quinta-feira, 13 de agosto de 2020

Tomado de assalto

Entre tantas amarras, entre tantas desculpas, tamanha confusão, 


aquele outro lhe dizendo não 


e o pranto involuntário da dor arrebatando o mundo dentro do seu peito-solidão. 


(roubaram-lhe a vontade de amar) 

quarta-feira, 1 de julho de 2020

Hoje eu sei - ou delírios da pandemia I

Os ipês haviam florescido antes da hora e a alegria que eles trouxeram fazia tempos eu não percebia ali no coração-berçário do mundo. As ruas andavam vazias, ninguém encontrava ninguém. O silêncio predominava e a secura em minha garganta abafava ainda mais a minha voz que aqui jaz tão tímida.

Na noite passada ouvi passos apressados bem debaixo da minha janela. Tentei correr pra ver quem era, mas nem sombra restava. Só o vento trazendo a frente fria e arrastando as folhas das árvores no asfalto, feito coreografia de um balé qualquer. No céu, as nuvens fechando o tempo, e dentro daquelas casas só o vazio. 

Cerrei as cortinas, tevê ligada na sala, um ator canastrão em cena dizia que o seu maior medo era nunca mais encontrar aqueles que ele amava. Perdi a conta já do tempo que eu não encontro os meus, respondi pra mim mesmo, sem muita paciência para dramas e tentando manter a esperança de que tudo vai dar certo, como aprendi com a minha mãe.  

Lembro que eu sentia saudades do mar, água salgada na minha pele, meus pés na areia e do meu corpo flutuar até ser arrastado para muito além da arrebentação. Era quando me faltava o ar no peito carente dos abraços demorados, de poder tocar e sentir o outro bem ali junto a mim, o hálito quente, olho no olho e aquela vontade de estar perto de alguém que me ame de verdade. 

Eu me viro bem sozinho, hoje eu sei.

sexta-feira, 19 de junho de 2020

Arrebentação

Já batia aqui dentro a saudade e, em meu peito escudo, um baú de lembranças soltas feito passos de um balé com as canções que eu nunca esqueci. Era como se as palavras ficassem à sua espera para dançar e enquanto ele não aparecesse, elas, as palavras, apenas ecoavam em meu ouvido sem o menor sentido. 

Sempre foi assim. 

Porque volta e meia ele se afasta. Como se não quisesse mais saber de mim. Já cheguei a pensar que fosse ser para sempre, mas aprendi com o tempo que eu não vivo sem ele e ele não vive sem mim. Porque corre em meu leito um rio de frases perfeitas, correntezas de rimas que, de tão lindas, só conseguem desaguar nas suas mãos.  

E, então, ele escreve e tudo ganha outro sentido. 

É quando a água do rio se agita porque sabe que vai chegar no mar, naquela imensidão que é o mar, e mexe com o que a gente tem de mais profundo. Quando ele escreve, revira aqui dentro de um tudo, memórias apagadas, sonhos naufragados e amores que eu nunca vivi. 

Eu sempre me afogo entre as estrofes soltas na espuma das suas ondas. Ele, na minha arrebentação.  

Eu sou oceano poema. Ele é às vezes sim, às vezes não. 




quarta-feira, 13 de maio de 2020

Vírus imoral

Quando tudo começou, juntei todos os eus ali naquele apartamento-corpo morada de mim.

Cada um num canto.

Enquanto eu lia trechos de um conto nervoso, lá fora a noite se derramava em temporal.

Um outro eu ouvia os versos que eu mesmo escrevia cá dentro, rimas, ritmos, músicas.

Eu me pus a dançar.

Eu e eu noite e dia.

Pensei tantas coisas, revirei por inteiro, baguncei minhas gavetas, me desfiz de tudo aquilo que por muito tempo escondi.

Despido de mim.

Sobraram a fantasia do eu-menino, os delírios do eu-homem, e aquela minha liberdade imoral que contaminava feito o vírus perigoso no ar.

Foi então que me calei e me tranquei sozinho.

E em meio a tanto silêncio, os olhos dos outros eus confiantes de que tudo aquilo também ia passar.

quinta-feira, 9 de janeiro de 2020

Veleiros

Logo eu, alma-oceano, a transbordar de mim. 
Veleiros à espera do vento por tanto tempo,
nesse mar-amor-amar que nunca teve fim. 

Alma que se sabe infinita essa minha.

A que mergulha no lado mais profundo 
e reconhece um mundo, o meu, sob essas ondas, marés, 
correnteza de frases tão bonitas, quase perfeitas. 

Palavras escritas sobre finos grãos de areia.  
Nossos nomes-horizontes, lado a lado, de mãos dadas, 
um risco-coração e a certeza de que isso também vai passar.

Logo eu, corpo-água-sentimento, com o que mais posso sonhar?

sexta-feira, 4 de outubro de 2019

Vaidosa

Desde que vim morar aqui em Brasília que as árvores começaram a chamar minha atenção. Acho que pelo fato de que aqui a gente não esbarra com quase ninguém nas ruas, justamente porque não tem rua do jeito que a gente está acostumado a ver nas outras cidades, foi que eu passei a prestar mais atenção nas árvores do que nas pessoas. Se antes, quando eu ainda morava no Rio de Janeiro, eu andava de ônibus e cruzava com todo o tipo de gente a todo momento, me alimentando daqueles personagens para os meus textos, aqui a coisa mudou de figura. Agora eu só ando de carro e na maioria das vezes sou eu e eu e olhe lá. 

Procuro sempre mudar meus caminhos, seguir novas rotas, atalhos, vias, mas há certos lugares que não tem como a gente não passar todos os dias. Nesses lugares eu já me reconheço e conheço as árvores que ali estão. Me encantam os desenhos de seus galhos, feito mãos retorcidas, estendidas para o céu azul desta cidade que eu já acho linda. Outro dia vi um cartaz aqui onde estava escrito que Brasília aumenta a distância entre as pessoas. E é verdade. Por isso mesmo passei a reparar nas árvores. 

Aqui bem pertinho de casa, na L4 Norte, que é uma via expressa que cruza todo o plano piloto pelo lado Leste, beirando o lago Paranoá, tem uma árvore que olha pra mim toda vez que eu passo por lá. E eu sou obrigado a passar por lá várias vezes durante o dia, daí que eu já tenho uma relação de afeto com essa árvore.É sério. Ela só me chamou a atenção esse ano, assim que começou a época da seca, lá pelo final do mês de maio. Ela fica debruçada numa curva, reinando sozinha e ocupando toda visão do canteiro. Como toda árvore do Cerrado, ela não é muito alta e seu tronco parece se contorcer num exercício de balé, como se girasse em torno de si mesmo, que é exatamente como ela se move em busca da água, me disseram. 

Curiosamente, ela passou boa parte desses últimos meses praticamente sem uma folha sequer. Só nos galhos das pontas do lado direito de quem a vê quando entra na curva é que tinha folhas, que mais pareciam formar uma franja, ornando a silhueta da árvore nua ali naquela curva a chamar minha atenção. Essa semana, após caírem as primeiras chuvas anunciando que a seca está indo embora, a árvore se vestiu de verde e a franja ficou ainda mais robusta, balançando ao ritmo do vento que faz naquela curva. Eu, que passo ali em frente com meu carro todos os dias e cumprimento silenciosamente aquela árvore, hoje sorri para ela como se eu dissesse que ela estava ainda mais bonita. 

Ela percebeu, eu sei. Vaidosa que só. 






quarta-feira, 25 de setembro de 2019

Delírios (ou um breve texto sobre mim)

Leio poesias delirantes em cartas postas sobre a mesa. Minha vida, feito rima, metricamente em versos exposta, me deixando nu entre tantos eus, num constante desalinho. Hoje voltou a chover em boa parte de mim e toda aquela água caindo do céu da minha boca anunciava as boas novas que nunca me esqueci. Ainda sai de meus poros um cheiro bom de terra molhada. Sob meus pés, o barro vermelho, úmido, quente, útero, e daqui a pouco tudo verdinho outra vez. Esperança. Lembro dos tempos em que eu era só uma criança, os olhos de minha avó me servindo de guia, estradas abertas, tantos caminhos e um outro eu ali, sozinho. O menino que um dia fui, o homem que eu não sei se sou. Quantos de mim revelados nessas estrofes? Ninguém sabe e nem nunca vai saber.

O todo é um pronome indefinido.

terça-feira, 9 de julho de 2019

O mundo precisa de afeto, porra.

Sabe-se lá por quanto tempo nosso encontro havia sido adiado. Uma vida inteira, bem capaz. Ultimamente, em meio a tantas polêmicas, tantos desentendimentos, tantos homens sórdidos, talvez o melhor fosse mesmo o afastamento por completo de tudo e de todos, o silêncio absoluto, uma outra encarnação, se é que isso existe. Há meses já que não chovia e toda aquela secura entre as gentes, o sol castigando a pele, a terra vermelha tapando os poros, feridas expostas na palma da mão estendida bem ali sobre nossos corpos outrora nus, o meu e o seu, vulneráveis, indefesos, jogados no chão. Ao redor tudo era um deserto, papel em branco, um vazio assustador. A lucidez, que nunca foi muito firme, deu lugar a devaneios, fantasias, ilusões e outras tempestades provisórias dentro de mim. De nós. Loucura. 

Não me lembro quando nem onde, mas você chegou a me confessar que sonhava sonhos coloridos e que nesses sonhos você nadava em rios de águas cristalinas, subia correndo de um fôlego só as montanhas mais verdes e mais íngremes e lá de cima soprava meu nome entre nuvens branquinhas de algodão. Você chegou a dizer que me amava. Mais de uma vez. Eu nunca acreditei. Nunca quis acreditar. Não me interessava. Na verdade, eu achava aquilo tudo muito piegas, me incomodava. Esse papo de sentimento logo pra cima de mim, que desde cedo fui obrigado a aprender a me virar pra sobreviver, pra ser quem eu sou, pra sair daquele lodo de onde eu vim, não colava. Eu nunca soube o que é carinho de verdade e nem nunca quis saber. Você insistia. Eu desisti. Tudo se acabou.

Algum tempo depois eu li uma frase rabiscada num muro que dizia que o mundo precisa de afeto, porra. Assim mesmo, com todas as letras e vírgulas. Eu estava sozinho zanzando pelo centro abandonado e sujo da cidade, era noite, fazia frio, eu não queria voltar para casa, não tinha nada para fazer, pouca coisa, quase nada, me interessava e aquela frase de repente me fez lembrar você. Não sei precisar por quanto tempo fiquei parado, hipnotizado em frente ao tal muro onde aquela frase estava escrita. Só sei que por alguns instantes tudo parou e era como se eu ouvisse a sua voz sussurrando no meu ouvido que o mundo precisa de afeto, porra, uma, duas, mil vezes aquela frase ecoando na minha cabeça. Uma ambulância com uma sirene estridente passou apressada e me despertou daquele transe. Mais uma vez era só eu e eu ali. Um espécie de náusea e, do nada, um vento estranho varreu tudo pra longe de mim. Eu gelei de saudades por te saber nunca mais. 

 Vida é encontro, hoje eu sei. 

terça-feira, 21 de maio de 2019

Ecos

Há muitos versos guardados em mim, escondidos nesse emaranhado eu que eu mesmo desconheço, disfarçados entre tantos gritos presos em nós nessa minha garganta que se afoga em rimas complexas. Amplificadores de amores desfeitos, espelhos meus, meus reflexos. 

Já não consigo mais me ver por inteiro, não lembro mais como eu era antes, fragmentos. 

Deixo para depois os conselhos que meus eus cismam em me dar e paro para ver de perto toda essa minha loucura. Olhos bem abertos e ao redor tudo é barbárie. Pesadelo coletivo. É nele que estou preso agora. 

É só meu corpo, eu penso. 

É só mais um contorno mal rabiscado, pele, poros, órgãos, fronteiras entre mim e aqueles que me habitam. Sou um, eu sei. Mas junto a mim, outros tantos diante dos abismos. 

Ouço vozes. As de sempre, muito embora eu nunca saiba de onde elas vêm. Elas falam comigo incessantemente. Sussurram meu nome. Ecos. Eu sigo em frente. 

Tenho andado mesmo muito calado ultimamente.  

domingo, 27 de janeiro de 2019

Cena linda de se ver

Dia desses me dei ouvidos e te convidei para crescer comigo. Um outro eu entre tantos outros que me habitam, um laço eterno, visitas inesperadas dentro de mim, que sou feito de gestos simples, olhares úmidos, mãos dadas de repente, amigos e amores lado a lado na estrada. Era tarde quando você apareceu. Me pegou de surpresa, revelou meu lado oculto, luz na minha sombra, teu corpo que é meu corpo sobre meu corpo que é teu corpo. Nu. Fazia tempo que não nos víamos. Desde o dia em que você me disse para eu seguir meu caminho, firmar meus passos em frente, não olhar para trás e aprender com as cicatrizes, já que algumas descobertas causam mesmo muita dor. Eu já sofria terrivelmente sem falar nada para ninguém. Desde sempre tive essa mania. Só eu sabia da impossibilidade da natureza de determinadas coisas, mas mesmo assim eu continuava. Alguma coisa mandava eu não desistir. 

Teimosia. 

Dia desses me tirei para dançar. Fez-se um baile em minha vida. Meus pés rodopiavam incessantemente no salão ao som de músicas que aquele que era eu costumava cantar, lembra? Era doce a melodia cuja letra era de fato um poema deslizando nas estrofes entre as rimas que ele, que ao mesmo tempo era você e eu, escrevia enquanto animava a festa ao meu redor. Havia tantos em volta, e eles pulavam, gritavam, pareciam não querer sair de perto, não me deixavam mais sozinho, e eu ali no centro de tudo, cada vez mais calado, quieto, assustado, quase sem ar. Claustrofóbico de mim. 

Era como se eu construísse barreiras para que você e todos esses que são eu não se aproximassem. Poucas vezes me deixei chegar tão perto assim de mim. Isso é ruim, eu sei. Sempre me senti meio sozinho, fui pedra bruta abandonada na beira do rio, arco-íris decomposto em prisma, geometria das cores, aquarela, luz e sol. Eu sequer percebia quantos eus havia. Não imaginava. Não queria saber. Fiz pouco caso. Fui egoísta. Era eu e eu e eu somente o que me importava. Mas dia desses encontrei de novo com eu você. Tudo já meio diferente em mim. Em nós. Era como olhar num espelho, era como entrar naquele outro eu você ali na frente, era como dar um abraço forte, peito encostando no peito, a pele quente, coração fervendo, cena linda de se ver.  

Dia desses. 

quarta-feira, 23 de janeiro de 2019

Vida é sopro

Há quem goste mais das estrelas que da lua.
Há os que nem olham para o céu.
Momentos raros e a vida continua
Feito um beijo roubado.
Suas mãos sobre minha carne nua. 

Há os que gritam para todo mundo ouvir.
Há os que ferem mesmo sem sentir
Todo coração um dia foi pisado,
usado, humilhado, fica a cicatriz.
Manchas de sangue sobre meu colchão.

Há os loucos e os poetas que acreditam no amor.
Há os que nunca se permitiram amar de verdade.
Amar nada mais é que conjugar um verbo simples,
é se despir de toda e qualquer vaidade.
Vida é sopro. Amor é sorte.


terça-feira, 15 de janeiro de 2019

Insanidade

Saudade enlouquece a gente.

Machuca, fere, dói, mata.

Dia desses quase morri. Loucura.


sexta-feira, 30 de novembro de 2018

Lume

Há que se encantar pela vida.
Ficar de pé, seguir em frente,
ser mais um elo nessa corrente,
firmar na luz que vem do candeeiro. 
O resto é o tempo, é movimento,
lento, brisa, vendaval.

Faz tua espiral girar bem alto
e transforma tudo ao teu redor.
Seja a voz suave que sopra em boa hora,
a mudança que vem de dentro pra fora,
a alegria simples que inspira um verso, 
um gesto, um grito de despertar.

É aqui neste momento entre a queda e o salto, 
no limiar infinito do espaço,
num breve ocaso do céu.
Aqui, onde não é o começo
e onde ainda não teve fim,
onde deves acreditar, dizer que sim. 

Pois não duvides, tu és o lume,
és o guia na estrada rumo ao Norte,
lá tem gente que, por sorte, ainda está a te esperar.
És o sol que brilha, és toda essa maravilha,
és teu próprio milagre, a testemunha viva. 
Há que se encantar pela vida.


quinta-feira, 1 de novembro de 2018

Fica

Ainda há pouco eu te disse: fica.
Deita do meu lado e acredita.
Ouve as batidas. É meu coração.

Barulho de chuva no Cerrado
e a água que cai, arrastando semente,
no barro vermelho onde brota a vida.

Sou sujeito fértil nessa cidade sem esquinas,
escrevo frases sem sentido na minha pele,
penso em versos com minha língua na tua boca,
meu gozo é manso, a voz é rouca,
me dá tua mão que eu sou poesia.

Lá fora, céu nublado.
Aqui, verbo intransitivo.

domingo, 21 de outubro de 2018

Agora é outra vida

É preciso começar um novo capítulo,
se dedicar a outras lições.
Há tanta coisa guardada dentro do peito:
um nó, um peso, um amor rarefeito
e muitos versos perdidos que eu nem sei se existem mais.

Se eu te encontrasse nas palavras certas
do passado, presente ou futuro, te juro,
você seria a mais nova poesia
tatuada para sempre em minha pele-página.

Eu teria como ler para você todas as frases soltas,
rasuradas nas linhas tênues do meu corpo.
Seria o seu romance, seu homem-livro imaginário,
seu melhor enredo, sua história mais bonita.
Só você não acredita.

Mas agora é outra vida.
Acredite.



sexta-feira, 14 de setembro de 2018

Paris foi uma festa

Dia desses pedi licença ao Hemingway e também fiz de Paris uma festa. Nunca tinha ido à França, nunca tinha ido à Europa, nunca tinha cruzado o Atlântico. Eu tinha apenas quinze dias de férias, tinha uma grana guardada, tinha muita vontade de viajar e tenho também uma amiga, a Regina, que me deu o toque de que estava rolando promoção de passagem pra Cidade Luz e que era para eu entrar no site da companhia aérea naquele minuto, não pensar duas vezes e garantir logo meu lugar no voo. Adoro gente decidida, que manda as coordenadas, que resolve tudo. Obedeci.

Aí foi que veio o frio na barriga. Fui ver meu passaporte: vencido. Euro? Só tinha ouvido falar. Inglês? Em construção. Francês? Jamé parlei. Mas a ideia de viajar sozinho para o exterior pela primeira vez na vida já me acompanhava desde algum tempo, mais ou menos o mesmo tempo em que vivo eu e eu em Brasília, o silêncio, esse céu, o barro que pinta de vermelho meus pés. Prato cheio para o meu analista. Ele adora. Ainda não o encontrei desde que cheguei de viagem. Não sabe de nada.

Não sabe da felicidade com a qual cheguei e que me acompanhou por todos os dias naquela cidade. Não sabe do meu primeiro piquenique na grama rala em frente à Torre Eiffell tão logo pisei por lá, sob um céu azul pintado especialmente para mim, presente do Grande Produtor, com quem tenho uma boa relação, graças a Deus e a Adriane, que nos apresentou. Não sabe da minha amiga Ana Paula, que numa única frase num bate-papo online, eu ainda no Brasil, ela na França, me arrumou um lugarzinho bacana pra caramba pra eu ficar, bem pertinho do metrô, ao lado do Champ de Mars, o Rio Sena logo ali, vizinho de uma lojinha de queijos pela qual eu me apaixonei à primeira vista e dos quais comi alguns fartamente acompanhado de muito vinho de todas as cores desde a hora em que eu acordava até a hora em que eu ia dormir.

Meu analista sabe que eu costumo acordar bem humorado todos os dias. O que ele não sabe até agora é que eu acordava ainda mais bem humorado em Paris. Devia ser por causa das baguetes que eu comprava numa boulangerie - frescura e biquinho à parte, não dá para traduzir boulangerie como uma simples padaria porque, na boa, não pode e pronto - perto de casa para comer com aquela manteiga que só tem por lá, com homus de todos os tipos, com um suco de pêra que eu sabia que ia sentir saudades desde o primeiro gole, com aqueles telhados todos à minha frente. Era mais ou menos desse jeito que eu forrava meu estômago todas as manhãs antes de ir para a rua, abrir a primeira garrafa de rosé, refresco num verão inesquecível, e sair flanando, verbo intransitivo e ocioso, sem rumo e destino certo naquela cidade linda de viver.

Ainda não decidi se conto para o meu analista que os franceses foram simpáticos comigo quase que o tempo todo. Só resmungavam quando eu esquecia de iniciar qualquer frase naquela língua pra lá de romântica sem um bonjour antes. Foi assim no metrô, quando cheguei meio tímido meio decidido e mandei ân tíquete sivuplé, assim mesmo, com sotaque carioca, pro bilheteiro. Foi o bastante para ele franzir o cenho olhando no meu olho, rosnar alguma coisa que eu não entendi _ e que me gelou a espinha na hora de tamanho nervoso, confesso _, apontar o dedo estressado para uma maquininha onde estava escrito BONJOUR, assim mesmo, em letras garrafais, e me dizer com todas as sílabas "tu es à Paris". Tradução: você está em Paris. Ali eu entendi que minha mãe tinha razão e que eu precisava ser mais bem educado, dizer bonjour sempre que fosse pedir qualquer informação, que não bastava aquela troca de olhares, um cumprimento sutil de sobrancelhas, um sorrisinho de canto de boca como muitas vezes estamos acostumados por aqui. Óbvio que eu esqueci desse detalhe mais umas duas vezes até o final da viagem, mas em se tratando de mim, desligado e desmemoriado, já era de se esperar. Era pardón pra cá, pardón pra lá e au revoir

Uma coisa é certa: vou contar para o meu analista que o Louvre fecha toda terça-feira e que eu, desavisado e desinformado, dei com a cara na porta minutos depois de ter dado com a cara na porta do Museu L'Orangerie, ali perto, onde estão as Ninfeias de Monet e que também não abre às terças. Ainda bem que entre um museu e outro fica aquela lindeza que é o Jardim de Touleires e que eu vim a saber, via Google, é o primeiro jardim público de Paris. Aliás, vou confessar para vocês em primeira mão que nem me importei muito em não ter conseguido entrar no Louvre. Na noite anterior eu fiz um passeio de barco pelo Rio Sena e uma das curiosidades que o guia falou e que mais me chamou a atenção foi que se ficássemos apenas três segundos em frente a cada obra do museu, levaríamos três meses para ver todo seu acervo. Me deu preguiça e resolvi deixar o Louvre para uma próxima vez, no inverno, talvez. Preferi aproveitar Paris à céu aberto, sentir na pele toda aquela luz que mais me soava como poesia.

Quando eu disser para o meu analista que eu troquei o Louvre por uma caminhada até o Arco do Triunfo e que de lá fui comer um tal de beef bourguignon e dar uma calibrada no nível alcoólico pelas ladeiras de Montmartre depois de ter me emocionado na Sacré Couer, ele vai entender. Vai entender também o porquê de eu ter me apaixonado pelo alaranjado do pôr do sol na beira do Sena e ter perdido a conta de quantas garrafas de vinho compradas por quatro, cinco euros num supermercado Carrefour eu bebi naquelas margens em meio a tantas risadas cúmplices, Marília, Letícia, novas amizades, e os beijos na boca que eu provoquei. Paris te seduz assim, de cara. Irresistível.

Meu analista vai gostar de saber que eu andava uma média de 16 quilômetros por dia, de acordo com um aplicativo que eu nem sabia que eu já tinha e descobri quando cheguei lá. Ele vai gostar de saber que eu não perdi a mania de estar sempre atrasado e que de tão atrasado só fiquei meia hora no Jardim de Luxemburgo, outra lindeza daquela cidade, e que fecha às oito da noite. Tudo bem que nem era noite, era verão em Paris e ainda era dia, mas fechava mesmo assim. Eu lá, sentado depois de andar por horas, com os pés cansados, crente que ia relaxar um pouco e o guardinha começa a apitar, avisando que os portões iam fechar e que era para todo mundo sair. Eu saí, claro.

 Não vou conseguir lembrar se foi naquela noite que resolvi ir até o Marrais, o tal bairro moderninho de Paris, e acabei numa espécie de inferninho de duas alemãs ali pelas bandas da République, uma versão mais cosmopolita da Rua Augusta. Foi lá que encontrei uma brasileira, baiana, Maria, bêbada, acompanhada por dois alemães enormes, também bêbados, e que se fizeram de mal encarados quando me apresentei, talvez pelo fato de eu também ser brasileiro e Maria ter puxado assunto comigo, samba, capoeira, essas coisas que eu nem entendo muito bem, na verdade. Não demorei, paguei minha birita, voltei andando pro Marrais e cheguei numa praça linda, isso é redundância, eu sei, cheia de galerias de arte e bares ao redor, a Place des Vosges, onde morou Victor Hugo, o escritor. Foi naquela noite que eu, alcoolizado e sem internet para chamar um Uber ou sequer consultar um aplicativo que me indicasse como fazer para voltar para casa, quase surtei. Imagina eu ali, sozinho, tarde da noite, com vinhos de um dia inteiro nas ideias, longe pra caramba de onde eu estava hospedado, com meu francês inexistente e meu inglês cansado. A sorte foi que uma alma bondosa percebeu meu desespero e me disse que o último trem do metrô para a estação de Bir-Hakeim ia passar dali a quinze minutos na estação Saint Paul e que era para eu correr. Voei.

Preciso contar pra ele como foi bonito esbarrar com uma estátua gigante do Arcanjo São Miguel em plena Praça Saint Michel, claro, e silenciosamente agradecer pela proteção e por todos aqueles dias bacanas daquela viagem que eu nunca mais vou esquecer. Agradeci por tudo, também, assim que pisei na Catedral de Notre-Dame, ali pertinho, depois de me engordurar com um croissant de chocolate, de pé, sob o sol, ao lado de noivas japonesas e suas fotos de casamento. Agradeci até mesmo quando estava no bar que fica no terraço do Centro George Pompidou, que maravilha, boa conversa, novas amizades, encontros que a vida te proporciona, admirando, hipnotizado, lá do alto, a cidade. Coisa mais linda.

E foi para fechar com chave de ouro que, na última noite, uma amiga francesa, Heloise, que morou anos no Rio de Janeiro, mas que eu só conhecia via Facebook, me chamou para um jantar de despedida na casa dela. Pode trazer quem você quiser, ela disse. Levo uns vinhos também, respondi, comendo uma galette e aproveitando o wi-fi de graça em frente ao Museu d'Orsay, depois de passar a manhã e a tarde andando pra lá e pra cá me despedindo de Paris. Voltei pra casa, tomei um banho, deixei a mala praticamente pronta, vesti uma calça jeans, escolhi uma camisa invocada, peguei o metrô e fui encontrar Heloise com a estranha sensação de que eu estava indo conhecer uma amiga do peito, irmã, camarada e que é a boa energia e os afetos instantâneos que unem as pessoas. Naquela minha última noite em Paris, Heloise, que só me conhecia de Facebook, Letícia, que eu conheci dias antes e que era amiga de Marília, que mora em Paris, que já tinha virado minha amiga e que por coincidência conhece vários amigos meus, nos conhecemos ainda mais e brindamos à nossa capacidade de compartilhar afetos e transformar a vida, onde quer que a gente esteja, numa verdadeira festa.

Voltei para o Brasil horas depois, ainda bêbado, ainda mais feliz. Trouxe muito de Paris comigo. Deixei muito de mim por lá. Qualquer hora eu volto, eu sei.















domingo, 22 de julho de 2018

Aquela torre alta

Por tantas vezes eu te quis aqui no meu peito horizonte até me perder de vista. Sentado ao teu lado, muros vindo abaixo, tua pele na minha, suor, silêncio, rima e aquela torre alta na cidade sem montanhas a nos desorientar. Um norte eu pedia, o rumo eu perdia, e o coração jaz rascunho de um mapa amassado, jogado no chão. Dá aqui tua mão, segura na minha, ainda sinto muito tua falta nesse frio que volta e meia faz por aqui. Por que te esconder em teu deserto se eu sou rio em curso incerto? 

Vem molhar teu corpo em mim. 

quarta-feira, 30 de maio de 2018

Convicta

Dia desses lembrei, assim, do nada, dela me contando quando viu a lua cheia, enorme, surgir de repente nesse céu que é mar aqui na secura do Planalto Central. Era noite fria na capital e as luzes dos faróis dos carros que cruzavam apressados as superquadras pareciam não enxergá-la. Muitas vezes ela se escondia mesmo. Tinha o sonho de se tornar invisível quando bem entendesse que é para só observar, voyeur numa cidade sem esquinas, distâncias, monumental. Ela confessou mais tarde que estava ali, de pé, fazia um tempo já, procurando seu eixo entre as curvas traçadas pelo arquiteto, entre espaços vazios, entre tantos silêncios, novos amigos, outros amores.

Não importa onde, a vida é sempre um risco, ela dizia convicta.

Eu prestava muita atenção em tudo o que ela me falava, apesar de tê-la encontrado muito poucas vezes por aqui. Muito menos do que eu gostaria. Vivia cheia de histórias, personagens incríveis, planos sedutores, uma facilidade para entreter quem quer que fosse, dona de uma gargalhada sonora e aquele olhar verdadeiro que te desnudava, você querendo ou não. Sempre gostei de gente assim, muito embora por muitos anos eu jurasse de pé junto que não. Isso foi antes de eu entender que timidez e orgulho são farinha do mesmo saco e me colocar humilde diante das muitas verdades que um dia eu peguei como se fossem minhas, absolutamente minhas. Hoje em dia eu tenho muitas dúvidas sobre mim mesmo. Ainda bem.

Pouco importa o homem, mas sim, a mensagem, ela me diria.

Ela me diria também que eu não me preocupasse com nada, que no final dá tudo certo, que é possível sim escrever torto em linha reta, que a vida pode e deve ser uma festa, que o amor é de fato o que há de mais importante nesta existência, que é preciso olhar para o lado, estender a mão, que tudo é experiência, que é para se permitir, compartilhar, compreender. Só que ela não está mais aqui. Não me disse para onde foi. Celular sempre desligado. Nunca mais mandou nenhum recado, sequer me deu tempo para uma despedida, um bate papo na varanda, um trago, uma birita. Apenas se foi. E eu deixei que ela se fosse, luzes se apagando, desaparecendo dentro de mim. Melhor assim. Quase ninguém soube, quase ninguém viu. Saudades, lembranças, frases que não foram ditas e a falta do abraço que ficou para depois, quem sabe, um dia. A vida é uma sucessão de encontros, agora eu sei, coisa que antes eu não sabia.

Hoje eu vi a lua cheia.




segunda-feira, 14 de maio de 2018

Despedidas

Quando eu vim morar em Brasília, longe de todas as minhas referências afetivas mais viscerais, uma das coisas que mais me afligia era pensar que eu poderia estar vendo aquela pessoa querida pela última vez sem saber. E, pior, que eu não estaria por perto na hora da despedida. Essa sensação talvez fosse em parte porque volta e meia ainda me vem à lembrança tudo o que passei há pouco mais de dois anos com minha mãe e meu irmão internados em estado grave numa São Paulo deserta para mim. Minha mãe se foi. Meu irmão está aí firme e forte. E eu agradeço por ter tido o privilégio de estar presente do início ao fim daquele ciclo que se encerrou e deixou um ensinamento único nas nossas vidas. Dona Lígia fechou com chave de ouro sua passagem por estas bandas. E eu estava ao lado dela. 

Na manhã desta segunda-feira, uma prima-irmã, dessas com as quais a gente já nasce com os laços estreitados, unidos, raros, cientes serem de uma mesma raiz, se foi. Estive com ela pela última vez em março, no hospital, no dia em que ela acabara de ter alta depois de ter ficado internada por algumas semanas em estado grave no CTI. Eu nunca lidei muito bem com doença, com médicos, hospitais, agulhas, exames, nada disso. Quando precisei cuidar do meu irmão e da minha mãe, foi como se eu tivesse respirado fundo e mergulhado naquele mar revolto num fôlego só, sem tempo de parar e pensar em nada. Portanto, ver minha prima ali naquele leito era ter noção de que o caminho era sem volta, de que mais um ciclo se encerrava, que nós, nessa aventura humana, independente de raça, cor e credo, somos finitos. 

Naquela tarde em que nos vimos pela última vez, ela ainda preservava o sorriso largo e o jeito doce e carinhoso de olhar pra gente e dizer que estava tudo bem. Eu havia chegado de Brasília e fui direto do aeroporto para o hospital de mala e cuia. Lá estavam ela e minha tia num exercício pleno de amor entre mãe e filha que sabiam que iam precisar se despedir muito em breve. Só eu sei o quanto me segurei para não desabar ali na frente daquelas duas mulheres que eu tanto admirava. Por dentro, eu era só o pó. Quando nos falamos de fato pela última vez, num bate-papo rápido via celular, há uns vinte dias, minha prima me confessou, com a voz bem fraca, que já estava cansada de tentar encontrar forças, que estava difícil, que tudo doía muito. Aquilo doeu profundamente em mim também. Ruim demais imaginar o sofrimento daqueles que você ama. Ainda mais estando longe, como eu. Dá um nó na garganta, sabe? 

A verdade é que as últimas duas semanas foram de muita apreensão. Minha prima havia piorado e voltado para o hospital. Minhas tias por parte de mãe sempre foram muito unidas, sempre estiveram muito presentes nas nossas vidas e, por conta disso, as relações que temos entre os primos é muito forte. Coisa de irmão, sangue, família. Amor mesmo. Vivíamos uns nas casas dos outros e a casa dessa minha prima era meio que o porto seguro de todo mundo. Era para lá que corríamos quando havia festa ou algum problema. Ou seja, estávamos todos muito fragilizados, preocupados, entristecidos com o que estava acontecendo. A gente sabia que estava chegando a hora de a Mônica ir embora, mas a gente não entendia por que tinha que ser ela, por que tinha que ser daquele jeito, por que tão cedo, por que tanta dor. A gente só sabia que estava chegando a hora e pronto. 

Aí, então, nessas horas a memória resolve brincar e chega trazendo as imagens de uma infância cheia de histórias, das brincadeiras na vila de um subúrbio ainda ingênuo e tranquilo, dos primeiros bailes da nossa adolescência no Clube dos Sargentos de Cascadura, da primeira vez que fomos à praia de Ipanema sozinhos de ônibus, do primeiro porre, da vigilância cerrada do meu tio, das tardes na piscina, das sacanagens que eu falava, das merdas que eu aprontava, do comportamento exemplar da minha prima que não falava nome feio e não se revoltava com nada. Eu, o doido. Ela, a boazinha. A gente se completava assim desde que nos entendemos por gente. Casei, ela foi minha madrinha. Ela casou, eu fui seu padrinho. Mal ou bem, a gente estava sempre perto um do outro. Mas na manhã desta segunda-feira ela se foi e eu estava aqui, longe dela. 

Agora ela é mais uma que vive dentro de mim. 

domingo, 29 de abril de 2018

Amais-vos, porra!

O mundo acabou, a humanidade é que ainda não se deu conta disso. Afirmo isso talvez porque volta e meia penso que sejamos uma raça alienada, atrasada e destinada a exterminar nossa própria espécie. Somos cegos, alguns se fazem de surdos e outros tantos de mudos. Assim somos nós, os humanos, voltados para os nossos próprios umbigos. Não faz muito tempo e eu ouvi de uma pessoa próxima que pouco importava o que se passava com o outro. Importante, para ele, era o seu bem-estar e o bem-estar da sua família. O resto era o resto, não lhe interessava. 

Eu, que sou por muitos considerado esquerdopata, comunista, pró-direitos humanos, louco, entre tantos outros impropérios, só conseguia olhar para aquela pessoa e pensar em como o egoísmo e a falta de cuidado com o outro são atitudes nocivas ao ser humano e, consequentemente, ao nosso planeta. Todas essas guerras, todo esse discurso de nós contra eles, toda essa divisão imposta pelo sistema gera desigualdade, que gera ódio, tristeza, pobreza, atraso, miséria, caos e fim. E é isso tudo o que estamos vendo com os nossos próprios olhos por aí, não é mesmo?  

Perceba que isso não é privilégio nosso, do povo brasileiro. A situação é grave em todo o planeta, cada povo com as suas mazelas. Sejam elas de cunho material ou moral. Ou ambos, o que acho ainda mais grave. Acontece lá, imediatamente a gente sabe aqui e muitas vezes vamos juntos inconscientemente num mesmo movimento (quem não lembra da Primavera Árabe que chegou aqui nas manifestações de 2013?). Tudo isso agora, num mundo cada vez mais globalizado, com todas essas facilidades tecnológicas da atualidade ao nosso alcance, nos aproximando mais uns dos outros e ao mesmo tempo nos afastando, nos deixando cada vez mais sozinhos, ilhados nas nossas bolhas. 

Preocupante, eu acho.

Hoje tudo é para ontem. Se não for para ser agora, já não presta mais. Imediatismo. Respostas rasas. Pouco tempo para um aprofundamento em seja lá qual assunto for. Ninguém mais lê nada que não tenha mais de dois parágrafos, não se concentra em nada por mais de dois minutos, as relações não fluem, pais não veem os filhos, os afetos se resumem a emoticons em mensagens via redes sociais. É tudo muito rarefeito, escapa pelas nossas mãos. E o cenário parece ainda mais assustador quando esfregam na nossa cara que a maior concentração de renda fica nas mãos de poucos, muito poucos, por pura ganância e egoísmo mesmo, e daí? Exploração total e absoluta. A consequência? Essa realidade atual e cada vez mais impactante para nós, brasileiros, e para nós, raça humana. 

Como eu disse lá em cima, o mundo acabou. Mas é verdade também que podemos tentar criar um mundo diferente e a hora para um levante é agora. Não dá mais para esperarmos. Não é preciso pegar em armas. Não vamos cair no discurso do lado negro da força e alimentar ainda mais o ódio e a violência. Nada disso! Precisamos deixar esses sentimentos ruins se diluírem por si só e pronto. Nossas armas são outras. Nossas armas são o conhecimento, o respeito, o empoderamento, o cuidado com o outro, a igualdade de direitos e o amor. A revolução que a humanidade precisa agora não é mais a revolução cognitiva, dessa já tomamos consciência. A hora é da Revolução do coração. 

Amais-vos, porra!