcos à deriva no meu peito oceano, coração pulsando o mar e meu eu submerso, inquieto, curioso, com tudo aquilo ancorado dentro de mim. Porque amar é verbo intransitivo, eu sei. Mas nem todo mundo sabe. 

(eu preciso voltar a sonhar) 

quinta-feira, 13 de agosto de 2020

Tomado de assalto

Entre tantas amarras, entre tantas desculpas, tamanha confusão, 


aquele outro lhe dizendo não 


e o pranto involuntário da dor arrebatando o mundo dentro do seu peito-solidão. 


(roubaram-lhe a vontade de amar) 

quarta-feira, 1 de julho de 2020

Hoje eu sei - ou delírios da pandemia I

Os ipês haviam florescido antes da hora e a alegria que eles trouxeram fazia tempos eu não percebia ali no coração-berçário do mundo. As ruas andavam vazias, ninguém encontrava ninguém. O silêncio predominava e a secura em minha garganta abafava ainda mais a minha voz que aqui jaz tão tímida.

Na noite passada ouvi passos apressados bem debaixo da minha janela. Tentei correr pra ver quem era, mas nem sombra restava. Só o vento trazendo a frente fria e arrastando as folhas das árvores no asfalto, feito coreografia de um balé qualquer. No céu, as nuvens fechando o tempo, e dentro daquelas casas só o vazio. 

Cerrei as cortinas, tevê ligada na sala, um ator canastrão em cena dizia que o seu maior medo era nunca mais encontrar aqueles que ele amava. Perdi a conta já do tempo que eu não encontro os meus, respondi pra mim mesmo, sem muita paciência para dramas e tentando manter a esperança de que tudo vai dar certo, como aprendi com a minha mãe.  

Lembro que eu sentia saudades do mar, água salgada na minha pele, meus pés na areia e do meu corpo flutuar até ser arrastado para muito além da arrebentação. Era quando me faltava o ar no peito carente dos abraços demorados, de poder tocar e sentir o outro bem ali junto a mim, o hálito quente, olho no olho e aquela vontade de estar perto de alguém que me ame de verdade. 

Eu me viro bem sozinho, hoje eu sei.

sexta-feira, 19 de junho de 2020

Arrebentação

Já batia aqui dentro a saudade e, em meu peito escudo, um baú de lembranças soltas feito passos de um balé com as canções que eu nunca esqueci. Era como se as palavras ficassem à sua espera para dançar e enquanto ele não aparecesse, elas, as palavras, apenas ecoavam em meu ouvido sem o menor sentido. 

Sempre foi assim. 

Porque volta e meia ele se afasta. Como se não quisesse mais saber de mim. Já cheguei a pensar que fosse ser para sempre, mas aprendi com o tempo que eu não vivo sem ele e ele não vive sem mim. Porque corre em meu leito um rio de frases perfeitas, correntezas de rimas que, de tão lindas, só conseguem desaguar nas suas mãos.  

E, então, ele escreve e tudo ganha outro sentido. 

É quando a água do rio se agita porque sabe que vai chegar no mar, naquela imensidão que é o mar, e mexe com o que a gente tem de mais profundo. Quando ele escreve, revira aqui dentro de um tudo, memórias apagadas, sonhos naufragados e amores que eu nunca vivi. 

Eu sempre me afogo entre as estrofes soltas na espuma das suas ondas. Ele, na minha arrebentação.  

Eu sou oceano poema. Ele é às vezes sim, às vezes não. 




quarta-feira, 13 de maio de 2020

Vírus imoral

Quando tudo começou, juntei todos os eus ali naquele apartamento-corpo morada de mim.

Cada um num canto.

Enquanto eu lia trechos de um conto nervoso, lá fora a noite se derramava em temporal.

Um outro eu ouvia os versos que eu mesmo escrevia cá dentro, rimas, ritmos, músicas.

Eu me pus a dançar.

Eu e eu noite e dia.

Pensei tantas coisas, revirei por inteiro, baguncei minhas gavetas, me desfiz de tudo aquilo que por muito tempo escondi.

Despido de mim.

Sobraram a fantasia do eu-menino, os delírios do eu-homem, e aquela minha liberdade imoral que contaminava feito o vírus perigoso no ar.

Foi então que me calei e me tranquei sozinho.

E em meio a tanto silêncio, os olhos dos outros eus confiantes de que tudo aquilo também ia passar.

quinta-feira, 9 de janeiro de 2020

Veleiros

Logo eu, alma-oceano, a transbordar de mim. 
Veleiros à espera do vento por tanto tempo,
nesse mar-amor-amar que nunca teve fim. 

Alma que se sabe infinita essa minha.

A que mergulha no lado mais profundo 
e reconhece um mundo, o meu, sob essas ondas, marés, 
correnteza de frases tão bonitas, quase perfeitas. 

Palavras escritas sobre finos grãos de areia.  
Nossos nomes-horizontes, lado a lado, de mãos dadas, 
um risco-coração e a certeza de que isso também vai passar.

Logo eu, corpo-água-sentimento, com o que mais posso sonhar?

sexta-feira, 4 de outubro de 2019

Vaidosa

Desde que vim morar aqui em Brasília que as árvores começaram a chamar minha atenção. Acho que pelo fato de que aqui a gente não esbarra com quase ninguém nas ruas, justamente porque não tem rua do jeito que a gente está acostumado a ver nas outras cidades, foi que eu passei a prestar mais atenção nas árvores do que nas pessoas. Se antes, quando eu ainda morava no Rio de Janeiro, eu andava de ônibus e cruzava com todo o tipo de gente a todo momento, me alimentando daqueles personagens para os meus textos, aqui a coisa mudou de figura. Agora eu só ando de carro e na maioria das vezes sou eu e eu e olhe lá. 

Procuro sempre mudar meus caminhos, seguir novas rotas, atalhos, vias, mas há certos lugares que não tem como a gente não passar todos os dias. Nesses lugares eu já me reconheço e conheço as árvores que ali estão. Me encantam os desenhos de seus galhos, feito mãos retorcidas, estendidas para o céu azul desta cidade que eu já acho linda. Outro dia vi um cartaz aqui onde estava escrito que Brasília aumenta a distância entre as pessoas. E é verdade. Por isso mesmo passei a reparar nas árvores. 

Aqui bem pertinho de casa, na L4 Norte, que é uma via expressa que cruza todo o plano piloto pelo lado Leste, beirando o lago Paranoá, tem uma árvore que olha pra mim toda vez que eu passo por lá. E eu sou obrigado a passar por lá várias vezes durante o dia, daí que eu já tenho uma relação de afeto com essa árvore.É sério. Ela só me chamou a atenção esse ano, assim que começou a época da seca, lá pelo final do mês de maio. Ela fica debruçada numa curva, reinando sozinha e ocupando toda visão do canteiro. Como toda árvore do Cerrado, ela não é muito alta e seu tronco parece se contorcer num exercício de balé, como se girasse em torno de si mesmo, que é exatamente como ela se move em busca da água, me disseram. 

Curiosamente, ela passou boa parte desses últimos meses praticamente sem uma folha sequer. Só nos galhos das pontas do lado direito de quem a vê quando entra na curva é que tinha folhas, que mais pareciam formar uma franja, ornando a silhueta da árvore nua ali naquela curva a chamar minha atenção. Essa semana, após caírem as primeiras chuvas anunciando que a seca está indo embora, a árvore se vestiu de verde e a franja ficou ainda mais robusta, balançando ao ritmo do vento que faz naquela curva. Eu, que passo ali em frente com meu carro todos os dias e cumprimento silenciosamente aquela árvore, hoje sorri para ela como se eu dissesse que ela estava ainda mais bonita. 

Ela percebeu, eu sei. Vaidosa que só.