sexta-feira, 2 de abril de 2021
Metaforicamente
domingo, 14 de fevereiro de 2021
E daí?
Dia desses eu o vi atravessando a rua aqui perto de casa. Da última vez que nos encontramos ele me revelou ter fracassado no amor. Ora bolas, como se isso fosse algo raro de acontecer desde que o mundo é mundo. Eu também havia fracassado tantas vezes, confessei, e todas as vezes foram como se um véu se descortinasse bem diante dos meus olhos turvos, tantos gestos tristes, lentos, juntando pedaços de mim.
Naqueles dias eu era metade neblina, metade temporal.
Era como se em minhas veias corressem versos tímidos, verbos atropelados, palavras na contramão, tudo ao mesmo tempo agora. E então, eu aqui fora, me derramava em poesias de fuga, inventava uma nova rota, criava outras histórias e me escondia entre as rimas que eu mesmo trazia desde que vim parar aqui.
É estranho, eu sei. Confuso até.
Mas está tudo dentro de mim, assim como está tudo dentro dele também, nós dois sabemos muito bem disso. Essas coisas sufocam a gente, quase não dá pra contar. Melhor seria uma existência sem afetos, sem proximidade, sem intimidade, toque, pele, sexo, nada disso. Um pra lá, outro pra cá. Isso tudo dá muito trabalho, envolve outras pessoas, cada um é cada um, reage de um jeito, pensa diferente, enxerga assim ou assado, um quer enquanto o outro não quer. É sempre assim. Difícil.
Já é madrugada.
Chove sem parar nessa cidade faz mais de duas horas.
Não teve carnaval esse ano, e daí?
Eu sinto falta mesmo é do meu coração batendo em descompasso.
(e de um abraço)
quinta-feira, 3 de dezembro de 2020
Poesia perdida
Parte teu peito em pedaços e joga teus restos nas margens
desse rio de águas profundas em que te banhas.
Nada contra as correntes, deixa por lá esse amargo que ainda
habita na tua boca quando fala, quando afoga, quando traga e vem me dar um
beijo.
Mata esse desejo.
Solta esse teu corpo tão fechado em cima do meu corpo tão
cansado e vem com calma.
Deságua tua alma em meus abraços e confia nos meus olhos de
farol.
Vem ser meu guia na alegria e na tristeza, na saúde e na
doença, vem correr perigo, vem ficar comigo.
Vem.
quinta-feira, 12 de novembro de 2020
Tudo vai mudar
Dia desses li num post de uma amiga numa dessas redes sociais algo a respeito de uma certa ausência criativa que muitas vezes acomete quem tem o hábito de escrever. Confesso que quando essa pandemia de coronavírus começou eu até pensei que fosse baixar o santo escrevinhador em mim, um caboclo contador de boas histórias, mas me enganei. Talvez o fato de eu ter ficado um bom tempo isolado, sem encontrar quase ninguém nessa Brasília já tão árida, só eu comigo mesmo, tenha servido para me mostrar que eu não sou um bom laboratório para quem, como eu, gosta de brincar com as palavras vez ou outra. Não que eu não seja interessante, isso eu sei que eu sou. E não há nada de soberba nessa afirmação. É que eu sou um cara confuso, cheio de nuances, trago comigo as percepções únicas de uma vida que desde cedo vejo passar feito um filme diante dos meus olhos, lentes miúdas, muitas vezes tão sensíveis, e então, crio cenas ao meu redor.
E eu acho isso muito interessante.
Escrevi uns dois ou três pequenos poemas nesses meses, é
verdade. Esses poemas por aí que eu escrevo desde sempre. Eu ainda era um menino
e, quisesse ou não, já criava algumas estrofes mal estruturadas na minha cabeça
e corria para botar tudo no papel. Hoje, um pouco mais crescidinho que aquele
menino, descobri que a matéria-prima do poema sou eu conversando com os outros
que só eu sei que habitam em mim. Para eu parir um poema é só eu navegar para
dentro desse mar de versos, rimas, dores e amores desses eus que seguem a minha
correnteza, nesse eu oceano, e nadar com eles sem perder o fôlego, até a minha arrebentação.
Palavras, são tantas, a me nausear.
Não fiz amigos novos nesse ano esquisito. Digo amigos
físicos mesmo, desses que a gente olha no olho, abraça quando é de abraço e beija
quando é de beijo. Aqui em Brasília eu tenho uns poucos e bons, minhas referências
afetivas do Cerrado, que estiveram por perto nesses dias estranhos e que
estarão para sempre por perto, mesmo que estejamos longe. Por outro lado, fiz
alguns amigos virtuais, desses que a gente nunca viu ao vivo e a cores, mas que
acabam sendo amigos também devido a esses Facebooks e Instagrams da vida, que
estreitam muitos laços e fazem com que a gente se sinta íntimo de uma pessoa só
porque ela publica determinadas coisas que vão ao encontro do que você pensa e
faz e gosta. Então, a gente se aproxima e se atrai e se fala de vez em quando e
se abre e se descobre um pouco naquele outro que está longe, naquele outro que
a gente nunca viu, mas que também já é amigo, claro.
Eu gosto muito disso.
No meu último dia no Rio de Janeiro, dois dias antes de tudo
fechar por conta desse vírus que está aí, acordei cedo porque precisava voltar
para Brasília e lembro que ao levantar da cama uma voz falou no meu ouvido que
minha vida ia mudar. É bastante esquizofrênico, eu sei, mas eu ouvi a voz me dizer
com todas as letras que minha vida ia mudar, acredite. Na hora não dei atenção,
mas os dias foram passando e aquela frase passava a fazer todo sentido. Em menos
de quinze dias eu mudei de apartamento. Saí de perto do lago, vim para o plano.
Saí de um flat sem fogão e vim para um apartamento de verdade. Deixei a piscina
para trás e me encontrei no pedal. Quase não ando mais de carro, tenho andado
muito a pé. Nunca mais apareci para
trabalhar no escritório, resolvo tudo em casa, na maioria das vezes pelo meu
celular mesmo. Meus ternos estão cheirando a naftalina, minhas calças estão
pensando que se aposentaram, meus sapatos já nem lembram mais de mim.
E eu não acho isso ruim.
Hoje, um pouco antes de eu resolver sentar para escrever esses
poucos parágrafos aqui, uma dessas amigas virtuais que fiz esse ano me mandou
uma mensagem dizendo que com certeza ela vai sair desse ano uma outra pessoa.
Eu respondi que está todo mundo tendo de lidar com uma questão muito importante
nas suas vidas e que quem tem um mínimo de sensibilidade vai sair diferente
disso tudo. Ela me disse que agora sabe que não tem controle de nada. Eu disse
que não adianta planejar nada porque a vida vem e te mostra que quem manda é
ela e pronto.
Ponto final.
terça-feira, 1 de setembro de 2020
É preciso sonhar
Há meses ele não sonhava. Talvez porque de olhos abertos o mundo já se apresentava por demais surreal, convenhamos. O que outrora soprava feito brisa, hoje irrompe em vendaval, essa é que é a verdade. Ele mostrava-se surpreso, pois ninguém esperava que fosse acontecer tudo aquilo em tão breve espaço de tempo, toda essa mudança repentina, antigos elos se rompendo e aquele ego frágil ali, ferido, perdendo o controle de tudo e as máscaras caindo ao seu redor. As imagens vinham como náuseas naquela sala onde ele sufocava entre os livros espalhados pelo chão de tábua corrida, deitado num sofá de couro velho e ressecado, desconfortável como a vida de fato é. Ele sempre esteve ali sozinho e isso era o que mais lhe machucava e destruía tudo por dentro. Lá fora, só o silêncio constrangedor dos que não enxergam nada além do próprio nariz.
Não faz tanto tempo assim, talvez dois ou três anos, era noite e suas mãos seguraram e apoiaram outras mãos, um sentimento forte, arrebatador, olhares cúmplices, luxúria, pecados da carne que ele insistia em chamar de amor. Fez de tudo para que aquele sentimento não se esvaísse, não fosse apenas mais um, não escorresse pelo ralo e fosse embora até nunca mais. Ao contrário, cultivava cada pequeno gesto, cada palavra bonita, cada verso, rima, canção. Algumas coisas, então, começaram a fazer sentido: o que ele vivera até ali, os laços cada vez mais estreitos, portas entreabertas, histórias mal contadas, luzes e sombras entre as frestas, tantos segredos, tanto prazer e tanta dor. O resto era música em seus ouvidos e o outro sempre a lhe dizer que não.
Não era a hora, era muito cedo, ele não queria e não adiantava insistir. A vida já havia lhe mostrado um outro lado que talvez fosse melhor esquecer, deixar no passado, não tinha o porquê reviver. Bom seria se tudo pudesse ser apagado, tal e qual aquele filme de uma mente sem lembranças, deletar todos os arquivos, passar uma borracha e não deixar mais ninguém se aproximar, só relações fortuitas mesmo, sem envolvimento, sem carinho, rituais mecânicos, desprovidos de qualquer sentimento, o falo duro, um gozo e nada mais. E o outro preso na armadilha, sem conseguir se desvencilhar, fugir, correr, tentando sobreviver, respirar um pouco, encontrar uma saída.
Eram dias de muita angústia aqueles. Do céu haviam sumido as estrelas e em nossos pés o barro seco a levantar poeira. Calor. O suor escorrendo enquanto os barcos à deriva no meu peito oceano, coração pulsando o mar e meu eu submerso, inquieto, curioso, com tudo aquilo ancorado dentro de mim. Porque amar é verbo intransitivo, eu sei. Mas nem todo mundo sabe.
(eu preciso voltar a sonhar)
quinta-feira, 13 de agosto de 2020
Tomado de assalto
Entre tantas amarras, entre tantas desculpas, tamanha confusão,
aquele outro lhe dizendo não
e o pranto involuntário da dor arrebatando o mundo dentro do seu peito-solidão.
(roubaram-lhe a vontade de amar)
quarta-feira, 1 de julho de 2020
Hoje eu sei - ou delírios da pandemia I
sexta-feira, 19 de junho de 2020
Arrebentação
quarta-feira, 13 de maio de 2020
Vírus imoral
Cada um num canto.
Enquanto eu lia trechos de um conto nervoso, lá fora a noite se derramava em temporal.
Um outro eu ouvia os versos que eu mesmo escrevia cá dentro, rimas, ritmos, músicas.
Eu me pus a dançar.
Eu e eu noite e dia.
Pensei tantas coisas, revirei por inteiro, baguncei minhas gavetas, me desfiz de tudo aquilo que por muito tempo escondi.
Despido de mim.
Sobraram a fantasia do eu-menino, os delírios do eu-homem, e aquela minha liberdade imoral que contaminava feito o vírus perigoso no ar.
Foi então que me calei e me tranquei sozinho.
E em meio a tanto silêncio, os olhos dos outros eus confiantes de que tudo aquilo também ia passar.
quinta-feira, 9 de janeiro de 2020
Veleiros
sexta-feira, 4 de outubro de 2019
Vaidosa
quarta-feira, 25 de setembro de 2019
Delírios (ou um breve texto sobre mim)
O todo é um pronome indefinido.
terça-feira, 9 de julho de 2019
O mundo precisa de afeto, porra.
terça-feira, 21 de maio de 2019
Ecos
domingo, 27 de janeiro de 2019
Cena linda de se ver
quarta-feira, 23 de janeiro de 2019
Vida é sopro
Há os que nem olham para o céu.
Momentos raros e a vida continua
Feito um beijo roubado.
Suas mãos sobre minha carne nua.
Há os que gritam para todo mundo ouvir.
Há os que ferem mesmo sem sentir
Todo coração um dia foi pisado,
usado, humilhado, fica a cicatriz.
Manchas de sangue sobre meu colchão.
Há os loucos e os poetas que acreditam no amor.
Há os que nunca se permitiram amar de verdade.
Amar nada mais é que conjugar um verbo simples,
é se despir de toda e qualquer vaidade.
Vida é sopro. Amor é sorte.
terça-feira, 15 de janeiro de 2019
sexta-feira, 30 de novembro de 2018
Lume
Ficar de pé, seguir em frente,
ser mais um elo nessa corrente,
firmar na luz que vem do candeeiro.
O resto é o tempo, é movimento,
lento, brisa, vendaval.
Faz tua espiral girar bem alto
e transforma tudo ao teu redor.
Seja a voz suave que sopra em boa hora,
a mudança que vem de dentro pra fora,
a alegria simples que inspira um verso,
um gesto, um grito de despertar.
É aqui neste momento entre a queda e o salto,
no limiar infinito do espaço,
num breve ocaso do céu.
Aqui, onde não é o começo
e onde ainda não teve fim,
onde deves acreditar, dizer que sim.
Pois não duvides, tu és o lume,
és o guia na estrada rumo ao Norte,
lá tem gente que, por sorte, ainda está a te esperar.
És o sol que brilha, és toda essa maravilha,
és teu próprio milagre, a testemunha viva.
Há que se encantar pela vida.
quinta-feira, 1 de novembro de 2018
Fica
Deita do meu lado e acredita.
Ouve as batidas. É meu coração.
Barulho de chuva no Cerrado
e a água que cai, arrastando semente,
no barro vermelho onde brota a vida.
Sou sujeito fértil nessa cidade sem esquinas,
escrevo frases sem sentido na minha pele,
penso em versos com minha língua na tua boca,
meu gozo é manso, a voz é rouca,
me dá tua mão que eu sou poesia.
Lá fora, céu nublado.
Aqui, verbo intransitivo.
domingo, 21 de outubro de 2018
Agora é outra vida
se dedicar a outras lições.
Há tanta coisa guardada dentro do peito:
um nó, um peso, um amor rarefeito
e muitos versos perdidos que eu nem sei se existem mais.
Se eu te encontrasse nas palavras certas
do passado, presente ou futuro, te juro,
você seria a mais nova poesia
tatuada para sempre em minha pele-página.
Eu teria como ler para você todas as frases soltas,
rasuradas nas linhas tênues do meu corpo.
Seria o seu romance, seu homem-livro imaginário,
seu melhor enredo, sua história mais bonita.
Só você não acredita.
Mas agora é outra vida.
Acredite.