sexta-feira, 2 de abril de 2021

Metaforicamente

Ah, quantas vezes já quis parar o mundo nem que fosse por um segundo e me perder nesse poço sem fundo dentro de mim? Aqui fora, meu corpo é verso rabiscado na parede branca e aquilo que cai deitado ali, meio inclinado, é minha sombra, meu reverso, o avesso, a não poesia. 

Percebe como minha voz às vezes é mansa?

Lembra canto de ave rara, canto breve em sol menor, feito a brisa suave que sopra rima em seus ouvidos. Ouve só. Voz de menino passarinho avoando bem baixinho como fazem as gaivotas quando encostam suas asas delicadamente na superfície do mar. Chego a ficar sem ar. 

Ondas rebentando na areia e eu ali, exposto. Não me importo. 

Naquele momento é como seu eu conseguisse de fato parar o mundo. Respiro fundo. Inspiro. Estamos por aqui sozinhos mesmo, eu sei. Isso também já não me importa. Expiro. A verdade é que não falta muito tempo, já é outono novamente, o céu borrado de azul deixa meus dias mais bonitos e, juro, tenho ouvido Nick Cave. 

Não sei se te falei, mas ontem mesmo me disseram que a vida é uma grande metáfora. Acreditei. 

E metaforicamente mergulhei em mim. 

(você estava lá?) 

domingo, 14 de fevereiro de 2021

E daí?

Dia desses eu o vi atravessando a rua aqui perto de casa. Da última vez que nos encontramos ele me revelou ter fracassado no amor. Ora bolas, como se isso fosse algo raro de acontecer desde que o mundo é mundo. Eu também havia fracassado tantas vezes, confessei, e todas as vezes foram como se um véu se descortinasse bem diante dos meus olhos turvos, tantos gestos tristes, lentos, juntando pedaços de mim. 

Naqueles dias eu era metade neblina, metade temporal. 

Era como se em minhas veias corressem versos tímidos, verbos atropelados, palavras na contramão, tudo ao mesmo tempo agora. E então, eu aqui fora, me derramava em poesias de fuga, inventava uma nova rota, criava outras histórias e me escondia entre as rimas que eu mesmo trazia desde que vim parar aqui. 

É estranho, eu sei. Confuso até. 

Mas está tudo dentro de mim, assim como está tudo dentro dele também, nós dois sabemos muito bem disso. Essas coisas sufocam a gente, quase não dá pra contar. Melhor seria uma existência sem afetos, sem proximidade, sem intimidade, toque, pele, sexo, nada disso. Um pra lá, outro pra cá. Isso tudo dá muito trabalho, envolve outras pessoas, cada um é cada um, reage de um jeito, pensa diferente, enxerga assim ou assado, um quer enquanto o outro não quer. É sempre assim. Difícil. 

Já é madrugada. 

Chove sem parar nessa cidade faz mais de duas horas. 

Não teve carnaval esse ano, e daí? 

Eu sinto falta mesmo é do meu coração batendo em descompasso.  

(e de um abraço)

quinta-feira, 3 de dezembro de 2020

Poesia perdida

Parte teu peito em pedaços e joga teus restos nas margens desse rio de águas profundas em que te banhas.

Nada contra as correntes, deixa por lá esse amargo que ainda habita na tua boca quando fala, quando afoga, quando traga e vem me dar um beijo.

Mata esse desejo.

Solta esse teu corpo tão fechado em cima do meu corpo tão cansado e vem com calma.

Deságua tua alma em meus abraços e confia nos meus olhos de farol.

Vem ser meu guia na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, vem correr perigo, vem ficar comigo.

Vem.


quinta-feira, 12 de novembro de 2020

Tudo vai mudar

Dia desses li num post de uma amiga numa dessas redes sociais algo a respeito de uma certa ausência criativa que muitas vezes acomete quem tem o hábito de escrever. Confesso que quando essa pandemia de coronavírus começou eu até pensei que fosse baixar o santo escrevinhador em mim, um caboclo contador de boas histórias, mas me enganei. Talvez o fato de eu ter ficado um bom tempo isolado, sem encontrar quase ninguém nessa Brasília já tão árida, só eu comigo mesmo, tenha servido para me mostrar que eu não sou um bom laboratório para quem, como eu, gosta de brincar com as palavras vez ou outra. Não que eu não seja interessante, isso eu sei que eu sou. E não há nada de soberba nessa afirmação. É que eu sou um cara confuso, cheio de nuances, trago comigo as percepções únicas de uma vida que desde cedo vejo passar feito um filme diante dos meus olhos, lentes miúdas, muitas vezes tão sensíveis, e então, crio cenas ao meu redor.

E eu acho isso muito interessante.

Escrevi uns dois ou três pequenos poemas nesses meses, é verdade. Esses poemas por aí que eu escrevo desde sempre. Eu ainda era um menino e, quisesse ou não, já criava algumas estrofes mal estruturadas na minha cabeça e corria para botar tudo no papel. Hoje, um pouco mais crescidinho que aquele menino, descobri que a matéria-prima do poema sou eu conversando com os outros que só eu sei que habitam em mim. Para eu parir um poema é só eu navegar para dentro desse mar de versos, rimas, dores e amores desses eus que seguem a minha correnteza, nesse eu oceano, e nadar com eles sem perder o fôlego, até a minha arrebentação.

Palavras, são tantas, a me nausear.

Não fiz amigos novos nesse ano esquisito. Digo amigos físicos mesmo, desses que a gente olha no olho, abraça quando é de abraço e beija quando é de beijo. Aqui em Brasília eu tenho uns poucos e bons, minhas referências afetivas do Cerrado, que estiveram por perto nesses dias estranhos e que estarão para sempre por perto, mesmo que estejamos longe. Por outro lado, fiz alguns amigos virtuais, desses que a gente nunca viu ao vivo e a cores, mas que acabam sendo amigos também devido a esses Facebooks e Instagrams da vida, que estreitam muitos laços e fazem com que a gente se sinta íntimo de uma pessoa só porque ela publica determinadas coisas que vão ao encontro do que você pensa e faz e gosta. Então, a gente se aproxima e se atrai e se fala de vez em quando e se abre e se descobre um pouco naquele outro que está longe, naquele outro que a gente nunca viu, mas que também já é amigo, claro.  

Eu gosto muito disso.

No meu último dia no Rio de Janeiro, dois dias antes de tudo fechar por conta desse vírus que está aí, acordei cedo porque precisava voltar para Brasília e lembro que ao levantar da cama uma voz falou no meu ouvido que minha vida ia mudar. É bastante esquizofrênico, eu sei, mas eu ouvi a voz me dizer com todas as letras que minha vida ia mudar, acredite. Na hora não dei atenção, mas os dias foram passando e aquela frase passava a fazer todo sentido. Em menos de quinze dias eu mudei de apartamento. Saí de perto do lago, vim para o plano. Saí de um flat sem fogão e vim para um apartamento de verdade. Deixei a piscina para trás e me encontrei no pedal. Quase não ando mais de carro, tenho andado muito a pé. Nunca mais apareci para trabalhar no escritório, resolvo tudo em casa, na maioria das vezes pelo meu celular mesmo. Meus ternos estão cheirando a naftalina, minhas calças estão pensando que se aposentaram, meus sapatos já nem lembram mais de mim.

E eu não acho isso ruim.

Hoje, um pouco antes de eu resolver sentar para escrever esses poucos parágrafos aqui, uma dessas amigas virtuais que fiz esse ano me mandou uma mensagem dizendo que com certeza ela vai sair desse ano uma outra pessoa. Eu respondi que está todo mundo tendo de lidar com uma questão muito importante nas suas vidas e que quem tem um mínimo de sensibilidade vai sair diferente disso tudo. Ela me disse que agora sabe que não tem controle de nada. Eu disse que não adianta planejar nada porque a vida vem e te mostra que quem manda é ela e pronto.

Ponto final.

terça-feira, 1 de setembro de 2020

É preciso sonhar

Há meses ele não sonhava. Talvez porque de olhos abertos o mundo já se apresentava por demais surreal, convenhamos. O que outrora soprava feito brisa, hoje irrompe em vendaval, essa é que é a verdade. Ele mostrava-se surpreso, pois ninguém esperava que fosse acontecer tudo aquilo em tão breve espaço de tempo, toda essa mudança repentina, antigos elos se rompendo e aquele ego frágil ali, ferido, perdendo o controle de tudo e as máscaras caindo ao seu redor. As imagens vinham como náuseas naquela sala onde ele sufocava entre os livros espalhados pelo chão de tábua corrida, deitado num sofá de couro velho e ressecado, desconfortável como a vida de fato é. Ele sempre esteve ali sozinho e isso era o que mais lhe machucava e destruía tudo por dentro. Lá fora, só o silêncio constrangedor dos que não enxergam nada além do próprio nariz. 

Não faz tanto tempo assim, talvez dois ou três anos, era noite e suas mãos seguraram e apoiaram outras mãos, um sentimento forte, arrebatador, olhares cúmplices, luxúria, pecados da carne que ele insistia em chamar de amor. Fez de tudo para que aquele sentimento não se esvaísse, não fosse apenas mais um, não escorresse pelo ralo e fosse embora até nunca mais. Ao contrário, cultivava cada pequeno gesto, cada palavra bonita, cada verso, rima, canção. Algumas coisas, então, começaram a fazer sentido: o que ele vivera até ali, os laços cada vez mais estreitos, portas entreabertas, histórias mal contadas, luzes e sombras entre as frestas, tantos segredos, tanto prazer e tanta dor. O resto era música em seus ouvidos e o outro sempre a lhe dizer que não.

Não era a hora, era muito cedo, ele não queria e não adiantava insistir. A vida já havia lhe mostrado um outro lado que talvez fosse melhor esquecer, deixar no passado, não tinha o porquê reviver. Bom seria se tudo pudesse ser apagado, tal e qual aquele filme de uma mente sem lembranças, deletar todos os arquivos, passar uma borracha e não deixar mais ninguém se aproximar, só relações fortuitas mesmo, sem envolvimento, sem carinho, rituais mecânicos, desprovidos de qualquer sentimento, o falo duro, um gozo e nada mais. E o outro preso na armadilha, sem conseguir se desvencilhar, fugir, correr, tentando sobreviver, respirar um pouco, encontrar uma saída. 

Eram dias de muita angústia aqueles. Do céu haviam sumido as estrelas e em nossos pés o barro seco a levantar poeira. Calor. O suor escorrendo enquanto os barcos à deriva no meu peito oceano, coração pulsando o mar e meu eu submerso, inquieto, curioso, com tudo aquilo ancorado dentro de mim. Porque amar é verbo intransitivo, eu sei. Mas nem todo mundo sabe. 

(eu preciso voltar a sonhar) 

quinta-feira, 13 de agosto de 2020

Tomado de assalto

Entre tantas amarras, entre tantas desculpas, tamanha confusão, 


aquele outro lhe dizendo não 


e o pranto involuntário da dor arrebatando o mundo dentro do seu peito-solidão. 


(roubaram-lhe a vontade de amar) 

quarta-feira, 1 de julho de 2020

Hoje eu sei - ou delírios da pandemia I

Os ipês haviam florescido antes da hora e a alegria que eles trouxeram fazia tempos eu não percebia ali no coração-berçário do mundo. As ruas andavam vazias, ninguém encontrava ninguém. O silêncio predominava e a secura em minha garganta abafava ainda mais a minha voz que aqui jaz tão tímida.

Na noite passada ouvi passos apressados bem debaixo da minha janela. Tentei correr pra ver quem era, mas nem sombra restava. Só o vento trazendo a frente fria e arrastando as folhas das árvores no asfalto, feito coreografia de um balé qualquer. No céu, as nuvens fechando o tempo, e dentro daquelas casas só o vazio. 

Cerrei as cortinas, tevê ligada na sala, um ator canastrão em cena dizia que o seu maior medo era nunca mais encontrar aqueles que ele amava. Perdi a conta já do tempo que eu não encontro os meus, respondi pra mim mesmo, sem muita paciência para dramas e tentando manter a esperança de que tudo vai dar certo, como aprendi com a minha mãe.  

Lembro que eu sentia saudades do mar, água salgada na minha pele, meus pés na areia e do meu corpo flutuar até ser arrastado para muito além da arrebentação. Era quando me faltava o ar no peito carente dos abraços demorados, de poder tocar e sentir o outro bem ali junto a mim, o hálito quente, olho no olho e aquela vontade de estar perto de alguém que me ame de verdade. 

Eu me viro bem sozinho, hoje eu sei.

sexta-feira, 19 de junho de 2020

Arrebentação

Já batia aqui dentro a saudade e, em meu peito escudo, um baú de lembranças soltas feito passos de um balé com as canções que eu nunca esqueci. Era como se as palavras ficassem à sua espera para dançar e enquanto ele não aparecesse, elas, as palavras, apenas ecoavam em meu ouvido sem o menor sentido. 

Sempre foi assim. 

Porque volta e meia ele se afasta. Como se não quisesse mais saber de mim. Já cheguei a pensar que fosse ser para sempre, mas aprendi com o tempo que eu não vivo sem ele e ele não vive sem mim. Porque corre em meu leito um rio de frases perfeitas, correntezas de rimas que, de tão lindas, só conseguem desaguar nas suas mãos.  

E, então, ele escreve e tudo ganha outro sentido. 

É quando a água do rio se agita porque sabe que vai chegar no mar, naquela imensidão que é o mar, e mexe com o que a gente tem de mais profundo. Quando ele escreve, revira aqui dentro de um tudo, memórias apagadas, sonhos naufragados e amores que eu nunca vivi. 

Eu sempre me afogo entre as estrofes soltas na espuma das suas ondas. Ele, na minha arrebentação.  

Eu sou oceano poema. Ele é às vezes sim, às vezes não. 




quarta-feira, 13 de maio de 2020

Vírus imoral

Quando tudo começou, juntei todos os eus ali naquele apartamento-corpo morada de mim.

Cada um num canto.

Enquanto eu lia trechos de um conto nervoso, lá fora a noite se derramava em temporal.

Um outro eu ouvia os versos que eu mesmo escrevia cá dentro, rimas, ritmos, músicas.

Eu me pus a dançar.

Eu e eu noite e dia.

Pensei tantas coisas, revirei por inteiro, baguncei minhas gavetas, me desfiz de tudo aquilo que por muito tempo escondi.

Despido de mim.

Sobraram a fantasia do eu-menino, os delírios do eu-homem, e aquela minha liberdade imoral que contaminava feito o vírus perigoso no ar.

Foi então que me calei e me tranquei sozinho.

E em meio a tanto silêncio, os olhos dos outros eus confiantes de que tudo aquilo também ia passar.

quinta-feira, 9 de janeiro de 2020

Veleiros

Logo eu, alma-oceano, a transbordar de mim. 
Veleiros à espera do vento por tanto tempo,
nesse mar-amor-amar que nunca teve fim. 

Alma que se sabe infinita essa minha.

A que mergulha no lado mais profundo 
e reconhece um mundo, o meu, sob essas ondas, marés, 
correnteza de frases tão bonitas, quase perfeitas. 

Palavras escritas sobre finos grãos de areia.  
Nossos nomes-horizontes, lado a lado, de mãos dadas, 
um risco-coração e a certeza de que isso também vai passar.

Logo eu, corpo-água-sentimento, com o que mais posso sonhar?

sexta-feira, 4 de outubro de 2019

Vaidosa

Desde que vim morar aqui em Brasília que as árvores começaram a chamar minha atenção. Acho que pelo fato de que aqui a gente não esbarra com quase ninguém nas ruas, justamente porque não tem rua do jeito que a gente está acostumado a ver nas outras cidades, foi que eu passei a prestar mais atenção nas árvores do que nas pessoas. Se antes, quando eu ainda morava no Rio de Janeiro, eu andava de ônibus e cruzava com todo o tipo de gente a todo momento, me alimentando daqueles personagens para os meus textos, aqui a coisa mudou de figura. Agora eu só ando de carro e na maioria das vezes sou eu e eu e olhe lá. 

Procuro sempre mudar meus caminhos, seguir novas rotas, atalhos, vias, mas há certos lugares que não tem como a gente não passar todos os dias. Nesses lugares eu já me reconheço e conheço as árvores que ali estão. Me encantam os desenhos de seus galhos, feito mãos retorcidas, estendidas para o céu azul desta cidade que eu já acho linda. Outro dia vi um cartaz aqui onde estava escrito que Brasília aumenta a distância entre as pessoas. E é verdade. Por isso mesmo passei a reparar nas árvores. 

Aqui bem pertinho de casa, na L4 Norte, que é uma via expressa que cruza todo o plano piloto pelo lado Leste, beirando o lago Paranoá, tem uma árvore que olha pra mim toda vez que eu passo por lá. E eu sou obrigado a passar por lá várias vezes durante o dia, daí que eu já tenho uma relação de afeto com essa árvore.É sério. Ela só me chamou a atenção esse ano, assim que começou a época da seca, lá pelo final do mês de maio. Ela fica debruçada numa curva, reinando sozinha e ocupando toda visão do canteiro. Como toda árvore do Cerrado, ela não é muito alta e seu tronco parece se contorcer num exercício de balé, como se girasse em torno de si mesmo, que é exatamente como ela se move em busca da água, me disseram. 

Curiosamente, ela passou boa parte desses últimos meses praticamente sem uma folha sequer. Só nos galhos das pontas do lado direito de quem a vê quando entra na curva é que tinha folhas, que mais pareciam formar uma franja, ornando a silhueta da árvore nua ali naquela curva a chamar minha atenção. Essa semana, após caírem as primeiras chuvas anunciando que a seca está indo embora, a árvore se vestiu de verde e a franja ficou ainda mais robusta, balançando ao ritmo do vento que faz naquela curva. Eu, que passo ali em frente com meu carro todos os dias e cumprimento silenciosamente aquela árvore, hoje sorri para ela como se eu dissesse que ela estava ainda mais bonita. 

Ela percebeu, eu sei. Vaidosa que só. 






quarta-feira, 25 de setembro de 2019

Delírios (ou um breve texto sobre mim)

Leio poesias delirantes em cartas postas sobre a mesa. Minha vida, feito rima, metricamente em versos exposta, me deixando nu entre tantos eus, num constante desalinho. Hoje voltou a chover em boa parte de mim e toda aquela água caindo do céu da minha boca anunciava as boas novas que nunca me esqueci. Ainda sai de meus poros um cheiro bom de terra molhada. Sob meus pés, o barro vermelho, úmido, quente, útero, e daqui a pouco tudo verdinho outra vez. Esperança. Lembro dos tempos em que eu era só uma criança, os olhos de minha avó me servindo de guia, estradas abertas, tantos caminhos e um outro eu ali, sozinho. O menino que um dia fui, o homem que eu não sei se sou. Quantos de mim revelados nessas estrofes? Ninguém sabe e nem nunca vai saber.

O todo é um pronome indefinido.

terça-feira, 9 de julho de 2019

O mundo precisa de afeto, porra.

Sabe-se lá por quanto tempo nosso encontro havia sido adiado. Uma vida inteira, bem capaz. Ultimamente, em meio a tantas polêmicas, tantos desentendimentos, tantos homens sórdidos, talvez o melhor fosse mesmo o afastamento por completo de tudo e de todos, o silêncio absoluto, uma outra encarnação, se é que isso existe. Há meses já que não chovia e toda aquela secura entre as gentes, o sol castigando a pele, a terra vermelha tapando os poros, feridas expostas na palma da mão estendida bem ali sobre nossos corpos outrora nus, o meu e o seu, vulneráveis, indefesos, jogados no chão. Ao redor tudo era um deserto, papel em branco, um vazio assustador. A lucidez, que nunca foi muito firme, deu lugar a devaneios, fantasias, ilusões e outras tempestades provisórias dentro de mim. De nós. Loucura. 

Não me lembro quando nem onde, mas você chegou a me confessar que sonhava sonhos coloridos e que nesses sonhos você nadava em rios de águas cristalinas, subia correndo de um fôlego só as montanhas mais verdes e mais íngremes e lá de cima soprava meu nome entre nuvens branquinhas de algodão. Você chegou a dizer que me amava. Mais de uma vez. Eu nunca acreditei. Nunca quis acreditar. Não me interessava. Na verdade, eu achava aquilo tudo muito piegas, me incomodava. Esse papo de sentimento logo pra cima de mim, que desde cedo fui obrigado a aprender a me virar pra sobreviver, pra ser quem eu sou, pra sair daquele lodo de onde eu vim, não colava. Eu nunca soube o que é carinho de verdade e nem nunca quis saber. Você insistia. Eu desisti. Tudo se acabou.

Algum tempo depois eu li uma frase rabiscada num muro que dizia que o mundo precisa de afeto, porra. Assim mesmo, com todas as letras e vírgulas. Eu estava sozinho zanzando pelo centro abandonado e sujo da cidade, era noite, fazia frio, eu não queria voltar para casa, não tinha nada para fazer, pouca coisa, quase nada, me interessava e aquela frase de repente me fez lembrar você. Não sei precisar por quanto tempo fiquei parado, hipnotizado em frente ao tal muro onde aquela frase estava escrita. Só sei que por alguns instantes tudo parou e era como se eu ouvisse a sua voz sussurrando no meu ouvido que o mundo precisa de afeto, porra, uma, duas, mil vezes aquela frase ecoando na minha cabeça. Uma ambulância com uma sirene estridente passou apressada e me despertou daquele transe. Mais uma vez era só eu e eu ali. Um espécie de náusea e, do nada, um vento estranho varreu tudo pra longe de mim. Eu gelei de saudades por te saber nunca mais. 

 Vida é encontro, hoje eu sei. 

terça-feira, 21 de maio de 2019

Ecos

Há muitos versos guardados em mim, escondidos nesse emaranhado eu que eu mesmo desconheço, disfarçados entre tantos gritos presos em nós nessa minha garganta que se afoga em rimas complexas. Amplificadores de amores desfeitos, espelhos meus, meus reflexos. 

Já não consigo mais me ver por inteiro, não lembro mais como eu era antes, fragmentos. 

Deixo para depois os conselhos que meus eus cismam em me dar e paro para ver de perto toda essa minha loucura. Olhos bem abertos e ao redor tudo é barbárie. Pesadelo coletivo. É nele que estou preso agora. 

É só meu corpo, eu penso. 

É só mais um contorno mal rabiscado, pele, poros, órgãos, fronteiras entre mim e aqueles que me habitam. Sou um, eu sei. Mas junto a mim, outros tantos diante dos abismos. 

Ouço vozes. As de sempre, muito embora eu nunca saiba de onde elas vêm. Elas falam comigo incessantemente. Sussurram meu nome. Ecos. Eu sigo em frente. 

Tenho andado mesmo muito calado ultimamente.  

domingo, 27 de janeiro de 2019

Cena linda de se ver

Dia desses me dei ouvidos e te convidei para crescer comigo. Um outro eu entre tantos outros que me habitam, um laço eterno, visitas inesperadas dentro de mim, que sou feito de gestos simples, olhares úmidos, mãos dadas de repente, amigos e amores lado a lado na estrada. Era tarde quando você apareceu. Me pegou de surpresa, revelou meu lado oculto, luz na minha sombra, teu corpo que é meu corpo sobre meu corpo que é teu corpo. Nu. Fazia tempo que não nos víamos. Desde o dia em que você me disse para eu seguir meu caminho, firmar meus passos em frente, não olhar para trás e aprender com as cicatrizes, já que algumas descobertas causam mesmo muita dor. Eu já sofria terrivelmente sem falar nada para ninguém. Desde sempre tive essa mania. Só eu sabia da impossibilidade da natureza de determinadas coisas, mas mesmo assim eu continuava. Alguma coisa mandava eu não desistir. 

Teimosia. 

Dia desses me tirei para dançar. Fez-se um baile em minha vida. Meus pés rodopiavam incessantemente no salão ao som de músicas que aquele que era eu costumava cantar, lembra? Era doce a melodia cuja letra era de fato um poema deslizando nas estrofes entre as rimas que ele, que ao mesmo tempo era você e eu, escrevia enquanto animava a festa ao meu redor. Havia tantos em volta, e eles pulavam, gritavam, pareciam não querer sair de perto, não me deixavam mais sozinho, e eu ali no centro de tudo, cada vez mais calado, quieto, assustado, quase sem ar. Claustrofóbico de mim. 

Era como se eu construísse barreiras para que você e todos esses que são eu não se aproximassem. Poucas vezes me deixei chegar tão perto assim de mim. Isso é ruim, eu sei. Sempre me senti meio sozinho, fui pedra bruta abandonada na beira do rio, arco-íris decomposto em prisma, geometria das cores, aquarela, luz e sol. Eu sequer percebia quantos eus havia. Não imaginava. Não queria saber. Fiz pouco caso. Fui egoísta. Era eu e eu e eu somente o que me importava. Mas dia desses encontrei de novo com eu você. Tudo já meio diferente em mim. Em nós. Era como olhar num espelho, era como entrar naquele outro eu você ali na frente, era como dar um abraço forte, peito encostando no peito, a pele quente, coração fervendo, cena linda de se ver.  

Dia desses. 

quarta-feira, 23 de janeiro de 2019

Vida é sopro

Há quem goste mais das estrelas que da lua.
Há os que nem olham para o céu.
Momentos raros e a vida continua
Feito um beijo roubado.
Suas mãos sobre minha carne nua. 

Há os que gritam para todo mundo ouvir.
Há os que ferem mesmo sem sentir
Todo coração um dia foi pisado,
usado, humilhado, fica a cicatriz.
Manchas de sangue sobre meu colchão.

Há os loucos e os poetas que acreditam no amor.
Há os que nunca se permitiram amar de verdade.
Amar nada mais é que conjugar um verbo simples,
é se despir de toda e qualquer vaidade.
Vida é sopro. Amor é sorte.


terça-feira, 15 de janeiro de 2019

Insanidade

Saudade enlouquece a gente.

Machuca, fere, dói, mata.

Dia desses quase morri. Loucura.


sexta-feira, 30 de novembro de 2018

Lume

Há que se encantar pela vida.
Ficar de pé, seguir em frente,
ser mais um elo nessa corrente,
firmar na luz que vem do candeeiro. 
O resto é o tempo, é movimento,
lento, brisa, vendaval.

Faz tua espiral girar bem alto
e transforma tudo ao teu redor.
Seja a voz suave que sopra em boa hora,
a mudança que vem de dentro pra fora,
a alegria simples que inspira um verso, 
um gesto, um grito de despertar.

É aqui neste momento entre a queda e o salto, 
no limiar infinito do espaço,
num breve ocaso do céu.
Aqui, onde não é o começo
e onde ainda não teve fim,
onde deves acreditar, dizer que sim. 

Pois não duvides, tu és o lume,
és o guia na estrada rumo ao Norte,
lá tem gente que, por sorte, ainda está a te esperar.
És o sol que brilha, és toda essa maravilha,
és teu próprio milagre, a testemunha viva. 
Há que se encantar pela vida.


quinta-feira, 1 de novembro de 2018

Fica

Ainda há pouco eu te disse: fica.
Deita do meu lado e acredita.
Ouve as batidas. É meu coração.

Barulho de chuva no Cerrado
e a água que cai, arrastando semente,
no barro vermelho onde brota a vida.

Sou sujeito fértil nessa cidade sem esquinas,
escrevo frases sem sentido na minha pele,
penso em versos com minha língua na tua boca,
meu gozo é manso, a voz é rouca,
me dá tua mão que eu sou poesia.

Lá fora, céu nublado.
Aqui, verbo intransitivo.

domingo, 21 de outubro de 2018

Agora é outra vida

É preciso começar um novo capítulo,
se dedicar a outras lições.
Há tanta coisa guardada dentro do peito:
um nó, um peso, um amor rarefeito
e muitos versos perdidos que eu nem sei se existem mais.

Se eu te encontrasse nas palavras certas
do passado, presente ou futuro, te juro,
você seria a mais nova poesia
tatuada para sempre em minha pele-página.

Eu teria como ler para você todas as frases soltas,
rasuradas nas linhas tênues do meu corpo.
Seria o seu romance, seu homem-livro imaginário,
seu melhor enredo, sua história mais bonita.
Só você não acredita.

Mas agora é outra vida.
Acredite.